— Nunca vi você sair sem maquiagem ou com os cabelos desalinhados! — Surpreendeu-se Renée assim que viu a filha chegar ao sítio no dia seguinte.

Bella ergueu os braços e, com a ponta dos dedos, sacudiu os cabelos ainda úmidos por conta de mais um banho tomado quando Edward a deixou em casa.

Após um rápido telefonema para a mãe, avisando que já estaria chegando, saiu apressada sem importar-se em perder tempo em secar os cabelos ou fazer a maquiagem habitual.

— Estava muito cansada para me importar com isso. Devo estar horrível!

— Claro que não! E está com a aparência ótima para quem foi dormir tão tarde. Venha, vamos entrar. Quero saber de todos os detalhes.

Bella ergueu os olhos para o alto enquanto seguia a mãe. Não tinha a mínima intenção de contar para ela o que realmente tinha feito.

Não por medo de que ela ficasse escandalizada, mas sim pelas perguntas embaraçosas que lhe faria e para as quais Bella não teria resposta.

Bella nunca se sentira tão confusa e incerta quanto ao rumo que sua vida tomaria agora. Só o que sabia era que seu romance com Edward Cullen estava muito longe de terminar. Durante toda a noite, ela quase se transformara em uma ninfomaníaca. Só ela sabia o que realmente sentira naquele relacionamento tão inesperado e fantástico.

E tinha feito um enorme esforço para resistir à insistência de Edward para que ela retornasse ao apartamento dele no primeiro dia da semana depois que deixasse Seth na escola. Foi preciso convencê-lo de que a segunda-feira era um dos dias da semana mais atribulados na agência e, por isso, estaria muito ocupada. Até ficou de certa maneira orgulhosa por ter conseguido manter a impressão de que não estaria disponível na hora que ele desejasse. Mas quando o viu ir embora, sentiu um inexplicável vazio dentro do peito. Sabia que, se quisesse, poderia arranjar tempo para vê-lo na segunda-feira.

Sem querer, Bella deu um suspiro profundo, o que não escapou ao olhar atento da mãe.

— Acho que está precisando de um café bem forte.

— Adoraria.

No momento em que Bella afastou uma cadeira para sentar-se à mesa da cozinha, a recordação de ter lanchado nua à frente de Edward, subitamente a incomodou. Nunca fizera algo tão vergonhoso — ou tão excitante — em toda sua vida.

Renée apanhou o bule com o café ainda quente que estava em cima do fogão e o trouxe até a mesa. Depois se acomodou no lado contrário ao da filha.

— Antes que me pergunte, devo lhe dizer que Seth está na casa de um vizinho. Os netos dele vieram para o fim de semana. Um deles tem 12 anos e é muito responsável. Não há com que se preocupar.

Bella sentiu uma pontada de remorso quando se deu conta de que nem mesmo perguntara pelo filho logo ao chegar. E sequer se preocupara. Seth parecia ter sumido dos seus pensamentos de um momento para outro.

E o simples fato a alertou. O filho era a pessoa mais importante em sua vida e não iria permitir mais que Edward Cullen o suplantasse nos pensamentos dela ou no coração.

— Ele se comportou bem? — quis saber Bella, tentando reverter a situação e agir como a mãe protetora que sempre fora.

— É um garoto, Bells. E os meninos não são bem comportados o tempo todo. Mas quem é que gostaria disso? Não há nada mais horrível que meninos que se comportam tão bem que ficam até parecidos com delicadas meninas. Em minha opinião, o homem tem que ser arrojado desde criança — argumentou Renée, gesticulando com os braços. — E, a propósito, sabe o que foi que Seth me disse ontem à noite? Que deseja ser um soldado, quando crescer.

— Um soldado? Achava que ele queria ser médico!

— Isso era antes de ter assistido a um filme na tevê, na noite anterior, sobre uma missão do Exército.

— Quer dizer que deixou Seth assistir a um filme de violência?

A mãe deu de ombros.

— O que é que tem? Afinal, só os bandidos acabam mortos.

— Você sabe que não aprovo a violência em filmes!

— Bem, pelo menos não era sobre sexo — falou Renée em defesa própria. — Sei que não permite que ele assista a filmes em que haja cenas de sexo. E nem mesmo você gosta disso — acrescentou a mãe com o mesmo olhar que sempre lançava a Bella quando a palavra sexo era mencionada. Com toda a cautela, pois sabia que a filha era do tipo puritana.

Se ela pudesse imaginar tudo que tinha acontecido naquela noite, Bella pensou, ao mesmo tempo em que imagens eróticas do que tinha vivenciado lhe inundavam a mente.

— Não me importo com as cenas de sexo, desde que não sejam afrontosas — esclareceu Bella.

Quanta hipocrisia! a voz interior a castigava. Lembra-se do filme em que eles faziam sexo no balcão da cozinha? Vai negar que está curiosa para experimentar?

— E então? A que horas foi dormir? — perguntou a mãe enquanto servia um pouco do líquido fumegante na xícara de Bella.

— Não sei, mãe. Não olhei o relógio.

— Tentei falar com você hoje pela manhã. Deveria ser umas 11h. Queria saber se concordava que Seth ficasse na casa do vizinho. Mas o telefone cansou de tocar e você não o atendeu.

— Não ouvi. Acho que estava em sono profundo.

— Mas o telefone fica junto à cabeceira de sua cama!

— Eu dormi no sofá da sala.

— Bebeu tanto assim?

— O champanhe estava uma delícia e era servido à vontade, por isso...

— E o seu namorado? Estava lá? — interrompeu a mãe, sem conseguir conter a curiosidade.

— Quem? Ah, está se referindo a Anthony Masen?

— Isso mesmo! Ele ganhou o troféu?

— Sim. Foi considerado o melhor suspense do ano. E, você estava certa: o nome dele é fictício. O verdadeiro nome do autor dos livros é Edward Cullen.

— Edward Cullen? — repetiu Renée — É um belo nome para um autor de suspenses. E como é a aparência dele?

— Alto, meio ruivo e muito bonito. Talvez do tipo machista.

— E que idade deve ter?

— Próximo dos 40 anos.

— Será que tem namorada?

— Chegou acompanhado de uma mulher morena.

— Não é de estranhar. Hal adora mulheres morenas. Bella detestou se lembrar desse detalhe e também do quanto Edward se parecia com Hal.

Renée suspirou com o olhar direcionado para o alto, da mesma maneira como Bella vira as fãs fazerem na noite do festival. E depois falou:

— Qualquer dia vou ler outra vez a série completa dos livros dele. Não exatamente agora. Ainda estão bem gravadas em minha mente todas as aventuras de Hal Hunter. E quanto ao Scales of Justice que levou ontem, conseguiu ler algumas páginas?

— Não tive tempo. Mas pretendo ler novamente toda a série, também. E, já que estou aqui, poderia levar os outros volumes.

— Com certeza, querida. Vou buscá-los para você.

E no mesmo minuto em que a avó saiu, Seth entrou pela porta.

— Vai levar todos aqueles livros de novo, mamãe?

— Sim, meu bem.

— Quando é que vai ler tudo isso? Você diz que nunca tem tempo. E, por isso, não faz muitas coisas que eu gosto!

Bella girou os olhos nas órbitas e suspirou. Crianças!

Por que será que por mais que se faça nunca estão satisfeitos?

— Sempre leio livros somente depois que você adormece.

— Eu odeio ter que dormir! E você sempre me força ir cedo para a cama! Com a vovó não é assim. Ela me deixou assistir...

— Já sei, Seth. Sua avó me contou.

O pequeno arregalou os olhos negros, repletos de surpresa.

— Ela contou? Mas vovó disse que estaria perdida se você descobrisse! Ficou muito brava com ela?

—Não muito, Seth. Mas você sabe que não gosto que assista a filmes violentos.

— Não tinha muita violência, mãe. O herói foi superlegal! Quando eu crescer, quero ser como ele. Jason e eu brincamos de soldado o dia inteiro. Vai me deixar na casa da vovó outra vez? Jason vai voltar na próxima semana e quer brincar comigo de novo.

— Será que essa é uma brincadeira saudável?

— Ah, mãe... por favor! — implorou o garoto.

— Bem, se for um bom menino e dormir cedo todas as noites...

— Prometo. E também vou escovar os dentes na hora em que mandar!

— Se fizer isso de verdade, então poderá ficar com sua avó no próximo fim de semana.

— Legal! Vou contar para a vovó!

Pela primeira vez, Bella não ficou com ciúmes de o filho preferir ficar com a avó. Na verdade até ficou feliz em saber que poderia estar livre para passar a noite com Edward sem precisar se preocupar com o garoto. Poderia deixar Seth com a mãe e...

E o quê?, perguntou a voz interior. Transformar-se numa ninfomaníaca ou apenas na mulher que só agora descobriu sua sexualidade e quer desfrutá-la de todas as maneiras possíveis?

Porém, uma terceira hipótese surgiu em sua mente e que talvez não tivesse nada a ver com luxúria e sim amor. Sentiu um frio na barriga. Será que estaria se apaixonando por aquele homem? Embora soubesse que seria uma perda de tempo, ainda assim seria mais condizente com a total mudança de comportamento que lhe acontecera.

— Mamãe — Seth gritou. — Passou da nossa rua, outra vez!

Bella gemeu em alta voz:

— Oh! Não é possível!

No momento em que aguardava o trânsito se acalmar para fazer o retorno, Seth sorriu e exclamou:

— Está mais bonita hoje, mamãe!

— Obrigada, amor — respondeu, com a face corada. Por que será que todos estavam dizendo isso?

— Quando eu crescer, vou querer me casar com uma mulher igual a você.

O comentário gentil do filho fez com que os olhos de Bella se inundassem de água.

— Está chorando, mamãe?

— Claro que não! — Ela negou, afastando as lágrimas com o mão. — É só um cisco que entrou no meu olho.

Seth não acreditou, mas preferiu ficar calado. Quando Bella estacionou na garagem, o filho como sempre, saltou na frente.

— Quero entrar logo para tomar banho. — Declarou com um sorriso insinuante de quem pretendia cumprir o que havia prometido.

Bella esboçou um sorriso feliz.

— Grande idéia! — brincou.

Assim que Seth desapareceu de vista, Bella percebeu que realmente estava se sentindo muito cansada. Cansada e insegura, pensou. Ainda bem que teria pela frente uma boa noite de sono. Quem sabe pela manhã estivesse mais disposta e pudesse pensar em tudo que acontecera na noite anterior, com mais calma e ponderação?