ufa! Terceiro capítulo gente... 3 já foram, faltam 23.

Quase me sinto ansiosa por vocês. Ainda vai rolar tanta coisa nessa história que vocês nem imaginam.

Aguardem e verão.

bjs!

dai86


"Quando o amor manda, não há vontade de poder; e onde o poder predomina, lá o amor é escasso. Um é a sombra do outro."

- Carl Jung


Capítulo 3

Suspeitas

.

"Achei que à essa altura você já houvesse aprendido a andar na direção contrária quando encontrasse com ele," Sasuke disse do quarto.

"Eu fui na direhão opossa," Sakura retrucou do banheiro, sua voz soando nasalada enquanto ela tentava estancar o sangramento do nariz.

Desde que se tornara escrava em Oto, ele tentou escapar um total de três vezes. Na segunda vez, ela ouviu alguém se aproximar e (tendo aprendido a lição pela última tentativa), simplesmente voltou pro quarto de Sasuke o mais rápido possível, entrando alguns segundos antes de ser flagrada por uma patrulha.

Como da última vez, Sasuke não disse nada, e Sakura ainda não sabia o por quê.

A terceira vez, ela estava quase fora da base. De fato, ela estava abrindo a porta secreta por onde havia entrado, pronta pra correr em direção à Konoha... quando Arashi e outro guarda surgiram pela porta de um depósito adjacente. Sakura desconfiou que eles estavam bebendo sakê ou roubando chocolates (tinha certeza que estavam fazendo algo que não deviam) quando a flagraram.

Ela ficou com medo de que eles a denunciassem a Orochimaru, apenas pra ver que seu temor era infundado... pelo menos quanto a questão da denúncia. Escravos tentavam fugir com tamanha freqüência que ficava a cargo dos guardas impor as punições.

Assim, Arashi e o outro homem proporcionaram à Sakura o que ela acreditava ter sido a pior surra da sua vida.

Foi difícil agüentar, não apenas porque ela se esforçou pra não gritar e dar aos sádicos a satisfação, mas também porque ela teve de se conter pra não revidar. Com a coleira, era incerto se ela poderia vencer a luta... mas se ele visse algum indício de treinamento ninja, as suspeitas de Arashi só aumentariam.

Assim, apesar de exigir uma força de vontade maior do que ela acreditava possuir, Sakura permaneceu prostrada no chão enquanto era chutada como uma bola de futebol. Ela se lembrava vagamente de sua cabeça sendo chutada contra a parede antes de apagar.

Ela acordou sozinha no corredor, com a cabeça numa poça de seu próprio sangue. Cuidadosamente ela fez uma auto avaliação de seus ferimentos, notando que sangue escorria por sua têmpora, o osso esquerdo do seu rosto provavelmente estava quebrado, seu nariz sangrava e, usando a língua, detectou o corte no lábio e dois dentes soltos.

Ela havia tentado proteger a cabeça com o braço direito em algum momento, tendo ele quebrado por um chute. A cada respiração, suas costelas doíam como facadas na sua lateral, assim, ela teve certeza que alguma delas estavam quebradas também.

Seu corpo estava estranhamente dormente, como se estivesse com tanta dor que sua mente não pudesse lidar com isso. Sua mente estava nublada e fora do ar, e ela vagamente se viu surpresa por sua transformação não ter se dispersado.

De alguma maneira – Sakura não conseguia lembrar como – ela juntou energia o suficiente para forçar seus dedos através dos sinais necessários pra consertar o estrago infligido à sua cabeça, e parar o sangramento interno. E então ela desmaiou de novo.

Sakura recobrou a consciência novamente se sentindo um pouco melhor, mas ainda com dores e estranhamente anestesiada. Ignorando a tontura provocada pela coleira, ela executou o jutsu de cura novamente, dessa vez, consertando seu braço quebrado e as costelas, e firmando seus dentes soltos. Ela foi capaz de consertar os ossos quebrados completamente, mas não pôde fazer nada quanto aos músculos e tecidos lesionados ao redor deles. Por um segundo ela achou que iria desmaiar de novo, mas após alguns momentos em que sua visão ficou turva, ela encontrou forças pra se levantar, e então, dolorosamente e de forma lenta, mancou de volta para o quarto de Sasuke.

Ela estava considerando seriamente se enrolar numa bola de miséria sob os cobertores e tentar apagar, mas Sasuke já estava acordado quando ela voltou. Aparentemente, no tempo que ela levou pra recobrar a consciência (tanto da primeira como da segunda vez), a maior parte da noite havia passado.

"Você acha que precisa de atenção médica?" a voz de Sasuke ecoou do quarto, interrompendo seus pensamentos.

"Se você tá faando dahela aberraçãã de óculos... nã, eu nã prehiso de atençã médica."

Sakura quase teve vontade de rir diante do modo como falava. A combinação de um nariz bloqueado por sangue e um lábio inchado resultava num interessante dialeto.

Mas ela estava sendo perfeitamente honesta; não havia a menor possibilidade dela deixar Kabuto se aproximar dela.

Sasuke deu com os ombros conforme Haru saía do banheiro, com o que parecia ser papel higiênico enfiado em seu nariz.

Sasuke estava particularmente admirado que Haru tivesse sido capaz de andar de volta pro quarto. Ele parecia ter sido pisoteado por uma manada de touros – tamanha era a quantidade de hematomas pretos e roxos em seu braço esquerdo, era surpreendente ele não ter quebrado; e pela dificuldade com que o garoto mancava, Sasuke tinha certeza de que havia vários outros ferimentos sob a vestimenta marrom.

Haru disse o suficiente pra Sasuke saber que Arashi tinha sido quem o espancara, o que não era surpresa. Ele sabia que esse tipo de incidente era comum; escravos eram espancados todos os dias por tentar fugir, alguns de forma muito pior do que Haru; mas mesmo assim, não lhe parecia certo. O estado de Haru e as marcas em seu corpo eram perturbadoras em vários níveis – talvez porque ele finalmente tinha um rosto pra ligar à crueldade de Oto, talvez porque lhe parecesse tão mesquinho espancar alguém que claramente estava em uma posição de desvantagem... de qualquer forma, isso o deixava desconfortável, ansioso, como se ele devesse tomar uma atitude.

Mas o que? Haru havia tentado escapar, e foi disciplinado de acordo. Era o modo como as coisas funcionavam em Oto.

Sasuke repetiu aquilo pra si mesmo, ignorando os sussurros de sua consciência.

.

.

.

No dia seguinte estava pior. Todos os ferimentos e músculos agredidos de seu corpo estavam rígidos e inchados, e Sakura mal conseguia rolar pra fora de seu ninho de cobertores. Ela precisava se apoiar na parede pra se levantar.

Sasuke deu apenas uma olhada sobre Haru – sua figura resplandecente em machas roxas, azuis e pretas, lutando pra se levantar – e teve certeza que o garoto não teria condições de segui-lo pela base como de costume. Ele podia tentar, mas provavelmente estaria prostrado no chão antes do almoço.

"Fique aqui," a ordem deixou seus lábios sem ele pensar.

"Sério?" Haru parecia considerar seriamente reverenciá-lo.

"Não faça nada," Sasuke continuou. "Eu não quero você mexendo nas coisas e estragando algo."

Ele praticamente desabou sobre a pilha de cobertores. "Sem problemas – eu consigo não fazer nada. Soa como uma ótima coisa pra se fazer."

"Hn," Sasuke grunhiu, saindo do quarto.

Sakura esperou ouvir seus passos se afastarem, pensando sobre sua exibição de generosidade. Mas independente do quão gentil ele estava sendo com ela, Sakura precisava dele longe para o que planejava fazer.

Ela precisava consertar a maior parte do estrago se não quisesse ficar incapacitada por dias; ela não se sentia segura se não estivesse saudável o suficiente pra tentar outra fuga. Podia não fazer sentido, mas ela tinha a impressão que Oto não era um bom lugar pra se ficar doente ou incapacitada. Sakura sabia que Sasuke suspeitaria se ele retornasse e seus ferimentos tivessem magicamente desaparecido, então, ela precisava de algum modo curar os ferimentos sem perder o efeito visual. Em outras palavras, ela precisava reparar os músculos danificados e deixar os hematomas na pele.

Seria difícil, mas ela estava otimista. Assim, quando teve certeza que os passos de Sasuke desapareceram, ela se pôs a trabalhar; cuidadosamente canalizando o chakra para seu braço esquerdo, curando os tecidos inchados e os tendões que ela não fora capaz de curar na noite passada.

Demorou mais do que ela esperava, principalmente com a coleira limitando seu chakra, forçando ela a parar antes que desmaiasse. Assim, ao invés de se curar numa sessão contínua, ela foi obrigada a parar e recomeçar várias vezes por causa da coleira. De fato, quando Sakura achou que havia curado o máximo que podia sem levanta suspeitas, percebeu que havia passado horas absorta na tarefa (não havia um relógio, mas ela podia estimar pelo modo que a lamparina queimara).

Com uma rápida ida ao banheiro pra confirmar que ela ainda parecia espancada e machucada – e pra ter certeza de que ela não dispersara a transformação sem querer enquanto se tratava – Sakura rastejou de volta sob os cobertores, determinada a dormir pelo resto do dia. Seu estômago reclamava de forma persistente, mas ela já havia estado em missões onde teve que ficar sem se alimentar por dias, então isso não era nada pra ela.

.

.

.

"Levanta!"

Sakura acordou bruscamente, se virando pra ver Sasuke acima dela. "Eu amo o modo como você me acorda," ela disse sarcasticamente. "Sempre tão gentil e atencioso."

"Jantar," anunciou simplesmente, acenando pra bandeja ao lado da porta.

"Você está perdoado!" ela proclamou, se levantando com cuidado, certificando-se que seus movimentos parecessem lentos e vacilantes, como se seus músculos ainda estivessem tensos e sensíveis.

Café da manhã era uma atividade coletiva (ao menos pra ela – Sasuke sempre acordava antes, e ela nunca o viu tomando café da manhã) e Sasuke almoçava com Orochimaru, mas o jantar lhe era trazido no quarto – provavelmente por outro escravo. E desde que Sakura se tornara sua escrava particular, dois jantares eram entregues no quarto.

Sakura pegou seu prato e começou a devorar sua comida. Ela sempre sabia dizer qual era sua refeição; apesar de não poder ser chamada de escassa, nunca lhe era dada uma porção tão generosa quanto à de Sasuke, e sua refeição nunca vinha com acompanhamentos e temperos.

Sasuke ignorou o modo como ela devorava seu jantar e começou a comer sua refeição de forma limpa e civilizada, mas isso não era novidade. Sasuke sempre teve ótimos modos à mesa – provavelmente fruto da educação rígida de um clã.

"Você parece mais móvel," ele comentou suavemente.

"Você ficaria surpreso o que um dia de descanso pode fazer," Sakura deu um sorriso mordaz.

.

.

.

Sasuke descansou a cabeça contra o frio da pedra, tomando ar numa respiração laborada enquanto suor escorria por sua pele, com uma sensação de triunfo conforme sentia seus músculos queimarem. Ele havia se forçado ao limite hoje.

Haru lhe estendeu um copo de água gelada, o qual Sasuke pegou e bebeu de uma vez antes de devolvê-lo. Sob circunstâncias normais, o garoto faria algum comentário sarcástico, mas com Orochimaru e Kabuto ainda na sala, ele estava bancando o mudo de novo.

Sasuke não se lembrava de ver Haru sequer suspirar na presença de Orochimaru durante todo o tempo que esteve em Oto.

"Nós vamos nos mudar logo, Sasuke," o sannin o informou. "Arrume suas coisas; partimos amanhã."

Sasuke acenou com a cabeça, e Orochimaru e Kabuto deixaram a sala.

Para o alívio imediato de Sakura. Ela tinha pouco contato com eles, mas não gostava de tê-los por perto – eles eram sádicos psicopatas afinal de contas, quem gostaria?

"Isso me inclui ou eu ganho outro emprego agora?" ela perguntou enquanto manejava o copo vazio.

"Isso inclui você," Sasuke disse simplesmente.

"Sem querer ofender, mas acho que você tem problemas mentais pra estar treinando com aquele cara," ela resmungou enquanto eles deixavam a sala de treinamento em direção ao quarto de Sasuke.

Sasuke lançou um olhar para Haru, curioso sobre o que parecia ser um tom de amargor em sua voz. "Eu preciso me tornar poderoso; ele é simplesmente um meio pra esse poder."

"Se você diz..." Sakura resmungou.

'Honestamente, não vejo por que você não pôde ficar em Konoha, mas é só minha modesta opinião, ' ela pensou com sarcasmo.

Sasuke não pôde evitar estranhar o tom magoado que parecia tomar a voz de Haru quando ele falava de Orochimaru ou do envolvimento de Sasuke com Oto. Afinal de contas, por que um escravo se importaria com que ele faz?

Mais um mistério pra se somar aos outros ao redor desse garoto.

Pelo menos os ferimentos de Haru parecem ter sumido finalmente. Se bem que ele parece ter se curado do espancamento de Arashi surpreendentemente rápido.

"Lorde Sasuke!" um shinobi correu atrás deles. "Lorde Sasuke!"

Sasuke parou, se virando enquanto esperava o homem alcançá-los.

"Eu perguntei sobre a moça de cabelos rosa conforme o senhor me instruiu," o homem disse, e Sakura teve que se esforçar pra evitar que seu queixo batesse no chão. "E um dos grupos de coletores despachado recentemente mencionou que eles estavam apreendendo uma família de viajantes quando uma kunoichi de cabelos rosa com uma insígnia de Konoha interveio. Na luta que se seguiu ela caiu no rio e foi levada pela corrente. Eles a seguiram, mas ao invés dela, encontraram ele – " ele apontou Haru com a cabeça – "e o capturaram pra completar a cota."

"Hn." Sasuke se virou e começou a caminhar, dispensando o shinobi.

Então, Sakura realmente havia se deparado com um grupo de coletores... mas parece que ela escapou. Ainda assim, algo não parecia certo pra Sasuke.

.

.

.

Sakura avaliou o peso das sacolas de Sasuke, reclamando enquanto tentava segurá-las em seu ombro numa posição mais confortável. Sasuke podia não ter muitas posses materiais, mas com certeza tinha muitas armas.

Sakura queria poder usar um pouco de sua super-força. As sacolas não pesavam muito sobre seus ombros ainda... mas eles tinham várias horas de viagem pela frente.

"Você possuí outra coisa a não ser armas?" ela perguntou.

"Na verdade, não," Sasuke respondeu.

"Alguém já te disse que você precisa desesperadamente de uma vida?" Haru perguntou. "Porque você precisa."

Sasuke lançou um olhar penetrante, mas não pareceu intimidar o escravo.

"Você sofreu um acidente ou algo do tipo? Porque as únicas expressões que você parece conseguir fazer são olhar feio, sorrir com desdém e de desinteresse."

Era estranho como isso era reminiscente de seus dias como genin em Konoha e de suas discussões com Naruto. Exceto que, diante do fato de Haru ser um escravo e de que seu maior desejo era escapar, Sasuke não estava preocupado em se apegar demais ao garoto.

O olhar de Haru passou por cima de seu ombro, sua expressão se alterando, e tomando um aspecto austero. Sasuke se virou, espelhando a expressão de Haru ao observar os ninjas de elite empurrando seus escravos particulares, se preparando para a mudança. Com certeza era uma cena desagradável, mas era um aspecto de Oto que ele podia apenas tolerar.

Sakura não pôde evitar se sentir perturbada pela cena. Ela não se permitiu imaginar o quão ruim as coisas poderiam ter sido pra ela; apenas se concentrara em sobreviver. Mas agora ela se dava conta da sorte que tivera quando Sasuke a escolheu.

Ela se perguntou como Sasuke podia ser tão indiferente a tudo isso. O garoto que ela conhecia jamais ficaria parado diante de pessoas sofrendo abusos dessa forma... mas pensando bem, talvez ela nunca tivesse conhecido Sasuke de verdade.

Ela balançou a cabeça, limpando a mente desses pensamentos pra se concentrar em sua situação no momento. "Então... como vamos fazer isso?"

"Orochimaru, Kabuto e eu partimos primeiro," Sasuke explicou. "A elite segue em grupos espalhados ao longo do dia, cada um por rotas diferentes."

"Esperto," Haru balançou a cabeça afirmativamente, "se você for um psicopata desvairado evitando ser capturado."

Sasuke lançou um olhar grave, mas Haru apenas levantou uma sobrancelha num flagrante desafio de autoridade. "E eu estou enganado?"

Então Orochimaru pôs os pés na sala, e Haru colocou sua máscara de escravo obediente. Sasuke imaginou o quão bom ator esse garoto era, conseguindo transmitir de forma tão convincente uma imagem de subserviência quando na verdade era exatamente o extremo oposto.

"Pronto pra partir Sasuke?" Orochimaru perguntou, o chiado em sua voz fazendo os cabelos nos pescoço de Sakura se arrepiarem. Havia algo em Orochimaru que a fazia pensar numa cobra gigante; os olhos amarelos, a pele pálida, a língua bizarra e o leve silvo que parecia marcar cada palavra que dizia; tudo reforçava tal imagem.

Sasuke concordou com a cabeça, e então eles partiram, se locomovendo pela floresta num ritmo normal.

Não era o que Sakura esperava. Ela havia imaginado que Orochimaru teria preferido viajar numa padiola carregada por uma dúzia de escravos. Parecia tão... não do feitio dele, de alguma forma... viajar pela floresta a pé no que parecia ser um ritmo lento – para padrões ninja pelo menos.

Se bem que, uma padiola provavelmente devia atrair muita atenção; além disso, não passar pela floresta em alta-velocidade era outro modo de evitar detecção, ou talvez uma concessão a ela – como escrava particular de Sasuke -, e eles provavelmente imaginaram que ela não seria capaz de acompanhar a velocidade de um ninja.

E ela não faria nada pra esclarecê-los. Conforme as horas passavam, ela deliberadamente tornou sua respiração mais laborada, dando a impressão de que ela não era tão apta quanto realmente era. Sasuke sabia que Haru era ninja, é claro, mas ela queria se certificar de que ele – juntamente com Orochimaru ou Kabuto – tivesse a impressão de que ela era do tipo mais fraco de ninja. Quanto menos ameaçadora eles acreditassem que ela fosse, melhor pra ela.

Apesar de terem partido logo pela manhã naquele dia, o sol já sumia no horizonte no momento em que eles alcançaram uma muralha alta, como a que circundava Konoha, cuja superfície regular só era interrompida pelos grandes portões de metal diante deles.

Estes se abriram, e Sakura percebeu que esta deveria ser a vila oculta de Oto. Não apenas um esconderijo subterrâneo, mas uma vila real.

Era surreal. Sakura nunca pensou em Oto como se fosse como as outras vilas, pelo menos não com casas de verdade, e civis de verdade vivendo nelas. Mas pelo visto, havia casas e ruas e mercados e tudo o que você esperaria encontrar em uma vila.

Mas as semelhanças paravam por aí. As pessoas se ocupavam com suas tarefas como ratos em alerta pra um ataque de seu predador: nervosos e ansiosos, tentando terminar tudo o mais rápido possível. As crianças ficavam próximas dos pais, agarradas as suas mãos, e famílias se locomoviam em grupos receosos, sem que nenhum dos membros se afastasse mais do que alguns centímetros da proteção do grupo.

Esta vila era comandada através do medo.

Sakura olhou os rostos assustados ao seu redor, e se sentiu uma profunda compaixão. No momento em que ela conseguisse voltar pra Konoha, ela iria denunciar a localização desta vila pra Tsunade; com certeza ela faria algo pra ajudar estas pessoas.

Orochimaru e Kabuto se afastaram deles – Sakura não queria saber onde eles estavam indo – dizendo que Sasuke saberia aonde ir. Ela duvidava que fora um gesto pra assegurá-la; provavelmente era pra lembrar Sasuke de onde eles esperavam encontrá-lo.

"Então... aonde vamos?" ela perguntou quando estavam longe o suficiente pra não serem ouvidos.

Sasuke não respondeu.

"Tudo bem... faça como quiser!" ela irritou-se.

Eles andaram pelas ruas sinuosas de Oto até chegar ao que Sakura acreditava um dia ter sido a casa de um lorde.

Com certeza era a casa mais imponente da vila, e tinha um extenso jardim protegido por uma cerca alta.

"Nós vamos ficar aqui?"

Sakura assumiu que a resposta devia ser sim quando Sasuke sacou uma chave e destrancou o portão. Ela imaginou que fazia sentido Orochimaru ocupar o que era claramente a casa mais luxuosa da vila; se nada mais, demonstrava seu status sobre seus servos.

Sasuke a guiou casa adentro e sua impressão de luxo apenas se acentuou. "É bem pretensioso."

"A casa já pertenceu ao lorde dessas terras," Sasuke disse distraidamente.

Sakura piscou surpresa atrás dele. Agora ele decide falar com ela?

Ainda assim, ela decidiu aproveitar a oportunidade enquanto pôde. "Então... onde é o seu quarto?"

"Subindo essas escadas. Era o quarto do primogênito do lorde."

Sakura acenou seu entendimento com a cabeça – um gesto vão na verdade, já que ela estava atrás dele. "Onde eu vou dormir?"

"Você é um escravo."

"E você é um cretino... algo mais que você queira acrescentar já que estamos declarando o óbvio."

Sasuke revirou os olhos. "Você é um escravo – mais especificamente, você é meu escravo. Você dorme no meu quarto como você sempre fez."

"Acho que posso viver com isso."

Sasuke abriu uma porta e entrou, Sakura o seguiu. Após seu quarto espartano na base subterrânea, a quantidade de mobília neste quarto a deixou admirada. Havia uma cama de quatro postes com cortinas de um roxo intenso, um aparador, uma cômoda adornada com o que pareciam ser gravações feitas em marfim, uma estante de armas que ocupava metade de uma parede, um criado mudo feito de uma madeira que ela não pôde identificar, mas que parecia cara, e uma gigantesca janela com vista para os jardins, com um assento diante si, ladeada por almofadas macias em ambos seus lados.

Sakura assobiou impressionada. Ela deslizou as sacolas de seus ombros para o chão, tirando as armas e as colocando na estante automaticamente, seus olhos devorando cada centímetro do novo ambiente até olhar para fora da janela, calculando a rota mais rápida desta até a muralha.

Sasuke observou Haru arranjando suas armas, a mente do rapaz provavelmente ocupada com planos de fuga novamente. Ele estava olhando pela janela, seus olhos procurando o que Sasuke imaginou que fossem possíveis rotas para fora da vila.

Como se sentindo os olhos de Sasuke sobre ele, Haru se virou, encarando seus olhos obscuros em concentração, o cérebro por trás funcionando como engrenagens bem lubrificadas de um relógio...

E então, de repente, congelou, como se a peça final de um quebra-cabeça caísse em seu lugar.

Sasuke sabia onde havia visto esses olhos antes.

.

.

.

Aquela noite – enquanto Haru ajeitava seus cobertores no assento diante da janela, o que dava uma perfeita visão do seu rosto – Sasuke deu o bote com a precisão de uma serpente.

"Você tem parentesco com Haruno Sakura?"

Puro pânico tomou o rosto de Haru por um breve momento antes de ser suprimido. "Não... por quê?"

Sasuke tinha que admitir que o garoto era bom; se ele não estivesse observando seu rosto no exato instante em que fez a pergunta, ele nunca teria imaginado que Haru sequer conhecesse o nome.

Mas ele estava observando seu rosto, e viu o segundo de pânico antes do garoto suprimi-lo.

Então... parece que Haru era parente de Sakura. Ele tinha quase certeza que sim; afinal de contas, seus olhos verdes tinham exatamente o mesmo tom dos de Sakura, e tinham até o mesmo formato! Apesar de não haver outros indícios de semelhança em seus traços, aqueles olhos deixavam sua hereditariedade clara.

Se ele tinha relação com Sakura... qual era? Ele não parecia ser um irmão, talvez um primo? Mesmo assim, como ele nunca havia visto Haru antes? Se eles tinham a mesma idade, eles deveriam ter freqüentado a Academia na mesma época.

A não ser que ele estivesse usando um jutsu de transformação para parecer mais jovem ou mais velho.

O coração de Sakura batia tão forte que ela tinha certeza de que Sasuke podia ouvir. O que foi que ela fez? O que ela deixou escapar? O sorriso mordaz de Sasuke deixou claro que ele sabia que ela mentiu quando fingiu não reconhecer o nome... ele sabia?

Ela se forçou a ficar calma; até agora ele não parecia ter mais do que suspeitas. E entrar em pânico não faria nada a não ser confirmar tais suspeitas mais rápido do que qualquer outra coisa poderia. Então ela precisava apenas se acalmar, agir como se nada de mais houvesse acontecido e continuar a fazer sua cama.

É claro, era mais fácil falar do que fazer. Sakura notou o sutil temor em suas mãos e se virou pra ajeitar o travesseiro pra escondê-la de Sasuke.

Mas se ele de fato descobrisse quem ela era... o que aconteceria então?

'Não pense nisso!' ela disse pra si mesma com firmeza. 'Você tem que se acalmar, não se agitar ainda mais!'

Sasuke continuou a observá-la, um sorriso desconcertantemente presunçoso em seu rosto, até que pegou sua espada e saiu do quarto, sem dúvida, para treinar.

Deixando Sakura só pra respirar aliviada e se concentrar em acalmar suas mãos trêmulas.

.

.

.

Quando Sasuke retornou, o quarto era iluminado apenas pelo luar, e Haru estava num sono profundo no assento diante da janela.

Ele se aproximou do garoto, atento a qualquer desfoque ou alteração de tons... qualquer coisa que indicasse um jutsu de transformação. Mas não havia nada. Se uma transformação estava sendo usada, Haru devia ter um controle de chakra fenomenal pra mantê-lo enquanto dormia.

Presumindo que Haru fosse seu nome verdadeiro. Pensando sobre isso agora, se assemelhava muito como um diminutivo de Haruno, e ele não afastaria a possibilidade do garoto de olhos verdes ter inventado um nome falso.

Devagar, silenciosamente, Sasuke executou os selos necessários pra uma técnica que Orochimaru havia lhe ensinado, uma técnica utilizada com freqüência em Oto para revelar espiões. Ele desestabilizava o chakra de jutsus de transformação – usados tanto em pessoas como em objetos – revelando o que estava sendo ocultado.

Ele tocou com sua mão o cabelo de Haru da forma mais suave possível, procurando não acordar o garoto; o contato físico pôs em ação o efeito do jutsu.

E o tom castanho dos cabelos desbotou como tinta, a pele morena clareou, o rosto perdeu suas linhas retas e angulares. O pomo de adão foi desaparecendo, o nariz se tornou menor, o queixo menos proeminente, as mãos mais delicadas...

Sasuke encarou a pessoa que ele acabara de revelar, sentindo como se tivesse sido atingido por seu próprio Chidori.

Não era o primo de Sakura.


"O que há atrás de nós e o que há diante de nós são coisas pequenas diante do que está dentro de nós."

-Ralph Waldo Emerson


Espero conseguir terminar a tradução do próximo capítulo depois da próxima semana.

Aguardem!

dai86