Galera! Fiquei tão feliz com os reviews de vcs que dei um gás e sacrifiquei algumas (muitas) horas de estudo e sono pra adiantar a tradução.

Espero que continuem curtindo essa fic fantástica!

Ah, pra quem se interessar, tem uma animaçãozinha de flash curta da primeira cena desse capítulo no deviantart. É só buscar por ´revealing Sakura´no site.

(Vou deixar um link no meu profile) É um fanart tipo South Park feito por uma fã pra Yellow Mask.

bjos!

dai86


"Nada fixa algo tão intensamente na memória quanto o desejo de esquecê-lo."

- Montaigne


Capítulo 4

Desmascarada

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Sasuke raramente se via diante de uma situação quando não sabia o que fazer. Mesmo quando não tinha um plano preciso, ele tinha alguma idéia do que deveria fazer.

Exceto agora.

Ele observou Sakura dormindo tranqüila, se perguntando se deveria acordá-la e... e então o quê? O que ele faria? O que ele diria?

Pela primeira vez na vida Sasuke não tinha a menor idéia.

Sakura se moveu, murmurando algo enquanto dormia, e Sasuke se afastou automaticamente, se sentando em sua cama observando o disfarce voltar a cobri-la enquanto seu próprio jutsu se dissipava.

Sakura... era Haru. Haru, o escravo ousado que passava o dia retrucando Sasuke com petulância... havia sido Sakura, esse tempo todo.

Sua mente parecia ter dificuldade em aceitar. Era Sakura quem lhe dava cortes ríspidos e usava sarcasmo como uma arma. Foi Sakura quem levou uma chicotada no braço sem sequer piscar. Havia sido Sakura quem voltou pro seu quarto mancando depois de uma surra que teria aleijado muitos guerreiros experientes.

Mas mais importante, foi Sakura quem sequer lhe deu qualquer pista de sua identidade. Ela não se revelou pra ele quando eles estavam sozinhos, confiando que ele a ajudaria. Ela não havia tentado convencê-lo a voltar – na verdade, se qualquer de suas tentativas de fuga tivesse tido sucesso, ela teria deixado Oto pra trás sem que ele tivesse a menor idéia de quem ela realmente era.

Ele se recusou a reconhecer a pontada de desapontamento que sentiu com esse pensamento.

E agora que ele sabia quem ela era... o que ia fazer? Ele sabia que deveria informar Orochimaru – a quantidade de informação que ela podia levar de volta pra Konoha era assustadora – mas ele não se sentiu obrigado a fazê-lo. Ele sabia que Orochimaru era corrupto; porque ele deveria fazer qualquer esforço pra evitar a ruína do sannin?

Ele sabia que deveria avisar Sakura, mas se viu não querendo fazer isso também. Se ela soubesse que ele sabia... apenas iria complicar as coisas. A posição em que estavam agora era mais simples; ela queria escapar, então ele a deixaria escapar. Então ela voltaria pra Konoha e ele voltaria pra seu treinamento, podendo esquecer que isso sequer aconteceu enquanto tentava esquecer as memórias de Konoha. Simples, fácil, não exigia quase nenhum esforço de sua parte – sim, Sasuke gostava desse plano.

Então era isso que ele faria.

Sasuke se virou e se dirigiu ao banheiro, se preparando pra dormir, tentando não se concentrar no fato de que, quando viu os cabelos rosa sobre o travesseiro, seu primeiro instinto fora de pegá-la nos braços e correr, correr pra longe de Oto pra depositá-la nas portas de Konoha.

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"O que é que você tem?" Sakura perguntou, balançando a cabeça pra Sasuke. "É a terceira vez que te pego me encarando e nem fomos pro café da manhã ainda."

"Hn." Sasuke se virou, se recriminando. Agora que sabia que era Sakura em seu quarto, parecia ridículo que ele não tivesse percebido antes. Era como se a cada vez que se virasse, reconhecesse um dos trejeitos de Sakura: o modo como ela franzia a testa, o modo como cruzava os braços, o modo como o encarava...

Infelizmente, significava passar a maior parte do tempo observando, identificando esses sinais. Ele nem mesmo sabia por que estava fazendo isso, por que se sentia reconfortado cada vez que a verdadeira identidade de Sakura surgia por trás do disfarce de Haru.

Olhos verdes o examinaram com curiosidade e Sasuke desviou seu olhar. Apesar de não ter problema em observá-la, encarar aqueles olhos se tornou desconfortável desde que ele descobriu quem estava por trás deles. Ele não sabia porque olhar nos olhos de Sakura o perturbava – apenas perturbava.

"Então... café da manhã?" Sakura cutucou, interpretando o comportamento estranho de Sasuke pelo fato de ser Sasuke – quem podia saber por que ele fazia qualquer coisa?

"Hn. Me siga," ele instruiu.

"Sim, senhor!" Sakura retrucou, sua voz carregada de sarcasmo enquanto marchava como um soldado pra fora do quarto atrás dele.

Sasuke ainda achava um pouco desconcertante o fato de esta ser Sakura afrontando ele dessa maneira, o denegrindo dessa maneira.

"Bem, vamos tomar café da manhã ou você vai ficar parado aí na porta como uma estátua particularmente inútil."

Sasuke lhe lançou um olhar sério, mas como sempre, sua irritação não parecia incomodá-la nem um pouco. Ele podia lembrar uma época quando sua irritação com ela a deixaria triste, constrangida... mas agora, não havia nada. Era como se ela não se importasse mais.

'Talvez não se importe...' o pensamento sussurrou no fundo da mente de Sasuke, a idéia o perturbava mais do que ele gostaria.

Então ele disse com convicção pra si mesmo pra parar de pensar sobre isso. Pra não dizer nada, deixar Sakura escapar, e então tudo poderia voltar a ser como era antes dele descobrir quem ela era, antes de remexer memórias de uma época que era melhor esquecer.

Então, com um leve bufado, ele seguiu pelo corredor, Sakura se apressando atrás dele. Ele cortou seu caminho pela casa, chegando a uma sala de jantar a qual o antigo dono utilizava pra eventos de grande escala, tais como assembléias do conselho ou tratados entre Estados.

Conforme se aproximou, ele percebeu que podia sentir os chakras de Orochimaru e Kabuto na sala, assim como de um grande número de shinobi de Oto.

Sasuke parou do lado de fora, confuso. Ele sabia o suficiente sobre Oto pra saber que agora era o horário em que os escravos que trabalhavam na casa tinham sua refeição – então porque a sala estava repleta de shinobi?

Ele teve um ímpeto repentino de se virar e mandar Sakura voltar pro quarto até que ele pudesse determinar o que estava acontecendo. Qualquer mudança de rotina em Oto geralmente sinalizava algum tipo de perigo.

"Você está drogado?" veio uma voz indignada de trás dele. "Sério, eu quero saber. Você tem me encarado, olhado pro nada, parado no meio de corredores por razão nenhuma... o que você está tomando?"

Sasuke lhe lançou outro daqueles olhares antes de abrir a porta e entrar na sala repleta de ninjas.

"Ah, Sasuke, que bom que você pôde se juntar a nós," Orochimaru disse numa voz cantada. "Como passou a noite? Fez algo... interessante?"

Se havia algo que Sasuke aprendera sobre Orochimaru, era que ele não era de jogar conversa fora. Tudo o que dizia tinha algum propósito, alguma intenção... e quando os olhos do sannin passaram dele para recair sobre Sakura, Sasuke se deu conta do que era.

'Ele sabe!'

Deveria tê-lo surpreendido, mas ele percebeu que não – não de fato. Havia várias maneiras pelas quais Orochimaru poderia ter descoberto. Câmeras escondidas no quarto, um guarda no telhado passando em frente a sua janela no momento errado...

Sakura ficou tensa quando os olhos de Orochimaru a encontraram. Nesse momento ela teve certeza de que ele se dera conta de seu disfarce. Chame de pressentimento, chame de intuição... ela apenas sabia.

Ela deu um passo pra trás automaticamente, um pensamento louco de apenas se virar e correr por sua vida saltando em sua cabeça, mas alguém lhe agarrou o braço. Ela girou pra ver Kabuto atrás de si, uma mão agarrando seu pulso, a outra brilhando com um chakra azul descendo contra sua nuca.

Era como ser eletrocutada com mil volts de eletricidade numa fração de segundo. A sensação correu por seu corpo – chocante, mas rápida demais pra que ela registrasse dor – e quando se recobrou, Sakura se viu ajoelhada, inclinada sobre o chão, com seus cabelos cobrindo seus olhos.

Seus cabelos rosa.

'Droga!' foi tudo que veio à mente quando percebeu a pele clara de seus braços e pernas, a curva de seus seio e quadris contra o tecido da vestimenta... parecia que seu disfarce tinha realmente ido pro saco. 'Droga!'

Devagar, ela levantou a cabeça pra ver o sorriso de escárnio no rosto de Orochimaru, sua mente freneticamente tentando determinar o melhor plano de ação, mas incapaz de encontrar um. Ela não ousou olhar pra Sasuke; ela precisava manter a frieza se ela quisesse escapar dessa, e qualquer expressão que estivesse em seu rosto só serviria pra nublar seus pensamentos.

"Acredito que você cometeu um grave erro, Haruno Sakura," Orochimaru disse, rindo suavemente, causando a sensação de algo gelado e viscoso se contorcer em suas entranhas.

Ele olhou para os homens ao redor dele. "Peguem-na"

Bom, pelo menos isso explicava porque havia tantos shinobi. Sakura estava dividida entre se sentir intimidada pela quantidade impressionante e lisonjeada pelo fato de Orochimaru acreditar que precisasse de tantos homens pra dominá-la mesmo com a coleira.

Mas eles estavam vindo em sua direção, e ela tinha que reagir.

Sakura saltou pra trás, com as costas contra a parede, certificando-se de que ninguém a atacaria por trás – com a coleira suprimindo seus sentidos, ela não tinha como garantir que conseguiria perceber um ataque por trás e evitá-lo. Ela não tinha armas, mas agora que não precisava mais manter a transformação, tinha chakra o suficiente pra produzir uma.

Com um rosnado desafiador, Sakura dirigiu chakra pra suas mãos, moldando sua limitada energia pra formar bisturis como Tsunade havia lhe explicado.

"Quem encostar em mim... eu corto a garganta," ela disse numa voz baixa mas perfeitamente clara, soando com uma intenção mortal.

Algum de seus oponentes mais prudentes diminuíram a velocidade – a sede de sangue cega dando lugar à frieza calculista – mas alguns simplesmente continuaram seu ataque impetuoso.

Uma dupla de homens altos a alcançaram primeiro, e demorou apenas um segundo pra que ela abrisse suas gargantas com seus bisturis de chakra. Mesmo que fossem armas eficientes, exigiam uma certa energia para serem mantidas, e Sakura sabia disso – com a coleira ela precisava conservar o máximo de energia possível.

Assim, ela dispersou os bisturis e em seu lugar, puxou uma longa lâmina da bainha de um de seus pretensos agressores conforme os corpos caiam no chão. Uma simples volta da espada na altura da cintura estripou a primeira fila de inimigos, exceto por um mais ágil, que havia agachado e se atirou contra seus joelhos.

Sakura saltou para o alto, seu calcanhar descendo contra a nuca do ninja, quebrando o pescoço com um desagradável e sonoro crack.

Chutando o corpo contra o grupo de ninjas e derrubando vários deles, Sakura teve um momento pra avaliar o quão realmente desesperadora era sua situação. Com a coleira, ela estava tendo dificuldades de usar sua força superior no combate. Um golpe certeiro provavelmente acabaria com a luta, e então... ela realmente não queria pensar o que aconteceria.

Sakura se inclinou pra trás com as mãos contra a parede para usá-la como sustentação, chutando a frente, acertou um shinobi no esterno, quebrando o osso e parando seu coração. Tamanha foi a força do golpe que o corpo voou pra trás, derrubando aqueles atrás dele como dominós.

Ela se esquivou do balanço selvagem de uma clava, trazendo sua espada diagonalmente de baixo pra cima através do peito de seu oponente, pondo força suficiente no golpe pra atravessar costelas como se estivesse partindo ossos de galinha.

Ela então se contorceu pra trás e abaixo, deixando uma espada direcionada a seu pescoço passar por cima dela e direto contra outro oponente. Se levantando novamente, estava pronta pra enterrar sua lâmina no shinobi que acabara de atacá-la com a espada... quando de repente uma outra emergiu do peito dele, e em seguida, ele caiu morto.

Sasuke estava de pé atrás dele, sangue escorrendo por sua espada.

"Ela é minha!" ele gritou, sua mão agarrando seu pulso e a puxando pra si, os dedos se enterrando nos nervos do pulso, forçando Sakura a largar a espada.

"O diabo que sou!" Sakura rosnou, usando seu braço livre pra acertá-lo violentamente na lateral.

Ela sentiu costelas quebrando sob seu golpe, mas então veio uma impiedosa – e desagradavelmente familiar – pontada na nuca, e a escuridão invadiu sua visão como algo vivo.

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Quando recobrou a consciência, Sakura estava no quarto de Sasuke, deitada em sua cama, com o próprio Uchiha sentado ao seu lado, encarando ela de cima.

Ela ficou tensa no mesmo segundo. Ela havia sido desmascarada, e, apesar de Sasuke ter sido quase gentil com ela no passado, isso aconteceu quando ele não sabia com quem estava falando. Agora que sabia... o que faria?

"Eu não vou te machucar," ele disse, interrompendo seus pensamentos como se pudesse escutá-los.

Ela piscou, surpresa. Desconfortável em estar deitada enquanto ele estava sentado – e com o nível de vulnerabilidade que isso trazia, por mais sutil que fosse – ela se sentou e deslizou pra longe dele, apenas parando quando suas costas encontraram com a cabeceira da cama.

Então... o que aconteceria agora? Considerando seu último encontro, o lado mais cínico de Sakura honestamente esperava que ele sacasse sua espada e a cortasse em pedacinhos. Com a coleira, ela teria sorte de durar 5 segundos contra ele. Sakura pressionou os joelhos contra o peito, num gesto inconsciente de defesa diante do pensamento.

"Qual era sua missão?" ele perguntou abruptamente. Quase como se ele fosse perguntar outra coisa, mas tivesse mudado de idéia. "A missão durante a qual você foi capturada?"

Sakura não respondeu, o encarando com rebeldia por cima de seus joelhos.

Sasuke levantou uma sobrancelha, conseguindo parecer desinteressado e expectante ao mesmo tempo. "Você vai ficar em silêncio?"

Desde o minuto em que acordou, Sakura estava confusa sobre porque a mantiveram viva. E parecia que agora tinha a resposta; eles queriam informação. Orochimaru deve ter decidido que seria melhor Sasuke sondá-la antes de eles recorrerem à tortura.

"Ceder voluntariamente informações de uma missão de Konoha pra um ninja de Oto?" Sakura voltou os olhos pra cima com sarcasmo fingindo considerar a idéia. "Puxa, deixa eu pensar – não! Você quer informação? Pode dizer pra aquela cobra preparar os instrumentos de tortura, porque eu certamente não vou ser iludida a dizer nada pra você."

Sasuke a olhou como se ela fosse uma estúpida. "Você não foi mantida viva pra ceder informações."

Ele disse como se fosse óbvio até mesmo pra uma criança. O que é claro, não era – Sakura não tinha idéia de porque Orochimaru não mandou cortar a garganta dela enquanto inconsciente. Mas reprimiu o desejo de avançar sobre Sasuke num ato de fúria; mesmo que atacá-lo tivesse sido sem dúvida imensamente satisfatório, também seria inútil.

Então, mais uma vez, ela usou um pesado tom de sarcasmo pra transmitir sua raiva e irritação. "Então pra quê, por Deus, eu fui mantida viva?"

Sasuke sorriu com sarcasmo discretamente. "Você ouviu o que eu disse antes de te nocautear."

"Ouvi..." Sakura disse devagar, lembrando sua declaração possessiva. "Mas como isso leva ao fato de eu ainda estar viva?"

"Você podia estar disfarçada quando se tornou minha escrava, mas você ainda é minha escrava. Seu destino é decisão minha."

A vida dela estava nas mãos de Sasuke. Isto realmente estava virando uma competição pelo 'pior dia da vida de Sakura'- de fato, ela acreditava que este dia havia ganhado. Ela fora descoberta por Orochimaru, atacada por uma horda de ninjas, deixada inconsciente por Sasuke (de novo), informada que sua vida estava sob controle de um homem que parecia ter poucas restrições quanto a matá-la...

'E nem é meio dia ainda,' ela refletiu com um tom de fatalidade.

"E Orochimaru simplesmente aceitou isso?" ela perguntou, incapaz de imaginar o sannin muito satisfeito com a idéia de ter um ninja de Konoha passeando por sua base.

Ela certamente conseguia imaginá-lo irritado o suficiente pra dá-la de comer a alguma coisa carnívora e grande, mas não tinha idéia de porque ele a deixaria sob custódia de Sasuke.

Sasuke não ofereceu nenhuma resposta. Não havia nenhuma. Ele achou o consentimento de Orochimaru à presença de Sakura no mínimo estranho. Ele tinha a desconfortável sensação que esse era algum tipo de teste, mas não tinha idéia do que o sannin poderia estar testando.

Felizmente, Sakura não parecia esperar uma resposta. Ele não sabia exatamente porque, mas parte dele queria que ela relaxasse um pouco, que o olhasse com a mesma valentia que tivera quando era Haru.

Não lhe escapou que havia algo de irônico nessa situação. Ela não o temia antes, porque ele não sabia quem ela era. Mas agora que ela descobriu que ele sabia que ela era um de seus ex-colegas de equipe, ela temia sua reação.

Ainda... considerando seu último encontro, Sasuke reconheceu que ela tinha bons motivos pra estar preocupada. Mas será que Sakura não sabia que ele não faria tal coisa com a coleira impedindo que ela pudesse se defender dele?

"Quando você disse que havia alguém te procurando, você quis dizer Naruto, não?" ele perguntou, esperando que a menção do rapaz loiro a deixasse mais calma.

Mas sua reação foi o exato oposto. Ela ficou ainda mais tensa, seus olhos ainda mais temerosos. "É claro. E Kakashi, e Sai, e todos os outros."

Mesmo que Sai denegrisse sua imagem e fosse socialmente mais incapaz do que Sasuke tivesse sido... eles realmente haviam se tornado amigos. E ela não tinha dúvidas de que sua equipe estaria varrendo a região a procura dela.

Era reconfortante de certo modo, mas ela não se permitiu pensar muito sobre eles. Pois, se por um lado a tranqüilizava, era mais deprimente do qualquer outra coisa. Ela não queria pensar em como eles deviam estar preocupados, imaginando todo o tipo de coisa acontecendo com ela... não, era melhor apenas se concentrar em voltar pra casa.

"Você sabe como ele descobriu?" Sakura perguntou simplesmente.

Sasuke havia perguntado a mesma coisa. Orochimaru havia confirmado uma de suas suspeitas; havia de fato um ninja passando pelos telhados na hora errada. Ele havia visto Sasuke executar o jutsu, a transformação de Sakura se desfazendo... e denunciou o ocorrido.

"Mas é claro que você ia me contar sobre tudo isso, não é?" Orochimaru havia dito sorrindo.

"Hn," Sasuke decidiu não dizer que não tinha a menor intenção de fazê-lo. Algo nos olhos do sannin lhe dizia que ele já suspeitava disso.

"Bem, ela é toda sua agora," Orochimaru disse, seu tom tão devasso que Sasuke não teve dúvida do significado implícito. "Aproveite."

E não se passou um momento após isso sem que Sasuke se condenasse por não fechar as cortinas na noite passada. Deixando de lado alusões, ele tinha certeza que os motivos de Orochimaru não eram tão simples quanto pareciam – eles nunca eram.

Então Sasuke apenas deu com os ombros diante da pergunta de Sakura, alguns sinais de desconforto aparecendo em seu rosto quando suas costelas se moveram.

"Eu acertei algumas de suas costelas, não?" Sakura disse com um sorriso frio.

Sasuke se recusou a notar sua expressão triunfante. Ele também se recusava a admitir que estivesse um pouco impressionado – ele tinha certeza que, sem a coleira, o golpe teria sido o suficiente pra quebrar sua espinha em dois.

E ela não demonstrava a menor culpa com o fato de tê-lo ferido – ele esperava que ela se oferecesse pra curá-lo no momento em que percebesse as conseqüências do golpe, independente se fosse capaz de fazê-lo ou não com a coleira. Mas ela não se ofereceu; simplesmente o observou com um sorriso frio e vitorioso em seus lábios.

Esta era definitivamente uma Sakura bem diferente da que ele conhecia.

Com uma careta sutil de dor e frustração, Sasuke se levantou da cama. Sakura estava consciente, e agora ele tinha que achar Kabuto para curar suas costelas.

"Então... o que acontece comigo agora?" Sakura perguntou olhando pra baixo.

Algo dentro de Sasuke se contraiu ao vê-la tão... resignada. "Você fica aqui. O almoço vai ser trazido, mas você não pode deixar este quarto."

"O quê?" Sakura gritou, resignação desaparecendo em chamas de ira.

Mas os olhos de Sasuke eram rígidos e impassíveis como ônix polidos. "Não me faça trancar você aqui."

Por um momento, os pares de olhos de digladiaram numa guerra declarada. Então Sakura virou o rosto, encarando a janela ao invés dele conforme ele saia do quarto.

Ela sabia que havia perdido essa rodada... mas ela não tinha a intenção de perder a guerra. Ela precisava jogar o jogo dele por enquanto – uma porta destrancada dava muito mais oportunidades do que uma trancada. A janela era uma rota de fuga óbvia... óbvia demais. Ela não duvida que Orochimaru houvesse colocado um guarda escondido no jardim com o único propósito de vigiar aquela janela e se certificar de que ela não tentasse escapar por ela.

Com essa suspeita, ela subiu na sua cama improvisada no assento da janela e se debruçou pela janela, olhando para o jardim abaixo. Como ela havia imaginado, havia dois shinobi no jardim, estacionados lá, com os olhos fixos nela. Sakura esperou um longo momento pra ver se eles se moveriam, até casualmente balançar uma perna pra fora da janela, como se estivesse prestes a sair por ela.

Eles colocaram as mãos sobre suas armas.

Com um suspiro exasperado, Sakura recolheu sua perna e se jogou na cama, contando dez minutos antes de verificar de novo, no caso de eles estarem apenas fazendo patrulha nos jardins ou algo do tipo...

Mas eles ainda estavam no mesmo lugar, ainda vigiando a janela.

Sakura fechou a janela e chutou a parede num ato de petulância. A janela ainda era uma opção viável, mas um novo nível de complicações acabava de ser adicionado. Sua melhor aposta provavelmente seria se transformar num escravo aleatório e sair pela porta da frente sob a pretensão de cumprir alguma tarefa pra seu mestre. Não seria fácil, e o plano ainda exigiria muito planejamento, mas era sua melhor opção.

Assim, a médica simplesmente suspirou, se afundando no assento da janela. Será que seria cedo demais tentar escapar no mesmo dia em que fora desmascarada? Ela achou que sim – era melhor deixar passar alguns dias, deixar as coisas se acalmarem, os guardas se tornarem complacentes... e então ela entraria em ação.

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Sasuke voltou para seu quarto no fim do dia, imaginando se encontraria Sakura ou se ela já teria tentado escapar. Havia sido estranho sair pra treinar sem sua sombra de olhos verdes o seguindo... mas é claro, a sombra de olhos verdes com a qual ele se acostumara tinha sido Sakura o tempo todo, e Sasuke ainda não tinha certeza sobre como se sentia quanto a isso.

Ele abriu a porta, encontrando Sakura sentada em sua cama improvisada, olhando pela janela para o pôr-do-sol. Seus olhos se voltaram pra ele, mas ela não deu importância a sua presença.

Sua indiferença o irritava. Ele não sabia o que ele esperava, mas ele esperava algo.

Sakura se concentrou em ignorá-lo conforme ele passava pelo quarto pra entrar no banheiro, logo o som da água contra o azulejo lhe informou que Sasuke devia estar tomando um banho. Ela sabia que devia estar tentando persuadir Sasuke a retornar pra Konoha... mas estava cansada, preocupada com seus amigos, e ela só queria ir pra casa.

Ela sentiu um nó na garganta, mas suprimiu a reação, se concentrando em sua raiva por ser mantida aqui contra sua vontade. Raiva e sarcasmo eram um refúgio melhor do que lágrimas e desespero.

O sol desceu no horizonte e a escuridão infiltrou-se no quarto, mas Sakura não se deu ao trabalho de acender a luz. Ao invés disso, apenas se encolheu em sua cama, fechando os olhos, se rendendo à exaustão física e mental, esperando que pudesse acordar de manhã e descobrir que tudo isso não passou de um sonho louco.

Ela sabia que deveria ficar acordada pelo menos até que o jantar fosse entregue, mas Sakura não tinha apetite. Não esta noite.

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Quando ela acordou de manhã, o quarto estava deserto, e por um momento achou que Sasuke já tivesse ido treinar. Mas no momento em que o pensamento passou por sua cabeça, Sasuke entrou no quarto carregando duas maçãs.

"Aqui," ele disse abruptamente, lhe lançando as maçãs.

Sakura as pegou, piscando confusa. Ele estava claramente lhe dando o café da manhã – a confusão não era por isso, mas pelos motivos que ele teria. Ele não havia tentado maltratá-la ou machucá-la, de fato tinha até mesmo negociado com ela quanto a não trancar a porta ontem; e agora lhe trazia café da manhã num ato obviamente altruísta.

Em resumo, nada nesse comportamento combinava com o Sasuke que ela e Naruto encontraram alguns meses atrás. Lembrava mais o garoto que ela conheceu em sua época de genin – frio e apático, mas no fundo atencioso, apesar do quanto negasse ser.

Por um momento, imaginou se sua presença tivesse feito com que ele regressasse, mas ignorou a idéia.

Sasuke observou ela morder a maçã, e decidiu que agora seria um bom momento pra discutir o pequeno impasse deles.

"Você vai ter que se livrar dos cobertores," ele instruiu de forma brusca.

Ela piscou confusa e engoliu o pedaço de maçã que mastigava. "Por quê?"

Sasuke esperava que ela ainda tivesse um pouco da antiga Sakura em si – a que sempre aceitava seu conselho como o melhor, e que fazia o que quer que ele pedisse. Ele realmente não queria ter de explicar porque isso era necessário...

"Apenas faça o que eu mandei!"

"Por quê?" ela repetiu calmamente.

Sasuke rangeu os dentes e se esforçou pra manter sua expressão indiferente. "Você não vai precisar deles; você vai passar a dormir na cama a partir de agora."

"Com você?" Sakura achou que seus olhos iam saltar do seu rosto. "Não mesmo!"

Não tinha possibilidade de ela dormir ao lado de Sasuke. Ela não era masoquista – não iria se magoar mais se tentando com algo que não podia ter.

"É necessário."

Sakura o encarou e resistiu ao ímpeto de enfiar a maçã na goela dele e assistir ele sufocar com ela. "Se importa de me explicar a razão?"

Sasuke suspirou como se estivesse lidando com uma criança difícil. "Orochimaru permitiu que eu a mantivesse como minha escrava porque ele acredita que eu a estou usando pra um motivo específico. Um motivo pelo qual seria suspeito se nós não dividíssemos a cama."

Sakura se deu conta do que ele estava dizendo. Orochimaru permitiu que Sasuke a mantivesse como sua escrava porque ele achou que agora Sasuke iria... que agora ele iria estar fazendo sexo com ela.

"Ewww," ela soltou, torcendo o nariz para o fato de uma cobra super crescida de uns 50 anos estar especulando sobre sua vida sexual.

Sasuke se sentiu um pouco ofendido pelo óbvio desgosto em sua expressão. A idéia de sexo com ele era realmente tão repulsiva? Era o que parecia, porque Sakura era a imagem do desgosto nesse momento.

Mas isso passou, e agora sua expressão era especulativa. "O que vai acontecer se ele descobrir que não estamos fazendo sexo? Que você está me mantendo aqui por... seja lá qual for a razão pela qual você está me mantendo aqui?"

Sasuke não respondeu. Ele tinha uma boa idéia do que aconteceria com ela – Sakura seria interrogada, e se ela sobrevivesse os cuidados de seu torturador, seria entregue a um dos ninjas de elite como um brinquedinho. Mas ele não tinha uma idéia concreta do que aconteceria com ele. Ele tinha certeza que esse era algum tipo de teste, e estava igualmente seguro que estava falhando qualquer que seja o padrão doentio que Orochimaru tinha pra ele ao se recusar a tirar proveito sexual de Sakura. Assim, mesmo que não tivesse certeza do que aconteceria com ele se farsa fosse descoberta, tinha certeza de que seria desagradável.

Algo em sua linguagem corporal deve ter respondido à Sakura, pois ela balançou a cabeça levemente em compreensão, como se ele tivesse lhe dado uma resposta eloqüente ao invés de um silêncio absoluto. A idéia de que ela tivesse compreendido suas especulações mentais era inquietante de várias maneiras, e ele desviou o olhar, se virando pra pegar suas armas.

Havia algo surpreendentemente doméstico na cena, Sakura pensou ao dar outra mordida na fruta – ela comendo as maçãs que ele trouxera pra ela, e ele se preparando pra ir treinar. É claro, eles haviam compartilhado várias outras cenas 'domésticas' antes, mas agora era diferente. Dessa vez ela não estava protegida por uma transformação – dessa vez ele sabia que era ela.

"Não saia do quarto," ele ordenou antes de fechar a porta.

Sakura lançou um gesto obsceno para a porta fechada. Inútil? Pode ser. Mas aliviava a pontada de ressentimento por seu status de prisioneira não poder estar mais claro. Quando disfarçada como Haru, ela ainda tinha alguma medida de liberdade, mas agora, até isso lhe foi tirado.

Ela sabia que havia prometido pra si mesma tentar convencer Sasuke a voltar pra Konoha... mas ela estava simplesmente tão furiosa com ele! Ela ficar extremamente deprimida pelo o que aconteceu com eles – todos eles, incluindo Naruto – ou ela podia ficar furiosa com Sasuke.

E francamente, Sakura sabia qual opção preferia. Ela podia lidar com raiva. Raiva era muito mais seguro do que se afundar em miséria.

Mas mesmo assim... ela precisava tentar. Por Naruto, se por nada mais.

Sakura decidiu se dar mais um dia. Mais um dia pra ficar irritada e mal-humorada com ele e com o mundo... e então ela tentaria conversar com ele.

Mais um dia.

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Quando Sasuke retornou Sakura já estava quase fora de si de tédio. Ela sabia ser má idéia tentar escapar antes de formar um plano de verdade, mas passou o dia tentada a simplesmente abrir a janela e correr, os guardas que se danem. Mesmo considerando que ela sofreria as conseqüências ao ser capturada, mesmo curar os ferimentos conseqüentes teria lhe dado algo pra fazer.

Com um suspiro, Sakura executou o golpe que ela vinha exercitando pela décima vez, chegando à conclusão de que se estava presa aqui sem nada o que fazer, ela podia muito bem usar o tempo pra se exercitar.

Ela ouviu a porta se abrir e seus olhos se voltaram pra Sasuke conforme ela completava o último de seus movimentos. Ela viu seus olhos negros correrem pelo assento da janela, agora sem cobertores – ela havia lhe obedecido e dobrado eles, guardando-os no armário em algum momento do dia.

Só porque ela não gostava da idéia de dividir a cama com ele, não queria dizer que ela não entendia a necessidade disso. Pelo o que ele lhe havia dito, Orochimaru havia entregue ela a Sasuke sob a premissa de que ele a usaria como um brinquedo sexual, e ela entendia a importância de fazer o sannin acreditar que era isso que estava acontecendo.

Quanto mais Sakura pensava sobre isso, mais percebia que a reivindicação de Sasuke sobre ela provavelmente a salvara de um destino pior... mas ela não podia entender porque ele havia feito isso. Afinal de contas, ele havia tentado matar Naruto há poucos meses; então porque se daria a tanto trabalho pra mantê-la segura?

O jantar se deu em silêncio – Sakura não podia imaginar os motivos do silêncio de Sasuke (provavelmente por ele ser naturalmente anti-social), mas ela estava se esforçando pra não pensar no fato de que logo estariam dividindo uma cama. Havia algo muito surreal sobre a situação – eles mal se falavam, e mesmo assim se preparavam pra dormir lado a lado.

Ela cumpriu sua rotina noturna em piloto automático, sua mente correndo como um hamster em sua roda de exercícios. Seu estômago dava nós numa combinação de pavor e ansiedade– pavor porque sabia que isso não faria bem à sua estabilidade emocional, e ansiedade porque não conseguia fazer seu coração traidor parar de bater de felicidade de estar perto dele.

'Vou ter que lidar com isso,' ela disse pra si mesma.

Não fora difícil quando ela era Haru... mas então, ela estava atuando, se escondendo sob a identidade de um garoto fictício com algum nível de treinamento ninja . Agora não havia nenhuma máscara pra vestir, nenhum véu pra se esconder.

Agora, ela era apenas Sakura, com tudo o que isso implicava.

Ela saiu do banheiro, passando por Sasuke que logo entrou nesse mesmo ambiente, e se dirigiu pra cama, determinada a não se agitar ou se preocupar com isso, apenas ir pra cama como se dormisse ao lado de ex colegas que traíram sua vila todos os dias. Afinal de contas, fazer um alvoroço sobre isso apenas a deixaria mais ansiosa do que já estava.

Sakura deslizou sob os lençóis que tinha certeza serem feitos de seda ou algum tecido igualmente caro e luxuoso, se deitando o mais próximo da beira quanto confortavelmente possível, de costas para o centro da cama pra se certificar que Sasuke visse apenas suas costas. Isso já seria difícil o suficiente sem ter que olhar nos olhos dele conforme dormisse – ela simplesmente se recusava encará-lo, temendo o que seus próprios olhos pudessem revelar pra ele conforme o cansaço baixasse sua guarda.

Ela escolheu o lado mais próximo à janela pra poder olhar o céu, procurando constelações conhecidas enquanto estrelas brilhavam como diamantes espalhados por cima de um veludo negro.

Ela ficou tensa, mas nem sequer piscou conforme Sasuke saiu do banheiro e se dirigiu pra cama. Sakura sentiu uma corrente fria de ar correr por suas costas quando ele levantou o cobertor e deslizou sob o casulo morno.

Ela podia sentir o calor irradiando do corpo dele, as cobertas sobre ela se movendo com cada respiração dele. Imaginou se ele sentia as cobertas se moverem quando ela respirava também, ou se seus movimentos eram pequenos demais em comparação pra serem notados por ele.

Então ela disse pra si mesma parar de pensar sobre aquelas coisas e se concentrar em descansar. Seus músculos estavam rijos e tensos, e ela se concentrou em inspirar e expirar profundamente – um pequeno truque de meditação que Tsunade havia lhe ensinado.

Quando sentiu seu corpo relaxar um pouco, Sakura fechou os olhos e tentou acalmar sua mente, apesar de ter a sensação de que o sono demoraria a chegar.


"Tão simples quanto soa, todos devemos tentar ser as melhores pessoas que pudermos: ao fazer as melhores escolhas, ao fazer o melhor com os talentos que nos foram dados."

- Mary Lou Retton


Aguardem o próximo capítulo!

... e deixem reviews!

Abçs

dai86