Valeu pelos reviews pessoal. Estou contente por poder dividir essa fanfic que eu tanto adorei com outros leitores.

Cada comentário deixado aqui é muito especial pra mim. Obrigada!

Atendendo o pedido enfático da Susan01, sem mais delongas... capítulo 5, galera!

Aproveitem!

dai86


"Antipatia, diferença de opiniões, ódio, desprezo podem acompanhar amor verdadeiro."

- J August Strindberg


Capítulo 5

Intenções

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Quando Sasuke acordou, se viu em primeiro lugar surpreso em ter caído no sono, e em seguida, confuso pelo fato de um de seus braços estar dormente. Conforme tomou consciência de seu entorno, o suficiente pra entender a razão disso, sentiu sua respiração dar uma fisgada na garganta.

De alguma forma – ele não sabia como, ou o porquê – ele e Sakura haviam se movido durante a noite. Eles haviam se enroscado de tal forma que estavam deitados de lado, face a face, e a cabeça de sua ex colega estava apoiada sobre a parte de cima de seu braço, explicando a dormência. Suas pernas estavam entrelaçadas e seu outro braço estava jogado por cima da cintura dela como que para ancorá-la a ele, enquanto as mãos dela estavam cerradas sobre o peito de Sasuke, agarrando de leve sua camisa.

Sasuke estava surpreso só pelo fato de ter dormido. Três anos em Oto o haviam deixado cauteloso, alerta à mera sugestão de perigo – freqüentemente acordava abruptamente quando alguém se aproximava enquanto ele dormia, achando difícil mesmo tirar um cochilo na presença de outros.

Mas ele não apenas pegou no sono com Sakura a meros centímetros de distância... eles também se aproximaram num contato íntimo durante a noite, e seu radar interno nem mesmo registrou uma ameaça. Por quê? Por que seu instinto aguçado havia ignorado Sakura como fonte de perigo de forma tão flagrante?

Por um momento ele se manteve completamente imóvel, nem mesmo respirando, imaginando porque seu primeiro impulso fora trazê-la ainda mais perto e fechar seus olhos novamente. Nunca havia lhe agradado que as pessoas invadissem seu espaço pessoal... então por que estava ansioso em prolongar seu contato com Sakura?

Ele não se apegou ao pensamento, preferindo se desprender da cama o mais silenciosa e discretamente possível. Devagar, ele gentilmente abriu os punhos dela, liberando sua camisa, enquanto tentava tirar seu membro dormente de sob sua cabeça. Sakura suspirou quando os braços dele deixaram o redor de seu corpo, mas ela não acordou – apenas rolou e se aconchegou sob as cobertas.

Sasuke não sabia por que, mas algo o compeliu a parar e observá-la, a gravá-la em sua mente, como que se revelando uma fotografia.

Mas não sabia porque iria querer se lembrar de cabelos pálido rosa contra seus lençóis pretos, ou o modo como sua espinha estava levemente curvada, como se ela quisesse imitar um gato dormindo enrolado em si mesmo.

Algo lhe disse que era uma má idéia tê-la dormindo na mesma cama que ele. Mas era necessário. Essa... essa coisa... era algum tipo de teste. E Orochimaru nunca deixava um teste passar sem tentar avaliar algo. Sasuke não sabia quando viria – talvez amanhã, talvez em meses... mas viria.

Ele não tinha certeza que tipo de avaliação seria, mas tinha certeza que esse quarto estaria sujeito a vistorias incidentais nas próximas semanas. Seria fácil para o sannin arranjar desculpas pra enviar lacaios pra este quarto para espionar, e se um deles informasse que Sakura ainda dormia no assento diante da janela, suspeitas seriam levantadas.

Assim, a decisão de realocá-la pra cama era uma medida de precaução, mas certamente uma medida necessária. Dessa forma, se algum dos espiões de Orochimaru fizesse uma visita surpresa pareceria que ele estava fazendo o que ele deveria estar fazendo.

Ele deixou o quarto pra tomar seu café da manhã, com certo alívio que ela não tivesse acordado. Se ela percebesse a posição em que eles acabaram de alguma forma durante a noite...

Sasuke não podia imaginar o que aconteceria, apenas sabia que provavelmente seria embaraçoso e desagradável. E não tinha certeza porque se importava.

Ele comeu em silêncio, sentando-se afastado de qualquer outro ninja. Os shinobi de Oto tinham suas refeições antes dos escravos, assim, a maioria deles se acostumou a acordar antes de seus escravos. Afinal de contas, se houvesse uma hora quando apenas escravos estivessem acordados, isso lhes daria tempo de planejar e executar rebeliões. Dessa forma, sua liberdade estava restrita a qualquer momento que conseguissem em cantos obscuros e longe dos olhos atentos de seus mestres.

Ele se lembrou de coletar algumas frutas pro café da manhã de Sakura já que ela estava restringida ao quarto e não poderia sair para as refeições. Ele não podia condenar o sannin por essa decisão – se Sakura tinha sido capaz de matar cerca de uma dúzia de shinobi enquanto limitada pela coleira, não se podia prever o estrago que poderia causar se pudesse incitar uma rebelião com os escravos.

Sasuke refletiu sobre isso por um momento, mas lembrar como Sakura talhou tantos ninjas bem treinados como se estivesse cortando grama lhe deixou um tanto inquieto; assim, ele decidiu interromper essa linha de pensamento. Se ele não pensasse sobre isso, poderia fingir que nunca aconteceu, e que a Sakura dormindo em seu quarto era exatamente como a Sakura da qual se lembrava.

Shinobis lhe davam passagem quando ele andava pelos corredores de volta para seu quarto, automaticamente inclinando-se para reconhecer a presença do aprendiz de Orochimaru, mesmo enquanto seus olhos refletiam ressentimento. Mas Oto era assim: ressentimento e crueldade, e cobiça por poder, porque poder era a única forma de sobreviver em uma sociedade como esta.

Imediatamente, Sasuke não poderia imaginar alguém menos apropriado a esse ambiente de escuridão e dor do que Sakura. Se bem que havia Naruto...

Eles estavam destinados a coisas diferentes. Alguma parte dele sempre soube disso.

O Uchiha ouviu as obscenidades antes mesmo de entrar no quarto – aparentemente Sakura era muito vocal diante de suas frustrações.

Sasuke a encontrou diante do espelho do banheiro, sua cabeça virada apenas o suficiente pra ter uma clara visão da coleira, a ponta de uma senbon (*1) enfiada na pequena tranca conforme ela cutucava a mesma com o objeto.

"Você está tentando abrir a trava," Sasuke afirmou.

"Tentando sendo a palavra chave aqui," Sakura resmungou, manejando a pequena arma com cuidado, esperando ouvir o som do clique da trava se abrindo... mas se decepcionando.

O som nunca veio, e ela estava tentando desde que acordou. Se conseguisse destravar a coleira... ela poderia escapar. Sem a coleira, nada poderia detê-la. Duvidava que Sasuke se daria ao trabalho, e ela já estaria longe quando Orochimaru e Kabuto se dessem conta que havia escapado.

Presumindo que Sasuke não os avisasse, os enviando atrás dela. Mas Sakura sabia que ele não o faria, pela mesma razão pela qual ele não a impediria se ela tentasse escapar. Ela não tinha idéia de por que ele havia decidido mantê-la em seu quarto... mas sabia que ele a queria longe tanto quanto ela queria estar longe.

Sasuke deu com os ombros diante da resposta , e a deixou continuar, sem ajudá-la mas sem interferir também – o que era, ela refletiu, sua reação usual para com ela.

Ela o ouviu sair, sem dúvida depois de deixar a fruta que vira em suas mãos, já que, honestamente, por que Sasuke estaria carregando frutas por aí senão pra alimentá-la?

A médica continuou em sua tentativa de forçar a trava, os resmungos e obscenidades cada vez mais viscerais conforme seus esforços se provavam inúteis.

Estava tão concentrada que uma batida na porta do quarto a fez saltar. E como estava praticamente pressionada contra o espelho, tentando avaliar se havia algum gatilho oculto na trava, Sakura acabou dando com a cara na moldura de madeira.

Ele verbalizou mais obscenidades, trazendo a mão à área atingida conforme a maçã do rosto e o queixo latejavam. Ela havia cortado o lábio novamente.

A garota suspirou frustrada, tocando com a ponta da língua o novo corte que sangrava de leve, e deixou a senbon de lado. Isso seria tão mais fácil se Sasuke tivesse grampos de cabelo. As pessoas costumam zombar desse clichê, mas na realidade grampos realmente eram muito úteis; eles eram pequenos e estreitos o suficiente pra entrar em qualquer tranca, frágeis o suficiente pra serem manejados com pequeno esforço, mas resistentes o suficiente pra forçar as travas internas.

É claro, essa linha de pensamento a levou à imagem mental do Sasuke com grampos no cabelo, o que proporcional a Sakura rir um pouco conforme saía do banheiro.

A batida soou novamente, mas Sakura não se apressou. Sasuke não se daria ao trabalho de bater, então era seguro assumir que não era ele pedindo por autorização pra entrar. E se não era ele... quem era?

Sakura não tinha idéia, mas ela não estava a fim de arriscar. Ela pegou um punhal da estante de armas e o segurou atrás de si no que esperava parecer uma postura casual antes de se aproximar da porta.

Mas quando abriu a porta, descobriu que não devia ter se dado ao trabalho. Era uma escrava de olhos escuros, com um rosto bonito, carregando uma grande jarro de água e um pequeno copo.

"Lorde Sasuke pediu que isto lhe fosse trazido," disse com a cabeça baixa como uma cão submisso.

"Oh... certo..." Sakura murmurou, se afastando da porta pra que a moça pudesse entrar com o jarro e copo sem que visse o punhal que a médica escondia. Algo disse a Sakura que a moça não reagiria bem.

Ao que parece, Sasuke havia se dado conta que – juntamente com a falta de refeições que o confinamento impunha – ela não tinha acesso à água. Ontem, ela bebera da torneira do banheiro com ajuda das mãos. Mesmo sabendo que poderia falar com ele sobre isso, preferiu não fazê-lo. Pedir qualquer coisa parecia admitir fraqueza, e Sasuke era por demais um inimigo naquele momento pra ela poder se sentir confortável fazendo aquilo.

A moça de olhos escuros deixou o jarro e copo no aparador, juntamente com as fruta deixadas lá – uma laranja, uma maçã e um pêssego. Ela dirigiu seu olhar com receio pra Sakura e a ninja tentou sorrir de forma apaziguadora, se sentindo culpada pela lâmina que escondia.

"Você o enfrentou?" ela perguntou numa voz pequena.

"Nãooo..." Sakura disse lentamente. Essa garota realmente acreditava que ela seria estúpida o suficiente pra atacar Sasuke em seu estado atual?

"Ele é do tipo que gosta delas com dor, então?"

Sakura piscou como idiota por um momento, tentando entender o que ela quis dizer. Então ela se deu conta – a colisão com a moldura do espelho havia deixado seu lábio sangrando, e provavelmente uma vívida marca vermelha em seu rosto que indicaria um hematoma por vir. A garota achava que Sasuke a havia agredido.

"Uh..." Sakura tentou pensar em algo pra dizer, se sentindo culpada pela idéia de que Sasuke estava sendo culpado por seu ferimento, mas sabendo que não poderia dizer a verdade.

"Está tudo bem," a moça sussurrou com um sorriso reconfortante. "Você não precisa falar sobre isso."

Ela saiu do quarto sem mais palavras.

A culpa de Sakura se intensificou. Ela se sentiu mal por deixar uma moça obviamente gentil sentir pena dela quando nada havia acontecido de fato.

Mas balançou a cabeça, dizendo pra si mesma com convicção que era assim que as coisas precisavam ser. Todos na vila precisavam acreditar que Sasuke a estava usando para fins sexuais se eles queriam enganar Orochimaru. Um boato era o suficiente pra arruinar tudo, e então...

Sakura realmente não queria descobrir o que aconteceria depois disso.

Ela colocou o punhal de volta na estante, curou seu rosto com alguns minutos de concentração, e voltou suas atenções pra refeição. As frutas e a água foram deixadas lado a lado sobre o aparador, e por um segundo Sakura se lembrou de sua vizinha deixando tigelas de comida e água pro seu gato.

Sakura pegou o pêssego e deu uma mordida com um ímpeto desnecessário, irritada com o lembrete de que estava sendo mantida aqui como uma espécie de bicho de estimação. Ela viu em sua mente uma rápida imagem de Sasuke perguntando a Orochimaru se podia ficar com ela, como uma criança que encontrara um filhote no parque.

E visto que Sasuke havia demonstrado uma dolorosa e desconcertante determinação de acabar com a vida de Naruto, Sakura teve a impressão que Orochimaru apenas concordou com isso pra ver quanto tempo ela duraria antes que Sasuke se irritasse e torcesse seu pescoço.

Ainda assim... Sakura não podia ignorar que o rapaz que lhe trazia café da manhã e ordenava que lhe trouxessem água parecia bem diferente do que ela viu meses atrás. Mas de fato, Sasuke demonstrava algum tipo estranho de senso de honra em sua relutância em feri-la enquanto ela estava encoleirada. Se o clã dos Uchiha fosse algo como os Hyuuga, ele deve ter sido criado com doutrinas rígidas sobre não machucar ou abusar daqueles mais fracos que ele.

E por mais que detestasse admitir, ela se adequava muito bem à descrição no momento. Sem a coleira, seria outra história, mas como as coisas estavam agora...

Agora, numa luta contra ele, ela tinha a mesma chance de uma bola de neve no inferno, como o ditado dizia. Talvez até menos.

Assim, visto que sua própria natureza não permitiria que ele a matasse, e visto que sua interação estava numa base instável, talvez fosse apenas natural que ele revertesse de volta ao modo como estava acostumado a se portar perto dela. Era o modo como ele estava acostumado a reagir a ela, e na falta de qualquer orientação, era isso que ele estava fazendo.

Sakura terminou seu café da manhã enquanto ponderava sobre o estranho comportamento de Sasuke, sem conseguir no entanto chegar a qualquer nova conclusão. Ela afastou os pensamentos tão logo terminou sua última fruta, entrando no banheiro pra pegar a senbon e continuar seu ataque na trava da coleira.

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Sasuke abriu a porta do quarto pra encontrar Sakura descansando no assento da janela, uma de suas mão embalando um copo de água e a outra jogando pra cima o que parecia ser uma pequena pedra.

"Querido, você chegou," Sakura disse.

Quando Sasuke não reagiu com nada mais do que um olhar vazio, ela revirou os olhos. "Nunca viu esse filme? O homem abre um buraco na porta com um machado e diz 'querida, cheguei'? Não te lembra nada?" (*2)

Ela podia ler em sua expressão que ele não fazia a menor idéia sobre o que ela falava.

"O que é isso?" ele perguntou, apontando com a cabeça o objeto que ela jogava pra cima e pra baixo.

"A semente do pêssego. Vê aqueles guardas vigiando a janela? Estou tentando decidir em qual deles atiro ela."

Sasuke lhe lançou aquele olhar que sugeria que formas de vida unicelulares tinham mais inteligência do que ela. "Isso é inútil."

"É, mas vai fazer eu me sentir melhor." Sakura ajustou a pontaria e lançou.

O guarda desviou a cabeça pro lado e deixou o projétil passar por ele – mas visto que ele havia tido tempo de sobra pra ver o objeto vindo em sua direção, Sakura não estava surpresa.

"Só pra te avisar, quebrei três de suas senbon," ela lhe disse conforme ele guardava sua espada.

Sasuke pareceu levemente irritado, mas não disse nada.

Ela não teve a intenção de quebrá-las – ela apenas havia ficado frustrada, colocando mais força enquanto tentava abrir a trava... e a senbon partiu em dois. Ela tentou novamente, e após cerca de meia hora de tentativas inúteis, a mesma coisa aconteceu. Quando ela quebrou a terceira, Sakura finalmente aceitou que não conseguiria nada.

Sakura começou a ter a sensação de que havia algum tipo de gatilho pra trava. Talvez reagisse à assinatura de chakra do homem que a colocou, talvez precisasse de um jutsu pra destravá-la... de qualquer maneira, ela tinha a impressão de que não sairia de seu pescoço tão cedo.

"E acho que lhe dei uma reputação de sádico," ela continuou.

Sasuke franziu a testa. Sádico? Como ela havia lhe dado uma reputação de sádico?

"Eu fui um pouco exuberante nas minhas tentativas de forçar a trava da coleira e acabei batendo o rosto no espelho," Sakura disse – de modo algum ela ia admitir que havia pulado de susto. "A mulher que trouxe a água viu e presumiu – e eu cito suas palavras – que você era o 'tipo que gosta delas com dor'. Assim, merecido ou não, a maioria dos escravos agora te considera um sádico.

"Merecido ou não?" Sasuke questionou com calma, imaginando porque ela parecia de fato considerar a idéia de que ele talvez fosse. Não sabia por que lhe incomodava ela achar que ele talvez fosse, sabia apenas que incomodava.

Sakura soltou uma arfada pelo nariz, indiferente. "Não vou nem especular no que Oto te transformou, Sasuke."

"Oto não me transformou em nada," ele disse de forma rude. "Esse lugar não me mudou."

Sakura lhe deu aquele mesmo sorriso triunfante que havia lhe dado quando percebeu que havia quebrado suas costelas. "Pode continuar dizendo isso pra você mesmo."

Com isso, ela levantou-se do assento da janela e entrou no banheiro, pronta pra examinar a coleira novamente após sua breve pausa para que sua mente descançasse.

Ela sabia que a discussão sobre ele retornar à Konoha teria sido a seqüência ideal praquela frase, mas ela podia ver em seus olhos que nada que dissesse teria qualquer impacto sobre ele. Pelo menos agora. Era melhor ter paciência e esperar por um momento quando seus argumentos causassem algum efeito. Se ela apenas martelasse a idéia, ele se acostumaria com isso e bloquearia qualquer tentativa sobre o assunto. Mas se ela aguardasse pelo momento certo e o atacasse com cada argumento e razão que ela pudesse pensar... bem, quem sabe o que aconteceria?

Sakura soprou uma mecha de cabelo de seu rosto em frustração conforme parou diante do espelho encarando o aparentemente inofensivo círculo de metal e couro que era a perdição de sua vida no momento. Teria sido bom saber antes que ela não conseguiria abrir a coleira, mas ela não havia tentado de verdade até agora. Quando ela estava sob o disfarce de Haru, era esperado que ela seguisse Sasuke dia e noite, assim, não havia tempo livre pra tentar se libertar. E apesar de ele tolerar suas tentativas de fuga à noite, ela não quis provocá-lo deliberadamente tentando forçar a coleira em sua presença.

Mas agora... agora que Sasuke sabia quem ela era, ela não tinha dúvidas de que ele não faria nada pra evitar suas tentativas de fuga, por mais flagrante que fosse.

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O som da porta se fechando conforme Sasuke deixava o quarto pro café da manhã tirou Sakura de seu sono. Ela piscou em direção à cobertura da cama por alguns momentos, pensando se deveria se levantar.

Nos últimos dias ela havia tentado tudo o que podia imaginar na coleira. Ela tentou abrir a trava, ela tentou quebrar a agulha na base, ela até mesmo tentou usar sua força provida por chakra. É claro, nada surtiu desta última tentativa – ainda que a coleira permitisse a liberação lenta de chakra usado para curar, parecia desenvolvida especificamente para bloquear rápidas descargas necessárias pra maioria dos jutsus, e em seu caso, sua força baseada em chakra. Ela não sabia como, mas presumiu que era uma característica de qualquer que fosse a toxina presente na coleira.

Assim parecia que ela teria que fugir com a coleira no pescoço. Sua melhor opção ainda parecia se disfarçar como um dos escravos, mas Sakura não estava alheia às dificuldades inerentes a tal plano. Ela precisava se certificar de quem quer que ela se transformasse, não estaria nem perto perto de sua rota de fuga – ela podia imaginar o que aconteceria se algum shinobi passasse por um escravo, e alguns minutos depois, passasse por outro igual ao primeiro.

Francamente, o cenário tinha desastre escrito sobre ele. Ela não podia ser descoberta até pelo menos passar pela muralha da vila.

Engraçado... havia sido mais fácil tentar escapar de uma base subterrânea do que desta vila. Se bem que, pra ser justa, na base subterrânea ninguém sabia quem ela era.

Uma fresta da porta se abriu e Sakura se virou na cama, imaginando se Sasuke teria retornado mais cedo. Mas não era Sasuke entrando pela porta. Era Kabuto.

Sakura sentiu todos seus músculos se contraírem como mola conforme adrenalina invadia todo seu corpo. Ela estava sozinha num quarto com Kabuto, sem uma arma imediata às mãos.

Isso não ia acabar bem.

Sakura balançou as pernas pro chão, e estava de pé em um momento, seus olhos fixos no médico de Orochimaru, esperando por qualquer movimento que ele fizesse.

Kabuto deu um sorriso cruel diante de seu óbvio receio. "Só estou fazendo uma entrega."

Ele lhe ofereceu uma pequena garrafa – contendo um líquido esverdeado e tampado com uma rolha –, e quando ela não se moveu para pegá-la, ele a colocou no criado mudo ao lado da cama.

"Um contraceptivo," ele explicou com calma. "Tenho certeza que você não gostaria de engravidar sob... essas infelizes circunstâncias."

Seus olhos pareceram afiar-se nesse instante, examinando ela como se fosse um biólogo tentando classificar um espécime particularmente fascinante.

Sakura não disse nada, observando o frasco.

"É extremamente potente – um gole por dia será suficiente," Kabuto continuou. "Me avise quando estiver acabando."

Com isso, ele deixou tão subitamente quanto havia entrado, fechando a porta atrás dele.

"E como eu devo avisá-lo, diga-se de passagem?" Sakura grunhiu, apesar de saber que Kabuto provavelmente esperava que ela o avisasse por meio de Sasuke ou um escravo qualquer.

Ela observou o frasco diante da luz, balançando gentilmente, avaliando a consistência e transparência. Ela tirou a rolha e cheirou. O odor permitiu que ela identificasse uma erva abundante no país do Fogo, conhecida por prevenir gravidez. À primeira vista parecia ser exatamente o que Kabuto dizia ser – um contraceptivo.

Mas algo não parecia certo pra Sakura. Se o líquido fora extraído da erva que ela julgara que fora, deveria ter uma coloração amarelada ao invés desta.

Dizendo pra si mesma que Kabuto não a envenenaria de forma tão descarada, e que ela provavelmente não sofreria nenhum dos efeitos negativos com uma simples gota, ela mergulhou o dedo no líquido e provou.

Tinha gosto de menta.

Sakura ficou alarmada. Ela sabia que a mistura usada pela maioria das mulheres em Konoha como anticoncepcional tinha um gosto amargo. Se isso tinha gosto de menta... era porque quem a preparou adicionou menta deliberadamente.

E Kabuto não lhe parecia o tipo de pessoa que faria uma mistura ter um gosto agradável pelo simples conforto do paciente. Assim, se ele havia adicionado menta, provavelmente estava escondendo algo. Alguma discrepância no gosto que a alertaria para o fato de não ser um mero anticoncepcional.

Era um insulto de tão óbvio. Que tipo de médica eles achavam que ela era?

Então... havia outro tipo de droga no frasco. Sakura apenas não sabia qual. Havia algo cutucando sua memória, uma vaga lembrança de Tsunade explicando sobre ervas... uma que tinha o mesmo cheiro do contraceptivo mas sem a mesma cor e gosto...

Compreensão a atingiu como uma pedra conforme Sasuke entrava no quarto.

"O que é isso?" ele perguntou, olhando para o frasco em sua mão.

Ele parecia perguntar isso bastante ultimamente. Mas Sakura supôs que ele tinha um bom motivo dessa vez – ela podia apenas imaginar a expressão em seu rosto enquanto ela encarava o líquido no frasco.

"Kabuto veio aqui e deixou isso pra mim," ela disse distraída.

Sasuke ficou tenso. Kabuto esteve aqui com Sakura? Sozinhos? Ele correu os olhos sobre ela rapidamente, procurando por qualquer ferimento ou indício de abuso, e tentou ignorar a sensação de alívio que sentiu ao não encontrar nada.

"Ele disse ser um contraceptivo," Sakura continuou, parecendo um pouco distraída enquanto sua mente dava voltas com possibilidades e explicações. "Ele mentiu."

"O que é isso?" Sasuke repetiu, sentindo uma inquietação subir pela espinha. Era veneno? Teria Orochimaru repensado sua decisão sobre Sakura e encarregado o médico de fazer o trabalho sujo?

"Tem o odor de uma erva contraceptiva," Sakura disse. "Mas a cor, e o fato de haver menta pra esconder o sabor... É na verdade uma erva pouco conhecida. Acredito que Kabuto presumiu que eu julgaria pelo odor e não conhecesse essa erva, uma vez que ela não cresce no país do Fogo."

"Então o que ela faz?" Sasuke perguntou irritado com suas respostas evasivas conforme se aproximou a estante de armas.

"Se eu bebesse isso, iria aumentar minhas chances de engravidar, não diminuir."

Sasuke congelou por um segundo no meio da ação de pegar sua kunai conforme sua mente processava a informação. Orochimaru... queria Sakura grávida dele? Foi por isso que ele permitiu que ele a mantivesse em seu quarto?

Sasuke não precisava se esforçar pra imaginar a razão por trás disso. Orochimaru queria imortalidade, então ele precisava outro corpo preparado para possessão após o de Sasuke. Se o Uchiha tivesse uma criança com Sakura, proveria a ele um futuro recipiente que teria o Sharingan.

E se Sakura pudesse passar seu incrível controle de chakra pra criança... Bem, Sasuke podia ver por que o sannin gostaria de ter tal criança como recipiente.

Sakura parecia ter chego à mesma conclusão. "Parece que Orochimaru quer uma horda de Sharingan à sua disposição, e aparentemente eu sou uma égua de procriação."

Visto a raiva em sua voz, Sasuke ficou surpreso quando ela levantou o frasco e tomou um gole. Mas quando ela se dirigiu ao banheiro e cuspiu na pia, ele entendeu. Ela estava fazendo parecer que eles estavam usando o contraceptivo, caso Kabuto decidisse fazer outra visita surpresa.

Diante desse pensamento, Sasuke contraiu o rosto. Ele não gostava da idéia de Kabuto ter acesso à Sakura, especialmente com ela encoleirada.

Ele estava preparado para um dos espiões de Orochimaru virem a esse quarto, mas ele nunca havia esperado que o sannin enviasse o médico. Ele não teria se preocupado se fosse um shinobi qualquer – eles se sentiam intimidados demais por ele pra arriscar, e assim, deixariam Sakura em paz por medo de irritá-lo. Mas Kabuto era diferente. Kabuto era perigoso.

E algo em Sasuke se rebelou contra a idéia de Sakura estar sujeita a inexistente piedade do médico.

Sakura estava enxaguando a boca pra eliminar qualquer vestígio da poção de Kabuto quando Sasuke largou algo no tampo da pia a sua frente. Ela cuspiu a água e observou o objeto – uma grande chave prateada.

"Tranque a porta quando eu sair," Sasuke disse simplesmente. "Não deixa ninguém entrar até estar certa de suas intenções."

Sakura pegou a chave, pesando ela em sua mão, seus dedos passando sobre o metal frio. Isto era certamente repentino. Uns dias atrás ele a avisou a não obrigá-lo a trancá-la no quarto , e agora estava lhe dizendo pra trancá-lo pra fora?

Ela resistiu a vontade de tentar dispersar um genjutsu.

Mas parecia que Sasuke já estava se arrependendo da decisão – ele estava encarando a chave em sua mão com seriedade gravada em sua expressão.

Sakura estava preste a dizer algo – ela não sabia o que, mas queria dizer algo – quando ele deu as costas e saiu pela porta, fechando-a abruptamente atrás de si.

Deixada só, Sakura encarou a chave como uma idiota por pelo menos um minuto inteiro antes de se aproximar da porta, colocar a chave na fechadura e girá-la de uma vez, ouvindo a tranca.

Do outro lado, Sasuke também pôde ouvir o som indicando que a porta havia sido trancada, e continuou pelo corredor, sua expressão se tornando mais séria. Ele não sabia por que havia esperado pela porta ser trancada, ou por que o som parecia ter acalmado algo nele que sequer sabia estar tenso.

Tudo o que sabia era que a idéia de Sakura em seu quarto, encoleirada e vulnerável a qualquer um que entrasse lá, o havia deixado inquieto de uma forma que ele não estava acostumado. Ainda que Kabuto fosse mais do que capaz de chutar abaixo uma porta trancada, Sasuke suspeitava que ele não arriscaria enfrentá-lo de forma tão deliberada.

Enquanto a porta estivesse trancada, Sakura estava relativamente segura.

'Eu não me importo, ' ele pensou. 'Eu lhe dei a chave num impulso. Eu não me importo com ela, eu não me importo... '

De algum modo, cada repetição fazia isso soar cada vez menos convincente.

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"Então, quando você entregou... como Sakura lhe parecia?" Orochimaru perguntou, seus olhos amarelos atentos e penetrantes apesar da pergunta aparentemente inofensiva.

"Ela estava receosa, mas não parecia estar machucada," Kabuto relatou. "O que não me surpreende – duvido que as predileções de Sasuke se inclinem a deliberadamente machucar sua parceira – mas não parecia como uma mulher que tivesse sido violentada também, apesar de estar dormindo na cama dele."

Orochimaru não disse nada, gesticulando pra que Kabuto continuasse sua avaliação.

"Eu sei que ela costumava ter uma paixão por ele, então é possível que ele a tenha seduzido." Kabuto deu um leve sorriso mordaz, obviamente duvidando disso. "Se bem que, depois daquela demonstração quando ela foi desmascarada, eu não acreditaria que nada além de força bruta poderia trazê-la pra cama de Sasuke."

Orochimaru refletiu sobre isso por um instante. Sua intenção original era de simplesmente entregar a kunoichi aos interrogadores, mas então uma opção ainda melhor se apresentou.

Ele poderia usá-la pra seus próprios propósitos – primeiro, para testar a lealdade de Sasuke. Por muito tempo Orochimaru suspeitava que seu futuro recipiente fosse muito mais apegado a seus antigos colegas do que alegava. Ele estava disposto a matá-los em seu último encontro, verdade, mas Orochimaru deu pouca atenção a isso. O ato de matar levava apenas um instante, um instante perdido em meio à adrenalina da batalha, e poderia trazer – e sem dúvida, às vezes trazia – arrependimentos mais tarde.

Mas pra Sasuke manter cativa em seu quarto a mulher que já fora sua colega, a sujeitando a contínuo abuso e violência... isso realmente demonstraria que Sasuke havia dado as costas pra Konoha definitivamente.

Mais do que isso, Orochimaru não descartava o potencial de poder que uma criança de Sasuke e Sakura poderia ter. Ele sabia que Sasuke não poderia ser seu recipiente pra sempre, sabia que eventualmente precisaria de outro – e que melhor recipiente do que uma criança de Sasuke?

Ainda, a descrição de Sakura que Kabuto lhe apresentou o deixou preocupado. Ele sabia que ela não consentiria a se deitar com Sasuke de livre vontade – ele duvidava que o Uchiha pudesse lançar mão de qualquer tipo de sedução, e a garota era leal demais a sua vila para ir pra cama com um traidor tão rápido por iniciativa própria, independente do quão próximos eles possam ter sido um dia.

"Talvez ela não esteja na cama dele," Orochimaru refletiu. "Pelo menos não no sentido que acreditamos que ela deveria estar. Mas porque alegar o contrário? A não ser que nosso querido Sasuke esteja amolecendo...?"

Kabuto não disse nada, mas seus olhos brilharam com uma intenção maliciosa.

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Kabuto passou pelo corredor como um leopardo atrás de uma gazela, se aproximando da porta no final deste em silêncio, querendo que sua entrada fosse tão inconspícua quanto possível. Ele pousou a mão sobre a maçaneta e a girou devagar, com cuidado... apenas pra encontrar resistência, uma barreira impedindo a completa rotação.

A porta estava trancada.

"Quem está aí?" veio a voz de Sakura do outro lado de dentro do quarto, seu tom tenso e acusador.

Um lento, cruel sorriso decorou o rosto de Kabuto conforme ele retornou pelo corredor sem nenhuma palavra.

Sasuke nunca trancava sua porta – ele não tinha nada de valor em seu quarto, e apenas um tolo teria tentado roubar algo do aprendiz de Orochimaru. E mesmo assim, na mesma manhã em que Kabuto havia entrado no quarto por uma porta destrancada pra entregar o anticoncepcional para a solitária Sakura... a porta foi trancada pouco depois.

Kabuto sabia que não era coincidência.

Ele não pôde conter a leve risada que escapou de sua garganta. "Interessante..."


"Bons amigos são difíceis de se encontrar, mais difíceis de se deixar, e impossíveis de se esquecer."

- Anônimo


NOTAS:

(*1) Armas semelhantes a agulhas metálicas.

(*2) Referência ao filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, de 1980. Um dos mais famosos filmes de terror e suspense já feitos.

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Espero que tenham curtido pessoal! Próximo capítulo: Maquinações.

Não esqueçam: reviews, reviews, reviews. :P

Amo ouvir o que vocês estão achando da estória.

bjs!

dai86