É isso aí galera... penúltimo capítulo de Ripples.

Curtam!

dai86


"Uma medida muito pequena de esperança é o suficiente pra fazer nascer o amor."

- Stendhal


Capítulo 25

Refúgio

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Neji suspirou – ele sabia que se transformar em Sasuke e tentar sair da aldeia seria difícil, mas não esperava que fosse tanto assim.

Neste momento, ele e Tenten estavam sendo perseguidos por quatro chuunins, e Neji estava se esforçando ao máximo pra manter distância suficiente pra que eles não notassem quando ele e Tenten desfizessem a transformação e dessem meia volta.

"Isso seria muito mais fácil se eu pudesse fazer alguma coisa de fato..." Tenten murmurou contra o peito de Neji.

"Você está sedada, lembra?"

"Eu sei, eu sei – é só que isso é um saco!"

Neji continuou correndo em silêncio por alguns instantes - bem, silêncio exceto pelos gritos de seus perseguidores.

"Você realmente acha que isso vai funcionar?" Tenten perguntou conforme Neji saltava sobre a muralha da aldeia.

"Eles vão suspeitar que usamos sósias para despistá-los," Neji admitiu. "Mas vão assumir que Sakura e Sasuke deixaram a aldeia, então irão concentrar as buscas na região ao redor de Konoha."

"Certo... então o quão longe nós - bem, você – precisa correr?" Tenten perguntou. "Uma milha mais ou menos deve ser suficiente."

"Vamos nos afastar duas milhas só pra garantir."

Tenten concordou, então suspirou ao ouvir o som dos perseguidores conforme eles escalavam a muralha.

Ela se sentiria muito melhor nessa situação se deixassem que ela atirasse suas shuriken.

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Shikamaru olhou para a mulher em seus braços. Mesmo levando em consideração o fato de que Ino estava fingindo ser uma Sakura sedada, ela estava estranhamente silenciosa. Ele havia esperado uma ameaça pra não deixá-la cair, no mínimo.

A razão de seu silêncio se revelou quando eles saltaram a muralha. Ino limpou a garganta, e então perguntou em voz baixa, "Você acha que ela vai ficar bem?"

Shikamaru não precisava perguntar a quem ela se referia. "Tenho certeza que sim."

"Seus dedos pareciam mal..."

"Mas foram apenas os dedos," Shikamaru lembrou. "Acho que Sai e Sasuke chegaram lá antes que qualquer dano permanente fosse feito."

Algo lhe dizia que se houvesse qualquer ferimento mais grave, os interrogadores de Sakura teriam sofrido conseqüências mais sérias. Sasuke lhe parecia impiedoso assim.

"É, Sasuke vai cuidar dela," Ino assentiu, e de repente deu um sorriso maroto, como se soubesse algo que ele não sabia.

O primeiro instinto de Shikamaru foi perguntar exatamente o porquê daquela expressão, mas sua longa experiência com Ino lhe dizia que seria melhor não saber.

"Ei, Shikamaru, é melhor você não me derrubar."

"Mulher problemática..."

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"V-você acha que Ki-Kiba vai ficar bem?" Hinata perguntou conforme ela e Shino percorriam seu caminho pela floresta.

Ela tinha ouvido falar sobre a mistura que Kiba tinha "acidentalmente" derrubado na sala de jantar de sua família, no meio de uma reunião do clã. Agora, cada Inuzuka e seu cão estavam no hospital, nocauteados por um golpe potente e súbito em seus sentidos olfativos.

"Ele vai acordar em poucas horas," Shino respondeu.

Ele iria acordar com uma tremenda dor de cabeça e um nariz irritado, e seu clã iria esfolá-lo vivo, mas ele se recuperaria em poucos dias.

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"Você sabe, o fato de você ter disparado da vila em menos de três segundos provavelmente convenceu qualquer um de que você não é Sasuke," Chouji comentou, dispersando sua transformação com um certo senso de alívio.

Ele esteve mantendo o jutsu para ambos, já que Lee tinha dificuldade em executar ninjutsu. E ele não estava realmente confortável fingindo ser uma garota, muito menos uma garota que ele conhecia.

"Bobagem," Lee bufou. "Naruto informou que Sasuke havia evoluído muito em velocidade durante esses anos em que esteve com Orochimaru - eu acredito que minha velocidade nos fez as duplicatas mais fiéis, graças também à sua ótima técnica de transformação."

Chouji assentiu distraidamente conforme retornavam para a aldeia, já sentindo um desejo por algumas batatinhas de churrasco e automaticamente perdendo a atenção para as proclamações exageradas de Lee sobre como ele estava feliz por Sakura estar bem.

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"Como é que... já é noite?" Sakura perguntou, com a cabeça tombada.

Sasuke baixou os olhos em sua direção, mas não conseguia ver nada no breu do esconderijo do clã Uchiha. Ela não parecia ciente do fato de estarem no subsolo, mas, visto que ele havia teleportado ambos para lá, supôs que não havia razão pra que ela notasse.

Sasuke colocou Sakura no chão cuidadosamente, observando a camada de poeira que o cobria, e começando a se perguntar se esse plano havia realmente sido bem pensado. Se Sakura teria que ficar escondida aqui enquanto ele lidava com os membros do Conselho, então precisava ficar confortável, e não havia nada no distrito Uchiha que estivesse num mínimo estado de conservação. Claro, tudo havia sido limpo e consertado após o massacre, e ele havia estado aqui algumas vezes antes de partir pra se juntar a Orochimaru – mais pra vagar pelas ruas e se lamentar - mas isso havia sido anos atrás.

Sasuke de repente ficou tenso quando sentiu um pico de chakra no complexo Uchiha. Desconfortável com a idéia de deixar Sakura, mas precisando abordar essa possível ameaça, ele executou uma rápida transformação para dar a si mesmo cabelos loiro, olhos verdes e uma menor estatura, antes de se teleportar para a área onde sentiu a assinatura de chakra.

Então ele se viu no telhado de uma construção, sob a ofuscante luz do dia, olhando para baixo na direção de Sai. O antigo membro da Root tinha uma pequena mochila sobre um ombro, e olhava ao redor como se procurasse alguma coisa.

Adivinhando o que ele estaria procurando, Sasuke saltou para o chão na frente dele. "Sou eu, Sasuke."

Sai, tendo automaticamente ficado tenso quando alguém surgiu a sua frente, relaxou diante das palavras do Uchiha. "Oh, olá Sasuke."

Ele deu outro de seus sorrisos inquietante. "Lady Tsunade achou prudente lhe trazer suprimentos. Há também alguns comprimidos pra cortar o efeito da droga que Danzo deu a Sakura."

"Você não a chamou de feiosa," Sasuke observou.

Sai encolheu os ombros. "É menos interessante quando ela não está por perto pra ouvir."

Sasuke agarrou o ombro de Sai e transportou ambos para o local secreto. Ele sentiu Sai se incomodar com a mudança repentina de luz para completa escuridão, mas ele não expressou nenhuma outra reação.

Shinobis estavam acostumados a trabalhar sem luz, e Sasuke podia ouvir Sai vasculhando com facilidade e eficiência a mochila que trouxe. Logo ele riscou um fósforo e acendeu uma pequena vela.

Ele a colocou no chão, sua luz brilhando contra a pedra dura e polida das paredes, refletindo de forma opaca na poeira que se acumulou no piso ao longo dos anos. Sakura piscou diante do brilho repentino, franzindo a testa em confusão, como se não tivesse certeza do que estava acontecendo.

"Sasuke... minha mão está doendo..." ela sussurrou, e o coração de Sasuke se apertou ao notar a confusão e dor em sua voz.

"Não mexa ela," disse num tom reconfortante, movendo-se para perto dela e agarrando seu pulso esquerdo enquanto ela tentava levantar a mão de seu estômago.

Ele teve que engolir seco quando viu novamente seus dedos contorcidos em ângulos que não seriam capazes de manter se os ossos estivessem intactos. Ele se esforçou pra não olhar pra eles enquanto a tiravam do prédio de interrogatório, não querendo encarar a dura realidade de que ele e Sai tinham chegado tarde demais, que a tortura já havia começado quando eles a encontraram.

Ele podia sentir alguma satisfação - por mais sombrio que fosse – no fato de que o homem que havia ordenado sua tortura estava morto.

Danzo estava morto. O primeiro dos membros do Conselho que tinha ordenado o massacre Uchiha.

Sua família - Itachi incluído – estava um passo mais próxima de ser vingada. É claro, ainda tinham que lidar com Madara, mesmo após o Conselho, mas Sasuke estava disposto a ser paciente com ele. Afinal, era apenas uma questão de tempo antes de Konoha, Suna e qualquer outra vila quisesse se unir pra acabar com a ameaça da Akatsuki, e ele teria sua chance de lidar com Madara.

Ele percebeu que Sai havia trazido quatro cobertores, várias garrafas de água e algumas barras de cereal na mochila, dispondo tudo ordenadamente no chão na frente dele.

Então ele enfiou a mão na mochila uma vez mais, tirando uma pequena bolsinha, a qual ele virou pra derrubar dois comprimidos na palma da mão.

"Você precisa tomar isso," Sai disse a Sakura, oferecendo as pílulas em uma mão e uma garrafa de água na outra. "Eles vão fazer você se sentir melhor."

Sakura sorriu, e estendeu a mão direita para agarrar desajeitadamente as pílulas. "Você é meu amigo, Sai..."

"Sim, eu sou," Sai concordou sem o tom zombeteiro que as pessoas normalmente usavam quando se fala com alguém em estado alterado - Sai soou como se estivesse simplesmente confirmando uma observação.

Sakura teve alguma dificuldade em coordenar sua mão pra colocar as pílulas na boca, e em seguida tomar um gole da garrafa de água, mas eventualmente conseguiu, e engoliu os dois comprimidos antes de se deitar novamente, observando seus dedos quebrados com a testa franzida.

"Ainda dói," ela murmurou. "Você disse... que iria melh-melhorar..."

Sasuke olhou para Sai.

"Eles não são analgésicos," Sai explicou, falando mais para Sasuke. "A Hokage disse que iria cortar os efeitos das drogas o suficiente para permitir que ela curasse seus próprios dedos... mas eles demoram um pouco para funcionar."

Sasuke assentiu distraidamente, enrolando um cobertor e ajeitando ele atrás da cabeça de Sakura pra servir como um travesseiro improvisado, tirando sua cabeça do chão duro e empoeirado.

Ela estava tremendo um pouco, e só agora Sasuke percebeu que as paredes de pedra tornavam a temperatura nesta sala muito fria, e então colocou outro cobertor sobre seu corpo, tomando cuidado com sua mão esquerda.

"Lady Tsunade também disse para ter cuidado e garantir que ninguém te reconhecesse," Sai acrescentou. "E que você vai ter que agir rapidamente – quando há um ataque contra um dos membros do Conselho de Konoha, a segurança sobre os outros membros é reforçada."

Sasuke torceu o nariz. Tsunade queria que ele assassinasse os anciãos agora? Não que ficasse escondido por alguns dias conforme o plano original? Mas é claro, o plano original não envolvia matar um membro do Conselho enquanto resgatavam Sakura do interrogatório.

Mas... ele não queria deixar Sakura sozinha, enquanto estivesse nesse estado. Mesmo sabendo que Sai poderia cuidar dela, isso não diminuía a necessidade de ficar com ela, de mantê-la sob sua guarda, se assegurar que nada assim jamais acontecesse novamente...

Mas a lógica fria venceu, dizendo que a melhor maneira de garantir que isto nunca mais acontecesse de novo era lidando com os outros conselheiros - e de forma rápida, antes que a notícia da morte de Danzo se espalhasse.

"Você fica com ela?" ele perguntou em voz baixa.

Sai assentiu com a cabeça, sua expressão mais solene do que neutra, como se entendesse como era difícil pra Sasuke entregar a guarda de Sakura.

"Você pode achar reforços fora dos portões," Sai disse de forma críptica, pouco antes de Sasuke se teleportar pra fora do local do esconderijo.

O Uchiha surgiu no templo acima, pensando sobre as palavras de Sai. Reforços? Quem?

Ele se transformou num civil idoso, e lentamente se dirigiu até os portões do complexo Uchiha, um pouco confuso quando encontrou duas meninas, aparentando cerca de dez anos de idade, jogando amarelinha.

Então estudou o chakra delas, e percebeu que estava olhando para indivíduos muito mais poderosos do que simples crianças.

"Vocês são meus reforços?" ele perguntou numa voz duvidosa.

As meninas imediatamente interromperam o jogo, olhando para ele. A morena assentiu, balançando rabo de cavalo, enquanto a loirinha de tranças fez uma careta.

"É melhor apreciar isso bastardo," ela sibilou, e Sasuke percebeu que estava olhando para um Naruto sob henge. "Este é o pior disfarce que existe!"

"Alguém poderia pensar que você estaria acostumado com isso," Sasuke comentou. "Com aquele seu jutsu estúpido."

"Não é estúpido, cretino, é pura genialidade – queria ver você criar algo tão bom! E é uma coisa se passar por garota, e outra se passar por uma garotinha pequena!"

"Pra que o disfarce?" Sasuke se viu perguntando. "Certamente vocês podem andar pela aldeia sem problemas?"

Ele podia entender a necessidade de se disfarçar quando estivessem se aproximando do local onde atacariam os membros do Conselho, mas andar pela aldeia disfarçados parecia desnecessário.

"A notícia da sua fuga com Sakura do interrogatório já se espalhou," a garotinha de cabelos negros explicou, e Sasuke reconheceu o modo preguiçoso, quase arrastado de Kakashi falar, ainda que a voz soasse vários oitavos mais aguda. "Alguns dos sósias foram vistos passando pela muralha – o que é bom, já que a ANBU vai concentrar suas buscas fora de Konoha – mas eles provavelmente vão querer nos questionar, e não podemos nos dar ao luxo de ter esse contratempo. Yamato provavelmente já se livrou do corpo de Danzou, e prendeu aqueles agentes Root numa das celas de interrogatório, mas é apenas uma questão de tempo até que eles recobrem a consciência. E ainda que as pessoas costumem gritar muito nas celas de interrogatório, se ouvirem gritos sobre um ataque contra membros do Conselho, não vai demorar muito até que alguém dê atenção.

Sasuke balançou a cabeça, e se dirigiu para a aldeia, aparentando ser nada mais que um senhor de idade com suas netas.

"Os membros do Conselho provavelmente estarão no tribunal agora," Kakashi disse calmamente. "Tratando os poucos problemas civis existentes na vila nesse momento. O que é bom, pois significa que teremos uma audiência bem rápido, e tudo o que temos a fazer é fazer uma solicitação no tribunal. E quando o que quer que eles estejam julgando estiver terminado, ou quando o tribunal entrar em recesso, vamos poder entrar na câmara. Naruto e eu vamos cuidar dos guardas."

Ficou implícito que os membros do Conselho seriam deixados a cargo de Sasuke.

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Sakura suspirou, e resistiu ao impulso de apertar a testa com os dedos recém-curados. Mas ela estava se debatendo com um problema muito estranho - tentando explicar o conceito de amor para Sai.

Um pouco depois que ela 'despertou'- ou pelo menos, que recuperou sua coerência - Sai lhe deu uma versão resumida do que tinha ocorrido, e do que Sasuke estava fazendo agora, e então, lhe perguntou o que tinha deixado ele tão ansioso para ir atrás dela quando souberam do que Danzo havia feito, por que ele ficou tão furioso quando descobriu que ela havia sido ferida, e por que ele próprio pareceu não se importar quando Sasuke matou Danzo.

Sakura havia explicado que eles eram amigos e, portanto, se amavam, sendo assim angustiante ver o outro em dor. E quando eles achavam que o outro podia estar sofrendo, ficavam ansiosos para evitar isso, e muitas vezes sentiam o ímpeto de machucar as pessoas que causavam esse sofrimento.

"Então... você está dizendo que eu te amo..." Sai disse lentamente.

Sakura balançou a cabeça, balançando seus dedos consertados pra testar sua flexibilidade. "Olha, Sai... somos amigos, certo?"

"Sim," Sai confirmou numa voz firme.

"Bem, isso é um tipo de amor, entende?"

Ela podia ver pela expressão Sai que ele não entendia de verdade, mas ele parecia estar refletindo profundamente, então Sakura manteve seu silêncio e deixou que ele processasse o que quer que estivesse em sua cabeça.

"Mas eu não quero fazer sexo com você," ele disse finalmente.

Sakura engasgou, encarando ele de olhos esbugalhados.

"Eu achei que quando você amasse alguém, você gostaria de ter relações sexuais com essa pessoa," Sai continuou, obviamente intrigado.

Sakura podia praticamente sentir seu cérebro tentando quebrar seu crânio pra fugir dessa conversa. Senso comum lhe dizia pra simplesmente terminar a conversa, mas ela e Naruto haviam aprendido que era muito melhor tropeçar através de uma explicação do que deixar Sai andar por aí com conceitos equivocados e idéias mal-formadas na cabeça.

"Bem, não exatamente... existem tipos diferentes de amor..."

"Então você está dizendo que você pode amar alguém sem querer fazer sexo com essa pessoa?"

"Sim, sim, é exatamente isso o que estou dizendo."

Sai franziu a testa. "Mas você é uma garota."

Sakura não conseguia ver o nexo desse comentário. "E daí?"

"Estatisticamente, há mais heterossexuais do que homossexuais na população, por isso é mais provável que eu seja heterossexual. Portanto, se eu sou atraído por mulheres, não vejo como eu poderia te amar sem querer fazer sexo com você."

"Tem tantas coisas erradas nessa frase que eu nem sei por onde começar," Sakura pensou atordoada. "Sai, você... você... você não pode decidir sua orientação sexual com base em estatísticas! Você tem que tomar a decisão por si mesmo!"

"Oh".

Diante da expressão confusa de Sai, Sakura sentiu uma pontada de simpatia. De certa forma, fazia sentido que ele fosse tão perdido sobre coisas como amor e sexo - ela tinha a impressão que, de todas as emoções e impulsos, Root teria se esforçado em suprimir estes mais do que quaisquer outros, já que eram os mais prováveis em interferir com os deveres de um shinobi. Ele até mesmo se referia ao irmão como uma pessoa com quem tinha um "vínculo" - ele não tinha realmente chamado de amor.

Como amiga de Sai, Sakura sentiu que era seu dever pelo menos tentar explicar isso para ele.

Independente do quão desconfortável esta conversa parecia, ou o quão difícil era descrever algo tão elementar como sexo ou amor.

"Sua orientação sexual é... é..." Sakura franziu o rosto, enquanto lutava pra encontrar uma maneira de explicar isso para Sai. "Bem, veja dessa forma – pense nas pessoas com quem você gostaria de fazer sexo, se lhe fosse dada a chance. Você sabe, as pessoas pra quem você olha e acha que são atraentes."

Sai abriu a boca, e Sakura levantou a mão pra brecar qualquer coisa que ele pudesse dizer. "Não me diga quem são!"

Sua mente já estava tendo dificuldade em lidar com 'sexo' e 'Sai' na mesma frase. Ela não achava que poderia lidar com qualquer imagem mental. Ainda assim, pelo lado bom, essa conversa estava preparando ela para aquele momento num futuro distante quando tivesse filhos e teria que discutir os "fatos da vida" com eles.

"Olha, se as pessoas em que você pensou forem mulheres, então você é heterossexual. Se forem homens, então você é homossexual. Se você pensou em homens e mulheres, então provavelmente você é bissexual, ok?"

Sai acenou com a cabeça, parecendo um pouco mais esclarecido.

Por um momento obscuro, Sakura imaginou o que exatamente Root vinha fazendo com ele pra suprimir de forma tão completa qualquer reconhecimento de desejos sexuais, mas logo interrompeu essa linha de pensamento. Não havia nada que pudesse fazer sobre isso agora - Danzo estava morto, o condicionamento havia acabado, e tudo o que ela e Naruto podiam fazer era tentar desfazer um pouco dos danos.

"Agora, de volta para o lance do amor," Sakura continuou, determinada a trazê-los de volta para aquele tópico. "Você já viu famílias, certo? Irmãos e irmãs? Bem, nós somos assim."

"Mas nós não somos relacionados por sangue."

"Não, mas somos uma família mesmo assim," Sakura disse, sorrindo de leve ao pensar no grupo unido, e um pouco disfuncional que formavam. "Como... como seu irmão."

Ela estava um pouco hesitante em comentar sobre o shinobi já falecido há tanto tempo, mas não conseguia ver nenhuma outra maneira de fazer Sai entender.

"Família..." Sai murmurou. "E as famílias não podem deixar uns aos outros, certo?"

Sakura piscou, um pouco surpresa com esta linha de questionamento. "Não, não podem."

"Então eu não posso deixar você, e você não pode me deixar."

"Exatamente."

Sai balançou a cabeça, e havia um senso de satisfação nele, como se ela tivesse aplacado uma preocupação que o assolava há algum tempo. "Bom."

Sakura olhou para a vela que ainda queimava, notando que quase metade de seu pavio havia sido consumido, e sentiu a familiar pontada de preocupação em seu estômago.

Sai havia lhe dito que Sasuke havia partido antes que ela estivesse completamente coerente, e que ele, Kakashi e Naruto iriam lidar com os membros restantes do Conselho.

Sakura só esperava que tudo estivesse correndo conforme planejado.

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Um rápido pensamento passou pela mente de Naruto de que deveria ser madrugada. Ou noite pelo menos. Nos filmes, o herói nunca dava início a uma conspiração enquanto o sol ainda estivesse brilhando no céu.

Mas ele supôs que era essa a idéia – isto não era um filme, não havia vilões completamente malvados, nem heróis sem máculas. Afinal, um homem que passou a maior parte de sua vida treinando pra matar seu último parente vivo, chegando ao ponto de abandonar seu lar e amigos, dificilmente era o típico herói. Assim como dois anciões que passaram a maior parte de suas vidas tomando decisões para o bem da aldeia como um todo dificilmente eram típicos vilões.

Mesmo Sakura tinha admitido que os Uchiha estavam prestes a mergulhar Konoha numa guerra civil que poderia ter aniquilado a aldeia se o Conselho não tivesse dado a ordem para Itachi matá-los. Eles haviam agido pelo ideal do 'bem maior'... e se isso fosse verdade, como poderiam puni-los – assassiná-los – por isso?

"Porque os fins nunca justificam os meios," Naruto disse a si mesmo, respondendo à sua própria pergunta. "Simplesmente não pode ser assim. Nós não podemos ser assim - não dentro da aldeia. E Sakura havia dito que o velho Sarutobi estava tentando encontrar uma maneira de falar com eles, mas o Conselho só queria se livrar deles.

Naruto piscou quando as pessoas ao redor deles começaram a esvaziar o tribunal, interrompendo seus pensamentos. Seus olhos se voltaram para os dois membros do Conselho, que estavam saindo da sala com seus guarda costas, e percebeu que chegara o momento.

Ele se levantou juntamente com Sasuke e Kakashi, percorrendo a multidão em direção à porta protegida, com seus chakras cuidadosamente suprimidos, esperando até que o último civil deixasse a sala.

Sasuke imaginou que se fosse realmente tão fácil assim, como os membros do Conselho não haviam sido assassinados até hoje? Então se lembrou de que Tsunade também tinha uma mão nisso - ele não teria ficado surpreso se ela tivesse ordenado que a guarda fosse reduzida, e que tivesse indicado para Homura e Koharu guarda-costas incompetentes, ou novatos.

Bem, melhor pra eles.

"Minhas netas e eu queremos solicitar uma audiência com os honrados conselheiros," Sasuke disse, tendo o cuidado de manter a voz reverente, não permitindo que nenhum indício do ódio virulento fervendo em suas veias vazasse em sua voz.

Os shinobi se entreolharam como se não tivessem certeza de como proceder, e Sasuke percebeu que Tsunade tinha realmente colocado recrutas novatos pra proteger o Conselho.

Mas mal concluiu esse pensamento antes de Kakashi e Naruto saltarem a frente, seus disfarces se dissipando, aproveitando o momento de distração dos ninjas.

Kakashi pôs a mão sobre a boca da kunoichi e acertou alguns nervos em seu pescoço, deixando ela inconsciente ao mesmo tempo em que evitava o golpe instintivo que ela executou com a espada.

O shinobi ao lado dela caiu no chão com um baque - Naruto não se deu ao trabalho de acertar nenhum nervo, e simplesmente acertou o homem como um trem de carga, lutando com ele por uma fração de segundo antes de conseguir acertar a cabeça do shinobi contra a parede com tanta força que o homem perdeu a consciência.

Sasuke cruzou a porta, dispersando a transformação conforme entrava na sala. Ele queria que esses conselheiros soubessem quem tinha vindo pra destruí-los.

Foi quase risível o quão simples a sala aparentava, considerando que abrigava duas pessoas que calmamente ordenaram o massacre de sua família inteira.

Exigiu um grande esforço pra controlar sua raiva. Mas se ele havia sido capaz de fazê-lo no tribunal e diante Danzo - quem, dentre todos eles, realmente merecia um final doloroso - então certamente poderia controlá-la agora.

Mas quando tinha confrontado Danzo, ele estava mais preocupado com Sakura do que qualquer outra coisa. Houve uma satisfação cruel que uma das pessoas que tinha arquitetado o massacre de seu clã e forçado seu irmão numa situação impossível, finalmente tivesse pago por seus crimes, é verdade. Mas isso havia ficado em segundo plano naquele momento. E no tribunal, ele se manteve calmo dizendo a si mesmo repetidamente, que sua hora chegaria.

E agora que ele estava aqui, sentia dificuldade em não permitir que sua fúria corresse solta.

Estranhamente, nem Homura e nem Koharu pareciam surpresos com sua aparição - na verdade, pareciam quase serenos.

"Eu imaginei que você viria em breve," Koharu disse simplesmente, recostando-se na cadeira.

Foram apenas seus anos de prática que possibilitaram que Sasuke escondesse seu choque.

"Quando Danzo nos disse o que Haruno sabia, e o que ele planejava fazer a respeito, eu soube que era apenas uma questão de tempo," ela continuou.

"Você ajudou ele a prendê-la?" Sasuke perguntou, sentindo uma nova fúria dentro de si.

Homura balançou a cabeça negativamente. "Não - Haruno é uma leal kunoichi de Konoha, não havia motivos pra prendê-la. Agimos pelo bem da vila, e aceitaremos as conseqüências."

Não era exatamente o que Sasuke estava esperando.

"Você nunca esteve numa posição onde milhares de vidas dependessem de suas decisões," Koharu bufou ironicamente, como se sentisse a repentina hesitação do Uchiha. "Você é apenas uma criança, então não espero que você compreenda, mas tomamos a decisão certa."

E simplesmente assim, a fúria de Sasuke retornou numa onda de calor, e sua lâmina relampejou conforme ele a deslizou pelo ar e através das gargantas dos conselheiros.

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Sai observou conforme Sakura percorria a sala em que estavam escondidos, correndo os dedos ao longo das paredes, como se procurasse falhas.

"O que você está fazendo?" ele perguntou, imaginando se havia alguma outra passagem escondida que ele desconhecia.

"Há pequenos buracos ao longo da parede," Sakura respondeu sem olhar pra ele. "Eles devem ir até a superfície – tem ar saindo deles."

"Oh". Sai supôs que isso explicava por que mesmo estando ambos lá por tanto tempo, juntamente com uma vela queimando constantemente, não sentiram o oxigênio escasso. Os buracos provavelmente se ligavam a tubulações que canalizavam ar a partir da superfície - se o clã Uchiha usava este espaço para suas reuniões secretas, eles teriam previsto uma fonte externa de ar.

"Então... o que acontece quando Sasuke voltar?" Sakura não pôde deixar de perguntar.

"Lady Tsunade disse que você e Sasuke talvez tenham que ficar aqui até amanhã, enquanto ela ajeita a situação," Sai disse.

Sakura torceu o nariz - ela não invejava a tarefa de sua mentora de "ajeitar" três conselheiros mortos e um suposto ninja foragido.

É claro, assumindo que tudo tenha corrido conforme o planejado...

Uma nuvem de fumaça surgindo atrás dela fez Sakura girar para encontrar Sasuke de pé ao lado Sai, suas feições demarcadas por sombras causadas pela luz da vela.

Mas as sombras não a impediram de notar que seus olhos a encontraram imediatamente. "Você está bem."

Não era uma pergunta, soava mais como uma declaração de que era melhor que ela estivesse bem, ou alguém iria sofrer.

"Sim – o efeito da droga já passou completamente agora." Sakura balançou os dedos pra mostrar que estavam novos em folha. "E você? Você conseguiu-"

Sakura fez uma pausa, engolindo seco - era estranho pensar que Sasuke estar aqui significava que os membros do Conselho estavam mortos.

"Correu tudo... tudo bem?" ela perguntou sem jeito, incapaz de elaborar a frase de forma melhor.

"Hn".

Sakura suspirou, assumindo que aquilo queria dizer que 'tudo' havia corrido tão bem quanto seria de se esperar.

"Isso é bom," Sai disse, sorrindo. "Eu irei falar com Lady Tsunade agora."

"Espera!" Sakura chamou, se apressando em sua direção.

Ela não tinha idéia do que estava errado com Sai, mas podia sentir que algo o incomodava. Algo que levou Sakura a envolvê-lo em seus braços como se fosse um menino carente de consolo.

Sai estava tenso em seu abraço, imóvel enquanto tentava determinar o que deveria fazer.

"Você precisa me abraçar de volta," ela o repreendeu.

"A última vez que fiz isso, você gritou comigo."

"Só porque você agarrou meu bumbum." Sakura pensou ter visto Sasuke ficar tenso. "Naruto te explicou sobre isso, certo?"

Sai assentiu com a cabeça. "Sim, ele me disse sobre a diferença entre o que amigos podem fazer e o que namorados podem fazer."

Sakura soltou um leve suspiro de alívio quando sentiu os braços de Sai cercá-la - ela não apreciava a idéia de ter que explicar aquilo pra ele também (a conversa anterior tinha sido estranha o suficiente). Juntos, ela e Naruto tinham chegado à conclusão que Sai provavelmente havia tido a idéia de apalpá-la observando um casal se abraçando.

Sakura o soltou, e Sai deu um adeus bizarramente alegre para Sasuke antes de se teleportar pra longe, para o templo acima deles ou direto para o escritório de Tsunade. Sakura não sabia, e uma grande parte de si não se importava - essa era a primeira vez que ela e Sasuke estavam sozinhos desde que Ino tinha especulado sobre o motivo para aquele beijo... ou pelo menos, a primeira vez que estavam sozinhos e ela estava coerente.

Ela observou Sasuke tomar um longo gole de uma das garrafas que Sai tinha trazido pra eles, tentando reunir coragem para abordar o assunto. O que ela poderia dizer? Ei Sasuke, por que você me beijou aquela vez antes de Itachi me seqüestrar?"

Mesmo em sua cabeça, soava estúpido. Mas...

Ino tinha dito que ele a amava. Analisando o comportamento de Sasuke tão objetivamente quanto possível pra ela (tentando ignorar a forma como seu coração acelerava diante do mero pensamento de Sasuke ter mais do que uma afeição platônica por ela), ela podia admitir que fosse possível.

Mas apenas possível, e longe de ser certo. Se ele não sentisse nada por ela, e ela forçasse o assunto... Sakura poderia perder qualquer respeito que tivesse ganho dele, fazendo Sasuke acreditar que ela era a mesma garota apaixonada que ele havia deixado pra trás há tantos anos. E se ele sentisse algo, e ela forçasse o assunto... e então? Com tudo o que aconteceu nos últimos dias, com toda a dor que Sasuke estava carregando... eles tinham alguma esperança de fazer um relacionamento funcionar? Ou iria tudo por água abaixo, deixando apenas ruínas a partir das quais nem mesmo uma amizade distante pudesse ser salva?

Agora seria mesmo o melhor momento de abordar o assunto? Ele tinha acabado de matar os membros do Conselho - certamente aquilo tinha sido tumulto emocional suficiente pra um dia... talvez ela devesse esperar? Mas se ela deixasse pra depois, ainda que apenas uma vez, será que teria coragem de tentar abordar o assunto novamente?

"O que há de errado?" A voz de Sasuke invadiu seus pensamentos.

Sakura percebeu que ela estava encarando ele com Deus sabe lá que expressão em seu rosto - Sasuke devia achar que ela estava enlouquecendo.

Por um momento, Sakura se sentiu tentada a deixar pra lá como se não fosse nada, a rir e se virar, esquecer o que tinha acontecido e o que Ino tinha dito...

Mas ela não o fez. Porque ela havia aprendido a enfrentar seus medos... e porque ela tinha que saber.

"Sasuke... Eu tenho que te perguntar uma coisa..."


"E quando o futuro depender das próximas palavras a serem ditas, não deixe a lógica interferir, confie em seu coração ao invés disso."

-Philip Robison


No próximo update pessoal... capítulo final de Ripples.

Apesar de ser uma tradução de uma fic finalizada no começo de 2009, guardei uma surpresa para vocês.

Espero que gostem.

Até! (não esqueçam dos reviews e dos votos na enquete do meu profile sobre a próxima fic a ser traduzida...)

dai86