Rowena tinha mania de ficar até tarde preparando suas aulas das semanas seguintes. Já eram duas da manhã e a vela estava quase chegando ao fim.

Sentiu seus olhos arderem e descansou a mão.

- Hum...uma hora eu tenho que dormir. – Levantou-se e pegou os vários pergaminhos na escrivaninha. Enrolou-os e abriu o armário onde guardava suas coisas.

Já estava mais do que lotado.

- Um espacinho...um espacinho... – sussurrou procurando uma brecha para colocá-los. – Ah! Aqui! – tentou enfiar os pergaminhos em um canto, mas de repente perdeu o equilíbrio e tudo caiu em cima dela fazendo um grande barulho. – AH DROGA.

Sua porta abriu de forma brusca, o que a fez tomar um susto. Olhou em direção do fim do quarto e viu que Godric estava de pijama, com varinha em punho e olhar de sono.

- O que foi? Está tudo bem?

- Oi, Godric. Está tudo na mais perfeita ordem. – falou irritada, empurrando as coisas que tinham caído em cima dela, para longe.

- Deixe-me ajudá-la. – Godric correu ate ela e estendeu a mão.

- Obrigada.

Os dois começaram a arrumar as coisas de volta no armário e agora parecia que o bruxo estava totalmente desperto.

- Agora você vai ter que me distrair. Tirou-me o sono... – falou rindo. A garota sorriu também.

O olhar de Godric foi para baixo e com um rubor, Rowena percebeu que estava com trajes de dormir. Correu para colocar sua capa.

- Desculpe. – Godric falou sem graça.

- Não tem problema. – Rowena respondeu ainda ruborizada. – Hum...quer um gole de água?

- Aceito.

Godric procurou um lugar para se sentar, mas a cadeira da menina estava com uma pilha de livros em cima.

- Ah...sente-se na minha cama. – ela indicou. O homem a obedeceu e ela logo se juntou a ele, estendendo o copo d'água.

Começaram a conversar sobre as turmas e suas aulas, sobre suas aventuras para que chegassem ali e quando deram por si, estavam os dois, deitados um ao lado do outro, rindo como loucos.

- E você se lembra daquele aluno que se apaixonou por você no ano passado? – Godric chorava de tanto rir, mas a mulher fechou o semblante.

- Hunf...se lembro. Foi irritante. Ele não parava de me deixar constrangida! E Salazar adorou se aproveitar da situação para ficar me perturbando.

- Ah...coitado do menino.

- Ele tinha onze anos!

- Mas tente entender: uma mulher linda como você...é difícil não se sentir atraído. – Godric falou, ainda rindo e olhando para ela.

Rowena novamente ficou vermelha, mas dessa vez não desviou o olhar.

- Você acha mesmo que sou linda?

- É claro. Linda e inteligente. A mulher que todo homem deseja.

- E quanto a você? – perguntou, sem jeito.

- Eu o que?

- Você também deseja?

Ficaram em silêncio por algum tempo, se olhando.

- Sempre me perguntei por quê não ficamos juntos. Sempre nos demos muito bem e eu...bem, sinto alguma coisa especial por você.

- Eu...também. – respondeu, voltando o olhar para o teto.

Mais alguns minutos de tensão e então Godric se virou de lado, em direção a ela.

- Posso tentar uma coisa?

- O que?

Ele segurou seu rosto e aproximou-se lentamente. O coração de Rowena bateu loucamente contra o peito. Sua respiração ficou descompassada e então aconteceu.

O beijo foi doce e longo. Notou que aquele momento era perfeito e nunca teria um outro igual.

Percebeu que Godric era sua alma gêmea, mas... ao mesmo tempo sentia que algo estava errado.

Quando se afastaram, ficaram se olhando por mais algum tempo, até que Godric falou:

- Você sentiu...

- ...algo estranho? – ela completou. – Sim. Era como se... – riu. – eu estivesse beijando alguém próximo de um irmão ou coisa do tipo.

- Eu acho que o que sentimos é especial, mas de uma forma diferente de como é com Helga e Salazar...

- Sabe, certa vez eu ouvi uma história muito bonita. – Rowena disse, pensativa. – Foi Merlin que me contou. Já ouviu falar de Platão?

- Sim. Claro.

- Então...Platão criou uma teoria para as almas gêmeas. No início do mundo existia um único ser com quatro braços, duas bocas, quatro pernas, quatro olhos e etc. Como duas pessoas coladas uma na outra, entende? – Godric fez que sim. – Só que um dia Zeus, o deus supremo dos gregos, irritou-se com esse ser e resolveu parti-lo ao meio e jogou cada metade em cantos opostos do mundo. E assim surgiram os humanos. As pessoas passam a vida toda sentindo que uma parte delas falta e passam toda a sua existência procurando a outra metade. E quando encontram, sentem-se finalmente completas. Como uma só. Mas não necessariamente é o seu marido ou sua esposa. Pode ser um amigo...

Eles se olharam mais um tempo, sorrindo.

- Você é minha outra metade, então. – Godric disse sorrindo.

- Assim eu penso também. – Rowena riu. Abraçaram-se e ele deu um beijo no topo de sua cabeça.

- Boa noite, minha doce Rowena.

- Boa noite, meu querido Godric.

A menina o olhou saindo e voltou a atenção para o teto. Adormeceu serenamente, pensando em um poema que lera certa vez.

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,

Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...

Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...

Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.

Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!