1º Dia

O plano "infalível" de Sirius me pareceu suficientemente falho depois de uma terrível noite mal dormida. Eu estava prestes a desistir de tudo quando me levantei para descer para o salão principal.

Olhar para a cara do Potter já é algo que me exige muita força de vontade, como eu vou conseguir fingir gostar dele, afinal?

Eu travava uma luta interna enquanto tomava meu banho e esperava Alice, uma de minhas colegas de quarto e minha melhor amiga, terminar de se arrumar. Completamente dividida entre seguir o plano de Sirius ou não. Por fim, decidi que se não conseguisse pensar em nenhum outro plano até a hora em que James Potter me convidasse para ir a Hogsmead, eu aceitaria.

E, é claro, eu não consegui pensar em mais nada. Talvez Sirius tenha razão, a única forma de fazer James Potter largar do meu pé é me comportar como as outras garotas com quem ele costuma sair.

Já estávamos no salão principal quando decidi que iria continuar com aquele plano, pelo menos por enquanto. Comecei, então, a prestar atenção no que Alice falava, numa tentativa de me distrair. Ela é uma boa companhia para quando você não quer pensar em determinado assunto. Não se importa em falar sozinha, desde que você a ouça. E era isso mesmo que eu estava fazendo. Estava a ouvindo falar sobre a última carta de Frank e todas as novidades do mundo fora dos terrenos do castelo.

Frank Longbottom é o namorado da Alice desde que eu me conheço por gente. Ou quase isso. Os dois começaram a namorar quando eu e Alice estávamos no terceiro ano. Como Frank é um ano mais velho que nós, terminou Hogwarts no ano passado, mas os dois continuam sendo o casal mais apaixonado que eu já vi. É uma carta por dia!

E foi ali, ouvindo o monólogo de Alice, que eu vi aqueles quatro garotos adentrarem o salão. Vi e ouvi, para falar a verdade. Em todos os meus anos nessa escola, nunca vi nada parecido com aquele quarteto barulhento e seus fãs. Eles são praticamente idolatrados.

Mas o caso é que nem mesmo a tagarelice da Alice foi capaz de fazer eu me esquecer daquele assunto, naquela hora. Dentro de poucos segundos, Potter chegaria perto de mim e me convidaria para ir a Hogsmead com ele. Isso seria completamente normal, tirando o fato que dessa vez eu aceitaria.

- Lily. – Alice me chamou, com a voz magoada – Você não está me ouvindo!

- Desculpe, Lice. – Voltei-me para ela, sentindo meu rosto perder a coloração. Mesmo de costas, eu podia sentir a aproximação deles. A hora estava próxima. Próxima demais.

- O que aconteceu? Você parece preocupada...

- Não é nada. – Menti.

- Bom dia, Lily. – Ouvi a voz de Potter às minhas costas e senti um frio na espinha. Forcei um sorriso e virei para ele.

- Bom dia, James.

Por aquilo, ninguém esperava. Com exceção de Sirius, que sorriu, mas ninguém pareceu perceber, afinal, todos estavam olhando pra mim, incrédulos.

Potter demorou um pouco para se recuperar. Fiquei feliz de ver que minha atitude fazia tanto efeito nele. Quem sabe, se eu aceitasse o pedido para sair, ele tivesse um ataque do coração e morresse? Eu não precisaria mais me preocupar com aqueles dez dias.

- Quer ir a Hogsmead comigo? – Perguntou ele, o sorriso ainda maior do que antes. Acho que ele tenta mostrar pras outras pessoas que tem 32 dentes na boca, apesar de todo mundo já saber disso. É simplesmente impossível que alguém consiga sorrir tanto!

- Acho que seria legal. – Sim, eu pude sentir o clima ao meu redor ficar pasmo. Não havia lugar para onde eu olhasse que não visse caras assustadas. Até mesmo Sirius parecia estar impressionado por eu ter conseguido. Eu estava. Ainda estou. Potter estava sorrindo mais do que eu achei que era possível, então tratei de fazê-lo ir embora antes que ele resolvesse sentar ao meu lado na mesa. Eu já teria que passar o dia todo com ele, precisava do máximo de tempo sozinha que eu conseguisse – Nos vemos depois, então.

- Certo, certo. – Ele pareceu sair de um transe, mas não se afastou de imediato. Permaneceu ali durante alguns segundos, sorrindo pra mim. Eu sentia meu rosto esquentar e esquentar. Quando ele finalmente foi embora, seguido dos outros marotos, eu pude, enfim, respirar aliviada e tirar aquele sorriso forçado do rosto.

Voltei a tomar meu café, sentindo o olhar espantado de Alice sobre mim.

- O-que-foi-isso? Pára tudo! Quem é você? O que fez com a Lily? Eu quero minha amiga de volta!

- Calma, Lice. – Eu suspirei – Eu só aceitei sair com o Po... James.

- Só? – Ela riu com cinismo antes de me segurar pelos ombros me fazendo encará-la – Me explica isso direito! Resolveu dar uma chance pra ele? Como assim? Quando? Por quê? Está chamando ele de James agora, é? O que está acontecendo, Lily? Você nunca me conta nada!

Eu olhei em volta, aturdida com tantas perguntas. Muitos alunos olhavam pra nós, então me levantei, puxando-a, e a levei para um lugar mais reservado. Lá, contei do plano de Sirius e do medo que eu estou por ter que passar dez dias com aquela criatura.

- Merlin! – Exclamou ela, quando terminei. Acho que foi a primeira vez que vi Alice sem palavras.

- O problema é que não sei se vou conseguir fingir durante muito tempo. Já foi bem difícil sem ter que estar abraçada com ele ou até mesmo – Engoli em seco. Ainda não havia pensado naquilo – beijando ele.

Ela riu.

- Lily. – Ela me levou até a porta do salão e me fez olhar para onde os marotos estavam – Olha bem pro James.

- Hm? – Fiz uma careta.

- Você precisa admitir que ele é bonito. – Ela deu um sorriso safado e eu revirei os olhos – Estou falando sério. Olha bem pra ele. Vê o exterior dele, não o interior.

Bom, eu preciso concordar. O exterior dele é BEM atraente. É uma pena que o interior estrague tudo.

- Tudo bem. Ele é bonito e daí?

- 'E daí'? Você vai ser obrigada a ficar com ele durante alguns dias, não é? APROVEITA!

Eu revirei os olhos, sem conseguir reprimir um sorriso. Alice tem esse jeito meio safado. Frank morre de ciúmes por causa disso. Ela vive chamando outros garotos de gatos, gostosos, sexys, etc.

- Aproveitar? Estando com o Potter?

- Ele é jogador de Quadribol! Tem um corpo TÃO perfeito! E a Suzanna disse que ele beija MUITO bem! Além disso, por que você acha que um monte de garotas morre de amores por ele? Ele deve ter uma pegada incrível! Se eu estivesse no seu lugar, aproveitaria...

Bom, é uma pena que ela não esteja. Não me importaria em trocar de corpo com ela durante alguns dias. Até propus que tomássemos uma poção polissuco mas ela não aceitou, disse que ainda assim seria uma traição com Frank. De qualquer forma, levaria muito tempo para preparar uma e eu já havia aceitado sair com ele.

Alice se afastou para junto de nossas outras colegas de quarto depois de me prometer dez vezes que manteria sigilo absoluto sobre meu plano. Dez. Esse número está começando a me dar nos nervos.

Fui para o saguão de entrada, onde a maioria dos alunos que iriam ao povoado se concentravam naquele horário. Potter, Sirius e uma garota do sexto ano da Corvinal se aproximaram de mim, fazendo-me voltar a forçar o sorriso.

- Oi, Lily. – Cumprimentou-me Sirius – Esta é Liana.

- Oi, Liana. – Eu disse, sorrindo sinceramente. Apesar de a garota estar saindo com Sirius, e eu nunca me dou bem com esse tipo de garota, ela parecia ser legal. Precisei me lembrar de que eu mesma estou saindo com Potter e, apesar de todos os meus problemas de sanidade, eu gosto de mim mesma.

- Oi, Lily. Pode me chamar de Lia. – Ela sorriu e pude ver que também era sincera. Ela também não me achava uma garota fútil. Fiquei feliz por isso.

Potter veio para o meu lado e passou um braço em minha cintura, com um sorriso presunçoso no rosto. Precisei me conter para não sair correndo para o mais longe possível. Ele deve ter entendido minha tensão da maneira errada, lógico, já que deu um sorriso ainda mais convencido.

Fomos juntos para o povoado e os garotos pediram para passar na Zonko's antes de qualquer coisa. Eles se perderam em meio a todas aquelas prateleiras de milhares de logros e brincadeiras enquanto eu e Lia olhávamos algumas vitrines por perto.

- Então, finalmente aceitou sair com James? – Perguntou ela, com um sorriso de lado.

Eu devia imaginar que isso ia acontecer. E continuar com cada vez mais frequência durante os próximos dias.

- Parece que sim, não é. – Suspirei.

- Mas você não parece muito feliz com isso... – Deveria? Sinceramente, não sei como uma garota legal como ela se submetia a sair com caras como Sirius. Liana era bastante perceptiva e isso me deu medo. Eu precisava fingir melhor.

- Oras, é claro que estou! – Forcei um sorriso.

- Desculpe. – Ela murmurou – Não queria parecer intrometida ou coisa parecida. Acho que você vai se cansar desse tipo de pergunta. – Ela riu – Só que é realmente estranho te ver saindo com ele.

- É... estranho... – Eu precisava tirar o foco da conversa de mim – E você e Sirius?

Saída perfeita. E eu realmente estava curiosa.

- Ah... – Ela corou – Na verdade fiquei tão surpresa quando ele me convidou que não consegui dizer não. Talvez devesse ter dito que não, mas... não sei. Ele parece ser um cara legal, o problema é que não quer nada sério com ninguém.

Não entendi por que ela ficara surpresa. Liana é um pouco mais alta que eu, tem a pele clara, cabelos castanhos até metade das costas e levemente ondulados, olhos de um azul lindo. Seu corpo está mais para uma garota de dezenove anos do que uma de dezesseis. É muito bonita, além de ter um sorriso simpático.

- Os dois são assim. – Comentei – Mas quem sabe não dá certo entre vocês, não é?

- É mais fácil dar certo entre vocês. O James parece gostar mesmo de você, Lily. Acho que ele está disposto a ter um relacionamento com você. Eu e o Sirius, bem, não sei... ele já saiu com quase todas as minhas colegas de quarto e todas disseram que ele não presta.

- Mas devem ter ficado morrendo de inveja quando ele te convidou... – Eu disse, com um sorriso, lembrando do quanto as outras garotas me olham atravessado quando Potter me chama pra sair.

- Isso é verdade. – Ela riu.

Os garotos logo apareceram, levando-nos para o Três Vassouras. Franzi a testa, imaginando que os marotos tinham mais criatividade do que isso. Mas, é claro, o dia estava apenas começando.

Potter me levou para o fundo do bar, distante da maior parte dos alunos. Estranhei. Pensei que fosse querer me mostrar como uma espécie de troféu. Na certa, ele devia estar com um pouco de medo de eu desistir de tudo, de repente. O terreno era instável e ele queria ter certeza de que era o vencedor antes de cantar a vitória. Não que isso seja uma atitude típica do Potter. Ele sempre se acha o melhor em tudo e não se cansa de mostrar isso para todos.

- Não entendi essa mudança repentina. – Disse ele, assim que sentamos, exibindo um enorme sorriso. Forcei o meu, corando – Não que eu esteja reclamando, é claro.

- Bom... uma garota não pode mudar de opinião? – Perguntei, tentando ao máximo permanecer sincera, mas falhando miseravelmente. Pelo menos, ele pareceu acreditar.

- Então não me odeia mais?

Pesei minhas palavras. Eu nunca havia dito que o odiava. Não expressamente ou publicamente. Nunca havia dito para ele que o odiava. Não com essas palavras.

- Eu nunca disse que odiava. – Fui sincera e ele parecia realmente feliz – Eu somente não aprovava, e ainda não aprovo, algumas atitudes suas.

Minha sinceridade me surpreendeu, mas teve o efeito esperado. Nunca pensei que em toda a minha vida eu pudesse ver James Potter corar. Era surreal.

- Acho que tem um pouco de razão. – Ele admitiu. Madame Rosmerta apareceu e pedimos duas cervejas amanteigadas.

Eu me sentia MUITO desconfortável enquanto ele me observava, indiscutivelmente mais a vontade do que a situação permitia.

De repente, lembrei-me do motivo pelo qual eu devia estar tão desconfortável, além do óbvio, era a primeira vez que eu saía com um garoto.

Minha expressão deve ter sido realmente estranha porque ele desfez o sorriso.

- O que foi?

- Eu... – Senti meu rosto corar violentamente – É a primeira vez que eu... saio... com alguém...

A palavra me provocou arrepios.

Ele ficou realmente impressionado. Acredito que essa informação vá servir para aumentar ainda mais seu ego, mas no momento não consegui me refrear. Foi como quando Lia disse que não pôde dizer não para o Sirius. Eu havia sido pega de surpresa por mim mesma e não tive tempo de parar e pensar no que fazer com aquela informação.

- Como assim? Você nunca saiu com alguém? – Ele estava incrédulo.

- Não... quero dizer, já... mas, não assim...

Ele não disse nada, apenas me olhou interrogativo. Não precisei de esforço para continuar. As palavras fluíam com muita facilidade.

- Eu nunca tive um namorado. Os garotos com quem fiquei, normalmente eram meus amigos, ou vizinhos... nunca aceitei um convite como... como o seu...

Os olhos dele se estreitaram.

- Amigos? Você quer dizer, amigos como o Ranho... Snape?

Severo Snape, meu ex melhor amigo. Percebi que Potter ia usar o apelido que ele e os marotos deram para Severo, mas mudou de ideia no último segundo. Ele sabia que eu não ia gostar e o terreno ainda era instável.

Potter sempre odiou Severo e vice-versa. E apesar de eu ainda estar magoada com aquele velho amigo, Potter sabia que eu o defenderia.

- Não é um bom assunto para levantar. – Eu disse e sei que fui mais rude do que deveria.

- Certo. – Ele não voltou a sorrir. Sei que estava imaginando coisas.

Ficamos um tempo em silêncio. Arrisquei um olhar para a mesa de Sirius, ele estava aos beijos com Liana. Potter seguiu o meu olhar e finalmente sorriu.

- Ontem, quando você chamou Sirius para conversar – Ele não me olhava – Eu fiquei realmente nervoso. Quase o matei quando ele chegou ao dormitório.

- Por quê? – Estranhei. Ele não precisava dizer aquilo. Eu já estava ali, já havia cedido, ele não precisava continuar fingindo gostar de mim. Pelo menos não daquela forma. Talvez ele fosse um ator melhor do que eu imaginava. Ou um jogador mais pesado do que eu supunha.

- Como 'por quê'? Achei que estivesse afim dele ou algo assim. Quando ele chegou me contando sobre o que conversaram...

Mas não deixei que ele terminasse.

- Ele te contou? – Assustei-me, ciente de que a minha voz estava mais aguda do que deveria.

- Claro. – Potter franziu a testa – Eu não o deixaria em paz se ele não me contasse e ele sabia que eu não vinha a Hogsmead hoje...

- Você não vinha?

- Ele não te contou?

- Mas você me convidou... – Ignorei a pergunta dele.

- Porque ele disse que era o que você queria... – Ele me fitou, confuso – Lily, você está bem?

Percebi que estava boquiaberta e tratei de me recompor. Minha mente deu um estalo e eu entendi. Sirius não havia contado sobre a nossa conversa, ele havia dito que eu estava disposta a sair com Potter. Ele podia ter me avisado, pelo menos!

- Estou bem... Podemos dar uma volta? – Não que eu quisesse passear pelo povoado ao lado dele e ser vista por muitos alunos, mas eu realmente precisava de ar fresco. Eram muitas informações ao mesmo tempo.

Ele se levantou rapidamente, estendendo a mão para mim. Eu forcei um sorriso e aceitei.

Era difícil, mas eu não podia fraquejar.

Ele continuou segurando minha mão enquanto andávamos sem rumo. Observava meu rosto com uma preocupação que achei estranha.

- Está bem mesmo? Não quer ir até a enfermaria?

- Estou bem. – O sorriso forçado estava marcado em meu rosto. Queria tirar minha mão da dele, queria ir para longe. Tanto tempo perto dele estava começando a me fazer mal.

Passamos por um grupo de sonserinos que nos encarava com curiosidade. Não cheguei a ver Potter mexer a varinha ou pronunciar qualquer feitiço, mas eu posso jurar que ele fez alguma coisa porque, assim que passamos, três dos garotos do grupo começaram a gritar, assustados de verem suas roupas de baixo por cima do uniforme de Hogwarts.

Teria sido hilário se não fosse tão desaprovador. Uma atitude típica do Potter: azarar alunos mais novos que ele e que não estavam fazendo nada de errado!

Contive minha língua. São só dez dias. Dez dias e isso terá acabado de vez.

Vi que ele sorria com gosto novamente, parecendo dar um rumo a nossa caminhada.

- Aonde vamos? – Perguntei, com relutância. Ele era um maroto, tinha tendências a ter ideias um pouco perigosas.

- Um lugar que achamos num de nossos passeios – Eu sabia que o plural se referia a ele e os outros marotos – Acho que você vai gostar. Não achei que você fosse realmente aceitar, senão teria trazido roupas de banho. Da próxima vez não podemos esquecer.

Próxima vez? Engoli em seco. Sirius tinha razão, afinal. Ele não se contentará com um encontro.

- Roupas de banho? – Perguntei, querendo manter uma conversa e esquecer o que eu ainda terei que passar – Não está muito frio para um mergulho?

Ele riu, mas não respondeu.

- Estamos quase chegando. – Avisou enquanto me puxava para a floresta que margeava a rua onde estávamos. Estaquei, fazendo-o parar – O que foi?

- Vamos entrar na floresta? – Perguntei, receosa. Ele revirou os olhos, ainda sorrindo.

- De que tipo de passeio achou que eu estava falando?

Eu devia ter imaginado. Passeio com os marotos. É claro que aquilo era sinônimo de confusão. Como eu continuei parada, olhando incerta a floresta, ele se aproximou mais de mim, pegando a minha mão livre. Seu rosto estava mais perto do que já estivera um dia.

- Não precisa se preocupar. Não vou deixar que nada de ruim aconteça. Eu prometo.

Eu não acreditei, mas suspirei e baixei a cabeça, vencida. Não sei se conseguiria ter encarado aqueles olhos por mais tempo. Eu nunca havia percebido a intensidade daquele olhar. Para falar a verdade, acho que foi a primeira vez que eu realmente olhei para seus olhos.

Ele pareceu se satisfazer com a minha reação e passou um braço em minha cintura, levando-me para dentro da floresta escura.

Não havia trilha, a mata era fechada e era muito escuro lá dentro. Estremeci de medo e ele me abraçou com mais força. Naquele momento, o gesto me deixou mais tranquila. Mas só por causa da situação. O que eu queria mesmo era ir para longe dele. O mais longe possível.

Andamos por alguns minutos e comecei a ficar com medo de estarmos perdidos, mas ele estava tranquilo. Tentei me tranquilizar também.

- Feche os olhos.

Olhei-o desconfiada.

- Vamos, Lily, feche os olhos. É logo ali na frente.

Suspirei, resignada, e obedeci. Ele me guiou com uma facilidade que me surpreendeu. Cuidadoso de uma forma que eu não imaginei que pudesse ser. Paramos, mas continuei de olhos fechados.

- Abra os olhos. – Sussurrou em meu ouvido e meu corpo se arrepiou involuntariamente.

Abri os olhos vagamente sentindo minha boca se abrir também. A vista a minha frente era simplesmente magnífica. Um campo que se perdia no horizonte, repleto de flores campestres. Um aroma adocicado preenchia o ar. Dentro do campo, não muito longe de onde estávamos parados, havia um lago grande o suficiente para nadar de um lado a outro. Pude sentir o calor emanar daquela terra. O céu nublado de Hogsmead parecia não estar ali. As nuvens haviam sumido e tudo o que restara era aquele azul profundo.

- É... lindo! – Exclamei, ainda sentindo os braços dele em minha cintura. Aproximei-me do lago, tirando o tênis preto, e molhei os pés. A água era quente – Incrível...

Ele riu às minhas costas e também tirou o sapato, ficando ao meu lado, em pé na beira do lago.

- Gostou? – Perguntou, mesmo sabendo a resposta.

Concordei com a cabeça.

- Muito.

Senti a mão dele na minha novamente e estremeci. O momento estava chegando e eu tentava ao máximo não pensar naquilo.

- É encantado. Realmente magnífico. Não sei se Dumbledore conhece esse lugar.

Ele apenas continuou segurando a minha mão, tentando me deixar bem à vontade. Ele ainda deve ter um pouco de receio em relação a mim. Se ele quer ficar tempo suficiente comigo para que todos se convençam de que eu realmente cedi, precisa ir com calma e era exatamente o que estava fazendo. Naquele momento, ele precisava atuar para mim, fingir. Precisava ser algo que não era. Pelo menos por algum tempo. Aquilo me repugnou, mas eu não podia deixar transparecer. Afinal, não é como se eu estivesse sendo sincera nas minhas atitudes, também. Dei um sorriso tímido, ou tentei.

Sentamos, com nossos pés ainda na água. Eu tentei disfarçar o nervosismo e ganhar algum tempo a mais.

- Po... James – Cerrei os dentes, lembrando a mim mesma de não chamá-lo pelo sobrenome – Como acharam esse lugar? É realmente fantástico.

- Segredo de maroto – Ele sorriu e eu revirei os olhos. Quase bufei.

- Tudo bem, então. Não te conto meus segredos também. – Eu disse, cruzando os braços no peito.

Ele riu.

- Se eu te contar, promete me responder qualquer pergunta?

Senti a cor sair de meu rosto.

- Qualquer pergunta?

Ele assentiu.

- Só se responder todas as minhas.

Foi ele quem hesitou.

- Resposta por resposta, então?

Pensei um pouco. Aquilo me renderia algum tempo e eu não precisava dizer a verdade. Ele não saberia.

- Você primeiro.

Ele suspirou, ainda sorrindo. Perguntei-me se ele nunca cansava de sorrir. Meu sorriso forçado já estava começando a doer.

- Bom... Nós costumamos dar umas saidinhas à noite, para nos divertir um pouco. Numa delas, viemos para Hogsmead e nos embrenhamos na floresta. Nada de mais.

A resposta não me agradou.

- Como não se perderam na floresta? E de noite! Como vieram para Hogsmead sem ninguém ver?

Ele riu.

- Não, não. É a minha vez de perguntar.

- Isso não vale! Sua resposta não foi completa.

- Temos um ótimo senso de direção. Principalmente na floresta. E você sabe que Hogwarts tem muitas passagens secretas. – Foi a resposta dele. Ele parecia estar se divertindo às minhas custas e isso não me agradou – Por que decidiu me dar uma chance?

A pergunta não me pegou completamente de surpresa, mas eu fiquei surpresa. Especialmente, porque não tinha nenhuma ideia de que resposta daria.

- Foi um sonho. – As palavras saíram de minha boca antes que eu pudesse controlá-las. Sabia que não estava sendo sincera, mas ele era o Potter, não havia problema. Logo aquilo tudo acabaria – Tenho sonhado com você há algum tempo e... bom, alguns amigos me convenceram a te dar uma chance...

Resposta ridícula, eu sei. Ele também pareceu achar.

- Bom, eu esperaria isso de alguém que faz aulas de Adivinhação e não Runas Antigas. – Comentou e eu ri para dar mais crédito ao que havia dito.

- Por que eu?

A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar nela. Arrependi-me de tê-la feito logo no momento seguinte, mas eu estava curiosa. Sempre quis saber se havia algum outro motivo, mas é claro que ele ia mentir.

Ele desviou os olhos dos meus. Deitou na relva e olhou para o céu azul por trás dos óculos de aro redondo.

- Porque você é diferente. – Ele respondeu depois de um tempo. Meu coração deu um salto que eu gostaria que não tivesse dado – Não é como as outras garotas. Alguma coisa em você... eu não sei explicar. Você se importa com os outros, é sincera nos seus sentimentos, é justa, amiga e companheira. Estudiosa, dedicada, linda... e você tem um brilho diferente no olhar... algo que me atrai. Não sei... – Ele se sentou novamente, aproximando-se mais do que eu queria, uma mão no meu rosto, fazendo-me corar – Só sei que sou completamente louco por você.

Aquilo, com certeza, me pegou desprevenida. Ele era um bom ator. Ótimo, para dizer a verdade. As palavras saíam de forma que pareciam ter um sentimento verdadeiro contido nelas. Eu quase acreditei que ele pudesse gostar de mim. Por um breve momento eu cogitei a ideia, mas os lábios dele empurraram para longe qualquer outro pensamento. Quase não vi quando ele cobriu a distância entre nossas bocas, apenas senti o toque e fechei os olhos automaticamente. Era um beijo suave, moderado, como se tivesse medo da minha reação.

Eu o teria empurrado, mas não o fiz nem seria capaz se as circunstâncias fossem outras. Não podia sentir nenhuma outra parte de meu corpo, a não ser meus lábios e meu rosto.

Como não imprimi resistência, ele aprofundou o beijo, fazendo meu estômago revirar e – Merlin! – entendi tarde demais o que Alice havia dito de manhã. Ele é realmente atraente demais. Tem algo, algo que eu não consigo explicar, que faz você não querer sair de perto, mesmo que no fundo, bem no fundo, você queira ir para bem longe.

Aquele foi o melhor beijo de minha vida, ou, pelo menos, na hora eu achei que era. Era doce, cheio de sentimento, e havia uma pontada de tentação ao fundo, como que esperando que qualquer um dos dois desse um deslize, para atingir nossos corpos. Eu tive muito medo dessa parte.

Na verdade, relembrando agora, talvez não tenha sido tão bom assim. Eu só devo estar a um bom tempo sem beijar alguém e estava muito nervosa na hora. Só isso.

Quando ele se separou de mim, segurando meu rosto com delicadeza entre as mãos, não consegui deixar de fitar seus olhos castanho-esverdeados com ainda mais profundidade do que havia feito outra hora. Ele sorriu, parecendo mais feliz que uma criança quando ganha um doce.

- Você gosta de mim, não gosta? – Perguntou-me.

Não respondi. Parecia impedida de falar e mesmo que pudesse, não saberia o que dizer.

- Você tem que responder – Disse, dando um sorriso de lado – Respondi a sua.

Respirei fundo para me recompor, tentando não me afastar. Eu precisava fingir, lembrei a mim mesma.

- Claro que gosto. – A fala saiu mais natural do que eu imaginara. Talvez eu fosse boa naquilo, afinal. Ele sorriu ainda mais – Você não se cansa de sorrir?

Ele riu.

- Por quê? Estou sempre sorrindo?

- Chega a ser incrível! – Revirei os olhos – Ninguém pode ser tão feliz o tempo todo, é saudável ter crises de mau humor, de vez em quando.

- Não sou feliz o tempo todo! – Ele se defendeu, embora ainda esboçasse um sorriso, e se afastou um pouco, a mão na minha – Também tenho minhas crises de mau humor.

- Sei. – Ironizei.

- Verdade! Pergunte para o Aluado... quando temos aula cedo demais é ele que tem que nos acordar... eu e o Sirius quase espancamos ele um dia!

Ficamos ali durante horas, conversando, fazendo perguntas um para o outro. Não posso dizer que tenha sido uma completa perda de tempo. Eu estava começando a conhecer mais sobre ele e descobrindo maneiras de fazê-lo desistir de mim de vez. Talvez o plano de Sirius não seja tão idiota assim.

Já estava anoitecendo quando resolvemos voltar. Ele andava tão a vontade pela floresta que fiquei impressionada. Era como se a conhecesse como a palma de sua mão. Eu não duvidava que ele tivesse ido ali muitas e muitas vezes com os outros marotos, mas, ainda assim, era impressionante. Como ele havia dito mais cedo, tinha um ótimo senso de direção.

Andamos o caminho todo de mãos-dadas e os olhares curiosos estavam começando a me incomodar. Assim como os olhares assassinos e cobiçosos das garotas apaixonadas por aquele ser abominável.

- Isso te incomoda? – Ele perguntou, com um sorriso divertido, quando eu bufei por causa dos cochichos a nossa volta.

- Um pouco.

- É melhor se acostumar. – Ele piscou pra mim – Ser namorada de um maroto não é tarefa fácil.

- Eu posso aguentar. – Senti um frio na barriga ao ouvir a palavra namorada e tentei parecer feliz e curiosa, apesar de estar morrendo de medo – Namorada, é?

- Achou que eu ia sair com você uma vez e depois te esquecer? Só saí com você para 'te ter na minha lista'?

Corei, era exatamente isso que eu pensava.

- É... algo assim...

Ele riu.

- Não ouviu nada do que eu disse hoje? Eu gosto de você, Lily. Não quero sair com você um vez só. Você é diferente... é especial.

Eu apenas sorri, sem saber o que dizer.

Quando cheguei ao dormitório, Alice estava me esperando, andando de um lado para o outro.

- Até que enfim! – Disse ela quando entrei – Se demorou tanto é porque o dia foi bom! Me conta TUDO!

Eu ri. Alice e sua espontaneidade.

- Bom, não foi TÃO ruim quanto eu pensei que seria.

Ela sorriu de uma forma que me deu medo. Uma forma acusadora. Ela não entendeu o que eu quis dizer.

- Não vá se apaixonar, senhorita Lily Evans.

Eu revirei os olhos.

- Não enche, Lice.

- Me conta! Como foi? Onde foram? Ele te beijou? Estão namorando?

Confesso que às vezes as perguntas de Alice me deixam zonza. Fiz pequenas observações do dia. Apenas as partes mais importantes. Ela não se contentou.

- E o beijo dele? Como ele se despediu?

Suspirei.

- O beijo dele é só um beijo, Alice. Você beija o Frank, não beija? Tira a parte do amor e pensa só no lábio contra lábio. É isso!

Ela revirou os olhos.

- E estão namorando?

- Ele não me pediu em namoro, exatamente. Mas mencionou algo como 'ser namorada de um maroto não é tarefa fácil'. Agora, chega de perguntas! Estou exausta e as garotas devem chegar a qualquer momento. Quero estar dormindo quando isso acontecer.

Ela concordou, a contragosto e se preparava para dormir quando eu encontrei um pergaminho sobre minha cama.

"E aí, pimentinha! Como foi o dia? O Pontas te deu um trato legal? Haha. Me encontre na torre de Astronomia às 22:00. SB"

Olhei para o relógio. Ainda tinha uma hora. Decidi tomar um banho e esfriar a cabeça. O dia foi estranho demais para o meu gosto.

Fui para a torre na hora marcada e encontrei Sirius lá, com um sorriso maroto no rosto.

- 'Pontas me deu um trato legal'? – Repeti, uma sobrancelha erguida.

Ele riu e ignorou.

- Como foi o dia?

- Foi melhor do que eu esperava.

Sirius me olhou com certa curiosidade e depois riu novamente. Ele também não entendeu o que eu quis dizer. Acho que vou começar a fazer um mapa e explicar que conhecer James Potter é importante para o meu plano funcionar, não que eu goste disso.

- Só não vá se apaixonar, Lily.

Revirei os olhos pela segunda vez por causa do mesmo motivo.

- Cala a boca, Black! – Ele continuou rindo – Eu quis dizer que tive algumas ideias pra incrementar o nosso plano.

Ele parou de rir, olhando com curiosidade.

- Que tipo de ideias?

- Algo relacionado com fazer ele não querer mais a minha companhia. – Eu sorri com maldade – Por que não me disse que tinha dito pra ele que eu queria sair com ele? Fiquei com cara de tacho quando ele disse aquilo!

Ele voltou a rir.

- Eu precisava inventar algo. Você não teria me procurado por qualquer coisa.

- Mas podia ter me avisado com antecedência!

- Não. Assim fica mais divertido, mais emocionante.

Revirei os olhos, mas ri também. Conversar com Sirius era mais fácil do que parecia.

- E Lia?

Ele parou de rir.

- O que tem ela?

- Como foi com ela? Ela parece ser legal.

- Ela é. – Foi a resposta evasiva que recebi. Esperei um pouco mais, mas ele não parecia disposto a continuar.

Eu me virei para voltar para a torre da Grifinória, mas parei antes de começar a descer.

- Desculpe. – Eu disse, encarando-o divertida.

Ele franziu a testa, sem entender. Eu sorria de forma marota.

- Pelo quê?

- Por amanhã.

Ele fez menção de perguntar mais alguma coisa, mas eu fui mais rápida. Dei um beijo em seu rosto murmurei um 'boa noite' antes de sair de lá o mais rápido que podia.

Agora, ao invés de ir dormir, vou usar meu horário flexível para preparar algumas surpresinhas para o meu novo namorado. Acho que Sirius não contava com meus neurônios voltando a funcionar, vou precisar de menos de dez dias para fazer Potter desistir de mim, definitivamente.


N/A: HO HO HO! FELIZ NATAL!
Espero que todos tenham tido uma ótima ceia ontem e que o dia de hoje seja maravilhoso! =)
(e que gostem desse capítulo! hehehe)
Voltei rapidinho, viram?
Muito obrigada a todos que leram, marcaram nos favoritos e comentaram! Vocês são lindos, meus amores! =D

BarbieProngsPotterSalvatore: Voltei mesmo! =D Tive uns probleminhas, mas não iria abandonar vocês! ^-^ Obrigada por continuar acompanhando! Assim que tiver um tempinho, passo lá sim! Obrigada! Beijos!

Gabriela Black: Não demorei, viu! ^-^ Que bom que gostou! Espero que goste desse também! hehehe Obrigada por comentar! Beijos!

Beijos e feliz natal a todos!
Cristal Evans.