3º Dia
Eu preciso seriamente parar de acordar tão cedo.
Já é horrível ficar boa parte da noite queimando os poucos neurônios que me restam numa tentativa desesperada de me livrar de vez de James Potter. Ter que acordar mais cedo do que todos os outros alunos e professores do castelo é ainda pior.
Mas o fato de acordá-lo faz tudo valer a pena.
Nem havia clareado quando entrei no quarto dos garotos do sétimo ano, na torre da Grifinória. Aproximei-me, com cuidado para não acordá-los – não antes da hora, pelo menos –, e me ajoelhei à cama de James.
Contemplei a visão por algum tempo. Mesmo fazendo frio, aquele garoto não consegue vestir uma blusa pra dormir! Mas o que mais me chamou a atenção foi o colar em seu pescoço. O apelido Tchucutchucu ainda brilhava fracamente, podendo ser lido até no escuro.
- Jay? – Sussurrei. – Tchucutchucu?
Ele respirou mais fundo e se mexeu um pouco, mas não acordou.
- Jay-jay... Tchucutchucu, acorda...
Balancei-o de leve.
- James! – Chamei mais alto, balançando-o mais forte. – Acorda!
- Hã? Ah... quê?
Segurei o riso quando ele abriu milimetricamente os olhos e suspirou.
- James?
- Lily...
- Jamesinho, acorda, meu amor...
- To...
Revirei os olhos, ele já havia fechado os seus de novo.
- James!
- Hm...
Suspirando, inclinei-me sobre ele e encostei meus lábios nos seus. Isso tinha que acordá-lo.
De fato, não demorou muito para ele começar a corresponder. Ficamos ali mais do que o necessário, de forma que ele estava bem acordado quando parei de beijá-lo.
- É uma ótima forma de ser acordado, mas... – Ele murmurou quando eu me afastei um pouco. – Que horas são?
- Não se preocupe, ainda é cedo. É só que...
- O que foi? – Ele se sentou e eu fiz o mesmo, deixando que me abraçasse.
- Você vai me achar uma boba...
- Não vou, não. Pode falar.
- É que... ah... – Escondi o rosto em seu peito, estremecendo com o contato em sua pele nua, e ele suspirou com impaciência.
- Lily! Fala logo!
- Eutiveumpesadelo. – Falei bem rápido e coloquei a mão na boca.
- O quê? Não entendi.
Suspirei e me afastei dele, olhando para minhas mãos.
- Eu tive um pesadelo...
Ele suspirou, rindo, e me abraçou de novo.
- Quer dormir aqui comigo?
O tom malicioso estava explícito em sua voz, mas fingi não perceber.
- Eu queria, mas... se eles acordarem e me virem aqui...
- O que quer fazer, então? – Ele pareceu ficar um pouco confuso. – Sabe que não posso entrar no dormitório feminino.
- Eu estava pensando se... assim, você não precisa fazer isso... só se quiser... eu sei que aqui está mais quentinho e tudo mais...
Ele suspirou, perdendo a paciência de novo.
- Fala, Lily.
- Eu só tinha pensado que talvez você quisesse dormir comigo no salão comunal. – Eu disse, me aconchegando mais em seu abraço.
- No salão comunal? – Ele não parecia aprovar a idéia.
- Eu não conseguia mais dormir... então, achei que se estivesse com você, conseguiria dormir melhor... você sabe, longe de pesadelos... eu posso colocar um despertador pra antes de todo mundo acordar, pra ninguém nos ver lá...
Ele suspirou e pegou os óculos.
- Certo. Para o salão comunal, então.
Sorri abertamente enquanto ele pegava o cobertor e descíamos com cuidado para não fazer barulho.
A poltrona não era o que se chamaria de confortável, mas eu não ficaria ali por muito tempo mesmo. O difícil foi fazer com que ele parasse de me agarrar. Dividir o cobertor com um maroto é fogo.
- Ai, James! Eu quero dormir! – Reclamei quando senti sua mão descer um pouco mais do que o permitido em minhas costas.
Ele bufou e trouxe a mão mais pra cima.
- Fica difícil dormir com você aqui do meu lado! – Ele reclamou também. – Não tem maneira melhor de me acordar!
Revirei os olhos.
- Quer controlar seus hormônios, por favor?
De repente aquela se tornou uma péssima ideia. Eu não contava com passar duas horas deitada desconfortavelmente numa poltrona da sala comunal. Eu precisava encontrar uma forma de fazê-lo dormir!
- Nana neném que a cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar...
- O que é isso? – Ele me olhou, assustado.
- Uma canção de ninar, ué!
- Canção de ninar? Que bebê vai querer dormi com isso?
- O que tem de mais?
- Papai foi na roça, mamãe foi trabalhar... ou seja, dorme logo porque todo mundo te abandonou! – Eu não consegui não rir do seu tom de incredulidade. – E ainda por cima tem essa tal de cuca que vai vim te pegar... deve ser por isso que as crianças trouxas são tão traumatizadas!
- Ei! As crianças trouxas não são traumatizadas! – Revirei os olhos, sem deixar de rir.
- Quer ouvir uma boa canção de ninar?
- Você conhece uma boa? – Desafiei-o e ele riu.
- Conheço uma que vai fazer você dormir num piscar de olhos.
- De que adianta eu dormir? Você tem que dormir! Se você não dormir eu vou acabar processando o meu namorado por assédio sexual!
Ele riu tanto que eu precisei tapar sua boca para que ninguém acordasse.
- Quer ouvir ou não?
Não era uma boa ideia. Eu já estava com sono e não podia dormir ali com ele, mas a curiosidade foi maior.
- Quero.
Lutando para permanecer o mais acordada possível, prestei atenção na letra da canção. Era linda. Falava de fadas e elfos, bruxas e magia. Nem um pouco parecida com as músicas trouxas. A melodia era tão hipnotizante que por pouco não peguei no sono; foi uma sorte que ele estivesse com mais sono do que eu.
Quando ele adormeceu, permaneci quieta por algum tempo. Já não estava mais tão desconfortável e a minha vontade de sair dali foi diminuindo e diminuindo, mas eu precisava levantar.
Com cuidado, peguei um fio de cabelo seu, razão pela qual eu precisava ter de vê-lo àquela hora da madrugada, e subi para o dormitório para poder terminar o feitiço dos meus fogos de artifício.
Assim que terminei, deitei em minha cama quentinha, desapontada por ter que perder o espetáculo da manhã.
Eu estava no banho quando os primeiros alunos acordaram, mas pude ouvir minhas colegas de quarto comentando o ocorrido; um maroto dormindo numa poltrona do salão comunal. Até McGonagall fora chamada e o dito maroto recebera uma detenção.
Senti uma leve pontada de culpa. Coitado do James.
Tratei de me arrumar rapidamente e desci. Não é do feitio dos marotos acordar cedo, mas olhei em volta ainda assim. Eu não podia encontrá-los naquela hora.
- Lice, preciso da sua ajuda! – Certificando-me de que nenhum dos marotos estava por perto, puxei Alice para um canto do salão comunal. – Peça para uma das meninas falar com o James quando ele estiver entrando no salão principal.
Ela me olhou desconfiada.
- Por quê?
- Ah, Lice! Você vai ver. Só peça... por favor...
- Está bem, está bem, mas o que eu peço?
- Sei lá! Pede pra alguém, uma garota, por favor, perguntar sobre algum dever, sei lá! Diz que eu e você estamos brigadas e você não quer ir perguntar, já que ele está comigo... inventa alguma coisa! Vai ser divertido!
- Isso vai acabar em confusão... – Ela murmurou – Eu sei que vai...
- Não vai, não, Lice! Puxa... é pelo bem da sua amiguinha... por favor?
- Certo, certo... pode deixar. Eu te ajudo com esses seus planos malucos.
- Você é a melhor amiga do mundo! – Eu a abracei, rindo – Diga para os garotos que eu já desci, ok? E não esqueça de pedir pra garota falar com ele quando ele entrar no salão principal!
- Eu virei coruja agora, é?
Eu ri e a abracei de novo, fazendo-a rir também, e corri para o salão principal para esperar a hora certa de começar o show.
Alice seguiu minhas recomendações com proeza. Apenas dez minutos depois de estar sentada à mesa da Grifinória, os marotos apareceram e uma das minhas colegas de quarto correu até James. Eu fiquei de olho, apenas esperando.
Sirius, Remus e Peter continuaram seus caminhos até onde eu estava, mas James parou para falar com a Isabella. Mesmo de longe, pude ver que ele usava uma blusa de gola para esconder a coleira. Sorte dele que está mesmo fazendo frio por esses dias.
Ele mal abrira a boca e os meus amados fogos de artifícios apareceram. Pararam acima das cabeças dos dois e estouraram, chamando a atenção do salão inteiro. Fiz a melhor cara de brava que pude, levantei e caminhei até eles.
- Mas o que é isso? – Ouvi James murmurar, intrigado, quando mais fogos estouraram.
- Posso saber o que está acontecendo aqui? – Perguntei, cruzando os braços e olhando para Isabella com ódio.
- Eu não faço ideia. – James pegou a varinha e tentou afastar os fogos, que não paravam de estourar.
Revirei os olhos.
- Eles só vão sair daí quando ela sair. – Continuei olhando para Isabella, que me encarava com surpresa. – Anda, garota! Vaza!
Depois tenho que pedir desculpas pra coitada da Isabella. Fez um favor e ainda levou uma patada. Mas que foi engraçado, isso foi.
- Bom... er... obrigada, James... – Ela murmurou, antes de voltar para a mesa da Grifinória.
- James? – Perguntei, boquiaberta. – Então, a sirigaita te chama de James ainda por cima?
- Todo mundo nessa escola me chama de James, Lily. – Ele ergueu uma sobrancelha, sem entender nada. Os fogos pararam de estourar, mas continuaram flutuando acima de nós. – Agora, pode me explicar o que é isso?
- Ah... isso foi um presente que eu ganhei há muito tempo, mas nunca precisei usar. Quero dizer, até hoje. São fogos anti-traição.
- Fogos o quê? – Ele arregalou os olhos.
- Fogos anti-traição, amorzinho. – Eu assumi novamente a máscara de namorada meiga e o abracei. – Assim eu sempre vou saber quando uma sirigaita qualquer estiver tentando roubar o meu namorado.
- Não... – Ele riu, incrédulo, e se afastou de mim, saindo do salão principal. – Você só pode estar brincando...
- Não estou, não.
- Certo... então, você está completamente louca!
- Você não percebeu, amorzinho? – Precisei correr para alcançar seu passo rápido – Ela estava dando em cima de você descaradamente!
- Ela só estava perguntando sobre o dever de Transfiguração!
- Pra você? – Eu ri com sarcasmo – Claro... eu esqueci que você é o melhor aluno da classe e sabe todas as datas de entrega de tarefas!
- Não. Você esqueceu que eu sou monitor-chefe e tenho obrigação de ajudar qualquer aluno que precise de ajuda e, sim, eu sei todas as datas de entrega de tarefas do sétimo ano. – Ele parecia estar realmente bravo – Eu não estou te entendendo, Lily! Não mesmo! Você nunca, em todos esses anos, demonstrou gostar um mínimo que fosse de mim e agora está agindo desse jeito! Bem que dizem que vocês mulheres são complicadas!
- James... – Parei de andar, assumindo uma expressão séria. Estava na hora de transformar o meu teatrinho em uma atuação de verdade. Ele ainda estava mal-humorado e encostou-se na parede, cruzando os braços e me encarando com uma sobrancelha erguida.
Por um breve momento eu esqueci o que estava fazendo ali... maldito Potter! Porque ele teve que nascer tão bonito? Eu quase senti pena de estar fazendo isso com ele. Quase. Ele merece, em todo caso. E eu já cheguei longe demais para voltar atrás. Além de ser divertido passear pela escola de mãos dadas com James Potter. As outras garotas piram! Verdade! E eu até posso tirar uma casquinha. É como a Alice disse no primeiro dia, já que eu tenho que fazer isso, por que não aproveitar, não é mesmo?
Bom, onde estávamos? Ah, sim! Ele se encostou na parede, com aquela cara de garoto bravo, os braços cruzados e uma sobrancelha erguida, esperando que eu desse minhas explicações.
Pigarreei antes de conseguir falar. Meu tom de voz estava sério, não havia nada em meu rosto que pudesse me entregar. Eu me senti uma verdadeira atriz quando entra em seu personagem numa daquelas cenas incríveis de filme. E é claro que eu me senti o máximo por conseguir enganar até mesmo James Potter! James Potter!
Certo. A convivência com ele está me fazendo ficar convencida demais. Droga.
Mas que é verdade, isso é. Eu fui um arraso!
- James, eu sei que parece loucura, mas... eu sempre gostei de você. – Eu poderia enganar até a minha mãe com aquela atuação. Ah, se o Sirius me visse naquela hora... acho que ele me convidaria para ser membro permanente dos marotos. – Mas eu era boba demais pra admitir isso pra quem quer que fosse... eu sempre quis você, mas... – Suspirei, fazendo drama. Eu podia sentir meus olhos arderem. Esse é o poder da atuação. – Você sempre estava aprontando pela escola... ou saindo com milhares de garotas... como eu poderia competir com elas? Me diz! Então, eu fingia que o desprezava, só para não ter que passar pelo sofrimento que seria sair com você e depois ser deixada de lado... como as outras... tudo o que você fazia, eu arranjava um defeito pra implicar... sempre... então, você começou a me chamar pra sair, me perseguir, mas eu não podia parar de fingir que não gostava, entende? Se eu aceitasse, você ia me tratar como qualquer outra. Eu precisava ser forte... – Ele descruzou os braços, impressionado com as minhas palavras. Eu realmente tenho um dom, senhoras e senhores. É um dom. – Mas você não parou. Eu sofria tanto, James, tanto... quando você vinha e me chamava pra sair e eu precisava dizer não... mesmo querendo dizer sim. E o tempo passou, mas você não desistiu. Então, eu desisti. Desisti de mentir pra mim mesma. Desisti de tentar ser algo que eu não sou. Desisti de fingir que não te queria e deixei meu orgulho de lado. Eu gosto mesmo de você, Tchucutchucu. Eu sempre gostei.
- Lily... eu... eu... – Ele piscou várias vezes antes de começar a rir. – Eu realmente não entendo as mulheres.
Fechei a cara e cruzei os braços, zangada.
- Eu estou aqui, abrindo o meu coração pra você e você ri da minha cara? – Virei-me e recomecei a andar de volta para o salão principal.
- Não! – Ele me segurou pelo braço, fazendo-me encará-lo novamente. – Não estou rindo de você. É só que...
- Eu sei que parece loucura. – Descruzei os braços e olhei para o chão. – Mas vocês homens nunca poderão entender a complexidade do coração feminino.
- Não mesmo... – Ele concordou, ainda rindo. – Mas eu sabia que você gostava de mim.
Levantei os olhos e encontrei aquele sorriso convencido que eu tanto conhecia.
- Sabia, é? – Ergui uma sobrancelha. Se ele soubesse a verdade, não estaria tão seguro de si.
- Claro que sabia. Seria impossível que você não sentisse nada por mim.
- Claro. – Revirei os olhos.
- Discorda? – Ele me encostou na parede, aproximando o rosto do meu.
Senti minhas bochechas corarem e parei de sorrir, fechando os olhos.
Definitivamente, agora eu admito. A melhor coisa nessa história toda de namorada do Potter é o beijo dele.
E não é porque eu estou há algum tempo sem beijar um garoto ou por ouvir os elogios das outras garotas. Mesmo depois de todos os beijos que já demos, eu ainda me surpreendo. Sentir seus lábios macios, sua língua quente, suas mãos firmes me segurando com força... o frio na barriga, a queimação no peito, a respiração entrecortada, a moleza nas pernas... o encaixe perfeito...
E a tentação contida. Porque tê-lo ali tão próximo é uma tentação grande demais para que eu possa suportar e é preciso muita concentração para não deixar que meus instintos me comandem. Eu tenho medo do que pode acontecer se eu deixar aquela tentação me dominar.
Cedo demais para que eu tivesse aproveitado o suficiente, mas a tempo de me impedir de cometer uma loucura ainda maior do que a que eu já estava cometendo, ele se separou de mim, segurando meu rosto entre suas mãos e parando de sorrir.
- Olha Lily, eu gosto muito de você, mas...
Meu coração começou a bater ainda mais rápido do que já estava, se é que isso é possível. Era impressão minha ou ele ia desistir? Será que eu conseguira finalmente me livrar do maldito Potter?
Minha mente ainda não estava trabalhando muito bem, culpa do idiota e seu beijo. Eu não sabia se estava feliz ou triste com aquele tom e aquela seriedade com que me encarava. Tentei respirar fundo, mas nem isso eu consegui. Raios de Potter e seu beijo. Por que, além de bonito, ele tem que ter um beijo tão bom?
- Esse negócio de fogos anti-traição... eu não vou parar de falar com outras garotas só porque estou namorando! Isso não faz sentido!
- Mas eles não te impedem de conversar com outras garotas, James. – Eu desencostei da parede e tomei certa distância para poder me recuperar. – Eles só avisam quando alguma garota está dando em cima de você.
- Eu não vou andar por aí com fogos flutuantes me seguindo, Lily. – Ele lançou um olhar estranho para os fogos que continuavam acima das nossas cabeças.
- Pensei que gostasse de chamar a atenção. – Zombei.
- Não é essa a questão. – Ele revirou os olhos. – E eu não preciso de fogos de artifício pra chamar a atenção.
- Exatamente. – Coloquei as mãos na cintura, encarando-o com superioridade. – Você é bonito, é claro, inteligente, charmoso... – Eu preciso parar de elogiá-lo antes que ele fique insuportável. O pior é que essa parte eu não preciso fingir. Raios de garoto. Ele tem todas as razões para ser convencido do jeito que é! Merlin foi muito generoso com ele, isso sim. – E isso chama a atenção das outras garotas. Eu preciso cuidar do que é meu.
- Então, não confia em mim?
- Não é questão de confiança em você, James... eu confio em você... mas não confio nelas...
Ele revirou os olhos.
- Quer dizer que qualquer garota nessa escola pode chegar e me obrigar a te trair? – Ele perguntou, cínico. – Não acho que muitas sejam fortes o suficiente pra me agarrar a força, Lily.
- Mas elas podem te dar uma poção do amor! E você vai acabar me traindo e eu não vou saber que foi por causa da poção, afinal, você não tem a melhor das famas, não é mesmo?
- Então, Lily, se você, por acaso, me vir com outra garota, espere algum tempo para que o efeito da poção termine antes de fazer qualquer outra coisa.
- E como eu vou saber que é mesmo por causa de uma poção?
Ele sorriu e segurou meu rosto entre as mãos, de novo.
- Porque eu não te trairia, Lily, se não estivesse enfeitiçado por uma poção do amor. Agora, para de besteira, está bem?
Suspirei, sem mais argumentos, e desfiz o encantamento dos fogos.
- Obrigado. – Ele beijou minha testa e segurou minha mão, me puxando de volta para o salão principal. – A propósito, obrigado por me deixar dormindo sozinho no salão comunal. – Ele fez uma careta, mas não parecia estar bravo.
- Mas eu não deixei! – Arregalei os olhos, me fingindo de assustada. – Eu te acordei e disse que estava na hora de ir se arrumar, antes que alguém descesse e nos visse ali. Você não lembra?
Ele franziu a testa e me olhou desconfiado.
- Não, não lembro.
- Você disse pra eu te deixar em paz e me pediu pra subir que você ia depois. – Fiz uma careta, parecendo estar realmente brava. – Foi bem grosso e estúpido pra falar a verdade.
- Fui? Não me lembro de ter falado nada...
- Isso não diminui a sua culpa. – Continuei séria.
- Está bem, desculpe se eu fui grosso e estúpido. – Ele bufou e revirou os olhos.
- Não revira os olhos pra mim! – Reclamei, andando mais rápido.
- Você não vai brigar por causa disso, vai?
Olhei para seu rosto, sua expressão era mesmo de dar dó. Foi impossível não sorrir um pouquinho que fosse.
- Se você prometer que não vai mais ser grosso e estúpido...
- Mas eu nem me lembro de ter falado com você! Foi o meu eu dormindo que falou, não eu! Briga com ele e não comigo!
- Pode ter certeza de que vou brigar!
Ele fez um barulho ininteligível com a boca, certamente discordando da minha postura, e escondi um sorriso vitorioso.
As aulas da manhã foram incrivelmente estranhas. Eu nunca ouvi meu nome sair de tantas bocas diferentes, parece até que eu sou a nova sensação da escola! James já está acostumado com os burburinhos, por isso não deu bola para as fofocas, mas eu não gostei de ter minha privacidade sendo assunto geral. Parecia que todos já estavam sabendo das coleiras e dos fogos e do namoro e dos passeios. Não que seja de todo ruim, mas minha imagem com certeza mudou bastante.
Não é sempre que se vê a monitora-chefe, sempre tão correta e dedicada somente aos estudos, começar a namorar um maroto como James Potter e que, por acaso, também é monitor-chefe, e agir de forma tão estranha, nada condizente com ela. Porque coleiras com nomes ridículos e fogos anti-traição não são coisas que Lily Evans faria.
Bom, pensando melhor, namorar James Potter não é algo que Lily Evans faria.
Comentários como "fim do mundo", "a terra parou de girar" e "as sereias estão voando" não paravam de circular.
Não posso negar que minha cabeça já estava explodindo quando o horário do almoço chegou.
Dei uma desculpa para os garotos e fugi do salão principal assim que consegui. Parei em um corredor vazio e sentei no chão.
Eu estava sentindo uma leve dor no meu peito. Alice me disse, mais tarde, que o nome disso é remorso. Não sei se ela está certa, só sei que esse plano do Sirius está se saindo mais complicado do que eu pensava.
Não que eu goste de ficar perto dele, apesar do beijo e de ele ser um pouco engraçado, mas às vezes parece maldade o que eu estou fazendo. Não é maldade, eu só quero me livrar dele, mostrar que eu não sou a pessoa ideal pra ele.
Mas, eu me questiono, e se eu for a pessoa ideal pra ele? Eu não estou sendo a pessoa ideal porque eu não estou sendo eu. Se eu fosse eu, eu poderia ser a pessoa ideal?
Ai, que dor de cabeça!
Não importa, na verdade, se eu sou ou não a pessoa ideal pra ele. O importante é que ele não é a pessoa ideal pra mim e é a isso que eu preciso me apegar!
Merlin, esses dez dias precisam passar rápido ou eu vou enlouquecer de vez!
Então, eu estava lá, sentada no corredor, sentindo o que a Alice diz se chamar remorso, abraçando meus joelhos e escondendo meu rosto, quando senti alguém sentar ao meu lado.
- Está tudo bem, Lily?
Levantei a cabeça e encontrei os olhos azuis de Lia me fitando com preocupação. Dei um sorriso fraco e assenti.
- E com você?
- Tudo bem. – Ela parecia tão bem quanto eu, na verdade. – Você e o James estão bem, não é? Ouvi uns comentários...
- Estamos bem... namorando, você sabe... ele... ele é legal... – Me repreendi internamente. Não consigo entender por que é tão difícil mentir pra Liana. Não dá pra fingir quando estou perto dela, e ela sabe disso. – E você e o Sirius?
Ela corou e desviou o olhar.
- Eu... er... eu terminei tudo com ele... antes mesmo de começar...
- Como assim?
- Bom... quando vocês saíram do Três Vassouras, ele me chamou pra dar uma volta, sabe... – Ela corou ainda mais. – Ele me levou pra um lugar lindo lá por perto, mas... um pouco... deserto demais...
- Não... ele tentou...?
- Não! Quero dizer... mais ou menos... – Ela suspirou diante do meu olhar indagador – Ele começou a me beijar e me acariciar, mas não estava me forçando a nada... só estava... acontecendo...
- Vocês...?
- Eu pedi pra ele parar. – Ela mordeu o lábio inferior – Bom, eu... eu não sou mais virgem, Lily. – Ela me confidenciou, em voz baixa – E eu queria. Mas eu não queria que fosse só uma vez, sabe? E assim, no primeiro encontro... eu me sentiria uma qualquer. Eu queria que ele gostasse mesmo de mim e que a gente ficasse junto... como você e o James. Eu não quero só... transar com ele... quero ser namorada dele, quero que me respeite. Mas ele é o Sirius. E ele só quer... só quer me ter por um dia... – Ela suspirou, escondendo o rosto nas mãos – Então, eu disse que a gente só ia continuar aquilo se ele... se ele quisesse algo sério...
- E o que ele disse? – Perguntei, com cuidado.
- Ele não disse nada... e eu... fui embora.
- Puxa... isso explica a reação dele quando eu perguntei de você...
- Por quê? – Ela levantou o rosto e me encarou com curiosidade. – O que ele disse?
- Nada. E isso é estranho. Ele costuma se gabar de tudo. – Revirei os olhos e ela sorriu tristemente. – Mas ele não quis falar nada sobre vocês.
- Ele não vai nem querer ouvir o meu nome. – Ela suspirou. – Onde eu estava com a cabeça? Aceitar sair com Sirius Black...
Onde eu estava com a cabeça? Aceitar o plano de Sirius Black?
É, eu sei como ela está se sentindo.
A tarde passou lenta demais. Afinal, não havia como colocar em prática meus planos durante as aulas. Eu posso ter perdido um pouco da minha sanidade, mas a parte "responsável nos estudos" ainda está intacta. Eu ainda terei que prestar os NIEM'S, as matérias ainda são complicadas e os professores não iriam aceitar me dar um desconto dos trabalhos, mesmo que seja por uma boa causa. E me livrar de James Potter é uma boa causa. Não só boa como a melhor!
Aproveitei que James tinha treino de Quadribol à noite para pôr o sono em dia. Dormi das sete às onze horas da noite. Teria dormido até amanhã, mas ainda tenho muitas tarefas para fazer.
Desci para o salão comunal para fazer essas tarefas e, para minha surpresa, Sirius estava lá também.
- E aí, ruiva? – Ele me cumprimentou com um largo sorriso e veio se sentar ao meu lado.
- E aí, Six. – Sorri em resposta. – Então, já posso ser membro permanente dos marotos?
Ele riu com gosto.
- Você não sabe como ele está confuso! Nem conseguiu se concentrar no treino hoje!
- Se eu tiver sorte, além de tirar ele do meu pé ainda vou deixá-lo maluco!
- Não duvido. – Ele me observou abrir o livro de poções e pegar um pergaminho. – Mas você não acha que está exagerando? Ele está meio desconfiado...
- Quem são vocês para entenderem as mulheres? – Perguntei com superioridade e rimos. – E depois, se ele me achar maluca, tão melhor pra mim. Acho que ele não iria querer namorar uma maluca.
- Então você não precisa se preocupar, pimenta, porque, fingindo ou não, você é maluca.
Mostrei a língua pra ele num gesto infantil e ri de novo. Incrível como é fácil conversar com o Sirius. Acho que vou sentir falta dessa nossa parceria quando esse plano todo acabar.
- E agora? Qual o próximo passo da marota Lily Pimenta Evans?
Eu estava me preparando para contar meu plano para amanhã quando senti algo estranho. Um cheiro, na verdade, e a sensação de que estava sendo observada.
Não consigo explicar ao certo o que era, mas foi quase como uma presença. Eu sabia que Sirius estava ali, claro, mas outra presença, como se houvesse mais alguém ali com a gente. E aquele cheiro, não era bem um perfume, mas era conhecido, familiar.
Imediatamente percebi que não era seguro conversar sobre aquele assunto. Não ali. Não naquela hora.
- E você e a Lia?
Ele estranhou a mudança repentina e depois sorriu.
- Não quer me contar?
- Não, Sirius, agora não. E você e a Lia?
Algo na minha expressão deve ter convencido ele de que aquela não era a hora certa para tratar daquele assunto. Ele suspirou e escorregou um pouco na cadeira, numa pose descontraída e displicente.
- O que tem?
- Vocês não conversaram mais? Não vão sair de novo? Você nem disse como foi naquele...
- Não, não vamos.
Ele me cortou, repentinamente mais frio.
- Por quê? Ela é uma garota tão legal, você devia...
- Eu sei que ela é legal. – Ele se levantou e não me olhou. – Por isso eu não vou mais sair com ela.
- Mas isso não faz sentido! – Eu levantei também, impedindo a passagem dele até quadro. – Um garoto devia ficar feliz quando encontra uma garota legal que é afim dele. Ou você não está afim dela?
- Lily – Ele me olhou com um sorriso de lado, o tom frio já havia passado. –, a questão não é essa. Você sabe que eu posso ficar com qualquer, tudo bem, com algumas exceções, então quase qualquer garota nesse colégio, a hora que eu bem entender. E a Liana é legal demais para entrar nessa lista. Nós nos demos muito bem e, por isso, eu não quero ferir os sentimentos dela. Você como uma boa dama devia entender isso.
- Nossa, você parece até um cavalheiro falando dessa forma. – Eu sorri. – Está poupando os sentimentos dela, então? Isso não parece muito com uma atitude de Sirius Black.
- Eu não sou o cachorro que pintam.
Eu posso jurar que ouvi uma tossida. Olhei em volta, mas não havia mais ninguém, apesar daquela sensação ainda estar presente. Voltei os olhos para Sirius, que sorria com descontração.
- A não ser que... – Comecei, com um sorriso enorme surgindo em meu rosto. Ele pareceu se assustar e me olhou desconfiado.
- A não ser que o quê?
- A não ser que você esteja apaixonado por ela! Há! Você está apaixonado por ela!
Ele começou a rir, incrédulo.
- Eu? Lily, eu não me apaixono por ninguém.
- Mas você gosta dela! – Continuei, convicta. – Gosta, sim! E está com medo disso! Não, não... você não sabe! Você ainda nem sabe que gosta dela!
Ele me olhou como se eu fosse mesmo maluca e balançou a cabeça, suspirando.
- Anda lendo muito romance, Lily? Ou será que é o namoro com o Pontas que está te fazendo ver tudo cor-de-rosa?
Corei violentamente. Meu namoro não era algo para ser tratado naquela hora, eu tinha certeza disso.
- Talvez. Mas que você gosta dela, você gosta.
- Lily, volta pras suas poções que eu tenho mais o que fazer. – Ele riu de novo e passou por mim, saindo da torre da Grifinória.
Eu estava com o pensamento tão longe que não percebi quando o cheiro e a sensação me deixaram completamente só.
Agora só me resta terminar essas tarefas e ir dormir. Eu não devia ter deixado tudo isso pra última hora...
Vida de namorada de maroto não é fácil, não. Nem um pouco.
N/A: FELIZ 2012! =D
Demorei um pouco por causa das festas de fim de ano, mas estou de volta com mais um capítulo! =)
Espero que gostem!
Muito obrigada por todos os comentários! Vocês são demais! =D
Que 2012 seja um ano maravilhoso para todos!
Beijos,
Cristal Evans.
