4º Dia

Eu quero sumir. Definitivamente.

Aquela coisinha que Alice diz se chamar remorso cresceu tanto que está esmagando o meu peito e molhando todo esse pergaminho com lágrimas teimosas e nem um pouco bem-vindas.

O que aconteceu? Ah, nada de importante, só o idiota do James, digo, Potter resolvendo ser mais legal do que eu julgava que fosse possível e me fazendo parecer a pessoa mais horrível do mundo. Nada de mais.

Só me fez descobri que sou um monstro.

Em primeiro lugar, ele resolveu começar a ser cavalheiro. Sim, senhoras e senhores, James Potter, um cavalheiro. Inacreditável, eu sei.

Fiquei a noite quase toda em cima do meu livro de poções para poder terminar um trabalho que, com todo esse plano de namorar James Potter, acabei deixando para a última hora. Mas meu corpo estava fadigado demais por causa das últimas noites mal dormidas, a culpa disso também é, claro, desse plano estúpido, e acabei adormecendo numa posição desconfortável na sala comunal.

Quando acordei, entretanto, antes mesmo de abrir os olhos, sabia que algo estava errado. E não era só por estar deitada em uma cama quentinha e confortável, mas por aquele cheiro no travesseiro. Um cheiro bom e familiar, mas que não era o cheiro do meu travesseiro.

Aquele não era o meu dormitório, disso eu tinha certeza. Até porque nenhuma das minhas colegas de quarto ronca feito um dragão.

Quando abri os olhos, logo reconheci o dormitório dos marotos. E os roncos, claro, vinham da cama perto da porta, a cama do Pettigrew.

E eu estava na cama de James, quentinha e confortável, enquanto ele dormia em um colchão improvisado no chão.

Uma atitude de cavalheiro, como eu bem disse.

Agradecida e admirada, deixei que ele descansasse, era o mínimo que eu podia fazer, e fui para o meu próprio dormitório curtir as poucas horinhas de sono que eu ainda tinha.

Enquanto não adormecia, tratei de pensar em meus próximos planos. Não que eu tivesse muitos. Achava que àquela altura eu já teria me livrado do James, mas ele estava dificultando demais as coisas comigo.

Como o bom monstro que sou, eu precisava dificultar as coisas com ele também.

Não entendo como ainda não havia percebido o quanto eu estava sendo idiota.

- Lily! Acorda, ruiva dorminhoca! Vamos perder o primeiro período!

- Ah, Alice... me deixa dormir...

- Lily, você vai mesmo querer perder a aula da McGonagall? Sabe, ela não vai ficar nem um pouco feliz com a monitora-chefe predileta dela. Se bem que eu acho que você não é mais a favorita dela, não. Essa história de namorar o James... você sabe que ela detesta as marotagens dele e do Sirius... você deve ter caído no conceito dela, isso sim... mas eu nem sei como ela podia te ter em tão alta estima! Tudo bem que você sempre foi a melhor da turma e blábláblá. Mas às vezes eu acho que ela odeia todo mundo. Semana passada eu estava conversando com a Jaque e ela me disse que...

- Alice, cala a boca. Eu quero dormir.

- Depois não diga que eu não avisei. O que você andou fazendo ontem à noite pra estar com tanto sono assim? Não me diga que saiu com o James! Esse namoro parece estar dando mais certo do que eu imaginei. Sabe, quando você me contou do plano, eu sabia que você ia acabar se apaixonando. Era só uma questão de tempo, você sabe. Esses marotos... e ele é um pedaço de mal caminho, não é? Garota de sorte, você. Se bem que eu não posso reclamar, o Frank é tudo de bom e mais ainda! Ele disse que vai dar um jeito de estar em Hogsmead nesse sábado, não é o máximo? Ele tem tantas novidades, Lily... e podemos fazer um encontro de casais! Frank sempre gostou do James, tenho certeza de que vai adorar a ideia! Eu não contei nada pra ele, sobre vocês, sabe? Achei que seria melhor contar quando você admitisse estar apaixonada... ah! Posso contar agora? Eu vou ao corujal agora mesmo se você deixar! Frank vai adorar saber disso!

- Lice... do que você está falando? – Desisti do meu sono gostoso e sentei na cama, esfregando os olhos. – Quando eu admitisse o quê?

Ela revirou os olhos e pegou sua mochila.

- Que está apaixonada pelo James, mas falamos sobre isso depois, estamos atrasadas.

Esbocei um sorriso e fiz um gesto de descaso com a mão.

- Atrasadas. Alice, ainda temos... – Olhei para o meu relógio de cabeceira e me assustei. – AH! DROGA! A AULA DE TRANSFIGURAÇÃO COMEÇA EM DEZ MINUTOS!

- Eu sei, Lily. Calma. É só colocar sua roupa e já vamos correr pra lá.

- Como assim calma? POR QUE NÃO ME DISSE QUE EU ESTAVA ATRASADA?

- Mas eu disse!

Sim, ela tinha dito. Eu apenas não havia processado a informação devido ao excesso de sono presente no meu corpo. Tudo culpa do Potter!

Eu sei que sou um monstro, mas nem por isso ele deixa de ser culpado. Ninguém mandou ele resolver me perseguir!

- Droga, droga, droga... – Me levantei de um pulo, colocando as roupas de qualquer jeito. – Nunca vamos conseguir chegar a tempo! Como eu sou idiota! Por que eu tinha que dormir tanto? Por quê?

- Lily, só vamos chegar um pouco atrasadas. Não é o fim do mundo.

- É claro que é! É o fim do mundo! O apocalipse! Eu estou perdida! A McGonagall vai ficar furiosa e desapontada! Droga, droga, droga! E eu nem terminei o trabalho de poções ainda!

- Pega. – Ela me entregou a mochila enquanto eu tentava dar um jeito no cabelo. – Já arrumei seu material. Dois minutos.

- Droga! – Ignorei minha juba e saímos correndo do dormitório. Eu já estava histérica a essa altura, mas Alice não parecia muito preocupada. É sempre assim, na verdade, quando eu me atraso, ela me espera, sem perder a calma e o bom humor. Talvez isso se deva ao fato de que ela não leva o estudo tanto a sério quanto eu, mas eu prefiro pensar que é resultado da verdadeira amizade e me sinto grata por isso. – Obrigada, Lice. Não sei o que eu faria sem você.

- Você só teria um ataque cardíaco, nada de mais. – Ela sorriu, feliz que eu parecesse mais calma. – Mas o que te fez dormir até mais tarde hoje?

- Dever de Poções.

- E você não terminou?

- Não.

- Bom, tem um período livre depois de transfiguração. Acha que dá tempo?

- Espero que sim. Não quero decepcionar dois professores no mesmo dia.

Descer três lances de escadas e correr pelos longos corredores do castelo nos rendeu muito mais do que dois minutos e chegamos atrasadas e ofegantes na sala de aula de Transfiguração.

- Preparada... para... a morte? – Perguntei, sem ar, antes de abrir a porta.

- Sempre...

McGonagall já havia começado sua aula, é claro, e não ficou nem um pouco feliz quando a interrompemos.

- Desculpe, professora. Nos atrasamos e...

- Poupe seu fôlego, senhorita Evans. Não preciso que me diga que está atrasada para eu perceber que está. Eu devia impedi-las de assistir à minha aula...

- Não! Por favor, professora, por favor! Eu prometo que não vai mais acontecer! Prometo! Mas deixe-nos ficar! Por favor!

- Espero que cumpra sua promessa, senhorita Evans. Andem, entrem antes que eu me arrependa. E dez pontos a menos para a Grifinória pelo desleixo das duas.

Passamos os próximos dez minutos ouvindo um discurso sobre responsabilidade, NIEM'S e vida profissional pós-Hogwarts. O que só me fez sentir pior ainda.

Não que aquilo se compare ao que eu sinto agora.

- Bom dia, dorminhoca. – James se aproximou quando a aula acabou.

- Bom dia. – Eu estava me sentindo um pouco sem jeito depois da atitude cavalheira daquela madrugada. – E obrigada...

Ele riu e me abraçou.

- Eu vou deixar os pombinhos a sós, então. – Alice disse, com um sorriso nada inocente, quando saímos da sala. – Estou pensando em passar no corujal para mandar uma carta para o Frank.

Isso me lembrou do monólogo da manhã, quando eu ainda estava sonolenta demais para negar qualquer coisa.

- Ah! Alice... er... sobre aquela... novidade que você ia contar ao Frank... er... você entendeu errado...

Ela riu de mim e balançou a cabeça.

- Tchau, Lily.

E se foi.

James virou para mim, visivelmente curioso com aquela conversa de meias palavras.

- Que novidade?

- Deixa pra lá.

- Não vai me contar?

- Não.

- Por favor?

- Não.

- Lily...

- Não, não e não.

- Nem se eu pedir com jeitinho? – Ele me encostou na parede, com um sorriso muito convencido, e eu fiquei sem fala. – Hein? – Me beijou de leve, pressionando o corpo contra o meu. – Por favor? – Sua voz soava baixa e rouca na minha boca, me fazendo arrepiar, enquanto seu beijo, mais intenso dessa vez, me deixava desnorteada.

Se ele queria me fazer falar, estava fazendo o jogo errado. O que eu menos conseguiria fazer naquela hora seria falar. Na verdade, eu já nem lembrava o que ele queria que eu falasse.

Mas que droga! Por que esse maldito tem que fazer tudo ser tão mais difícil? Por quê?

Passei o resto do período no salão comunal, terminando o dever de Poções. Os marotos deviam estar aprontando alguma pelo castelo e Alice também estava sumida, sobrando apenas minhas outras três colegas de quarto ali na torre da Grifinória.

Fiquei observando-as assim que terminei meu dever. Elas são do tipo de garotas que fazem sucesso com caras como Sirius, que só querem alguém com quem se divertir por um dia. Lindas e bem arrumadas, mas frescas, mimadas e grudentas.

Isso acabou me dando uma ideia, e como eu já estava com falta delas, resolvi arriscar. Meu plano seria posto em prática ainda naquela tarde.

A aula dupla de poções passou devagar, mesmo sendo minha matéria favorita. Eu estava ansiosa para colocar meu plano em prática.

Alice concordou em me acompanhar, eu precisaria de ajuda feminina, e Sirius nos ajudou a escapar do castelo clandestinamente.

- Quem te viu, quem te vê, ruiva! – Ele brincou, rindo, quando eu pedi para que nos levasse até Hogsmead. Não foi fácil conseguir falar com ele sem que James estivesse por perto, mas até mesmo James Potter precisa usar o banheiro às vezes. Ele só não ficaria muito satisfeito quando voltasse e soubesse que sua namorada e o melhor amigo haviam sumido. – Não se preocupe com isso. – Sirius disse quando expressei minha preocupação com a desconfiança do meu namorado. – Vou pedir ao Aluado para inventar alguma coisa.

Então, pouco antes de o almoço de Hogwarts ser servido, nós três estávamos entrando em uma passagem escura e estreita, atrás da estátua da bruxa de um olho só, no terceiro andar, rumo à Hogsmead.

Saímos no porão da Dedosdemel e de lá para as ruas do vilarejo.

- Vão demorar muito? – - Sirius perguntou, observando-nos com curiosidade. Eu não contara meu plano para ele.

- Acho que sim, mas não precisa nos esperar.

- Não tem problema. – Ele deu um daqueles sorrisos safados que só ele sabe dar e eu já soube que coisa boa não podia estar a caminho. – Acho que vou passar no Três Vassouras. Faz tempo que não tenho uma boa conversa com a Rosmerta.

É claro. Mulher. Eu devia ter imaginado.

- Conversa. Sei. – Balancei a cabeça, pensando em Liana. – Encontramos você lá, então.

- Não precisam ter pressa.

- Então vamos, Lice. Alice? – Sacudi-a pelos ombros enquanto ela observava Sirius se afastar.

- Já percebeu como ele é gostoso? Olha aquilo, Lily... é simplesmente... muita tentação...

Revirei os olhos e ela suspirou.

- Alice, você tem namorado, esqueceu?

- O que o Frank não vê, ele não sente, Lily. E eu não estou fazendo nada de mais. Eu tenho olhos, ele tem um belo corpo, e a natureza segue seu curso.

- Você não existe, Alice. – Eu ri, forçando-a a se virar. – Vamos. Temos muito trabalho pela frente.

Afinal, não ia ser muito fácil me transformar em uma patricinha fútil e fresca de uma hora para a outra.

Não que eu tenha algo contra garotas que gostam de estar sempre arrumadas, longe disso! Eu até as admiro pela força de vontade. Mas eu precisava de algo que fizesse James ficar cada vez mais aborrecido e desiludido com o nosso romance. Eu precisava que ele decidisse terminar comigo logo.

Por isso, passei as próximas duas horas sendo torturada por feitiços depilatórios, cabeleireiros, maquiadores, manicures e tudo mais a que tinha direito.

Alice me fez companhia durante todo o tempo, contando sobre o programa de iniciação para Aurores que Frank estava fazendo. Eu até me interessei pelo assunto. Mesmo estando muito perto de terminar Hogwarts, eu ainda não decidi o que quero fazer quando sair daqui e com tantos ataques acontecendo ultimamente, precisamos mesmo de bons Aurores.

- Mas eu sabia que você ia acabar se entregando. – Ela comentou quando eu fui, finalmente, dispensada do salão da Madame Frambueri.

- Me entregando a quê? – Estranhei, lutando para me equilibrar no lindo sapato vermelho de salto alto que eu me obriguei a comprar. Eu não poderia exagerar na roupa, já que o uniforme de Hogwarts não me deixava muitas alternativas, então precisei apelar para o sapato.

- Ao amor, Lily. Ao amor.

- Amor? Ficou maluca?

Ela me olhou com um sorriso cínico.

- Você não vai continuar fingindo que não está apaixonada pelo seu namorado depois dessa arrumação toda, vai? Porque eu não vou acreditar.

Eu precisei parar e me apoiar nela para poder rir à vontade sem cair do salto. Graças a Merlin a maquiagem era à prova de água porque eu já estava chorando de tanto rir.

- Você acha mesmo... que eu fiz tudo isso porque estou apaixonada pelo James?

- E por que seria?

Respirei fundo, recuperando o controle, e voltei a caminhar lentamente na direção do Três Vassouras, ainda me apoiando nela.

- Esse é só mais um plano, minha amiga. Só mais um plano. E, dessa vez, tem que ser infalível!

- E o que você pretende fazer? – Ela ergueu as sobrancelhas, me olhando de cima a baixo. – Matá-lo do coração? Tudo bem que você está linda, mas eu acho que ele aguenta. Ou vai atacá-lo nas partes baixas com seu salto super-poderoso? Isso daria certo se você conseguisse se equilibrar em cima dele. Ah! Já sei! Vai arranhá-lo com suas unhas postiças! Por isso pintou de vermelho escuro? Para dar um aspecto ainda mais macabro quando elas ficarem empapadas com o sangue do seu namorado?

- Não. – Revirei os olhos e a larguei. – E pare de falar 'namorado' com esse tom irônico. Sabe muito bem que eu não gosto nem um pouco dessa história.

- Está certo. O que pretende fazer então com o seu namorado-dessa-vez-sem-tom-irônico?

- Simples, amiga. Eu vou ser a garota mais fútil e fresca da face da terra.

- Não me parece um plano tão brilhante assim.

Eu sorri com malícia.

- O problema, meu amor, é que James Potter, o meu namorado, não vai nem ao menos conseguir tocar em mim. Afinal, eu não tive tanto trabalho para me arrumar para que ele me desarrumasse toda com um beijo de tirar o fôlego, não é?

- Ah... acho que sei aonde você quer chegar...

- Você consegue imaginar James Potter namorando uma garota que ele mal pode beijar? Que mal pode tocar?

- James Potter? – Ela riu. – Um dos adolescentes com mais hormônios masculinos aflorados da história de Hogwarts? Há! Ele vai desistir de você no primeiro minuto.

Concordei com a cabeça.

- Se ele amassar minha roupa ou despentear o meu cabelo, minha amiga, ele vai ouvir uma bronca de horas! Agora, me diga, eu sou ou não sou brilhante?

Ela revirou os olhos, sorrindo.

- Está bem, senhorita Lily brilhante Evans, o plano é melhor do que eu pensei. – Então seu sorriso desapareceu e um vinco se formou em sua testa. – Mas...

- Mas o quê?

- Tem certeza de que não vai se arrepender?

- Me arrepender? Do quê?

Ela revirou os olhos e me deu um tapa fraco na cabeça.

- Da ideia estúpida de fazê-lo desistir de você! Lily, eu sei que você só aceitou ser namorada dele pra se livrar dele, o que é um plano bastante estranho, em minha opinião, mas vocês são loucos mesmo... bom, o que eu quero dizer é... se você agisse naturalmente, se decidisse dar uma chance pra ele, será que não poderia dar certo? Você já vai ter que namorá-lo, então por que não tentar de verdade? Se não der certo, vocês terminam e ponto final.

Já estávamos em frente ao bar e isso me aliviou. Eu não estava gostando nem um pouco do rumo daquela conversa. Claro que agora eu percebo que ela estava certa, mas só porque agora eu sei que sou um monstro!

Droga, droga, droga...

- Lice, não se preocupe com isso. Logo eu não serei mais a namorada do James e tudo será como antes. Não! Será melhor! Afinal, eu não vou ter um James Mala Potter no meu pé o tempo todo. Acredite em mim. Tudo vai terminar muito bem.

Entramos no bar e encontramos Sirius debruçado no balcão, conversando, é claro, com a Rosmerta. Ele se virou quando nos aproximamos e sua reação foi ainda melhor do que eu imaginava.

Ele não sabia o que íamos fazer então ficou realmente impressionado com o resultado. Não disse nada. Apenas me observou de cima a baixo, boquiaberto.

Olhando para o espelho detrás do balcão, vi que ele tinha razão para estar tão abobalhado. Eu não parecia Lily Evans. Nunca imaginei que diria isso, mas eu estava mais parecida com uma estrela de cinema do que com a normal e sem graça aluna de Hogwarts.

Primeiro, os sapatos. Salto alto, vermelho, lindo. Mais da metade da população feminina iria babar aos meus pés, literalmente.

Depois, a roupa. Não havia muito que fazer, mas alguns dedos a menos na saia fizeram uma boa diferença, deixando minha perna mais à mostra. A meia calça era da cor da pele e um pouco fina para o clima, mas eu não me importava naquele momento. A blusa estava mais justa, descrevendo os contornos do corpo e um botão a mais aberto dava um charme especial. O casaco, com o emblema da Grifinória, aberto fechava o visual.

As unhas estavam feitas, pintadas de um vermelho escuro. O rosto cuidadosamente maquiado. O cabelo com ondas largas e exuberantes.

- E então? Como estou? – Perguntei, com um sorriso convencido, dando uma voltinha.

- Se você pretende matar a população masculina do castelo do coração, vai conseguir. – Ele disse, piscando.

- Obrigada.

Ele colocou um sorriso largo no rosto e se aproximou mais.

- Depois que o Pontas terminar contigo, por que não sai comigo, Lily?

Eu ri.

- Um maroto na minha vida é mais do que o suficiente, Six. Pode esquecer.

- Se você mudar de ideia... – Ele se aproximou mais e eu revirei os olhos.

- Não, porque eu vou acabar me apaixonando perdidamente por você, mas você vai me deixar chorando porque vai descobrir estar apaixonado pela Liana.

Ele revirou os olhos.

- Só uma parte da sua frase é verdade.

- E seria a que eu vou me apaixonar por você, certo?

- Se apaixonar perdidamente, Pimentinha, perdidamente.

- Claro.

Sirius passou um braço sobre os meus ombros e saímos para voltar para o castelo. Eu ainda tinha um grande dia pela frente.

Depois da reação de Sirius, eu já imaginava que não iria ser nada fácil manter aquele papel diante de todo o castelo. Mas eu chegara longe demais para pensar em voltar.

Uma de minhas melhores qualidades, e que acaba se tornando meu pior defeito, é minha persistência, chamada por muitos de teimosia. Começou quando eu cismei com o James, já no primeiro ano. Não importava o que ele fizesse, eu estava sempre do outro lado, sempre contra ele. Poucas vezes, como aquela quando ele salvou o Severo, eu o defendi.

Então, Sirius conseguiu me convencer a mudar de estratégia, mas minha meta continuava sendo a mesma: me livrar de James Potter.

E agora que esse era o plano 'perfeito', eu não iria abrir mão dele até conseguir um resultado positivo.

- Sirius, eu preciso que me ajude numa outra coisa. – Pedi assim que chegamos ao castelo. Alice se despediu de nós, dizendo que precisava terminar um trabalho de Feitiços, e eu e Sirius ficamos a sós.

- O que quiser, Pimenta.

- Eu preciso que você ache um jeito de chamar o James pra sair com você e os marotos quando ele estiver sozinho comigo. Pode mandar uma coruja ou algo assim. Acho que hoje à noite vai ser perfeito, vamos ter que fazer a ronda juntos.

- Não se preocupe, tenho o jeito perfeito.

- Você é demais, Six!

- Eu sei.

Ri e dei um beijo em sua bochecha antes de sair correndo para a torre da Grifinória. Eu ainda precisava pegar meu material para as aulas da tarde.

Eu só não contava com encontrar James no meio do caminho. Eu ainda estava preparando o meu discurso e imaginava fazer uma aparição muito melhor do que aquela. Na verdade, não tinha como fazer uma aparição pior do que aquela.

Correr de salto não é uma boa ideia. Principalmente para mim. E eu estava correndo.

Como seria de se esperar, não durei muito tempo em pé, antes de chegar ao terceiro andar, acabei me desequilibrando e caindo, levando junto comigo uma armadura, o que resultou num barulho tremendo e uma roda de alunos se formando ao redor de mim, até mesmo...

- Lily? – Sim, o James.

- Ah! Oi.

Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar, me olhando com curiosidade. É, eu perdi duas horas para me transformar em uma modelo para cair da passarela no meu primeiro desfile! Que ótimo!

- Você está bem? – Ele continuava me encarando com dúvida. Parecia não ter certeza se aquela era mesmo eu.

- Estou, obrigada. – Coloquei um sorriso largo no rosto e arrumei minha roupa. Eu podia ver muitos rostos abobalhados ao meu redor, me inspecionando minuciosamente. Não era hoje que eu deixaria de ser o alvo das fofocas. Eu devia ter desistido dessa ideia maluca do Sirius! Maldita teimosia...

James não disse nada, mas não me olhava como os outros. Achei que ele ficaria como Sirius, boquiaberto, mas ele me olhava mais como se estivesse reprovando meu novo visual. Tentei não parecer preocupada ou envergonhada e dei uma voltinha, abrindo os braços.

- E então? Gostou?

- Você está... bonita. Mas você já é bonita, Lily... não precisa disso.

Maldito Potter! Por que ele tem que ter o dom de estragar todos os meus planos? Ele não podia agir como uma pessoa normal pelo menos uma vez na vida? Droga!

- Então você não gostou? – Meu sorriso desapareceu, dando lugar a uma expressão de cachorrinho abandonado. Se ele ia complicar as coisas, eu ia usar isso a meu favor, como o bom monstro que sou.

- Claro que eu gostei. – Ele sorriu aquele sorriso e eu percebi que ele finalmente estava agindo como uma pessoa normal. – Você está... – Ele se aproximou mais, me prendendo na parede onde antes havia estado a armadura, e sussurrou no meu ouvido. – Sexy.

A plateia que nos observava não podia ouvir o que ele dizia, mas podia imaginar devido à tonalidade do meu rosto.

Tentei ignorar os burburinhos e as risadinhas, eu precisava me concentrar em James e na minha missão.

- James! – Reclamei, empurrando-o e esticando minhas vestes. – Você está amassando minha roupa toda!

Ele revirou os olhos.

- Por que isso agora?

Peguei em sua mão, querendo ir para um lugar sem espectadores. Arrumei a armadura com um toque de varinha e o puxei para voltarmos para a torre da Grifinória.

- Por que o quê?

- Por que toda essa produção? Eu sei que você não liga pra essas coisas.

- Não ligava, bebê. – Dei um beijo estalado em sua bochecha e sorri meigamente. – Agora eu tenho um namorado e tenho que estar sempre linda pra ele.

Ele sorriu e olhou em volta, não havia mais ninguém no corredor.

- Então, vem cá. – Ele me puxou para dentro de uma sala de aula vazia. – Quer dizer que isso tudo é só pra mim? – Ele me olhou com malícia, colocando as duas mãos na parede, me prendendo.

Era aonde eu queria chegar.

- Claro, seu bobo.

Ele beijou a base do meu pescoço e colou seu corpo no meu. De repente, meu plano parecia mais difícil do que eu imaginava.

Minhas mãos se moveram inconscientemente até seus cabelos e ele me beijou com fervor. Uma mão segurava minha cintura com força enquanto a outra segurava meu cabelo. Era o que eu precisava para pedir para que ele parasse, mas eu não conseguia fazer isso.

Na teoria era muito mais fácil do que na prática. Bastava eu brigar com ele, dizendo que havia perdido um tempo enorme me arrumando e agora ele estava estragando tudo. Mas eu não podia.

Eu mal conseguia pensar no que devia fazer, quanto mais agir. Ele me beijava, me acariciava e tudo o que eu queria era mais.

A mão que estava em minha cintura desceu até minha coxa, puxando minha perna e encaixando-a em sua cintura, enquanto beijava meu pescoço.

Eu estava ofegante e já não comandava minhas mãos, que estavam em suas costas, por baixo da blusa.

Mesmo sem ar, minha boca procurava constantemente sua pele, beijando, mordendo. Nem mesmo com toda a força de vontade do mundo, eu conseguiria parar naquela hora.

Senti sua mão em minha perna novamente, prendendo-a em sua cintura, passeando desde o joelho até a coxa, brincando com a barra da saia, entrando debaixo da saia...

O alerta vermelho piscou em minha cabeça e eu segurei sua mão antes que ela pudesse chegar a lugares impróprios. Ele não era meu namorado de verdade! Eu não podia deixar algo assim acontecer!

Foi o suficiente para eu recuperar o bom senso e afastá-lo, mas não o suficiente para recuperar o fôlego. Respirei fundo algumas vezes, me preparando para começar a bronca. Quando olhei para cima, entretanto, encontrei seu rosto mais próximo do meu do que esperava e seus olhos queimavam para mim. Não houve tempo para tentar me recuperar, sua boca já estava na minha novamente. Quente, ávida, repleta de desejo.

Eu não queria sair dali, mas eu precisava sair.

Paramos de nos beijar para recuperar o fôlego, mas suas mãos continuavam em meu corpo, passeando em minhas costas, por baixo da blusa, em minhas pernas, em meus cabelos.

- James... – O que era para ser repreensão, saiu como prazer. Ele não me deixou terminar, tomou minha boca na dele novamente, com ainda mais vontade.

Um alto barulho do lado de fora nos despertou. Ele se afastou e riu, tirando algo de dentro do bolso.

- Mas o quê...?

- Shh... – Ele tapou minha boca com um beijo rápido e nos cobriu com uma capa.

Nesse mesmo instante, a porta foi aberta e os alunos do segundo ano entraram, fazendo muito barulho. Mas nenhum deles pôde nos ver.

- James! Isso é uma capa de invisibilidade! – Exclamei, como se ele não soubesse disso.

Ele riu e me puxou. Esgueiramo-nos para fora da sala de aula e continuamos andando até que não tivesse mais ninguém no corredor e pudéssemos tirar a capa.

Ele ainda ria quando eu percebi que estava atrasada pela segunda vez no mesmo dia.

- Droga! TEMOS AULA DE FEITIÇOS AGORA! – Comecei a correr na direção das escadas. Eu ainda precisava pegar o meu material antes de ir para a aula do Flitwick. – Droga, droga, droga! Nunca vamos conseguir chegar a tempo!

- Calma. Ainda temos cinco minutos.

- CINCO MINUTOS? – Eu já estava tirando meu sapato para poder subir correndo as escadas, mas ele me segurou. – COMO VOCÊ PODE ME PEDIR CALMA?

- Se formos por aí, nunca vamos chegar. – Ele revirou os olhos e me puxou para o lado oposto.

- O que está fazendo? MEU MATERIAL ESTÁ NA TORRE!

- Eu sei. – Ele estava extremamente calmo e sorridente. – E é pra lá que estamos indo.

Eu desisti de lutar contra ele. Eu já não ia chegar a tempo mesmo, de que adiantava correr?

- Isso tudo é culpa sua! – Reclamei. – E você me amassou toda! – Eu já não estava mais inebriada, por isso podia colocar meu plano realmente em prática. – Puxa, eu me arrumei toda pra você e você fica me bagunçando toda! Olha o meu cabelo! Que nojo!

Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso malicioso e eu me senti como se estivesse nua.

- Eu gostei do seu cabelo assim. – Ele piscou e me roubou um beijo antes de continuar.

Ele sempre tem que complicar.

Paramos em frente a um retrato de seis homens em volta de uma mesa redonda. Ao nos ver, um dos homens se levantou e se aproximou.

- James Potter! Que prazer!

- Olá, Louis! Será que poderia nos dar uma forcinha? Estamos um pouco atrasados...

- Claro, claro. – Ele me olhou e riu. – Bem que me disseram que você tinha conseguido! É realmente uma bela ruiva! Parabéns!

- E é toda minha. – James me abraçou mais forte, com um sorriso enorme.

Louis riu de novo e se afastou antes de o quadro girar, revelando uma passagem.

James subiu e estendeu a mão para me ajudar. A passagem era estreita nos primeiros metros, mas ficava larga o suficiente para três pessoas caminharem tranquilamente depois. Andamos num passo apertado, sempre subindo.

- Que ótimo, eu virei assunto até de quadros! – Revirei os olhos, fechando a cara.

- Você fica irresistível quando está braba. – Ele sussurrou em meu ouvido. – É uma pena que tenhamos aula agora... – Começou a andar mais devagar, me virando de frente pra ele.

- Não, James! – Reclamei quando ele me beijou. – Temos que ir!

Ele suspirou e assentiu, voltando a andar rápido.

- Mas bem que podíamos não ter...

Revirei os olhos.

Em pouco tempo estávamos saindo num quadro perto da entrada da torre da Grifinória. Subimos correndo, pegamos o material e saímos.

A sala de aula de feitiços fica no sétimo andar, não muito longe da torre, por isso não demoramos muito tempo para chegarmos lá.

- Droga! A aula já começou! – Reclamei, ouvindo o professor dar boa tarde para os alunos.

James sorriu, com o olhar distante.

- Isso não é problema.

Ele pegou novamente a capa de dentro das vestes e nos cobriu.

- O que vai fazer?

- Espere e verá.

Nos afastamos um pouco da porta e ele voltou a mexer no bolso.

- Uma bomba de bosta? – Perguntei, desconfiada, quando ele fez a bomba flutuar até a porta da sala.

- Aprenda com o mestre.

Ele jogou a bomba na porta, fazendo um estouro. A porta foi aberta subitamente e os alunos do sétimo ano saíram para ver o que tinha acontecido. Com agilidade, James nos levou para dentro da sala de aula, onde tiramos a capa e nos juntamos aos outros.

Perdemos algum tempo de aula enquanto Flitwick limpava a sujeira e amenizava o cheiro que James havia causado, mas ninguém pareceu estranhar nossa aparição, com exceção dos outros marotos, que pareciam saber exatamente o que havia acontecido.

- Uau, ruiva. – Sirius se juntou a mim e James quando a aula acabou. – Seu visual está tão selvagem hoje.

- Selvagem? – Estranhei.

- É. O que o Pontas andou fazendo com o seu cabelo, hein?

Reprimi um sorriso, percebendo que ele só estava tentando me ajudar com o plano.

- Ah! Está tão ruim assim? – Fingi estar desesperada, pegando um espelho na mochila. – Ah, não! Olha só que coisa horrível!

Fiquei tentando ajeitar meu cabelo. Não estava tão ruim. Na verdade, estava melhor do que normalmente está, mas mais bagunçado do que estava antes de eu ser atacada pelo meu namorado.

James tentou me ajudar, mas eu bati em sua mão, reclamando.

- Que exagero, Lily! Você está ótima!

- Tchucutchucu, meu amor, fique quietinho e me deixe arrumar o que você estragou, por favor!

- Então, tchucutchucu – Sirius zombou, colocando um braço sobre os ombros de James, fazendo-o fechar a cara. –, tem planos pra hoje à noite?

- Ele tem que fazer a ronda comigo. – Eu disse antes que James pudesse responder. – Vão ter que deixar suas marotagens para um outro dia. – Depois completei baixinho, de modo que só James pudesse ouvir. – De preferência nunca.

- Oh, certo, a ronda, compreendo. – Sirius se afastou, de frente pra nós, com um sorriso zombeteiro e olhar malicioso. Depois começou a rir e foi embora.

- Idiota. – Murmurei, tentando parecer não gostar de Sirius, mas no fundo estava com a maior vontade de rir também.

- Pensei que gostasse do Almofadinhas.

Ignorei o apelido estranho, eu já estou acostumada, e revirei os olhos, bufando.

- Eu? Há! Não somos o que se pode chamar de grandes amigos.

Ele franziu a testa, mas resolveu deixar o assunto de lado, levantando outro que, para ele, era mais importante no momento.

- Falando em Tchucutchucu... Lily, como é que eu tiro essa porcaria? – Ele abaixou a gola da camisa, deixando a coleira brilhante à mostra e eu reprimi um riso.

- Você quer tirar?

- É claro que eu quero. – Ele falou bem devagar, parecendo segurar a raiva. – Você não faz ideia dos comentários que eu tenho que escutar toda vez que essa maldita coleira aparece! Eu quase não consigo dormir com o Sirius me zoando a noite toda!

- Oh! Bom, era só ter me falado, amor. Você precisa dizer as palavras mágicas.

- Ah, eu já tentei isso, Lily, obrigado. Acontece que não funcionou.

- Não? – Fiz uma careta, fingindo espanto. – E quais palavras você usou?

- Quais? – Agora era ele quem parecia confuso. – Por favor, é claro!

Eu ri, balançando a cabeça.

- Não, amor, essas não são as palavras mágicas.

Ele suspirou e deixou os ombros caírem.

- E quais são as palavras mágicas, então?

- Por obséquio, lindo presente que a minha maravilhosa namorada me deu, você poderia me fazer o grande favor de sair para que eu possa guardá-lo num lugar especial?

Ele riu histericamente.

- Você, não, você não pode estar falando sério!

- Estou. Eu não tinha te contado que era isso? Devo ter esquecido, desculpe.

Ele me encarou, incrédulo, mas não disse nada.

- Não vai tirar? – Perguntei, confusa.

- Qual era a frase mesmo?

- Por obséquio, lindo presente que a minha maravilhosa namorada me deu, você poderia me fazer o grande favor de sair para que eu possa guardá-lo num lugar especial?

- Por obséquio, lindo presente que a minha maravilhosa namorada me deu, você poderia me fazer o grande favor de sair para que eu possa guardá-lo num lugar especial? – Ele repetiu e a coleira se desprendeu facilmente.

- Viu? Simples.

Com o passar do tempo, eu consegui pegar o jeito de reclamar sempre que James me tocava de uma forma mais intensa, lembrando a ele que eu havia me produzido para ficar bonita e ele não podia ficar me desarrumando o tempo todo. Aos poucos seu humor foi se tornando mais e mais azedo, até que ele explodiu e disse que não encostaria mais em mim, que se eu quisesse, eu teria que procurá-lo.

Por isso o jantar se passou num clima pouco amistoso. Sirius conversava com Remo sobre Quadribol, James estava mal-humorado e distante, resmungando com a própria comida, Peter observava a conversa dos amigos com interesse, mas não falava nada, não haveria como já que sua boca estava ocupada demais com as enormes garfadas que ele dava, e eu tentava prestar atenção no que Alice dizia, mas minha mente teimava em voltar a uma sala vazia, horas atrás, e a um certo maroto e seus beijos e carinhos.

Levei um susto quando James levantou de um salto, jogando os talheres de qualquer jeito no prato.

- Aonde você vai? – Perguntei.

- Dar uma volta. – Ele respondeu de má vontade.

- Mas você mal mexeu na comida!

- Estou sem apetite.

Tentei dizer mais alguma coisa, mas ele já estava longe demais. Sirius escorregou para mais perto de mim no banco, assumindo o lugar que era de James.

- Parece que você está conseguindo, ruiva.

- Parece que sim. – Concordei, ainda espantada com aquela atitude.

- Acho que você tem razão.

- Sobre...?

Ele riu e se aproximou mais para sussurrar no meu ouvido.

- Acho que não vai precisar de dez dias.

Sorri e me levantei.

- Mas isso graças aos meus planos, Six. – Sussurrei em seu ouvido e pude ouvir sua risada se misturar ao burburinho do salão antes de me afastar.

Eu não queria ir atrás do James e mesmo que quisesse, eu não sabia onde ele estava. Eu só queria dar uma volta, pensar um pouco, parar de atuar por apenas alguns minutos.

Meus pés seguiram rumo à torre de astronomia, não há lugar melhor para ir em Hogwarts quando se quer pensar do que a torre de Astronomia.

Mas quando cheguei lá, percebi que não era a única que queria um lugar para pensar naquela hora.

- Lia? – Sentei ao lado da corvinal, observando o céu. – Por que não está jantando?

- Ah, oi, Lily. – Ela pareceu surpresa de me ver ali. – Estou sem fome. E você? Já jantou?

- Já. – Observei seu rosto e percebi que ela havia chorado. Isso me magoou. Mesmo conhecendo-a há pouco tempo, eu já tenho grande simpatia por essa garota e me faz mal vê-la triste. – Aconteceu alguma coisa?

Ela suspirou, sorrindo tristemente.

- Mais ou menos. É que... quando eu estava indo para o salão principal, encontrei Sirius...

- E...?

- Ele não me viu. Estava ocupado demais.

- Ah.

- É. E pensar que eu ainda tinha esperanças... como eu sou burra! Eu não passo de uma diversão pra ele! Mas eu não posso reclamar... fui eu que aceitei sair com ele... burra, burra, burra!

- Você não é burra. – Eu sorri e a abracei. – Só está apaixonada por ele.

- E que garota nessa maldita escola não está?

- Eu! Pode ter certeza!

Ela riu.

- Tem razão. E você e o James, estão bem?

Suspirei. Eu não queria falar sobre aquilo com ninguém, nem com a Liana.

- Sim, tudo bem.

- Lily, eu não quero me intrometer, mas... tem alguma coisa estranha nesse relacionamento de vocês.

- Tem é? – Era pra ser uma pergunta irônica, mas como ela não entenderia a ironia, acabou parecendo uma pergunta normal.

- Tem. E tem alguma coisa estranha em você também. Você parece... triste.

Certo, de todos os adjetivos que ela podia me dar, ela me deu aquele que não poderia se encaixar. As pessoas estavam me achando louca, ciumenta, fresca, metida, mas não triste. Eu não estava triste. Por que eu estaria?

- Triste?

- É, como se você quisesse... não sei, às vezes parece que você não está agindo como quer... como se... – então, ela começou a rir. – Olha o que eu estou dizendo! Me ignore, por favor... estou só falando besteiras...

Eu a acompanhei no riso, tentando não demonstrar meu espanto. Ela estava mais certa do que imaginava.

Terça é o meu dia de fazer a ronda. Até semana passada, era o Joe da Lufa-lufa quem me acompanhava, mas não foi difícil convencê-lo a trocar com James, já que o correto é os monitores-chefes fazerem a ronda juntos. Eu consegui burlar essa regra quando soube que James era o monitor-chefe. Mas agora que somos namorados, faremos as rondas juntos.

Eu estava estudando na sala comunal quando James chegou. Não o via desde o jantar. Ele parecia estar mais calmo e com um humor um pouco melhor, mas não deu o braço a torcer e não me beijou, apenas me chamou e pegou na minha mão.

Caminhamos pelos corredores de mãos dadas, surpreendendo alguns alunos que ultrapassavam o toque de recolher, mas quase não nos falamos. O clima estava tenso, pesado, nem mesmo eu estava mais aguentando aquilo. Minha vontade era de parar de fingir, dizer a verdade, mas eu não podia.

- Isso está ficando insustentável! – Ele reclamou, largando a minha mão e se encostando na parede, de braços cruzados. Eu queria rir ironicamente e dizer que ele não podia conhecer a palavra insustentável, era muito sofisticada pra ele. Mas não. Eu precisava colocar uma expressão confusa no rosto e atuar.

- O que, meu amor?

- Você, Lily! Você!

- Mas o que foi que eu fiz?

- Você está muito... diferente.

- De um jeito ruim? – Eu me aproximei um pouco mais, deixando uma distância pequena entre nós. Eu podia sentir seu perfume e isso não ajudou nem um pouco. Eu precisava estar com a mente alerta para poder fazer bem o meu papel, não podia deixar acontecer a mesma coisa que acontecera mais cedo, naquela sala vazia.

- De um jeito estranho. Não é a Lily que eu conheci.

- A Lily que você conheceu não queria ficar com você. Agora eu quero! Você devia gostar mais dessa Lily!

- A Lily que eu conheci não ligava pra essas besteiras! – Ele apontou para a minha roupa milimetricamente arrumada e meu cabelo com todos os fios nos lugares certos.

- Você acha que é besteira? – Não segurei meus instintos briguentos. Tudo bem que até eu acho que é besteira, mas eu passei um duro danado pra fazer tudo isso e ele vem dizer que é besteira? – Você tem ideia do que eu passei pra fazer isso? Não, você não tem! Porque você é um maldito de um garoto e malditos garotos não precisam sofrer com malditos feitiços depilatórios nem ficar horas num salão com malditos maquiadores e malditas manicures e...

Não pude continuar porque James desencostou da parede com rapidez, me pegou em seus braços e me beijou. Se era porque estava com vontade de fazer isso ou porque estava cansado de me ouvir reclamar, eu não sabia na hora, mas esqueci completamente que estava brigando com ele e me entreguei ao beijo.

- Eu já disse que você fica muito sexy quando está brava? – Ele sussurrou no meu ouvido, com a voz rouca, quando nos separamos para pegar fôlego.

- Não sei. – Eu disse, sem ar. – Mas sei que você está me desarrumando toda, James. Pode, por favor, ser mais cuidadoso?

Ele me soltou, com um suspiro de raiva e voltou a andar pelo corredor enquanto eu arrumava minhas vestes.

- Não me leve a mal, amor. – Eu disse, correndo para alcançá-lo. – Mas é que...

- Já sei o que está acontecendo. – Ele me interrompeu.

Gelei internamente. Será que ele havia descoberto tudo? Droga!

- Sabe?

- Sei. Você está estressada por causa dos NIEM'S, confusa por descobrir que gosta de mim e com medo de eu te deixar quando cansar de você.

- Uau. – Foi tudo o que eu consegui dizer.

Eu não sabia que o James conhecia tão bem assim a alma feminina. Não que esses fossem os meus sentimentos, mas seriam os de qualquer outra garota que não estivesse fingindo tudo aquilo.

Achei incrível o fato de ele acreditar cegamente em mim. Ele nem mesmo desconfiava que eu pudesse estar mentindo o tempo inteiro. Foi aí que comecei a me senti horrível.

Maldito Potter. Além de começar a ter atitudes cavalheiras, está fazendo eu me sentir um monstro!

O pior é que é verdade. Eu sou um monstro. E percebi isso tarde demais.

- Mas eu já tenho a solução!

- Tem?

- Claro que tenho! – Ele deu aquele sorriso convencido que sempre me faz revirar os olhos e me puxou na direção das escadas. – Primeiro, o estresse. Sei o jeito perfeito de acabar com isso. Segundo, a confusão. Isso aí é com você, mas acho que o passeio vai ajudar. Além do mais, você não tem que estar confusa, tem que estar feliz por gostar de mim! E terceiro, o medo. Esse você tem que esquecer completamente, Lily. Se você vencer as duas primeiras etapas, não tem por que se preocupar com isso.

- Se eu vencer as duas primeiras? – Não entendi.

Ele me olhou com seriedade.

- Do jeito que as coisas estão indo, esse namoro não vai dar certo. Está complicado, Lily, você nem parece mais a garota de quem eu gosto tanto! Sinceramente... eu estou cansado dessa nova Lily... mas eu sei que você não é assim! A gente pode dar certo, mas você precisa colaborar um pouco!

- Eu sei. – Concordei, um pouco triste. Eu estava tão cansada de fingir ser alguém que não sou. Mas o meu plano estava quase dando certo, ele havia dito que estava complicado, havia dito que se eu não voltasse a ser a Lily, ele não ia mais querer ficar comigo. Por que, então, era tão difícil fingir um pouco mais e acabar de vez com aquilo?

Mas só o que eu queria era parar de fingir. Eu queria ser a Lily e só.

Ele me levou para os jardins e de lá para o campo de Quadribol. Pegou uma vassoura nos vestiários e montou.

- Ah, não, James. – Reclamei. Eu não voava desde o segundo ano. Na verdade, sempre fui um desastre com vassouras. Acho que não sei nem varrer o chão!

- Anda, Lily! Não tem nada melhor pra desestressar do que voar!

- Mas eu detesto vassouras!

- É impossível não gostar de voar, Lily! Vem, não precisa ter medo!

Ele estendeu a mão, mas eu ainda estava indecisa.

- Você só diz isso porque sabe voar! Porque é o melhor jogador de Quadribol de Hogwarts! Eu não sei voar, James!

- Mas você não precisa saber voar, sou eu que vou te levar. E não vou te deixar cair. Você não disse que eu sou o melhor jogador de Hogwarts? Então! Confie em mim!

Certo, ele tinha razão. Eu não precisava fazer nada, a não ser me segurar. Não devia ser mais difícil do que andar de carona numa moto.

Convencida disso, subi atrás dele e o abracei pela cintura com força.

Aos poucos o medo foi sendo substituído por uma sensação boa, revigorante. O vento frio batia com força em meu rosto, e isso era fascinante! Ganhávamos cada vez mais e mais altura, deixando o castelo e o campo para trás.

James tem razão, voar é maravilhoso! E a maneira como ele guiou a vassoura me deixou confortável, confiante.

Eu não era mais a Lily atriz, a falsa namorada de James Potter, a fútil, a egoísta, a ciumenta, a fresca.

Eu era a Lily. Só.

Isso me deu um novo ânimo, uma sensação de plenitude.

Sobrevoamos a floresta proibida, vimos a cabana do Hagrid, passamos perto da torre de Astronomia, depois nos afastamos de Hogwarts, indo na direção de Hogsmead.

Eu não me importei com o fato de que não podíamos estar fazendo aquilo. Eu estava gostando daquilo.

Estava gostando tanto que comecei a gritar! Levantei os braços e gritei! Nunca me senti tão livre em toda a minha vida!

Ouvi James rir de mim.

- Adorei saber que está gostando do passeio, mas ainda queremos passar despercebidos, não?

- Eu não me importo! – Gritei para o vento. – Isso é demais!

Ele riu de novo e tomou outro rumo. Não demorei para perceber aonde ele estava nos levando. A clareira do nosso primeiro encontro.

- Ops. Esqueci a roupa de banho. – Brinquei quando ele começou a diminuir a altitude. Ele riu.

- Podemos ficar sem roupa se você quiser.

Dei um tapa em seu braço e me agarrei a sua cintura.

- Nem em sonho, James Potter!

- Nos meus sonhos, sim, ruiva. Você não imagina o quanto...

Corei com aquela resposta, mas ele não viu.

Descemos na clareira encantada. Era extremamente aconchegante ali. Lembrei-me daquele primeiro dia, parece ter sido há tanto tempo atrás, e não apenas quatro dias. Quatro dias!

Ele deixou a vassoura em um canto e me puxou para perto do lago. Tirei meu sapato vermelho e molhei os pés. Quente como eu me lembrava.

- Foi aqui. Nosso primeiro beijo. – Ele me virou para ficar de frente para ele. – Você estava nervosa naquele dia.

- Estava?

- E como! Dava pra ver no seu olhar! Parecia que a qualquer momento ia sair correndo. – Eu ri. Ele não sabia o quanto estava certo. – Mas agora não. – Ele se aproximou mais, uma mão em minha cintura e a outra em meu rosto. – Agora eu vejo que você quer ficar.

Pela segunda vez no mesmo lugar, ele me pegou desprevenida. E pela segunda vez, me beijou em seguida.

Eu não entendi o que ele quis dizer com eu querer ficar. Eu estava me sentindo bem ali, é claro, mas era por causa do lugar, do aconchego, do fato de eu estar me sentindo livre, como se não tivesse mais que fingir, atuar. Mas ele fazia parecer que eu queria ficar por causa dele! Como se eu gostasse dele!

Quando nos separamos, ele estava sorrindo.

- Eu sabia que você gostava de mim.

- Claro que sabia. – Revirei os olhos. Ele nunca vai deixar de ser o mesmo garoto convencido que sempre foi. Isso é fato!

- Você é muito teimosa, sabia?

- E você é muito convencido.

Eu queria morder a língua. Por que, de repente, eu não conseguia mais agir de acordo com o meu personagem? Por que eu tinha que me sentir tão livre a ponto de não conseguir mais colocar as barreiras ao redor do meu próprio ser? Por que eu estava respondendo como a Lily de verdade responderia? Por que eu não conseguia mais atuar?

- Convencido, é? E o que mais?

- Arrogante, egocêntrico, prepotente...

- Esqueceu do lindo, gostoso, maroto, inteligente, sexy e modesto.

- Ah! Claro! Modesto. Esqueci de mencionar que você é incrivelmente modesto!

Ele riu com gosto, me pegou no colo e girou. Não consegui conter o riso.

- Eu estava sentindo falta disso! – Ele suspirou quando me colocou no chão.

- Do quê?

- Dessa sua língua afiada. Me desculpe, Lily, mas você estava parecendo mais uma mosca morta!

- Mosca morta, é? – O encarei com falsa repreensão. – Vou te mostrar quem é mosca morta aqui!

Começamos uma perseguição. Ele na frente, fugindo com agilidade, enquanto eu corria atrás, tentando alcançá-lo.

- Esqueceu também que eu sou o melhor em tudo! – Ele disse, diminuindo a velocidade para que eu me aproximasse e escapando antes que eu o pegasse.

Parei de correr, sacando a varinha.

- Acho que não! Rictusempra.

Ele parou de correr, caindo de joelhos no chão, rindo sem parar por causa do feitiço. Eu me aproximei, vitoriosa.

- Ops. Quem é o melhor aqui?

- E-eu! – Ele disse, em meio aos risos.

Balancei a cabeça negativamente.

- Resposta errada, amor. Vou perguntar de novo, está bem?

- Lily... por... fa-vor... pára...

- Eu vou parar quando você responder corretamente a minha pergunta. Quem é o melhor?

- Ja-mes Pot-ter!

- James, colabora comigo. Eu não gosto de te ver sofrendo assim. Se bem que risos não devem ser muito sofrimento, não é? O que acha de ficar assim a noite toda? Deve ser divertido!

- Vo-cê!

- O quê? Não entendi.

- Você! Você é... a melhor! Agora... PÁRA!

- É. Gostei da resposta. Finite Incantatem.

Ele parou de rir, respirando fundo com a cabeça abaixada. Eu fiquei apenas esperando. Quando ele levantou o rosto para me olhar, tinha um sorriso diabólico e um olhar malicioso. Eu recuei, tropeçando.

- Agora você vai ver só...

Recomeçamos a perseguição, mas dessa vez era eu quem fugia. O fato de ele ser muito mais rápido e ágil não ajudava nem um pouco e ele logo me alcançou, me levantando do chão sem parar de correr.

- Você pediu, mocinha...

Segundos depois estávamos os dois dentro do lago quente.

Minha consciência dizia que eu precisava usar isso a meu favor e brigar com ele, armar uma tempestade num copo d'água e fazê-lo terminar comigo, mas minha única reação foi rir histericamente.

Além do mais, eu não queria sair da água. Estava tão gostoso ali dentro.

Ele me tomou em seus braços e me beijou novamente, com mais intensidade, com mais paixão. Naquele momento eu daria qualquer coisa para a vida ser tão simples como parecia. James ser somente James e não James Potter, eu ser somente a Lily e não Lily Evans. Sem planos, sem máscaras.

Claro que me assustei assim que completei o pensamento. Eu estava cogitando a ideia de ficar com James. Eu estava cogitando a ideia de poder gostar dele. Mas eu não posso gostar. Ele é James Potter. Eu sou Lily Evans. Simplesmente, não dá!

Ele deve ter percebido a minha mudança, já que se afastou e me encarou com confusão.

- Está tudo bem?

- Acho melhor voltarmos. – Eu disse, um pouco rouca. – Já abusamos demais, não acha?

- Já? – Ele me encarou com uma expressão de cachorrinho sem dono e eu sorri.

- É melhor.

Ele suspirou.

- Certo. Vamos voltar, então.

Saímos do lago e nos secamos com um feitiço antes de voltarmos para Hogwarts. James deixou a vassoura no vestiário e eu já me preparava para voltar para dentro do castelo quando ele me puxou.

- Podemos dar só mais uma volta? – Sua expressão era tão esperançosa que eu não consegui dizer não.

Caminhamos pelo campo, conversando sobre diversos assuntos. Eu ainda estava com aquela sensação de liberdade, então não conseguia fingir enquanto falava sobre a minha família, meus amigos, meus sonhos, nem precisei fingir interesse quando ele me contava sobre a sua vida, eu estava realmente interessada.

Uma voz, vinda do bolso dele, bastou para me trazer de volta ao mundo real. Foi como se jogassem um balde de água fria sobre mim, todos os motivos pelo qual eu estava ali voltaram com força total.

Sirius Black, o responsável por eu estar ali, agindo como namorada do Potter, me fez perceber que eu não estava livre para parar de fingir, eu precisava continuar a atuar. Minha missão ainda não tinha terminado.

- Ei, Pontas! – James mexeu no bolso e pegou um espelho. Percebi que ele não olhava para seu próprio rosto refletido ali, mas para o de Sirius, o dono da voz.

- E aí, Almofadinhas. O que manda?

- Muito ocupado?

- Fazendo a ronda, mas já estávamos voltando.

- Beleza. Tenho um programa imperdível para hoje à noite.

Senti meu estômago doer quando lembrei que eu havia pedido para Sirius fazer aquilo. Mais um plano. Eu me sentia abominável. Não como o monstro que agora eu sei que sou, mas como uma garota que está fazendo algo terrivelmente errado, mas que é teimosa demais para parar antes de chegar até o final.

- Tem, é?

- Você vem, não é? Aluado e Rabicho já estão de acordo, só falta você.

- Claro que vou! Estou indo agora mesmo!

- Estamos esperando.

Eu bufei, sem saber se era por fazer parte do plano ou por não querer mais seguir com o plano. Ele guardou o espelho e me encarou interrogativamente.

Eu tinha apenas alguns segundos para decidir. Seguir com o plano ou esquecer?

Seguir.

- Vai sair? – Perguntei, mal-humorada.

- Vou, parece que eles arranjaram um programa imperdível. – Seu sorriso era genuíno, ele estava realmente feliz de poder se divertir com os amigos. Minha barriga doeu novamente.

- Não gosto disso, James. – Ignorei a dor e cruzei os braços. – Sabe que nunca gostei de ver vocês aprontando pelo castelo.

- Não vamos aprontar, vamos só nos divertir!

- Não gosto disso! – Finquei pé. – É infantilidade de vocês sair a essa hora da noite! Seja lá pra onde forem! Você é monitor-chefe! Ou esqueceu isso?

- E o que acabamos de fazer foi o quê? – Ele estava perdendo a paciência. – Você é monitora-chefe, esqueceu? Isso te impediu de gritar aos quatro ventos em cima de uma vassoura?

- É diferente! Eu sou sua namorada!

- E eles são meus amigos!

- Não grita comigo!

- Não estou gritando!

Respirei fundo, aparentando estar segurando a raiva.

- Não quero que vá.

- Como é?

- Não quero que você vá. Você não vai, James.

Ele me encarou, boquiaberto, depois se virou e voltou a andar na direção do castelo.

- James! Volta aqui! – Corri até ele. – Ainda não terminamos!

- Sim, nós terminamos. – A forma como ele disse isso me assustou, ainda mais pelo duplo sentido. – Você não vai me dizer o que eu posso ou não fazer.

- Eu sou sua namorada!

- Mas não é minha dona!

Já estávamos no saguão de entrada e ele não diminuía o ritmo. Eu precisava quase correr para acompanhá-lo.

- James, por favor?

- O quê?

- Por favor, não vai.

Ele parou de andar e me encarou, ainda com raiva.

- Mas eu quero ir!

- Então vai ter que escolher.

- Escolher? – Seus olhos se estreitaram e ele recuou.

- Ou eu ou eles.

Eu sabia que ele não me escolheria.

- Desculpa, Lily, mas nem você vem antes que os meus amigos. – Ele voltou a andar, parecendo triste ao invés de raivoso.

Eu sabia. Mas ainda assim doeu.

- Então... acabou?

- Eu nunca pensei que eu diria isso pra você... – Ele se virou, mantendo a distância. – Mas, sim, acabou.

- Por quê? – Eu podia sentir as lágrimas se formando em meus olhos, mas dessa vez não eram lágrimas falsas.

- Porque eu não posso ficar com alguém que me pede pra escolher entre ela e meus amigos. Nem que essa pessoa seja você, Lily. Porque a Lily que eu pensei que amava nunca faria isso.

- James... – Minha voz saiu num sussurro quase inaudível, recheada de lágrimas recém caídas, mas ele não se aproximou.

- Desculpe. – Sua voz saiu baixa também. Tão baixa que eu poderia jurar que havia sido minha imaginação se não tivesse visto sua boca se mexer.

Fechei os olhos e quando os abri, percebi que estava sozinha. As lágrimas começaram a escorrer com mais rapidez e meu coração doía a cada batida. Eu queria correr, mas meus pés pareciam estar grudados no chão. Não sei quando foi que me encostei na parede e escorreguei para o chão, só sei que estava abraçando minhas pernas, deitada no chão, com as costas na parede fria quando ouvi passos se aproximando. Não olhei para saber quem era. Não me importava.

O fato de eu ter conseguido devia me deixar feliz, mas eu não estava feliz. Droga, eu não estou feliz! A minha teimosia me trouxe exatamente onde eu queria chegar, apenas para me mostrar o quão errada eu estava. Eu aceitei ser um monstro, eu me transformei em um monstro para atingir meus objetivos. Eu não mereço viver. Eu sou pior, muito pior do que James Potter.

- Pimentinha, vem comigo, você vai congelar se ficar aqui.

Eu não havia percebido o quanto estava frio até ouvir aquilo. Sirius colocou uma capa em meus ombros e me pegou no colo. Eu já não chorava mais, mas meu rosto devia estar manchado das lágrimas.

- Puxa, você é mais pesada do que eu pensava. – Ele brincou, me carregando durante sete andares. Eu não ri, não sorri. Eu mal conseguia me manter na realidade, quanto mais achar graça de uma piada qualquer.

Ele sentou à frente da lareira do salão comunal e me colocou deitada ao seu lado, com a cabeça em seu colo. Percebi que aquele era o sofá onde eu e James havíamos dormido, na verdade, só ele, dois dias atrás.

- O que aconteceu? Ele chegou bem irritado no dormitório... disse que não queria mais sair...

Aquela menção fez com que eu me lembrasse do grande e abominável monstro que eu fui nos últimos dias e as lágrimas voltaram. Ele acariciou meus cabelos, parecendo pouco à vontade com meu choro.

Mesmo estando em frente à lareira, eu me sentia fria. Como se eu fosse feita de gelo. Talvez eu seja.

Seria uma explicação para tudo o que eu fiz desde sábado.

- Pimentinha, tudo bem... você conseguiu o que queria, não foi? Não entendo porque está assim!

Eu me sentei e o abracei, chorando em seu ombro. Ele tinha razão, eu havia conseguido, mas os métodos que eu usei não são nem um pouco louváveis e eu me dei conta disso tarde demais. Os fins não justificam os meios. Eu não mereço piedade.

De repente, a sala pareceu se aquecer novamente, como se o meu coração tivesse se descongelado. Confusa, olhei em volta, mas tudo estava perfeitamente normal. Aos poucos, fui me acalmando e parei de chorar. Sirius parecia aliviado, coitado.

- Se sente melhor?

Concordei com a cabeça e fitei o fogo.

- Quer conversar?

Neguei, abraçando os joelhos. Ele suspirou o passou o braço sobre meus ombros.

- Eu disse que você não podia se apaixonar. – Eu estava cansada demais para pensar em contrariá-lo. Além do mais, depois de tanto choro, eu nem ao menos sabia onde encontrar a minha voz. – Vê como isso vai complicar tudo? Quer que eu converse com ele?

Neguei de novo. Era o máximo que eu podia fazer.

- Pimenta, eu vi a expressão dele quando chegou. Era de dar dó, acredite. Ele gosta de você de verdade. Eu fui idiota de pensar que você era só mais uma.

Fechei os olhos, me concentrando no calor que parecia emanar da sala.

- Ele só está confuso. Você não deixou muita escolha, não é? Mas eu posso contar tudo pra ele, explicar o plano, ele vai entender...

- Não! – Não abri os olhos, com medo de perder a sensação de segurança que aquele calor me dava. Ter Sirius ali ao meu lado era ótimo, mas aquele calor estranho, diferente, aquela sensação de estar sendo observada era sensacionalmente melhor.

- Pimenta, não é sua culpa! Tudo bem, não foi um plano tão bom, você fingir ser namorada dele pra que ele desistisse de você, era óbvio que você ia se apaixonar! O plano não é ruim, pra falar a verdade, fui em quem criou, você sabe. Funcionaria com qualquer outro, mas o Pontas é um maroto. Era óbvio que você não ia aguentar muito tempo. Claro que se fosse eu, você já estaria apaixonada no primeiro dia. Com o Pontas demorou quatro. Razoável.

Abri os olhos para poder revirá-los para aquele convencimento, mas assim que os abri, a sensação me deixou, a sala voltou a ser fria e o fraco sorriso em meu rosto desapareceu. Fiquei arrepiada e jurei ter ouvido o barulho de uma porta sendo batida, o me fez dar um pequeno pulo no sofá.

- Acho que você está cansada. – Sirius deve ter interpretado errado minhas reações. Eu não acho que ele possa sentir aquela sensação que eu sinto às vezes, pelo menos ele nunca deixou transparecer. – É melhor ir dormir. Não quer se atrasar para a aula amanhã, quer?

Concordei com a cabeça. Eu sabia que precisava descansar, apesar da possibilidade de perder algumas aulinhas me parecesse muito boa, naquela hora.

- Obrigada. – Dei um beijo de boa noite em Sirius e subi para o meu dormitório.

- Disponha. – Pude ouvi-lo dizer, ainda no andar de baixo.

E foi assim que cheguei aqui. Acredito que essa seja a última vez que eu escreva nesse protótipo de diário, afinal eu já não sou mais a namorada do Potter.

Posso ver uma claridade na janela, o sol já está nascendo e eu não dormi nada. Devo estar com olheiras enormes. Quanta ironia. Para alguém que estava tão impecavelmente arrumada ontem, eu devo estar um monstro hoje. Pelo menos minha aparência externa combina com o meu interior. Um monstro.


N/A: Boa noite, meus amores!
Mais um capítulo saindo! Espero que gostem! =D
Tenho uma novidade e gostaria de dividir com vocês: passei no vestibular da UFSC pra Letras Português! =DDD
Eu estava indo para o 4º semestre de Administração, depois de ter feito também um semestre de Jornalismo (eu sei, sou completamente indecisa!). Mas nenhum dos dois cursos me agradou e por causa deles eu parei de escrever, coisa que eu simplesmente AMO. Por isso, resolvi prestar vestibular no final do ano passado. Agora vou fazer o curso que realmente gosto e quero! Espero que dê tudo certo! =D
Muito obrigada por todos os comentários, meus amores!
Um beijo enorme para cada um de vocês!
Cristal Evans.