5º Dia

Sim, eu sei que disse que não ia mais aparecer por aqui, mas... algumas coisas mudaram um pouquinho.

Para começar, eu voltei a ser a namorada do Potter, por incrível que pareça.

Em segundo lugar, eu não entendo por que voltei a ser namorada do Potter. Isso está me causando mais dor de cabeça do que já estava. Se bem que a dor de cabeça é por uma outra coisinha também, que virá a ser explicada posteriormente.

E em terceiro lugar, bom, não existe realmente um terceiro lugar, mas achei que ficaria melhor se colocasse um terceiro lugar.

Está bem, já sei qual é o terceiro lugar: eu estou pirando.

Eu sei lá, deve ser toda essa história de fingir ser namorada de James Potter e ficar bolando planos pra fazer James Potter desistir de mim e conviver com James Potter e ter que admitir que James Potter não é tão ruim quanto eu pensei que James Potter fosse. Isso deve ter causado um curto circuito nos meus poucos neurônios sobreviventes. Ou quem sabe eu tenha sido abduzida por um alienígena que gosta de fazer os seres humanos de fantoches.

Só sei que meu cérebro decididamente entrou em pane. Não é possível alguém descobrir que é um monstro num dia e no outro cometer tantas besteiras quanto eu. Afinal, por mais monstro que eu seja, eu só queria me livrar de James Potter e tudo o que eu consegui foi me aproximar dele de novo.

Como?

Bom, depois de descobrir que sou um monstro, passar a noite toda escrevendo nesse protótipo de diário e amanhecer com olheiras terríveis, resolvi me arrumar e encarar meu longo dia, por mais que eu não soubesse o que esperar dele.

Nunca fui uma garota de pensar em cabular aula, muito pelo contrário. Mas essa manhã era diferente de todas as outras manhãs da minha vida. E eu precisava de um descanso. Por Merlin, eu precisava mesmo!

Então, após me lavar, colocar meu uniforme, dar uma ajeitada no cabelo e esconder as olheiras com um pó especial da Alice, resolvi que não queria tomar café da manhã na presença dos meus outros colegas e fui direto para a cozinha.

Ser monitora-chefe tem muitas vantagens. Acesso livre à cozinha é uma das minhas favoritas.

Apesar de eu saber que vários alunos conhecem e frequentam a cozinha, é bom saber que se um professor ou até mesmo o Filch me encontrar lá, eu não levarei bronca alguma.

Depois de comer uma deliciosa torta e tomar meu suco predileto, de milho, comecei a elaborar planos para o meu dia.

A primeira aula era de Feitiços, portanto James estaria lá, e a última coisa que eu queria era encontrar com ele hoje. Por isso, eu tiraria uma folga das aulas de feitiços. Alice me emprestaria suas anotações mais tarde e tudo estaria resolvido.

Mas o que eu ia fazer durante aquele período?

Eu não queria aulas, não queria ver o James e de preferência queria fazer algo que me fizesse esquecer os últimos dias. Eu ainda estava abalada com toda aquela história de namoro e descobrir que sou um monstro.

Decidi, então, que iria utilizar a passagem que Sirius me mostrou ontem para ir até Hogsmead e lá encontraria algo para fazer.

Minha segunda aula era Runas Antigas. James não faz essa aula, portanto era uma aula segura. Mas eu descobri que não queria ter aula de Runas Antigas também.

Certo, eu ficaria em Hogsmead por dois períodos.

Terceira aula: poções. Minha matéria predileta, mas James também faz poções.

Eu poderia ficar em Hogsmead por dois períodos, voltar para a aula de poções e sumir de novo depois. Ou poderia ficar em Hogsmead por três períodos, afinal cabular uma aula de poções, por mais que seja sua matéria preferida, não vai te matar. E eu realmente não queria aulas.

Deixei essa terceira aula em aberto. Quando eu estivesse em Hogsmead, decidiria.

Depois de poções, tínhamos um período livre e a hora do almoço, e uma aula dupla de DCAT. Depois Herbologia, Astronomia e, por último, História da Magia.

Um dia cheio. Um dia cheio que para mim seria vazio. Ou eu esperava que fosse.

Decidida, saí da cozinha e rumei para o terceiro andar e a bruxa corcunda de um olho só que me daria acesso à Hogsmead e meu dia de folga!

Poucos alunos circulavam pelo castelo àquela hora e cheguei ao meu destino sem complicações.

Uma vez no porão da Dedosdemel, precisei esperar cerca de vinte minutos até que a loja abrisse. Utilizei um feitiço de desilusão que não saiu lá essas coisas, mas me ajudou a ganhar as ruas do povoado sem muitos problemas. Ninguém pareceu reparar nos fios de cabelos flutuantes que saíam da Dedosdemel.

Pronto, eu estava em Hogsmead e sozinha enquanto meus colegas tomavam café no salão principal de Hogwarts e se preparavam para as aulas do dia.

Sem saber direito o que fazer, fui vagando pelas ruas vazias, observando as vitrines das lojas, a maioria ainda fechada. Estava frio e eu me abracei, começando a achar que aquela não era uma ideia tão boa assim.

Mas teimosia sempre foi meu forte e se eu já havia chegado até ali, continuaria.

Sem saber direito para onde ia, continuei andando até que o frio se tornou insuportável. Se eu soubesse que esfriaria tanto, teria colocado um casado mais grosso e luvas. Entrei na primeira porta que vi aberta, a fim de me aquecer.

Só depois percebi que havia entrado no Cabeça de Javali. Eu não ia me aventurar a continuar no frio, então sentei em uma das mesas e olhei em volta.

O bar estava praticamente vazio, com exceção de dois homens encapuzados que conversavam numa mesa nos fundos e o dono, Aberforth Dumbledore.

Ali estava mais quente, o que era bom, mas o lugar era sinistro. Se pelo menos eu não estivesse sozinha.

Esfregando os braços para espantar o frio, percebi que um dos homens, que, pensei na hora, poderia se passar por uma criança de tão baixo, saía do bar enquanto o outro vinha na minha direção.

- Olá. – Ele parou em frente a minha mesa e eu me encolhi um pouco. – Tenho impressão de que conheço você. Posso me sentar?

Ele tirou o capuz e fiquei observando seu cabelo, tão claro que quase chegava a ser branco, emoldurando o rosto alvo. Devia ser alguns anos mais velho que eu. Quatro ou cinco, talvez.

- Quem é você? – Perguntei e ele sentou, mesmo sem permissão.

- Lúcio. – Estendeu a mão, a qual eu apertei, desconfiada. – Você é aluna de Hogwarts, não? Evans?

- Como sabe?

- Sou ex-aluno. – Ele sorriu sem mostrar os dentes e juntou as mãos como se fosse rezar. – Então, o que uma monitora-chefe faz no Cabeça de Javali em plena manhã de quarta-feira?

Corei ao lembrar que meu distintivo estava preso ao casaco. Eu devia tê-lo tirado antes de embarcar na minha aventura solitária de cabular aulas.

- Só respirando um pouco de ar.

- Ar pesado esse que resolveu respirar, não?

Fui obrigada a sorrir. Ele tinha razão. E como! O Cabeça de Javali era o último lugar aonde alguém que precisasse de ar puro iria.

- A vida anda amarga pra você também?

Senti o rosto corar com a pergunta. Mas eu não podia simplesmente sair falando da minha vida para um homem que eu nem conhecia, por mais que eu quisesse fazer isso. Às vezes é mais fácil contar seus problemas para alguém que você não conhece. Eu sabia que me sentiria aliviada se fizesse isso.

- A vida é amarga, às vezes. – Dei de ombros e ele levantou.

- Um momento.

Foi até o balcão e falou com Aberforth, pegou duas garrafas e taças e voltou para a minha mesa.

- Ah... eu... não bebo... – Eu disse, envergonhada, enquanto ele enchia as duas taças de qualquer que fosse a bebida.

- Não seja tímida...

- Lily.

- Lily. – Ele sorriu e eu corei. – Não seja tímida, Lily. A vida pede algumas aventuras, às vezes.

- Mas eu não posso.

- Também não poderia cabular aula. – Ele me entregou uma das taças e fiquei observando o líquido vermelho-sangue. – Mas você precisava. Assim como precisa disso agora. Acredite em mim. Eu sei do que você precisa.

Era o meu dia de folga. O dia de fazer coisas inimagináveis. Por que não?

Tomei um gole, que desceu quente e arranhou minha garganta. Ele riu da minha expressão e virou a taça de uma vez só, voltando a enchê-la.

Decidi que um gole bastava. O gosto era estranho e o líquido queimava e arranhava. Eu não precisava daquilo.

Descansei a taça na mesa e observei o homem na minha frente. Ex-aluno de Hogwarts. Realmente, ele não me era estranho.

- Você é uma garota adorável, Lily.

Eu corei e baixei o olhar. O que, afinal, eu estava fazendo ali?

Eu devia sair daquele bar, de preferência voltar para Hogwarts. Mal havia começado a primeira aula, eu não precisava fazer aquilo.

Mas meu estômago ficou quente, me lembrando da taça na minha frente. Aquilo não era bom, mas eu queria mais um gole. Talvez eu precisasse mesmo daquilo.

Então, tomei mais um gole.

Dessa vez a sensação de queimação não foi tão forte. E o líquido mal arranhou minha garganta. O gosto também não era tão ruim. Um pouco amargo, talvez, mas não ruim.

Virei a taça.

Ele riu, enchendo-a novamente.

A conversa começou a fluir, assuntos sem importância, risadas soltas e muitos, muitos goles daquela bebida estranha. Uma garrafa se foi e a segunda a seguiu. Ele chamou o dono do bar, que trouxe mais duas garrafas.

Eu não conseguia parar de sorrir e minha voz estava um tom mais alto que o normal. Uma de minhas mãos segurava a taça enquanto a outra era segurada por uma mão alva e fria.

Quando me dei conta, já estava falando de minhas aventuras amorosas para meu novo amigo. Não cheguei a mencionar o nome de James, chamando-o somente por 'carma', 'idiota' e 'falso namorado'. Ele fez perguntas sobre meus colegas, amigos e professores. Eu estava gostando da conversa, ele parecia realmente interessado em tudo o que eu tinha para dizer.

Meus olhos cansaram de ficar abertos e eu os fechava de vez em quando. Cansei de falar e comecei a cantarolar.

- Dubirubadá dubirubarubadá birubaruba birubarudá...

- Lily?

- Duba Duba dá dubadubadubadá birubadubadubadá...

Abri os olhos e me tentei me concentrar na sua expressão, mas tudo parecia girar e girar. E eu só podia sorrir e sorrir.

- O que acha de sairmos daqui?

- Mas aqui está tão boooooom...

Encostei na cadeira, sorrindo abertamente e fechando os olhos.

- Podemos ir para um lugar ainda melhor...

- Melhor? – Abri os olhos e tentei focalizá-lo, mas não consegui. Comecei a rir. – Ah! Tem dois de você! Opa... opa... opaaa...

- Um lugar bem melhor e quente. Não estava com frio?

- Não estou mais... que coisa é essa? É tão queeeeeeeente...

- Uma bebida especial. – Ele se levantou.

- Não! Não vá embora... está tão booom...

- Não se preocupe. Você vem comigo. Vou te levar para um lugar muito agradável.

Antes que ele pudesse me ajudar a ficar de pé, foi atingido por algo e caiu ajoelhado. Tentei entender o que estava acontecendo, mas minha visão não estava lá muito boa.

- Você não vai levar ela a lugar nenhum!

- James? – Dois garotos de cabelos pretos e bagunçados se aproximaram de mim, com as varinhas erguidas na direção de dois Lúcios que também empunhavam suas varinhas.

- Quieta, Lily.

- Não quero ninguém brigando no meu bar! Pra fora! Agora!

Dois Aberforth apareceram para nos expulsar e os Lúcios foram embora sem olhar para trás.

- James, experimenta isso aqui... é booooooooom...

Eu peguei a taça para dar mais um gole, mas ele a tirou da minha mão.

- Vamos embora.

- Não! É meeeu! Me dá!

- Garota idiota! – Ele me pegou com facilidade e colocou sobre os ombros, como um saco de batatas.

- Me coloca... no chão... James! – Senti que ele começava a andar e fiquei tonta. Estar de cabeça para baixo não ajudava nem um pouco. – Ai...

- Você está bem? – Ele me tirou dos ombros e eu o abracei para não cair, rindo.

- James, James, James, James...

- É, esse é o meu nome.

Ele não ria, nem sorria. Na verdade, parecia bastante bravo.

- Jaaaaaaaaaaames, aonde vamos? E cadê o Lúcio?

- Lúcio? Lúcio Malfoy? – Ele me apertou com mais força e cerrou os dentes. – Eu sabia que conhecia aquele desgraçado! É claro!

- Ele é legaaal, Jaaaames... – Eu disse, olhando para seu rosto. – É meu amigo...

- Ele não é seu amigo. Ele era sonserino!

Bufei e tentei me soltar do abraço.

- E daí? Sev também é sonserino...

- E ele é seu amigo por acaso?

- É... era... aaaaaaah! Me larga, Jaaaames!

- Tudo bem. – Ele me soltou e eu cambaleei, caindo no chão.

- Ai! – Reclamei, colocando a mão na cabeça. – Você me deixou cair! Jaaames...

- Você não queria que eu te largasse?

- Idiota... – Murmurei antes de olhar em volta. – Cadê o Lúcio? Ele ia me levar pra um lugar legal... eu quero iiiir... vaaamos...

- Aquele imbecil não ia te levar pra um lugar legal, sua tonta! Ele ia te levar pra cama!

Ele se abaixou pra me ajudar a me levantar, mas eu o empurrei.

- Ele não é como você! Ele é legal! Saaaai, Jaaaames...

- Certo. – Ele riu com desdém. – Ele estava te embebedando porque gosta de você. Faz muito sentido.

- Ele não estava me embebedando. – Minha voz saiu mais enrolada do que já estava e quase não entendi o que havia dito. – Eu estava me divertiiiiiiiiiindo com o meu amigo Lúcio...

- Ótima diversão. Quer ir pra cama com um sonserino? Vá em frente, então!

- Não quero isso! – Me segurei em seu casaco para ficar de pé e ele me segurou quando cambaleei de novo.

- Pois era isso que ele estava querendo, Lily!

- Não acredito!

- Sabe quem ele era? – Ele não queria realmente que eu respondesse, mas eu respondi assim mesmo.

- Era o Lúcio... meu amigo Lúcio... Lúcio, Lúcio, Lúcio, Lúcio...

- Lúcio Malfoy, Lily. Ele odeia nascidos-trouxa se você não sabe. Ele dizia que vocês, mulheres nascidas-trouxa, vêm ao mundo com uma única finalidade...

- Qual? – Franzi a testa, tentando entender tudo aquilo. Ele falava tão rápido.

- Dar prazer aos bruxos. Serem escravas sexuais. É isso o que você quer?

- Ah, James, pára com iiiiisso... – Tentei dar um tapa nele, mas quase caí de novo. Comecei a rir. – Olha! Eu não consigo andar em linha reta!

Saí de seu abraço e tentei andar sozinha, mas cambaleava e quase caía. Ele me aparou algumas vezes antes de cansar da brincadeira e me prender em seus braços.

Ele parecia estar com muita raiva, mas eu não sabia se era de mim. E não me importava também.

Tentei pensar com lógica, mas minha mente estava um tanto enevoada. O sorriso bobo não saía do meu rosto.

- Como me achou?

- Eu estava indo para a aula de feitiços quando encontrei um garotinho saindo de uma das passagens secretas. Como bom monitor-chefe, exigi que ele me dissesse onde estava e, olhe que maravilha!, ele me disse que eu não poderia castigá-lo porque estava em Hogsmead com a monitora-chefe! – Os olhos dele brilharam ferozmente. – Claro que eu não acreditei, mas veja só, você está mesmo aqui.

- Se não acreditou, por que veio me procurar? – Tentei parecer segura de mim, mas minha voz saiu enrolada e estragou tudo.

- Achei estranho que não estivesse na aula de feitiços. Mas você podia ter dormido demais. Depois soube que faltou à aula de Runas Antigas. Estranho. Muito estranho. Quando você não apareceu para poções eu soube que havia algo de muito errado e resolvi verificar com os meus próprios olhos.

- Voilà! Cá estou eu... – Sorri ainda mais.

- Está achando graça? O que deu em você, Lily? Faltando aula, se embebedando, LÚCIO MALFOY! Parece que nem conheço você!

- Lily Evans, prazer...

- Você precisa de um banho frio. – Ele resmungou alguma coisa, mas eu estava ocupada demais brincando com uma mecha do cabelo. – E de uma poção.

- Uma poção do amor? Polissuco? Veritasserum? Que poção, Jaaaaames?

Ele suspirou, parecendo muito mais triste do que com raiva.

- Esquece.

- Dubirubadá dubirubarubadá birubaruba birubarudá...

- Quer, pelo menos, ficar quieta?

- Jaaaaaaaaaames... canta comiiiiiigo?

- Não, Lily. Fica quieta pra podermos voltar pro castelo.

- Ah, Jaaaaaaaaames... por favooooooooor?

- Dubi Duba Dubi. – Ele disse bem rápido, revirando os olhos e tirou algo de dentro do bolso.

- Não é assim, seu bobo... é dubirubadá dubirubarubadá birubaruba birubarudá...

Ele colocou uma capa ao nosso redor e tapou minha boca.

- Agora fica quietinha durante alguns minutos, ok?

- Taaaaa... – Falei na mão dele e ri do tom estranho que saiu.

Entramos na Dedosdemel, fomos para o porão e descemos pelo alçapão até a passagem que nos levaria de volta pra Hogwarts.

Não me lembro muito do que aconteceu depois, as imagens vêm em flashes desconexos... Alice falando alguma coisa comigo... água gelada... uma poção... minha cama quentinha... depois javalis brancos dançando ao meu redor.

Quando acordei tinha certeza de uma coisa: os javalis eram parte de um sonho. Quanto ao resto, infelizmente tinha acontecido.

Eu estava em minha cama e já passava das três horas da tarde. Minha cabeça doía terrivelmente e eu perdera quase todas as aulas.

Eu já havia tomado um banho, por mais que mal me lembrasse disso, então apenas troquei de roupa, peguei meu material e desci para poder assistir às ultimas aulas do dia.

Só não contava com encontrar Alice me esperando na sala comunal.

- Ah, amiga! – Ela correu ao meu encontro e me abraçou. – O James me contou tudo! Eu sinto muito! Sabia que você ia ficar assim, não devia ter te deixado continuar com aquela história maluca! Mas você é muito teimosa, sabia? Se estava apaixonada por ele, por que continuou com o plano? Você teria evitado tudo isso! Você devia ter feito o que eu falei e deixado de lado esse plano idiota, aí vocês ainda estariam juntos e você não estaria nesse estado...

-Lice...

- Você podia ter me contado antes que vocês tinham terminado, quem sabe eu pudesse ajudar... mas, olha, não precisa se desesperar, ta? Vai ficar tudo bem, eu sei que sim. Ele conversou comigo e quer falar com você depois. Ele só não ficou te esperando aqui porque sabia que eu iria querer falar com você.

-Lice...

- Mas eu sei que ele logo vai vir conversar, e as notícias serão boas! Eu sei que sim! Não precisa se preocupar, ok? Não fica triste... tudo vai se resolver antes do que você imagina... mas me diz de onde você tirou essa ideia louca, Lil! Ainda não acredito que você bebeu! Eu sei que muita gente bebe quando quer esquecer os problemas e é claro que você queria esquecer que ele terminou com você porque você está apaixonada por ele, mas você bebendo é demais pra mim, Lily! Nunca imaginei você bebendo, nem cabulando aulas... mas eu não estou te julgando nem nada, eu entendo que você esteja...

- Lice!

- Quê?

- Calma. Por favor. Respira fundo.

- Não sou eu que tenho que ficar calma, Lil, é você amiga, você...

- Lice! – Eu me afastei e ergui a mão para que ela parasse de falar. – Então, deixa eu me acalmar, ok?

- Ok, mas...

- Não. – Ergui a mão de novo e ela revirou os olhos.

- Eu estou preocupada com você.

- Eu sei. Posso falar?

- Mas eu já sei...

- Por favor?

Ela suspirou e sentou. Bom sinal. Alice fala mais quando está de pé.

- Certo. Conte tudo.

- Se eu contar tudo, vamos ficar aqui o ano inteiro. – Revirei os olhos e ela fechou a cara. – James terminou comigo, sim. Mas eu não estou apaixonada por ele. Não bebi por causa dele. Não cabulei aula por causa dele. Pensando bem... isso sim, cabulei aula também por causa dele, mas por outros motivos principalmente.

Ela ficou um minuto em silêncio, me olhando como se eu fosse doida.

- Lily Evans. – Disse pausadamente. – Eu tenho cara de idiota?

- Não, Lice, mas...

- Porque eu, decididamente, não sou idiota.

- Eu sei, Lice, mas é que...

- E se você achou, mesmo que por um rápido momento, que eu fosse cair nessa sua ladainha, está redondamente enganada.

- Não é ladainha, Alice, eu...

- Eu sou sua melhor amiga, Lily Evans, e exijo que você me trate como tal.

- Mas eu trato...

- E não admito que você minta pra mim, omita coisas de mim e esconda de mim os seus verdadeiros sentimentos.

- Mas eu não...

- Estamos entendidas?

- Sim, mas...

- Então comece de novo, por favor.

Suspirei, sentando numa das outras poltronas e fechei os olhos.

- Quando é que você vai entender que eu não estou apaixonada por ele?

- Quando é que você vai entender que está?

- Eu não estou, Alice! – Levantei de um salto. – Mas será possível? O sentimento é meu, não é? Quem melhor pra entendê-lo do que eu?

- Então, diga você, o que sente pelo James?

Abri a boca para responder, mas por um bom tempo nenhum som saiu. Na verdade, eu não sei exatamente o que sinto por ele.

- Ele não é tão ruim quanto eu pensava. – Respondi, depois de um tempo. Realmente, se eu era pior do que ele, ele não podia ser assim tão ruim. – Mas isso não quer dizer que eu esteja apaixonada.

Ela não parecia convencida.

- Escuta, Alice, eu errei com o James, ta legal? Eu fui um monstro nesses últimos dias. Ele não merecia ser tratado como um brinquedo e eu estou arrependida. Foi por isso que eu resolvi cabular aula hoje. Foi por isso que eu resolvi beber naquele maldito bar. Eu estou envergonhada de tudo o que fiz. Eu não conseguiria olhar nos olhos do James sem sentir aquele maldito remorso. E eu precisava de um tempo para colocar minha cabeça em ordem e tentar me odiar menos por ser o monstro que eu sou. Entendeu?

- Bons argumentos. – Ela sorriu com serenidade. – Você é ótima nisso, Lily. Realmente, consegue enganar qualquer um. Faz isso tão bem que engana até a si mesma. Estou impressionada.

- Alice, para com essa história, por favor. Estou com dor de cabeça.

- A dor de cabeça é culpa sua. Sua e daquela bebida.

Sentei na poltrona e fechei os olhos. Nisso ela tinha razão.

- Não sei o que fazer.

- Eu saberia o que te dizer se você parasse de se enganar. Mas você se engana bem demais, então, não sei o que dizer.

- Espera! – Arregalei os olhos e ela franziu a testa. – Você não sabe o que dizer?

- Exatamente. Você me deixou sem palavras.

- Você está sem palavras? Você?

Ela revirou os olhos e bufou.

- Quer parar? O assunto é sério!

- Mas eu sei que é! E como é! Merlin do céu, milagres podem acontecer!

Ela se levantou e pegou sua mochila.

- Bom, já que não tenho mais o que fazer aqui, vou pra aula.

- Espera! Eu vou também! – Levantei apressada.

- Não, não. James me fez prometer que você iria ficar bem aqui. Ele deve estar chegando daqui a pouco, disse que tinha um assunto importante pra tratar com você.

- Importante? Ele disse o que era?

- Não, mas eu desconfio. – Ela sorriu maliciosamente e se afastou. – Boa sorte.

Eu me deixei cair na poltrona novamente, com as mãos na cabeça. Como uma única pessoa é capaz de cometer tanta besteira em um intervalo tão curto de tempo?

Tentei não pensar naquele passado recente que eu queria esquecer. Eu precisava pensar no futuro, mais precisamente num futuro bem próximo. O que James iria querer comigo depois de tudo aquilo?

Será que ia brigar por causa da bebida? Afinal, ele era monitor-chefe. Ele iria me dar uma detenção?

Monitores-chefes não estão livres de levarem detenção, o próprio James levou uma – por minha causa para ser mais clara, não que ele se incomode com detenções, acho que ele as coleciona – e vai passar a manhã inteira de sábado ajudando a professora McGonagall em algum trabalho bastante ruim.

Mas ele teria coragem de me aplicar uma detenção? A mim, a ex-namorada dele?

Não demorei muito tempo para descobrir. Poucos minutos depois de Alice sair, ele entrou, parecendo triste, zangado e angustiado.

- Como você está?

- Melhor, obrigada.

Ele sentou na poltrona em frente à lareira, no mesmo lugar onde Alice estivera, minutos antes. Eu me arrumei e o observei.

- O que deu em você? – Ele me olhou de repente e perdi a fala. – Cabular aula, beber, no que estava pensando, Lily?

Baixei os olhos, meus sapatos parecendo muito mais interessantes.

- Eu esperaria isso de qualquer um! Qualquer um! Mas... você? Por quê?

Continuei olhando para os meus próprios sapatos. Eu não tinha ideia do que poderia dizer.

- Foi por causa de ontem? – Ele continuou, mais brando. – Por causa de... nós?

Assenti e corei. Era por causa de "nós", mas não da forma que ele pensava. Tentei consertar de alguma forma, eu devia isso a ele.

- Eu não fui legal com você quando éramos... namorados... fiz coisas que... não devia ter feito. Estava envergonhada e arrependida.

Observei sua expressão com cuidado. Seus olhos pareciam duros, mas ele sorria.

- Às vezes sinto como se não te conhecesse. Talvez não conheça.

Corei novamente e desviei o olhar para o fogo. De repente, ele estava na minha frente, ajoelhado.

- Talvez precisemos de mais tempo... para nos conhecermos melhor...

Ele segurou meu queixo, me obrigando a encará-lo. Seus olhos brilhavam mais que o fogo e ele não me deu tempo para responder, tomou meus lábios nos seus de forma um pouco rude e possessiva.

Foi um beijo diferente dos outros, mas ainda assim me deixou sem ar. Quando nos separamos, ele se levantou.

- O que me diz, Lily? – Ele pegou minha mão e me puxou, fazendo com que eu ficasse de pé e o olhasse. – Quer voltar a namorar comigo?

Eu ainda ofegava e não sabia o que dizer. Aquele não parecia o James que eu conhecia.

Ele me tomou nos braços, me beijando com mais carinho dessa vez.

- E então? – Sussurrou em meus lábios quando nos separamos. – Volta pra mim?

- Sim.

Só percebi o que disse, depois que ele me beijou novamente, com vontade, apertando seu corpo contra o meu.

Minha cabeça estava trabalhando devagar, como se eu ainda estivesse bêbada.

Eu era a namorada do Potter? De novo?

Parecia que sim.

- Ótimo, meu amor. Hoje temos treino de quadribol. Você vem, não vem?

- Vou. Claro.

- Ótimo. Vejo você lá, ruiva.

Ele me deu mais um beijo forte e foi embora.

O restante do dia foi razoavelmente calmo. Eu ainda estava tentando me acostumar com os últimos acontecimentos e entender por que estava namorando o Potter, de novo. Tentei prestar atenção na única aula que tive no dia, História da Magia, mas foi impossível. A lembrança de James pedindo pra voltar comigo não saía da minha cabeça.

Eu não pretendo bolar planos para me livrar nele, espero que a época de monstro tenha ficado para trás. Mas eu não posso simplesmente namorar uma pessoa de quem não gosto, não é?

As palavras de Alice voltaram à minha mente. "...se você agisse naturalmente, se decidisse dar uma chance pra ele, será que não poderia dar certo? Você já vai ter que namorá-lo, então por que não tentar de verdade? Se não der certo, vocês terminam e ponto final."

Talvez ela tenha razão. Talvez eu não deva fingir namorar o James. Talvez eu deva tentar de verdade. E, então, naquele momento, decidi que é isso o que eu vou fazer.

Não vai dar certo, eu sei, mas pra que provocar mais sofrimento? Pode até ser divertido. Depois, quando um enjoar do outro, terminamos e fim de papo.

Não é necessário estar apaixonada para namorar alguém. Além do mais, o beijo dele é bom e me faz esquecer meus problemas, nem que seja por um momento. Isso é o bom do namoro, não é? Curtir um pouco, distrair-se.

E, definitivamente, é disso que eu preciso.

Quando cheguei ao salão principal para o jantar, já estava decidida a dar uma chance ao James.

Mas ele não estava lá.

Alice se juntou com algumas garotas do sexto ano com quem eu nunca me dei muito bem, então fui me sentar junto aos marotos.

- Oi, meninos.

- Pimentinha malagueta, por onde andou o dia todo? Ficamos preocupados. – Sirius passou o braço sobre meus ombros e me deu um beijo na testa.

- Agradeço sua preocupação, Six. James não contou?

- Que voltaram? Mas é claro! Isso é esplêndido!

Não olhei para ele com medo de encontrar um olhar acusador. Observei Remus, ele não parecia tão feliz com a novidade.

- Foi só isso que ele disse?

- Por quê? Tem mais?

- Não. – Fiquei internamente agradecida por ele não ter contado sobre minha bebedeira. – Nada não. Onde ele está?

- Da última vez que vi, estava conversando com a Aninia.

Franzi a testa, mas não continuei o assunto.

Sirius era o único que parecia verdadeiramente satisfeito. Não parou de falar um só minuto, mas não consigo me lembrar sobre o que, meus olhos não saíam da porta do salão.

O jantar terminou e James não apareceu. Eu estava começando a ficar com raiva, havia decidido dar uma chance a ele e era assim que ele retribuía?

- Ele costuma fazer isso? – Perguntei, quando nos levantamos.

- Isso o quê?

- Não vir jantar.

- Não, não costuma. – Sirius sorria de orelha a orelha. – Mas não se preocupe, pimentinha malagueta, ele só deve estar preocupado com o time. Já deve estar no campo preparando o treino.

Treino de quadribol! Quase havia me esquecido!

- Ah, é verdade! Vamos pra lá, então!

- Preciso passar no dormitório antes. Vão na frente.

Remus e Peter me acompanharam até o campo. O primeiro, em silêncio, o segundo, contando sobre as vezes que jogara quadribol durante as férias.

- ...claro que eu não consegui pegar, mas foi quase! Com mais um milímetro eu conseguiria... se eu tivesse treinado mais, teria entrado para o time esse ano... ainda mais com o Pontas como capitão... mas só abriram duas vagas e... ah! – Ele parou abruptamente de andar e começou a gaguejar. – Droga... eu... tenho... tenho que ir... esqueci... tchau...

Observei-o se afastar com pressa, como se estivesse com medo e estranhei. Remus continuou calado ao meu lado, pensativo.

- Tudo bem? – Perguntei, querendo puxar assunto.

Ele me observou com cuidado.

- Tudo. Só estou preocupado.

- Com o quê? – Indaguei, tentando não parecer intrometida demais.

- Com você. Você gosta dele, não gosta?

Corei intensamente e desviei o olhar. Conversara poucas vezes com Remus, assuntos da monitoria em geral, no quinto e sexto ano, mas não éramos o que se podia chamar de amigos. Na minha visão, sempre fora o melhor dos marotos, mas eu nunca quis aproximação com nenhum deles. Era estranho falar sobre aquilo.

- Eu... go-gosto... claro... claro que gosto.

Ele suspirou.

- Você é uma garota legal.

- Você também. Um garoto, quero dizer.

- Certo. – Ele sorriu, mas logo voltou a ficar sério. Parecia que algo o estava incomodando.

- Posso ajudar com alguma coisa?

- Não. Eu posso?

Balancei a cabeça para tentar organizar as ideias. Será que Sirius havia contado sobre o plano? Será que Remus estava achando que eu ainda estava fingindo ser namorada do Potter.

- Não. Eu estou bem. Não se preocupe.

Ele sorriu de novo e parou de andar. Já estávamos perto das arquibancadas e eu podia ver James lá no alto, montado na vassoura, perto dos aros. Os outros jogadores ainda não haviam chegado, mas alguns grifinórios estavam lá para assistir ao treino. Na verdade, os garotos estavam lá para assistir ao treino. As garotas só estavam para admirar os jogadores. É claro.

- Lily, escute. O Pontas... o James é um garoto legal. E ele gosta de você. Mas ele é um maroto, entende? – Ele sorriu meio de lado, como se não soubesse direito o que ou como dizer. – Faz parte dele. Eu não sei o quanto vocês se gostam, mas eu espero que dê certo. Espero mesmo. Só não... exija demais dele. Ele pode fazer certas... coisas... que você não vai achar legal, mas esse é o James. – Ele suspirou, balançando a cabeça e fechou os olhos. – Esquece. Esquece tudo o que eu disse. Só faça o que o seu coração mandar. Independente de qualquer outra coisa. Não deixe a felicidade fugir por causa de uma bobagem.

- Eu... certo... obrigada...

Observei ele se juntar a outros colegas da Grifinória enquanto processava tudo aquilo.

Certo, Sirius não havia contado o plano. Eu enganara todo mundo, até o Remus. Ele só estava preocupado que eu desse um ataque de ciúmes de novo, que impedisse James de ficar com os amigos. Mas James é um maroto, faz parte dele. Nem tudo o que ele fizer, eu vou achar certo, é claro. Sempre discordei da maior parte das traquinagens daqueles quatro, não é agora que vou mudar.

Ele só estava com medo de perder o amigo pra mim, ou de o amigo perder a garota que gosta por causa dos marotos.

O remorso voltou ao lembrar por que James tinha terminado comigo. Remus estava certo em me alertar.

Mas eu não sou mais aquela Lily. Agora eu sou somente a Lily. E não vou impedir o James de ter seus amigos.

- Você veio! – Ele desceu da vassoura e se aproximou de mim. – Vai ver o treino todo, não vai?

- Claro que sim. Por que não veria?

- Na segunda você não veio.

- É verdade. Desculpe.

- Está desculpada.

Ele voltou a olhar para os aros e apontou a varinha. Algo dentro do aro inflou e o buraco se tornou menor.

- O que é isso? – Perguntei.

- Os artilheiros precisam treinar a pontaria. Quanto menor o buraco, mais difícil. Quanto mais difícil, mais duro eles precisam treinar. Quanto mais duro treinarem, melhor o time fica.

- Puxa.

- Estão chegando.

Acompanhei seu olhar e vi o time da Grifinória se aproximar. Beijei de leve seus lábios e subi para a arquibancada.

James é um ótimo capitão, disso eu tive certeza essa noite. Mesmo não entendendo muito de quadribol, era evidente que ele sabia exatamente o que estava fazendo e todos o respeitavam. Fizeram muitos exercícios que eu nunca imaginaria que precisassem fazer e fiquei impressionada com a competência do meu... namorado.

Mas nunca fui uma grande fã de quadribol, por isso meia hora depois, desisti de tentar prestar atenção ao treino e tirei da mochila o livro de poções, afinal eu precisava recuperar a aula perdida naquele dia. Mal havia lido um parágrafo e a voz de James soou mais alto que os burburinhos das garotas atrás de mim.

- MAS QUE DROGA, FLITNER! PARE DE CONDUZIR!

Ele voou até um garoto de estatura pequena que parecia tremer em cima da vassoura. Falaram alguma coisa, mas eu estava longe demais para ouvir. Depois, James veio na minha direção, parecendo exausto.

- O que foi? – Perguntei, realmente interessada, quando ele se largou ao meu lado no banco.

- Knees está na Ala Hospitalar e Rovis está em suspenso por causa de uma azaração idiota que lançou no Fletze no jogo contra a Corvinal. Flitner vai ser obrigado a jogar, mas não está preparado. – Ele suspirou e fechou os olhos. – Corner está matando os treinos. Ele acha que não precisa treinar porque já é bom o suficiente. – Ele cerrou os dentes com força. – O pior é que não posso puni-lo porque ele é realmente bom e não tem ninguém pra jogar no lugar dele! E Belby resolveu ficar com medo só porque Flint entrou para o time da Sonserina! Está tão nervoso que não consegue agarrar a goles nem mesmo se colocarmos um feitiço de câmera lenta nela! Estamos decadentes! Vai ser impossível ganhar a taça esse ano!

Fiquei com pena. Ele parecia se esforçar tanto para que tudo saísse perfeito. Mesmo sendo um excelente jogador e um excelente capitão, se perderem a taça, a culpa cairá toda sobre ele. E este é seu primeiro e último ano como capitão. Sua única chance de ganhar a taça para a Grifinória.

- Vai dar certo, James. Eu sei que vai. – Não resisti e acariciei seus cabelos. Ele permaneceu de olhos fechados, mas esboçou um sorriso.

- Bom, pelo menos eu tenho você, não é? E você gosta de mim. Isso já é suficiente.

O remorso em meu coração era tão grande naquela hora que distorceu suas palavras, fazendo parecer que ele estava zombando de mim, que sabia de tudo e estava sendo irônico, rindo às minhas custas. Claro que, na hora, fiquei pálida e gelada, mas ele só sorriu e montou na vassoura para continuar o treino. Depois, relaxei. É claro que foi tudo coisa da minha cabeça. James não sabe do plano e Merlin queira que nunca saiba!

Maldita hora em que eu fui voltar pra ele. Eu só posso ter ficado maluca de vez! Eu e James não vamos dar certo de jeito nenhum.

Mas eu não tenho coragem para terminar o namoro.

Merlin, estou perdida!

Assim que o treino terminou, desci para encontrar James. Ele parecia exausto e desanimado.

- O que achou? – Me perguntou quando me aproximei.

- Você foi o máximo! – E eu não estava exagerando, apesar de ele parecer ter achado que sim.

- É bom ouvir isso, mas não sei se concordo. O time não está nada bem.

- O quê? Eu ouvi direito? Por acaso James Potter não está se gabando de alguma coisa? – Ele sorriu, ainda triste. – James, você fez um ótimo trabalho. Não deve ser fácil comandar esse bando de malucos que só querem se machucar. Esse jogo é puro homicídio!

Ele riu de verdade pela primeira vez.

- Puro homicídio? Você não conhece muitos esportes bruxos, não é?

Fiz uma careta.

- Não muitos. Na verdade, só o quadribol.

- Sim, é o mais popular, mas existiram outros. Alguns iam te deixar de cabelos brancos!

Comecei a rir.

- Pior do que os balaços?

- Pior do que os balaços. – Ele riu. – Já ouviu falar de Rachacrânio?

- Não.

- Cada jogador com um caldeirão preso à cabeça, montados em vassouras voando para lá e para cá recolhendo pedras enfeitiçadas que caíam de uma altura de trinta metros. Causou muitas mortes.

- Que horror.

- Pra você ver, o quadribol não é assim tão ruim assim.

Ele se afastou na direção dos vestiários e eu fiquei esperando. Voltou vinte minutos depois, parecendo mais aliviado.

- O que acha de darmos uma volta? – Ele pediu quando fiz menção de voltar para o castelo.

- Tudo bem. – Concordei e voltamos a caminhar pelo campo. Ele estava calado, pensativo.

- Então... me diga algo sobre você que eu não saiba. – Pedi, constrangida com aquele silêncio.

- Ora, Lily, o que você pode não saber sobre mim? Sou tão transparente. Não consigo esconder segredo algum.

Ele me encarou, sorrindo, mas de uma forma estranha. Como se estivesse zombando de mim de novo. Balancei a cabeça e quase ri. Minha imaginação estava fértil hoje!

- Sei lá. Eu não sei tudo sobre você. Um sonho... qualquer coisa...

- Está bem. Vou te contar um dos meus maiores sonhos. – Ele deitou no meio do campo e sorriu para as estrelas. Deitei ao seu lado. – Sempre quis morar em Godric's Hollow.

- Godric's Hollow? – Estranhei. – O que tem de especial lá?

- Bowman Wright.

- Quem é esse?

- O meu maior ídolo. O criador do pomo de ouro. – Ele explicou com os olhos brilhando.

- Você sempre me surpreende. – Eu ri. – Quer morar em Godric's Hollow porque o bruxo que inventou o pomo de ouro morava lá?

- Isso mesmo. – Ele deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

- Tudo bem. – Continuei rindo. – Você quem sabe.

- Me conte um sonho seu.

Parei de rir, pensativa. Não era uma pergunta tão fácil de responder. E as possíveis respostas não agradariam seus ouvidos.

- Ah... não sei...

- Vamos lá, Lily, conte alguma coisa sobre você. Eu não te conheço tão bem, às vezes parece que mal conheço.

Senti um frio na barriga e sorri nervosamente.

- E então? Não vai me dizer que está satisfeita com o que tem porque eu não vou acreditar. Todo mundo sempre deseja alguma coisa. Nem que seja um bolo de milho ou um par de chinelos novos.

Eu ri.

- Se é assim... quando eu era pequena, estava passeando com a minha mãe num shopping e encontramos uma caixinha de música em formato de coração. A gente abria a tampinha e uma bailarina rosa começava a girar em cima de um espelhinho, seguindo uma linda melodia. Eu me apaixonei, mas minha mãe estava sem dinheiro naquele dia e me prometeu que me daria de presente de natal. O natal chegou, mas a caixinha não. Minha mãe disse que quando voltou na loja, ela já tinha sido vendida. Desde então, em todos os natais eu ficava na esperança de ganhar aquela caixinha... mas ela nunca veio...

Ele riu e segurou minha mão com carinho. Foi bom ficar ali, deitada no campo de quadribol de mãos dadas com James. Parecia que não havia mais nada no mundo, a não ser nós. Sem qualquer complicação. Sem preocupações.

E, principalmente, sem máscaras.

- James! Procurei você pelo castelo inteiro! Se esqueceu da nossa aula?

Claro que o que é bom sempre acaba. E, de preferência, o mais rápido possível.

James se levantou de um pulo e eu observei, desconfiada, Aninia Jones se aproximar de nós. Ela é da Grifinória também, só que um ano mais nova. Não que isso a impeça de ser uma das garotas mais bonitas e desejadas do castelo.

Fora os cabelos claros, longos e incrivelmente sedosos, olhos azuis e corpo perfeito, a garota ainda se veste como uma piranha.

Certo, ela não estava pior do que eu ontem, mas ela faz isso todos os dias e eu fiz apenas numa ocasião que exigia tal comportamento.

- Claro que não esqueci. – James sorriu abertamente e se eu não fosse sua namorada e soubesse que ele não me trairia, teria certeza de que estava flertando com ela.

Eu me levantei e me aproximei dele

- Lily, eu preciso ir agora. McGonagall me encarregou de dar algumas aulas particulares para a Nini.

- Aulas particulares? – Estranhei.

- Sou monitor-chefe, esqueceu?

- Não, mas é que...

- Me encontre na torre de astronomia às onze. – Ele me deu um beijo rápido e se afastou.

Abobalhada, observei-os se afastarem do campo, conversando e rindo.

Eu estava de mau humor quando entrei no castelo e rumei para a torre da Grifinória. Talvez seja TPM, eu sei lá! Vários alunos me cumprimentaram pelos corredores, mas a minha resposta era sempre a cara feia e os resmungos.

Que o castelo explodisse! Eu não estava nem aí!

Eu não costumo ter essas crises de mau humor, mas elas acontecem de vez em quando. Sem uma explicação lógica ou um aviso prévio. Eu só fico de mau humor e ponto final.

E ai de quem se aproximar de mim quando eu estou assim.

- Lily?

- Que foi? – Me virei bruscamente, o tom de voz tão grosso que Lia deu um passo pra trás e franziu a testa.

Não consegui sentir remorso na hora.

- Tudo bem?

- Maravilhosamente. – Ironizei, voltando a caminhar num passo apertado.

- Achei que ia te encontrar num estado um pouco melhor. – Ela confessou, meio risonha, me acompanhando. – Já sei da novidade.

- Que novidade? – Meu tom continuava rude, mas ela não recuou.

- Que vocês voltaram, é claro! Quero dizer, ninguém falava em outra coisa hoje de manhã a não ser no término do namoro de vocês, mas encontrei Sirius antes do treino e ele disse que vocês já fizeram as pazes. Vocês voltaram, não?

- É, voltamos.

Ela parou de sorrir e suspirou.

- Quer me contar o que aconteceu? Você não está com cara de quem voltou com o namorado.

Revirei os olhos.

- Certo. – Comecei, ainda rude, falando rápido e sem emoção. – Ontem à noite eu proibi o James de sair com os amigos, então ele disse que estava cansado de mim e terminou comigo. Passei a noite toda acordada e hoje de manhã não fiquei com vontade de assistir às aulas. Fui para Hogsmead, entrei no Cabeça de Javali, encontrei o Lúcio e bebemos bastante. Lúcio queria me levar pra algum lugar, James diz que era pra cama, mas não tenho certeza de nada e nunca vou saber porque ele chegou bem na hora e o atingiu com alguma coisa. Então, me trouxe para o castelo, Alice me fez tomar um banho, ainda que eu não me lembre disso, e eu dormi profundamente por horas. Quando acordei, Alice falou um monte de besteiras, James pediu pra voltar e eu aceitei. Fui vê-lo no treino agora à noite e depois do treino a vaca da Aninia Jones apareceu pra buscar o meu namorado pra aulas particulares que a McGonagall o encarregou de dar. E uma das minhas crises de mau humor resolveu atacar pouco antes de você me encontrar. Satisfeita?

Para o meu espanto, ela começou a rir.

- Lily, Lily, você é uma figura!

- Como é?

- Está na cara que você está se mordendo de ciúme do James!

- Ciúme! – Revirei os olhos. – Como se eu me importasse com o que ele faz ou deixa de fazer! Além do mais ele já me jurou que nunca me trairia e por incrível que pareça eu acredito no desgraçado. E essas crises de mau humor sempre acontecem comigo! Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Lily, você está sim com ciúme, não precisa mentir pra mim. Todo mundo tem ciúmes, isso é normal.

- NÃO É CIÚME! MAS QUE DROGA!

- Certo, certo... – Ela se afastou um pouco e suspirou, acho que percebendo que meu mau humor não iria passar tão cedo. – Eu tenho que ir agora. Fica bem, ta?

Resmunguei alguma coisa e ela voltou pelo corredor onde estávamos.

A sala comunal nunca pareceu tão chata. Eu tinha milhões de coisas para fazer, mas não conseguia me concentrar. De cinco em cinco minutos, olhava para o relógio de pulso que ganhei de Alice no natal passado, resmungando.

Nenhum dos marotos estava lá e Alice estava ocupada demais com o dever de poções para prestar atenção nos meus resmungos.

Às 22:30, eu resolvi que não conseguiria mais esperar e levantei de um salto, guardando meu material com pressa.

- Lily? Você nem começou a tarefa de poções. Aonde vai?

- Claro que comecei. – Olhei para o pergaminho com uma única linha escrita. – Preciso encontrar o James na torre de Astronomia.

- Na torre de Astronomia? Por quê?

- Eu sei lá! – Resmunguei, ainda mal-humorada.

- Você não parece muito bem. Aconteceu alguma coisa?

- Nada, não. Tchau.

Saí antes que contasse sobre as aulas particulares que James estava dando. Eu sabia que, assim como Lia, ela ia pensar que eu estava com ciúmes. Eu não precisava escutar aquilo de novo.

Quando o quadro da mulher gorda se abriu, encontrei Remus parado no corredor, encostado na parede.

- O que está fazendo aqui? – Sei que fui rude, mas eu não costumo ser muito educada quando estou de mau humor.

Ele franziu a testa, percebendo isso.

- Só esperando o Almofadinhas. Sirius.

- Ah. Sabe se a aula extra do James já terminou?

- Não sei. Desculpe.

- Ah. Bom, eu já vou então.

Não é uma grande caminhada até a torre de Astronomia. Eu levaria somente dez minutos. Depois, teria que esperar mais vinte minutos, isso se James chegasse na hora marcada. Meu coração começou a palpitar de uma forma diferente com a aproximação do momento. Revirei os olhos, repreendendo o meu corpo. Ele estava agindo como se aquele fosse o nosso primeiro encontro!

Eu já sou namorada do James, não preciso ficar sentindo esses efeitos colaterais só porque sei que vou encontrá-lo. Isso é ridículo!

Assim que cheguei ao pé da escada da torre, um garotinho veio correndo na minha direção, parecendo assustado.

- Você é Lily Evans?

- Sou. – Franzi a testa para o garoto. Já passava da hora de recolher e ele não devia ter mais do que doze anos.

- Monitora-chefe?

- Sim. E você não deveria estar fora da cama a essa hora.

- É urgente! Você tem que vir!

Ele segurou minha mão e começou a me puxar. O garotinho até que é forte!

- O que houve? – Perguntei, correndo com ele.

- Ele está sangrando! Vai morrer! Você precisa ajudar!

- Quem? Sangrando? Por que não chamou a enfermeira?

- Ela não está em lugar nenhum! E só encontrei você!

Comecei a correr mais depressa, o garotinho ficou para trás, parecendo estar cansado.

- Masmorras. – Ele gritou, parando para respirar. – Vou tentar encontrar a Madame Pomfrey.

Nunca, em todos os sete anos que estudei nessa escola, eu desci com tanta rapidez aquelas escadas. Tropecei algumas vezes, ralei minhas mãos nas paredes de pedra e continuei correndo. Derrubei duas armaduras, mas não parei para repará-las. Sete andares. Sete andares e um pouco mais para chegar até as masmorras.

Em nenhum momento me passou pela cabeça que o garotinho certamente estava exagerando. Quem quer que estivesse ferido não devia estar sangrando tanto assim. Crianças têm uma imaginação fértil e uma tendência a aumentar as coisas, mas isso não me passou pela cabeça. Eu só queria chegar a tempo de salvar quem quer que fosse.

Eu podia sentir o suor escorrer pelo meu rosto. O cabelo solto me incomodava. Meus pulmões doíam quando eu respirava e minhas pernas pareciam feitas de chumbo.

As masmorras estavam silenciosas, frias e escuras, como sempre, mas eu continuei correndo, com a varinha iluminando alguns metros à frente. Verifiquei algumas das salas de aula, os corredores, mas não havia sinal de quem quer que fosse.

- Olá? Alguém aí?

Minha voz ecoou nas paredes de pedra, sem resposta. Olhei para o relógio e constatei que já passava das 23:00. Talvez eu devesse voltar e explicar tudo para James. Juntos, podíamos procurar pelo garoto ferido.

- Srta. Evans?

- Professor! – Corri até Slughorn, contente de vê-lo.

- O que está fazendo aqui tão tarde?

Com poucas palavras, contei o que havia acontecido, mas ele somente riu.

- Não se preocupe, eu já encontrei o garoto e está tudo bem. Não se passava de uma brincadeira idiota. Ele não estava ferido de verdade, não se preocupe.

Respirei fundo, me apoiando nos joelhos. Só uma brincadeira idiota. Uma espécie de marotagem. Mas dessa vez os autores não foram os marotos, eles já passaram da idade desse tipo de brincadeira. Na certa foi algum outro grupo, inspirado nos marotos, que teve a brilhante ideia. E pensar que eu corri o castelo todo para nada.

E estava vinte minutos atrasada para o encontro com James.

Murmurando algumas palavras desconexas, deixei o professor Slughorn falando praticamente sozinho e voltei a correr para chegar à torre de Astronomia antes que James cansasse de me esperar.

Mas James não estava mais na torre de Astronomia quando cheguei lá.

Quem estava na torre era um grande cachorro preto.

A princípio fiquei com medo. Alunos não podem trazer cães para o castelo, isso só pode ser coisa do Hagrid. E Hagrid costuma ter animais de estimação razoavelmente, quando não excepcionalmente, perigosos.

Mas o cão não parecia nada perigoso, pelo contrário, quando me viu, colocou a língua pra fora, como se estivesse sorrindo e abanou o rabo.

Aproximei-me com cuidado, a mão estendida para acariciar o pelo negro, mas ele deve ter achado meu ritmo muito lento e correu até mim, colocando a cabeça sob minha mão.

Eu ri.

- Cachorro bonzinho. O que está fazendo aqui dentro? Hagrid tem que tomar mais cuidado com os bichinhos dele.

Ele deitou, me obrigando a sentar para continuar acariciando-o, e soltou um resmungo contente.

- Eu nunca tive um cachorro. Minha mãe diz que dá muito trabalho e blá blá blá...

Ele deitou a cabeça no meu colo e me olhou. Por um momento me fez achar que estava me entendendo, mas eu só poderia estar ficando maluca. Aquela bebida não fez nada bem pra mim, ando imaginando coisas demais.

- Deve ser bom, não é? Ser cachorro? Você não tem com o que se preocupar... não tem NIEM's, nem responsabilidades, nem namorados. E ainda é acariciado por todos que te veem.

Suspirei, desapontada que James não tivesse me esperado um pouco mais.

- Bem que ele podia ter ficado, não acha? Não estou tão atrasada assim... só quarenta minutos. – Suspirei de novo e levantei, deixando-o deitado ali. – Vai ficar bem aí? Eu te levaria para o Hagrid, mas estou quebrada. – Realmente, minhas pernas queimavam do exercício forçado. – Não se meta em confusão, viu? E volte para o Hagrid antes que mais alguém te veja aqui. Amanhã vou lá fazer uma visita e aproveitar pra saber o seu nome.

Saí de lá quase me arrastando e acabei demorando mais quinze minutos para chegar até a sala comunal que, para a minha surpresa, não estava vazia.

- James? Aninia?

Os dois estavam sentados numa das poltronas em frente à lareira, cochichando e rindo. Quando me viu, Aninia levantou de um salto, olhando o relógio.

- Puxa, olha a hora! Nem vi o tempo passar! – Ela se abaixou e beijou o rosto de James. – Até amanhã, James. Adorei a aula. – Piscou e então olhou pra mim com uma sobrancelha erguida e um ar de superioridade. – Boa noite, Lily.

- Boa noite. – Murmurei, sentindo uma pontada do mau humor voltar.

James me olhou, indagador.

- Onde estava?

Suspirei, sentindo as pernas moídas, e sentei onde Aninia estivera momentos antes, me abraçando a James e fechando os olhos.

- Desculpe. Eu tinha ido até a torre, mas um garoto apareceu e disse que um outro garoto estava sangrando, aí eu tive que descer até as masmorras correndo só pra descobrir que era uma brincadeira infeliz. Depois subi tudo de novo, correndo ainda mais pra chegar antes que você cansasse de esperar, mas não consegui.

- Ah.

- Eu encontrei um cachorro lá na torre de Astronomia. Acho que é do Hagrid, o que...

- Depois você me conta essa história. – Ele se levantou subitamente, saindo do meu abraço, e se espreguiçou. – Estou morto. O treino foi pesado e as aulas extras me deixaram exausto. Boa noite.

Ele se abaixou para me dar um selinho e subiu para os dormitórios, me deixando sozinha na sala comunal com mil e uma preocupações e uma dor de cabeça aguda.

E ainda preciso fazer a tarefa de poções que, graças a Merlin, é só pra semana que vem.

Mas o pior é essa sensação esquisita de que algo está incrivelmente errado. Ignorando o fato de que namorar James Potter já é, por si só, algo incrivelmente errado.

Deve ser só uma sensação boba, só isso. Ou ainda efeito daquela maldita bebida.

Ou eu pirei de vez mesmo. Isso explicaria tudo.