6º Dia

Não consegui pregar o olho essa noite. De novo.

Sinceramente, não sei o que está acontecendo comigo! Há dias que não durmo direito, meu relógio biológico está completamente desregulado e isso tudo está me deixando louca!

Eu deveria estar com sono, é claro. Deveria estar querendo deitar na minha cama macia e quentinha e sonhar com os anjinhos.

Mas quando deitei, e, por sinal, já passava da meia-noite quando isso aconteceu, não consegui dormir. Minha cama estava dura e fria e, apesar de eu me sentir imensamente cansada, o sono não veio.

Foi inútil contar carneirinhos, cantar canções de ninar para mim mesma – confesso que quase acordei a Alice para fazer isso pra mim – ou usar a técnica de relaxamento que mamãe me ensinou.

Eu poderia tomar uma poção, mas ia demorar muito para prepará-la e eu não tinha os ingredientes em mão. E claro que eu não ia assaltar a sala do professor Slughorn! Meu namorado é um maroto, não eu!

Então, revirei na cama até por volta das três horas da manhã. Sério, o colchão estava começando a provocar feridas no meu corpo!

Desci para a sala comunal a fim de encontrar algum conforto nas poltronas, mas estava muito frio. Nem mesmo a lareira conseguia me aquecer. Era como se o frio viesse de dentro de mim, ou coisa assim. Credo!

Desistindo da torre, resolvi dar uma volta pelo castelo.

Eu andando pelos corredores escuros e sombrios de Hogwarts durante a madrugada. Por Merlin, eu devo estar realmente louca!

Mas eu logo cansei da caminhada. Andar por aqueles corredores fez com que eu me lembrasse de como era correr por aqueles corredores e isso trouxe meu mau-humor de volta ao me lembrar dos infelizes que tiveram a brilhante ideia de me fazer de palhaça.

Eu não sabia mais o que fazer, estava quase chorando! Eu estava cansada, queria dormir, mas não conseguia! Eu precisava deitar numa cama quentinha! Por Merlin, eu precisava!

Mas a minha cama não estava quentinha. Tampouco as poltronas do salão comunal.

Então, uma ideia súbita me ocorreu e eu subi para o dormitório dos garotos.

Se, algum dia, alguém me dissesse que eu iria dormir, por livre e espontânea vontade, no dormitório dos marotos, na cama de James Potter, com ele ao meu lado, sério, eu iria internar essa pessoa num hospício.

Entretanto, sabendo-se lá onde eu estava com a cabeça, era ali que eu estava, deitada na cama do James, sentindo, finalmente, uma cama quentinha e confortável sob o meu corpo. Eu o teria acordado para que ele pudesse fazer uma cama no chão e deixar a sua cama só pra mim, mas não achei que seria justo. Além do mais, a cama não é tão pequena assim. E o calor do corpo dele também ajudava a aquecer aquela noite fria.

Preciso me lembrar de ter uma séria conversa com o senhor diretor Dumbledore! Como ele pode permitir uma coisa dessas? As camas dos garotos são incrivelmente melhores que as das garotas!

Sempre achei que Dumbledore não fosse um homem machista, mas começo a duvidar.

Adormeci rapidamente, tão rapidamente que acordei no susto quando Sirius começou a gargalhar.

Eu havia me esquecido desse detalhe. Estivera tão absorta em achar uma cama decente para dormir e depois em reclamar com o diretor que nem me dei conta do que os outros marotos iriam pensar quando acordassem. Em especial Sirius, é claro, que parecia estar se divertindo muitíssimo com a cena.

- Lily? – A voz de James soou próxima de minha boca, sonolenta, e abri os olhos apenas para me dar conta do quão perto nós estávamos.

Sim, eu sei, nós somos namorados, mas é uma situação estranha porque eu não gosto dele. Quero dizer, eu gosto dele, mas não da forma que eu precisaria gostar para poder namorá-lo.

Ai, minha cabeça!

Bom, o fato é que assim que aqueles olhos castanho-esverdeados encontraram os meus, o mundo a minha volta pareceu desaparecer.

Sirius ainda estaria rindo? Não faço a menor ideia.

Meu coração com certeza podia ser ouvido no Japão e eu comecei a ficar com muito, mas muito calor. A cama, que antes estava quentinha e confortável, parecia pegar fogo sob o meu corpo. E tudo isso porque o mesmo estava encostado em outro corpo, um corpo quente que me deixou arrepiada dos pés à cabeça.

Um dos braços dele estava depositado sobre minha cintura, o que me mantinha grudada ao seu torso nu. A coberta havia saído de cima dele e pude ver que a única peça de roupa que ele usava era uma cueca.

Maldito garoto! Eu não prestei atenção nisso quando fui me deitar! Estava tarde demais, escuro demais e eu evitei me encostar a seu corpo. Mas ele não conhece pijama? Dormir só de cueca nesse frio! Ele só pode ser louco!

Desviei o olhar do corpo dele, envergonhada. Meus pensamentos já estavam começando a ficar impróprios. Qual é! Eu também sou uma adolescente repleta de hormônios!

Os olhos de James fitaram os meus com curiosidade antes de pararem em meus lábios. Estávamos incrivelmente perto e minha respiração já estava descompassada. Ele me segurou com mais força antes de quebrar a distância e me beijar.

E que beijo maravilhoso!

Por Merlin, James pode ter todos os defeitos do mundo, mas uma coisa eu preciso admitir, ele beija muito bem.

Foi um beijo doce e carinhoso no começo e eu agradeci por estar deitada, do contrário, minhas pernas não teriam aguentado o meu peso.

Sua mão passeou pelas minhas costas e entrou por baixo da blusa, pedindo um contato mais íntimo. Minhas mãos também não conseguiram ficar paradas e acariciaram seus ombros, seus cabelos macios, suas costas.

Num movimento rápido ele deitou sobre mim, me beijando com mais paixão. Eu não conseguia raciocinar, os lábios dele se movendo contra os meus e sua língua explorando cada canto de minha boca baniram completamente todos os meus pensamentos. Foi só quando ele desceu os lábios até o meu pescoço e eu abri os olhos que me dei conta de onde estávamos.

Empurrei-o para o lado e sentei, observando os outros marotos. Remus fingia arrumar alguma coisa na mochila, mas nos lançava alguns olhares curiosos, Peter estava atônito e Sirius exibia um sorriso radiante.

Senti meu rosto corar com ferocidade e balbuciei alguma coisa antes de sair correndo para meu próprio dormitório.

Onde eu estava com a cabeça? Dormir na cama do James! Eu não podia estar sã quando decidi isso!

Não posso negar que foi uma das noites mais bem dormidas da minha vida, mas isso não apaga o fato de ser insanidade. Eu não posso dormir no dormitório dos garotos, não posso dormir na cama deles, muito menos com eles nelas! Nem que seja meu namorado! Especialmente se for meu namorado!

Com que cara eu iria olhar para os marotos agora? Como eu ia explicar aquilo? Eu não ia aguentar ver aquele sorriso do Sirius o tempo todo!

Eu precisava fugir deles. De todos eles. Em especial de James! A convivência com ele não me faz bem! O namoro com ele não me faz bem! Mas quem diz que eu tenho coragem de terminar tudo?

Minha vontade era de faltar a todas as aulas do dia, exatamente como ontem, sem a história da bebida, é claro.

Mas isso seria uma irresponsabilidade grotesca e apesar de saber que estou enlouquecendo de vez, eu preciso ser responsável. Pelo menos um pouco responsável.

- Lily? Aconteceu alguma coisa? Você parece um pimentão! – Alice me segurou pelo braço e me fez sentar em sua cama assim que entrei no dormitório feminino.

- Lice, eu fiz uma besteira sem tamanho...

- Ai, não! O que foi que você fez, Lily Evans? Não me diga que brigou com o James de novo! Isso está ficando insustentável! Se você...

- Não, não é isso. Eu...

- Fala, Lily! Desembucha!

- Eu dormi...

- Você dormiu com ele? – Ela levantou, de boca aberta e olhos arregalados, e, em seguida, começou a rir. – Você dormiu com James Potter? Lily, isso é o máximo! – O problema não foi ela ter entendido errado, mas o tom de voz que ela usou ao fazer a anunciação. Sério, acho que o castelo todo escutou Alice dizendo que eu dormi com James Potter. Difícil foi ver o olhar atônito das outras garotas. Todas espantadas por Lily Evans ter dormido com James Potter. – Ah, eu sabia que você gosta dele, mas não pensei que fosse... meu Deus, Lily! Você se cuidou, não? Imagine ficar grávida com 17 anos! Mas como foi? Me conta tudo!

- Eu não dormi com o James, Alice. – Suspirei quando ela me lançou um olhar de quem não acreditava. – Eu conto essa história mais tarde, mas, acredite em mim, eu não fiz aquilo com James Potter.

As outras garotas pareceram se convencer e pararam de me encarar, somente Alice estava disposta a continuar com aquela ideia maluca.

- Mas se não dormiu com ele, dormiu com quem? Essa expressão aí não me engana, Lily!

Revirei os olhos e troquei de roupa. Quanto antes eu contasse tudo pra Alice, melhor. Felizmente, ela já estava quase pronta e, alguns minutos depois, já estávamos descendo para o café da manhã.

- Vamos t

- Vamos para a cozinha, assim poderemos conversar em paz. – Eu disse, carregando ela comigo. Mas aquele não era o único motivo para eu não querer ir para o salão principal. Eu ainda não estava pronta para encarar nenhum dos marotos.

- E então? – Ela exigiu, assim que nos sentamos à mesa da cozinha. Vários elfos domésticos apareceram para nos servir e esperei que eles se afastassem para começar.

Contei toda a história, desde a minha insônia até a forma ridícula como fui acordada de manhã. Quando terminei, Alice me encarava com um sorriso singelo e um brilho sonhador no olhar.

Ela suspirou antes de começar a falar.

- E você ainda diz que não está apaixonada. – Ao contrário do normal, ela falava devagar, como se saboreasse cada palavra. Mesmo assim, não consegui interrompê-la. Talvez por estar espantada com aquela conclusão ou por estar de boca cheia, mas apenas escutei o que ela tinha a dizer, sem pestanejar. – É claro que você está. De outra forma, porque iria achar a cama do James mais quentinha e confortável? Você poderia deitar em qualquer cama do mundo, Lily, mas somente aquela onde ele estava é que iria te agradar. Você precisa contar a verdade, amiga, antes que seja tarde demais. Precisa contar sobre o plano e dizer o que sente. Eu tenho certeza de que ele vai entender. Ele gosta de você de verdade e você também gosta dele, Lily, não faça uma situação tão simples virar um pesadelo. Porque é isso o que vai acontecer se você continuar com essa farsa. Vai virar um pesadelo e você vai se arrepender amargamente. Escuta o que eu estou te dizendo.

Eu ainda acho que o fato de a cama do James ser mais quentinha é por causa do machismo do mundo, mas não disse isso pra ela. Coitada, parecia tão segura de si que eu não fui capaz de contrariar. Terminei meu café e disse que iria pensar no assunto.

Mas é claro que eu nunca vou contar a verdade para o James. Eu sei que ele não vai gostar nem um pouco e nunca vai me perdoar.

Quando chegamos à primeira aula, minha barriga reclamava por causa da ansiedade e vergonha de encarar James, mas, para a minha surpresa, ele não estava lá.

Sirius percebeu o meu olhar vagando pela sala e veio se sentar ao meu lado, com um sorriso malicioso.

- Ele precisou sair para resolver uns probleminhas. – Explicou, antes mesmo que eu tivesse a oportunidade de perguntar. Coisa que eu não pretendia fazer, apesar de estar morrendo de curiosidade.

- Não que eu esteja interessada – Eu disse, evitando encará-lo. –, mas que probleminhas?

Ele riu.

- Coisas de maroto.

- Certo. – Murmurei, mal-humorada.

- Eu realmente achei que você não fosse admitir tão facilmente. – Ele continuava com aquele sorriso idiota e eu tive vontade de dar um soco naquele rostinho bonito, só pra apagar aquele ar de superioridade! Ele me olhava como se me conhecesse melhor do que eu mesma! Nem as conclusões precipitadas da Alice são tão irritantes!

- Admitir o quê, exatamente, Sirius?

- Pimentinha, você não vai continuar mentindo pra mim, vai?

- Mentindo?

- Até um cego vê que você está apaixonada pelo Pontas.

Sinceramente, estou começando a ficar cansada dessas conclusões idiotas. Alice, Liana, Sirius... todo mundo parece realmente acreditar que eu estou apaixonada pelo James!

- Não. Não estou. Talvez seja melhor dar uma checada na sua visão, Sirius.

- Talvez seja melhor checar a sua. – Nem a minha carranca fez com que ele parasse de sorrir. Eu não mereço um carma tão grande, Merlin!

- Você está tremendamente irritante hoje, Black.

- Obrigado, mas não me chame de Black, pimentinha. – Ele fez uma careta e eu sorri vitoriosa.

- O que foi? Por que parou de sorrir? É legal incomodar os outros, não é, Black?

Sua expressão ficou tão sombria que nem mesmo eu consegui sorrir. Ele não tem culpa de ter nascido numa família como aquela, afinal. Mas eu me recusei a pedir desculpas, e assim nós ficamos até o final da aula.

James não apareceu para nenhuma das aulas da manhã e eu comecei a ficar preocupada. Ele é monitor-chefe, não pode ficar cabulando aulas desse jeito! A não ser que seja por um bom motivo... e é claro que James não tinha esse bom motivo! Eu duvidava muito.

Apenas quando estava indo para o salão principal, na hora do almoço, foi que o encontrei. Ele estava caminhando com tranquilidade por um dos corredores, mas não estava sozinho, Aninia Jones estava com ele.

E isso não serviu nem um pouco para melhorar meu humor já azedo.

- James!

Ele se virou ao me ouvir e levantou uma sobrancelha, como se perguntasse o que eu estava fazendo ali.

- Oi, amor. Aconteceu alguma coisa?

- Como assim 'aconteceu alguma coisa'? Você sumiu a manhã toda!

- Eu estive ocupado. – Foi a resposta evasiva que ele deu, seguido de um sorriso de lado.

Olhei para Aninia, me perguntando se ele estivera ocupado com ela. Eu duvido que James esteja me traindo, mas não tenho motivos para confiar nele. Ele realmente pode estar me traindo. Na verdade, naquele exato momento, o mundo parecia estar gritando isso pra mim e eu senti meu rosto arder em chamas com a possibilidade.

- James, acho melhor eu ir. Nos vemos depois? – A loira azeda me ignorou completamente, trocando sorrisos e olhares com o meu namorado. Porque, por mais que eu não goste dele, ele ainda é meu namorado!

- Claro, Nini. – Não gostei da intimidade, nem dos sorrisos, nem de nada. Ele está dando aulas particulares pra ela, não saindo com ela, como parecia. Pelo menos, ele diz que é isso. E a idiota aqui acredita!

- James! – Exigi sua atenção quando ele continuou olhando para onde Aninia havia ido.

- Eu não te vi no salão principal hoje de manhã. – Ele comentou, estendendo a mão para mim.

Faltou pouco para que saíssem faíscas por todos os poros do meu corpo, mas contei até dez, de olhos fechados, e aceitei a mão que ele ofereceu.

- Eu estava com a Alice, na cozinha, colocando o papo em dia. Depois que começamos a namorar, eu e Alice não temos tido muito tempo para conversar de verdade. – Achei que dando uma resposta completa, obrigaria ele a fazer o mesmo. – E você? O que fez a manhã inteira?

- Estava resolvendo uns problemas.

Esperei por mais, mas ele não continuou.

- Que problemas? – Incitei quando sentamos à mesa da Grifinória.

- Problemas, Lily, problemas. Pode me passar a salada?

Minha vontade foi de derrubar a salada em cima dele, mas me contive. Eu estava muito curiosa.

- Se precisar, eu posso ajudar. É algo relacionado à monitoria?

- Não.

Esperei por mais, mas ele não parecia nem um pouco disposto a conversar.

Prendendo a respiração, virei no banco de tal maneira que quase fiquei de costas pra ele, impedindo qualquer contato. Comecei a comer com ferocidade, sem tirar os olhos do prato. Senti Sirius rir na minha frente, o humor dele, pelo menos, já tinha melhorado.

- Não vá explodir, pimentinha.

- Não enche, Sirius. – Eu falei, de boca cheia, e ele riu ainda mais.

- Ninguém te ensinou a comer de boca fechada, Lily? – Por incrível que pareça, a pergunta não veio de Sirius. Espantada, virei novamente e vi James me encarando com uma expressão estranha.

Nunca senti tanta vergonha na minha vida!

Engoli rápido e me levantei, saindo sem olhar para trás.

Eu não estava entendendo aquela frieza dele. Ou eu fiz algo muito ruim, ou ele só usou aquela fachada de garoto romântico e sensível pra que eu acreditasse e agora está mostrando sua verdadeira face! Talvez ele seja um ator melhor do que eu pensei.

Andando rápido pelos corredores de Hogwarts, eu tentava desvendar esse enigma. Mas não fiquei sozinha por muito tempo.

James apareceu, alguns minutos depois. Se eu não soubesse que o castelo é protegido por fortes feitiços, diria que ele havia aparatado bem ali, na minha frente.

Antes que eu pudesse despejar em cima dele todo o meu mau-humor, ele me pegou nos braços e me beijou.

E, como das outras vezes, eu esqueci totalmente o que estava fazendo ali. Só conseguia me concentrar naquele idiota daquele garoto que me prendia na parede e me beijava sem pudor.

- Eu fui um grosso, me desculpe. – Ele murmurou no meu ouvido enquanto eu lutava para recuperar o ar. Seria impossível não o desculpar naquele momento. – Eu não quis dizer o que estava fazendo de manhã porque é uma surpresa, meu amor, mas admito que não fui muito gentil na tentativa de me livrar das suas perguntas.

- Uma surpresa? – Foi tudo o que eu consegui falar quando ele me soltou e segurou uma de minhas mãos, me puxando de volta para o salão principal.

- Podemos falar de outra coisa?

Eu suspirei, derrotada. Ele ainda estava frio e distante. Todo o calor que aparecera com o beijo se transformou em fumaça assim que a conversa começou.

- Eu estava pensando em fazer uma visita ao Hagrid depois da aula. O que acha?

- Não posso.

- Por quê? – Perguntei, cautelosa, desconfiando da resposta.

- Aula particular, amor.

- Com Aninia Jones, por acaso? – O mau-humor voltou instantaneamente. Acho que Aninia Jones e mau-humor são sinônimos no meu dicionário.

- Com ela sim, por quê? Não me venha com ataque de ciúmes! Não estou com paciência pra isso hoje!

- Não é ciúme, James. Só não entendo por que a professora McGonagall mandou você dar essas aulas...

- É trabalho dos monitores-chefes, Lily.

- Mas ninguém faz mais isso, James!

Ele parecia prestes a perder a paciência.

- Mas a Nini precisa e eu sou melhor do que você em Transfiguração! Você sabe disso!

- Grosso! – Reclamei, soltando a mão.

Antes que eu pudesse me afastar, ele me abraçou por trás, colocando o queixo em meu ombro.

- Você fica muito sexy quando está brabinha.

Eu me arrepiei e sorri. Pela primeira vez no dia, ele parecia estar sendo sincero.

- Então é por isso que você insiste em me irritar?

Ele riu em meu pescoço e eu agradeci por estar sendo segurada, já que minhas pernas ficaram tão moles que seria impossível me sustentar sozinha.

- Você que se irrita facilmente.

Bufei.

- O que aconteceu com os homens hoje? Vocês acordaram extremamente irritantes! Primeiro o Sirius, agora você!

- O que o Sirius fez? – Ele me largou, parecendo preocupado.

- Nada... – Corei e desviei o olhar, querendo mudar de assunto. "Ah, James, ele só disse que eu estou apaixonada por você, mas é claro que eu não estou. Não se preocupe com isso." Certamente não seria a resposta ideal. – Ele só ficou bastante irritante depois da cena de hoje de manhã...

Não era uma mentira. Afinal, ele só se convenceu de que eu estou apaixonada pela James porque eu dormi na cama dele. Cada um entende como quiser, não é mesmo?

E James pareceu cair direitinho na minha armadilha. Bom garoto.

Ele sorriu com malicia, me abraçando de novo.

- E eu fiquei intrigado. Você dormiu na minha cama?

Eu corei mais do que seria possível e fitei minhas mãos pousadas em seu peito.

- Não é culpa minha se o mundo é machista e as camas mais confortáveis foram dadas para os garotos...

- Então, a minha cama é mais confortável? – Ele parecia realmente estar se divertindo com a situação.

- É... ela é mais quentinha... bem mais aconchegante do que a minha... e eu não estava conseguindo dormir...

Ele segurou meu rosto entre as mãos e me beijou com carinho. Aquele era o James de quem eu gostava, quer ele estivesse atuando ou não, não me importava. Eu só queria que aquele outro James, o frio e distante, não voltasse mais.

Mas assim que nos separamos, percebi a diferença em seu olhar. Hostilidade.

Aquele garoto tem dupla-personalidade! Só pode ser isso!

- Eu tenho que ir. – Foi tudo o que ele disse antes de desaparecer no final do corredor.

Fiquei algum tempo ali, avaliando aquelas mudanças de humor. James Potter é um ser mais complexo do que eu imaginava.

Assim que a última aula terminou, fui até a cabana de Hagrid para fazer uma visita.

- Quem está aí? – Ele perguntou, parecendo estar com a voz meio abafada.

- Sou eu, Hagrid. Lily. – A porta foi aberta pouco depois e eu entrei com cautela. Hagrid estava com os olhos inchados e vermelhos, indicando que havia chorado bastante nas últimas horas. – O que aconteceu?

Antes que ele pudesse responder, porém, a cabana tremeu. Espantada, observei um animal cinzento, do tamanho de um cachorro grande, se aproximar, derrubando móveis e berrando.

- Oi, Lily, esse é o... o Romualdo...

Em seguida, voltou a chorar como um bebê. Se eu não conhecesse bem o Hagrid, teria me espantado.

- Hagrid, ele é um Erumpente...

- Eu... sei...

- Esses animais são perigosos...

- Mas o Romualdo é um bom garoto, Lily... ele é um bom menino... não é, Romualdo? Dumbledore também disse que ele não pode ficar... vão levá-lo embora...

Eu suspirei. Dumbledore podia ser um homem machista, mas era um homem machista inteligente.

- Hagrid, talvez o Romualdo seja mais feliz com a família dele...

- Ele não tem família, Lily... ele é... órfão...

Observei o animal com receio. Não era a primeira vez que eu via Hagrid com um animal perigoso como aquele.

- Onde você o conseguiu?

Ele parou de chorar e enxugou os olhos com as mãos grandes. Olhou em volta antes de continuar, em voz baixa:

- Com um conhecido. Ele disse que o Romualdo estava sem família. E eu sabia que ele seria feliz aqui.

Suspirei, dando um tapinha em seu braço.

- Ele vai ser muito feliz, Hagrid. E nunca vai se esquecer de você. Mas ele não pode ficar aqui.

Ele levantou alguns móveis que Romualdo havia derrubado e pôs água na chaleira.

- Eu sei. Dumbledore disse que amanhã de manhã vai levá-lo.

- É melhor, Hagrid, acredite...

- Dumbledore é um bom homem.

Tive vontade de dizer que Dumbledore é um machista que dá camas mais confortáveis para os garotos, mas me contive. Em vez disso, lembrei-me do cão na torre de Astronomia.

- Ah, Hagrid! Encontrei seu cachorro na torre de Astronomia ontem à noite.

- Meu cachorro? – Ele franziu a testa e continuou a preparar o chá. – Que cachorro?

- Um cachorro grande e preto. Não é seu?

Ele riu com gosto.

- Não, não é meu.

- Ah. E de quem é?

- De ninguém. – Ele continuava sorrindo, como se curtisse uma piada interna.

- Você sabe o nome dele?

Ele permaneceu em silêncio durante alguns minutos, mas sacudiu a cabeça.

- Não, não sei.

Bebemos chá enquanto Hagrid me falava sobre o lado positivo de se ter um Erumpente de estimação. Tentei não demorar muito, já que Romualdo começou a correr pela cabana, fazendo os móveis e algumas louças caírem e quebrarem.

Quando cheguei à sala comunal, James ainda não havia voltado. Extremamente irritada, saí de novo, sem ter ideia de onde ir.

Não demorou muito e o cão negro apareceu ao meu lado.

- Oi! – Exclamei, surpresa. – Quer dizer que você não tem dono, bonitinho?

Ele latiu e abanou o rabo.

- Nem nome? Precisamos dar um nome pra você... que tal Rex?

Ele rosnou e eu ri. Eu estava conversando com um cachorro. Eu estava conversando com um cachorro e achava que ele estava me respondendo. Eu só posso ser mesmo louca.

- Não? Então... Tobe? Totó? Não... você tem cara de... deixe-me ver... Chuck? Pluto? Spike? Snoop? Snuffles? Snuffles! Você tem cara de Snuffles!

Ele soltou outro rosnadinho, mas eu não liguei.

- Seu nome vai ser Snuffles, sim!

- Lily! – Olhei para trás e vi Liana correndo na minha direção.

- Oi, Lia! – Felizmente o meu mau-humor havia passado depois de encontrar o Snuffles. Coitada da Lia, já sofreu meu ataque de mau-humor ontem, não precisava sofrer hoje também.

- Belo cachorro. – Ela comentou, observando Snuffles com admiração.

- O nome dele é Snuffles. – Eu disse, sorridente, e ela riu.

- Oi, Snuffles. – Ela se abaixou para acariciá-lo e nós duas levamos um susto quando ele pulou e a derrubou, deitando em cima dela.

- Snuffles! Pára com isso! Menino mau! – Tentei tirá-lo de cima de Liana, mas ele parecia disposto a continuar ali. Ela, depois do susto, começou a rir. – Acho que ele gostou de você. Ele nunca fez isso comigo.

Snuffles lambeu o rosto dela enquanto ela ria.

- Sabe que eu também gostei dele? Mas acho melhor sair de cima de mim agora, Snuffles.

Ele soltou uma tossida que mais parecia uma risada e nós duas rimos.

- Snuffles! Vem, garoto! – Chamei, me abaixando e assobiando. – Snuffles!

- Cachorro fofo! – Lia acariciou a cabeça dele. – Você é lindo, sabia?

- Lindo, mas muito folgado. Anda, Snuffles, sai daí! – Com muito esforço, conseguimos tirar ele de cima dela.

- Eu não sabia que você tinha um cachorro. – Ela comentou, ainda acariciando Snuffles, que parecia muito feliz em ficar ao lado dela, dispensando totalmente a minha companhia.

- Não é meu. Não é de ninguém, eu acho. – Dei de ombros.

- Eu queria que você fosse meu, cachorrinho. – Ela suspirou depois olhou pra mim. – E você e James, Lily?

Certo, meu mau-humor voltou. Por causa de quem? Adivinha?

- Aula particular com Aninia Jones.

Ela franziu a testa, preocupada.

- De novo?

- É. E ele também faltou a todas as aulas da manhã.

- Por quê?

- Disse que é uma surpresa, mas eu o encontrei conversando com ela um pouco antes do horário do almoço. – Suspirei, dando vazão às minhas desconfianças. – Você acha que ele poderia estar...?

- Eu não sei, Lily. Ele parecia gostar mesmo de você, mas as pessoas mudam, não é? Você mesma parece muito mudada. – Sorri para ela, mesmo que meu humor não estivesse dos melhores. Lia não conhece a história toda, mas às vezes eu acho que ela me entende mais do que qualquer outro. – Mas James pode estar sendo sincero. Ele pode ter encontrado a Jones por acaso hoje no almoço.

- É... pode ser...

- Converse com ele, Lily. Conte tudo o que sente. Vocês vão se entender. Vão ficar bem, eu sei disso.

Conversar com James. Era a segunda vez que eu escutava aquilo. Contar tudo. Não era tão simples assim.

- É complicado, mas obrigada.

- Se precisar de algo...

- Obrigada. – Sorri e ela retribuiu, com sinceridade. Se aconteceu algo de bom nessa história de namorada do James, foi ter conhecido a Lia. Ela é uma garota muito especial.

- E o Sirius? Como ele está? – Vi que ela mordia o lábio inferior enquanto esperava a resposta. Parecia nervosa, ansiosa.

- Bem, eu acho. Vocês não conversaram mais?

- Ontem a gente se falou, mas... foi bem rápido e, bem, sobre você e James...

- Você gosta muito dele, não é?

Ela suspirou e desviou o olhar.

- Gosto. Mas ele é o Sirius.

Eu não disse nada. Tudo bem, ele é o Sirius, mas até mesmo o Sirius pode se apaixonar. E eu acredito que ele já esteja apaixonado. Pode ser loucura, eu não me surpreenderia, já que estou mesmo ficando louca, mas eu realmente acho que o Sirius está apaixonado pela Lia. E eu vou dar um jeito de ajudar esses dois. Depois de resolver a minha situação precária, vou conseguir juntar Sirius Black e Liana Rinnel! Mas vou mesmo!

Depois de conversarmos durante um bom tempo sobre garotos, escola e professores, Lia foi embora. Snuffles também se afastou de mim, correndo tão depressa que rapidamente eu o perdi de vista. O jeito, então, foi voltar para a sala comunal.

A maioria dos alunos já havia se retirado para dormir quando eu cheguei. Só então percebi o quanto era tarde. A conversa com Lia havia mesmo me distraído, e eu pretendia ter uma boa noite de sono, dessa vez na minha cama.

Antes que pudesse chegar até a escada, porém, James desceu as do dormitório masculino e achei que seria capaz de colocar fogo no castelo tal era sua raiva. Dei um passo pra trás quando ele se aproximou de mim.

- Onde você estava?

Ele não gritou, mas foi como se tivesse. O tom frio e desconfiado entrou rasgando em meus ouvidos e precisei me apoiar numa das poltronas. Eu não via sentido para aquela raiva toda.

- Eu... – Um movimento me distraiu e olhei para a escada do dormitório masculino. Dessa vez era Sirius quem descia, rindo.

- E então? – Voltei minha atenção para James, que ainda esperava uma resposta, e me enfureci.

Quem ele pensa que é para me tratar assim? Eu não sou propriedade dele pra ter que dar satisfações!

- Não interessa onde eu estava! Qual é o problema?

- O problema? – Ele arregalou os olhos, como se a pergunta fosse óbvia demais. – O problema é que eu cheguei aqui cansado depois de um dia estressante e descobri que a minha namorada estava lá fora se sabe lá com quem!

- Está com ciúmes, James? – Provoquei, sorrindo com ironia. – Eu estava com o Snuffles, oras.

- Snuffles? – A raiva pareceu desaparecer e seu tom se tornou mais ameno. – Quem é Snuffles?

Ele desviou o olhar para Sirius, que sorria e nos observava, depois voltou a me encarar.

- Você deveria saber, já que é meu namorado. Mas parece que você não se importa muito com o que eu faço!

- Eu não me importo? Eu não me importo? – A ira voltou e ele se afastou. – Se eu não me importasse, não estaria aqui perguntando!

- Se você tivesse me escutado ontem, não precisaria estar aqui perguntando!

- Chega! Não quero mais brigar!

Ele se largou na poltrona e fechou os olhos. Minha vontade era de terminar tudo naquela mesma hora, mas eu não encontrei as palavras. Em vez disso, sentei em outra poltrona, tentando pensar com racionalidade.

Meu olhar encontrou o de Sirius, que tinha parado ao lado da lareira para observar a discussão. Ele parecia estar se divertindo muito e eu precisei controlar a vontade de me levantar e esganá-lo.

- O que foi? – Perguntei, rudemente.

- Vocês dois são o casal mais divertido que eu conheço. – Ele disse, ainda rindo. – É uma pena que eu não possa ficar e assistir à próxima briga.

Revirei os olhos e ignorei a provocação, preocupada com outra coisa.

- Vai se encontrar com alguém?

Acho que ele percebeu o desespero em minha voz porque parou de sorrir no mesmo instante.

- E se eu for?

- Com quem?

Ele desviou o olhar e eu me inclinei para mais perto, a fim de exigir a resposta.

- Não interessa. – Depois me encarou novamente, sorrindo. – Divirta-se, pimentinha.

E saiu.

- Eu tenho que fazer alguma coisa... – Murmurei pra mim mesma, observando a passagem pela qual Sirius saíra. James abriu os olhos e me fitou com a testa franzida.

- Fazer o quê?

Revirei os olhos.

- E ainda diz que é amigo. Você não percebeu? Ele está apaixonado!

James começou a rir. O som foi tão contagiante que até eu sorri.

- Almofadinhas? Apaixonado? Lily, fala sério!

- James, ele está! E eu preciso fazer alguma coisa porque a Lia também gosta dele!

- Lily, uma coisa é ele gostar de uma garota, outra, completamente diferente, é ele se apaixonar por ela. Eu sei que o Sirius gosta da Lia, mas ele não está apaixonado.

- Como sabe? Como pode ter certeza? – Eu me levantei e sentei no espaço vago ao lado dele.

- Eu só sei. – Ele ainda sorria. Era um sorriso sincero, diferente dos últimos que ele havia dado. Eu suspirei. Acho que sei o que ele estava querendo dizer. Eu mesma estou passando por isso.

Porque eu não estou apaixonada pelo James, mas eu gosto dele. Gosto daquele James.

E talvez eu deva fazer a mesma coisa que o Sirius está fazendo com a Lia. Talvez eu deva me afastar.

De novo, tentei encontrar palavras para terminar o namoro, mas a coragem foi toda embora quando meus olhos encontraram aquele par castanho-esverdeado. Eu esqueci que minutos atrás nós estávamos quase aos berros, esqueci que ele tem sérios problemas de mudança de humor, esqueci que devia me afastar dele e esqueci que ele era James Potter. Tudo o que eu queria era me perder naqueles olhos de novo, e de novo, e mais uma vez.

- James...

- O quê? – Ele não desviou os olhos dos meus. Apenas centímetros nos separavam e eu queria que ele se aproximasse o mais depressa possível. Queria que me beijasse, que me tocasse, mas ele não parecia disposto a tomar a iniciativa daquela vez.

Eu esperei, mas ele se manteve imóvel, apenas me encarando com expectativa. Ele queria que eu o beijasse e não o contrário.

- James...

- Lily...

Eu me aproximei um pouco mais, mas não o toquei. Não queria dar o braço a torcer, não queria admitir que a vontade estava me dominando, mas não sabia quanto tempo mais aguentaria.

Ele também se aproximou, de forma que nossos narizes se tocaram e um arrepio percorreu o meu corpo. Eu já estava perdendo a batalha, perdendo a razão. Estava quase me rendendo e entregando os pontos. Estendi a mão para tocá-lo, mas uma voz conhecida me tirou do transe e eu me levantei de súbito.

Alice estava descendo as escadas, com Maria, uma de nossas colegas de quarto.

- Lily! – Ela exclamou quando me viu. – Por onde você andou?

Seu olhar passou de mim para James e voltou para mim, fazendo um sorriso malicioso nascer em seu rosto.

- Não! – Me apressei a explicar, sem me dar conta de que James e Maria me olhavam. – Eu não estava com James, eu fui até a cabana do Hagrid, depois encontrei a Lia...

- Ah... – A expressão de Alice ficou desanimada. Acho que ela nunca vai superar o fato de eu não estar apaixonada pelo James.

- Amor – James se levantou, exibindo um sorriso estranho. –, me lembrei de uma coisa! Tenho uma surpresa pra você! Espere aqui!

Maria e Alice se sentaram em uma das poltronas, tão curiosas quanto eu. James subiu para o dormitório e voltou minutos depois, trazendo uma mochila e um monte de trapos nas mãos.

- O que é isso? – Perguntei quando ele colocou a mochila no chão e se aproximou de mim, segurando os trapos com uma delicadeza incrível.

- Isso, meu amor, é o treina-mamãe.

- Treina-o-quê?

- Treina-mamãe. – Ele sorriu ainda mais e me entregou os trapos. Quase desmaiei ao ver um bebê no meio daqueles panos. – A boneca que mais faz sucesso com as bruxas da América do Norte. Achei que ia gostar.

Olhei para ele espantada.

- É uma boneca?

Os traços eram tão perfeitos que seria impossível distingui-lo de um bebê de verdade. Toquei sua pele e percebi que era quente e macia, como um neném.

- Um boneco, na verdade. É um garoto. Você pode dar o nome que quiser, amor.

- Nome? Espera, James... me explica isso direito!

Ele suspirou e pegou a mochila do chão.

- Aqui dentro tem tudo o que você precisa pra cuidar dele. Ele agora é seu filho, ou pelo menos um treinamento de filho. Você precisa cuidar dele como se fosse de verdade.

Eu comecei a rir.

- James, como assim?

Senti algo se mexer em meus braços e vi que o bebê havia aberto os olhos e estava mexendo os bracinhos. Ele sorriu pra mim.

- Você tem que cuidar dele, Lily. Amamentar, dar banho, trocar a fralda. As garotas adoram!

- Mas... e as aulas? – Perguntei, assustada, sem desviar a atenção do boneco. Ele me olhava como se entendesse o que estava acontecendo e isso me deu muito medo.

- Ele foi programado para se auto-desligar durante as aulas, não se preocupe. Tem um carrinho de bebê dentro da mochila, você só precisa usar um feitiço para aumentá-lo. Pode levar para as aulas, ele vai ficar dormindo durante todo o tempo, não se preocupe. Assim que a aula acabar, ele acorda de novo. Não tem erro. – Desviei os olhos do bebê para encarar James, que parecia estar se divertindo muito. – E então, qual o nome do nosso filho?

Respirei fundo algumas vezes, pensando.

- Harry. – Foi o primeiro nome que me veio à cabeça.

- Harry. Harry James Potter – James sorriu para o bebê e depois para mim. – Bonito nome.

Alice tirou o bebê do meu colo e começou a mimá-lo. Maria também parecia ter adorado o boneco, mas eu ainda estava em estado de choque.

Afastei-me das garotas, puxando James comigo.

- Por quê?

- Por que o quê?

- Por que o boneco?

Ele riu e pensei que havia algo de cínico em sua voz, mas descartei a possibilidade. Ele não teria porque estar fazendo algo para me prejudicar.

- Queria fazer um agrado.

- Flores, bombons ou até mesmo um carinho teriam me agradado. – Comentei, olhando de relance para o bebê que ria no colo das minhas colegas de quarto.

- Não gostou? – Ele perguntou, mas não pareceu ficar desapontado.

- Não é isso, é só que... é estranho... ele parece tão... verdadeiro...

- Essa é a intenção, Lily. – Ele riu de novo. – Não se preocupe, você será uma ótima mãe. – Em seguida me deu um selinho rápido. – Boa noite. – E subiu para o dormitório me deixando sozinha com minhas colegas de quarto e meu filho-boneco.

Harry foi a sensação da noite no dormitório feminino, é claro. Ele passou de mão em mão, diversas vezes, sendo mimado, alimentado, trocado e banhado. Eu fui a única que não fiz nada com o meu filho. Somente observei de longe, tentando me acostumar com a ideia.

Porém, depois de brincarem bastante, o sono bateu e Harry foi entregue a mim para que minhas colegas fossem descansar. Como ele já estava dormindo, eu só precisei colocá-lo no berço aumentado ao lado de minha cama. E agora ele está lá, dormindo como um anjinho, enquanto eu estou aqui, contando as peripécias de mais um louco dia na vida de Lily Evans.

Somente eu para dormir no dormitório masculino numa noite e na outra dormir ao lado de um boneco que parece um bebê de verdade. O meu filho-boneco!

Só quero ver o que vai ser de mim amanhã. Definitivamente, eu não vou carregar esse boneco pelo castelo todo! Absolutamente não!

Droga! O bebê acordou e não para de chorar! O que eu faço?