7º Dia
- JAMES POTTER! – Foi tudo o que eu consegui dizer, com a maior raiva possível, hoje de manhã quando desci as escadas e o encontrei na sala comunal, rindo como se o mundo fosse uma grande piada.
- Lily, meu amor. – Ele sorriu largamente enquanto eu sentia cada célula do meu sangue ferver. – Onde está o Harry?
A pergunta, feita com uma naturalidade que me chocou, só serviu para aumentar ainda mais o meu mau humor. Afinal, quando ele me deu aquela coisa imprestável, ontem à noite, eu pensei que fosse um simples boneco, um pouco mais real do que os dos trouxas, mas que pudesse ser desligado na hora que a mamãe cansasse de brincar.
- AQUELA DROGA NÃO ME DEIXOU DORMIR NEM UM SEGUNDO ESSA NOITE! – Despejei em cima dele, consciente de que toda e qualquer criatura naquela sala estaria com um supremo medo de mim.
Imagine logo de manhã encontrar uma ruiva que não tem apenas os cabelos vermelhos, mas seu corpo todo ardendo de tanta raiva, despenteada e com profundas olheiras. Pelo menos eu vestia o uniforme de Hogwarts e não o meu pijama. Esse último fato eu devo agradecer à Alice que, depois de deixar muito claro o quanto estava mal-humorada por não ter pregado o olho a noite toda – como se a culpa fosse minha! –, me convenceu a me vestir antes de trucidar essa anta que é meu namorado.
- Calma, Lily...
- CALMA? COMO VOCÊ PODE ME PEDIR CALMA? VOCÊ QUER ME MATAR? – Eu respirei fundo, ignorando as risadas de Sirius, e tentei continuar sem gritar. O que foi impossível, claro. – COMO EU DESLIGO AQUELA COISA?
- Desligar?
- Como eu desligo aquela coisa, James? – Perguntei de novo, entre os dentes.
- Lily, não dá pra desligar... é um modelo muito próximo a um bebê original, a magia que tem dentro dele é muito avançada e...
- Ele vai viver pra sempre? – A possibilidade me assustou tanto que minha voz saiu fina demais para ser um grito.
- Não, não pra sempre. Ele tem um tempo útil de um ano. Depois de um ano, você pode programá-lo para viver durante mais um e assim por diante.
- EU VOU TER QUE ATURAR AQUILO DURANTE UM ANO?
- Você vai ter que cuidar dele durante um ano, Lily. Sim, é isso.
- NÃO! DEFINITIVAMENTE, NÃO! EU VOU TER QUE ME DESFAZER DAQUELA SANDICE IMEDIATAMENTE!
- Lily! – Ele parecia realmente magoado. – Você não tem consideração nenhuma? Aquilo é um presente meu e você vai se desfazer assim? Você não tem coração?
- E SE EU NÃO TIVER? – Respirei fundo de novo, tentando me acalmar. Foi quando ouvi um som muito conhecido vindo dos dormitórios femininos. – O que é isso agora?
- Não reconhece o choro do próprio filho? – Foi Sirius quem comentou, ironicamente, apenas para receber o olhar mais frio que eu tinha pra lhe dar.
Era mesmo o choro do maldito bebê, mas estava muito, muito mais alto do que o normal.
- Ele deve estar chorando há algum tempo.
- Você está dizendo... – Olhei para James, sem acreditar. – Que o choro dele vai ficar cada vez mais alto?
- Até que você faça o que ele quer, sim, Lily.
E ele respondia aquilo com a maior cara de pau! Ainda bem – pra ele, é claro – que eu não sou uma garota dada a violência, senão: era uma vez um garoto ridículo chamado James Potter!
Tentando controlar a raiva, fui obrigada a voltar para o dormitório feminino do sétimo ano antes que levasse uma detenção por poluição sonora.
Após amamentar o boneco irritante, sentei em minha cama para pôr as ideias em ordem. Não que eu não seja maternal ou coisa parecida, é claro que eu sou. Mas essa coisa ultrapassa todos os limites! Quando James disse que era um boneco que imita um bebê verdadeiro, não imaginei que pudesse ser uma imitação tão perfeita! Por Merlin! Quem, em sã consciência, iria querer perder seu precioso tempo cuidando de um boneco como se fosse um bebê de verdade? DE VERDADE!
Como se eu tivesse pouca coisa pra fazer! Estudos regulares do sétimo ano, preocupação com os NIEM's, monitoria e agora, de quebra, ter que aguentar o mala do Potter como meu namorado! Eu não tenho tempo pra brincar de mamãe e filhinho com um boneco irritante que parece mais cansativo do que um bebê de verdade!
"Eu queria ver – pensei na hora – se ele ia gostar tanto da ideia se fosse ele quem tivesse que cuidar desse monstrinho!"
Foi quando eu sorri. E não foi um sorriso de pura alegria ou um daqueles sorrisinhos tristes que a gente dá quando vê que a situação não tem solução nenhuma. Foi um sorriso maldoso. Um sorriso de vingança.
Afinal, um bebê tem mãe e pai, não é mesmo?
Sem deixar de sorrir por causa de minha genialidade, peguei Harry e sua mochilinha e voltei para a sala comunal.
Os marotos pararam de rir e falar assim que me aproximei. Desconfio que eu fosse o motivo das risadas, ou talvez meu sorriso maquiavélico estivesse ainda mais sinistro do que eu imaginava. Não sei ao certo.
- James, querido. – Fiquei em pé na sua frente e deixei a mochila no chão, empurrando o boneco para seus braços. – Harry estava com saudades do papai, não é mesmo, garotão? Bom garoto. Dê bom dia para o papai, meu amor. – Suspirei falsamente e encarei James com a expressão mais irônica que consegui. – James, está na hora de você cuidar um pouco do nosso filho, não acha? Preciso passar na biblioteca antes da primeira aula, não se esqueça de trocar a fraldinha dele, viu? Até mais, amores da minha vida.
Em seguida, me virei, satisfeita com minha saída espetacular, e pude ouvir a risada de Sirius antes de sair pela passagem do quadro.
Agora tudo o que eu precisava fazer era fugir de James e daquele boneco. Sinceramente, aquela coisa me dá medo!
Um boneco que se mexe igual a um bebê de verdade e te olha como se você fosse realmente a mãe dele não é algo que pareça uma simples brincadeira pra mim! Parece mais é artes das trevas, isso sim!
Mas se um dia eu encontrar o gênio que teve essa brilhante ideia, eu mato! Ah, eu mato!
Então, passei a manhã toda brincando de gato e rato com James. Sempre que ele se aproximava, com a pior expressão do mundo, devo ressaltar, eu dava uma desculpa e corria para longe.
Foi quando estava saindo da última aula da manhã, Runas Antigas, que as coisas começaram a mudar. Encontrei Liana e ela se aproximou assim que me viu, com uma expressão bastante confusa.
- Lily, eu estou ficando maluca ou o James está andando com um bebê pelo castelo?
- Você o viu? – Eu ri. – Bem feito! Deve estar passando pela pior experiência da vida dele! Um mico desses nem James Potter deve estar suportando! Bem feito! Quem mandou ele achar que eu sou idiota? Idiota é ele! Ele e aquele boneco ridículo! Ah, mas ele deve estar morrendo de raiva...
- Lily... – Ela me interrompeu, parecendo mais confusa do que antes. – Eu não diria que ele está com raiva ou passando pela pior experiência da vida dele, não... er... na verdade, ele parecia estar se divertindo bastante... acho que a popularidade dele nunca esteve tão alta...
- O QUÊ? – Parei de andar no mesmo instante, sentindo a raiva voltar com toda a força. – COMO ASSIM?
- Bom, ele estava rodeado de gente lá perto da biblioteca e parecia estar... gostando...
Se ela tinha mais alguma coisa pra dizer, eu não fiquei pra escutar. Rapidamente, peguei o caminho mais curto até a biblioteca a fim de tirar aquela história a limpo.
Quem James Potter pensa que é, afinal? EU NÃO DORMI A NOITE TODA! EU ESTOU CANSADA! EU ESTOU ESTRESSADA! TUDO POR CULPA DAQUELE INFELIZ!
E ELE ESTÁ SE DIVERTINDO?
O mundo não é justo, Merlin. O mundo não é justo.
No corredor da biblioteca, percebi que Liana tinha toda razão. James estava cercado de muitas – e quando eu digo muitas, é muitas mesmo – garotas.
Entre elas, senti minha raiva crescer com proporções incríveis, estava Aninia Jones. É claro.
- EU POSSO SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? – Sim, eu estava um pouquinho nervosa.
- Oi, amor. – James sorriu quando eu me aproximei. – Eu estava apresentando Harry a essas belas garotas e posso dizer que ele puxou ao pai, está fazendo um grande sucesso!
Todas as garotas deram risadinhas, mas eu apenas revirei os olhos.
- E você mencionou que essa coisa não é de verdade, James, querido? – Eu estava quase espumando e precisei me controlar para não pegar a varinha e azarar todos eles!
- Claro que ele disse. – Aninia Vaca Jones se meteu e recebeu um olhar profundamente gelado de mim que, infelizmente, não a abalou. – Eu a-do-rei! Quem me dera ganhar um presente como esse!
Sério, ela só pode ser doente mental!
- Viu, Lily? Não sei como você pode não gostar. As garotas amam! – James sorriu e eu tive vontade de arrancar cada dente daquela boca causando a maior dor possível!
- Elas não iriam gostar tanto se tivessem ficado acordadas a noite toda por causa do choro dessa coisa!
- Não pode ter sido tão ruim assim, Lily. – James falou como se eu estivesse sendo injusta! Eu estava sofrendo por causa daquela coisa e ele ainda usava aquele tom comigo?
- É. Você que não sabe cuidar direito de um bebezinho tão lindo. Aposto que se você fosse uma boa mãe, ele te deixaria dormir.
Certo, agora eu realmente precisava matar aquela vaca!
Saquei a varinha, fazendo com que as outras garotas se afastassem rapidamente, me lançando olhares de medo.
- É melhor tomar cuidado com o que diz. – Falei, entre os dentes.
Aninia me encarou, boquiaberta. Ela parecia realmente muito impressionada com a minha atitude. Não era pra menos, uma monitora-chefe ameaçando uma aluna. Essa escola está perdida.
Bom, uma escola que tem alguém como James Potter como monitor-chefe não pode ser considerada muito normal, de qualquer forma.
- James, é melhor eu ir. A gente se fala depois. – Ela trocou um olhar rápido com o meu namorado e foi embora.
- Vaca. – Murmurei, fuzilando suas costas com o olhar.
- Ela é uma garota muito legal, Lily. – James estava me censurando. Eu não podia acreditar! – Pelo menos ela não é mal-agradecida nem joga na cara dos outros o quanto odiou um presente que ganhou.
Não demonstrei, mas eu me senti um pouco mal. Certo, certo, eu me senti muito mal.
Afinal, ele me deu o boneco porque achou que eu ia gostar. Não deve ter passado pela cabeça dele que eu ficaria a noite toda acordada por causa daquela criatura nem que eu fosse achar uma total perda de tempo brincar de mamãe e filhinho. Mesmo eu já tendo 17 anos! Às vezes os garotos são meio idiotas, mas não é culpa deles, é a natureza.
Além do mais, algumas garotas, as completamente idiotas, como Aninia Jones, por exemplo, adorariam mesmo ganhar uma coisa daquelas.
Pela primeira vez, eu precisei admitir que a culpa não é do James. Ele não tem culpa de ter nascido homem e, portanto, com um cérebro deficiente.
- Eu não odiei. – Sim, eu odiei, mas aquela carinha de garoto magoado me fez mentir. – Mas eu tenho tanta coisa pra fazer, James, não tenho tempo pra cuidar dessa coisa!
- Essa coisa é como se fosse seu filho, Lily. – Dá pra entender os garotos? Ele estava mesmo chateado. Nunca achei que James Potter pudesse ser tão paternalista. – Mas você teima em se esquecer disso.
- Olha, eu adoraria brincar com essa... com o Harry, mas não agora. Quem sabe daqui a um ano ou dois? Você pode desligá-lo e depois nós o ligamos de volta?
- Não, não posso. – Ele estava irredutível. – Você vai ter que cuidar dele e vai ter que ser agora. – Ele me entregou o boneco e a mochila. – Boa sorte, Lily.
- JAMES! – Gritei quando ele se afastou. – JAMES, VOLTA AQUI! EU NÃO VOU FICAR PASSEANDO PELA ESCOLA COM ESSA COISA! JAMES!
Ele nem ao menos se virou.
- DROGA! – Olhei para o boneco e percebi que havia acordado. Aquela gritaria toda devia tê-lo tirado de seus lindos sonhos.
Bonecos sonham?
- O que eu vou fazer com você agora? – Eu já falo com cachorros, qual o problema de falar com um boneco? – Não é que eu não goste de você, ouviu? Você até que é... bonitinho... – Ele me olhou com uma cara estranha e fez careta. – Não! Por favor, não vá começar a chorar de novo!
Dito e feito, o boneco abriu o bocão e aquele choro irritante ecoou nas paredes do corredor quase deserto.
- Quietinho... shii... quietinho, bebê... dá pra ficar quieto? QUIETO!
James que me perdoasse, podia até não ser culpa dele, mas eu precisava me livrar daquele boneco.
- Será que se eu te afogar no lago, você pára de chorar?
Será que James ficaria muito brabo? Eu podia simular um acidente.
Maldita hora em que eu fui namorar um maldito maroto que tem uma mente insana de pensar que eu ia gostar daquele maldito boneco!
- Lily? – Liana me encontrou de novo quando eu estava a caminho do lago. – Parece que já achou o bebê... onde está o James?
- NÃO FALE O NOME DAQUELE INFELIZ PERTO DE MIM! – O bebê chorou ainda mais com meu grito.
- Vocês brigaram? Por quê?
- Isso não é resposta suficiente? – Apontei para o bebê e ela riu.
- Até que ele é bonitinho. – Não! Lia também, não! – O que vai fazer?
Ela deve ter percebido o brilho assassino no meu olhar porque parou de sorrir e me encarou com a testa franzida.
Se bem que assassino não deve ser o termo correto. Não se pode assassinar algo que nem ao menos é vivo, pode?
- Afogar essa criatura irritante no lago. – Eu respondi, tentando controlar a raiva que me consumia.
- Não! – Ela tirou o boneco dos meus braços, me forçando a parar. – James vai ficar furioso!
- ELE QUE SE EXPLODA! QUE SE AFOGUE NO LAGO JUNTO COM ESSA COISA DEMONÍACA!
Aquele choro estava me tirando do sério! Por que aquele maldito boneco não podia simplesmente calar a boca?
- Nossa, acho que você está um pouco estressada, amiga. – Ela tirou a mochila da minha mão também. – Precisa descansar um pouco. Eu vou cuidar do bebê pra você, ok? Vá descansar.
- O quê? – Não, ela não estava brincando. Ela ia mesmo cuidar daquele boneco pra mim! – Mas, Lia...
- Mas nada, Lily. Cuidar dele por um dia não vai me matar e você precisa de descanso. Deve ser muito ruim pra você, conciliar a monitoria, o estudo e ainda ter que cuidar disso... – Ela olhou para o bebê como se perguntasse por que alguém daria um presente daqueles a alguém que já tem tantos afazeres. Pelo menos ela me entende. Se James pensasse dessa forma também... – Só me prometa uma coisa...
- O que você quiser! – Eu poderia chorar de alegria! Lia é a melhor pessoa que pode existir na face da terra!
- Prometa que vai fazer as pazes com o James.
Mas é uma garota um pouco exigente também.
- Bom, por mim tudo bem, mas acho que é ele quem não vai querer falar comigo tão cedo.
Ela sorriu de uma forma tão marota que eu tive certeza, naquela hora, que ela é a garota perfeita para o Sirius. Sem dúvidas!
- Não se preocupe. Eu cuido de tudo.
- Mas...
- Não. Procure se divertir um pouco e deixe que eu cuido do resto.
- O que você...?
- Me encontre na frente do salão principal às seis.
Dizendo isso, Liana piscou e se virou para levar o boneco chorão para bem longe de mim.
De apenas uma das minhas aulas da tarde James participa, por isso quase não o vi a tarde toda. Ele fez questão de deixar bem claro que estava muito chateado comigo e não me dirigiu a palavra nenhuma vez na aula de Herbologia. Nem ao menos para perguntar do boneco.
Confesso que essa distância toda me deixou um pouco incomodada. Não que eu estivesse sentindo falta dele, mas aquela atitude infantil me magoou. Ele tinha que entender o meu lado! Podia muito bem tentar entender, ao menos. Mas parecia que ele não estava nem um pouco disposto a recuar. E eu só precisava continuar pensando numa forma de me livrar daquele boneco, afinal, Lia ia se cansar de cuidar dele uma hora, assim como eu cansei. E eu não queria ficar me aproveitando da boa vontade da minha amiga, é claro!
- Você pode ser testemunha de que o boneco caiu no lago acidentalmente. – Eu estava, pela milésima primeira vez, enchendo a paciência da Alice com o meu plano de afogar o meu "filho".
- Se isso não me deixar dormir essa noite, eu concordo. – Ela disse a mesma resposta nas outras mil vezes. Ainda estava mal-humorada por causa da noite de sono perdida.
- Eu podia tentar jogar ele na lareira também.
- Desde que eu possa dormir essa noite.
- Será que se o James vir eu jogando o boneco no lago, ele pula pra tentar salvar? Assim eu me livro de dois problemas ao mesmo tempo. – Pensei, tentando soar empolgada, mas falhando miseravelmente. Não sei por que, mas meu tom saiu mais para um lamento do que qualquer outra coisa.
- É mais fácil os dois saírem vivos, Lily. Ou você acha que o James não sabe nadar? Garanto que ele sabe e deve nadar muito bem. Além do mais, você não quer realmente se livrar do James. O boneco é bonitinho, mas terrivelmente irritante. Já o James...
- É lindo e ainda mais irritante.
Sim, eu o chamei de lindo. Mas é verdade, oras! Eu não tenho culpa se aquela criatura nasceu abençoada! Não é minha culpa!
- Eu tiraria o irritante e colocaria apaixonante, mas você insiste em fingir que não se sente abalada por ele.
- Eu não me sinto abalada por ninguém! – Me defendi.
- Se você diz...
Assim que alcançamos o último degrau, pudemos avistar Liana com o boneco no colo, esperando por mim na frente do salão principal.
- Lily, que bom que chegou! – Ela correu até mim assim que me viu.
- Obrigada por cuidar dele. – Fiz menção de pegar o boneco, mas ela o manteve firme nos braços.
- Eu vou ficar com ele mais um pouco. Lembra que eu disse que a ajudaria a se acertar com o James? – Senti meu rosto corar e os olhos de Alice em cima de mim. Eu sabia que não importaria o que eu falasse depois, aquilo, dito daquela forma por Liana, a fizera comprovar sua teoria de que eu estou apaixonada pelo James. – Vou ficar com o bebê enquanto vocês conversam.
- Não entendo por que vocês insistem em chamar essa coisa de bebê. – Reclamei, tentando mudar de assunto. – Lia, eu não vou me sentir bem se você continuar com ele. Já abusei demais de você.
- Eu posso ficar com ele. – Alice se meteu, parecendo mais mal-humorada que antes. Ela não queria realmente ficar com o boneco, mas estava fazendo isso por mim! Eu tenho ou não tenho as melhores amigas do mundo?
- Bom, então tudo bem. Obrigada. – Liana entregou o boneco e a mochila para uma Alice emburrada e se virou para mim. – Agora, nós. Está na hora de fazer você se acertar com o seu namorado. Vocês não podem ficar brigados!
- Certo, mas podemos fazer isso depois do jantar? Estou faminta!
- Não. Tem que ser agora. Vem comigo. – Lia saiu andando e eu precisei correr para acompanhá-la. Olhei para trás e vi Alice nos encarando, ainda emburrada.
- Obrigada, Lice! – Gritei, antes de começar a subir novamente as escadas, mas ela não respondeu, apenas continuou nos encarando com a expressão fechada.
No terceiro andar, Liana me levou para um corredor que nunca foi muito usado. Pelo menos não nos quase sete anos em que estudei aqui.
- O que estamos fazendo aqui?
- Você vai ver. – Ela me olhou, sorrindo de orelha a orelha, e me levou até a última sala de aula. – Não se preocupe, essa sala não é usada e ninguém vai aparecer pra atrapalhar vocês.
- Lia...
- Entre!
Respirando fundo, fiz o que ela mandou.
A sala estava incrível! Não parecia uma sala de aula, uma vez que não havia carteira alguma. Um grande sofá de couro branco com almofadas em vermelho estava em um canto. No canto oposto, uma mesa enorme, repleta de comidas e bebidas. No centro da sala, uma pequena mesa com toalha vermelha, dois pratos e duas taças. Havia pétalas de rosa vermelha por todo o chão, deixando o ambiente, iluminado por velas também vermelhas, com um aspecto bastante romântico. Uma música suave tocava ao fundo.
- Lia...
- Não precisa agradecer. – Ela sorriu e olhou para o relógio. – Agora eu preciso ir! Daqui a pouco ele chega! Boa sorte, Lily.
Assim que ela saiu, eu me joguei no sofá. Um jantar a luz de velas! Algo que eu sempre quis e tudo estava tão perfeito. Havia só um pequeno problema... eu nunca imaginei que teria um jantar como aquele com James Potter. E isso parecia estar terrivelmente errado.
James. Namoro. Jantar. Nada disso parecia fazer sentido.
Quando eu decidi seguir o plano de Sirius, não imaginei que poderia chegar a esse ponto, mas as coisas saíram do meu controle. Isso me deu medo.
Não que antes eu pudesse prever o que ia acontecer, mas ali eu me senti completamente à mercê do destino. Era como se eu não tivesse o poder de escolher o que fazer. Eu tinha apenas que lidar com a situação, mas não sabia como fazer isso. James nem ao menos deve gostar de mim! Não o suficiente. Assim como eu não gosto dele o suficiente.
Porque eu realmente não gosto. Lia está errada, Sirius está errado e Alice está errada. Eu não estou apaixonada por James Potter! Isso é impossível!
Não que seja ruim. É muito bom que eu não esteja apaixonada por ele. Porque eu sei que ele não está apaixonado por mim. Ele pode sentir atração, desejo, até mesmo carinho por mim, mas não está apaixonado. Nunca estará. James Potter não se apaixona e nenhuma garota sã se apaixona por James Potter. É muito simples.
- Lily? – A voz dele me fez pular, com a mão no coração e ofegando.
- James! Você me assustou!
Talvez fosse o ambiente ou talvez os pensamentos que eu estava tendo naquele momento, mas James me pareceu muito diferente quando o observei parado à porta.
Ele vestia o uniforme de Hogwarts, como sempre, com a gravata um pouco afrouxada e dois botões da blusa abertos. Os cabelos estavam bagunçados e ele estava com os óculos que sempre usa. Mas ele parecia diferente. De alguma forma, ele parecia diferente.
- O que está fazendo aqui? – Ele perguntou e eu juraria que estava tentando soar ríspido. Mas seu tom saiu tão baixo e rouco que me fez estremecer.
Eu não sabia o que Liana havia dito, por isso preferi ficar calada. Além do mais, eu estava muito ocupada tentando descobrir o que havia de diferente no James que entrara naquela sala.
Ele se aproximou e me entregou um bilhete.
"Me encontre na sala 315, no terceiro andar, às 6:15. Ass: Sua Lily."
- Não é minha letra. – Eu disse, parecendo idiota.
- Eu sei que não. Pensei que fosse alguma garota tentando me atrair pra um encontro.
Aquilo fez meu estômago queimar. Então ele só foi porque pensou que fosse outra garota que estivesse ali? Se soubesse que era mesmo eu, não teria ido?
- E você veio mesmo assim? E se fosse outra garota, o que ia fazer? – Eu sabia que meu tom parecia ser ciúme, mas era só curiosidade.
Estranhamente, ele não se gabou pelo meu aparente ciúme nem riu, como achei que fosse fazer, só me encarou com uma expressão confusa. Garotos.
- Se fosse outra garota, eu iria embora. Só fiquei curioso. – O pior é que ele parecia sincero. – Você fez tudo isso? – Ele olhou em volta e eu ri.
- Não. Não sei cozinhar muito bem.
Ele voltou a me encarar, ainda sem rir nem sorrir. Juro que nunca vou entender as mudanças de humor desse garoto. Ele não parecia bravo, mas também não parecia feliz. Confuso, talvez.
Seus olhos procuraram os meus e senti meu rosto esquentar. O clima em volta também pareceu mudar. Como se a sala estivesse repleta de energia estática. Tremi.
Ele estava tão perto que eu podia sentir o seu perfume. Era um cheiro bom, aconchegante, conhecido. Fez com que eu me lembrasse de uma cama quentinha e confortável e de um beijo dado depois de acordar, naquela mesma cama. Corei ainda mais. Ele deve ter percebido minha vergonha, porque sorriu.
- Eu nunca vou entender você, ruiva.
E me beijou.
Não sei se um dia eu vou me tornar imune aos beijos de James. Parece que, ao contrário do que deveria acontecer, a cada beijo a emoção aumenta e os efeitos colaterais se tornam mais fortes
E a cada beijo eu desejo menos que ele pare.
Havia uma grande variedade de comidas, como se estivéssemos jantando no salão principal com os outros, mas o mais importante é que tinha morangos. Uma enorme tigela cheinha de morangos. Se Lia sabe o quanto eu amo morangos, eu não sei, mas ela acertou em cheio!
Além da tigela de morangos, que eu tirei da mesa principal e levei para a pequena mesa de jantar para que ficasse mais perto de mim, havia também tortinhas de abóbora. Assim que as viu, James me encarou, desconfiado.
- Não me diga que essas tortinhas de abóbora têm pimenta, picles, cenoura, ou qualquer outra coisa que não seja abóbora!
- Se está se referindo às minhas tortinhas de abóbora com melão, recheados com rabanete e pimenta-do-reino... – Usei um tom de falsa censura, fazendo-o rir, e provei uma das tortinhas, apenas para ter certeza. – Não. Essas são apenas tortinhas de abóbora. Não se preocupe.
- Aquilo foi covardia, sabia? – Ele me censurou enquanto nos sentávamos à mesa de jantar, com nossos pratos cheios. – Você não gosta mesmo daquilo, gosta?
Por um momento, pensei em dizer a verdade. Toda a verdade. Mas eu não podia.
Ele nunca me perdoaria se soubesse o porquê de eu ter aceitado sair com ele, o porquê de eu ter aceitado namorá-lo, o porquê de eu ter agido de uma forma tão não-Lily naqueles dias.
Além de achar que eu ainda o estou namorando por aquele motivo, apesar de não estar fazendo nada para que ele termine comigo. Eu não sei se realmente quero que ele termine. Você não precisa amar uma pessoa para estar com ela, você precisa somente gostar da companhia dela.
E eu preciso admitir: eu estou gostando da companhia do James mais do que eu deveria.
Ele não é tão ruim quanto eu pensava. Na verdade, ele amadureceu um pouco no último ano. Acho que essa foi a real diferença que eu percebi no James que entrou naquela sala de aula. Ele parecia diferente porque estava diferente.
Ele continua sendo um pouco arrogante e convencido, é claro. Isso faz parte de sua personalidade e nunca mudará. Mas ele também é engraçado, simpático e inteligente.
E ainda tem o bônus de ser um dos garotos mais bonitos de Hogwarts. Por que, então, eu iria querer que ele terminasse comigo?
Talvez seja a convivência com Alice e Lia, mas estou começando a ver mais pontos positivos do que negativos em namorar James Potter.
Por isso, decidi continuar com a mentira, afinal, que motivo, além do real, eu teria para levar aquelas tortinhas horrorosas no piquenique?
- Claro que gosto! Não sei como você pode não gostar! – Algo no meu tom não pareceu ter saído muito convincente.
- Mesmo? Porque eu não gostei nem um pouco, mas é bom saber que você gosta tanto assim.
Tentei mudar de assunto.
- Elas são boas, mas não são nada se comparadas a essa comida! Isso está magnífico! – Dei uma grande garfada para comprovar minha opinião.
Ele riu e começou a comer também.
Conforme meu prato foi esvaziando, comecei a comer os morangos da tigela. Eu a havia posicionado de forma que ele não pudesse alcançar, deixando tudo pra mim.
- Ei! Assim não vai sobrar nenhum pra mim!- Ele reclamou, tentando pegar a tigela. Rimos.
- Foi namorar, perdeu o lugar! – Mostrei a língua de forma infantil, enquanto protegia os morangos.
Ele sacou a varinha e fez um deles flutuar até a sua mão.
- Ei! Assim não vale!
Para me vingar, peguei sua taça e virei o líquido num gole só. Mas eu havia esquecido que ele colocara uma bebida alcoólica e não o suco, como eu.
Ele riu da minha careta e fez a garrafa de bebida flutuar até nós e encher a taça novamente.
- Sem graça. – Murmurei, envergonhada.
Ele parou de rir e se levantou, me fitando com intensidade. Aproximou-se como se fosse me beijar, mas parou a alguns centímetros, fazendo meu coração saltar no peito.
- Feche os olhos. – Pediu, numa voz baixa e rouca.
Prontamente, eu o atendi.
Esperei alguns segundos, mas nada aconteceu. Ouvi-o rir e abri os olhos, confusa.
Ele havia pego a tigela e se afastado, e estava com duas varinhas na mão, a dele... e a minha.
- James Potter! Devolva os meus morangos!
Ele riu ainda mais.
- Vem pegar!
Eu me levantei. Tudo bem que, mesmo de pé, eu sou bem menor do que ele, mas queria parecer mais ameaçadora. Estendi uma mão, a outra na cintura, e o encarei.
- Meus morangos! Agora!
Ele olhou para meu rosto, percebendo que eu segurava o riso. Não, eu não estava com raiva. Na verdade, estava me divertindo muito. Foi como se, ao entrar naquela sala, eu tivesse entrado em um mundo paralelo, onde eu não precisava me preocupar com mais nada, a não ser com o que me faz bem.
E aquelas atitudes infantis, tanto as minhas quanto as dele, estavam me fazendo muito bem.
Percebi que ele também estava segurando o riso. Olhou para minha mão estendida, depois para a que estava na cintura, e novamente para o meu rosto. Olhou para a mesa e ergueu uma sobrancelha, dando um sorriso maroto.
Eu não fui rápida o bastante para perceber o que ele ia fazer antes que o fizesse. Quando dei por mim, estava com a mão cheia de ketchup.
Ao invés de brigar com ele, comecei a rir. Sabe-se lá o que deu em mim, mas aquilo era engraçado demais, divertido demais. Eu me sentia como uma criança espoleta.
Ele estava bem na minha frente, com as duas varinhas em uma mão, o ketchup na outra e a tigela de morangos pairando sobre nossas cabeças, alto demais para que eu pudesse alcançar.
Ainda rindo, estendi a mão suja e passei em seu rosto, fazendo-o rir também.
Em seguida, peguei o pote de mostarda de cima da mesa e apontei em sua direção.
- Devolva meus morangos ou sentirá a fúria da minha mostarda!
- Então é guerra o que você quer? – Ele fez a tigela flutuar até um canto da sala e guardou as duas varinhas em seu bolso, antes de me ameaçar com o ketchup.
Eu não liguei para os morangos desprotegidos. Aquela pequena guerra de comida era muito mais interessante.
Eu fugia dele, que jogava quantidades absurdas de molho em mim e quando me alcançava, era a minha vez de correr atrás dele para revidar. Parecíamos duas crianças bobas, brincando e se divertindo sem os pais por perto para colocar ordem no lugar.
Por fim, a sala ficou completamente suja de molho. Nem o sofá branquíssimo escapou. Na verdade, a cor que menos tinha naquele sofá era a branca.
Sentamos no chão mesmo, arfando e rindo. Nossas bochechas, escondidas por uma grossa camada de molho, certamente estavam bastante coradas, e os corações acelerados. A sensação era tão boa que eu nem ao menos me preocupei com o fato de que ainda teríamos que voltar para a torre da Grifinória.
Olhei para a direita e vi, há bons metros de mim, a tigela de morangos. Ela parecia muito mais apetitosa depois daquela guerra toda. Fiz menção de levantar para pegá-la, mas James me prendeu num abraço apertado.
- Eu quero os morangos. – Me debati, ainda rindo. Eu me sentia como no dia da minha bebedeira, não conseguia parar de sorrir, mas sem a sensação de tontura nem vendo tudo duplicado. Para ser sincera, assim foi muito melhor.
- O que você prefere? – Ele perguntou, num sussurro, em meu ouvido. – Eu ou os morangos?
- Os morangos. – Respondi, estremecendo e ainda sorrindo debilmente.
- Tem certeza? – Ele mordeu o lóbulo de minha orelha e eu agradeci por já estar sentada.
- Tenho. – Minha voz saiu num sussurro pouco convincente.
Claro que ele estava sendo injusto. Estava usando meus hormônios contra mim mesma. Porque o meu corpo é repleto de hormônios. Eu sou uma garota de 17 anos, oras! E o meu namorado não é um garoto de se jogar fora. Naquele momento eu realmente não estava preferindo os morangos, mas isso é resultado das circunstâncias. Porque, de forma geral, eu prefiro os morangos. Eu acho.
Ele tomou meu rosto entre as mãos e me beijou, apenas para se separar logo em seguida, rindo em meio a uma careta.
- Você está com gosto de ketchup.
- Ora! A culpa é sua! – Eu ri também, observando seu rosto e cabelos repletos de molho.
Ele se levantou e pegou a tigela de morangos e uma panela que mais tarde descobri estar cheia de chocolate derretido, além de alguns guardanapos.
Tentamos tirar o máximo de molho de nossos rostos e mãos, mas não pudemos fazer muito pelas vestes. Também não estávamos muito preocupados para nos esforçarmos.
James tirou a tigela de morangos de minha mão com a desculpa de que precisávamos saborear e não devorar a sobremesa. Deixei que ele mergulhasse um dos morangos no chocolate quente e aproximasse de minha boca, para que eu o saboreasse.
O gosto cítrico e gelado que eu tanto amo do morango sendo quebrado com delicadeza pelo doce chocolate quente me fez suspirar. Eu já havia comido algo parecido, mas o gosto não fora nem de longe tão bom quanto aquele. Talvez fosse o tipo de chocolate ou meus sentidos que pareciam estar muito mais aguçados, ou talvez fosse por James estar ali, parecendo gostar daquele momento tanto quanto eu.
Ali nenhum de nós tinha máscaras. Eu não era a falsa Lily de dias atrás e ele não era o estranho James que tinha se tornado. Era como se não houvesse nada entre nós, exceto cumplicidade.
E eu, impressionantemente, não me senti mal com isso. Eu estava feliz.
Ali eu descobri que eu e James podemos ser amigos, que gostamos da companhia um do outro e que existe uma espécie de atração entre nós, algo que, até o momento, eu não queria admitir.
E não se trata apenas de uma atração física, porque isso eu não acho estranho existir, pelo menos não da minha parte, James é mesmo muito atraente, mas existe outro tipo de atração. Como se quanto mais perto ficamos um do outro, mais queremos ficar.
Droga, o que eu estou pensando?
Estou falando como se eu gostasse mesmo dele, mas as coisas não são bem assim! Eu não posso nem vou me apaixonar por James Potter! Eu me recuso!
Mas, voltando ao jantar a dois antes que eu me arrependa do rumo que meus pensamentos estão tomando, eu e James comemos todos os morangos com chocolate, chegando a nos lambuzar.
- Parece até uma criança comendo. – Eu ri, limpando o chocolate da pele abaixo de seu lábio com o dedo e o lambendo.
Imediatamente, ele parou de sorrir e me encarou com aquele olhar profundo que faz meu estômago parecer feito de chumbo. A sala se encheu com aquela energia estática de novo e meu coração acelerou, assim como minha respiração.
Ele colocou uma mão em minha nuca e outra em minha cintura, deixando o restinho do chocolate derretido de lado, e me puxou para um beijo.
O gosto de morango com chocolate ainda estava em nossas bocas, deixando o beijo ainda mais irresistível. Meu corpo ardia sob suas mãos e as minhas se afundaram em seus cabelos negros, fazendo-o gemer.
Minha mente não conseguia processar nada além de nós. O modo como sua boca se encaixava perfeitamente na minha, seu corpo pressionando o meu como se quisesse transformá-los em um só, suas mãos em minhas costas, minha cintura, meus cabelos, seu corpo em minhas mãos.
O ar em volta ficou quente, quente demais para uma noite de início de inverno, mas o calor maior estava dentro. Debaixo de todas as roupas, sob a pele, parecendo irradiar do meu coração a cada pulsação. Pulsação, essa, que eu podia ouvir martelar com ferocidade, ecoar em minha cabeça. Tum Tum Tum.
Nos separamos para recuperar o fôlego, mas nenhum de nós dois queria perder o contato com a pele um do outro. Continuamos abraçados, abraçando, beijando cada parte de pele exposta que aparecia pela frente. Eu sentia seus lábios em minha orelha, meu pescoço, minha nuca, beijando, mordendo, lambendo, e queria retribuir todo aquele prazer, fazendo o mesmo. Não me importava com mais nada e não conseguia sentir vergonha nenhuma, era como se estivesse em outro mundo, outra dimensão, onde nada importasse, exceto nós e aquele momento mágico.
- Pontas? Cadê você? – A voz de Sirius me fez pular de susto e me afastar. Olhei para a porta, mas ela continuava fechada.
Aposto que se não estivesse tão zangado, James teria rido da minha reação. Ele tirou o espelho do bolso e resmungou.
- O que você quer, Almofadinhas?
- Onde foi que você se meteu? Esqueceu que tem...
- Eu sei... – Ele interrompeu rapidamente, empalidecendo e me lançando um olhar esquisito. Franzi a testa. – Eu sei o que tenho que fazer. Acontece que eu e a Lily acabamos perdendo um pouco a noção da hora.
Pela primeira vez desde que entrara na sala, olhei o relógio, espantada. Já havia se passado três horas? Mas não parecera tanto tempo assim!
- Ah! – A voz de Sirius soou espantada. – Ah! – Depois divertida. – Lily. – E então ele começou a rir. – Entendo.
Tentei ler a expressão de James, mas foi um esforço inútil. Ele estava tão concentrado, como se estivesse perdido em pensamentos, como se estivesse confuso, como se não soubesse o que fazer.
Bom, eu devia estar da mesma forma, mas aquilo me deixou extremamente curiosa.
- Talvez você deva ficar por aí então. – Algo na voz de Sirius me dizia que aquilo era um conselho. Espiei o reflexo no espelho e vi que ele tinha um sorriso diferente no rosto. Ele não estava debochando nem ironizando, ele achava mesmo que o certo seria James ficar.
- Não. Tenho que ir. Quero... – Ele me olhou de soslaio e suspirou. – Depois a gente conversa com calma, Almofadinhas.
Aquilo me irritou.
- Você quem sabe. Até depois, então.
- Por quê? – Perguntei quando ele guardou o espelho. – Não pode falar na minha frente? É algo que eu não posso saber? O que está escondendo de mim?
- Lily, é... complicado... mais do que você pode imaginar.
- O que é complicado? Por que não pode me contar?
- Você não entenderia.
- Tente!
Ele suspirou de novo, me olhando como se pedisse desculpas.
Bufei e fiquei de pé, começando a arrumar a bagunça.
- Deixa isso. – Ele pediu. – Eu peço para algum elfo vir arrumar depois.
- Não vou deixar que um elfo inocente tenha que limpar a bagunça que nós fizemos! E, você, trate de me ajudar!
Com outro suspiro, ele me entregou a minha varinha – tentei não ruborizar com a minha idiotice de tentar arrumar as coisas sem magia – e me ajudou a dar uma ordem na sala.
Depois de meia hora, estávamos voltando para a torre da Grifinória. Eu emburrada e ele pensativo. Cada um subiu para seu dormitório, a fim de tomar banho para tirar completamente os vestígios do molho.
Alice estava me esperando quando cheguei ao dormitório, com uma expressão que chegou a me dar medo. Ela me entregou o boneco e saiu, sem dizer uma única palavra.
- Pelo menos você está dormindo. – Suspirei, colocando-o no berço. – E esta noite é o seu pai quem vai cuidar de você. – Murmurei entre os dentes, com raiva. – Queira ele ou não!
Quando voltei para a sala comunal, James e Sirius conversavam com certa urgência em um canto. Suas vozes eram baixas demais, de modo que eu não podia ouvir nem uma palavra. Mesmo assim, me aproximei com uma postura ligeiramente arrogante e expressão fechada. Toda a magia que o jantar trouxera fora quebrada depois daquela conversa nem um pouco esclarecedora.
- Sua vez. – Foi a única coisa que eu disse antes de entregar o boneco para James.
Os dois me fitaram em silêncio e eu me senti terrivelmente mal. Eles estavam escondendo algo de mim. Eles não continuariam a conversar se eu permanecesse ali.
Eles não confiam em mim.
Tentando ignorar o nó que estava se formando em minha garganta, olhei em volta à procura dos outros dois marotos.
- Remus? Peter?
- Peter está no dormitório tentando terminar um trabalho de Herbologia. – James comentou, desanimado.
- E Remus deve estar na biblioteca. – Sirius disse, com um sorriso que me parecia malicioso, apesar de eu não entender a malícia.
Também não tive muito tempo de pensar nisso, a menção à biblioteca me fez lembrar que eu precisava entregar um livro e eu corri de volta para o dormitório, me enrolando nas palavras quando expliquei a eles onde estava indo.
Uma vez na biblioteca, resolvi fazer um dever de poções que eu vinha protelando há alguns dias. Procurei por Remus, mas ele não estava lá como os garotos achavam.
Quase duas horas depois, com o dever já pronto, resolvi que era hora de voltar. Eu precisava de uma cama. Além de me deixar de péssimo humor, cuidar daquele boneco a noite toda me deixou extremamente cansada. Como se eu precisasse de noites em claro depois que essa história toda começou. Se eu tive três boas noites de sono na semana toda, foi muito! É como se eu não dormisse bem há séculos!
Talvez por estar pensando em uma cama macia, quentinha e confortável, como a de James, e numa boa noite de sono nessa mesma cama, pensei que tivesse sentido o cheiro dele. Aquele cheiro bom e familiar, quase como se ele estivesse ali. E, preciso admitir, a sensação era muito boa.
Caminhando o mais rápido possível de volta para a torre da Grifinória – eu queria desesperadamente me deitar –, acabei encontrando Sirius.
Ele estava agarrado a uma garota no final de um corredor no quarto andar. Pelo jeito, não gostaria de ser incomodado e eu já estava me afastando quando ouvi o barulho de um tapa. Me virei e vi a garota em questão correr para longe, fumegando de raiva.
Tentando conter o riso, me aproximei dele.
- Qual foi a do tapa? – Perguntei, mordendo o lábio para não rir.
Ele fez um careta.
- Eu a chamei por outro nome.
Não consegui segurar o riso e comecei a gargalhar. Sério, ele estava com uma expressão muito engraçada. Foi impossível não rir! Quando me recuperei, vi que ele continuava fazendo careta.
- A chamou por outro nome, é? Que nome?
Ele resmungou alguma coisa e começou a andar. Eu o segui.
- Não interessa.
- Posso tentar adivinhar? – Coloquei os dedos indicadores em minhas têmporas e fechei os olhos, fingindo me concentrar. – Já sei! Que tal um que começa com Li e termina com Ana?
Ele resmungou de novo, mas não discordou.
- E qual é o nome dela? Não poderia ser algo como Eliana, Liliana, Liliane, Eliane, Liane...?
- Marion. – Ele respondeu à contragosto. Acho que só para que eu parasse de falar nomes parecidos com Liana.
- Ah! Marion, certo... é, não é muito parecido com Liana... na verdade, nada parecido. E você a chamou assim quantas vezes?
Se olhar matasse, sério, eu estaria enterrada nesse minuto.
- Isso importa?
- Mas é claro! Você pode se confundir no nome uma vez ou outra, mas quando isso se torna constante, bom, aí o problema é muito maior.
- Quão maior? – Tive que segurar o riso de novo.
- Digamos que da proporção de uma paixão não admitida.
Ele resmungou de novo.
- Não sei como o Pontas te aguenta, ruivinha impertinente.
- Quantas?
- Quantas o quê? – Ele me olhou como se eu fosse maluca. Oras, quantas o quê!
- Quantas vezes!
- Ah... não sei... acho que três... ou quatro...
- Hum... – Coloquei o dedo no queixo de maneira pensativa enquanto me esforçava para acompanhar o passo rápido dele. – Nada bom... nada bom... isso é muito preocupante, Sirius. Acho que deve ir falar com ela.
- Com a Marion? – Ele pareceu espantado com a ideia e eu revirei os olhos.
- Claro que não! Com a Lia! Você tem que falar com a Lia!
Então, foi ele quem começou a rir.
- Por quê? O que eu vou dizer? "Liana, eu chamei seu nome três vezes quando estava com outra garota. Legal, né?" Sem chance!
- Sirius, meu querido. – Segurei seu braço de forma a dar conforto. Eu sabia que a revelação que ia fazer iria chocá-lo muito e ele precisava de todo o apoio que eu pudesse oferecer. – Você está apaixonado. Quer você queira, quer não. Sinto muito, mas o único remédio para o seu mal é encarar o problema de frente e ir falar com ela. Mas saiba que eu estarei sempre aqui para apoiá-lo nesses momentos difíceis.
- Lá vem você! – Ele revirou os olhos. Será que ele pegou essa mania de mim? – Eu não estou apaixonado, ruiva insuportável, e para o bem da Lia é bom que ela fique o mais longe possível de mim.
- Como é?
- Eu já te falei isso, pimenta. Lia é uma garota legal. Tão legal que precisa ficar longe de mim! Entende isso!
- Não consigo, Sirius. Ela gosta de você, você gosta dela. Simples.
- Não é simples, Lily! Por Merlin! Essa garota precisa ficar longe de mim! Eu não quero fazê-la sofrer!
- Quem disse que você vai fazê-la sofrer?
Ele me olhou como se aquilo fosse óbvio e foi a minha vez de revirar os olhos. Como as pessoas conseguem complicar tanto uma situação tão simples?
- Eu ainda acho que você deve ir falar com ela. Não precisa contar da confusão de nomes. É só ir lá e... bem... puxar conversa... fale do tempo! Tem estado frio ultimamente, não? Só converse com ela, Sirius. Vai fazer bem pra vocês. Não estou dizendo pra agarrá-la num corredor deserto, só quero que vá falar com ela.
- Está bem, está bem. – Ele suspirou pesadamente e me deu um daqueles sorrisos maliciosos dos quais ele é famoso. – Talvez eu vá.
- Esse é o meu garoto! Bom garoto!
- Com uma condição. – O sorriso aumentou ainda mais.
- Claro que as coisas estavam boas demais para ser verdade. – Suspirei. – O quê?
- Admita.
Olhei-o interrogativamente por longos minutos.
- Admitir o quê?
Seu sorriso aumentou ainda mais! Por Merlin, dava pra contar quantos dentes ele tem na boca!
Certo, exagerei um pouco
- Que está loucamente apaixonada pelo meu querido amigo.
- Não, não. Remus é só meu amigo, Sirius.
Ele revirou os olhos e eu senti meu rosto esquentar. Não entendi o porquê da minha piada, simplesmente saiu. E eu não queria realmente falar de minha relação com James.
Bufei quando percebi que ele continuava me encarando, esperando uma resposta.
- Eu não estou apaixonada. Ele é, bem, melhor do que eu imaginava. Confesso que eu era um pouco injusta com ele, às vezes. Mas isso não significa que eu goste dele.
- Certo. Vamos supor que eu acredite em você. O que pretende fazer de agora em diante, então?
- Como assim?
- Oras, pimentinha. Você voltou com ele. Não precisava ter feito isso. Isso quer dizer alguma coisa, não?
- Claro que precisava! – Eu não podia deixar que Sirius achasse que eu estou apaixonada por James. Porque eu, definitivamente, não estou. Então, disse a primeira coisa que me veio à cabeça. – Ele pediu pra voltar, Sirius, entende isso? Eu não podia rejeitá-lo! Além de estragar todo o disfarce, ia ferir o ego dele e o plano teria sido completamente em vão! Não ache que eu estou gostando de ficar com James Potter! É puro fingimento! Isso precisa dar certo, Sirius! O plano precisa dar certo!
Ele fez uma careta horrível e eu me senti mal. Foi como se um frio súbito e inexplicável tivesse me atingido e toda aquela sensação de conforto e segurança foi embora. Tudo bem, eu não estava sendo completamente sincera, mas eu também não podia dizer a verdade pra ele. Afinal, nem eu sei qual é a verdade!
Não voltei com James por causa do plano. Eu nem estou mais ligando para aquele plano idiota. Eu estou apenas tentando ser uma garota normal, o que está se mostrando bastante difícil. Eu voltei com ele porque eu estava me sentindo mal pelo plano e por tê-lo enganado.
Bom, de qualquer forma, Sirius não entenderia. Não mesmo! Ele faria exatamente como Alice, ele diria que eu sou uma apaixonada em fase de negação. O que eu não sou!
Eu não estou apaixonada por James Potter. Eu não posso me apaixonar por ele.
- Não dá pra entender você... – Ele murmurou, desviando o olhar do meu rosto.
- Só há uma pessoa apaixonada por aqui, Sirius, e essa pessoa é você. Você está complicando demais as coisas! Vá falar com ela!
Ele estava pronto para me dar uma resposta e eu tinha certeza de que essa resposta viria com as palavras "você", "apaixonada" e "Pontas" quando viramos num corredor e nos deparamos com uma cena que chocou a nós dois.
Não, não era James. Era Lia. E ela estava abraçada a outro garoto de forma bastante, digamos, íntima.
Eles não estavam se agarrando. Tampouco se beijando ou coisa parecida. Estavam apenas abraçados, mas era um abraço suspeito. Não era o tipo de abraço que eu daria em Sirius, por exemplo. A não ser que eu estivesse chorando e ele me confortando, mas Lia não estava chorando. Ela estava murmurando algo no ouvido do garoto e sorrindo. Eu não podia ver a expressão dele, já que seu rosto estava enfiado nos cabelos longos e castanhos dela.
Qualquer um que visse a cena pensaria a mesma coisa. Não eram simples amigos se abraçando.
E Sirius, é claro, pensou exatamente isso. Ao menos, eu acho que foi. Não haveria outra explicação para ele ter passado pelo casal com passos pesados e expressão fechada, sem dizer uma única palavra, e desaparecer no final do corredor.
- Sirius... – Pude ouvir Lia murmurar, assustada, e o garoto que a abraçava se afastou um pouco.
- Acho que ele não gostou muito do que viu. – Eu comentei, fazendo com que eles me notassem, e me aproximei. Tentei deixar claro o desgosto em minha voz. Afinal, ela havia me dito que gostava de Sirius e agora estava ali, num corredor deserto, abraçada com outro!
- Lily! – Ela exclamou e sua expressão era de dar dó. Minha raiva sumiu de imediato. – O que está fazendo aqui? Ele...?
Quando o garoto se virou, pude ver seus olhos inchados e vermelhos. Ele estivera chorando. Mas o que mais me chocou foi que ele parecia muito mais novo do que ela. Na verdade, só tinha tamanho. Seu rosto era completamente infantil e não havia sinal de pelos na face.
É, talvez eu tivesse interpretado a cena da maneira errada.
- Desculpa... – Murmurei ao ver o garoto enxugar o rosto e se virar novamente, meio que tentando se esconder. – É melhor eu ir... depois a gente se fala, Lia...
- Não. – O garoto falou e sua voz era fina demais para alguém tão grande. Sério, ele deve medir 1,70 no mínimo! E era tão forte! Tirando seu rosto infantil e sua voz, facilmente passaria por um garoto de 20 anos. – Eu tenho mesmo que ir.
Liana o abraçou novamente e beijou seu rosto.
- Vai ficar tudo bem, meu amor. Pode me procurar a qualquer hora, ouviu? E não ligue pra esses idiotas.
O garoto choroso assentiu e saiu sem me olhar de novo.
- Meu irmão. – Lia explicou com um suspiro. – Ele está com problemas de adaptação.
- Seu irmão? – Bom, isso explicava o "meu amor", mas ainda assim era estranho.
- É. – Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Acho que estava decidindo o que me contaria. – Os garotos não estão sendo muito legais com ele, sabe como é, por causa da altura. Ele veio pra Hogwarts esse ano.
- Ele tem onze anos? – Eu estava boquiaberta. O garoto tinha sim uma voz bastante fina e um rosto totalmente infantil, mas seu corpo era de um adulto!
- Tem. Eu sei que parece estranho. Na verdade, foi um... acidente... – Ela suspirou de novo e percebi que seus olhos lacrimejavam. – Quando ele tinha dois anos... meu pai estava trabalhando em uma poção e Jack acabou bebendo, acidentalmente. Depois disso, começou a crescer com uma velocidade absurda. Ele ficou internado no St. Mungus durante oito anos, pelo menos os curandeiros conseguiram fazê-lo parar de crescer.
- Não tem como fazer com que ele... sei lá... diminua um pouco?
- Os curandeiros acharam melhor não. Daqui uns cinco ou seis anos, ele não vai mais precisar se preocupar com isso. Só precisa aguentar as piadinhas e gozações até lá. Mesmo sendo grande, ele é muito... emotivo... – Ela olhou em volta, mas não havia mais ninguém no corredor. – Você viu como ele estava abalado. Ele detesta o corpo, se acha diferente, feio, deslocado. Eu me sinto muito mal... antes de vir pra cá, ele não saía de casa por causa da vergonha e antes disso ele esteve internado durante um tempo muito grande. E agora ele precisa conviver com todos aqueles garotos e garotas normais... e precisa andar pelo castelo...
- Puxa, Lia, eu sinto tanto. – Eu a abracei e a senti chorar em meu ombro. Ver aquele sofrimento de irmã me fez lembrar-me de Petúnia e da época em que ainda nos dávamos bem. Às vezes, é como se eu não tivesse mais uma irmã. E isso é muito doloroso.
- Eu só espero que ele encontre alguns amigos. – Ela disse quando se separou. – Esse problema o deixou muito tímido e introspectivo. Ele não deixa que as pessoas se aproximem, acha que ninguém vai gostar dele de verdade.
- Isso é horrível. Não tem nada que a gente possa fazer? Quem sabe se o convidássemos pra sair com a gente um dia desses? Podemos mostrar que ele não precisa ter vergonha de ser diferente. Ele pode ter amigos e não só os amigos da irmã, mas seus próprios amigos, amigos da sua idade.
Seus olhos brilharam e sua boca se abriu em um lindo sorriso.
- Puxa, Lily! Você faria isso? Jura que faria?
- Claro que sim! E não só eu, mas James, Sirius, Remus, Peter, e podemos chamar Alice também. Tenho certeza de que todos eles vão concordar!
- Você é demais! – Ela me abraçou de novo, dessa vez rindo tanto que fui obrigada a rir também. – Obrigada, Lily! Muito obrigada!
- Agora, eu só preciso falar com Sirius. Ele não ficou nada feliz de te ver abraçada com outro. Também não o condeno, coitado! Ninguém poderia imaginar que aquele homem era seu irmãozinho!
- Ele ficou com ciúmes? – Ela mordeu o lábio, os olhos brilhando de felicidade.
- Morrendo. Pior que eu já o estava convencendo de ir falar com você. Toda a minha saliva foi em vão.
Ela riu e me abraçou de novo.
- Lily Evans, você é demais, sabia?
Bom, pelo menos não sou mais um monstro.
- Você é ainda melhor, Lia, e sabe disso. Aquele jantar estava maravilhoso.
Os olhos dela brilharam ainda mais.
- Então vocês se acertaram? Deu certo?
Sim, dera certo. Até antes de eu descobrir que ele não confia em mim e que está me escondendo alguma coisa.
- Mais ou menos.
O sorriso desapareceu e seus olhos expressavam preocupação.
- O que aconteceu?
- Eu acho... acho que ele está me escondendo alguma coisa...
Ela ficou pensativa por alguns segundos e depois sorriu.
- Lily... – Ela revirou os olhos antes de me encarar com uma sobrancelha erguida. – Já parou pra pensar que ele pode estar escondendo algo de você... porque quer fazer uma surpresa?
Franzi a testa, considerando.
- Você acha?
- É possível. Não fique tão chateada com isso, amiga.
Eu sorri. Na verdade, duvidava que ela estivesse certa, mas não queria que se preocupasse com os meus problemas. Lia tem suas próprias preocupações e eu me sentiria muito mal se abusasse de sua generosidade.
Quando voltei para a torre a Grifinória, me sentia muito mais alegre. A conversa com Lia me havia feito muito bem. É uma pena que a felicidade costume durar tão pouco tempo pra mim.
Sentado num canto da sala, Peter comia uma barra de chocolate enquanto balançava um carrinho de bebê.
- Cadê o James? – Perguntei e garanto que não foi uma pergunta educada. Onde estaria aquele imprestável que deveria estar cuidando do boneco tão imprestável quanto ele?
Ele me fez passar a noite toda acordada por causa do maldito bebê, então precisa sofrer também! Ignorei a parte do meu cérebro que me dizia que eu não estaria assim se não fosse por aquela conversa de James e Sirius pelo espelho. Eu não queria me lembrar de como as coisas estavam ótimas antes de eu descobrir que James não confia em mim de verdade.
Mas Peter somente deu de ombros, me fazendo grunhir.
- Ele te deixou com essa coisa e saiu? E os outros? Remus? Sirius?
- Aluado saiu com a... – Ele arregalou os olhos e ficou vermelho como um pimentão.
- Com quem? – Minha curiosidade foi maior do que a minha raiva. Remus namorando? – Quem, Peter?
- Uma garota.
- Que garota?
- Uma.
- QUEM?
- Eu... eu não sei...
Certo. Claro que ele sabia. Mas eu resolvi não azucrinar o pobrezinho. Se Remus não quer que os outros saibam que ele está namorando, não sou eu quem vai discutir. É um direito dele e eu não tenho nada a ver com isso.
Mas que eu fiquei com muita curiosidade, isso eu fiquei!
- E Sirius?
- Ele saiu pra encontrar uma garota também.
Bom, a garota em questão deveria ser a tal Marion. Sendo assim, ele ainda não havia voltado para a torre. Eu teria que conversar com ele depois.
- E James?
- Ele foi a... – De novo ele arregalou os olhos, percebendo que quase falara demais. – Ele saiu. Disse que não tem hora pra voltar.
- Não tem hora pra voltar. – Repeti, sentindo o sangue ferver. – E você ficou encarregado de cuidar disso?
Apontei para o boneco que dormia no carrinho e ele fez uma careta.
- É.
Eu estava com pena do garoto. Peter não merecia aquele carma. Mas eu também não mereço e não quero passar a noite em claro novamente.
- Então, boa sorte!
E saí dali antes que me arrependesse de tamanho egoísmo de minha parte
Assim que entrei no dormitório, a conversa cessou. Pude ver, pelos olhares das garotas, que o assunto era apenas um: eu!
- Tudo bem? – Perguntei, sentando ao lado de Alice. Pensei que elas pudessem apenas estar com medo de aquele boneco ter de passar a noite no nosso dormitório de novo, mas elas não pararam de me olhar de forma estranha mesmo depois de verem que eu não estava com ele.
Alice nem olhou para mim.
- O que aconteceu? – Fiquei ainda mais alarmada quando ninguém me respondeu. Por céus! Eu esperava isso das outras garotas, mas não de Alice! Ela sempre tem algo a dizer! Ela sempre fala! – Vocês estão me deixando nervosa!
- É que a notícia pode ser bem desagradável. – Maria comentou, mordendo o lábio. Olhei para Alice, esperando a explosão de palavras que não veio.
- Por Merlin! Digam logo! O que foi que aconteceu!
- É que... bom, há boatos...
- Boatos de quê?
- De que você... de que James... ele e Aninia Jones...
Certo, o mundo parecia ter caído sobre a minha cabeça, perfurado o meu estômago e estraçalhado o meu coração. Eu não queria pensar nessa possibilidade. Está bem, eu não gosto dele, mas ele ainda é meu namorado e eu exijo respeito! Se ele está comigo, ele está comigo!
- O que têm eles?
- Eles foram vistos juntos várias vezes essa semana e hoje também... antes de... desaparecerem.
- Desaparecerem? – Eu ri. James estivera comigo até às oito e meia, então estava "desaparecido" há menos de três horas. Essas garotas não têm mais nada pra fazer, a não ser bisbilhotar a vida alheia? Parecem mais um bando de velhas fofoqueiras! – Como assim desaparecerem? Vocês revistaram o castelo inteiro, por acaso? Eles ainda estão aqui dentro, no máximo podem estar em Hogsmead. Eles não desapareceram! E podem nem estar juntos! Por que tudo isso?
- Está certo, eles podem estar no castelo, mas não acha que é muita coincidência? E eles estavam juntos! E pareciam muito... íntimos... os boatos... as pessoas não param de falar sobre isso... é só o que se escuta... principalmente... das amigas dela...
Alice ficara quieta durante todo o tempo, o que é muito estranho. Ela nem ao menos me encarou com aqueles olhos grandes e expressivos. Ela deve estar chocada com a possibilidade de James estar me traindo, principalmente agora que ela tem certeza absoluta de que eu estou apaixonada por ele. O que, preciso deixar bem claro, eu não estou!
- Certo. Eles foram vistos juntos, eles têm estado bastante íntimos ultimamente, os dois não são vistos há mais de duas horas e existe a possibilidade de estarem juntos, fazendo o que não devem. Ótimo! – Eu me levantei e encarei-as com a expressão mais serena que podia fazer. – Querem saber de uma coisa? Eu não me importo! Confio no James e sei que ele não está me traindo. E se eu fosse vocês, pararia de fazer fofoca e alimentar esses boatos ridículos e dedicaria meu tempo estudando para os NIEM's.
Entrei no banheiro de cabeça erguida, tentando transparecer uma calma que eu não sentia. Dentro de mim, as palavras de Maria ecoavam e a possibilidade me abalava. Eu queria acreditar em minhas próprias palavras, mas o que elas pensavam fazia muito mais sentido.
Tentando tirar essas dúvidas da cabeça, tomei outro banho, tentando relaxar um pouco com a água quente, e me preparei para dormir. Quando saí do banheiro, as garotas já haviam deitado e, apesar de eu saber que ainda estavam acordadas, não fizeram nenhum barulho quando me deitei para escrever aqui.
Agora só me resta descansar e tentar não pensar nos problemas.
Algo que é muito difícil. As palavras de Maria se misturam à conversa do espelho entre Sirius e James e me fazem pensar que a possibilidade é ainda maior do que eu quero acreditar que seja.
Mas se elas estiverem certas, se James estiver mesmo me traindo, bom, então eu serei obrigada a terminar tudo com ele.
E talvez essa seja, realmente, a melhor solução.
