8º Dia
É muito bom acordar depois de uma boa noite de sono, principalmente no sábado. Sem choros de bebê, sem frio e sem desconforto. Tudo bem que os últimos dois fatores foram porque eu literalmente desmaiei de cansaço.
Mas não é nada bom acordar e encontrar três garotas te encarando como se você fosse uma assassina e sua melhor amiga nem olhando na sua cara.
- O que houve? – Eu perguntei, ainda sonolenta.
Certo, eu havia chamado minhas colegas de quarto de fofoqueiras que não ligam para os NIEM's na noite anterior, mas isso não era motivo para tanto mau humor.
- Por sua culpa nenhuma de nós foi convidada! – Milena respondeu. Em quase sete anos de convivência ela me dirigiu algumas poucas palavras, o que me deixou ainda mais desconfortável com a situação. Maria e Laís sempre foram mais receptivas e Alice minha melhor amiga. Nenhuma das três, entretanto, parecia muito disposta a conversar comigo naquele momento.
- Convidada? – Todas já estavam vestidas e só então olhei o relógio. Eram quase dez horas da manhã. – Pra quê?
- Pra festa! – Ela explicou com raiva. – Eles sabiam que se nos convidassem, íamos contar pra você! Mas que se dane! Eu vou contar de qualquer jeito!
Minha cabeça ainda estava meio confusa. Eu havia acabado de acordar e já me deparava com uma história tão pouco explicada!
- Espera... como é? Festa? Que festa?
- Seu namorado – Ela fez questão de frisar muito bem a palavra namorado, fazendo com que o meu estômago desse um solavanco estranho. – e os amigos dele resolveram fazer uma festinha ontem à noite, sabia?
- Como é que é? Os marotos fizeram uma festa? Como assim?
- Eles convidaram todos os quintos, sextos e sétimos anos, com exceção da Sonserina, claro. – Ela revirou os olhos, desaprovando a ideia. Eu teria feito o mesmo se não estivesse tão abismada. – Mas, por incrível que pareça, esqueceram-se de convidar as garotas do sétimo ano de sua própria casa. Parece que o James se esqueceu da própria namorada...
- Eu soube que a Aninia estava lá. – Maria comentou, não com raiva, como Milena, mas com preocupação e mágoa.
- Espera um pouco! – Minha mente estava demorando pra processar a informação. Marotos, festa, Aninia... como assim? – Por quê?
- Por que o quê?
- Por que eles não avisaram da festa? Eles não podem ter esquecido!
- Talvez o seu namorado não quisesse que você estivesse lá. Afinal de contas, a Aninia estava lá. – Milena deu um sorriso cínico e eu precisei me segurar pra não avançar em cima dela.
Numa coisa ela tinha razão, afinal. James não queria que eu fosse.
- Ele é idiota por acaso? – Desabafei. – Achou que eu não ia descobrir? Que ninguém ia comentar?
- Talvez ele nem se importe.
Não dei ouvidos a ela e saí do dormitório num passo rápido. Maria me alcançou pouco depois de eu passar da porta.
- Acho que você não vai conseguir falar com ele agora, Lily. É melhor entrar e se trocar.
- EU NÃO ESTOU NEM AÍ SE ELE ESTÁ NO DÉCIMO TERCEIRO SONO! VOU ACORDÁ-LO COM UM BALDE D'ÁGUA SE FOR PRECISO!
- Não foi isso o que eu quis dizer. – Ela tentou apaziguar, mas deu alguns passos para trás por causa da minha reação. Tentei controlar a respiração e escutar o que ela tinha para dizer. – Ele está em detenção.
- Detenção? – Não pude evitar o sorriso que nasceu em meu rosto. Por mais que uma detenção fosse pouco, já era alguma coisa. – Quer dizer que a festinha não foi tão boa assim. Há! Bem feito!
- Não, não... não é por causa da festa. Foi por causa da confusão na segunda-feira... quando a McGonagall o encontrou dormindo no salão comunal.
Ah, claro. A detenção que ele levou por minha causa. Em outras circunstancias eu teria sentido pena dele, mas não naquela hora. Ele merecia algo muito, muito pior.
- É verdade. Você não vai encontrá-lo até a hora do almoço. – Laís apareceu na porta, insegura.
- Certo, certo. – Voltei para o quarto. Faltavam duas horas para o almoço e eu ainda estava de pijama. Estranhei o fato de Alice nem ao menos ter tentado me impedir. Ela continuava desviando do meu olhar, fingindo que eu não estava ali. Desejei que as outras garotas descessem logo para que eu pudesse conversar com a minha amiga.
Mas quando saí do banheiro, depois de me trocar, não havia mais ninguém no quarto. Milena, Maria, Laís e Alice haviam me deixado ali sozinha. Todas. Até Alice.
No momento em que percebi isso, senti como se o mundo tivesse caído sobre minha cabeça. Já era muito difícil lidar com aquela possível traição de James, mas eu sabia que Alice estaria do meu lado, dando seu ombro amigo como sempre fizera. Tudo terminaria bem. Só que ela não estava. Por algum motivo, Alice também havia me abandonado e eu me vi mais sozinha do que nunca.
Demorei algum tempo para descer para a sala comunal. No fundo eu ainda tinha esperanças de que Alice aparecesse para que pudéssemos conversar. Eu não estava entendendo aquela atitude.
Mesmo gostando de festas, eu sabia que ela ficaria do meu lado numa situação dessas. Então, lembrei que antes mesmo de qualquer festa ter sido feita, ela já estava agindo de uma forma estranha. No começo pensei que pudesse ser por causa do boneco, mas descartei essa hipótese. Eu conheço minha amiga bem o suficiente para saber que é outra coisa que a está afastando de mim. Mas o quê?
Não havia sinal dos outros marotos em lugar algum. Eu suspeitava de que talvez estivessem dando um jeito de tirar o amigo da detenção. Não que a palavra detenção signifique algo para aqueles garotos além de irritar o professor que a estiver aplicando. Não adianta quantas detenções foram e ainda serão dadas, apenas uma coisa é certa: eles não vão mudar.
E como Alice também estava me evitando, só me restou seguir para a cozinha sozinha.
Já não havia mais nada no salão principal e o almoço ainda demoraria uma hora para ser servido. E eu estava com fome demais para esperar uma hora.
Foi uma triste manhã. Por mais que os elfos tentassem me satisfazer de qualquer forma, eu me senti completamente solitária. Alice não estava ali para encher meus ouvidos com as mais variadas baboseiras. Sirius e sua ironia contagiante também haviam sumido. Remus não estava por perto para discutir sobre qualquer coisa interessante e útil. Nem mesmo Peter estava por ali para me acompanhar no delicioso café da manhã. E ainda havia Liana, com quem eu adoro conversar, seja qual for o assunto.
Mas, principalmente, não havia um James Potter incrivelmente idiota e irritante com quem eu pudesse brigar.
Eu estava com muita raiva, e não apenas por causa da festa. Estava com raiva de tudo. Raiva da forma como ele vem agindo ultimamente, raiva da Aninia Jones que parecia não desgrudar mais do meu namorado e mais raiva do próprio, que parecia estar gostando mais do que devia da situação. Raiva do boneco que, graças a Merlin, estava sumido como todos os outros, raiva das fofoqueiras do colégio que parecem achar o meu nome muito divertido de ser citado nas conversas, e muita, muita raiva das constantes mudanças de humor do James, que me deixam cada vez mais confusa.
Mas estava com ainda mais raiva de mim mesma. Por ter me colocado numa situação tão complicada, por ter dado ouvidos ao plano ridículo do Sirius, por ter dado continuidade ao plano quando ele foi interrompido, por ter mentido, por ter enganado, por estar começando a gostar da companhia de James, por mesmo estando com raiva dele, sentir saudades.
- Eu devo estar ficando maluca. – Murmurei, numa lamúria. Não havia mais como esconder, mesmo com todos os defeitos, Potter me conquistou, como conquista todos. Eu gosto de estar com ele, gosto de conversar, rir e até mesmo brigar com ele, gosto do seu cheiro, do seu beijo, do seu toque.
Levantei abruptamente. Aquele era um terreno muito perigoso até mesmo de se pensar. Certo, eu gosto do James, assim como gosto do Sirius, do Remus, da Alice. Apenas uma amizade.
- Apenas amizade. – Repeti em voz alta, só para me certificar de que havia entendido. Claro que a sensação era diferente, afinal ele é, tecnicamente, meu namorado. Então é normal, não?
Eu achava que sim. Ou, pelo menos, queria achar.
Quando a hora do almoço chegou, eu havia acabado de comer, então decidi não almoçar.
Tentei não dar ouvido às conversas a minha volta, parecia que o assunto do dia era a festa dos marotos daquela noite e eu não queria pensar nisso antes de falar com James.
Voltei para a sala comunal e peguei um livro. Todos estavam no salão principal, almoçando, então eu teria a torre só pra mim durante uns bons minutos.
Ou assim eu pensava.
Um estrondo veio dos dormitórios masculinos. Pareceu-me que alguém estava destruindo a mobília de Hogwarts e, como monitora-chefe, eu precisava averiguar.
Além do que, imaginei que um pouco de emoção pudesse ocupar melhor minha mente e fazê-la parar de pensar em James a cada minuto.
Só percebi meu grande engano quando parei à porta do dormitório do sétimo ano e reconheci as vozes. Eram Sirius e James que estavam discutindo. A porta estava fechada, de modo que eles não podiam me ver, mas falavam tão alto que eu podia ouvir claramente cada palavra.
- Eu estava lá, Almofadinhas! Eu ouvi tudo! CADA MALDITA PALAVRA! Eu estava prestes a desistir dessa droga, mas aí...
Outro estrondo. Sinceramente, acho que nunca vi, ou melhor, ouvi James Potter tão furioso.
- Ela pediu, Almofadinhas. Ela pediu e vai ter o que merece.
- E você vai ficar incrivelmente feliz com isso. – O tom de Sirius saiu tão irônico que eu até consegui imaginar o sorriso cínico que ele devia estar fazendo.
- Não. Mas vou ficar muito satisfeito!
- Claro. E depois?
Um silêncio angustiante se seguiu antes que outra coisa fosse quebrada.
- DROGA!
- Exatamente. – A voz de Sirius era calma, contrastando com a de James. Isso me deixou ainda mais intrigada. É Sirius quem costuma ser impaciente. – Então, que tal esquecer tudo isso?
- ESQUECER?
- É, você sabe, esquecer, não lembrar, virar a página, deixar pra trás. Entendeu?
Outro estrondo. Fiquei imaginando o que poderia ter deixado James tão furioso. Por que eles não podia simplesmente citar nomes? Ela? Ela quem? Eu? Aninia? Outra garota?
- FICOU MALUCO?
Eu não pude ouvir o suspiro de Sirius, mas posso jurar que aconteceu.
- Ela não estava falando sério. Você não pode ter acreditado naquilo, Pontas! Ela é uma cabeça-dura! Igualzinha a você! Sabe o que eu devia fazer? Devia descer essas escadas e contar tudo pra...
- NÃO! – Mais um estrondo. Eu duvidava que o quarto saísse inteiro depois daquela conversa. Encostei o ouvido na porta, querendo ouvir mais. Contar o quê? Pra quem? James estaria mesmo me traindo? – Não esqueça que foi você que me meteu nisso, eu devia ter te matado quando soube, seu cachorro pulguento!
- Pulguento não! – Sirius riu. – Você chegou bem perto de me matar, na verdade. Claro que não teria conseguido. Desculpe, Pontas, mas você sabe que eu levo a melhor em duelos.
- Claro. – James ironizou, o tom mais brando. – Se Remus não estivesse aqui para me impedir, você seria um cachorro morto!
- Se isso for verdade, teria sido um desperdício para a humanidade. – Sirius riu de novo. Eu estava quase arrancando os cabelos. Por que eles não podiam ser mais específicos? Por que tinham que falar por enigmas? – Agora, falando sério...
- Falando sério? Você não fala sério.
- Então aproveite meu primeiro momento de lucidez. Não posso negar que isso seja muito engraçado. – Ele riu e houve outro estrondo. – Na verdade, acho que nunca me diverti tanto! Mas até eu já sei que está na hora de parar.
- Parar?
- Se vocês levarem isso até o fim, não vai ter volta, Pontas. Eu sei que, no fundo, não é isso o que você quer.
- Agora eu quero. Ela não é quem eu pensava que fosse, Almofadinhas.
- Ela é sim! Dê uma chance!
- Eu dei, mas você ouviu o que ela disse?
Eu queria abrir aquela porta e exigir que eles me dissessem exatamente o que estava acontecendo. Por algum motivo, eu achava que eles estavam falando de mim, afinal eu havia mentido e fingido ser algo que não sou, mas a outra parte não fazia sentido...
O que eu havia dito?
Tentei me lembrar de nossas últimas conversas, mas eu estou sendo completamente eu desde quarta-feira, quando voltamos a namorar. Isso não faz sentido.
A não ser que a verdadeira Lily Evans não seja quem ele realmente queira. Talvez ele não goste de mim de verdade. Ele achava que gostava, mas depois de me conhecer melhor, passou a não gostar mais.
Isso me deixou triste e intrigada ao mesmo tempo. Por que ele não terminava comigo, então? Ele poderia ficar com a Jones se terminasse comigo. Até aquele momento, parecia ser isso o que ele queria.
- Você sabe o que eu acho, não sabe? Você é completamente maluco! Mas ouça... eu vi o jeito como você ficou quando soube e, cara, eu não quero ver aquilo nunca mais. Se você for até o fim... vai ser muito pior... você tem que contar tudo pra ela. O problema é seu se você quer se amarrar, só de pensar nisso me dá coceira! Mas se é o que você quer, por mais maluco que você seja, eu sei que não vai ser feliz sem aque...
- Quieto! – Eu dei um salto com a advertência de James. Sim, porque foi uma advertência, seu tom não era de raiva, tinha um quê de espanto. Eu praguejei mentalmente. Ele não vai ser feliz sem quem? – Parece que temos companhia. – Eles ficaram em silêncio e eu me aproximei ainda mais da porta – Sabia que é feio ouvir a conversa alheia, Lily?
Meu estômago congelou quando ele pronunciou meu nome. Como ele podia saber que eu estava ali?
- Lily? – Ouvi Sirius perguntar e, depois de alguns segundos, rir. – Ora, entre, Pimentinha!
Eu não tinha outra alternativa, precisava entrar.
Sirius estava sentado em uma das camas e James estava em pé, perto dele. Meus olhos tentaram avaliar o ambiente, mas não conseguiram se desgrudar daquele garoto alto e bonito, mas que não se parecia em nada com o que andava para lá e para cá pelo castelo, como se fosse o rei do mundo.
James parecia ter envelhecido muitos anos. Não sorria, estava pálido, com olheiras e parecia muito cansado.
Procurei algum brilho em seus olhos, mas não encontrei nenhum. Senti um calafrio.
- Desculpem. – Não sei bem por que eu estava pedindo desculpas ao invés de pedir explicações. Talvez fosse pelo fato de minha mãe ter realmente me ensinado que é feio ouvir a conversa alheia, ou talvez por ter estado tão perto de descobrir as respostas para as perguntas que aquela conversa havia gerado. Ou talvez, quem sabe, a surpresa de ter encontrado James naquele estado. – Eu estava na sala comunal e ouvi barulhos...
Foi quando parei para observar o quarto. Não havia nada destruído.
Sirius deve ter percebido minha expressão curiosa, pois começou a rir de novo.
- São bolas explosivas. – Ele explicou depois de se recuperar. Só então percebi que James tinha uma bola vermelha numa das mãos, enquanto Sirius segurava um pergaminho. Em cima da cama, havia várias outras bolas vermelhas. – Não é tão bom quanto quebrar alguma coisa, mas ajuda a descarregar a raiva.
Sirius pegou uma das bolas de cima da cama e jogou na parede. O barulho me fez pular, mas, apesar do estrondo, nada aconteceu com a parede e a bola se transformou numa fumaça vermelha cintilante que desapareceu aos poucos.
- Puxa... – Foi só o que eu consegui dizer.
- Bom, eu gostaria muito de ficar e acompanhar todo o blá blá blá, mas a comida está me esperando. – Sirius se levantou, olhando de mim para James sem deixar de sorrir. – Até mais, Pimenta.
Esperei que Sirius saísse para encarar James. Era difícil pensar que eu tinha que brigar com ele quando ele parecia tão cansado. Mas então me lembrei da festa, a resposta para a péssima aparência de James, e voltei a ficar com raiva.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, porém, ele se aproximou e me beijou.
- Oi, meu amor. Estava com saudades. – A frase era feita, automática, sem emoção. Isso me incomodou ainda mais.
- Estava? Puxa, que interessante. – Usei meu tom mais frio. – Fiquei sabendo que os marotos fizeram uma pequena festinha essa noite.
- Ah, sim. Foi uma ótima festa.
Eu poderia ter caído para trás de tão pasma. Como ele podia falar aquilo? E daquela forma? O desgraçado ainda por cima sorria!
- ÓTIMA FESTA? – Não aguentei a raiva. Dei um passo para trás, ficando longe de suas mãos. – É SÓ ISSO O QUE VOCÊ TEM PRA ME DIZER? QUE FOI UMA ÓTIMA FESTA?
- Lily, eu não estou entendendo... qual o problema? – Ele franziu a testa e se afastou também. Eu estava quase lançando uma azaração naquele ser de cabelo bagunçado!
- TENHA SANTA PACIÊNCIA, JAMES POTTER!
- Lily, calma... por que está tão nervosa?
- POR QUÊ?
Eu não podia acreditar naquilo. Queria arrancar os cabelos de tanta raiva, mas tentei me controlar.
- Sinceramente, não estou entendendo esse seu ataque...
- ATAQUE? VOCÊ FAZ UMA FESTA, CHAMA PRATICAMENTE TODOS OS ALUNOS DE HOGWARTS, COM EXCEÇÃO, É CLARO, DA SUA NAMORADA E DAS AMIGAS DELA, E ACHA QUE ESTÁ TUDO BEM?
Ele deu um suspiro cansado, sentou na beirada da cama e escondeu o rosto com as mãos. A imagem era tão desoladora que quase diminuiu minha raiva. Quase.
- Se eu soubesse que acabaria nisso... ai... por que as mulheres são tão complicadas?
- E ainda tem a cara de pau...
- Lily, por favor. – Ele me interrompeu, mas não voltou a me encarar. Continuava com os cotovelos nos joelhos e o rosto apoiado nas mãos, a imagem do cansaço emocional. – Não passou pela sua cabeça o motivo de eu ter feito isso?
- Não há motivo que explique...
- Há sim.
Céus, ele não ia me deixar terminar uma frase sequer?
- Então me diga! Que motivo seria suficientemente bom para você excluir a própria namorada e as amigas dela da festa?
Ele me encarou.
- Lily, você esqueceu que fui eu que cuidei do Harry ontem a noite?
- O que isso tem a ver com...
- Tem a ver que eu percebi o quanto você estava certa. Aquele boneco é realmente um terror, tanto é que eu o enviei nessa madrugada para a minha sobrinha de cinco aninhos. Uma diabinha, por assim dizer.
- Você o quê? – A notícia era boa demais para a minha raiva continuar no estágio máximo. Ela diminuiu pela metade, me deixando sorrir um pouco. – Quer dizer que eu não preciso mais cuidar...
- Não. – O fato de ele ter me interrompido novamente fez a raiva voltar e o sorriso desapareceu. – Mas eu percebi o que você quis dizer quando falou que não dormiu a noite toda. E eu sabia o quanto você e as suas colegas estavam cansadas. A ideia da festa não foi minha, apesar de eu ter ajudado, foi do Sirius. Mas achei que seria melhor deixar que vocês descansassem, por isso não convidei nenhuma garota do sétimo ano da Grifinória. Entende agora? Eu achei que ia aprovar minha atitude. Não pensei que pudesse acabar numa discussão como essa.
Agora eu sei por que James sempre consegue o que quer. Por mais idiota que seja a desculpa, ele consegue fazer com que pareça convincente. E aquela parecia tão convincente que minha raiva voltou a diminuir.
- Ainda assim, você devia ter pelo menos avisado. Custava avisar?
- Vocês já estavam dormindo, amor. Eu não queria acordá-las.
- Isso é ridículo! E vocês ainda dizem que as mulheres são complicadas!
- E não são?
- Vocês são piores! – Exclamei, o cansaço tomando o lugar da raiva. – Não dá pra entender vocês.
- E agora?
- E agora o quê?
- Acabou o chilique? Podemos falar de outra coisa? Ou tem mais alguma reclamação a fazer?
É incrível como ele consegue fazer a raiva voltar com a mesma rapidez com que vai embora.
- Na verdade, tenho sim!
Ele suspirou de novo.
- O que é dessa vez?
Eu poderia ter sentido vergonha do assunto delicado, mas quando dei por mim, já estava fazendo a pergunta e a curiosidade era grande demais para que eu conseguisse parar.
- O que há entre você e a Jones?
- Aninia Jones?
- Não! Papai Noel Jones! Tem outra Jones nessa escola, por acaso?
Ele bufou.
- Nini e eu somos amigos, Lily. Assim como você e Sirius...
- Eu não fico de cochichos com o Sirius pra cima e pra baixo! – Não era exatamente verdade, mas eu decidi ignorar essa questão. – E a escola toda não está comentando sobre um possível relacionamento escondido entre nós!
- Fofocas, Lily, pelo amor de Deus! Não vai dizer que acredita nessas idiotices?
Pelo modo como ele falou e pelo olhar quase suplicante por uma resposta negativa, senti meu rosto esquentar e olhei para o chão.
No segundo seguinte, ele estava em pé na minha frente, segurou meu queixo e me forçou a encará-lo novamente.
- Diz que confia em mim, Lily.
De repente, tudo mudou.
Ainda estávamos no dormitório masculino do sétimo ano, ainda éramos Lily Evans e James Potter, ainda era final de novembro, ainda fazia frio com a aproximação do inverno.
Mas a atmosfera mudou completamente. Eu não sentia mais raiva ao fitar aqueles olhos brilhantes. Eu podia jurar que, minutos antes, aqueles mesmos olhos estavam vazios. E eu podia sentir os meus próprios olhos emanarem o mesmo brilho.
Ele queria que eu confiasse nele. Ele queria isso e só isso. Ele realmente queria.
E eu também.
- Você confia em mim, Lily?
Senti seus lábios nos meus e meu coração se encheu de felicidade. Era uma sensação tão boa a de estar nos braços dele daquela forma. Era um carinho que eu nunca pensei que pudesse haver entre nós. Era cumplicidade.
E me fez perceber que, independente de qualquer boato, eu confiava nele. Ali, naquele momento, eu confiava.
- Diz que confia.
- Eu...
- Amor... – Uma voz inesperada interrompeu aquele mágico momento. A voz que eu menos queria ouvir.
- Nini? – James parecia mais surpreso do que eu ao vê-la parada na porta.
- Ah! Desculpa... – Ela olhou de mim para James, com uma enorme expressão de culpa. Foi só então que eu me dei conta de que ela havia chamado James de "amor".
Meu coração pareceu ter sido arrancado do peito.
Afastei-me de James e o encarei com mágoa. E ele ainda tinha a ousadia de me pedir para confiar nele?
- Nini, depois a gente conversa. – Ele não olhou para ela, continuou sustentando meu olhar, parecendo tão magoado quanto eu.
- Desculpa mesmo, eu realmente não queria...
- Vai, Nini...
- Certo... desculpa...
- Amor? – Eu perguntei assim que ela saiu. Ele não respondeu, apenas se aproximou, mas eu me afastei mais. – Amor, James?
- Confia em mim...
- Amor?
Cada vez que eu mencionava a palavra, meu coração era massacrado. Eu tentava ignorar a dor lancinante em meu peito e me concentrar apenas no que estava acontecendo. James estava me traindo e eu não ia ser feita de boba.
- Só diz que confia em mim, Lily... por favor... eu preciso ouvir isso... confia em mim...
Ele podia usar aquele olhar com quem ele quisesse, mas não ia funcionar comigo. Eu estivera a um passo de dizer que confiava, antes de ela aparecer e me provar que não podia haver confiança naquela relação.
- Acabou, James.
Até o momento eu não entendia o que aquelas duas palavrinhas significavam na minha vida. Meu peito havia sido rasgado, meu coração, dilacerado, mas eu não podia mostrar um pingo de fraqueza naquele momento. Eu precisava guardar a dor para sofrê-la depois.
- Você não confia mesmo em mim? Eu sei o que você está pensando, mas você está errada. – Ele parecia desesperado, o tom era controlado, mas seu olhar me dizia o quanto estava agonizando por dentro. – Se você gosta de mim, se realmente gosta, você não vai se deixar levar por esse erro. Você vai confiar em mim e vai me deixar explicar.
- Isso não tem explicação!
- Confia em mim!
- Ela te chamou de amor!
Mais uma vez, dor. Aquela era a prova final. Aquilo era tudo o que eu temia. James não mudara nem um pouco. Ele, na verdade, se mostrou pior do que eu imaginava.
- Se você gosta de mim de verdade, vai confiar em mim. Afinal, eu sou seu namorado.
Eu sabia o que ele estava fazendo, estava jogando sujo! Eu queria confiar. Ah, como eu queria, mas eu não podia. James sabe usar muito bem sua lábia para enganar as garotas, para fazê-las achar que elas é que estão erradas.
Não ia funcionar comigo!
- Era meu namorado. Não confio em você e não vou admitir que me traia.
Eu estava prestes a sair, mas ele me segurou com força e me beijou. Eu o empurrei e depositei um tapa em seu rosto. Foi o suficiente para que ficássemos parados, um de frente para o outro, mudos.
- Você não pode ir embora agora! – Ele disse, depois de um tempo. Foi apenas o tom arrogante que me fez ficar ali naquele quarto ao invés de correr para o banheiro mais próximo.
- Você não manda em mim!
- Eu sou seu namorado!
- Não é mais!
Ele me segurou de novo, mas com mais delicadeza dessa vez, e não tentou me beijar. Somente me colocou contra a parede e me encarou.
- Não posso ficar sem você, Lily...
- Me solta, James!
- Só se disser que vai ficar.
- James, você está me traindo!
- Não, não estou. – Ele parecia estar sendo muito sincero, mas eu não ia acreditar.
- Ela te chamou de amor! Você não pode negar isso, Potter!
Deu certo. A menção do sobrenome dele o fez me soltar e se afastar.
- Eu posso. Ela não estava falando comigo, Evans.
Senti uma raiva tremenda ao perceber que ele parecia falar a verdade. Eu queria tanto que fosse verdade. Queria, sem saber direito por quê.
- E estava chamando quem? Sirius? Remus? Quem sabe o Peter?
- Por que não? Não seria a primeira vez que uma garota vem procurar um deles aqui no dormitório.
- Que garota chamaria o Sirius de amor, James? Elas sabem que ele não namora ninguém!
- Que garota me chamaria de amor, sabendo que eu estou te namorando?
Grunhi de raiva. Por que ele tem que ter resposta pra tudo?
- E as histórias que eu tenho escutado?
- Fofoca de gente que não tem o que fazer.
- Fofoca não nasce em árvore, James. Temos que dar razão para elas acontecerem.
- Se a Nini estivesse com um amigo meu, iria ter mais contato comigo, não acha? Você e Sirius estão tendo bastante contato ultimamente, não estou certo?
- Se a Jones estivesse com um amigo seu, as pessoas teriam sabido na festa de ontem e não achariam que é com você que ela está.
Eu poderia ter sorrido satisfeita por tê-lo encurralado, mas estava concentrada demais em não deixar transparecer a tristeza que eu sentia por descobrir que o James que eu havia conhecido no começo daquela relação não existia de fato. Era tudo uma mentira. O namoro, eu, James, tudo.
- A não ser que o meu amigo não queira que a escola toda saiba que eles estão juntos.
- Então não faz sentido ser o Sirius!
Agora era ele quem estava contra a parede. Uma hora ia acabar se contradizendo e eu iria ter certeza de que estava mentindo.
- Eu não disse que era.
- Remus?
Por um instante, a dor desapareceu. Sua aparente sinceridade me fazia ter esperanças de que eu estivesse errada no fim das contas. Talvez ele fosse mesmo inocente. Talvez...
Mas eu não podia acreditar naquilo. Remus era legal demais pra namorar alguém como Aninia Jones.
- Não posso dizer quem é, Lily. É segredo.
- Ah, então é assim, Potter? Você me pede pra confiar em você, mas não confia em mim! Você não confia em mim!
- Você também não confia em mim.
- Mas você dá motivos, James!
Ele sorriu, meio irônico, mas eu demorei um pouco para perceber meu erro. Eu o havia chamado de James, não de Potter.
- Se eu disser quem é, você vai acreditar e ficar comigo?
- Talvez.
- Sim ou não?
- Depende.
Ele bufou, impaciente.
- De quê?
- Se a explicação for convincente, eu fico.
Ele sorriu de novo. Meu coração bateu descompassado, a esperança tomando o lugar da tristeza. Eu já sabia, antes mesmo de ouvir o que ele tinha a dizer, que eu ficaria. Mas não quis nem pensar no porquê.
- Aninia está namorando com Remus, por isso nos aproximamos. Ele não quer que ninguém saiba por enquanto. Na verdade, já estavam saindo há duas semanas, antes que eu e Sirius descobríssemos. Achamos estranho quando ele chegou com uma marca de chupão no pescoço e um sorriso de idiota. – Ele riu. – Ela é uma garota legal, apesar de não parecer. – Ele me olhou acusatório. – Eu sei o que você pensa dela, mas tente não se deixar levar pelas impressões. A Nini é inteligente e muito divertida. Um pouco mimada e patricinha, mas não é um pecado tão grande. Acho que se você a conhecesse realmente, diria que o meu egocentrismo e prepotência são muito piores.
Suspirei. Meu coração parecia estar leve de novo.
- Está bem. Mas quero que o próprio Remus me confirme isso. – Por mais que Remus seja amigo do James, eu sei que ele não se sente bem mentindo. E mesmo que tentasse me enganar, eu perceberia que é mentira. Remus é muito mais transparente do que o complexo James Potter.
- Tudo bem. – A resposta foi tão simples e fácil que eu quase desisti de me certificar com Remus. Já sabia que James estava falando a verdade. Não havia volta, a raiva fora toda embora.
Mas não custava confirmar.
Por isso saí do dormitório disposta a encontrar Remus antes que James tivesse tempo de explicar-lhe a situação e pedir para que mentisse pra mim.
Não precisei andar muito. Assim que saí da sala comunal, o encontrei. Ele estava com Peter, voltando para a torre.
- Remus! Por favor, seja franco comigo!
Ele se assustou quando eu o encurralei.
- O que houve?
Olhei para Peter, incerta, mas decidi que se James e Sirius sabiam do suposto namoro, Peter também devia saber. Afinal, na noite anterior, ele mesmo não me havia dito que Remus saíra para encontrar uma garota?
- Você está namorando a Aninia Jones?
- Como... como você sabe?
Conforme eu havia imaginado, completamente transparente. Eu tinha certeza de que ele não estava tentando me enganar para proteger o amigo.
- James teve que me contar, mas eu queria me certificar de que é verdade. Sabe, com todos esses boatos de que eles estão tendo um caso e...
- O Pontas te contou? – Remus abriu um sorriso enorme. – Isso é maravilhoso, Lily! Então vocês se acertaram?
- Não exatamente... eu tinha terminado por causa da Jones, mas ele disse que eu estava errada e foi obrigado a contar que era você que ela estava namorando... na verdade, ela apareceu lá te chamando... não, não te chamando, chamando "amor"... então, eu pensei que era o James, por causa das fofocas, então...
- Aluado! – James apareceu atrás de mim e me interrompeu. Não que eu estivesse falando coisa com coisa, de qualquer forma. Estava feliz demais por James não estar me traindo. Talvez exista um coração sob aquele corpo, afinal. – Acho melhor você ir procurar a Nini. Pra ela ter ido te procurar no dormitório masculino é porque o assunto deve ser sério. Ela também ficou um pouco nervosa quando percebeu que podia ter provocado uma crise no meu namoro, diga pra ela não se preocupar. Está tudo bem.
Misteriosamente, Remus parou de sorrir. Talvez estivesse apenas preocupado com o assunto sério do qual a Jones queria falar, mas me pareceu ser mais do que isso.
Não tive muito tempo para pensar sobre isso. Remus saiu correndo, Peter também foi embora, enxotado por um olhar de James, e o mesmo me fez ficar de frente pra ele.
- Acho que estamos entendidos, não é? Você continua sendo minha namorada. – Ele me beijou antes que eu pudesse responder. – Agora eu tenho que ir. Ainda não almocei e estou faminto!
Fiquei parada no corredor, sozinha, durante vários minutos. Justo quando eu pensava que James tinha mesmo um coração, ele ia embora daquele jeito.
Porém, o mais incrível era que apesar de eu ter certeza de que James não está me traindo, eu não estava satisfeita. James Potter é complexo demais para o meu pobre e deficiente cérebro.
E eu nem tivera a chance de perguntar sobre aquela estranha conversa entre ele e Sirius. Eu precisava saber o que tinha deixado James tão nervoso!
Mas no fim acabei voltando para a sala comunal e para o meu livro, fugindo um pouco da realidade.
James permaneceu longe pelo resto do dia. Não que eu estivesse esperando que ele viesse me procurar. Eu realmente me entretive com o livro, depois de conseguir digerir tudo o que acontecera naquelas últimas horas.
Mas já no fim da tarde, a fome bateu novamente. Eu não havia almoçado.
Resolvi fazer outra visita à cozinha. Parece que além do meu horário de dormir, meu horário de comer também está bastante alterado.
Depois de um lanche bem reforçado, pensei em ir até a biblioteca e estudar um pouco. Eu estava cansada de pensar em relacionamentos, James, namoro, James, garotos, James, traição, James...
O fato é que eu já estava arrependida de não ter terminado de vez esse maldito namoro. Parece que eu só consigo me enrolar e enrolar, cada vez mais. Um namoro que começa de uma farsa nunca pode dar certo, mas eu nem ao menos tinha certeza, naquele momento, se queria que desse certo! Afinal, ele ainda é James Potter! Um James diferente do que eu imaginava, sim, um James que pode ser doce, divertido e inteligente, um James com quem eu me sinto bem, pelo menos quando não estou brigando com ele.
Mas há o outro, o Potter. Esse me deixa confusa, me olha ironicamente, mede todos os seus atos. E ele, por mais que tenha me proporcionado momentos de alegria, continua sendo os dois. James e Potter.
E eu não posso conviver com alguém assim. Eu sabia que precisava terminar tudo aquilo.
Mas só de pensar que abrindo mão do Potter, eu não teria mais o James, meu coração voltava a doer e a reclamar. Eu não podia aguentar tanta aflição! Não podia nem ao menos pensar no assunto. Eu não queria respostas. Eu não queria complicar ainda mais aquela situação.
Eu precisava de um bom tempo longe de tudo aquilo antes que explodisse!
Mas acabei explodindo antes que pudesse ter algum tempo.
Aconteceu quando eu estava chegando à biblioteca.
- Lily?
Virei para ver quem havia me chamado e não me surpreendi quando Liana correu na minha direção. Parece que ela sempre me encontra nas horas em que eu mais preciso.
- Ah, oi, Lia.
- Aconteceu alguma coisa? Acabei de falar com James e ele... bem, ele não parecia melhor do que você. Quer conversar?
Não. Eu não queria. Eu não podia. Mas as palavras escorregaram da minha boca antes que eu pudesse segurá-las.
- Eu achava que ele estava me traindo com a Jones, terminei com ele por causa disso, mas ele me contou uma coisa que eu não posso te contar e eu fui obrigada a acreditar nele e então nós voltamos, mas eu devia ter terminado de vez, mas ele não me deixou, ele anda muito estranho, sumiu o dia todo e eu não aguento mais isso!
Ela sorriu e segurou a minha mão.
- Lily, vocês nunca vão parar de brigar, mas isso não quer dizer que não gostem um do outro. Tudo vai se resolver.
- Não, Lia, você não entende. – Suspirei. Liana é uma pessoa muito legal para ficar no escuro daquela forma. Eu confio nela o suficiente para contar o que realmente está se passando entre mim e James. Além do mais, eu preciso de alguém com quem conversar e Alice não parece muito disposta a ser essa pessoa. Mais um problema que precisa ser resolvido o mais rápido possível. – Eu não estou namorando ele de verdade. É tudo uma farsa. É tudo mentira. Não aguento mais!
Então sentei no chão e comecei a contar toda a história, desde o infalível plano de Sirius até os últimos acontecimentos, ignorando apenas o fato de que Aninia está namorando Remus. Ela não ficou surpresa, mas murmurou que a ideia só podia ter sido do Sirius mesmo e que eu fiz mal de ter enganado James no começo. Duas das coisas das quais eu mais concordo nessa história toda.
- Eu devia ter terminado tudo hoje. Mesmo que ele não esteja me traindo ou coisa parecida. Eu tenho que acabar com tudo isso. Não está dando certo. Não pode dar certo!
- Eu sabia que tinha algo de estranho no namoro de vocês. – Ela disse, com um sorriso de lado. – Desde o primeiro dia, lá em Hogsmead. – Ela desviou o olhar, pensativa, e seu sorriso diminuiu. – Eu só não entendi uma coisa, se você não gosta dele, por que voltou da primeira vez?
Senti meu rosto esquentar. Eu não queria pensar nisso. Eu sabia que aquele era um caminho perigoso.
- Bom... eu não disse que não... gosto... dele... – Limpei a garganta e desviei o olhar. Eu disse para Sirius que só voltei com James porque tinha medo de que o plano tivesse sido em vão e que ele continuasse a me perseguir se eu não aceitasse o pedido de novo. Mas ali, com Lia, eu podia falar a verdade. – Eu acho que... eu comecei a gostar da companhia dele... entende?
- Entendo. Isso é perfeitamente natural. Mas você podia simplesmente ser amiga dele, não podia?
- Podia... quero dizer, posso... mas... eu não sei... na hora... eu não consegui dizer não...
- Não conseguiu dizer não? – Ela franziu a testa. – Por quê?
- Não sei, Lia. Eu só... não consegui... na hora...
- Como assim, Lily? – Agora ela ria da minha confusão. – Você sabe a resposta, só não quer encontrá-la. Ou, quem sabe, admiti-la.
- Eu não estou apaixonada por ele! – Me defendi, sentindo o coração disparar.
- Eu não disse isso. – Ela fazia esforço para não sorrir. – Acredito em você. Deve ter outra explicação, então.
- Claro que tem. – Eu me senti como uma criança birrenta, mas não consegui desfazer a expressão de teimosia. No fundo, eu estava morrendo de medo de procurar a resposta que Lia tentava extrair de mim.
- Claro que tem. – Ela concordou. – Então, ele terminou com você, isso era tudo o que você mais queria, mas você não se sentiu bem com isso. Claro que não. Você mentiu, trapaceou, usou armas contra um garoto que só estava tentando te fazer feliz. Isso a deixou tão triste que você chorou copiosamente durante toda a noite.
- Não chorei copiosamente! Eu só... não consegui dormir direito! Culpa do remorso!
- Certo. Culpa do remorso. – Por mais que eu tentasse encontrar o tom irônico em suas palavras, não conseguia. Ela parecia realmente estar acreditando em tudo aquilo. – Então, no dia seguinte, você não queria vê-lo e resolveu matar aulas. Surpreendente, Lily, nunca te imaginei matando aulas. Foi até Hogsmead sem que ninguém soubesse, entrou no Cabeça de Javali, não foi uma boa escolha, sabe? Depois bebeu com um homem que nem conhecia...
- Eu não usaria o termo homem. – Senti meu rosto esquentar ainda mais. Onde eu estava com a cabeça ao fazer tudo aquilo, Merlin? – Ele devia ser dois ou três anos mais velho que nós. Bom, talvez um pouquinho mais...
- Certo. Então, bebeu com um garoto mais velho que não conhecia e podia ter se dado muito mal se o James não tivesse aparecido e trazido você de volta para o castelo. Depois de se recuperar da bebedeira, James foi conversar com você, disse que estava arrependido e queria voltar. Você, por remorso e por gostar da companhia dele, aceitou.
- É... – Eu precisava concordar, contada daquela forma, a história parecia muito menos aceitável do que a que eu tinha em minha cabeça. Ficava cada vez mais difícil confirmar que era assim mesmo que havia acontecido. – Acho que é mais ou menos isso...
- E agora você resolveu que deviam terminar de vez, já que você não gosta dele. Lily, eu concordo com você. Se você não está apaixonada por ele, não adianta ficar fingindo esse namoro bobo. Você precisa levantar e ser forte.
Ela se levantou e me puxou pela mão, fazendo com que eu também ficasse de pé.
- O quê? Como assim?
- O que você fez foi horrível, Lily. Desculpe a franqueza, mas você nunca deveria ter aceitado o plano do Sirius. Eu sei que o James é um maroto e que merecia um castigo, mas isso foi demais, coitado. Porque, sinceramente, eu acredito que ele gosta de você e nunca achei que estivesse te traindo. De qualquer forma, você não gosta dele e precisa acabar com essa história de uma vez por todas.
- Espera, Lia! Aonde estamos indo? – Ela começou a me puxar na direção das escadas.
- Estamos indo encontrar o James, é claro! Você precisa terminar com ele, Lily. E tem que ser agora.
- Agora? – Meu coração reclamou e eu parei de andar, fazendo-a parar também. – Por que agora? Pode ser depois...
Eu não queria encontrar James. Eu não queria olhar para ele. Não queria falar com ele. Não queria terminar com ele.
Já havia sido difícil quando eu achei que ele estava me traindo, agora, no entanto, parecia impossível.
- Pra que adiar o sofrimento? Não vai ser tão ruim assim, Lily. Você disse pra ele que achava melhor terminarem, não disse? Não foi difícil, foi?
- Não é isso... é que...
- Então, vai ser mais fácil ainda agora. O James é um garoto um pouco convencido, mas precisa entender que você realmente não quer nada com ele. Não precisa se preocupar, eu garanto que ele não vai te perseguir mais.
Ela voltou a me puxar, mas meu coração estava tão desesperado que eu continuei parada.
- Não, Lia, espera...
- Não adianta esperar. Mais cedo ou mais tarde você vai ter que fazer isso. Convença-o de que você não gosta dele. Vocês podem ser apenas bons amigos. Ele vai achar ruim no começo, é claro, mas vai entender.
- Eu não posso.
Eu só percebi que estava chorando quando ela parou de tentar me mover e me olhou nos olhos. Meu coração estava ainda mais descompassado e minhas mãos suavam. Meu corpo só reagira daquela forma em poucas situações, todas elas quando James estava presente, mas o sentimento em meu coração era completamente diferente.
Quando eu estava com James, me sentia leve, livre.
Mas ali, com Lia me dizendo o que eu tinha que fazer, meu coração parecia ficar cada vez mais pesado. Era como se inchasse de dor, fechando minha garganta, me fazendo chorar.
- Por que não pode, Lily? – A voz de Lia soou baixa e calma, suave como uma carícia. Ela sabia a resposta, mas queria que eu dissesse.
Queria que eu descobrisse.
Porque até aquele momento eu não sabia. Eu desconfiava, mas não ousava pensar no assunto a ponto de admitir.
Por que eu não podia ir lá e terminar de uma vez por todas aquela história? Por que eu não podia ter James apenas como amigo e acabar com o namoro? Por que eu não conseguia dar um passo adiante quando se tratava de fazer James acreditar que eu não gostava dele?
O que mudou nessa semana a ponto de me fazer chorar com a possibilidade de não poder me aconchegar nos braços daquele maroto novamente?
- Porque... porque eu estou apaixonada por ele. – Minha voz não saiu mais alta que um sussurro, mas ela entendeu. Sorriu com felicidade e me abraçou, me deixando chorar em seu ombro.
Apaixonada por James Potter. Isso explica muita coisa. O fato de a cama dele ser muito mais confortável do que a minha, a sensação gostosa que eu sinto quando estou ao seu lado, os calafrios quando nossos corpos se tocam.
Não foi tão doloroso admitir isso, afinal. Na verdade, ao dizer essas palavras, o peso no meu coração diminuiu um pouco, me deixando respirar mais aliviada.
Não que isso seja um alívio. Estar apaixonada por James Potter só piora ainda mais a minha situação já bastante desagradável.
Seria muito mais fácil não gostar dele e dizer: "Oi, James! Isso não está dando certo e nós precisamos terminar o namoro. Mas podemos ser amigos se você quiser."
Mas gostando dele, terminar o namoro é missão praticamente impossível. Por mais que eu não goste do Potter, não suportaria ficar sem o James.
- Finalmente, Lily. – Ela me soltou depois de um tempo. – Achei que precisaria arrancar isso de você com um soro da verdade!
- Isso não podia ter acontecido!
- O quê?
- Eu não posso estar apaixonada por ele, Lia! Não posso!
- Por que não? Lily, isso é ótimo! Você gosta dele, ele gosta de você, agora tudo o que você precisa fazer é contar toda a verdade e...
- Não! – Levei um susto tão grande quando ela falou aquilo que dei vários passos para trás e derrubei uma armadura, fazendo um tremendo barulho.
- Como não, Lily? – Ela me ajudou com a armadura. – Você precisa contar e tirar essa sombra do passado de vocês.
- E você e o Sirius? Alguma novidade?
Ela revirou os olhos.
- Nenhuma. Mas não mude de assunto, Lily Evans. Você tem que contar pra ele!
- E o seu irmão? Jack, não? Como ele está? Podemos sair com ele amanhã, eu falo com James e os garotos e...
- Se você não contar, conto eu.
- Liana, por favor...
- Estou falando sério.
- Está bem! Eu vou falar, eu vou falar. Mas me dá um tempinho...
- Vai fazer dez dias na segunda, não é? Então, você tem até segunda pra contar. E eu vou saber se você contou ou não.
Fechei a cara pra ela, mas concordei.
- Está bem, está bem! Podemos mudar de assunto agora?
- Claro. – Ela sorriu satisfeita. – Sobre o que quer falar?
- Qualquer coisa que não seja James Potter!
Ela riu.
Ficamos conversando até a hora do jantar. Eu estava evitando encontrar James, mas não poderia escapar naquele momento. Além do mais, Alice estaria no salão principal e eu precisava falar com ela.
Enquanto me aproximava da mesa da Grifinória, parecia que não existia nenhum som a minha volta. Meu coração batia com força, descompassado, me impedindo de escutar qualquer outra coisa. Era a primeira vez que eu veria James depois de ter admitido para mim mesma que estava apaixonada por ele e eu não sabia o que esperar.
Alice ainda não havia chegado, então fui até onde os marotos estavam. Quando minha amiga chegasse, iria me ver ali e poderíamos conversar.
Sentei-me ao lado de James, evitando olhá-lo.
- Olha quem finalmente apareceu, a pimenta-espiã. – Ignorei o comentário de Sirius e comecei a me servir.
- Tudo bem, Lily? – Ouvi Remus perguntar, sentado na minha frente, e apenas assenti.
- Tudo bem mesmo? – A voz de James, tão perto, me fez estremecer. Xinguei Sirius mentalmente. Se eu estou nessa situação, a culpa é exclusivamente dele!
- Eu estou bem! – Não encarei nenhum dos quatro e comecei a comer. Aos poucos o assunto mudou, mas eu não consegui relaxar. Eu poderia comer em silêncio, sair dali e me trancar no dormitório feminino até segunda ordem. Tudo isso sem trocar um olhar com James. Eu tinha medo de que ele percebesse o meu sentimento caso isso acontecesse.
Não prestei muita atenção ao que eles falavam. Apenas me dei conta de que, a certa altura, as vozes se tornaram mais rápidas e baixas. Foi quando levantei os olhos do prato, intrigada.
- É perigoso demais! – Ouvi Remus dizendo, ele empalideceu quando percebeu que eu o estava olhando. Todos ficaram em silêncio.
- O que é perigoso? Vocês estão aprontando alguma coisa? James, você é monitor-chefe! Não pode confabular com essas coisas, por favor! – Eu realmente não estava prestando atenção na conversa antes, mas a ideia de os marotos estarem aprontando me deixou sem freios na língua. Quando encarei James, porém, as palavras sumiram. Pelo menos, eu já havia dito tudo o que queria.
Seus olhos brilhavam pra mim e ele sorria como eu não o via sorrir há algum tempo. Aquilo fez meu coração palpitar. Claro que eu já sabia que ele era lindo, mas vê-lo daquela forma foi mais sublime. E pensar que eu estou apaixonada por ele. E pensar que ele é meu namorado!
E pensar que ainda assim, está tudo errado.
- Não é isso, Lily. – Remus interrompeu meu momento de transe e eu desviei os olhos de James, corando. – Não se preocupe.
Eu podia sentir os olhos de todos em cima de mim. Alguma coisa havia mudado. Eu estava diferente. Eu me sentia diferente. E sentia que todos podiam perceber isso.
- Certo, então. – Foi tudo o que eu disse, rezando para que eles voltassem a conversar entre si. Mas o silêncio continuou. Eu precisava fazer algo. – Vou precisar da ajuda de vocês.
Foi o suficiente. O clima amenizou e eles me fitaram com curiosidade. Sirius abriu um grande sorriso.
- Lily Pimenta Evans vai pedir a ajuda dos marotos?
Eu retribuí o sorriso irônico.
- Na verdade, Six, o pedido é em nome de Liana Buth Rinnel.
Ele parou de sorrir imediatamente. James, em contrapartida, abriu um largo sorriso.
- E o que seria?
- Digamos que o irmão da Lia está passando por problemas de adaptação...
Sirius não me deixou terminar. Ele parecia estar tentando controlar a raiva.
- Ela que peça ajuda para o novo namoradinho dela!
- Namoradinho? – Franzi a testa, me fazendo de desentendida. – Que eu saiba ela está sozinha, Six.
Ele resmungou alguma coisa e James se aproximou mais de mim.
- Lembra o que você disse outro dia – Ele sussurrou para que apenas eu ouvisse – sobre ele estar apaixonado? Acho que você tem razão...
- É claro que eu tenho! – Sussurrei de volta, ignorando as borboletas em meu estômago. Depois de admitir essa maldita paixão, ficou muito mais difícil me controlar perto dele.
- Não me importa. Não vou ajudar ninguém. – Sirius continuava resmungando e lançando olhares à mesa da Corvinal. Sem dúvida, observando Lia.
- Sirius, você acredita em mim? – Tentei não pensar na cena que aquela pergunta me lembrava. Acho que James teve a mesma impressão, pois ficou mais ereto e seu sorriso diminuiu um pouco.
- Pimenta, querida, eu só acredito em mim.
- Obrigado pela consideração. – Remus revirou os olhos, mas sorriu um pouco. Eu ri.
- Estou falando sério. Vem com a gente e você não vai se arrepender.
- Será que você podia explicar melhor essa história, Lily? Eu não estou entendendo.
- É simples, Remus. Jack, o irmão da Lia, está com problemas de adaptação. Ele acha que, por causa da aparência, ninguém vai querer ser amigo dele, por isso é um garoto bastante solitário. Como se não bastasse isso, alguns alunos não o estão tratando muito bem, entende? Então, eu pensei que se nós saíssemos com ele, podíamos ajudá-lo.
- Isso é muito legal. – Remus sorriu, fitando o nada. – Eu sei como é se sentir excluído. É claro que nós vamos ajudar, Lily.
- Fale por você! – Sirius ainda tinha a expressão fechada e não parecia disposto a voltar atrás. Eu não queria ter que explicar a cena da noite anterior, mas me vi obrigada a dar um empurrãozinho.
- Aquele era o irmão dela, Sirius.
Ele demorou um pouco para entender o que eu estava dizendo.
- O quê? Aquele era...? Mas você disse que o irmão dela está tendo problemas de adaptação! Ele se mudou pra Hogwarts...
- Não. Ele tem onze anos.
James, Remus e Peter pareciam assistir a uma partida de pingue-pongue. Como nenhum deles sabia do que estávamos falando, apenas observavam, sem dar palpites.
- Ele não pode ter onze...
- Eu sei que parece estranho. – Percebi que estava agindo como James, interrompendo Sirius a todo o momento, e fiquei com medo que ele pudesse ficar com raiva. Mas ele estava abismado demais para se importar com isso.
- Então ela não está...
- Não. Ela não está com ninguém.
Acho que foi o meu sorriso que o fez perceber o papel de garoto apaixonado que ele estava fazendo, já que ele se recompôs, deixando a expressão neutra e dando de ombros.
- Não me importa, de qualquer forma.
- Claro que não.
Antes que Sirius pudesse dar uma resposta mal-educada – pela expressão dele, era isso mesmo o que ia fazer – Remus desviou o olhar para a porta do salão e disse:
- A Alice está vindo.
Pela forma como ele mencionou o fato, tentei me recordar se havia contado a eles sobre minha situação com Alice. Mas então percebi que era óbvio demais.
Acenei para ela, para que se sentasse conosco, mas ela não estava sozinha. Maria, Laís e até mesmo Milena estavam com ela. Sentaram-se numa das pontas, sem nos olhar.
- Eu vou lá. – Falei e saí, sabendo que não precisava dar mais explicações.
Maria e Laís me cumprimentaram quando cheguei, Milena fez somente uma careta e Alice nem levantou os olhos do prato.
- Alice? A gente pode conversar?
- Agora não, Lily.
A negativa me pegou desprevenida. Alice nunca recusa uma conversa.
- Você sumiu o dia todo e...
- Quem se importa? – Ela me cortou, ainda sem me olhar.
- Eu me importo!
- Ah, mesmo? – Ela levantou os olhos para me encarar com o que parecia ser raiva. Eu não estava entendendo nada. – Essa é nova pra mim!
- O quê? Como assim? Lice! Você é minha melhor amiga! É claro que eu me importo com você!
- Eu sou sua melhor amiga? Tem certeza disso?
- Alice...
- Se toca, Evans. Ela não quer falar com você. – Milena intercedeu e recebeu um olhar furioso meu.
- Se não se importa, Scheeren, a conversa não é com você.
- Ela tem razão, Lily. – Alice desviou os olhos novamente e eu me senti a pior pessoa do mundo. – Não quero falar com você.
- Alice, o que aconteceu? Me fala! A gente pode resolver isso!
Só então eu percebi que boa parte da mesa da Grifinória havia parado para ver a discussão. Os marotos estavam vindo e eu devia estar quase chorando.
- Depois, Lily...
- Mas, Lice...
Senti duas mãos segurarem meus braços, me levando para fora do salão.
- Tudo bem, Lily.
- Não... Alice...
- Vocês conversam depois.
Vi Remus e Sirius trocarem um olhar preocupado enquanto James me levava para um lugar mais reservado. Peter parecia confuso e perguntava a todo o momento o que estava acontecendo. Coloquei as mãos no rosto e percebi que estava chorando.
Tentei me controlar. Eu nunca fui uma garota descontrolada. Também nunca fui de chorar na frente das outras pessoas. Mas parece que estou sensível demais.
E chorando demais para o meu gosto.
- Tudo bem, eu vejo vocês depois. Ela precisa se acalmar um pouco. – Ouvi James dizer e depois entramos numa sala que eu não conhecia.
O ambiente era aconchegante, com muitas velas e um grande sofá cheio de almofadas. Ficamos parados no meio daquela sala estranha. Eu soluçava.
- Calma, calma. Tudo vai ficar bem.
Eu o abracei pela cintura e escondi meu rosto em seu peito enquanto ele mexia no meu cabelo. Era uma sensação gostosa e aos poucos eu fui me acalmando.
Minha respiração se tornou mais regular antes de voltar a ofegar, dessa vez por me dar conta do quão perto estava de James. E estávamos sozinhos.
- Você está bem? – Ele perguntou, perto do meu ouvido, com a voz baixa e ligeiramente rouca.
Não consegui falar, mas assenti com a cabeça.
- Vocês brigaram?
Fiz que não, sem levantar a cabeça. Eu estava envergonhada e não queria que ele me visse com o rosto todo inchado.
- Quer conversar?
Fiz que não de novo e o ouvi suspirar.
Com delicadeza, ele me levou até o sofá e sentamos. Eu continuava abraçada a ele o mais apertado que podia, escondendo o rosto.
- Lily? Olha pra mim.
Fiz que não, apertando mais meu rosto em seu peito.
- O que foi? Ei, o que foi?
Ele tentou me afastar para me olhar, mas eu o apertei mais, murmurando um não choroso.
- Lily, eu não sei o que fazer com você! Olha pra mim! O que foi? Ta chorando de novo?
- Não...
- Então vem cá, olha pra mim.
- Não...
- Por quê?
- Eu... to... inchada...
Ele pareceu rir e tentou me afastar de novo.
- Para com isso. Deixa eu ver...
- Não!
- Anda, deixa eu ver...
Eu já não tinha forças pra resistir, então deixei que ele levantasse meu queixo e me observasse.
Ele passou o polegar debaixo dos meus olhos, limpando as lágrimas que ainda estavam ali.
- Você está realmente horrível...
Eu não tinha forças pra reclamar daquela insensibilidade, então apenas fechei os olhos.
- Mas continua sendo maravilhosa... – Ele completou, me fazendo sorrir. – Não feche os olhos.
Voltei a abrir, ele não sorria, mas seus olhos brilhavam de uma forma única. Talvez seja pelo fato de eu estar apaixonada, mas acho que nunca vi nem verei um olhar mais perfeito do que o de James Potter.
E então, contrariando todas as leis do universo, eu o beijei.
Se ele se surpreendeu, soube disfarçar muito bem. Retribuiu o beijou com carinho, com calma, com cuidado, como se eu fosse a joia mais preciosa do mundo. Eu senti como se nada no mundo pudesse me atingir. Nos braços dele, eu estava protegida.
Ficamos no que ele me disse ser a sala precisa até bem tarde. Conversamos, abraçados, sobre quase tudo. Apenas um assunto era evitado, pelos dois lados, o nosso namoro. Eu queria poder apagar tudo e começar novamente. Se o nosso namoro fosse real, eu seria a pessoa mais feliz do mundo.
Definitivamente, quando eu aceitei a ideia de Sirius, eu não cogitava a possibilidade de acabar me apaixonando. Esse é o pior castigo que eu poderia receber por ter enganado o James daquele jeito.
Por pouco eu não fiz o que Lia me disse para fazer e contei tudo. Faltou coragem.
Afinal, eu não tenho certeza do que James sente por mim. Às vezes, como hoje, na sala precisa, parece que ele realmente gosta de mim. Mas tem vezes que ele parece tão distante e frio.
De qualquer forma, ainda faltam dois dias para o prazo que Lia me deu acabar e eu tenho assuntos mais urgentes para resolver. Alice é o principal deles.
Quando cheguei ao dormitório, ela já estava deitada, e, tenho quase certeza, fingia dormir. Parece que realmente não quer falar comigo e eu vou ter que esperar até amanhã para arrancar uma resposta convincente dela. Não vejo motivo para ela agir dessa forma comigo!
Parece que o mundo realmente ficou maluco. A começar por mim, é claro, que me apaixonei pelo último garoto por quem eu poderia me apaixonar.
Eu não mereço isso, Merlin. Eu não mereço.
