9º Dia

Eu já devo ter dito que domingo é um dia de descanso e paz. Tudo o que eu queria era ficar até mais tarde na cama e descansar. De preferência sem pensar em nada.

Mas com todos os recentes acontecimentos, as desastrosas descobertas e as dúvidas incessantes, meu sono foi tudo, menos tranquilo. Mal havia clareado o dia e eu já estava de pé, andando de um lado para o outro no dormitório, tentando não acordar as outras garotas.

Eu queria conversar com Alice, a sós. Ela não podia fugir de mim daquele jeito quando eu não havia feito nada para merecer isso! Ela ia ter de me ouvir e, principalmente, falar o que é que a estava incomodando daquela forma!

Mas, ao contrário de mim, ela parecia estar dormindo um sono tranquilo e profundo. Depois de uma hora andando de um lado para o outro, tentando ler, estudar ou fazer qualquer coisa que pudesse me distrair, resolvi dar uma volta. Alice não acordaria tão cedo e eu não estava com paciência para ficar esperando.

Surpreendentemente, eu não fui a única a madrugar.

Sentado numa das poltronas da sala comunal, com os olhos vidrados na lareira, estava Sirius, tão distante e sonhador que eu quase suspeitei que alguém havia tomado uma poção polissuco e estava se passando pelo meu amigo.

- Bom dia. – Eu disse, sentando ao seu lado. Ele desviou a atenção do fogo e me olhou.

- Bom dia, ruiva.

- Madrugou, foi?

- Pelo jeito não fui o único.

Assenti com a cabeça, suspirando, e ele voltou a fitar o fogo.

- Posso tentar adivinhar o motivo da sua insônia?

Ele fechou a cara.

- Não.

- Aposto que começa com Lia e termina com Ana. Nossa, tenho a impressão de que já falei isso antes.

Era divertido irritar Sirius com o problema dele. Fazia eu me esquecer de Alice e meu problema.

- Como o Pontas te aguenta, hein?

- Não faço ideia. Mas eu estou certa, não estou?

- Isso importa?

- Claro que importa! Eu gosto de estar certa.

- A convivência com a gente não está te fazendo muito bem, não é?

- Nem um pouco.

Nós dois rimos. Por incrível que pareça, é fácil conversar com Sirius. Simples como eu nunca poderia ter achado que seria.

- E você e a Alice?

Eu suspirei. Era justo. Eu o incomodara perguntando sobre o problema dele, agora era sua vez de me incomodar com o meu problema.

- Parece que ela não quer nem ouvir o meu nome. E o pior é que eu nem sei o porquê.

- Se precisar de alguma coisa...

- Obrigada, Six. – Sorri pra ele com sinceridade. É bom saber que podemos contar com alguém. – E se você precisar de algo...

- Eu nunca preciso. – Ele deu um sorriso convencido e eu ri.

- Claro que não. Mas se um dia seus super-poderes falharem... aliás, Sirius, sobre a Lia...

- Não se preocupe. – Ele parou de sorrir e voltou a se concentrar no fogo. – Eu sei o que devo fazer.

- Espero que saiba mesmo. – Disse sinceramente.

- E você, ruiva irritante? Você sabe?

Não, naquele momento eu não fazia ideia do que tinha que fazer. Por sorte, James e os outros desceram a tempo de eu escapar da pergunta.

- Bom dia, meninos. – Eu me levantei rapidamente, fugindo do sorriso maldoso de Sirius. – Dormiram bem?

Os três me encararam como se eu fosse louca. Talvez eu seja um pouco, de fato.

- Sim. – Remus foi o primeiro a responder. – E você?

- Bem também. Oi, Peter!

- Ah, oi.

- James.

- Oi, Lily.

Remus e Peter foram se sentar com Sirius, mas eu tinha plena consciência de seus olhares em minhas costas enquanto James se aproximava de mim.

- Você está bem? – Ele perguntou.

- Claro. Levantei cedo para tentar falar com a Alice. – Confessei, um pouco triste. – Mas ela ainda está dormindo.

Ele balançou a cabeça e continuou me olhando, parado a apenas alguns centímetros. Tive vontade de passar meus braços em volta de seu pescoço e beijá-lo e poderia ter feito isso, afinal nós somos namorados, mas Sirius estava ali, nos observando, e eu sabia que se tomasse a iniciativa de um beijo na frente dele, seria o meu fim. Ele nunca mais me deixaria em paz.

Por isso fiquei parada, olhando bem fundo naqueles olhos castanho-esverdeados, sentindo meu coração bater descompassado, esperando que ele fizesse alguma coisa, qualquer coisa.

Não sei por quanto tempo ficamos ali, parados, encarando um ao outro como se não houvesse mais nada nem ninguém a nossa volta, mas, por fim, ele se aproximou e me beijou.

Ouvi um assobio, na certa de Sirius, e algumas risadas. Mas não me importava. Eu não conseguia pensar, muito menos agir.

Eu só conseguia corresponder ao beijo, sem pensar nos problemas. Só me importava o momento. Aquele momento.

Depois de ouvir algumas piadinhas de Sirius sobre a situação, descemos para o café.

Havia poucas pessoas no salão principal naquele horário e estávamos tendo uma refeição em paz quando Sirius decidiu começar as implicâncias.

Mas dessa vez elas não eram dirigidas a mim.

- Ei, Pontas, olha só quem é que não está tirando o olho daqui. – Ele comentou, com um sorriso maldoso.

Eu e James nos viramos ao mesmo tempo e nos deparamos com Severo nos observando da mesa da Sonserina, com cara de poucos amigos.

- Puxa, ele vai mesmo comer aquilo? – James perguntou, com cara de nojo. Olhei para o prato de Severo, mas não encontrei nada de errado. – Deve estar empapado com o sebo que está caindo do cabelo dele.

Sirius riu com gosto.

- Não que vá fazer alguma diferença, ele já deve ter se acostumado com o gosto. Deveríamos dar um banho nele. Visando o bem estar dos alunos, é claro.

- A lula gigante poderia nos ajudar. – James se empolgou, me fazendo bufar e revirar os olhos. – Sei que ela não nos negaria um favor como esse. Visando o bem estar dos alunos, é claro.

- Querem parar com isso? – Eu me pronunciei, recebendo um olhar de agradecimento de Remus e um zombador de Sirius. James pareceu ficar sem graça, o que me surpreendeu. – Vocês não vão fazer nada!

- Pensei que não fosse mais amiga do Seboso depois que...

- Não sou. – Cortei Sirius, tentando não me lembrar daquele dia horrível. – Mas o fato é que ele não fez nada pra vocês. Por favor, pelo menos uma vez na vida, deixem-no em paz!

- Qual é, Pimenta! Não precisa exagerar! Qual foi a última vez que você viu a gente fazendo alguma coisa com o Seboso?

A pergunta me pegou de surpresa. Realmente, faz um bom tempo que eu não vejo os marotos fazendo alguma brincadeira de mau gosto com o Severo. Isso me deixou desconfiada e aliviada ao mesmo tempo. Talvez, eu disse talvez, eles estejam mesmo amadurecendo.

- Certo. Certo. – Suspirei e percebi que James continuava encarando Severo. – James?

- Ei, Pontas, não vai me dizer que se apaixonou pelo Ranhoso! – Sirius continuava sorrindo como se fosse o garoto mais incrível do mundo. Olha aonde eu fui me meter!

- Não, o problema é outro. – Poucas vezes eu vi James Potter falar tão sério. Ele encarou Sirius como se ele pudesse ler sua mente. O mais incrível é que Sirius parecia ter realmente lido, pois parou de sorrir imediatamente.

- Nada bom.

- O que houve? – Olhei de um para o outro, esperando uma resposta. Remus encarava James com uma expressão de quem sabia o que estava acontecendo. Pelo menos Peter estava no mesmo barco que eu, olhando para os três sem entender nada.

- Depois eu te conto, Lily. – James tentou me tranquilizar, mas eu ainda estava muito desconfiada. – Temos coisas mais importantes pra fazer agora.

- O que vocês estão escondendo?

- Temos? – Remus, por tentar ajudar os amigos ou porque estava mesmo curioso, fez com que minha pergunta parecesse não ter acontecido.

- O irmão da Liana. – James explicou. Sirius fechou a cara no mesmo instante, acho que ainda não conseguia pensar no Jack como irmão da Lia. – Ficamos de ajudá-lo, lembra?

- E como vamos fazer isso? – Peter se interessou também, me deixando sozinha na curiosidade do outro assunto.

- James, do que vocês estavam falando?

- Eu tenho algumas ideias. – Ele me ignorou e levantou. – Vamos.

- Por que não podem me falar?

- Agora não, Lily.

Bufei quando ele pegou na minha mão e me fez levantar também.

- Eu vou passar no dormitório. – Avisei, mal-humorada. – Quero conversar com a Alice antes.

- Tudo bem. Almofadinhas vai com você.

- Por quê? Eu não preciso de um guarda-costas!

Ele revirou os olhos.

- Acontece que eu tenho meios de falar com ele sem precisar me deslocar vários andares e se você estiver com ele, fica mais fácil de falar com você também. Você quer ou não ajudar o garoto?

- É claro que eu quero! – James me encarou com um sorriso debochado, como se dissesse que, no fim das contas, está sempre com a razão. E era um sorriso lindo. – Ah, como é que você consegue ser tão irritante?

Ele riu e me puxou para fora do salão principal. Da maneira como me puxava, parecia que íamos disputar a maratona.

Estávamos no primeiro degrau quando ouvi uma voz me chamar. James tentou continuar me carregando pela mão, mas eu parei e encarei o garoto parado a poucos metros de nós.

- Severo?

- Parece que o Seboso está mesmo com vontade de tomar um banho no lago hoje. – Sirius comentou com um visível tom de ameaça. Perguntei-me se eles seriam mesmo capazes de uma coisa dessas. Com esse frio, falta muito pouco para o lago ficar congelado. Mais do que uma marotagem, isso seria desumanidade.

- Acho bom dar o fora, Ranhoso, antes que acabe virando jantar da lula-gigante.

- James! – Soltei a mão dele, com raiva. Por mais que Severo tenha deixado de ser meu amigo, não merece esse tipo de tratamento. Ninguém merece. – O que você quer, Severo?

- Preciso falar com você. – Ele somente me encarou, como se não visse os quatro garotos ao meu lado. – A sós.

- Estou falando sério, Ranhoso. – James se colocou entre nós e sacou a varinha. – Dê o fora.

- Ele não é quem você pensa que é! – Severo olhou para James, finalmente, mas claramente estava falando comigo. – O perfeito Potter não passa de uma farsa!

- Do que está falando?

Antes que ele pudesse responder, um feitiço não verbal o atingiu. Olhei para James, prestes a repreendê-lo, mas uma gargalhada de Sirius me impediu. Voltei a olhar para Severo e, com horror, vi sua língua triplicar de tamanho, saindo para fora da boca e deixando uma poça de saliva no meio do corredor.

- Genial! – Sirius falava, empolgado. – Essa foi realmente brilhante, Pontas!

- Modéstia à parte. – James sorriu e guardou a varinha.

- O quê? – Olhei de um para o outro, esperando por uma explicação que não veio. – VOCÊS SÃO COMPLETAMENTE RIDÍCULOS!

- Calma, Lily...

- DETENÇÃO PARA OS DOIS! SEM RECLAMAÇÕES E SEM DESCULPAS! – Tentei respirar fundo para me acalmar, mas o sangue em meu rosto por si só já denunciava a minha raiva. – Hoje à noite. Vou avisar McGonagall e ela vai decidir o que fazer com vocês.

Os dois bufaram, mas não reclamaram. James tentou pegar minha mão novamente, mas eu me esquivei.

- Mudei de ideia. – Expliquei quando ele me encarou confuso. – Não vou falar com Alice agora. Vou levar o Severo até a Ala Hospitalar e pedir para madame Pomfrey dar um jeito nisso. Vocês podem ir e se quiser me encontrar, James, suba e desça quantas escadas for preciso!

No entanto, quando me voltei para Severo para acompanhá-lo até a enfermaria, ele já não estava mais lá.

- Parece que ele preferiu ir sozinho, Lily. – Remus disse, num tom apaziguador.

Não pude evitar me sentir decepcionada. No fundo sempre desejei que as coisas entre mim e Severo voltassem a ser como no começo, mas ele mudou muito.

Eu também não posso dizer que sou a mesma daquela época. Aquela Lily jamais namoraria James Potter. E jamais se apaixonaria por ele, mesmo com todos os seus defeitos.

- Nesse caso, vou falar com a McGonagall primeiro. Vocês podem ir.

- Depois eu sou o irritante. – James comentou com Sirius e recebeu um olhar duro de mim.

Mas o mais engraçado foi que, mesmo com todas as trocas de farpas entre nós, James parecia diferente, melhor do que o James que ele vinha sendo nos últimos dias. De fato, depois que eu chorei em seu ombro na sala precisa, ele parece outro. Talvez seja porque eu me descobri apaixonada por ele ou talvez o James legal só apareça nos fins de semana, não sei.

Depois de conversar com McGonagall, resolvi finalmente procurar por Alice. Eu precisava resolver aquele assunto o mais rápido possível, já não aguentava ficar tanto tempo sem falar com minha amiga.

Mas ela não estava no dormitório, nem na sala comunal. Eu não a havia visto no salão principal também e estava muito frio para um passeio pelos jardins. Só havia uma explicação: ela estava fugindo de mim.

Tentei me lembrar de nossas últimas conversas. Quando aquela distância toda havia começado?

Ela estava normal na sexta-feira, até cuidou do boneco-bebê durante o meu jantar com James. O que podia ter acontecido depois disso para fazê-la ficar daquele jeito?

Talvez estivesse com ciúmes de Liana, pensei. Afinal, era com Lia que o boneco estava antes do jantar, jantar esse que ela quem preparou. E não posso negar que depois que comecei a namorar o James, Lia se tornou uma grande amiga.

Mas era absurdo! Alice não ficaria chateada comigo àquele ponto só por ciúmes! Ficaria?

Bom, talvez isso misturado com a noite de insônia causada pelo boneco... e ter que aguentá-lo durante o jantar... quem sabe uma possível TPM ao mesmo tempo... uma briga com Frank da qual eu não tenho conhecimento...

Uma série de fatores podia ter feito com que ela se rebelasse contra alguém. E pelo visto esse alguém era eu!

Saí da sala comunal disposta a encontrá-la e exigir que ela me dissesse o que realmente estava acontecendo. Mas não fiquei sozinha por muito tempo.

- Snuffles!

Encontrei-o quando estava revistando a torre de Astronomia. Eu sabia que Alice não iria para lá se estivesse fugindo de mim, mas não custava conferir.

- Por onde você andou, garoto? Atrás de umas cachorrinhas, foi?

Ele abanou o rabo e latiu com animação. Se eu pudesse arriscar, diria que ele seria um homem dos muito mulherengos.

Eu e Snuffles percorremos boa parte do castelo à procura de Alice. Os alunos que passavam por nós ficavam espantados com o tamanho do cão preto ao meu lado.

Quando a hora do almoço chegou, James apareceu. Como ele soube onde eu estava, não faço a mínima ideia.

- Está tudo pronto. Já falei com a Liana e ela está levando o irmão para lá. Vamos?

- Pra onde?

- Você vai ver. – Então ele olhou para Snuffles, sorrindo de um jeito estranho. – Arrumou um bichinho de estimação, foi?

Snuffles rosnou para ele, que riu ainda mais. Será possível que o garoto seja tão convencido a ponto de não sentir medo de cachorro? Ele acha o quê, que até os animais o admiram?

- Acho que Snuffles não gostou muito de você. – Comentei, erguendo uma sobrancelha.

- Snuffles? – Ele riu ainda mais. – Você deu até nome? Então ele está mesmo domesticado!

Snuffles continuou rosnando e se aproximou mais de James. Pelo jeito não estava gostando da conversa.

- Ele não é meu. – Falei, tentando segurá-lo. Eu também não queria que James fosse atacado por um cão daquele tamanho. – Mas é um cachorrinho muito lindo e fofo, não é, Snuffles? Vem cá, vem, garoto!

James continuava rindo como se a situação fosse realmente muito engraçada. Sinceramente, acho que o garoto tem uns parafusos a menos.

- É um cachorrinho muito lindo e fofo, é? Cuti cuti cuti, Snuffles.

Certo, agora ele estava zoando com a cara do pobre cachorro. Como se o Snuffles fosse entender aquelas piadas ridículas.

- Vem, Snuffles. Não liga pra esse maluco, não. Eu adoro você.

Então ele parou de rosnar e tossiu o que pareceu ser uma risada. Foi estranho, na verdade. Eu me senti como se estivesse rodeada por loucos.

James, entretanto, parou de rir e franziu a testa.

- Adora, é? – Tentei entender aquele tom, mas não podia ser o que parecia. James não podia estar com ciúmes de um cachorro.

- Adoro, sim.

Ele se aproximou mais de mim, uma distância perigosa, uma vez que eu estou apaixonada por ele. Eu precisei me controlar muito para não jogar meus braços em volta de seu pescoço e beijá-lo.

- E eu?

- Você o quê?

Ele pôs as mãos em minha cintura e eu depositei as minhas em seu peito. Fechei os olhos quando ele inclinou a cabeça, mas não me beijou.

- Você me adora? – Sussurrou em meu ouvido.

Senti meu rosto esquentar, mas não respondi.

Eu poderia dizer que sim e correr o risco da vulnerabilidade. Se James tivesse certeza dos meus sentimentos, poderia me dominar com mais facilidade.

Mas eu não podia dizer que não. Primeiro, porque não era verdade e eu já havia decidido que não mentiria mais. Segundo, porque nós estamos namorando e não faz sentido namorar alguém por quem você não sente nada.

A não ser, claro, que o namoro seja um plano bolado pelo melhor amigo dele para que você consiga fazer o garoto em questão desistir de você.

Mas como essa fase já passou...

Ele se afastou depois de um tempo, sorrindo de lado, e me olhou nos olhos.

- Quem cala, consente. – Disse antes de finalmente me beijar.

Se ele não estivesse me segurando, eu teria caído mole no chão. É incrível o poder que esse maroto tem sobre mim.

Quando, por fim, nos separamos, Snuffles já tinha ido embora.

- É melhor a gente ir. – Eu disse, em voz baixa. Mal conseguia aguentar o peso do meu corpo, por isso continuei abraçada a ele.

- É. Mas eu preferia continuar aqui... – Ele me beijou novamente e eu quase o impedi de se afastar. Nós dois sorríamos feito dois bobos. – E acho que você também...

Eu fiquei vermelha com a insinuação, mas não neguei. Eu realmente preferia.

- Não vamos almoçar primeiro? – Perguntei quando começamos a subir as escadas.

- Você não sabe o que nos espera. – Ele sorriu largamente, como se estivesse satisfeito com seu trabalho.

E realmente tinha de estar.

Ele me levou até a última sala do terceiro andar, a mesma onde havia sido nosso jantar, e eu fiquei impressionada quando entramos. Só mesmo os marotos para arranjarem uma festa daquelas de última hora.

A sala estava toda enfeitada, repleta de mesas, comidas e pessoas.

A equipe de quadribol da Grifinória, da Corvinal e da Lufa-lufa estavam lá, além dos alunos do primeiro ano das três casas, que observavam os outros com admiração, e os outros três marotos.

- Eles ainda não chegaram? – James perguntou a Sirius assim que entramos.

- Pelo jeito nem vêm.

- Eles vêm sim. – Eu disse com convicção. – Mas, James, por que tanta gente?

- Ele não precisa se enturmar?

- Sim, mas eu tinha pensado em algo mais... discreto... não sei se...

- Chegaram. – Sirius avisou, em voz baixa. Não que fizesse muita diferença. Quando Lia e Jack entraram na sala, todas as conversas cessaram.

Era realmente difícil de acreditar que um garoto tão grande e corpulento pudesse ter onze anos. Mas o mais incrível era seu rosto infantil, parecia deslocado num corpo tão grande, era como se ele tivesse sido azarado por um feitiço para diminuir a cabeça ou algo assim.

- Oi, Liana! Este deve ser o seu irmão, Jack, não? – Remus quebrou o silêncio e se aproximou dos recém-chegados. – Estamos felizes que tenha aceitado o convite, Jack. Um irmão da Lia sempre será nosso amigo. Muito prazer, sou Remus Lupin.

- Lia, que bom que veio. – Eu me aproximei também, sorrindo para Remus. Eu entendi a necessidade que ele tinha em ajudar o garoto. – Olá, Jack, nós já nos encontramos antes, mas não tivemos a oportunidade de nos apresentarmos. Eu sou Lily Evans.

Jack nos olhava com olhinhos miúdos e arregalados e tentava, por mais que sua grande altura não deixasse, esconder-se atrás de Lia.

James também se aproximou e o cumprimentou, depois do choque inicial. Até mesmo Sirius acenou de longe, parecendo constrangido.

Eu, James e Remus ficamos um bom tempo conversando com Jack e Liana, tentando fazer o garoto perder um pouco da timidez. Eu não podia negar que era uma boa ideia. Com toda a fama dos marotos, quem visse Jack conversando com eles logo teria uma nova visão do garoto. Ele não sofreria mais tanto com as piadinhas de mau gosto e teria mais facilidade para se entrosar.

Os marotos, por incrível que pareça, estavam fazendo uma boa ação. Fiquei imaginando se, anos atrás, eles agiriam da mesma forma. Seria mais provável que eles fossem os caçoadores do pobre Jack.

Mas eles haviam crescido e, principalmente, amadurecido. Pelo menos o suficiente para não fazerem piadinhas maldosas com o garoto.

- Vem comigo. – James sussurrou no meu ouvido, me levando para um canto mais vazio. – E então, o que achou?

- Perfeito. – Disse sinceramente. – Acho que pode dar certo.

- Vai dar certo. – Ele deu um daqueles sorrisos convencidos que só ele sabe dar e eu sorri também. – E ainda não acabou.

- Como assim?

- Tem mais uma surpresa, só que ela ainda não chegou. – Ele olhou em volta, com a testa franzida. – Espere pra ver.

Eu ri.

- Você não imaginava, não é? – Perguntei, olhando para Jack. – Eu vi que você ficou em choque quando eles chegaram.

- Realmente, eu não esperava isso. – Ele passou a mão nos cabelos, um gesto que até pouco tempo atrás eu achava tremendamente irritante, mas não pude deixar de achar charmoso na hora. – Mas você se acostuma depois de um tempo. Ele só precisa perder aquela insegurança.

- Então eu acho que encontrei as pessoas certas para ensinarem isso a ele, não? – Rimos. – Afinal, as pessoas mais seguras de si que eu conheço são você e Sirius. – Olhei para o outro maroto em questão e vi que ele observava Liana de longe. – Se bem que aquele lá parece que não quer colaborar muito.

James riu ainda mais.

- Acho que vou lá falar com ele. – Eu disse, me afastando, mas James me segurou pela cintura e me trouxe de volta.

- Não! Fica aqui mais um pouquinho...

Eu ri e passei meus braços em volta de seu pescoço.

- Já que insiste...

Seus olhos brilhavam tanto que eu não consegui me conter e o beijei de novo.

- Ei, Hagrid! – Ouvi a voz de Sirius soar e me afastei de James, olhando curiosa para a porta.

- Hagrid! – Voltei a olhar para James e vi que ele sorria. – Você o chamou?

- Aí está a outra surpresa.

Olhei do guarda-caças para James, impressionada. Nem mesmo eu havia tido essa ideia maravilhosa.

- Isso vai ser perfeito! Vamos lá!

De fato, estávamos certos. Hagrid e Jack se deram muito bem. Se alguém pode fazer com que Jack reconheça seu próprio valor, esse alguém é Hagrid.

Em meio a comidas e conversas, a tarde passou de forma bastante rápida. Com direito a show dos marotos para os alunos do primeiro ano e uma briga entre Remus e Aninia. Dessa última, poucas pessoas souberam. Eu estava por perto quando aconteceu.

- Você é um medroso, Remus Lupin! – Aninia reclamava e me deu a impressão de que tentava beijá-lo.

- Por favor, Nini... não piore a situação...

- Eu não te entendo! Você diz que gosta de mim, mas que não podemos ficar juntos, o que você quer comigo, afinal?

- Nini...

- Está bem! Se você não quer, não vou insistir, mas se eu não posso te ter por completo, não quero mais nada!

- Nini! Espera!

E então ela saiu da sala quase correndo, parecendo estar com muita raiva.

Como Sirius e Peter não estavam à vista e James estava ocupado conversando com alguns membros da equipe de quadribol, fui até Remus.

- Está tudo bem? – Perguntei, sentando ao lado dele.

- Mais ou menos. – Ele admitiu, cabisbaixo.

- Quer conversar? Vocês brigaram?

Ele suspirou e desviou o olhar.

- Não se preocupe, Lily. Você não iria entender...

- Ah, eu entendo. Mas acho que você não pode viver a vida toda se escondendo dos relacionamentos só por causa do seu probleminha.

Seu rosto perdeu a cor quando ele voltou a me fitar, apavorado.

- Você... sabe? Foi... foi o Pontas, não foi?

- Eu sei, sim. E não, não foi o James quem me contou. Na verdade há algum tempo eu tenho uma... desconfiança...

Quem começou com a história foi Severo, na verdade, mas eu me recusava a acreditar naquelas bobagens. Com o tempo, porém, fui percebendo que ele tinha razão. Era muita coincidência Remus ficar doente uma vez por mês, sempre na lua cheia. E aquela palidez. E a fraqueza. Sim, ele é um lobisomem.

- E você não vai... fugir?

Eu revirei os olhos.

- Tem certeza de que você tem dezessete anos, Remus? Eu sempre me perguntei o que um garoto tão ajuizado como você poderia estar fazendo num grupo como o dos marotos, mas agora entendo. Você também tem, afinal, a mentalidade de um garoto de onze anos!

Ele riu, aliviado.

- É que não é algo que as pessoas aceitem numa boa.

- Seus amigos aceitaram. – O lembrei. – E se Aninia realmente for uma garota legal, também vai aceitar.

- Eu não posso contar, Lily.

- Por quê? Acha que ela vai sair correndo? – Ele fez uma careta e eu revirei os olhos. – É por isso que você não quer assumir o namoro pra todo mundo?

- Eu queria mesmo era terminar tudo com ela, mas não consigo. É muito ruim ter que ficar mentindo, Lily. A lua cheia já está chegando, o que é que eu vou dizer pra ela?

- Mentir é chato mesmo. – Concordei, entendendo o lado dele. – Mas só por isso você vai jogar a felicidade no lixo?

- Se eu não contar, ela vai acabar descobrindo sozinha. Não sei se estou pronto pra isso.

- Você tem medo de que ela... espalhe o segredo?

- Não, ela não faria isso.

Eu não tinha tanta certeza, mas resolvi guardar essa opinião para mim mesma.

- Bom, eu acho que você está se precipitando querendo terminar o namoro. Converse com ela, assuma o compromisso e depois você resolve o que faz. Sabe, Remus, ultimamente estou percebendo que o que vale mesmo é viver o presente e deixar para se preocupar com o futuro quando ele chegar.

Ele sorriu.

- Está falando do Pontas?

Senti meu rosto corar e sorri, sem graça.

- Mais ou menos.

- Vocês parecem estar bem. Ele não para de olhar pra você.

Olhei para trás e percebi que ele estava certo. Meus olhos encontraram os de James e ele sorriu. Não pude evitar, retribui.

- É... ele está... diferente...

- Você também.

Corei ainda mais. Às vezes me esqueço de que, dos marotos, apenas Sirius sabe do plano.

- Espero que seja um diferente para melhor, então.

A tarde chegou ao fim e os alunos começaram a ir embora. Havia pouca gente na sala quando Sirius se aproximou de Liana, que sentara numa ponta de um sofá e observava o irmão rir de algo que Hagrid contava.

James estava comigo e também viu. Sem fazer barulho, ele me puxou para um canto escuro, longe dos olhos das outras pessoas, tirou do bolso uma capa fina e a atirou sobre nós. Eu já havia esquecido completamente que James possuía uma capa da invisibilidade!

- O que estamos fazendo? Isso não é certo!

- Ah, você também está curiosa!

- Estou, mas...

Ele colocou o dedo indicador sobre meus lábios, pedindo silêncio, e eu obedeci.

Chegamos bem perto dos dois e esperamos. Lia olhava para as próprias mãos e Sirius, sentado do outro lado do sofá de três lugares, observava Jack.

- Obrigada. – Foi ela quem quebrou o silêncio, encarando Sirius com sinceridade. – Por ajudar ele.

- Eu não fiz nada. – O tom dele era seco. – Foi tudo ideia do Pontas e do Aluado. Não ajudei em nada. – Liana desviou o olhar, magoada, e Sirius suspirou, arrependido pela grosseria. – Desculpe. Eu queria ter... ajudado.

O rosto de Lia se abriu em um sorriso.

- Almofadinhas está perdendo o jeito. – James sussurrou no meu ouvido. – Nunca o vi agir com tanta insegurança perto de uma garota.

- É o que acontece quando se está apaixonado. – Eu retruquei, sentindo as borboletas em meu estômago. Ele estava tão perto...

- Como você sabe? – Ele perguntou, numa voz sedutora. – Já se sentiu assim?

Agora meu coração parecia querer sair pela boca. Meu corpo estava encostado no dele e só por isso eu não caí no chão.

- Você já? – Fugi da pergunta na esperança de que ele desistisse do assunto e voltássemos a atenção para a outra conversa. Nós dois, num espaço tão pequeno, falando em sussurros não ia dar muito certo.

Mas ele não mudou de assunto, apenas piorou a situação.

- Toda vez que estou com você.

O pior é que ele parecia sincero. Depois daquela frase, não aguentei o peso do meu corpo e me encostei mais nele, buscando apoio. Senti seus braços enlaçarem a minha barriga e seu queixo descansar em meu ombro. A posição era tão boa que foi difícil voltar a prestar atenção em Liana e Sirius.

- ...que eu fizesse o quê? Fosse seu namorado?

Eu já havia perdido uma boa parte da conversa, então precisei me concentrar para entender o que estavam falando. Não que estivesse sendo fácil me concentrar com James me abraçando por trás.

- Eu seria uma idiota se quisesse isso, não é mesmo? Afinal, quem sou eu para merecer um relacionamento sério com o poderoso Sirius Black? – O tom de Liana era ácido. – Um ser que ama apenas o próprio reflexo do espelho!

- É isso o que você pensa de mim, Liana?

- E o que mais eu poderia pensar, Sirius? Você faz questão de cultivar essa imagem. Eu achava que pudesse ter um coração pulsando aí dentro, mas estava enganada.

Então ela se levantou para ir embora, mas Sirius foi mais rápido, levantou-se e a segurou pelo braço, fazendo-a voltar-se para ele de novo.

- Não vá embora.

- E o que eu vou fazer aqui, Sirius, se só o que eu recebo são palavras ásperas e atitudes grosseiras?

- Pode ter isso. – Ele a trouxe para mais perto e a beijou com força. Eu me senti mal de estar observando aquela cena, mas James não me deixou mover um centímetro. O beijo não demorou muito, pelo menos. Sirius se afastou, ainda a segurando e exibindo um sorriso enorme. – O que acha?

Ela se desvencilhou fazendo o sorriso dele murchar. Sua expressão era firme, ela não ergueu a voz.

- Acho que não vale a pena. Beijos, carinhos, tudo isso vai acabar no dia seguinte, não é? Sirius Black não é homem de uma mulher só.

- E você prefere não ter nada, é isso? – Ele parecia estar impressionado e com raiva ao mesmo tempo.

- Prefiro. Não gosto de homens covardes.

- Covarde? Você está sendo covarde, não eu!

- Covarde sim! Você tem medo de se envolver com alguém, Sirius. Tem medo de relacionamentos sérios. É um covarde.

- Se é isso o que você acha, então pode ir embora.

- É exatamente o que eu vou fazer.

Com uma expressão de dar dó, Liana virou as costas e se foi. Sirius ainda deu uns passos incertos, praguejando.

- Vai! Vai embora! Quem precisa de você? Eu não!

Senti James suspirar em meu ombro.

- Acho melhor sairmos daqui e tirarmos a capa. Ele vai ficar furioso se souber que estávamos espiando.

Concordei e nos afastamos.

- Vá para a torre. – Ele disse depois de guardar a capa. – Vou falar com ele, depois encontramos você lá e vamos jantar. Pode ser?

- Claro. Faça com que ele se acalme um pouco.

Ele sorriu e me deu um selinho antes de eu sair.

Já na torre da Grifinória, peguei um livro e sentei em uma das poltronas. Quase não vi a sala comunal esvaziar, os alunos foram descendo para o jantar até que me vi sozinha. Quero dizer, quase sozinha.

- Remus me disse que você já sabe. – Aninia sentou numa poltrona perto da minha e eu deixei meu livro de lado.

- James me contou.

- Desculpe por ter escondido... eu devia ter imaginado que você ficaria mal... com todos aqueles comentários maldosos...

- Não. Tudo bem. As pessoas são muito maldosas às vezes.

- É verdade. Eu também nunca fui muito simpática com você. Desculpe por isso.

- Eu não posso dizer que tenha sido o exemplo da simpatia.

O problema é que nos conhecemos numa situação muito delicada, completei mentalmente.

Ela sorriu com sinceridade e eu percebi que poderia gostar dela se fizesse um pequeno esforço. Realmente, Aninia parecia muito melhor do que das outras vezes que eu a vira. Será possível que eu tenha imaginado toda aquela antipatia?

- Você não parece muito bem. Se precisar conversar com alguém, eu estou aqui. Pode contar comigo.

Isso fez com que eu me lembrar de Alice. Parecia que eu podia contar com todo mundo, menos com a minha melhor amiga.

- Não, tudo bem. Está tudo bem.

Ela suspirou e sorriu de novo.

- Você gosta dele, não é?

Ela parecia ter acabado de fazer aquela descoberta. Eu não me surpreendi. Eu própria descobri há pouco tempo.

- É. Eu gosto. – E ficou muito mais difícil negar depois que eu admiti pra mim mesma.

Ela suspirou de novo e baixou a cabeça, quase como se estivesse sentindo culpa. Minha mente começou a viajar, imaginando se não poderia haver realmente algo entre ela e James. Talvez Remus também estivesse sendo traído e não só pela namorada, mas pelo melhor amigo. Não demorei muito para descartar a ideia.

Eu podia acreditar que James traísse uma namorada, que me traísse, mas trair um dos marotos? Não. Nunca. Disso eu tenho certeza absoluta.

- Ele também gosta de você. Mais do que quer admitir. – Olhei para ela, surpresa. – Às vezes, pode parecer que não, Lily, mas ele gosta sim. O James é muito... rancoroso...

- Rancoroso? – Eu não entendia aonde ela queria chegar.

- Eu não fazia ideia de que você gostava mesmo dele... isso muda tanta coisa...

- Muda o quê? Do que você está falando?

- Você precisa ser sincera comigo... você gosta mesmo dele? De verdade? O James é meu amigo, Lily, eu não quero vê-lo sofrer.

- Infelizmente, eu gosto dele. Eu... eu estou apaixonada pelo James.

Antes que Aninia pudesse falar qualquer outra coisa, ouvimos um barulho e nos viramos.

Alice estava parada na passagem do retrato, em prantos.

- Lice? O que aconteceu?

Tentei me aproximar dela, imaginando se ela e Frank haviam brigado ou se talvez algo mais grave pudesse ter acontecido, mas ela se desvencilhou e saiu pela passagem.

- Sua amiga precisa de você. – Aninia se levantou e sorriu pra mim. – Depois conversamos.

Acenei para ela e saí atrás de Alice.

- Alice! Volta aqui! ALICE! – Segurei-a pelo braço e a fiz virar de frente para mim. – Agora, me fala o que está acontecendo!

- Eu não quero falar com você, Lily Evans! Não quero! Você mentiu pra mim! Você me disse que não gostava dele! Eu achei que fosse minha amiga, achei que me contaria tudo, mas você não contou! Você escondeu de propósito! Pra Liana você contou! E agora pra Jones também! Eu sou pior que elas? Me diz! Eu sou pior do que a Jones pra você confiar mais nela do que em mim? Justo ela! Você sabe o que estão dizendo por aí! Estão dizendo que ela e o James estão se encontrando escondidos! E mesmo assim você ainda confia mais nela do que em mim!

- Alice, calma! – Eu não pude evitar um sorriso. Estava com saudade do falatório de Alice. Mas fiquei com medo de que ela tivesse algum ataque. Por Merlin! Ela precisava respirar! – Eu acho que você entendeu tudo errado.

- Não! Eu ouvi você contando pra ela! Você disse que está apaixonada pelo James e...

- Sim, sim, eu sei, Lice...

- E disse pra Liana também! Antes de dizer pra mim! Eu pensei que eu fosse sua melhor amiga!

- Continua sendo...

- Mas você não me contou! Você contou primeiro pra ela!

- Não tinha como eu te contar, Alice! Você estava me evitando, esqueceu?

- Mas antes disso você já tinha contado pra ela!

Franzi a testa, tentando entender. Alice estava me evitando desde sexta à noite e foi no sábado a tarde que eu descobri estar apaixonada...

- Não, Alice... você está enganada...

- Ela até fez um jantar pra vocês, Lily! Você não pode negar isso!

O jantar! As coisas começaram a fazer tanto sentido que eu comecei a rir. Ela me olhou confusa.

- Ah, Alice! Sinto muito, mas você tirou as conclusões erradas...

Alice estava comigo quando eu encontrei Liana na frente do salão principal no fim da tarde de sexta-feira.

"- Eu vou ficar com ele mais um pouco. Lembra que eu disse que a ajudaria a se acertar com o James? – Senti meu rosto corar e os olhos de Alice em cima de mim. Eu sabia que não importaria o que eu falasse depois, aquilo, dito daquela forma por Liana, a fizera comprovar sua teoria de que eu estou apaixonada pelo James. – Vou ficar com o bebê enquanto vocês conversam.

- Não entendo por que vocês insistem em chamar essa coisa de bebê. – Reclamei, tentando mudar de assunto. – Lia, eu não vou me sentir bem se você continuar com ele. Já abusei demais de você.

- Eu posso ficar com ele. – Alice se meteu, parecendo mais mal-humorada que antes. Ela não queria realmente ficar com o boneco, mas estava fazendo isso por mim! Eu tenho ou não tenho as melhores amigas do mundo?

- Bom, então tudo bem. Obrigada. – Liana entregou o boneco e a mochila para uma Alice emburrada e se virou para mim. – Agora, nós. Está na hora de fazer você se acertar com o seu namorado. Vocês não podem ficar brigados!

- Certo, mas podemos fazer isso depois do jantar? Estou faminta!

- Não. Tem que ser agora. Vem comigo. – Lia saiu andando e eu precisei correr para acompanhá-la. Olhei para trás e vi Alice nos encarando, ainda emburrada.

- Obrigada, Lice! – Gritei, antes de começar a subir novamente as escadas, mas ela não respondeu, apenas continuou nos encarando com a expressão fechada."

Eu só não podia imaginar que Alice pensara que eu havia contado para Liana que estava apaixonada pelo James!

Ela se sentira traída, deixada de lado. Não pude deixar de me sentir um pouco culpada.

Expliquei-lhe exatamente o que havia acontecido na sexta-feira e ela pareceu ficar envergonhada pela atitude precipitada. Falei também sobre minha conversa com Lia, no sábado, sobre a descoberta de realmente estar apaixonada e sobre Remus e Aninia. Eu decidi que não esconderia nada de Alice. Minha amiga fizera muita falta e eu não consegui sentir nada que não fosse alívio por tudo ter terminado bem.

- Ah, Lily, me desculpa mesmo! Eu fui uma idiota! Mas é que eu estava tão nervosa naquela noite, recebi uma carta de Frank me contando que os desaparecimentos estão aumentando, apesar do profeta abafar o caso. Eles não estão querendo causar pânico, mas Frank disse que a situação está muito pior do que a gente pode imaginar. Acho que eu estava muito impressionada com isso e com medo por ele estar lá fora, sujeito a todos esses males, que acabei descontando tudo em você! Me desculpa?

Eu suspirei e sorri.

- Com uma condição. Da próxima vez, ao invés de me ignorar, venha conversar comigo, está bem?

Ela sorriu também.

- Está bem. – E me abraçou com força. – Senti sua falta, Lily.

- Eu também. Muita.

Depois de finalmente me acertar com minha amiga, senti meu coração leve de novo, apesar de a conversa com Aninia ter me deixado um pouco intrigada. Ou a garota é maluca ou tem algo de muito estranho acontecendo.

Eu tinha muito que conversar com Alice, afinal meus dias estão sendo cheios, então voltamos para a sala comunal e aproveitamos que ainda estava vazia. Aninia devia ter ido jantar.

Ela me contou que passou o dia todo me procurando, mas como eu estava ajudando o Jack, ela acabou não me encontrando. Quando ela chegou à sala comunal e me viu conversando com a Aninia, estava decidida a conversar comigo, mas depois do que ouviu, ficou com ainda mais raiva de mim.

Felizmente, tudo se resolveu da melhor maneira.

Alice ouviu tudo o que eu tinha para dizer com atenção e desembestou a falar em algumas partes, mas o que mais lhe chamou a atenção foi quando eu contei da 'conversa' com Severo, hoje de manhã.

- Ele parece ter ficado bem perturbado.

- Eu sei. Sabe, Alice, eu não posso dizer que não gosto dele. Eu queria muito que fôssemos amigos, mas não dá mais...

- Lily, eu acho, sempre achei, que ele te via mais do que como amiga. Na verdade, ele te vê mais do que como amiga. Você sabe disso, não é?

- É eu sei.

- E isso não muda nada?

- Sei que ele sente algo a mais por mim... agora eu sei... mas não dá Alice! Da minha parte sempre foi só amizade! Eu não consigo gostar dele dessa forma, ainda mais depois de tudo...

- Eu sei...

- Às vezes eu queria arrancar aquele sentimento do coração dele. Parece que ele nunca vai me deixar completamente em paz.

- Se fosse tão fácil assim...

- Eu queria que ele nunca mais viesse falar comigo. Eu queria encontrar uma maneira...

- Deve ser complicado, não é? Saber que alguém gosta de você, mas você não sentir o mesmo pela outra pessoa. Acho que tenho que agradecer por ter o Frank do meu lado.

- É... é quase tão ruim quanto gostar de alguém que não gosta de você...

Levei um susto quando ouvi uma porta bater lá em cima. Na certa algum aluno desastrado que deixou a janela aberta e a porta desencostada.

- Mas você não pode estar se referindo ao James, amiga. – Alice sorriu e piscou. – Está na cara que ele também gosta de você.

Eu também sorri. Afinal, depois do dia de hoje, estou até acreditando que isso seja mesmo possível.