O dia depois do 10º Dia

Foi engraçado quando acordei, eu não me lembrava de muita coisa. Na verdade, estava confusa. E doída.

Minhas costas foram as primeiras a reclamar quando tentei me ajeitar na cadeira desconfortável. Cadeira?

Um tecido fino que me cobria dos pés à cabeça escorregou quando movi o pescoço, tentando me livrar da dor muscular. Foi só aí que me dei conta de que estava na Ala Hospitalar e que James Potter estava deitado inconsciente na maca ao meu lado. As imagens do dia anterior, da semana, na verdade, vieram com tanta força que me senti zonza, ou talvez fosse apenas porque eu estava há muito tempo sem comer.

Lembrei-me de que Madame Pomfrey havia me expulsado da Enfermaria na noite anterior. Dissera que James só acordaria hoje de manhã e que eu fosse dormir tranquila na minha cama quentinha e confortável.

Claro que eu não quis, mas ela estava irredutível. Saí de lá pensando numa forma de entrar escondida depois e encontrei um grande cachorro preto no corredor.

- Snuffles! – Exclamei, feliz, enquanto me abaixava ao seu lado para fazer carinho. – Como soube que eu estava aqui, hein, garotão?

Ia me sentar ao seu lado quando percebi que havia algo ali, uma capa. Peguei-a.

- A capa de Invisibilidade do James! – Olhei para Snuffles e comecei a rir. – Sirius deve ter deixado aqui pra mim.

Ele latiu, parecendo concordar com meu ponto de vista. Depois levantou e foi embora.

Balancei a cabeça, rindo e imaginando como um cachorro como aquele podia ser tão desprendido. Então me cobri com a capa e entrei novamente na Enfermaria.

Levou algumas horas até que eu adormecesse.

- Já voltou? – Dei um pulo ao ouvir a voz da Madame Pomfrey e tentei desfazer minha cara de culpa (e de sono).

Disfarçadamente, olhei para o relógio da Enfermaria, mal passava das oito horas. Eu havia acordado cedo para um sábado. Não, domingo. Não.

Senti uma onda de pânico me invadir quando tentava me lembrar em que dia da semana nós estávamos.

TERÇA!

Era terça-feira, eu estava atrasada para a aula de Transfiguração!

Eu ainda podia ouvir a minha promessa de que não me atrasaria novamente, feita na semana passada. Podia ouvir a voz desapontada da professora McGonagall. E eu estava atrasada DE NOVO!

Tentei não deixar meu desespero transparecer. Se Madame Pomfrey soubesse que eu tinha uma aula naquela hora, me expulsaria com certeza.

- Bom dia! – Pulei na cadeira ao ouvir Alice entrar na Enfermaria. Eu deveria ter imaginado que ela não ia me deixar perder aula sozinha. – Como ele está?

- Muito melhor. – Madame Pomfrey nos lançou um olhar amável. – Seus ossos estão completamente recuperados e a contusão na cabeça, curada. Agora só precisamos esperar que ele acorde.

Eu tentei sorrir em resposta, mas estava com uma dor de cabeça horrível.

- Você está bem, querida?

- Ah, sim, estou... – Gaguejei um pouco, tentando disfarçar. A enfermeira não podia nem sonhar que eu havia passado a noite ali. – Só... não dormi muito bem... estava... preocupada...

- Entendo. Agora, vocês não têm aula? – Ela nos olhou com desconfiança, mas Alice foi suficientemente rápida em responder.

- Ah, não. Temos um período livre agora. A propósito, eu trouxe sua mochila, Lily, assim podemos sair daqui direto para a próxima aula.

Eu peguei minha mochila e sorri, agradecendo duplamente. Só mesmo a Alice para mentir para Madame Pomfrey com tanta naturalidade.

- O quê? Vocês duas já estão aqui?

Eu precisei me controlar para não rir da cara de dissimulado que Sirius fez ao entrar na enfermaria. Peter vinha logo atrás, com cara de quem não dormia há dias.

- Bom dia pra você também, Sirius.

Madame Pomfrey reclamou do barulho e nos fez sair da enfermaria alegando que teríamos aula dentro de pouco tempo. Eu protestei, por mais que estivesse com raiva de James, e isso me lembrou, naquela hora, que eu também devia estar com raiva de Sirius, eu não conseguia sair de perto dele sem me sentir mal.

Mas resolvi que seria melhor eu estar bem alimentada quando ele acordasse. Nós ainda teríamos muito o que conversar.

Como que concordando com meus pensamentos, meu estômago decidiu dar um gigantesco ronco, que ecoou pelo corredor, fazendo com que Alice e Sirius me olhassem num misto de divertimento e preocupação. Contudo, a frase que eu mesma estava prestes a proferir foi dita por Peter:

- Vamos pra cozinha? Eu estou com uma fome!

Na cozinha, cercados pelos elfos domésticos, Sirius me puxou para longe dos outros dois. Pela sua expressão, eu sabia exatamente sobre o que, ou melhor, sobre quem ele queria falar.

- Pimentinha, depois de tudo o que aconteceu ontem... – ele olhou para os lados para ter certeza de que mais ninguém estava prestando atenção em nós – não consegui conversar com a... com ela. Ela está me evitando a todo custo.

- Ela não quer falar com você, Sirius. – Eu sorri, meio sem graça. Lá no fundo, eu estava curtindo um pouco aquela situação, como se fosse uma vingança por ele ter me traído em relação ao nosso plano.

- Mas ela vai ter que falar comigo! Ela não é idiota de perder um partidão como eu! – Ele sorriu com malícia, mas logo murchou de novo. – Pimentinha, por favor! Me ajuda!

- Por que eu deveria?

- Porque eu sou lindo, charmoso e gostoso?

Eu revirei os olhos e tentei me afastar, mas ele me puxou de volta.

- Ok, ok! Eu errei com você, me desculpe! – Foi a vez de ele revirar os olhos. – Mas eu realmente achei que essa história fosse terminar bem. Ele te ama, Pimentinha. Ele só está um pouco... confuso.

Eu suspirei. Era difícil acreditar em qualquer coisa naquele momento.

- Ele me fez sofrer tanto, Sirius. Eu decidi ser sincera e ele me apunhalou. Eu não sei de mais nada. – Ficamos algum tempo em silêncio, como que tentando digerir todas as informações. Até que eu me lembrei do real assunto daquela conversa. – Mas está bem, Sirius. Se você realmente gosta da Liana, eu vou te ajudar.

- Pimentinha, você é a melhor! Então, qual o plano?

- Eu tenho uma ideia, mas o plano vai ficar por sua conta. Você precisa mostrar que confia nela. Pense em algo que você jamais diria pra uma garota qualquer. Algo que apenas seus amigos mais íntimos saibam. Mostre o quanto você confia nela e ela vai saber que o seu sentimento é verdadeiro.

Ele pareceu pensar seriamente sobre o assunto durante alguns segundos, até que abriu um grande sorriso.

- Eu sei exatamente o que fazer! – Ele me abraçou e me girou, rindo, antes de completar, baixinho para que só eu ouvisse. – Leve-a para a torre de astronomia no horário do almoço e deixe o resto por minha conta.

Eu não conseguiria assistir às aulas da manhã, então pedi para Sirius distrair Alice enquanto eu voltava para a Enfermaria sob a capa da invisibilidade.

Ele sorriu maliciosamente para mim e se aproximou de Alice. Colocou o braço em torno de seus ombros e perguntou:

- Então, como vai nosso amigo Frank? Anda ocupado demais lá fora para dar atenção a uma garota tão encantadora como você? Eu posso ajudá-la, se esse for o caso.

Reprimi um riso e me cobri rapidamente com a capa. Não poderia esperar outra atitude vinda daquele maroto.

Voltei para minha conhecida cadeira na Ala Hospitalar. Madame Pomfrey não estava à vista.

Além de James, havia outras duas macas ocupadas. Uma por um garoto novo, primeiro ou segundo ano, da Corvinal. Ele estava com a pele cheia de bolinhas azuis e verdes, algumas com pus. Não era uma visão agradável.

A outra maca estava com a cortina fechada. Ainda debaixo da capa, eu me aproximei e abri uma fresta.

Como eu pensava. Remus estava lá e dormia profundamente. Tinha uma expressão abatida, um pouco pálida, e alguns arranhões, mas nada de preocupante.

Fiquei na Enfermaria, protegida pela capa dos olhos de quem passasse por ali, durante o resto da manhã. Foi só perto da hora do almoço que James acordou.

Madame Pomfrey estava cuidando do garoto de bolas azuis e verdes, então eu não podia tirar a capa. Fiquei imóvel, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Logo ela se aproximou para examinar James.

- Tudo bem, está tudo perfeitamente bem. Foi uma pancada forte a que você recebeu. Não sei como podem permitir esses esportes tão violentos! Mas, bem, você já pode ir. Mas vá direto para o salão principal! Ficou desacordado durante muito tempo e precisa se alimentar!

James assentiu e se levantou. Antes de sair, porém, foi até a maca de Remus.

Eu não sabia o que fazer. Depois de tanto tempo à cabeceira daquela maca, minha raiva havia se aplacado e tudo o que eu queria era adiar aquela conversa.

James errou, sim. Ele sabia de todo o plano e me enganou de uma forma terrível. Mas eu também o enganei, eu feri o seu orgulho ao aceitar aquele plano e ele se sentiu no direito de dar o troco na mesma moeda. Eu não podia condená-lo por isso.

Mas nós ainda tínhamos que conversar. Desta vez sem máscaras nem planos. E eu estava muito nervosa com essa conversa.

O segui à distância no corredor. Estava me preparando para tirar a capa e chamá-lo quando alguém apareceu. E outro. E mais outro. As aulas haviam terminado e os corredores começaram a ficar apinhados de alunos. Eu não conseguiria conversar com James ali. Não conseguiria nem mesmo tirar a capa sem ser percebida.

Segui então o caminho oposto ao dele e subi para o dormitório masculino, na torre da Grifinória.

Deixei a capa dobrada sobre a cama de James e desci. Eu ainda precisava ir até o salão principal para convencer Lia a ir comigo até a torre de astronomia.

- Lily.

Quase caí da escada, mas era apenas Aninia. Tentei recuperar o fôlego. Acho que ando muito assustada ultimamente.

- Oi. Tudo bem?

- Tudo. – Era uma situação meio tensa, principalmente levando em conta a nossa última conversa. Agora eu entendia o que ela estava querendo me dizer no domingo. – James está melhor?

- Ah, está sim. Deve estar no salão principal agora.

- Isso quer dizer que vocês ainda não conversaram?

- Ainda não.

Ela assentiu em silêncio. Sirius deve tê-la colocado a par de toda a situação na noite de ontem enquanto eu estava na Ala Hospitalar com James.

- Desculpe. – Ela me surpreendeu com o pedido.

- Por quê?

- James me pediu para agir daquela forma... e eu acabei concordando... não devia ter feito isso, mas você foi realmente infeliz nesse seu plano, Lily. Na hora, eu pensei que você merecesse mesmo sofrer um pouco.

Eu sorri, sem graça

- Não se preocupe. No fundo, acho que eu merecia mesmo.

Ficamos em silêncio durante alguns segundos, num clima um pouco constrangedor.

- Eu não vi o Remus hoje. – Ela comentou, uma pergunta disfarçada.

- Ele está um pouco indisposto.

- Está lá em cima? – Ela deu um passo na direção das escadas.

- Não, não. Está na Enfermaria.

- Enfermaria? – Ela parecia alarmada. – É grave?

- Não. Mas talvez fosse bom se você o visitasse. – Eu não sabia se estava agindo certo, mas por algum motivo misterioso eu comecei a confiar em Aninia e queria que ela e Remus se resolvessem. Senti que devia dar esse empurrãozinho.

- Sim. É o que eu vou fazer. – Ela sorriu. – E você? Vai falar com James?

- Preciso resolver uns assuntos antes de almoçar. Depois... bom, eu não sei... nós temos muito o que conversar...

- Têm sim... bom, boa sorte, então.

- Obrigada.

Esperei que ela saísse, rumo à Ala hospitalar, para enfim descer para o salão principal. Observei os marotos, exceto Remus, comendo à mesa da grifinória, mas me dirigi para a mesa da corvinal. Liana se levantou assim que me viu, parecendo preocupada.

- Lily! Eu soube do que aconteceu com o James! Como ele está? – Ela se aproximou um pouco mais, evitando ser ouvida pelas colegas da grifinória. – Como vocês estão?

- É sobre isso que eu queria conversar. Podemos dar uma volta?

- Claro!

Ela acenou para alguns colegas e me seguiu para fora do salão principal. Antes de sair, dei uma olhada para a mesa da grifinória, mas Sirius não estava mais lá. James, no entanto, também estava me observando. Apressei o passo, com medo da conversa que teríamos uma hora ou outra.

Não me senti tão mal enquanto fazia o caminho da torre de astronomia, como se estivéssemos apenas caminhando e conversando. Era muito bom poder conversar com Liana depois de tudo o que tinha acontecido. De uma forma ou de outra, eu precisava daquela conversa, então não era como seu eu estivesse usando aquele momento como desculpa para levá-la até Sirius.

Quando chegamos à torre, eu já havia contado tudo e Liana tentava me convencer de que eu devia ir logo conversar com James e resolver aquela história. Mas nós não éramos as únicas na torre, tampouco era Sirius quem estava lá.

- Snuffles! – Eu exclamei ao ver aquele grande cachorro preto, que, incrivelmente, parecia aparecer nos lugares por mágica. E eu não tinha ideia do quanto estava certa.

Snuffles se aproximou de nós devagar e instantes depois não era mais Snuffles que estava ali. Era Sirius.

Sirius era Snuffles? Snuffles era Sirius? SIRIUS É UM ANIMAGO!

Eu teria caído pra trás, mas a raiva me dominou e me impulsionou pra frente.

- VOCÊ. ESTAVA. ME. SEGUINDO?

- Calma, Pimentinha! – Ele deu alguns passos pra trás. – Eu posso explicar!

- EU NÃO ACREDITO QUE ALÉM DE TUDO, ELE MANDOU VOCÊ ME SEGUIR!

- Calma, Pimentinha, não é tão ruim assim...

- Você é um animago? – A voz de Liana me tirou daquela ira repentina e eu lembrei o porquê daquilo. Sirius ia revelar um segredo para que Lia confiasse nele. Mas por esse segredo nem eu esperava!

- Eu precisava que visse isso. – Ele falava com ela agora, e eu resolvi me afastar um pouco para dar mais privacidade a eles. – Quem sabe assim você possa confiar em mim. Eu não quero te magoar, Lia.

- O que... o que você quer dizer com isso?

Ele se aproximou o suficiente para segurar em suas mãos e até eu me senti arrepiada de ver aquela cena. Estava me sentindo uma intrusa, mas não conseguia parar de olhar.

- Quero dizer que eu... gosto muito de você. De verdade.

- Eu também gosto muito de você, Sirius.

Foi quando os beijos começaram e eu percebi que já era hora de ir.

Aquela cena me comoveu e eu me lembrei de outro maroto e seus beijos e carinhos. De repente me bateu uma vontade de chorar, de voltar no tempo e jamais ter começado aquela história. Ou, quem sabe, de ter simplesmente aceito um dos convites dele para sair. Naquele momento eu percebi que nós podemos dar certo, nós demos certo, pelo menos durante um curto período de tempo. James pode ser doce, amável, carinhoso. Pode ser tudo o que eu sempre sonhei. Mas o que eu não tinha certeza, naquela hora, era se eu posso ser tudo o que ele sempre sonhou.

E foi pensando nisso que eu esbarrei em alguém, a caminho do salão principal, com minha barriga reclamando de fome.

- Desculpe. – Falamos, ao mesmo tempo, James e eu.

- Oi... – Eu disse, surpresa por encontrá-lo tão cedo. Eu achava que teria tempo para me preparar para aquele encontro. – Como está se sentindo?

- Bem. – Ele respondeu, seco.

- Nós... precisamos conversar.

- Precisamos?

O tom frio dele me fez gelar por dentro, mas eu tentei não demonstrar.

- Sim. Precisamos.

Mas eu não consegui continuar. Ficamos algum tempo nos encarando. O castelo parecia silencioso. O dia estava bonito e certamente os alunos estavam aproveitando para dar uma volta nos jardins enquanto não chegava o horário das aulas da tarde.

Foi James quem resolveu acabar com aquele silêncio.

- Almofadinhas disse que você não saiu da enfermaria nem por um minuto.

- É...

- Por quê? Não estou entendendo, Lily! Não era isso o que você queria? Se livrar de mim? Não precisa mais fingir!

- Eu não estava fingindo! Eu fiquei preocupada com você!

- Claro! – Ele riu, sem humor. – "Eu queria arrancar aquele sentimento do coração dele. Parece que ele nunca vai me deixar completamente em paz."

- O quê? Do que está falando?

- Não se lembra disso? Quem sabe você se lembre de quando disse que queria que eu nunca mais fosse falar com você... vai dizer que não se lembra disso também?

- O quê? James... não!

- Eu ouvi, Lily! Ouvi muito bem quando você disse pra Alice que não consegue gostar de mim da mesma forma que eu gosto de você! Pode parar de fingir agora!

Só então me dei conta de que ele estava falando da conversa que tive com Alice sobre Severo. Aquela capa pode servir pra muita coisa boa, mas, definitivamente, só tem me trazido dor de cabeça e desentendimentos!

- Não... você... ah! Você é um idiota, James Potter! – Comecei a socar cada parte do corpo dele que eu encontrava pela frente. – Você... é... um... idiota... idiota! Como... pôde... pensar...? Ah! Idiota!

- Quê? Ai! Lily! Ai! Para! Para com isso!

Ele segurou meus pulsos enquanto eu me recuperava.

- Eu não estava falando de você! – Desabafei, cansada. – Não era de você!

- Não? – Ele franziu a testa. – Mas, então... de quem...?

- Severo! Era dele que eu estava falando!

- Ranhoso? – Ele fez uma careta, e então começou a sorrir. – Isso quer dizer que...

- Quer dizer que eu não quero que você vá embora, seu idiota! Eu te amo!

Ele não deixou que eu falasse mais nada e me puxou para os seus braços e para o beijo mais apaixonante que eu sonhei receber um dia.

Mais tarde, depois de todas as aulas, eu e James estávamos sentados, abraçados, numa das poltronas da sala comunal, conversando com Alice e Peter sobre as novidades do dia. Sirius estava "desaparecido" há algumas horas (ou seja, em alguma sala vazia e escura com Lia) e Remus logo deveria sair da Ala Hospitalar.

Eu me senti radiante ali, abraçada com aquele maroto idiota que consegue me fazer a garota mais feliz do mundo com um único olhar.

Ele me explicou como tudo aconteceu. Como ele descobriu meu plano na noite em que terminamos, a raiva que sentiu, como resolveu dar o troco na mesma moeda ao me pedir em namoro novamente. Contou do plano de fazer ciúmes, que pediu ajuda para Aninia e queria que eu me sentisse mal, tão mal quanto ele havia se sentindo ao descobrir que eu havia mentido.

Ele me contou que ficou em dúvida quanto ao meu sentimento várias vezes, pensando em desistir do seu plano, mas que mais de uma vez me ouviu dizer para os meus amigos, enfaticamente, que eu não gostava dele e só continuava com o namoro para que ele desistisse de uma vez de mim.

E depois, quando se convenceu de que eu gostava dele, me ouviu conversando com a Alice sobre Severo. Como ele estava extremamente inseguro e nós não mencionamos nome algum, imaginou que ele fosse o alvo da conversa e, por isso, resolveu que era hora de acabar de vez com aquilo. A vontade de me fazer sofrer com o namoro passou e toda aquela situação estava fazendo mal pra ele tanto quanto pra mim. Então, antes do treino de quadribol, resolveu terminar aquele namoro sem sentido.

Se eu tivesse conseguido conversar com ele antes, contar tudo, dizer o que realmente estava sentindo, podíamos ter evitado muita dor. Mas, felizmente, as coisas terminaram bem. Muito bem, pra ser sincera.

Pouco antes de sairmos pra fazer a ronda, um casal entrou pelo retrato. Remus e Aninia, de mãos dadas e parecendo muito felizes.

- Parece que hoje é o dia, hein! – Exclamou Alice, parecendo um pouco assustada com o fato de os três marotos terem se acertado no mesmo dia.

- Remus me contou tudo. – Aninia sorriu para o maroto, que a beijou.

- É isso aí, Aluado! – James exclamou, dando tapinhas nas costas do amigo. – Agora vai ter uma enfermeira particular praqueles dias!

Remus corou e olhou em volta, receoso de alguém estar prestando atenção àquela conversa, mas os únicos grifinórios acordados ainda estavam muito ocupados com as tarefas escolares para perceberem a piada.

- Hora de fazer a ronda. – Eu disse, puxando James antes que ele acabasse falando demais.

Andamos em silêncio durante algum tempo. Ele me abraçava e me beijava e nós ríamos de vez em quando. Foi bom. Foi muito bom.

- Você ainda não me contou como foi que o Almofadinhas e a Lia se acertaram. – Ele comentou.

- Eu dei uma ideia e ele fez milagre com ela. – Eu disse, rindo. – Falei que ele deveria mostrar pra Lia que confiava nela. Então, ele me mandou levá-la até a torre de astronomia. Quando chegamos lá, encontramos Snuffles – Ele começou a rir antes mesmo de eu terminar. – aquele cachorro preto e grande que estava me vigiando. – Tentei parecer brava, mas não consegui. – Enfim, Snuffles se transformou em Sirius, Lia acreditou que ele confia nela e gosta dela e os dois se acertaram.

- Então você já sabe que o Sirius é um animago?

- Pois é.

- Quer saber de mais uma coisa? – Ele ficou de frente pra mim, seus olhos brilhando muito.

- Quero.

Ele se virou e correu pelo corredor. Fiquei olhando sem entender, até que, de repente, não era mais James correndo e sim um grande e lindo cervo, que ficou correndo ao meu redor enquanto eu ria.

Afinal, James também é um animago.

E aquela demonstração era uma prova da sua confiança. Do seu amor.

Assim que ele voltou à forma humana, corri para os seus braços.

- Eu te amo, James!


FIM