Disclaimer: Fairy Tail, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Hiro Mashima. Posto esta fic apenas por diversão, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Elizabeth Oldfield, que foi publicado na série de romances "Sabrina Destinos", da editora Nova Cultural (edição 1, publicada no Brasil em 1997).

OBS: Provável OoC. Muito bem, o aviso foi dado a todos...


FEITIÇO DE CARNAVAL

Capítulo 1

Juvia Lockser entrou no salão e contemplou a multidão. De imediato reconheceu um homem alto, de cabelos negros: Gray Fullbuster. Parou, mortificada. Quase dez anos tinham se passado desde o último encontro. Por isso, ficou surpresa ao encontrá-lo com tanta facilidade. Era realmente um golpe de sorte.

Ou, pensando melhor, talvez não fosse. Mesmo que não tivesse dificuldades em reconhecer seu anfitrião, na certa o teria notado, pensou com malícia. Ela e todas as mulheres presentes. A altura dele, assim como o terno impecável que vestia, o diferenciava dos demais. Outro detalhe a destacar era a expressão máscula, fria e com um toque de arrogância.

Seus dedos apertaram com força o carrinho que levava a bagagem. A frieza era apenas aparente. Gray Fullbuster possuía um sex appeal capaz de incendiar uma floresta... isso, qualquer uma podia perceber.

Quando seus olhares se cruzaram, o brasileiro sorriu. Um sorriso insinuante, acentuado pelo brilho intenso dos olhos negros. Embora o convite para a viagem ao Rio de Janeiro tivesse partido dele, como um claro gesto de reconciliação, as lembranças do último encontro a deixavam um pouco apreensiva.

- Olá...

Juvia moveu os lábios sem emitir nenhum som, apertando ainda mais a alça do carrinho.

Gray olhou rapidamente para os lados, como se não soubesse ao certo a quem ela se dirigia, e então fez um aceno com a cabeça.

Seguindo a fila de passageiros, ela conduziu o carrinho pelo corredor de paredes envidraçadas. Depois de um vôo noturno de onze horas e meia, seus movimentos eram lentos e cansados. Olhou, por cima do ombro, para Gray, que continuava sorrindo. Seus olhos a analisavam com interesse.

Ela ajeitou a alça da câmera fotográfica no ombro. Seus cabelos longos e sua silhueta esbelta atraíam muitos olhares masculinos, mesmo que ela não os notasse. Nunca lhe ocorrera a idéia de atrair sexualmente a ele. Mas o pensamento era, no mínimo, intrigante.

Quando finalmente venceu o corredor, Juvia notou que seu anfitrião permanecia imóvel. Seria um hábito dos homens latinos esperar que a mulher se dirigisse a eles ? Ela se fez essa pergunta enquanto manobrava o carrinho e começava a caminhar em sua direção.

Com seus cabelos negros espetados e cheios, além de um perfil grego, Gray apresentava-se muito atraente. Já era bonito dez anos antes, mas Juvia concluiu que a maturidade acentuara-lhe ainda mais a perfeição dos traços.

À medida que se aproximava, ela sentiu o coração acelerar. Os olhos de Gray, que permaneciam fixos em seu corpo, revelavam mais do que uma simples atração sexual. Mostravam algo profundo. Ela podia sentir naquele olhar um afeto descompromissado, mágico, que a deixava perplexa. O barulho do aeroporto, o burburinho causado pela multidão pareceram desaparecer. Era como se somente os dois existissem naquele momento.

- Aqui estou - Juvia anunciou, ruborizada, sentindo-se muito nervosa.

Ele ergueu levemente uma das sobrancelhas.

- Uma mulher determinada, hein ? - comentou. Assim como a aparência máscula, a voz também a impressionou. Ele possuía uma envolvente voz de barítono. Por ter estudado em Cambridge e trabalhado alguns anos nos Estados Unidos, seu inglês era perfeito, com um leve sotaque que servia apenas para aumentar-lhe o carisma.

- Como sempre - ela murmurou. Gray parecia confuso.

- Bem... o que faremos agora ? - perguntou antes de avançar, elevando as mãos ao céus e dizendo algumas palavras em português - Ora, Juvia, mas é você !

Ela sentiu-se indignada. No começo acreditara que Gray estava feliz, talvez até interessado nela, mas agora descobria que ele apenas flertara com a primeira mulher que vira. Ele nem sequer a reconhecera ! Como podia ter sido tão tola ?

- Pensei que você estivesse aqui para me esperar - ela comentou.

Gray encolheu os ombros.

- Bem... sim.

- Além disso, devia saber que não costumo me aproximar de estranhos - ela informou secamente.

- Então talvez devesse tentar isso às vezes, não acha ? Posso garantir que só teria a ganhar.

- E eu conquistaria você ? - ela perguntou, sem saber se ficava lisonjeada ou não - Eu poderia ser uma psicopata. Ou uma assassina. Ou...

- ... Uma vampira pronta para dar uma mordida ? - Gray sugeriu, divertido, quando ela se deteve - Tudo é possível. De qualquer maneira, você não me conquistaria. Ao menos não hoje. Só vim para recebê-la. Peço desculpas pelo engano. É que você... mudou muito.

Juvia deixou escapar um sorriso. Os anos realmente tinham provocado muitas mudanças nela.

- Está querendo dizer que da última vez que me viu eu não passava de uma adolescente com aparelho nos dentes e acima do peso ? - arriscou.

- Também. E tinha os cabelos mais curtos, suas roupas pareciam sacos de algodão e você não usava um pingo de maquiagem - ele completou.

Juvia ficou surpresa por Gray ter se lembrado de tantos detalhes. Aliás, detalhes desagradáveis.

- Eu tentava parecer uma pessoa comum - ela se defendeu.

- E por que fazia isso ?

Ela ajeitou as tranças sobre os ombros.

- Eu tinha dezesseis anos e estava passando por uma fase difícil - respondeu num murmúrio.

- Mas agora tem vinte e seis, e posso ver que muita coisa mudou... - os olhos dele fixaram-se nos lábios carnudos por um momento, e depois passearam sem pudor pelo corpo escultural, de pernas longas, bem torneadas, e seios fartos - Bem... o meu carro está lá fora.

- Mas... - ela apontou, confusa, para o carrinho de mão.

- Pode deixar o carrinho aqui. Eu levo sua bagagem - Gray ofereceu-se e, depois de apanhar uma mochila, tirou a mala do carrinho - Tem certeza de que trouxe roupa para apenas uma semana ? - perguntou, zombeteiro, ao perceber que a bagagem era muito pesada.

Por um instante ela hesitou. Devia dizer-lhe que pretendia estender a visita ? Melhor não. Afinal, acabara de chegar. As notícias podiam esperar um pouco mais.

- O vôo foi ótimo - ela murmurou vagamente, mudando de assunto - Eu consegui ver o Cristo Redentor quando o avião começou a descer - sorriu, lembrando-se da visão da estátua localizada na entrada da Baía de Guanabara. Deixou escapar um suspiro - É de tirar o fôlego. Assim como a vista da cidade, com as montanhas, o mar e todas aquelas ilhas... realmente, é lindo - concluiu, apressando o passo.

- Que bom que gostou !

- Sempre tive vontade de visitar o Rio de Janeiro, especialmente na época do Carnaval. Por isso agradeço por ter me enviado a passagem aérea. Foi muita generosidade de sua parte. Eu nunca tinha viajado na primeira classe e...

- Nunca ? - ele a interrompeu, surpreso.

- Não. E fiquei encantada com a experiência.

- Fico feliz - Gray desconversou, indicando-lhe a saída do aeroporto. O estacionamento externo estava atulhado de carros de todos os tipos. Passaram por limusines, caminhões de carga e uma imensa frota de táxis. Pararam diante de um conversível vermelho, com teto de couro negro - Aqui estamos.

Ele abriu o porta-malas e colocou a bagagem lá dentro, enquanto Juvia o observava de braços cruzados. Lembrou-se do clima em Londres, deixando escapar um sorriso de contentamento. Em sua terra natal, fevereiro era um mês cinzento e frio, mas, no Rio, o Sol brilhava intensamente em um céu azul e límpido.

- Faz muito calor aqui - ela comentou, sentindo a agradável sensação da brisa marinha soprando sobre a pele nua.

- Um dia perfeito para a praia - Gray emendou.

Juvia olhou novamente para ele, que continuava arrumando a bagagem no porta-malas. Quando se movia, todos os seus músculos estiravam-se, deixando claras as formas perfeitas do corpo tentador.

- Mas você não vai trabalhar ? - ela perguntou, confusa.

- Vou sim - ele confirmou ao fechar o capô - Tenho um encontro de negócios muito importante. Por isso vou ter que deixá-la sozinha até à noite.

- Tudo bem - Juvia assegurou - Vou me divertir sozinha, então. Acho que não preciso mais de cicerones... já sou uma garota crescida.

Os olhos de Gray passearam minuciosamente pelas curvas femininas.

- Posso ver - ele murmurou.

Girando sobre os calcanhares, Juvia caminhou ao redor do carro até a porta do passageiro. Quando fez o movimento, ergueu os ombros, salientando o contorno dos seios fartos... o que chamou a atenção de Gray. Será que ele imaginou ser aquele um gesto deliberado ? Talvez. Mas tinha que admitir que o olhar ávido daquele homem lhe causava satisfação. Uma satisfação sensual.

- Também estarei ocupado amanhã e sexta-feira - ele continuou, enquanto se sentava - Mas depois disso fico livre. O escritório irá fechar no Carnaval.

Juvia olhava com admiração para o interior do carro. Tudo era muito luxuoso, com os bancos forrados de couro e um painel de madeira polida onde se podia ver um telefone celular e um computador portátil. Virando-se, ela colocou a câmera no assento traseiro.

- Sempre pensei que os escritórios das Empresas Fullbuster ficassem em São Paulo - ela comentou enquanto colocava o cinto de segurança.

- Nosso quartel-general realmente é lá - Gray fez uma pausa, franzindo as sobrancelhas - De qualquer forma, há alguns anos meu pai resolveu transferir alguns setores para o Rio de Janeiro, e é aqui que estou trabalhando no momento. Atualmente passo de dois a três dias por semana no Rio, cuidando dos negócios.

Ela franziu as sobrancelhas ao ouvir a menção ao pai de Gray.

- Fiquei muito triste quando recebi sua carta informando a morte de Silver - comentou - Deve ter sido um choque terrível para você.

- Foi mesmo - ele concordou, e sua expressão tornou-se sombria. Enfiando a mão no bolso do paletó, tirou um par de óculos escuros e colocou-os - Papai estava com apenas sessenta anos, e tinha uma saúde excelente - murmurou, dando partida no motor - Mas teve um ataque cardíaco fulminante... e, minutos depois, tudo estava acabado.

- Sinto muito - ela reafirmou e, sem controle, algumas lágrimas rolaram por seu rosto - Era uma pessoa genial. Eu gostava muito dele.

Para poder manobrar, Gray olhou por sobre o ombro e acabou por encará-la.

- Está tudo bem ? - indagou.

As sobrancelhas de Juvia arquearam-se ainda mais. A voz era seca, e a pergunta soara um tanto sarcástica... como se ele não acreditasse em seus sentimentos. Mas ela afastou tais pensamentos. Não, provavelmente entendera mal. A pergunta, provavelmente, fora feita em outro sentido.

- Está. Eu pensava em seu pai. Quando aconteceu ? - ele terminou a manobra e engatou a primeira marcha. O conversível deslizou entre os outros carros como uma pantera, silenciosamente.

- Em setembro - ele informou.

- Setembro ? - repetiu Juvia, surpresa.

O motivo da surpresa devia-se ao fato de ela ter recebido uma carta de Gray há algumas semanas. Por isso, concluíra que a morte devia ter ocorrido pouco tempo atrás.

Gray confirmou, meneando a cabeça.

- Você contou para Vanessa ? - ele perguntou.

- Contei, e ela me pediu para lhe dar as mais sinceras condolências.

- Muito obrigado. Como vai ela ?

- Mamãe está bem - Juvia hesitou, consciente de que estava entrando em terreno perigoso - Acho que já mencionei no telefone que agora ela vive na França... bem, casou-se novamente há três anos. Com Alain. Estão vivendo num château perto de Toulouse.

- E Vanessa sente-se feliz lá ? - ele indagou.

Outra vez o tom dele parecia ser sarcástico. Mas, quando Juvia virou-se para encará-lo, não pôde verificar se estava certa. Os olhos de Gray escondiam-se atrás dos óculos escuros.

- Contente, eu diria - ela respondeu, cautelosa.

- Mas não foi um amor de contos de fadas ?

- Não. Ela e Alain foram amigos por muitos anos. Uma coisa acaba levando à outra... - ela explicou, permanecendo na defensiva.

- Sorte deles - Gray comentou.

Ela estava intrigada. O comportamento distante daquele homem lhe causava estranheza. Ele parecia fazer aqueles comentários com um toque de reprovação. Estaria escondendo algo que acontecera no passado ? Mordiscou o lábio inferior. Se fosse verdade, esse "algo" teria sido escondido dela por todos aqueles anos...

Não. Estava sendo muito dramática. Mesmo que Silver tivesse contado algo ao filho, Gray teria tido tempo bastante para absorver o choque. E, além disso, ele era um homem do mundo. Se não fosse assim, não a teria convidado para aquele feriado, o que fora um gesto muito amistoso. Ela queria que fossem bons amigos... queria muito isso.

A irritação de Gray devia estar relacionada a outra coisa. Mas... o quê, por exemplo ? Pela maneira como ele dirigia, ultrapassando os carros em alta velocidade, devia mesmo haver algo. Talvez fosse a pressão do trabalho. Gray, sem dúvida, interrompera compromissos importantes para apanhá-la no aeroporto. Ela não pôde deixar de sentir-se um pouco culpada ao pensar nisso.

O tráfego era intenso. Aparentemente, o vôo de Juvia chegara exatamente na hora do pico da manhã.

- Aquele é o Pão de Açúcar - Gray informou subitamente, apontando à esquerda.

Juvia olhou pela janela. Estavam numa avenida larga, ladeada por palmeiras e altos edifícios. Ao longe, podia ser vista a famosa montanha, que à distância parecia uma miniatura.

Ela sorriu.

- É uma das primeiras coisas que quero conhecer e... - nesse instante, algo chamou-lhe a atenção, e ela encolheu-se no assento - Deus do céu ! - gritou, nervosa.

Outro automóvel tinha saído da faixa paralela em alta velocidade, cruzando a frente do conversível e passando a centímetros de distância. Somente a perícia do motorista evitou uma séria colisão.

Gray gritou algo em português, provavelmente um palavrão. Soltou um suspiro desanimado ao ver que o culpado se afastava calmamente.

- Agora você sabe por que o Brasil produz excelentes pilotos de automobilismo - ele comentou.

- E agora também sei por que o Brasil é um dos recordistas em acidentes automobilísticos - Juvia respondeu, lembrando-se de um comentário feito por Silver Fullbuster. Ela mal conseguia respirar - Mas não voei até aqui para participar de nenhum grande prêmio de Fórmula 1... - tentou brincar, mas não pareceu muito convincente - Fiquei apavorada ! - admitiu por fim.

Gray segurou-lhe a mão.

- Não precisa ficar preocupada, querida - acalmou-a, levando-lhe a mão aos lábios e beijando-a levemente.

Em um instante, o medo de Juvia foi substituído por outra sensação. Uma sensação muito forte, causada pelo toque dos lábios dele sobre sua pele.

Retirou a mão, sentindo-se trêmula.

- Prefiro que você se mantenha atento ao volante - balbuciou.

Ele riu.

- Sim, madame - respondeu, obediente.

Juvia cruzou as mãos sobre o colo. "Acalme-se", dizia a si mesma. O comportamento de Gray não tinha nenhum significado especial, ela sabia. Os brasileiros costumavam mesmo agir daquele jeito. Apesar disso, não podia negar a forte atração que sentia por aquele homem. O olhar insinuante a perturbava. Parecia que ele era capaz de fazer amor com o olhar...

Mais uma vez ela ergueu a sobrancelha. Nunca sentira nada parecido... ficou alarmada. Estaria tão vulnerável assim ?

- Quer passear no bondinho do Pão de Açúcar enquanto estiver aqui ? E o que mais ? - ele perguntou.

- Quero ir até o Corcovado e ver o Cristo Redentor de perto - ela disse, aliviada pela conversa ter tomado um rumo mais ameno - E visitar as praias famosas, e...

Enquanto ela fazia uma lista dos lugares que tinha selecionado nos folhetos de viagem, Gray sugeria outras opções de entretenimento.

- Seu pai nunca mais se casou ? - Juvia perguntou, quando a discussão sobre o itinerário finalmente terminou. A pergunta foi feita com hesitação. Ela não queria tirar nenhum esqueleto do armário, mas, depois de uma década sem comunicação, sentia-se muito curiosa em saber tudo o que acontecera à família Fullbuster. A expressão de Gray anuviou-se.

- Na verdade, ele se casou, sim - um sorriso apareceu no rosto dela.

- Isso é maravilhoso ! Fico feliz - hesitou outra vez, e sua expressão tornou-se inquiridora - Silver e a mulher ficaram juntos bastante tempo... antes de ele morrer ?

- Por nove anos.

Juvia virou a cabeça para examinar-lhe a expressão.

- Nove anos ? - repetiu.

- Papai se casou alguns meses depois do relacionamento que teve com sua mãe... - Gray fez uma pausa, como se escolhesse as palavras - ... terminar.

- Oh, sempre torci para que ele encontrasse um novo amor, mas realmente não pensei que isso tivesse acontecido tão depressa - Juvia ficou calada e pensativa por alguns segundos - Como a mulher... ou melhor, a viúva dele é ? - perguntou com curiosidade.

- Karina é morena e brasileira. É muito mais jovem do que Silver... e muito diferente de Vanessa - "O que significa isso ?", Juvia perguntou-se. Uma ligeira alteração no tom de Gray a fez pensar que talvez ele não gostasse de Vanessa. Bem... dadas as circunstâncias, isso era bem possível.

- Mas agora Silver está morto - comentou com tristeza. Pensava em quanto aquele homem fora generoso, e na amizade que os unira - A mulher dele deve ter ficado arrasada - disse afinal, imaginando que ela também devia ter adorado Silver.

Gray virou à direita, entrando nas ruas estreitas que conduziam para as colinas da cidade.

- Karina ficou muito preocupada com as crianças - ele revelou.

- Seu pai teve mais filhos ?

- Três - a expressão, que estivera fechada, iluminou-se quando um sorriso curvou-lhe os lábios - Alexandre, que vai fazer nove anos, e as duas meninas, Rafaela e Márcia, que têm, respectivamente, sete e seis anos.

Juvia franziu as sobrancelhas. As surpresas sucediam-se em grande velocidade. Mas sabia que Silver sempre tivera o desejo de aumentar a família, pois ficara viúvo muito jovem.

- As crianças são muito novas para uma perda tão grande - ela comentou com simpatia - Meu pai também morreu quando eu era criança...

- Tanto tempo assim ? Eu nem imaginava.

- Eu tinha apenas um ano, e por isso não me lembro dele. Mas gostaria de me lembrar - ela disse, pensativa, com o olhar perdido.

A hora do rush no Rio de Janeiro desmentia a teoria do caos. As luzes vermelhas dos freios piscavam continuamente, a multidão de veículos se amontoava e mesmo assim o tráfego continuava se movendo.

- Você se casou ? - Juvia perguntou pouco depois. Bem, notara que não havia aliança no dedo dele, mas isso não dizia muito coisa. Além do mais, a aparência e a fortuna de Gray Fullbuster faziam dele um dos melhores partidos do país.

- Não.

- Vive com alguém ?

- Também não, mas já fiz isso no passado - Gray deixou escapar um sorriso muito charmoso - Também tive amantes...

- Montes delas, posso imaginar - Juvia comentou depois de uma pequena pausa.

- Está imaginando errado. Não sou promíscuo - ele se defendeu, parecendo ofendido. Depois lançou um olhar na direção dela - De qualquer forma, eu tenho trinta e quatro anos e sou um homem normal.

- O que está querendo dizer é que não gosta de relacionamentos sérios, só de casos esporádicos. Acertei ?

- O que eu quero dizer é que ainda não encontrei a mulher certa.

Juvia ergueu a cabeça.

- Poupe-me desse clichê !

- É verdade - ele confirmou friamente.

- E quem, se posso perguntar, é a "mulher certa" ?

Ele pensou por um momento.

- Alguém que seja brilhante e sexy, e forte o bastante para me suportar. Uma mulher que tenha sua própria vida, pois eu não suportaria conviver com alguém que dependesse totalmente de mim. E deve ser fiel, como serei a ela. Mas por enquanto... - deu de ombros - eu sou um adulto solteiro. E qual o problema se gosto de sexo ? As pessoas são muito complicadas a esse respeito. Adoram fazer sexo, mas inventam todo tipo de sentimento de culpa - os lábios dele curvaram-se num sorriso - Pessoas como você.

- Eu ? - Juvia protestou, indignada.

- Não devíamos estar conversando sobre isso, se vai continuar se comportando como uma anglo-saxônica puritana.

Juvia franziu as sobrancelhas. Suas amigas de trabalho freqüentemente diziam a mesma coisa, e Gray acertara direto no alvo. Cruzou as pernas com nervosismo. Achava que era apenas uma pessoa circunspecta, nada mais.

- Onde estamos ? - perguntou, numa tentativa desesperada de mudar o assunto.

Depois de dirigir por algum tempo por ruas estreitas, Gray conduziu o carro para uma avenida larga, que ladeava o mar. Indicou a praia.

- Copacabana - informou.

A excitação tomou conta dela. Juvia tinha imaginado muitas vezes como seria Copacabana, temendo se decepcionar ao vê-la pela primeira vez, mas o lugar realmente era mágico. Do lado oposto ao oceano, estava a Avenida Atlântica, com seus cafés, bares, lojas e hotéis. O calçamento da rua era de pedras brancas e pretas, que formavam mosaicos exóticos.

Ainda era cedo, mas o movimento era intenso. Pessoas faziam cooper, andavam de bicicleta, grupos de jovens jogavam vôlei na praia e havia uma multidão de banhistas espalhados nas areias brancas. O Sol intenso produzia bronzeados perfeitos e, graças ao culto quase fanático à forma física, a maioria dos cariocas tinha corpos lindos. Ela sorriu. A praia era um verdadeiro paraíso, sem dúvida.

- Aqui no Brasil costumam dizer que os paulistas trabalham e pagam impostos, enquanto os cariocas sambam e vão à praia - Gray comentou.

Ela riu.

- E aqui está a prova, pelo pouco que posso ver - Juvia continuou a olhar ao redor, fascinada - Preciso agradecer-lhe outra vez por ter me convidado a vir.

- Silver é quem mereceria esse agradecimento - ele revelou.

- Silver ? - ela perguntou, confusa.

Gray diminuiu a marcha para que dois senhores de idade, carregando cadeiras de praia, atravessassem a avenida.

- Quando mexi nos papéis de papai, descobri uma carta que ele me havia escrito. Aconselhava-me a convidá-la para vir ao Rio de Janeiro, pois sabia que você ia gostar muito.

Ela pareceu espantada.

- E você seguiu exatamente as instruções dele.

- Na verdade, era só uma sugestão - Gray retrucou. Ela olhou novamente pela janela, mas já não podia mais enxergar a praia. Sua visão subitamente tinha se obscurecido. Saber o verdadeiro motivo daquele convite mudava tudo. Jogava por terra qualquer possibilidade de relacionamento, e até certo ponto explicava a irritação de Gray.

O nervosismo de Juvia começou a aumentar. Sentia-se, de certa forma, traída.

- Então foi Silver quem mandou... desculpe-me, sugeriu - corrigiu-se de imediato - que você me mandasse uma passagem na primeira classe e... - reparou que estavam passando em frente ao Copacabana Palace Hotel, um prédio realmente lindo - ... e provavelmente me colocasse num hotel de luxo ? - sorriu - Talvez ele também tenha deixado um cheque junto com a carta, para pagar tantas despesas...

Depois de retirar os óculos escuros, ele encarou-a seriamente.

- A passagem de primeira classe foi idéia minha, e eu financiei tudo – informou. Voltou a guardar os óculos no bolso - Mas, de qualquer modo, você não vai ficar em um hotel. Vai ser minha hóspede.

- Sua hóspede ? - ela protestou com voz fraca. Fez uma pausa em seguida, para recobrar o controle - E onde você vai me hospedar ?

- No apartamento que mantenho aqui no Rio. Há dois quartos e muito espaço livre.

- Mas...

- Quando liguei para confirmar sua vinda, você disse que estava muito envolvida com o seu trabalho. Por isso concluí que não devia ter nenhum marido para fazer objeções. A não ser que... você vive com alguém ?

- Não - ela murmurou, sabendo que era observada atentamente.

- Ora, ora... que surpresa ! - Gray comentou com ironia - E que tal um namorado ?

- Não nesse momento - Juvia replicou, amaldiçoando-se em seguida. Podia ter mentido. Aliás, devia ter mentido e inventado algum relacionamento na Inglaterra - Mas não sou nenhuma virgem - disse num impulso.

- Aleluia ! - ele zombou.

O rosto dela ficou ruborizado. Por que tinha dito aquilo ? Não precisava provar nada àquele homem. Então, por que se apressara em falar naquele assunto ?

- Mesmo assim, acho que não teve muitos amantes no passado - Gray arriscou, aproveitando o comentário que ela mesma fizera.

- Dois - Juvia informou, sem saber porque respondia com tanta facilidade - Tenho certeza de que o apartamento é confortável - continuou, com medo de fazer mais confissões - Sua oferta é muito gentil, mas...

- Acha que sou o Conde Drácula ? - ele perguntou, perdendo a paciência.

- Não... claro que não !

Ela evitava fitá-lo, consciente de que, se ficasse muito tempo ao seu lado, não seria capaz de controlar a atração que sentia. Se ao menos estivesse envolvida com alguém... talvez não se sentisse tão terrivelmente frágil.

Mais uma vez tentou protestar:

- Tenho certeza de que...

- Veja bem, estamos na semana do Carnaval e todos os hotéis estão lotados.

- Todos os hotéis ? Você tentou todos ?

- Minha secretária tentou. Ligou para todos os lugares decentes da cidade.

Juvia recostou-se no assento. Aquilo a deixava sem opção.

- Não acha, então, que devia ter me convidado para vir antes do Carnaval ? - sugeriu, cautelosa - Como Silver morreu meses atrás, você podia ter cuidado disso, em vez de deixar para a última hora. Fico me perguntando... por quê ? Talvez você estivesse imaginando que eu não aceitaria, não é ?

A expressão dele era de fúria contida.

- Escute bem, mocinha, se eu não quisesse concordar com a... - fez uma pausa para acentuar a palavra - sugestão de meu pai, eu não a teria convidado. Além disso, passei os últimos meses ocupadíssimo, viajando entre São Paulo e Rio de Janeiro, para cuidar dos negócios e de assuntos mais importantes. Não tive tempo para me preocupar com problemas secundários. Sim, eu devia ter convidado você antes, mas o tempo voa.

Juvia permaneceu calada. Não gostava de ser considerada um "problema secundário", embora tivesse que admitir que a explicação fazia sentido. Ainda não estava totalmente convencida, mas daria a ele o benefício da dúvida. Por enquanto.

- Mesmo assim, você nunca teria feito o convite se não fosse por Silver - disse, em tom ressentido - E agora, por não ter encontrado vaga em nenhum hotel, vai ter que me agüentar - sorriu com desdém - Pobrezinho...

- Eu vou sobreviver - os olhos de Gray desviaram-se da estrada e passearam rapidamente pelo corpo feminino - Afinal de contas, não deve ser difícil dividir o apartamento com uma mulher jovem, bela e sexy - murmurou com voz sedosa.

A insinuação deixou-a embaraçada, mas Juvia esforçou-se ao máximo para não ruborizar ainda mais. Precisava mudar de assunto, e depressa.

- Bem, de qualquer modo, eu não pretendo passar muito tempo no apartamento - ela murmurou - Não sei se você sabe, mas sou jornalista e pretendo tirar fotos para ilustrar alguns artigos que quero escrever.

- Isso explica a máquina fotográfica - ele comentou, olhando de relance para o banco traseiro - Mas, diga-me, trabalha nisso há muito tempo ?

Juvia assentiu com um gesto de cabeça.

- Cerca de cinco anos. Faço parte de uma agência de notícias internacional, que tem sede em Londres.

- Parece ótimo - ele observou - Você deve ser muito competente.

- Gosto de pensar que sim - ela concordou, sorrindo de maneira involuntária - Mas, como eu ia dizendo, tenho muita vontade de fotografar o Carnaval carioca - Gray parou o carro em um cruzamento, virando-se para encará-la.

- Então vai gostar de saber que comprei os ingressos - comentou.

- Mais uma das sugestões de Silver ? - Juvia disparou com malícia.

- Na verdade, não - Gray murmurou, desprezando a insinuação - Os ingressos devem ser comprados com muita antecedência, sabe como é... mas os diretores das grandes empresas recebem alguns convites para os camarotes especiais todos os anos. E acho que você também irá gostar de ir a um baile à fantasia. Também tenho ingressos para um deles, na sexta-feira à noite.

Sem dúvida, ela concluiu, o homem pensava em tudo.

- E a mulher de seu pai, sabe de minha presença na cidade ? - indagou, mudando de assunto - Por acaso vai nos acompanhar ?

O farol abriu e Gray colocou o carro em movimento. Só depois de alguns segundos respondeu:

- Não, ela não sabe. Achei mais... diplomático tratar as coisas assim.

- Seu pai nunca contou a ela sobre o caso que teve com minha mãe ? - Juvia estava muito curiosa a respeito daquele detalhe.

- Não completamente. Parece que ele se referia a Vanessa como a uma velha amiga, ou coisa assim...

- Entendo - murmurou, pensativa, imaginando que Silver devia ter ficado muito ressentido com tudo o que acontecera.

- Mas não precisa se preocupar, pois não corremos o menor risco de encontrá-la aqui no Rio - Gray assegurou, momentos depois - Como a maioria dos cariocas, ela prefere sair da cidade durante os grandes feriados. Viajou para Petrópolis, uma cidade serrana muito bonita, na semana passada. As crianças adoram ficar lá, na casa da família de Karina.

Juvia permaneceu calada, absorta nos próprios pensamentos. Naquele momento, porém, Gray chamou-lhe a atenção, apontando para a janela e forçando-a a voltar à realidade.

- Aquela é a Lagoa Rodrigo de Freitas, mas por aqui é chamada simplesmente de "Lagoa" - fez uma pausa, durante a qual seus lábios voltaram a se curvar num sorriso malicioso - É um dos lugares preferidos pelos namorados...

Obviamente, Juvia fez questão de ignorar a nova insinuação. Virou a cabeça e admirou a paisagem por alguns instantes, maravilhada.

- É uma lagoa natural ? - perguntou em seguida.

- Sim - Gray confirmou, divertido - No século dezesseis, fazia parte de uma grande fazenda de cana-de-açúcar. E um pouco mais adiante, na direção daquelas colinas, fica o Jardim Botânico. É nessa região que fica o meu apartamento.

A paisagem parecia ter saído de um filme, Juvia concluiu. Nunca vira tanta beleza em toda a sua vida.

- Deve ser muito bom viver num lugar como esse.

- Os brasileiros costumam pensar que seria melhor viver em Londres - ele comentou secamente - Mas, obviamente, a maior parte não conhece o inverno rigoroso que vocês têm que suportar.

- É... - ela murmurou, desanimada - O ser humano é mesmo engraçado. O jardim do vizinho sempre parece mais verde...

Depois de alguns minutos, eles chegaram ao prédio onde Gray morava. A fachada era imponente, com jardins luxuosos e coloridos.

Ele morava na cobertura. Entraram em um elevador privativo, que os conduziu até uma pequena área, que por sua vez dava para uma enorme porta de carvalho. Gray girou a chave na fechadura e fez um gesto para que Juvia entrasse.

O interior do apartamento era de um luxo inacreditável, com móveis muito modernos e peças de decoração sofisticadas.

- Aqui é o quarto da empregada, a cozinha, e ali é o meu quarto - Gray informou, apontando para cada aposento rapidamente - E esse é o seu quarto... uma suíte - colocando a bagagem no chão, começou a caminhar na direção do hall de entrada - Antes que você se instale, e que eu vá embora, há uma coisa que tenho de lhe dizer.

Com gestos ríspidos, indicou uma agradável sala de estar, ampla e clara. A luz do Sol entrava por uma porta de vidro que dava para uma varanda. Pinturas a óleo cobriam as paredes. A maioria delas aparentemente retratava cenas cotidianas do Rio de Janeiro no século dezenove. Juvia reconheceu de imediato o traço de Debret.

Gray fez um gesto para que ela se acomodasse em um sofá confortável, sentando-se em uma poltrona à sua frente. Ao mesmo tempo, tirou o paletó e colocou-a sobre o colo.

- Silver também deixou algumas cotas para você - contou com naturalidade.

Os olhos de Juvia abriram-se de espanto.

- Cotas ? - repetiu, atônita - Cotas de quê ?

- De uma das nossas empresas. É uma fábrica de peças para navios, e fica aqui no Rio.

Ela ficou em silêncio. Preferia esperar que Gray terminasse.

- Obviamente as cotas não têm nenhum valor para você - ele continuou - A não ser, claro, o valor em dinheiro. Algo em torno de quinhentas mil libras...

- Oh ! - ela exclamou, rindo com nervosismo.

- Logo que for possível, eu gostaria que você assinasse o contrato de venda das cotas, que vou pegar à tarde no escritório da empresa - Gray pediu com frieza, indiferente à alegria dela.

- E para quem vou vender minhas cotas ? - Juvia perguntou, instantes depois.

- Para mim. Silver me deixou o restante das cotas - ele acrescentou, olhando para o relógio de pulso. Aparentemente estava com muita pressa - Por isso vou trazer duas pessoas quando voltar, para que sejam testemunhas...

- Não se incomode - Juvia murmurou.

- Não entendi...

- Não tenho certeza de que quero vender as cotas - ela declarou com firmeza.


P. S.: Bem, essa é a primeira adaptação que eu faço cuja história se passa no Brasil. Diga-se de passagem, não foi nada fácil achar uma história ambientada no Brasil da qual eu gostasse e que também achasse que valia a pena adaptar. Mas, por fim, quando achei essa história aqui, tive certeza de que ela preencha os dois requisitos.

P. S. 2: Nos vemos no Capítulo 2.

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