Diferente de qualquer outra sonserina, ela era bela. Não que as sonserinas fossem feias. É que ele não costumava reparar nas alunas e as mulheres sonserinas que conhecia tornavam-se feias pela antipatia: Ele não era a simpatia em pessoa, mas isto era algo que lhe agradava nas mulheres, as tornava mais encantadoras e atraentes.
Suas mãos quentes e experientes provocavam ansiedade. O corpo dela respondia aos apelos verbais enquanto ia sendo desnudado e tocado, acariciado e despertado. Se quisesse, só teria de pedir que parasse e nada mais aconteceria. Mas parecia que ela não queria que ele parasse. Ela o ex citava, confundia, provocava; ao mesmo tempo em que carregava no rosto a expressão de inexperiente que era.
Com ela sentia-se quase imor tal, mas, contrariamente, também experimentava a pró pria fragilidade em sua versão mais extremada, como se a dependência daquela paixão pudesse destrui-lo ou como se a simples ideia de perdê-la pudesse levá-lo à ruína.
Segurava-lhe pela cintura, puxando-a contra si em um ritmo cada vez mais frenético até que...
- Helena!
Severo emitiu um urro abafado e acordou confuso, o corpo banhado em suor. Sentou-se na cama e cobriu o rosto com as mãos: Mais um sonho daqueles.
Levantou-se. Trajava apenas uma calça de pijama de algodão preta; bem como uma camiseta da mesma cor. Como as calças estavam em estado deplorável, foi ao banheiro e tomou uma ducha fria, em pleno inverno. Vestiu outro pijama. Por cima deste vestiu um robe e saiu do quarto em direção da sala. Sempre passava as noites em casa por causa da filha e havia interligado sua lareira de casa à rede de floo, para poder chegar à Hogwarts com mais agilidade. Foi até o bar bem montado e diverso. Encheu um copo com uísque de fogo e o bebeu de uma só vez. "Pervertido" – pensava de si mesmo. Imaginar Helena em seus braços nos dias de hoje era uma coisa. Agora, personifica-la como havia feito no sonho, com pouco mais de quinze anos, talvez? Era demais. "Sofia têm 15 anos. Que absurdo!". Não aguentava mais. Era hora de agir: Teve uma ideia que trataria de colocar em prática assim que amanhecesse o dia.
Subiu as escadas para tentar dormir novamente. No meio do caminho, ouviu uma voz fina e suplicante lhe chamando em meio à choramingos.
- Pai...
Severo entrou no quarto da filha com cautela:
- O que foi, filha?
- Está doendo... - diante da presença do pai, a jovem chorava deliberadamente.
- Eu já volto. Tente ficar calma, tudo bem?
A garota se limitara a acenar com a cabeça que "sim", ela tentaria. Ele voltou rápido. À mesa de cabeceira ele depositou três vidrinhos, que manuseava com destreza, misturando os líquidos. Aproximou uma colher da boca de Sofia, que sorveu o conteúdo com uma careta, ainda choramingando e gemendo de dor. Na pouca sobra de colchão que havia na lateral da cama, Severo se acomodou e abraçou a filha. O quarto dela era bem diferente do quarto de Amy: Era delicado, organizado e mimoso. Sem nenhum pôster.
- Já vai passar, meu anjo. Já vai passar. – dizia, fazendo carinho nos cabelos da jovem, tentando acalma-la. E assim ambos adormeceram.
O dia amanheceu e quando Severo despertou Sofia ainda dormia. Moveu-se e saiu da cama com cuidado para não acordá-la. Avisou a governanta, Sra. Maisy, que deixasse a garota dormir o quanto quisesse, pois a noite havia sido difícil.
Já Helena acordou ainda mais cedo do que o habitual. Estava nervosa, pois ela e Snape tinham combinado de visitar a Mansão à tarde. Não conseguiu dormir à noite, muito menos ficar na cama de manhã. Portanto, começou a trabalhar com afinco em suas obras, tamanha era a sua ansiedade. A manhã dela passou rápido, ao contrário da de Snape, cheio de pendengas escolares para resolver.
O horário combinado estava próximo e ela tratou de ir se arrumar. Era melhor evitar transtornos, por isso preferiu uma roupa simples. Vestiu jeans, tênis e um blusão de moletom. Os cabelos, ela afastou do rosto e os amarrou na nuca. Olhou-se no espelho e concluiu: Snape não pensaria que ela se vestiu para seduzi-lo. Era esta a intenção.
Ele chegou às três da tarde em ponto e se surpreendeu ao vê-la já vestida com as roupas simples, com a bolsa e um caderno para anotações nas mãos.
- Pronta!
- Sim, podemos ir.
- Que pena. Tinha esperança de ser convidado para tomar uma xícara de chá. Ainda não consegui fazer meu desjejum.
- Pena mesmo – Helena concordou com um sorriso maldoso – Da próxima vez escolha uma parceira de cama que saiba cozinhar – aconselhou irônica.
- Você é bem perspicaz, mas enganou-se desta vez. Tive uma reunião bastante enfadonha com o conselho superior durante toda a manhã e minha filha mora comigo, como você sabe. – começaram a caminhar. - Ainda no começo da tarde ela tinha uma consulta agendada em St. Mungus e eu mesmo quis leva-la porque Sofia ainda está muito abalada emocionalmente com a perda da mãe e tudo o que vem acontecendo.
Helena sentiu que ficava vermelha. Era um misto de mortificação e culpa. No seu desejo incontrolável de afronta-lo acabara passando uma imagem de insensível e grosseira.
Começaram a caminhar. Helena morava no subúrbio da Londres trouxa. Não poderiam aparatar assim do nada e tinham de caminhar até o beco mais próximo. Andaram algumas quadras até Helena perceber que Snape vestia um terno preto de corte perfeito: Passava-se – e muito bem! – por um trouxa!
- Cansada?
- Um pouco.
- Chegamos.
Esconderam-se no beco. Snape se aproximou. Ela se afastou assustada. O que ele iria fazer?
- Helena, nós precisamos aparatar. Ou você prefere ir andando a pé que encostar-se a mim?
É claro que ela preferia... Encostar.
Snape a abraçou pela cintura. Era óbvio que estava se aproveitando da situação. Helena teve uma sensação estranha e engoliu em seco. Como ele mexia com ela! Aparataram.
Helena ficou tonta e quase teria caído se não fosse Snape ter insistido em manter o abraço. Passaram a andar pelo já conhecido caminho de sebe.
- Como está a Sofia? Espero ela supere tudo logo. É tão difícil perder a mãe...
- De fato. Eu sempre fui mais chegado à minha mãe do que meu pai – confessou com um sacudir de ombros e um murmúrio raivoso – Está sendo muito difícil para a Sofia. Ela e a mãe moravam nos Estados Unidos, ultimamente levando uma vida típica dos trouxas, o que nunca me foi favorável, eu confesso. Ela ficou presa dentro do carro durante várias horas e desde então não se mexeu mais. Os médicos afirmam não haver nada fisicamente errado, mas ela sente dores terríveis. A recuperação tende a ser lenta. Ela se recusa a ver qualquer pessoa exceto eu, nossa governanta e os médicos do hospital. Diz que as cicatrizes no rosto são horríveis e tem razão. O que eu não consigo explicar é que ao termino do tratamento com as pomadas e unguentos, nenhuma marca ficará.
Snape parou de repente e acrescentou:
- Desculpe. Tenho certeza de que isto não lhe interessa.
O comentário fez subir à tona o sentimento de culpa de Helena. As palavras anteriores tinham deixado claro o quanto Severo se preocupava com a filha. Ele se mostrava disposto a fazer mudanças e até sacrifícios para o benefício de Sofia. Agora ela entendia o porquê da menina não estudar em Hogwarts...
- E a Amy, como vai? – ele perguntou.
Pela primeira vez naquela tarde, ela o fitou diretamente nos olhos. O brilho dos olhos negros provocou-lhe lembranças.
- Como sempre não muito satisfeita com nada. E eu estou preocupada...
- Com...?
- Não sei. Com a ideia de que ela estrague a vida com um casamento precoce ou na busca insana pela identidade do pai.
Havia falado demais.
- Por que você não conta a verdade ou então se casa e dá a ela um pai? – ele desafiou.
- As coisas não são tão simples assim – ela sentia-se extremamente desconfortável.
- Não mesmo? Ou será que tenta se convencer disto para aliviar a consciência?
- Que absurdo! Você se casaria outra vez só para proporcionar à sua filha uma influencia feminina?
- Não esqueça que eu já tentei uma vez. Mas se em uma segunda oportunidade eu encontrasse a pessoa certa, eu me casaria, sim.
Chegaram à varanda. A resposta a deixou estupefata. Ele percebeu e se explicou:
- Não defendo inteiramente a ideia de um casamento por conveniência, mas em um mundo onde o amor está banalizado e as pessoas o confundem com atração sexual... Tudo não passa de uma questão de prioridade, do que é mais importante... A felicidade de Amy ou...
- A minha? – ela perguntou baixinho.
- Sim. A sua.
Entraram juntos na casa. Ele percebeu logo de cara que todos os quadros haviam sido removidos, menos o de Eileen Prince.
- Onde estão os outros quadros? – ele questionou, curioso.
- Os guardei em uma sala desocupada do piso superior. Eram mau educados demais. Se quiser leva-los, fique à vontade...
- Não, muito obrigado. Dispenso.
Ele não tirava os olhos do único retrato que permanecera no Hall de entrada.
- E por que deixou somente este?
- Por que ela é a única que me trata com amabilidade e educação.
- Você conhece esta mulher?
- Obviamente que não. Apenas sei que seu nome é...
- Eileen Prince.
- Exatamente. Conhece bem seus antepassados... – comentou.
- Claro, senhorita. É a minha mãe.
Helena ficou estupefata pela segunda vez em tão pouco tempo. Então batia papo com a mãe de Severo Snape!
Passaram o resto da tarde vistoriando as alas que ainda não tinham sido reformadas. Enfim, anoitecia.
- Cumpri minha parte do trato. Agora eu gostaria de ver os documentos.
- Sem dúvida alguma, só que eu não os trouxe. São antigos demais e se partem com facilidade. Os deixei em casa. Assim que chegarmos, eu lhe mostro tudo.
Helena não respondeu. Não queria ir à casa de Snape, mas pelo visto não tinha escolha. Esperava que os documentos históricos valessem a pena o esforço. Aparataram para a casa de Snape. Ela logo percebera que o terno havia se transformado nas habituais vestes negras e imponentes. Snape colocava a chave na porta e Helena o fitava. Apesar dos anos que se passaram Snape ainda era um homem muito atraente...
- Fazendo um inventário de mim? – perguntou sem nem ao menos virar-se.
Abriu a porta. A casa de Snape era tão grande quanto a mansão, mas com ares mais contemporâneos; mobiliada com a simplicidade e conforto de um lar! Certamente a visão que estava tendo era muito diferente da ideia que fazia. Imaginava que o ambiente fosse o mesmo que das masmorras de Hogwarts.
- Minha casa passa no seu teste, Srta. Mitchel?
- Ela é muito bonita e acolhedora. – admitiu.
Silencio.
- E os documentos? – ela pediu.
- Já vou pegá-los. Enquanto você se distrai com eles e seleciona os que têm interesse, vou pedir para Mme. Maisy nos trazer um chá. Quer alguma coisa para comer?
- Não, obrigada...
Snape fez perguntas sobre os planos dela para a casa. Ela se entusiasmou contando, parando abruptamente.
- Me desculpe, eu me entusiasmo demais quando falo de meus trabalhos...
- Imagine. Você parece outra pessoa quando se inflama, mais meiga e jovem. É bem curioso uma mulher com paixões escondidas.
Ela ficou sem graça e tentou mudar de assunto:
- Eu realmente ficaria muito grata se você me desse uma cópia destes papéis.
- Pois não – concordou ele com um sorriso provocador. – Mas com uma condição...
Helena estava trêmula e Snape perto demais. Fechou os olhos para tentar se recompor e...
- Por Merlin, você tem medo de mim! – ele murmurou suavemente, porém, incrédulo, aproximando-se cada vez mais. – Se foi meu beijo na casa de Eleonor que te amedrontou tanto; acho melhor mudar sua impressão a meu respeito.
A boca dele se juntou à dela com delicadeza, mas sem nenhum contato mais profundo.
- Não, não, não!
Ele não deu ouvido a ela. As negativas foram abafadas com o beijo ardente que se seguiu. Ela queria resistir, mas via-se incapaz de afastar-se dele, que levou a mão dela ao peito dele, na abertura da camisa. Helena foi sacudida por um calafrio: Suas bocas haviam se separado. Foram interrompidos por um baque surdo vindo do andar de cima. Snape a soltou gentilmente:
- Hora de conhecer Sofia.
