Sofia: menina de cabelos negros e lisos, de estrutura franzina e pele clara. Seria o retrato fiel do pai se não fosse a estrutura corporal, as feições delicadas e as bochechas rosadas; ainda que em seu rosto ainda houvessem marcas do acidente que custavam a sair.

A filha do mestre lembrava muito a Amy, mas ao contrário desta, Sofia era de longe perceptivelmente frágil e delicada. A primeira reação de Helena ao ver a mocinha tentando erguer-se a fim de voltar para a cadeira de rodas foi de compaixão. A menina, por sua vez, levantou a cabeça e sorriu meio hesitante para Helena. Embora o fenótipo de Amy e Sofia fosse parecido, a filha de Snape era acanhada e introvertida.

Severo fez menção de ajudá-la, mas diferente do habitual, Sofia o repeliu.

- Me deixe! Eu posso muito bem me virar sozinha!

Ele se afastou da filha. Sofia se esforçava ao máximo para conseguir levantar e Severo somente tornou a interferir quando a jovenzinha cedeu.

- Por que não fui eu quem morreu naquele acidente! ? Saiam de perto de mim! Vão embora! Agora!

Pela primeira vez, Helena viu nele um olhar de indecisão e instintivamente assumiu o comando. Fez sinal para que ele saísse; o que ele cumpriu. Helena foi em direção da garota e a abraçou. Ajudando-a, Helena sentou-se na cama e deitou a cabeça de Sofia no colo. A intensidade do pranto aumentava cada vez mais.

- Chore querida, chore. Chore o quanto quiser. – dizia ela, acariciando os cabelos macios e perfumados da menina.

- Sinto tanto ódio de mim! Detesto morar neste país!

- Meu bem, compreendo como você se sente e seu pai também. Infelizmente ele não pode trazer sua mãe de volta, muito menos te deixar sozinha nos Estados Unidos...

- Minha mãe não haveria de querer que eu morasse com o meu pai. Ele e minha mãe nunca se deram bem. Às vezes penso que sou um estorvo e que seria melhor para ele se eu tivesse morrido! Eu sou apenas uma obrigação na vida dele.

- Oh, Sofia! Não diga uma coisa dessas! Tente imaginar como o seu pai sofreria se você tivesse morrido...

- Você está querendo dizer que meu pai cuida de mim por vontade própria?

- Mas é claro, Sofia. Todos os pais fazem isso, independente do fato de serem casados ou não. Seu pai poderia muito bem ter lhe enviado para um colégio interno como Hogwarts ou à moda trouxa... Mas ele não fez isso! Ele preferiu cuidar de você, deixa-la perto dele! E isso não é obrigação nenhuma, meu bem. É amor!

Helena sabia muito bem porque estava defendendo Snape. Sofia havia parado de chorar e ela se sentiu aliviada, pois estava com medo de que a menina tivesse uma crise nervosa ou algo do tipo. Instalou-se o silêncio. Sofia o quebrou, repentinamente:

- Às vezes eu faço de conta que não me incomodo de estar nessa cadeira, mas não é verdade. Morro de ódio quando os medibruxos dizem que não há nada de errado comigo. Se fosse assim mesmo, eu estaria caminhando, não acha? E já faz dois anos! - A raiva e a ironia velada na fala da menina de fato comprovava que ela só poderia ser filha de quem era.

- Logo você vai fazer isso, meu bem. Quando dizem que não há nada de errado com você, os medibruxos se referem ao seu físico, mas nossa mente influencia muito o nosso corpo. Ao sofrer aquele acidente, sua cabeça começou a emitir ordens para que não se mexesse para não sofrer dores. Logo ela vai perder esse medo.

Sofia olhou para cima, em direção de Helena e disse:

- Sabe, eu ainda nem perguntei seu nome, mas já sei que você é a melhor namorada que meu pai já teve.

E agora, como desmentir Sofia? Helena percebeu que Snape estava atrás da porta entreaberta, lhe sorrindo e mirando com olhar enigmático. Ele entrou no quarto.

- Muito bem, mocinha. Agora que você já está mais calma e já sabe de tudo, esta aqui é a Helena. E está na hora do...

- SUPER BOLO DE CHOCOLATE da Sra. Maisy! ? *_*

- Não, senhorita. Do remédio. Mas hoje a Sra. Maisy fez o melhor estrogonofe de carne da Inglaterra pra você jantar. Só que primeiro você tem de tomar seus remédios.

- Ah. – ela fez um muxoxo aborrecido. – Mas esses remédios tem gosto de baba de trasgo, pai!

- E você andou provando baba de trasgo onde? – Sofia revirou os olhos. - Vamos, vai ser rápido, filha.

Ela finalmente tomou os remédios, fazendo uma careta horrível.

- Você fica pra jantar com a gente, Helena? – perguntou a menina esperançosa.

Sem saber como recusar, Helena aceitou o convite. Por Merlin, onde estava se enfiando? Não sabia de mais nada. A única coisa que tinha certeza era de que, mesmo quando alterada, Snape tinha uma dinâmica muito linda com a filha. Coisa que Amy jamais conhecera. E isso a deixava encantada. Mas que coisa, não!