Era bem cedo quando Helena acordou. Levou alguns minutos para sair do torpor em que a boa noite de sono havia lhe deixado. Quando deu por si, percebeu que havia se aconchegado a Snape, que por sua vez a abraçara pela cintura. Tentando não acordá-lo, saiu com cuidado da cama. Quando o relógio mal havia marcado que eram oito horas da manhã, ela já estava com os cabelos arrumados e andava de um lado para o outro. Decidiu se distrair com um livro até que Snape acordasse e estava entretida com alguns ensaios acadêmicos sobre poções quando...
- À vontade, querida?
- Ah, sim. – disse tirando os olhos do livro, tentando não mostrar que havia sido pega de surpresa – Me perdoe a falta de cerimônia, mas tomei a liberdade de pegar um dos seus exemplares para ler.
- Pronta para ver Amy? – disse sorrindo levemente.
Uma pedra de gelo se instalou no estômago de Helena. Sabia que não poderia mais postergar a conversa com a filha e ao mesmo tempo em que sentia vontade de sair correndo e abraça-la, tinha vontade de dar-lhe umas boas palmadas.
- Não se preocupe, Amy está tão nervosa quanto você a respeito desse encontro. Tive uma longa con versa com ela ontem e deixei claro não aprovar o que fez.
- Naturalmente, ela se sentiu extremamente casti gada com sua opinião contrária — Helena ironizou.
Não deixava de ser infantilidade sua ressentir-se de Snape pelo que havia acontecido. Sabia que estava sendo ridícula ao pensar que a filha havia transferido a afetividade de sua pessoa para a dele.
- Pode ser - respondeu ele divertido e com um brilho estranho no olhar. - Porém garanto que, quando já estivermos casados há uns seis meses, ela vai reclamar a você que sou muito exigente.
- Ainda não me casei com você, Snape. Então é bom você controlar esse seu sarcasmo.
- Espero que seja adulta o suficiente para não per mitir que uma crise temporária de ciúme obscureça seu raciocínio... — disse ele com calma.
Mantiveram-se em silêncio durante o caminho até o escritório da direção. Helena afligia-se em pensar na maneira como seria recebida por Amy.
- Sofia gostou muito de você – ele comentou, enquanto ainda caminhavam pelos corredores.
Helena ficou tensa que não soube o que responder. Adentraram o escritório. Snape não insistiu no assunto e perguntou o que ela iria querer de café da manhã e logo em seguida saiu para buscar Amy.
Helena só conseguiu dizer "qualquer coisa" e aceitar com um aceno de cabeça, que já doía e latejava. A garganta contraía-se, seca. Levantou-se e foi ficar em pé à janela com vista para o grande lago negro, rodeado de pradarias. A mente tumultuada não lhe permitia nem mesmo perceber o panorama agradável que se via dali.
- Oi?
Helena virou-se depressa ao ouvir aquela voz. Amy estava parada à porta e não havia sinal de Snape. Fitou-a. A palidez do rosto e a expressão de ansiedade nos olhos da filha lhe afastaram toda amargura e ressentimento. Sem saber quem solu çara primeiro, abriu os braços e recebeu Amy, que correra para eles.
- Desculpe... Desculpe... — murmurou a filha em lágrimas. — Eu não quis magoar ou aborrecer você. Andei tão desesperada para saber quem é meu pai que nem consigo pensar direito. Até parece que fiquei doente com isso. Não sei explicar direito, mas...
- Não precisa meu amor, eu entendo. — Helena respondeu com sinceridade e profundamente emocionada ao ver que Amy voltava a ser a pessoa afetuosa que sempre fora.
- O professor Snape ficou furioso quando descobriu que eu tinha fugido da escola. Ele disse que eu era a menina mais egoísta e sem consideração pelos outros que conhecia.
Apesar das lágrimas, Amy sorriu e confessou:
- Acho que foi a braveza dele que acabou me con vencendo de que é mesmo meu pai, senão, não teria ligado muito para o que eu fiz.
Helena sentiu um aperto na garganta.
- Amy, o professor Snape não é seu pai e não sei de onde você tirou isso – disse ela com cuidado, mas Amy sequer deu bola para o que ela disse.
- Fico pensando como vai ser quando vocês dois casarem. Ele tem uma filha pouca coisa mais nova que eu!
Helena primeiro ficou aturdida e depois furiosa. Snape não tinha o direito de ter contado a Amy que iam se casar. Ele havia usado a menina para conseguir o que desejava sabendo que agora ela, Helena, não poderia mais voltar atrás ou desmenti-lo sem magoar profundamente a filha.
- Não foi mesmo uma coincidência — Amy conti nuou tagarelando — que vocês se encontrassem depois desses anos todos? Por que não contou a ele que eu ia nascer? Foi por que você era jovem demais, mamãe? — indagou em tom de censura.
- Sim, porque era jovem demais e também, minha cara, porque sua mãe é muito orgulhosa e não faria nada que pudesse dar a impressão de chan tagem moral — Snape explicou enquanto entrava na sala com a bandeja de café. — Eu, por minha conta, quando não recebi respostas de minhas cartas, concluí que Helena se desinteressara de mim. Eu não fazia ideia que ela...
—... estivesse grávida — Amy concluiu por ele e tirou-lhe a bandeja das mãos para colocá-la numa me sinha. — Eu acabei de dizer à mamãe que você é muito atraente e que, se não fosse meu pai, poderia me con quistar — disse ela abraçando-o com efusividade.
Helena observou a naturalidade com que Snape acei tava a manifestação de afeto de Amy e concluiu que ele poderia desempenhar o papel de pai com eficiência. Ele exibia firmeza e compreensão ao lidar com a menina.
— Quando será o casamento? — Amy quis saber.
— Logo que possamos organizar tudo — Snape res pondeu. — Aliás, pretendo levar sua mãe para jantar fora hoje a fim de tratarmos desse assunto. E amanhã você vai conhecer a Sofia — acrescentou, virando-se para Helena.
Com Amy a seu lado fazendo comentários entusias mados sobre o casamento, ela se manteve calada e os acompanhou no café da manhã.
- Papai disse que quando estivermos morando na mansão não vou precisar continuar dormindo aqui.
- Pensei que não quisesse mudar para a mansão — Helena comentou a contragosto.
- Isso foi antes de descobrir a história de vocês. Agora vai ser diferente, vamos formar uma família. Você vai convidar Eleonor e Jamie para o casamento não vai, mamãe? Como vai ser a cerimônia?
Ainda não conciliada com o fato de Snape a ter acua do a ponto de não poder reconsiderar e rejeitar a proposta de casa mento, Helena sequer havia se lembrado desses deta lhes com que a filha se entusiasmava tanto.
- Provavelmente ao estilo tradicional do mundo bruxo, já que eu e sua mãe vamos nos casar pela primeira vez — Snape respondeu depressa.
- Espero que não queira que eu apareça de véu e grinalda — Helena replicou fitando-o com sarcasmo.
Ele sorriu num misto de ternura e mistério. Aproximou-se e tomou-lhe a mão, que levou aos lábios. Bei jou primeiro a ponta dos dedos e depois a pele sensível da palma. O hálito quente provocou um leve arrepio e a expressão dos olhos negros a manteve imóvel, até quase sem respirar.
- Você estará linda, não importa o que usar.
Negros enigmáticos. Azuis querendo fuzilar alguém.
- E vocês não sabem mesmo quando vão marcar a data? – perguntou Amy, animada.
- Assim que marcarmos, você será a primeira a saber — Snape prometera.
Ao se despedirem, depois de a menina o ter abraçado e beijado, ele recomendou austero:
- Comporte-se e não invente mais estripulias. E evite falar de todas estas novidades em um primeiro momento, tudo bem?
- Não se preocupe, daqui em diante, vou ser uma aluna exemplar. E você, mamãe - disse ao abraçar e beijar Helena -, me perdoe por tudo o que fiz. Sei que acabou me entendendo.
Os olhos de Helena encheram-se de lágrimas. Amy saiu saltitando e Snape a acompanhou até a porta. Eles ficaram a sós. Como se nada houvesse acontecido, começou a falar:
- Pensei em sairmos para jantar hoje à noite e conversa mos um pouco. Sofia ficará bem com a Sra. Maisy por umas horas — Snape disse ao se aproximar dela.
- VOCÊ NÃO TINHA DITO QUE HAVIA DESMENTIDO ESSA LOUCURA DA AMY! ? – ela vociferou, batendo com os punhos no peito dele.
- Não, eu não desmenti – disse ele segurando os braços dela, que continuava tentando bater nele – E não te contei porque você iria colocar tudo a perder no mesmo instante.
- Então você assume que manipulou a situação a seu favor, seu calhorda! ?
- Já que você não consegue enxergar as coisas por conta própria, eu faço isso por você – disse cínico.
- Acho que não resta mais nada para discutirmos. Você já antecipou minha resposta e resolveu todos os detalhes, até como vamos nos casar — Helena reclamou, histérica.
- Precisamos sim. Não esqueça que vamos viver com duas mocinhas muito espertas. Por isso é essencial que tenhamos um período de tempo para nós mesmos a fim de nos acostumarmos com a convivência e a agir com naturalidade para não trair a situação real.
Helena respirou fundo.
- Antes de continuar a expor seus planos, quero deixar novamente claro que, se me casar com você, será apenas no papel. Nada de sexo. E nada de querer saber do meu passado. Nada disso te interessa. — acrescentou com firmeza.
- Meio estranho, mas possível. Tenho o direito de perguntar por que, já que você não me deixou muito claro indo me procurar ontem à noite? – disse com ironia.
Por um momento, Helena ficou surpresa demais com a calma dele para responder. Depois disse:
- Eu não amo você.
- Isso é necessário?
Havia na pergunta uma ponta de zombaria que a fez sentir-se como uma desajeitada menina de dezessete anos.
- Para mim, é. Já que me colocou numa posição em que não posso recusar a me casar com você, eu só o farei se tiver a garantia de que você nunca...
- Force minhas atenções indesejáveis a você? — Snape terminou a frase mais divertido do que desapon tado. — Pois muito bem, eu lhe dou a garantia. Con tudo, quero saber se isso não vai me obrigar a levar uma vida de celibato.
- Seria possível? — Helena perguntou com ironia.
- Talvez, não, embora pareça ser para você, a menos que esteja tentando me dizer que tem um amante.
- Não, não tenho — ela admitiu, com voz rouca e aborrecida por estar revelando mais do que desejava a seu respeito.
- Quer dizer que nada de sexo? Por quê?
- Pergunta boba. Nem todas as pessoas fazem a vida girar em torno da satisfação dos desejos sexuais.
- Concordo, mas bem poucas os excluem por completo da existência, o que, eu deduzo, você diz que faz.
Silêncio.
- Posso ainda perguntar se essa sua aversão é re cente ou antiga?
- Que importância tem? — Helena indagou, sentindo-se cansada e derrotada. — Se ainda quer se casar comigo, conhece os meus termos, Snape. Decida-se.
