Na manhã de quinta-feira, Helena acordou cedo e meio inquieta. Tomou várias providências em relação ao andamento não só do dia-a-dia da casa como tam bém dos trabalhos de restauração da ala nova. Depois, sentou-se à escrivaninha no escritório, disposta a exa minar algumas contas.

Após várias tentativas frustradas de se concentrar na contabilidade, afastou os livros e resolveu dar uma volta no jardim. Com passos rápidos, caminhou em direção ao pequeno lago ornamental. Já estavam no começo de setembro e o outono já se fazia anunciar pelo ar ligeiramente frio.

Até quando aguentaria essa vida dupla que vinha levando? De dia, a mulher calma e controlada que sem pre fora e, à noite, a criatura desconhecida e leviana que rejeitava sua personalidade verdadeira em busca de algo que não conseguia decifrar...

Talvez quando a ala georgiana estivesse pronta ela se sentisse melhor, pois agora viviam meio apertados. De acordo com os diversos contratos de trabalhos artísticos dife rentes, tudo estaria terminado antes do Natal. Snape havia sugerido um baile à fantasia na noite de Ano-Novo para inaugurarem o salão. Aliás, ele não se cansava de elogiá-la pelo que vinha conseguindo fazer com a casa.

Snape era um homem bem mais complexo do que pudera avaliar, Helena admitiu com um arrepio a per correr-lhe o corpo. Era incrível a facilidade com que o bruxo-professor-diretor-empresário competente, que discutia desde assuntos de ne gócios ou acadêmicos à mesa do jantar (quando aparecia em casa, claro!), transformava-se no amante exigente que lhe possuía o corpo na calada da noite; que usava o conhecimento de sua sensualidade e suas fraquezas para quebrar-lhe a resistência e fazê-la gri tar num misto de desespero e prazer.

De repente, uma náusea aguda a fez parar onde estava. E se estivesse grávida? Helena indagou-se aflita ao encarar essa possibilidade que a prenderia mais ainda a Snape. Afinal não tinha tomado precaução alguma contra isso. O lado prático de Helena condenava o descuido, po rém, o emocional sabia que qualquer cuidado nesse sen tido seria o mesmo que admitir seu desejo por Snape e a vontade de continuarem amantes para sempre. Essa verdade, ela não se sentia capaz de encarar.

Devagar, ela voltou para casa. Precisava tomar um banho e se vestir para ir almoçar com Graham. Gos tava desses encontros. Ele era um homem delicado e gentil, que não a ameaçava, nem possuía a virilidade agressiva de Snape. Helena escolheu um conjunto novo para vestir. A cor ficava muito bem com a dos seus ca belos, que, em obediência à vontade de Snape, passara a usar soltos. Todavia, ele não gostava que almoçasse com Graham e Helena não o respeitava nesse ponto. Irritada, apertou os lábios. Snape não tinha o menor interesse emocional por ela, mas não apreciava que ela se relacionasse com outras pessoas. Pois muito bem, ela não era propriedade exclusiva dele!

Helena ficou satisfeita por ter uma maneira de se rebelar contra Snape. No fundo do coração, entretanto, sabia que sua determinação em cultivar a amizade de Graham nascia do fato de ressentir-se amargamente por Snape provocar-lhe o apetite sexual. Contudo, ela negava essa verdade e tentava se convencer de que tinha o direito de escolher seus amigos.

Antes de sair, foi procurar Sofia e, como esperava, encontrou-a no salão, embevecida com a pintura do teto. Ela mesma parou um momento para apreciar o trabalho. A cena alegórica já se delineava clara, com o céu de nuvens brancas tão reais que provocava a ten tação de se tocar nele.

— Não se esqueça de fazer as lições à tarde, mocinha — recomendou.

— Você vai demorar? Pensei que fosse só almoçar...

Helena notou um leve tom de desaprovação na pergunta.

— Não sei. Graham está procurando umas cadeiras para a sala de jantar. Parece que ele finalmente en controu algumas em estilo rococó, como lhe pedi, e eu não quero perdê-las.

— Ele é o dono do antiquário, não é? Você anda se encontrando muito com ele — Sofia disse em tom cauteloso.

Certa de que agora não era o momento oportuno para tomar conhecimento da crítica implícita na afirmação da enteada, Helena sacudiu os ombros e respondeu:

— Graham não é o único com quem me encontro, porém, é o que demonstra conhecimento mais profundo do período em que estou interessada.

— Não sei, não. Acho que ele sente atração por você. – Sofia conclui, enfática como uma típica Snape.

Helena tinha absoluta certeza disso, porém, estava segura de que Graham não representava nenhuma ameaça, pois sempre se comportava com distinção. No entanto, aborrecia-se por Sofia ter notado os senti mentos dele.

— Graham sabe que sou casada — Helena replicou com naturalidade e foi embora antes que Sofia pu desse fazer mais algum comentário.

A menina a fizera sentir-se culpada e isso a abor recia. Afinal não era responsabilidade sua se Graham se sentia atraído por ela, pois não tinha feito nada para encorajá-lo. Como também não o desencorajara... Helena reconheceu mais tarde quando voltou a pensar no assunto, enquanto tomavam o café depois do almoço.

— Você está com pressa de voltar para casa? — Graham indagou. — Acho que sei onde podemos en contrar as cadeiras.

Ele riu ao ver Helena afastar a xícara para trás com os olhos brilhando de excitação.

— Aposto como você ama essa casa com mais paixão do que... — Ele interrompeu a frase, constrangido, e Helena inquiriu com voz seca:

— Amo meu marido, você ia dizer? - Fitaram-se por um momento e depois Graham murmurou:

— Eu estaria certo ao afirmar isso?

Helena sentiu um leve latejar na garganta. Sabia ser seu dever negar as palavras de Graham e mudar de assunto, mas lhe surgiu no íntimo uma ponta de excitação tão antiga quanto Eva e sentida sempre que uma mulher tomava conhecimento da atração exercida por ela num homem. Não havia muito tempo, caso se encontrasse nessa situação, teria rechaçado Graham com firmeza. No entanto, já sentia a tentação de con fidenciar a ele o fato de não ser feliz com Snape. Na verdade não era mesmo, porém, a possibilidade de ad mitir isso à outra pessoa, ainda mais a um homem interessado nela, provocou-lhe um arrepio na espinha. "O que está acontecendo comigo?" indagou-se aflita.

Às vezes mal conseguia se reconhecer na mulher em que Snape a transformara. Antes que sua indecisão em responder se tornasse óbvia, a conversa foi interrompida pelo garçom que trazia a conta. Ao fim da tarde, Graham deixou Helena nos portões da Mansão Snape.

— Ei, Helena, está sonhando acordada? — Graham indagou ao tocar-lhe o braço e, com isso, afastou seus pensamentos sombrios.

Helena levantou o rosto sorridente, mas tornou-se séria no mesmo instante por perceber, embaraçada, a expressão de sensualidade com que o amigo a fitava. Infelizmente, os pesados portões de ferro da casa se abriram e apareceu um homem muito alto, corpulento, de olhos e cabelos negros...

... A confusão estava feita.