— Oh, meu Mérlin! — murmurou ela, perturbada com a visão de Snape.

— Oh meu o quê! — questionou Graham, que desconhece o fato de Helena ser bruxa, tampouco de existir realmente Magia no mundo...

Mas Helena nem deu bola. Assim que se viu fora do carro, exclamou, nervosa:

Meu amor, que surpresa!

Ela ficou irritada com a demonstração de fraqueza, mas afinal, tinha de fingir na frente de Graham. Não via razão alguma para se comportar como uma esposa culpada quando não tinha feito nada de errado, mas sabia muito bem do que Snape seria capaz...

— Boa tarde... Severo? — Graham cumprimentou meio incerto quanto ao nome do homem diante de si. Helena notou o visível constrangimento do amigo e sentiu uma grande pena dele. Além de estar pouco à vontade, levava desvantagem numa comparação física com Snape. Isso fez sua irritação crescer.

— Pensei que hoje você só estaria de volta à tardinha — disse ela ao marido como se pedisse explicação da presença dele ali.

— Pedi à Minerva que ficasse na Direção este fim de semana... Aqueles lufanos malditos, filhos da Lovegood e do Neville junto com as pestes grifinórias do Potter e da Weasley quase colocaram Hogwarts abaix... AIIII! FICOU LOUCA? — Helena deu um pisão no pé de Snape, como quem pede para calar a boca. Através de Legilimência, ela o "lembra" que Graham é trouxa.

Graham, por sua vez, estava olhando para os dois completamente desnorteado e incrédulo. Grifinórios? Lufanos? Hogwarts? Do que diabos eles estavam falando?

Quem dera se fosse apenas isso. Snape conteve seu discurso, mas a raiva voltou a ter como alvo o trouxa diante de si. Helena sabia que, sob a aparência educada, o marido fervia de raiva e isso a inflamou. Com que direito Snape ficava bravo com ela, ainda mais quando não fizera nada errado? Não era propriedade dele e por isso não podia ser humilhada dessa maneira na presença de Graham, que também não merecia ser tratado daquela forma. Snape ainda não tinha feito nada, mas Helena sabia que iria fazer. Ela não conseguia entender o compor tamento dele, pois Snape estava longe de ser o tipo do marido ciumento. Aliás, para alguém sentir ciúme era preciso amar primeiro, não era?

— Mas então, meu bem... O que te traz aqui? — ela indagou, ao sentir o rosto queimar.

— Procurar por você. Sophia ficou preocupada quan do não voltou logo depois do almoço. Como aquela maldita engenhoca trouxa que você chama de carro estava com problema no... depurador, é isso?... Ela ficou com medo de que tivesse havido algum acidente. É só no que ela pensa agora.

A explicação era plausível, porém, a colocava em situação de desvantagem.

— Como pode ver, não aconteceu nada. Graham me levou para ver as tais cadeiras que eu queria — Helena contou e arrependeu-se no mesmo instante. Suas pa lavras soavam como uma desculpa pelo seu compor tamento e isso era a última coisa que desejava.

— Você gostou? Das cadeiras, quero dizer — Snape perguntou com voz suave.

A indagação parecia ter um duplo sentido e isso provocou em Helena um grande mal-estar. Tinha a im pressão de que Snape sabia de suas confusões íntimas a respeito de Graham. Meio na defensiva, ela levantou o queixo e respondeu:

— Gostei tanto que até as comprei. São dez ao todo e mais a mesa. Vão ficar lindas na sala de jantar.

— Acredito você nunca erra nessas coisas. Bem, como seu carro não está bom, acho melhor você parar mais em casa ou então usar os transportes que a nossa gente costuma usar, não é querida? — disse Snape, autoritário.

Em seguida, ele acenou de leve com a cabeça em direção a Graham como se o antiquário não passasse de um menino de recados e o estivesse dispensando. Helena não teve outro recurso senão sorrir para o amigo e postar-se ao lado do marido.

Mas Graham não "colaborou".

— Quem você pensa que é, seu... ANIMAL? Você trata a sua mulher como se ela fosse um brinquedo seu!

Snape se inflamou...

— Escuta aqui, seu trouxa de meia tigela...

— Nossa, seu vocabulário de xingamentos é bastante... INFANTIL — disse Graham, obviamente pensando que "trouxa", ali, naquela situação, se tratava de mero "xingamento".

— Vou te mostrar o que é infantil, seu paquiderme... E também vou te ensinar a não se engraçar com a mulher de outro homem!

Snape sacou a varinha. Helena nada pôde fazer, pois não costumava sair portando a sua própria varinha. Afinal, ela estava acostumada à vida de trouxa e os perigos de guerra não mais existiam...

— SECTUMSEMPRA! — e o mestre lançou a sua especialidade...

Graham se debatia, desesperado e sem entender o que estava acontecido. De onde saíram aqueles cortes profundos e que lhe causavam aquela dor aterradora? Daquele "pedaço de madeira"? Tentou se arrastar para o carro, mas não conseguiu.

— DESFAÇA ESSE FEITIÇO AGORA, SNAPE!

— Me obrigue! — disse ironicamente...

Helena ergueu a mão direita, como quem intenciona dar um tapa... Snape gargalhou.

— Vai me obrigar a desfazer o feitiço com essa sua mãozinha de algodão? Me poupe, mulher... — disse ele, já dando as costas...

— DESFAÇA ESSE FEITIÇO OU EU VOU EMBORA DESTA CASA! — disse, sem nem mesmo ela saber porque tal argumento teria valor, afinal, Snape não estava nem aí para ela... Esta cena, era puro reflexo do seu orgulho machista...

Snape ficou parado, olhando profundamente para a esposa.

— E FAÇO VOCÊ PARAR NA CELA MAIS FRIA E IMUNDA DE AZKABAN, QUE É O ÚNICO LUGAR DE ONDE VOCÊ NÃO DEVERIA TER SAÍDO, SEU MONSTRO! — decidiu ser cruel.

Snape se aproximou de Graham, que tentou recuar, apavorado. Snape executou um feitiço mudo para que Graham adormecesse e praticamente mandou Helena entrar. Raivosa, ela obedeceu. Ele aparatou para as masmorras da mansão (onde já funcionava o seu laboratório particular), aplicou essência de ditamno nas feridas, que se fecharam e finalizou o "reparo" com um intenso obliviate. Helena jamais tomaria conhecimento, mas ele exagerara na "dose", fazendo o pobre antiquário esquecer até mesmo da existência dela...

Muito tempo se passou, quando Snape finalmente desfez os efeitos do Sectumsempra e deixou Graham desacordado e deitado na cama de sua própria casa, muito longe da Mansão Prince. Voltou para casa pensativo e, quando entrou em seu quarto, a única coisa que queria era relaxar. As peripécias da nova geração Potter-Weasley-Longbottom agora não era nada perto do estresse que lhe pesava os ombros, a cabeça, o corpo inteiro. Assim que entrou no quarto, uma explosão de raiva vinda de Helena o atingiu:

— Por que toda essa encenação, Snape? Como se atreveu a me tratar como criança e me envergonhar na frente de Graham? Ou melhor como você foi capaz de ferir o Graham! Que atitude mais comensal, não é! E ainda por cima me arrasta para casa como se eu fosse...

— Minha mulher — ele completou, com mansidão enganadora. — Não é isso que você é, Helena?

— Sei que sou, mas o fato de ser sua mulher não significa que seja propriedade sua, entendeu? O que pensou que eu estivesse fazendo com Graham... Amor?

Snape virou-se para ela e Helena pôde ver um brilho estranho nos olhos negros. Percebia que a raiva queimava latente sob o autocontrole. Isso a amedrontava e esti mulava ao mesmo tempo. Chocada, deu-se conta de que queria brigar com Snape e provocá-lo a ponto de esti lhaçar aquele maldito domínio próprio. Da mesma forma com que ele a tornava submissa aos desejos de seu corpo, queria deixá-lo à mercê das próprias emoções. Não su portava mais essa mistura de angústia e ódio que a impedia de raciocinar e se comportar com racionalidade.

— Quer fazer amor com Graham? — Snape per guntou finalmente. — Se for, eu...

— Você o quê? Vai me castigar abusando de meu corpo? — Helena riu alto. — Já não faz isso o suficiente? Por que acha impossível que eu possa desejar um pouco de carinho para compensar sua crueldade, Snape?

— Minha crueldade? Por Merlin, Dumbledore e todos os bruxos relevantes neste mundo, Helena! Não entendo como pode me dizer isso! Mas vamos deixar um ponto bem claro agora: você não vai tornar a ver Graham Wilde — ordenou ele ríspido —, e estou fa lando sério.

Helena ficou muda de espanto e raiva. Jamais per mitiria que Snape lhe governasse a vida. A primeira coisa que faria na manhã seguinte seria telefonar a Granam a fim marcar um jantar sábado à noite. E se o convite incluísse cama além da refeição, ótimo! Snape ia aprender que não devia lhe dar ordens, humilhá-la e, acima de tudo, subjugá-la com a sen sualidade dele. Santo Mérlin, como o odiava, pensou com o olhar perdido na paisagem. E não só a ele, mas a si mesma também, ou, melhor, a criatura em que ele a havia transformado...