Meninas, meninas! Como fiquei feliz e reanimada com as reviews de vocês! E tu, Anita? Não tens noção de como me deixa contente ler o que me escreves. E vocês, num geral, estão muito afoitas, mocinhas! O próximo capítulo já desembarca na festa de debutante da Amy... E aí... Cabeças irão rolar! Muahahaha! Capítulo gigante pra vocês, não consegui reduzir...
E quanto aos asteriscos durante o texto... Bom... Sigam o coelho! ;)
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O dia amanheceu fresco e claro. Era sexta-feira e logo mais ao fim da tarde, Amy estaria em casa. Só então Helena recordou-se de que teria de modificar seus planos de revanche contra Snape, convidando Graham para um novo jantar hoje mesmo, em vez de esperar o fim de semana; isto porque no Sábado fariam uma pequena reunião familiar para comemorar o aniversário de Amy e durante toda a semana a seguir haveria de se ocupar com os preparativos da festa de debutante.
Helena pegou o telefone, a fim de falar com Graham, mas assim que ouviu a réplica no outro lado da linha, percebeu que ali havia um dedo de Snape. Ou melhor, a mão inteira:
— Graham Wilde antiguidades...
— Olá, querido! Bom dia! É Helena! Helena Snape... Tudo bem? — perguntou, receosa. — Preciso de sua ajuda novamente! — disfarçou.
Confiava na competência de Snape em fazer Graham esquecer o episódio de terror vivenciado em seu portão, mas estava com um pé atrás...
— Helena...? Não conheço nenhuma Helena... Acho que você se enganou, moça...
Muito desconcertada, Helena pediu desculpas pelo engano e desligou o telefone. Será que Graham tinha ficado tão chateado a ponto de ignorá-la pelo mau comportamento do marido? Foi quando todas as luzes do universo acenderam-se sobre sua cabeça...
— Aquele troglodita deve ter "exagerado" um "pouco" no feitiço de memória — pensou indignada, mas com um sorriso infame se formando no rosto.
Helena se arrumou, pegou sua bolsa e foi para o antiquário. Pela primeira vez, depois de muito tempo, aparatou. A falta de hábito lhe rendeu uma imensa ânsia, um enjôo terrível... Ao menos era isso o que ela pensava*. Bateu à porta do antiquário. Graham lhe atendeu, como se fora qualquer cliente.
— Olha, Graham... Sei que você não está entendendo nada, mas... — sacou a varinha e murmurou algo que o homem diante de si achou engraçado, mas não teve tempo de rir. Seus olhos ficaram embaçados, mas logo voltara ao normal.
— Helena, minha querida! Tudo bem com você? Que surpresa te ver por aqui! Espero que seu marido não tenha se incomodado...
— "Ufa, ele não lembra de nada... Mas o que me deu... Fiquei até frac..."
Helena teria se estatelado ao chão, não fosse Graham apoiá-la.
— Tudo bem com você? — disse ele, fazendo-a sentar-se em uma grande chaise.
— Tudo, deve ser porque comi pouco no café da manhã... — disse estando ainda um pouco tonta.
— Mas me diga... O que lhe traz por aqui?
— Hm... Ehr... Estou terminando o quarto das minhas filhas e poderíamos discutir o projeto... Amanhã, talvez. Preciso de algumas peças — inventou, afinal, não poderia fazer o convite assim, de cara.
— Você tem filhas? — perguntou, surpreso.
— Sim, não lhe contei? Tenho uma filha que faz quinze anos amanhã, mas que a festa de debutantes será na semana que vem... E uma enteada, pouca coisa mais nova, filha de meu marido...
— Bom, podemos sair para jantar hoje. Que tal?
— Tudo bem, você quem sabe. Estou com tempo livre.
— E seu marido?
— Está trabalhando, não se preocupe...
— E o que é esse pedaço de madeira na sua mão? — perguntou, ironicamente — Até que é bonito...
— Ah... — desconcertada, Helena tratou de esconder. — Ah... É... Encontrei por aí.
Graham olhou de uma forma estranha, que Helena não entendeu. Era desconfiança.
Quanto à Helena, esta só podia pensar que não estava certo sentir-se culpada por procurar o ami go, pois tinha o direito de escolher as amizades que bem entendesse. Como sempre, culpava Snape por instigá-la a tomar atitudes que ela também não aprovava. Estava presa numa armadilha e, como um animal selvagem, debatia-se para escapar. Mas, o que a pren dia? O casamento ou o desejo que Snape conseguia despertar ao bel-prazer dele? Até mesmo na noite anterior, apesar de sentir-se furiosa com ele... Sentiu desejo. Irritada, afastou a lembrança da mente. Não queria pensar em como as mãos de Snape em seu corpo a levavam a alturas tais, que nada mais tinha importância a não ser a vontade de fazer amor.
Conversaram algumas amenidades e Helena se despediu. Tinha a impressão de estar sendo espionada*, mas o dia transcorreu sem maiores turbulências. O fato de Snape ter voltado para casa no fim de semana contrariava os planos de sua esposa, todavia, isto não fez Helena desistir de suas artimanhas. Ela ainda também era uma sonserina...
Mesmo assim, a consciência da senhora Snape não a dei xava esquecer que combinara algo com Graham às escondidas do marido. De maneira irracional, ela o cul pava por seu comportamento irregular. Outro ponto que a incomodava era o fato de Graham estar mais envolvido emocionalmente com ela do que imaginara. Até então, pensara que ele não esperava manter mais do que uma amizade e, no máximo, um flerte inconsequente com ela.
Sentiu uma onda de excitação percorrer-lhe o corpo quando se forçou a aceitar o fato de que Graham tinha em mente um relacionamento mais íntimo. Por um lado, não encarava a perspectiva de um compromisso desse tipo agradável, por outro, a considerava uma maneira de se livrar do domínio físico e emocional poderoso que Snape exercia sobre ela. Isto se conseguisse se excitar com as carícias de outro homem...
Ela gostava de Graham e se sentia lisonjeada com as atenções e a admiração dele. Havia até chegado ao ponto de imaginar como se sentiria se ele a beijasse, o que queria dizer que ele não lhe era indiferente. Mesmo as sim, a ideia de ter um caso com Graham não a atraía. Na verdade, não precisava ir tão longe, refletiu. O importante era não parar de se encontrar com Graham a fim de que Snape não pensasse ter levado a melhor outra vez. Quanto às possíveis conseqüências — ora! — que fossem para o umbral.
Por sorte, Snape não estava em casa quando Helena se aprontou para o encontro, pois tinha esquecido os trabalhos dos alunos de segundo ano em Hogwarts e, mesmo sendo fim de semana, gostaria de corrigi-los em casa. Ao menos essa foi a desculpa que ele deu...
Depois de tomar banho e vestir um conjunto de calcinha e sutiã de seda que o próprio Snape comprara para seu enxoval (quanta ironia!), Helena sentou-se à penteadeira para fazer a maquiagem e se pentear. En quanto fazia isso, Amy apareceu e perguntou curiosa:
— Aonde você vai? Não sabia que você e o papai sairiam juntos hoje.
— E não vamos mesmo. Vou sozinha a um jantar de negócios. — E indagou com um sorriso forçado: — E você e Sofia, o que vão fazer?
— Vamos ouvir uns CD's que havíamos encomendado e chegaram hoje... Tudo demora a chegar aqui nesse fim de... — parou com o olhar de censura da mãe. — Que seja... Uma das vantagens de a gente morar nesta casa é poder tocar música bem alta... Sem ninguém reclamar. — comemorou com palmas e pulinhos adolescentes...
— Você vai acabar surda antes de fazer quarenta anos — Helena declarou severa ao se dirigir ao guarda-roupa.
Depois de olhar tudo, resolveu usar um vestido lilás-clarinho, de musselina de algodão e linha soltas. Acompanhava, ainda, um casaco curto do mesmo te cido. Assim que o vestiu, Amy expressou a admiração.
— Puxa, que lindo! Quando você comprou isso?
— Foi seu pai que comprou... — Helena parou de falar imediatamente. Nunca se referira a Snape como "pai" para Amy, mesmo que a garota estivesse convicta disto e o próprio tivesse confirmado a história, num embuste para fazer Helena casar com ele.
— Bem, já vou indo... Não quero me atrasar. E veja se você e Sofia jantam direito!
E saiu...
Helena havia combinado de se encontrar com Graham no apartamento dele, que ficava em cima da loja de antiguidades. Ao subir as escadas, sentiu certa apreensão. Bateu à porta:
— Como sempre, pontual — disse Graham ao abrir a porta.
Ele devia ter acabado de tomar banho, pois os ca belos ainda estavam molhados. A camisa esporte bran ca mostrava parte do peito musculoso. A apreensão de Helena cresceu e ela desviou o olhar para não fitá-lo. Ele foi ao quarto pegar as chaves do carro e enquanto isso, conversavam:
— Seu marido não se importou que viesse jantar comigo?
— Severo não tem o direito de determinar como devo viver. Sou uma mulher feita e não uma criança — Helena respondeu com voz calma e segura.
— Você me deixa contente ao dizer isso.
Graham estava bem atrás dela e Helena podia sen tir sua respiração no pescoço. Seu instinto a avisou de que ele iria beijá-la e por isso desviou-se depressa para o lado.
— Sabe que já estou com meu carro? O pessoal da oficina descobriu logo o problema e o consertou. Ainda bem. Onde vamos jantar? — disse, parecendo uma metralhadora de palavras.
Se Graham se desapontara com a reação dela, não o demonstrou e respondeu com naturalidade:
— Num restaurante novo que me indicaram. Dizem que a comida é excelente... É um lugar muito bonito.
[...]
— Helena?
Certa aspereza na voz de Graham chamou-lhe a atenção de volta.
— Desculpe, eu me distraí pensando em outra coisa. Acho ótimo. Confio no seu bom gosto e certamente o lugar deve ser lindo...
— Mas não tanto quanto você.
O timbre de voz dele tinha se aprofundado e isso fez Helena se acautelar. Com despreocupação retrucou:
— Ora, muito obrigada, cavalheiro. Você também está muito elegante.
Mais uma vez Graham não demonstrou desapontamento por Helena ter se esquivado da tentativa de aproxima ção feita por ele.
— Vou pegar meu paletó e então poderemos ir.
Sozinha na sala, Helena percorreu o olhar à volta. Tudo estava em ordem e o aspecto geral era agradável, embora típico de um homem sozinho. Graham devia ter trinta e tantos anos. Por que não era casado? Talvez fosse viúvo? Divorciado?
Helena deu-se conta de como sabia pouco a respeito desse homem e, mesmo assim, não sentia curiosidade alguma por ele. Isso não queria dizer que o seu envolvimento emocional com Graham era mínimo e, portanto, não justificava um relaciona mento mais íntimo?
— Parece que o outono já está chegando — Graham comentou no carro.
Durante o trajeto, mantiveram uma conversa um tanto vaga sobre assuntos gerais. O restaurante ficava no campo, num celeiro adaptado com graça e bom gosto ao lado de uma lagoa. Quase todas as mesas estavam tomadas, mas Graham tinha uma reserva e logo se acomodaram. A comida provou ser tão boa ou ainda melhor do que tinham dito a ele. Durante a refeição, Helena percebeu que surgia certa tensão entre ambos e tentou ignorá-la. Já passava das onze quando tomaram café e licor e, pouco depois, foram embora.
Helena não demonstrara pressa alguma e comera bem devagar propositadamente. Achava que a essas alturas Snape já sabia aonde ela tinha ido. Tentou imaginar a reação dele, porém, não conseguiu e isso lhe perturbou um pouco.
Na volta, a tensão que os dominava aumentou e Helena tinha a sensação de quase poder tocá-la. Assim que estacionou o carro ao lado do seu, atrás da loja, Graham convidou com voz meio embargada:
— Helena, que tal subir um pouco e tomar um drin que comigo?
Este era o momento decisivo. Se dissesse "sim", es taria concordando não só com a bebida como também com outras coisas mais, Helena refletiu. A escolha era sua e sabia que Graham não a forçaria a subir contra sua vontade. Em parte, desejava recusar o convite e ir embora antes de cometer um engano irremediável, todavia, instigada pela lembrança de Snape e tudo que ele lhe fazia, aceitou-o.
— Que tal se eu aceitar? — Respondeu com suavidade. Por um segundo, Graham ficou imóvel e, em seguida, ficou visivelmente afobado, tenso, elétrico.
Ele soltou os cintos de segurança dos dois, saltou do carro e ajudou Helena a descer. Posses sivo, tomou-lhe o braço enquanto subiam a escada para o apartamento dele e, assim que entraram, enlaçou-a e começou a beijá-la.
A paixão agressiva e violenta ofendeu a sensibilidade de Helena e lhe deixou rígida. Todas as reações de rejeição que sempre esperara encontrar nos braços de Snape, mas que nunca sentira, incrivelmente surgiam no mo mento em que a boca de Graham pressionava a sua. Tomada de pânico, Helena perdeu o uso da razão. Cega a tudo que acontecia exceto à necessidade de se livrar da opressão daqueles braços e daquela boca, começou a lutar com desespero. Graham a soltou imediatamente e, com isso, ela voltou a raciocinar com clareza.
Ela não sabia qual dos dois tremia mais e, na pouca claridade reinante, teve a impressão de que Graham estava lívido. Arrasada por sensações de culpa, angús tia e desespero, mordeu o lábio sem saber como agir. Na ânsia egoísta de castigar Snape, ela havia magoado profundamente o amigo e isso era a última coisa que desejara nesse seu proceder leviano.
Ao ver a raiva e amargura entrelaçadas na expressão de Graham, Helena tocou-lhe o braço e murmurou:
— Lamento muitíssimo.
Ela sabia, palavras de desculpa não poderiam jamais justificar sua falta de receptividade e, muito menos, a atitude de rejeição.
— Acho melhor você ir embora — declarou Gra ham, bravo.
Helena não o culpava. Se nos encontros anteriores não encorajara as pretensões do amigo, nessa noite dera a entender que aceitaria as manifestações amo rosas dele. Caminhou para a porta, mas parou ao ouvir Graham dizer com amargura:
— Se é assim que trata seu marido, não compreen do por que ele esteja tão desesperado com medo de perder você.
Helena virou-se meio hesitante e de cabeça baixa. Se Snape temia perdê-la, era mesmo por razões além do entendimento de Graham.
— Talvez ele não esteja — disse ela, desanimada.
— Pois está e a ponto de ter vindo aqui hoje à tarde, a fim de me avisar para ficar longe de você.
Helena mal podia acreditar no que acabava de ouvir.
— Mas você não me disse nada!
— Não disse o quê? Que o seu precioso maridinho tinha me ameaçado fisicamente, caso eu encostasse um dedo em você? Eu a desejava, Helena — Graham declarou amargurado —, e agora à noite você deu a entender que o sentimento era recíproco. Eu queria gozar de sua companhia e não perder tempo falando de seu marido.
Devagar, Helena abriu a porta e desceu a escada. No carro, antes de dar a partida, viu que já passava da meia-noite. A mente girava num torvelinho de ideias confusas e achava inacreditável que Snape hou vesse feito novas ameaças a Graham. Ao menos esperava que ele tivesse apelado ao método trouxa, desta vez.
Quase em estado de choque e dirigindo o carro como uma autômata, ela foi para casa. Ao passar a língua pelos lábios, notou que tinham ficado feridos com a vio lência do beijo de Graham e estremeceu arrepiada ao lembrar-se dele. Tinham sido dois impactos fortes de mais os dessa noite. Pelo menos havia descoberto que as reações despertadas por Snape em seu corpo e os seus sentimentos para com ele quando faziam amor, não eram emoções que qualquer homem podia lhe pro vocar num passe de mágica.
Adentrou os portões e parou o carro na frente da casa. Começou a tremer violentamente quando a verdade explodiu em sua men te. Ela ainda* o amava! Amava Snape! Seu e somente seu Severo Snape. Não podia ser! Quer dizer, podia, sim! Mas ele não a amava... E por isto ela tinha lutado tão ferozmente contra ele, a não ser pelo conhecimento arraigado em seu íntimo de que ele ameaçava sua indiferença pelos homens e a fazia vi brar com todas as emoções que jurara jamais sentir novamente...
— Helena!
A voz grave de Snape, que se aproximava do carro, teve o efeito de uma chicotada nos nervos em franga lhos. Ela encolheu-se e, com a luz que vinha da porta aberta da casa, viu a expressão dos olhos dele se en durecer diante de seu movimento e dos lábios inchados.
— Então a aventureira voltou? Vai passar o resto da noite aí ou pretende entrar em casa?
O tom sarcástico a magoou muito e provocou-lhe uma onda intensa de raiva. Com as pernas trêmulas desceu do carro e cruzou o espaço que a separava de Snape. Como se atrevia a tratá-la como se fosse uma criança incapaz de cuidar da própria vida? E pior... A intimidar Graham, sob ameaça, DUAS VEZES, a não vê-la mais?
— Não sou uma criança, Severo. Sei me cuidar. Não precisava ficar me esperando — declarou com voz seca.
— Concordo — Snape disse com suavidade. — Não estava te esperando. Estive em Hogwarts e aca bei de voltar de um passeio a pé pela redondeza.
Helena entrou logo em casa e subiu rapidamente a escada. Sabia que Snape tinha de trancar a porta e apagar as luzes e queria aproveitar essa pequena van tagem de tempo para se refugiar em seu quarto. Ambos dormiam em quartos separados, que por sua vez, tinham uma passagem de um para ou outro, para deixar a situação despercebida às meninas. Ela ainda o conservava para seu uso, embora Snape a for çasse a dormir com ele quando estava em casa. Essa noite, entretanto, seria diferente.
No fundo do coração, Helena sabia estar agindo dessa forma por um gesto de covardia e não de desafio. Seria impossível dormir ao lado dele sem trair seus senti mentos, além de ser uma tortura insuportável tê-lo tão próximo. Lamentando que a porta de passagem entre os quartos não tivesse cha ve, ela se despiu depressa. Não se deu ao trabalho de pendurar o vestido. Pôs a camisola e deitou-se ao mesmo tempo em que apagava a luz do abajur na mesinha-de-cabeceira.
A angústia que a dominava era imensa, o coração batia pesado e os ouvidos tentavam captar qualquer ruído indicativo da chegada de Snape ao quarto vizinho.
Quando ele surgiu foi em tal silêncio que Helena só percebeu ao ouvi-lo abrir a porta de comunicação entre os dois aposentos. Tensa, seguiu men talmente os passos dele em direção à cama e, então, sen tiu-lhe o odor característico quando ele se curvou para acender a luz do abajur. A sua intuição dizia-lhe que Snape estava furioso, apesar da calma e indiferença aparentes.
— Você teve uma noite agradável?
Nervosa, Helena engoliu em seco e depois respondeu:
— Mais ou menos.
— Ora, mas que pena! Vou ver o que posso fazer para melhorar a situação...
Havia tanta ameaça na voz dele que Helena, tensa, tentou ganhar tempo dizendo:
— Snape, não admito que você determine quem deva, ou não, ser meu amigo e também que ameace as pessoas que gozam de minha amizade.
— Ah, ele lhe contou — Snape disse, indiferente.
Com violência, ele puxou as cobertas e atirou-as longe. Depois, segurou Helena pelos ombros e a fez sentar na cama e fitá-lo, porém, os olhos dele a encararam apenas por um segundo e então fixaram-se nos lábios inchados. Doloridos e sensíveis, Helena precisou lutar contra o impulso de passar a língua por eles.
Ela ouviu o ruído animal e abafado que Snape fez com a garganta e, em seguida, sentiu-lhe a boca na sua, apertando os lábios feridos de encontro aos dentes com selvageria e brutalidade. Ele a castigava, Helena reconhecia desesperada enquanto lutava para empur rá-lo. Ao fazer isso, deu-se conta de que não sentia o terror experimentado nos braços de Graham. Humi lhação, dor e ódio, sim, mas, curiosamente, medo não. Quando enfim a soltou, Snape fitou-a com os olhos brilhando. Helena tocou os lábios com a ponta dos dedos.
— Você me machucou — queixou-se ela.
— Desgraçada, pensa que eu não sei? — E, erguen do-lhe o rosto, os dedos em seu queixo, inquiriu ríspido:
— Você deixou que ele fizesse amor com você? Deixou? Ou será que isto se limita ao que ele fez? — Indagou ao passar o polegar nos lábios inchados.
— Não fizemos amor, não.
Helena o fitou com desafio. Odiava-o. Pelo domínio que exercia sobre ela e pela habilidade incrível de fazê-la desejar que a possuísse mesmo quando a maltratava. Odiava-o por tê-la feito descobrir tantas coisas sobre si mesma e por torná-la consciente da infinita capa cidade feminina de ser receptiva às várias modalidades do homem, tanto as cruéis quanto as bondosas. E mais do que a ele, odiava a si mesma. E por causa disso, mentiu ao acrescentar:
— Mas eu queria ter feito amor.
— Pois muito bem, você haverá de fazer.
Helena apavorou-se com a ameaça velada na voz suave e quis se desmentir, mas seu orgulho não lhe permitiu.
— E desta vez, Helena, prometo que vai saber que sou eu quem está fazendo amor com você — afirmou ele, seguro de si.
Ele a segurou com firmeza pela cintura e a sua von tade instintiva foi a de lutar. Todavia, percebeu que Snape gostaria que fizesse isso, pois sentiria prazer em subjugá-la fisicamente. Como se lesse seus pensa mentos, ele disse;
— Pode se debater à vontade, Helena! Você não pode imaginar o que acontece comigo ao ouvir aqueles gritinhos ofegantes que você deixa escapar quando tenta fingir que eu não te desperto nenhum tipo de desejo...
Ele não precisava lhe dizer isso, pois Helena já sabia. Horrorizada, ela sentiu o corpo reagir com a imagem invocada por Snape. Amava-o e se odiava por isso. Como podia sentir amor por um homem que a tratava dessa maneira? Que a usava como uma conveniência sexual e que sentia prazer em atormentá-la?
Snape afastou as alças da camisola, expondo-lhe os seios. Helena forçou-se a ficar imóvel, porém, a tensão abrasadora percorreu-lhe o corpo. Desejava tanto de monstrar que a tortura sádica não a afetava, mas, como sempre, traiu-se. Ao vê-lo se mexer um pouco, ela, se retorceu desesperada por escapar. Snape riu baixinho e murmurou:
— Ah, a brasa começa a se atiçar. Agora sim, parece a minha mulher!
— Eu não quero você. Vá embora!
Helena não se surpreendeu ao ouvi-lo rir, porém, as sustou-se com a ferocidade dele, pois esperava sarcas mo ou desdém. Snape sabia que suas palavras não passavam de uma mentira patética, mas, ao invés de ridicularizá-la, afirmou baixinho:
— Você vai me querer, Helena, eu prometo. E quando me quiser, então poderá me mandar embora.
Snape curvou a cabeça, todavia não lhe tocou o seio como Helena esperava. Bem de leve, os lábios dele ro çaram-lhe a pele sensível do pescoço, dos ombros e da parte interna dos braços. Cada movimento delicado daquela boca era uma forma deliciosa de tortura que foi se tornando cada vez menos deliciosa e mais torturante. Seu corpo já latejava com o desejo que só Snape conseguia evocar.
Ele parou de beijá-la e ergueu a cabeça.
— Tire minha roupa, Helena.
Com o orgulho ferido, Helena virou a cabeça numa negativa muda. Só ela sabia quanto ansiava em es tender os braços e obedecê-lo e quanto lhe custava a tentativa de abafar as labaredas que a consumiam. Era como lutar contra um incêndio com as mãos vazias. Snape voltou a beijá-la com suavidade. Foi a vez das pálpebras, das faces e do lóbulo das orelhas e, quando Helena pensou que morreria com esse tormento, os lábios dele tocaram os seus. O prazer inundou-a, porém, antes que pudesse saboreá-lo, o contato foi in terrompido. Ele continuou a provocá-la com a repetição da carícia leve e rápida até que, desvairada de desejo, Helena esqueceu-se de tudo o mais.
Ao sentir de novo os lábios dele nos seus, ela enla çou-o pelo pescoço e com os dedos entrelaçados nos ca belos negros, puxou-o de encontro a si. Tomou-lhe a boca e beijou-o com a paixão que não conseguia mais esconder.
— Tire minha roupa, Helena — Snape murmurou, roçando seus lábios.
Desta vez, com os dedos trêmulos, ela desabotoou primeiro a camisa e estremeceu excitada ao roçar a pele em brasa. Afoita, conseguiu arrancar fora a peça e, nesse mo mento, o que lhe restava de autocontrole desapareceu por completo. Num impulso incontrolável, cobriu-lhe o peito de beijos. Com a cabeça apoiada numa das mãos, Snape a observava. Helena, porém, não se dava conta do olhar perscrutador. Ainda com os dedos incertos, abriu a fivela do cinto e baixou o zíper da calça. Imediatamente, o sexo dele pulsou sob sua mão e ela sentiu vontade de interromper o que fazia para acariciá-lo. Snape esperou até que Helena o despisse por com pleto e então, impaciente, arrancou-lhe a camisola e a puxou para junto de si. Fitou-a demoradamente em toda a sua nudez e a fez estremecer com a intensidade do olhar.
— Você me quer. Diga, Helena. Diga que me quer.
Helena não queria obedecê-lo, porém, os dedos de Snape, leves como plumas, percorriam-lhe a pele trai çoeira, rodeavam-lhe os seios e, provocativos, mal to cavam os mamilos. Ela prendeu-lhe a mão e apertou-a de encontro aos seios enquanto o beijava no pescoço. Ouviu os sons que vibravam na garganta dele, reve ladores de um desejo tão intenso quanto o dela. Con tinuou a beijá-lo ao mesmo tempo em que, com as mãos, acariciava-lhe o corpo. E, então, sussurrou:
— Eu te quero! Eu te quero, Severo!
— Mostre. Mostre o quanto você me quer — disse ele baixinho ao cobrir-lhe a mão com a dele e levá-la de encontro ao sexo excitado.
Ela sentiu o corpo dele fre mir convulso enquanto o acariciava e ouviu-lhe os gemidos de prazer. Helena arqueou o corpo e ofereceu-lhe os seios. Quan do Snape desceu a cabeça, tomou um dos mamilos na boca. Ela fechou os olhos numa antecipação delirante e suspirou alto. A pressão erótica e deliberada dos dentes na pele a fez gritar e arquear-se mais de en contro a Snape.
Isto era o arrebatamento completo e o abandono total ao domínio dos sentidos, percebeu ela, vagamente. Céu e inferno, esse turbilhão frenético provocado pelos de dos hábeis de Snape ao massagear e acariciar-lhe as partes mais secretas e sensíveis.
— Você me quer, Helena?
O murmúrio persistente pareceu expulsar tudo de seu corpo deixando apenas a fome feroz que lhe corroía as entranhas.
— Eu te quero, Severo. Eu te quero muito e agora.
Ao sentir-se invadida, Helena gemeu alto numa ago nia delirante. Snape aconchegou-a mais com as mãos sob seus quadris enquanto ela lhe enlaçava as pernas com as suas e bendizia cada impulso vigoroso do corpo dele dentro do seu.
Como sempre, o final da escalada foi explosivo e destruidor, deixando-a exaurida e incapaz até de pen sar em se mover. E, como sempre também, a satisfação física que Snape lhe proporcionara viera maculada pela maneira como fora obtida. Ainda como sempre, odiava-se por querê-lo a tal ponto que, nos braços dele, era capaz de abrir mão de tudo apenas para senti-lo. Quando Snape se separou dela, Helena encolheu-se, ansiosa por ficar sozinha. Contudo, ele se aproximou, segurou-lhe o rosto e ordenou com ferocidade:
— Agora, Helena, diga que também queria Wilde.
Helena tentou escapar daquelas mãos fortes enquan to lágrimas incontroláveis extravasavam de seus olhos.
— Por que está fazendo isso comigo? Por quê? — indagou entre soluços.
— Se você não é suficientemente mulher para saber, não adianta lhe explicar.
Com isso ele tentava lhe dizer que a queria apenas para satisfação física, Helena refletiu. Percebia agora por que se esforçara tanto para afastá-lo, pois desde o início sua percepção captara as reais intenções do marido de conveniências. Embalada por esses pensamentos, Helena quase já adormecia quando percebeu Snape mexer-se ao lado. Com certeza, ele ia para o outro quarto, imaginou, sonolenta, sem abrir os olhos. De repente, sentiu que ele a erguia nos braços.
— O que está fazendo? — indagou, surpresa.
— Levando-a para o seu lugar. Para a minha cama.
Helena foi tomada por uma grande sensação de der rota. Não existia nada que pudesse desejar mais do que dormir nos braços do marido, se ele a amasse. Novas lágrimas ameaçaram escapar dos olhos, porém, ela as reprimiu. Por que chorar por algo que não po deria ter? Snape jamais sentiria o que um dia já foi capaz de sentir*
Deprimida, pensou na vida que o destino lhe reser vara. Via pela frente longos anos vazios, sem afeto, em que Snape faria amor com ela até não sentir mais atração física e se cansar dela. O que lhe aconteceria depois? Foi então que se lembrou da mansão. Por mais que a amasse, abriria mão da casa de bom grado, apenas para escapar da tortura de ser a esposa indesejável de Snape. Encolheu-se toda e adormeceu consciente de que, acor dado, ele a observava com expressão de amargura. Snape estendeu a mão e acariciou-a no ombro exposto.
— Até dormindo, Helena, você me rejeita — murmurou ele baixinho. — O que eu precisaria fazer para que, pelo menos uma vez, você me aceitasse com alegria?
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Uma semana atribulada de preparativos se iniciava. E ela ainda precisava entregar encomendas. Jamais conseguiria diminuir seu ritmo de trabalho, de tão acostumada que estava com sua rotina. Com um estremecimento, Helena voltou à tela em branco, onde o trabalho a esperava. Durante toda semana sentiu-se mal e só Merlin poderia dizer como ela se manteve de pé para organizar a festa de 15 anos de Amy. Mal começou a pincelar as primeiras cores quando a filha apareceu no escritório, toda empolgada, falando mil coisas por segundo.
— E então? Você ainda não me contou direito o que fez em Londres — Helena reclamou.
— Compras, mãezinha, uma porção delas — Amy respondeu, rindo. — Quando o papai foi me apanhar disse que nunca tinha visto tantos pacotes juntos. Ele afirmou que no nosso caso o ditado "tal mãe tal filha" não se aplica.
— Não se esqueça do que ele avisou: nem mais um centavo até o mês que vem — Helena disse.
— Vou tomar cuidado. Eu e você somos tão diferen tes nessa questão de roupas e dinheiro, não é, mamãe? Eu sou gastadeira e adoro roupa nova, e você nem liga, além de ser muito econômica.
Embora não demonstrasse, Helena sentiu um aperto no coração ao fitar a filha sorridente. Ela, na quela idade, também gostava das novidades da moda. Contudo, as dificuldades financeiras enfrentadas durante e depois do nascimento de sua garotinha a tinham ensinado a não va lorizar essas coisas. Acostumara-se a isso e, mesmo quando a situação melhorara, havia continuado a se vestir com simplicidade. Desde que retornara da lua de mel, voltara a usar jeans e camisetas e as roupas novas compradas por Snape só tinham sido usadas nas oca siões em que saíra com Graham.
Para abafar a sensação de culpa, sorriu para Amy e confessou com animação forçada:
— Na sua idade, não havia nada de que eu mais gostasse do que uma roupa nova. Isso acabou com o passar dos anos.
— E o que você vai usar na minha festa?
De repente, Helena percebera que havia pensado em tudo, menos na sua própria roupa.
— Mãe! Eu não acredito que você nem pensou nisso ainda! Tem de ser uma coisa bem especial, pro papai te achar maravilhosa... Ah já sei, um vestido em estilo georgiano para combinar com a decoração da casa! O que acha?
— Ei, espere um pouco! É só comprar um vestido pronto e o problema está resolvido — Helena declarou, rindo divertida com a viva cidade contagiante da filha. — Mas acho que tem razão quanto ao estilo. Vou procurar uma firma que aluga roupas para teatro.
— Nada disso, você vai ter de vestir uma coisa que ninguém usou ainda. Ah, já sei! Levantou-se e foi pro curar um livro na estante.
Não levou muito tempo para achar o que queria e voltou para junto da mãe:
— Olhe aqui — disse Amy, folheando o livro. — Está cheio de gravuras da época georgiana. É só você escolher um e mandar fazer uma cópia.
— Cópia de quê? — Snape indagou, entrando de repente no lugar.
Antes que Helena pudesse impedir, Amy já explicava a ideia a ele.
— Não é que você tem razão, pestinha — Snape concordou interessado, bagunçando os cabelos da jovem, como se fosse uma criancinha.
— De jeito nenhum, vai sair muito caro — Helena contestou, num tom meio defensivo.
Pensou que Snape fosse discutir, porém, ele sacudiu os ombros, fechou o livro e declarou:
— Você é quem sabe. — E com um sorriso para Amy, convidou: — Que tal você e Sofia irem comigo a Hogsmeade? Vou até lá agora de manhã.
— Ótimo, vamos sim!
Por alguma razão inexplicável, o coração de Helena se confrangeu e, depois que os três saíram, ela achou a casa vazia e triste. Tentou voltar ao trabalho, mas não conseguiu. Snape havia encomendado a um arquiteto o projeto do jardim de inverno e da piscina interna, que seriam conjugados. Na semana anterior, eles haviam recebido as plantas e gostado muito, já que o desenho se adap tava perfeitamente à arquitetura da casa. Desconfiava de que o marido tinha ido a Hogsmeade para ver o arquiteto, que era bruxo, para aprovar o projeto. Sentia-se, ao mesmo tempo, ali viada e magoada por ele não a ter convidado também. Irrequieta, percorreu vários cômodos da casa pen sando em Snape e em si mesma. O único lugar onde se entendiam era na cama e numa forma que a amar gurava muito. O resto do tempo, ele a tratava com indiferença e frieza, exceto nos momentos breves e perturbadores em que a raiva latente dele ameaçava subir à superfície calma. Os dias passaram. Horas intermináveis... E finalmente a festa de Amy. E neste dia, a vida de Helena e Snape mudaria drasticamente.
