A tão esperada festa de Amy havia chegado. O grande salão de festas da Mansão Prince – agora completamente restaurado - tornara a reviver momentos de glória, que remontavam às épocas em que era palco de grandes eventos da sociedade bruxa elitista. Pelo chão, muito bem encerado para aquela noite, era possível conferir a própria imagem no reflexo, de tão brilhante que havia ficado. O lugar, como um todo, estava lindamente decorado em tons pastéis com detalhes em rosa, havendo lugares para mais de 300 pessoas. Para o terror de Snape, a Grifinória toda estaria presente em peso e isto só lhe fazia questionar como Helena, uma sonserina nata... Conseguiu ter gerado uma filha de casa tão oposta. Mas isto não importava agora. Ela, como sempre, havia acertado em tudo: O aroma que pairava no grande salão era o de flores silvestres e, passarinhos encantados voavam delicadamente no teto, enfeitiçado para que se parecesse com uma linda e fresca noite de primavera... Bastante feminino, pensou Snape. Os primeiros convidados foram chegando e logo a casa estava cheia. Alguns colegas da jovem grifinória pareceram um pouco desconfortáveis por estarem na casa e diante da presença do Mestre, mas trataram de se acostumar; tanto que logo estavam parecendo um bando de diabretes da Cornualha, na visão exagerada do anfitrião. Ainda não havia sinal de Amy ou de Sofia, que estava ajudando a meia irmã*.

Snape se ocupou de receber os convidados especiais que toda festa deste tipo deveria prezar por ter. Kingsley Shacklebolt, o então Ministro da Magia em pessoa, estaria presente e a única coisa que Severo esperava era que a tribo cabeça-oca que Amy conseguia chamar de amigos não colocasse tudo a perder. Arthur Weasley e família estariam presentes, a convite de Helena e até o Potter com os seus rebentos...

— Quem diria... — disse o jovem adentrando o espaço com a esposa, Ginevra Weasley e a prole. — Severo Snape dando uma festa de 15 anos! E eu tenho a honra de participar da festa... — referiu-se o rapaz, relembrando, ironicamente, o fato de não ter comparecido ao casamento de Snape.

Ambos se cumprimentaram com um aperto de mão e um abraço cordial. Não havia hostilidade, mas sim, camaradagem entre os dois homens.

— Bom, depois do que seus filhos fizeram em Hogwarts junto dos Weasley e Longbottoms eu teria todos os motivos do mundo para querê-los a mil quilômetros de distância, mas nestas horas a diplomacia permanece, não é Potter...? E quanto ao meu casamento, o convite foi enviado.

Potter, naquela ocasião, era o mais jovem chefe da Suprema Corte Internacional dos Bruxos.

— Eu sei, meu caro. É que Alvo Severo estava com varíola de dragão, não queria estragar um momento tão importante... — sorriu, maroto.

— Ainda não me conformo com o que você fez ao seu filho dando-lhe um nome como este...

— Ora essa, eu sei que no fundo você adorou...

— E pense pelo lado bom... Não o batizamos de Severo Sirius — gracejou a Sra. Potter.

Mais e mais convidados chegavam. A casa estava cheia e Severo disparava ordens intermináveis à equipe contratada para trabalhar na festa. Onde Helena tinha se enfiado, afinal de contas? Para quê demorar tanto?

Foi quando se virou em direção às escadarias de mármore do salão, onde, graciosamente, Helena deslizava em sua direção. Linda. Apaixonante. Os cabelos platinados estavam presos em uma trança embutida, a maquiagem era leve e o vestido - longo e com apenas uma alça presa por uma pedra preciosa - era na cor verde jade escuro e muito cinturado. Como adereços, havia um discreto conjunto de gargantilha e brincos de prata.

Snape demorou seu olhar sob a esposa, que discretamente aproximou-se dele, dizendo-lhe no ouvido:

— Adequadamente sonserina? — ironizou.

— O suficiente para fazer jus à casa — disse ele, sem dar muito o braço a torcer, mas com um olhar que toda mulher suficientemente esperta entenderia.

Helena não podia entender a expressão nos olhos do marido. Portanto, resolveu não criar expectativas. Desconcertada com o olhar insistente e penetrante, trocou de assunto:

— Amy está linda. Você precisa ver. E Sofia... Parece uma princesa.

E de fato, estavam. Sofia desceu primeiro. Já não precisava das muletas, pois andava perfeitamente bem. Trajava um vestido de rendas na cor bege, que fazia um belo contraste com seus cabelos negros, como os do pai, impecavelmente arrumados. Em seguida desceu Amy, cujo vestido de debutante era o auge da delicadeza, quase não combinando com o temperamento intempestivo da garota. Era quase todo feito em rendas e brocados e o corpete era todo trabalhado em pedrarias igualmente delicadas. As luvas eram da mesma cor e na cabeça, uma tiara vinha sob o coque cuidadosamente elaborado.

Assim que desceu o último degrau, foi recebida por Snape, que lhe beijou a mão:

— Muito bem, mocinha. Cheguei a pensar que você iria aparecer com uma daquelas suas calças desbotadas e camiseta... — Snape ironizou.

— Eu passei a minha vida esperando por este momento... O momento em que veria meu pai e minha mãe juntos — disse a garota, tomando a mão de Helena também — Eu não iria bancar a rebelde sem causa justo hoje...

Uma onda de remorso tomou conta de Snape. Ele fizera a garota acreditar na história contada pela cartomante charlatã na Travessa do Tranco apenas para que Helena se casasse com ele. Este não era o momento de desmentir tudo para a menina, mas a possibilidade de um dia ter de fazê-lo lhe deixava angustiado. Isto sem mencionar que a sua farsa lhe fazia lembrar o anonimato em que vinha sido trazida a paternidade de Amy. E este era um assunto que Snape precisaria resolver com Helena o mais rápido que pudesse, sem mais delongas.

Snape apenas sorriu. Não foi um sorriso aberto, afinal, ele ainda era o Mestre Morcegão de seus alunos. Mas deixou que o sentimento de felicidade emergisse à sua superfície. Amy, afinal de contas, não deixava de ser sua filha. Sorriu para Sofia, que estava junto de Helena, também. Suas mocinhas eram, realmente, motivo de orgulho. Jamais que ele pensaria estar dando uma festa de quinze anos para uma de suas filhas... Isso porque a quinze anos atrás as possibilidades de morte, desespero e isolamento eram bem maiores. Não que tivesse deixado de ser solitário, afinal, seu casamento com Helena era pura faixada... Mas ele tinha ao menos dois motivos para dar uns ensaios de sorriso.

Foi para o centro do salão. A tradicional valsa começou a tocar. Não lhe agradava estar ali, no centro das atenções, demonstrando suas habilidades na dança para Hogwarts inteira (e para pessoas que provavelmente pensavam que ele era um ser assexuado, incapaz de promover a concepção)... Mas as suas garotas mereciam e faria por Sofia o mesmo. Incluindo o fato de vestir um smoking que na visão dele, o deixava a cópia fiel de um pinguim.

Helena não poderia dizer o mesmo. Ele havia mudado muita coisa com o passar dos anos, mas a essência era a mesma: O temperamento estava intocável. Entretanto, as feições estavam ainda mais maduras. Snape agora era um cinquentão, porém, deixava muito "Jovem bruxo" de 30 anos envergonhado. Era o caso de bruxos como Rony Weasley, cujo desempenho físico não estava lá grande coisa. Arthur, o colecionador de artefatos trouxas, estava de melhor aparência...

Os cabelos de Severo agora tinham fios grisalhos que lhe davam um aspecto diferente. Os anos de guerra lhe renderam um físico definido e uma imensurável resistência... Mas o porte altivo e elegante parecia ter nascido com ele. "Ah, se ele pudesse me amar do jeito que já amou um dia"* — pensava ela, com tristeza.

Helena não pode conter as lágrimas de emoção. Jamais sonhara que poderia dar a filha um momento deste e ambos, enquanto dançavam, sequer tinham ideia do que o passado escondia... E continuaria escondendo.

A dança entre "pai" e filha acabou. As formalidades do debute também. Os demais convidados foram para pista e com isso, os jovens extravasaram sua energia numa festa que durou até altas horas da madrugada.

sSsSsSsSsS

Helena já estava cansada, com os pés doloridos e sentindo um mal estar muito grande. Os últimos convidados haviam ido embora, as meninas já haviam subido e ela estava supervisionando a limpeza do salão, bem como também recolhendo alguns pertences esquecidos pelos convidados. Estava morta de cansaço, mas queria subir para seus aposentos apenas quando tivesse certeza de que Snape também já tinha ido dormir.

Bom...

Não foi bem isso que aconteceu.

— Ainda não foi descansar? — perguntou Snape, do alto da escada. — Pode subir. Eu não mordo. — disse irônico.

Helena quis enterrar-se de tanta vergonha, pois alguns funcionários soltaram risadinhas discretas.

— Vocês aí — chamou Snape e ambos ficaram rígidos, temendo uma represália — Vocês podem ir para casa. Voltem e terminem isso amanhã. Vão e descansem.

Assim que todos se retiraram, Snape desceu as escadas. Com a varinha, apontou para O gramofone que, bem baixinho, começou a tocar:

I've got you under my skin

I have got you deep in the heart of me

So deep in my heart, you're really a part of me

And I've got you under my skin

Aproximou-se de Helena...

— Negativo, Severo...

— Meu bem — disse entredentes — não seja tão intransigente. — e a enlaçou.

— Não sei se ainda consigo dançar...

— Deixe de bobagem. O que aprendemos uma vez, esquecemos jamais...

É claro que Helena ainda sabia dançar. O motivo da rejeição inicial era óbvio: Ficar perto de Snape lhe incomodava. Lhe fazia pensar em coisas que lutava para não pensar. E o cheiro dele, naquela noite... Estava particularmente atraente. A dança foi ficando mais lenta e com isso, Snape a puxou mais para si. As sensações que ela temia começaram a aflorar. Suavemente as bocas se encontraram e Helena precisou de um extremo autocontrole para não escorraçá-lo e sair correndo dali. Aquilo já era demais, ela pensou. Chega de joguinhos! Ele tinha vencido. Ela jamais iria implorar, mas precisava admitir para si mesma que o que sentia por aquele homem era intenso demais.

I have tried so, not to give in

I've said to myself this affair it never would go so well

But why should I try to resist when I know so well

That I've got you under my skin

I would sacrifice anything come what might

For the sake of having you near

In spite of a warning voice, that comes in the night and repeats in my ear

Don't you know you fool you never can win

Use your mentality, wake up to reality

For each time I do, just the thought of you makes me stop before I begin

Because I've got you under my skin

(I've got you under my skin – Diana Krall).

— Você está linda, Helena.

Helena encarou Snape e seus olhos... Estavam dizendo a verdade? O Mestre havia deixado as suas barreiras mentais caírem? Helena se soltara dele.

— Eu até posso estar linda esta noite, Snape. Mas isso o que você sente por mim e tentou me mostrar com essa ceninha de sedução pode muito bem ter sido plantado aí — disse apontando a cabeça dele — para me iludir. — e virou as costas. — Não subestime minhas habilidades mágicas.

Snape, que por um momento, enquanto Helena estava de costas, parecia estar arrasado, logo disse, com raiva na voz:

— Quanto às suas habilidades mágicas, parabéns! Você sabe discernir uma lembrança verdadeira de uma lembrança plantada com extrema perfeição e exatidão... Afinal... Realmente, Helena... Quem seria capaz te amar? Um dementador seria mais capaz de dar afeto do que você.

Helena sentiu-se profundamente atingida e não teria como ficar ali, fingindo indiferença e tentando dar uma resposta à altura. Subiu as escadas apressadamente. Snape não a seguiu. Foi em direção da porta.

— Onde você vai a essa hora? — perguntou ela, com raiva.

— Procurar uma mulher que não pareça uma pedra de gelo.