Olá, meninas!

Desculpe a demora... As aulas recomeçaram e, até eu me reorganizar, me atrapalhei um pouco...

Bom, esse capítulo é tenso. Nele eu revelo a loucura por de trás desta trama. A explicação e os flashbacks ficam no próximo capítulo e, aí então, vocês entenderão.

Um beijo a todas que ainda me acompanham.

SsSsSsS

— Helena, Amy me disse que você não quer deixá-la ir à festa na casa da amiguinha neste fim de semana.

Helena desviou o olhar de Snape e fixou-o no fogo. Fazia uma semana que tinham começado a acender a lareira por causa dos dias frios de outubro. Ou sim plesmente sentisse frio pelo fato de sua vida ter se transformado numa terra desolada, açoitada por ven tos inclementes, refletiu ela com tristeza.

Snape agora passava muito mais tempo em Hogwarts ou Londres e vinha para casa cada vez menos nos fins de semana. Amy e Sofia viviam ocupadas com os próprios afazeres: a primeira passava o dia inteiro no colégio e a segunda, motivada pela perspectiva de freqüentar uma escola de arte, de dicava o tempo todo aos livros e ao cavalete de pintura.

— Helena?

A voz ríspida e cheia de reprovação de Snape a ma goou, porém, não deixaria que ele percebesse. Não que ria que Amy fosse à tal festa porque os pais da amiga não iam estar lá. O espectro do que acontecera consigo mesma ainda a assustava e, embora soubesse que não poderia proteger a filha para sempre, queria fazê-lo enquanto lhe fosse possível. No entanto, entristecia-se por Amy não ter se conformado com sua recusa e ter ido socorrer-se com Snape. Ambas mantinham agora um relacionamento tão bom que ela temia tê-lo estragado com seu zelo excessivo. Uma onda irracional de ciúme de Snape a fez dizer:

— Muito bem, Snape, ouvi o que disse. Você parece se esquecer de que não é o pai de Amy. — disse, trêmula e incerta, evitando encarar Snape.

Enquanto falava, ela se levantou e foi até a lareira pôr mais lenha no fogo. Havia chovido e ventado o dia todo e o tempo parecia refletir seu estado de espírito. Snape havia chegado tarde, um pouco antes da hora do jantar e Helena imaginava se logo ele não arranjaria uma desculpa para ficar em Hogwarts ou em Londres também nos fins de semana. Antes de se casarem, tinha declarado a intenção de fazer grande parte do trabalho ali na man são, mas parecia ter mudado de ideia. Na verdade, Snape mal se interessava pela casa e Helena se per guntava por que a desejara tanto.

Naturalmente, sabia por que. No entanto, será que a posse da casa que um dia pertencera ao homem que tanto mal fizera à mãe dele e a ele próprio havia mesmo lhe ameni zado a angústia? Helena não saberia responder. Con viviam agora como dois estranhos que eram obrigados a morar na mesma casa. Ela não sabia por quanto tempo mais suportaria essa situação penosa. Snape nem mais a desejava e a última vez que tinham feito amor fora naquela noite em que jantara com Graham.

Helena nunca mais vira o antiquário, nem desejava vê-lo. Inquieta, andou a esmo pela sala, aflita por encontrar as palavras para dizer a Snape que aquele casamento deveria terminar. Não agüentava mais o suplício de viver ao lado dele, amá-lo e saber que seu afeto não era retribuído. Isso a estava destruindo e desintegrando sua vida.

Ela pressentiu, pelo arrastar da cadeira, que o ma rido se levantara da mesa, porém, não se deu ao trabalho de verificar. Por isso, assustou-se ao ouvi-lo dizer bem às suas costas:

— Então quem é o pai da Amy, Helena?

Por um momento, Helena imaginou estar ouvindo coi sas. Com os lábios entreabertos, fitou Snape, esquecida de sua resolução de não fazer isso. Nos primeiros dias de casamento, aflita, ela esperara que ele retomasse esses questionamentos. Todavia, como ele nunca mais tocou no assunto, simples mente chegara à conclusão de que Snape havia se conformado.

— Eu... Você...

Por uns instantes, ele permitiu que Helena tentasse se explicar, mas acabou dizendo com sarcasmo:

— E se eu fosse você, Helena, não me daria ao trabalho de mentir. Eu sei quem é.

Helena sentiu os pulmões sem ar como se eles esti vessem sendo comprimidos. Um grande desânimo a invadiu, seguido logo pela raiva surda.

— Se sabia, por que não disse nada até agora? Ou será que guardou isso como uma forma alternativa de tortura para quando a excitação de me submeter aos seus caprichos já tivesse perdido a graça? — indagou, agressiva.

Ela o viu apertar os lábios e percebeu ter ido longe demais. Bem devagar, como se saboreasse a palavra, Snape disse:

— Submeter? Que memória estranha a sua, minha cara. Ou será que não conhece bem o significado dessa palavra?

A voz suave mostrava-se cheia de ameaça e desdém, e Helena, rubra de constrangimento, lembrou-se de sua receptividade louca na última vez em que tinham feito amor. Ela pensou em ver algo além de amargura nos olhos negros, porém, ele os desviou antes de perguntar com indiferença:

— Diga... Se sabe, por que nunca me disse nada? — Helena manteve-se controlada e Snape informou, mordaz:

— Eu sei de quem Amy é filha, Helena. Ela é filha de Lúcio Malfoy. Fui ao departamento de registros de nascimento e constava na certidão, "pai desconhecido". Nesse mesmo departamento eu descobri que você solicitou ajuda social porque a sua mãe te escorraçou de casa.

Silêncio.

— Cheguei ao Malfoy quando Narcisa veio me procurar dias depois da festa de Amy. Ela estava consternada e não sabia mais como conviver com isto. Disse que jamais poderia me contar abertamente a verdade, mas insistiu que eu procurasse Lúcio...

Narcisa e Snape sempre mantiveram um relacionamento amigável, devido à dívida de Narcisa com o ex-comensal, que arriscara a vida aceitando selar um Voto Perpétuo para proteger o afilhado, Draco Malfoy. Snape entendia o medo de Narcisa, que Merlin sabe como, ainda vivia sob o mesmo teto que Lúcio. Este, por sua vez, não havia mudado muito. Com a derrota do Lord das Trevas, jamais foi preso e voltara a assumir o comportamento arrogante que sempre teve antes do regresso de Voldemort.

— E procurei, Helena. Maldito o momento. Porque tive de ouvir do próprio que além de sustentar a filha bastarda dele, eu ainda "dormia" com a mãe dela! Não precisei de uma gota de veritasserum sequer...

Helena ficou chocada e Snape não retrocedia.

— Eu sempre fui filho de Sonserina, mas se fosse uma mulher, jamais teria a coragem de me entregar a um verme tão desprezível quanto o Malfoy! — disse ele, num misto de ódio feroz e algo mais que ela não conseguiu decifrar. — Você é uma boa atriz, Helena. Eu quase acreditei em toda aquela sua encenação sobre repulsa masculina e o seu medo de ficar a sós com um homem...

Atordoada por causa do ódio que começava a sentir, Helena desferiu um tapa no rosto de Snape.

— CALE-SE! PELO AMOR DE DEUS, CALE-SE! — Helena beirava o desespero e as primeiras lágrimas caíam.

Helena lembrava-se da agonia sofrida nos primeiros dias de casamento enquanto esperava que Snape tocasse no as sunto e depois da sensação de alívio ao imaginar que ele não desconfiara de nada. Todavia, pelo visto, ele tinha desconfiado errado. Snape fitou-a, dominado por uma raiva tão intensa quanto a dela, não reagindo ao tapa, mas sem dar uma trégua de palavras:

— Eu esperava que você me contasse a verdade. Mas é lógico que isso não lhe ocorreu. Eu seria a última pessoa em quem você confiaria. Comecei a investigar de quem Amy era filha assim que vol tamos da Toscana e, durante este tempo todo, esperei que me contasse tudo. Aliás, continuo esperando.

— Mas, por quê? — Agora Helena chorava. Dolorosa e deliberadamente chorava.

Helena surpreendeu-se tanto em ver a expressão de amargura e dor nos olhos de Snape que julgou ser imaginação sua...

— Talvez como um gesto de confiança de sua parte.

— E por que desejaria minha confiança?

— Uma boa pergunta — murmurou ele, porém, acres centou com voz dura:

— Já que não posso ter a sua confiança, quero a verdade toda.

O autodomínio, a determinação e a severidade de monstrados por Snape despertaram um grande medo em Helena. Desejava fugir dali e se esconder dele. Era como se todos os monstros de seus pesadelos a forças sem a enfrentá-los e ela não visse como escapar. Sem que pudesse se controlar, explodiu, aos brados:

— O que você deseja saber? Da verdade que Malfoy não te contou? Sobre como eu fui violentada? Como fui injuriada, humilhada e destruída? Eu não passava de uma menina que tinha a mesma idade que Amy tem hoje e que morreu em vida por causa daquele maldito homem! Porque ele destruiu tudo o que eu tinha. Eu perdi minha família, perdi o homem que infantilmente eu amava... Perdi o direito de estudar, passei fome, frio e todo tipo de sofrimento que se possa imaginar. Quase perdi Amy porque de tão doente e faminta que eu estava... Eu não tinha leite! Eu tinha apenas uns trapos para aquecê-la e fazia o possível com meus feitiços. Mas houve uma época, Snape... Que eu mal podia segurar a varinha. — continuou ela aos gritos, quase histérica, embrenhando-se no passado e narrando os fatos ter ríveis que culminaram com a sua desgraça.

Já não mais tinha consciência da presença de Snape ao prosseguir no relato:

— Foi quando a Eleonor me encontrou. Ela era uma garota pouca coisa mais nova do que eu e estava passeando por Londres com os pais. Era inverno e eu estava congelando. A respiração de Amy estava muito fraca. Eleonor e seus pais foram a minha salvação. Me levaram para morar com eles. Me adotaram como filha e me ajudaram a criar Amy.

Helena soluçou, os olhos arregalados e perdidos num ponto além de Snape, como se estivesse vendo, diante de si, as imagens do passado.

— E ah... O dia em que Amy nasceu... — disse Helena, com uma expressão de dor. — Você pode fazer uma ideia do que foi? — indagou, descontrolada. — Claro que não pode. Por isso veja, Snape. Olhe nos meus olhos.

Snape passara a ver tudo o que Helena relatava, por meio de Legilimência, através de um canal entre a mente de ambos, estabelecido por Helena, que baixara as suas defesas. Ela continuava narrando:

— Pode imaginar agora? O que você sente ouvindo meus gritos de agonia e dor? Eu, que nunca fizera mal a ninguém, sempre tão prestativa e boa, estava morrendo. Todo mundo gostava de mim. E o verdadeiro pai de Amy... Ele sequer me atendeu quando fui procura-lo. Ele tinha sido o único homem da minha vida e jamais pôs os olhos na minha menina até ela ir para Hogwarts! Eu achei que ele fosse reconhecê-la... Mas nem a mim! Nem a mim! Então... Então caiu por terra todo o amor infantil que eu alimentei por tantos anos... — Helena fez uma pausa para respirar.

— Sim, prezado professor... Como sempre você chegou à conclusão errada...

Silêncio...

— Eu te odeio, Snape, te odeio!

Ela interrompeu o contato visual e, chorando, virou-se em direção das grandes estantes de livros, apoiando-se sobre uma delas.

Helena respirava ofegante, quase aos soluços. Snape lhe segurou pelos ombros, na tentativa de apaziguar seu desespero.

— Helena, Helena! Pare!

Ela respirou fundo e, virando-se para ele, o fitou com olhar suplicante:

— Ah, não! Você não queria saber? Pois vou lhe contar tudo, coisa que jamais falei a qualquer outra pessoa. Lá estava eu, com sangue à volta toda, nos panos, no chão... — disse recompondo-se, a raiva tomando conta:

— Helena!

— Não, você vai ouvir até o fim. — fez uma pausa — Depois de tudo o que passei com Amy nas sarjetas de Londres, depois de ter sido encontrada por Eleonor e sua família... Eu fui incentivada a procurar o meu agressor, o "pai" de Amy. Por decreto judicial, Lúcio se prestou a um exame. Ele abafou o caso comprando muita gente e me ameaçando. Sendo pai de Amy ou não, isso não o isentava de ter me violentado. Mas veja só, Severo... Para sua sorte o resultado foi negativo. Ela não era filha dele.

— Você devia ser tão nova na época... — Snape murmurou. Ela ouviu as palavras como se elas viessem de muito longe e fez um esforço para respondê-las.

— Tinha quinze anos. O Departamento de Assistência Social queria que Amy fosse en tregue para adoção e tive de lutar muito contra isso. Se não fosse pelo apoio da família de Eleonor, não teria conseguido ficar com a minha filha.

Helena começou a chorar novamente e mais e as lágrimas profusas cor riam sem que ela pudesse estancá-las. Algo estranho passava-se em seu íntimo. Sentia-se fraca e vazia como se o fardo carregado por tantos anos houvesse desa parecido. O desabafo vio lento amenizara essas emoções. Ela cambaleou e, aliviada, sentiu a proteção forte de Snape.

— Helena... Quem é o pai da Amy? Diga-me um nome, pelo amor de Deus. — o tom de voz dele era quase uma súplica.

— Severo Prince Snape. — disse quase sem voz.

— Helena, eu sei que a Amy tem muito carinho por mim e que sustentei a ideia de ser o pai dela, mas preciso que você seja honesta comigo... — fez uma pausa e segurou o rosto dela entre as mãos, olhando fixamente em seus olhos, com um tanto de impaciência.

— Quem é o pai de da Amy, Helena?

— Eu não estou brincando. Você é o pai biológico da Amy, Severo.

E olhando naqueles olhos azuis e molhados de tanto chorar, Snape teve a certeza que tanto precisava. Ela não mentia. Entretanto...

Como isso havia acontecido?

— Você só pode estar brincando comigo. — disse ele, amargurado. — Para mim chega, Helena. O jogo acabou. — disse soltando-se dela.

Caminhou vagarosamente até a grande janela, onde a chuva ricocheteava sonoramente. Passou as mãos pelos cabelos em sinal de angústia e irritação. Ficou um tempo observando o temporal revolto enquanto Helena chorava profusamente e o observava. Ele aparatou. Precisava extravasar sua raiva longe dali. Talvez fosse angústia, dor, desespero, confusão. Ou quem sabe, pela primeira vez em sua vida... Mera covardia.

— Spinner's End. — murmurou