Severo aparatou diretamente nos jardins de Hogwarts (1) segurando a antiga caixa de madeira como se estivesse com seu próprio coração nas mãos (o que não deixava de ser verdade) e prosseguiu sua empreitada correndo velozmente pelo longo caminho até a grande entrada do salão principal, que se abriu sem maiores delongas, reconhecendo o diretor.
Ele sequer notara qualquer coisa a seu redor: Apenas corria freneticamente pelos corredores e escadas movediças deixando a capa negra esvoaçar, enquanto todos os fantasmas e quadros do castelo lhe observavam atônitos, diante da drástica mudança no comportamento.
— Coitadinho... Eu sabia que mais cedo ou mais tarde todo o trauma da guerra viria à tona — comentou a Mulher Gorda a Sir Cadogan.
Mas Severo estava realmente alheio a todos aqueles olhares. Era tarde da noite, estava completamente encharcado novamente e precisava chegar à penseira que ficava em seu gabinete.
Parou diante da gárgula que protegia o gabinete do diretor e pronunciou a senha:
— Helena!
A gárgula girou para o lado e Snape pulou para a escada, que terminou de girar, deixando o acesso livre ao gabinete. Os quadros de antigos diretores dormiam, inclusive o de Dumbledore. Este último, entretanto, acordou-se com o barulho da escada girando:
— São tantas detenções grifinórias assim para protocolar, Severo? — o quadro de Dumbledore gracejou, bastante inconveniente.
— Não comece, Alvo. Não estou para brincadeiras hoje. — disse seco, como quem encerra o assunto.
— E quando você está para brincadeiras? — Dumbledore ponderou.
— Não interessa. Apenas quero que você feche sua matraca inconveniente e volte a dormir, pois eu preciso resolver um problema muito urgente.
Enquanto tirava a penseira de dentro do armário onde estava guardada, o quadro de Dumbledore prosseguiu:
— É sobre Helena, não é? — disse com uma expressão enigmática.
— Sim. E sobre 50% do meu passado que eu não sei onde foi parar. Agora se me dá licença... — disse perdendo a paciência e se aproximando do artefato mágico.
"Dumbledore" o observava com um olhar caridoso e atento. Snape abriu cuidadosamente a caixa que trazia consigo e depositou frasco por frasco dentro da penseira. Deste modo, as lembranças se organizariam por data e seriam revistas seguindo uma ordem cronológica. Aproximou-se, sentindo um misto de receio e ansiedade nunca experimentado por ele antes. Encostou o rosto sob o líquido gélido e mergulhou em uma longa viagem temporal, onde revia ocasiões de sua vida estando em segundo plano, como observador.
1ª LEMBRANÇA.
Snape estava sentado diante de sua grande escrivaninha de carvalho corrigindo trabalhos. Uma leve batida à porta lhe desvia de seu foco, fato que nitidamente lhe causa profundo desgosto e irritação. Entretanto, sem tirar os olhos do trabalho que corrigia, rosnou: — Pode entrar!
Uma primeiranista baixa, franzina, de cabelos platinados e de então pequenas sardas no rosto entrava hesitante. Tremia feito uma vara verde, parecia estar sendo levada para o abatedouro.
—Pr-pro-professor Snape, o pr-pro-professor Dumbledore me pediu que lhe trouxesse este recado... — disse a garota, estendendo as mãos com certo receio, a fim de entregar o bilhete.
Quando levantou os olhos e percebeu quem estava no recinto, sua expressão e tom de voz abrandaram.
—Muito obrigado, Helena. — a menina sorriu. — Este final de semana lhes farei uma visita, tudo bem?
Diante da brecha, a menina também suavizou a postura. Seus olhos brilharam.
— E...
— Sim, pode deixar. Levarei novos livros para você.
— Combinado, então! Com licença, professor.
A cena se dissolveu e Snape se viu aos fundos de um grande casarão. O jardim era intensamente verde e tinha toda a sorte de flores que se pudesse imaginar. Sentados em uma poltrona de jardim na cor branca, Snape lia para a garotinha Mitchel a obra "David Copperfield".
— Severo! Não deixe Helena abusar de sua boa vontade... — disse Georgina, mãe de Helena.
— Não se preocupe, Georgina. Muito me agrada a companhia de sua inteligente garotinha! — ele disse, afagando os cabelos da menina.
— Se é assim, tudo bem. Agora venham almoçar.
Snape estava à mesa dos Mitchel, casal que, agora ele recordava, passara a fazer parte de seu círculo assim que Snape ascendeu socialmente, antes mesmo de Helena frequentar Hogwarts. Severo, na verdade, conhecia Helena desde criança de colo. A família dela, por sua vez, era irlandesa, mas residia num pequeno vilarejo da Toscana desde que Severo lhes conheceu. Thomas dizia que a linha de produtos que desenvolvia tinha seus ingredientes mais bem desenvolvidos no clima típico do vilarejo e que por isso optara por afastar-se da metrópole de Dublin.
Eileen, mãe de Snape, já padecia de tuberculose, doença esta que no mundo dos bruxos ainda não tinha tratamento avançado. Tobias Snape já havia falecido de alguma moléstia no fígado devido ao consumo excessivo de álcool e para cuidar da mãe, Severo passou a investir no mercado farmacêutico e no ramo de pesquisa. Os frequentes jantares de negócios que passaram a acontecer, pois Thomas Mitchel era dono de uma rede de boticas; logo se transformou em uma amizade. Snape sempre levava livros e ingredientes para Helena, que desde criança, apresentava grandes aptidões para a área de estudos em Poções. Talvez isso tenha conquistado o carinho de Snape, que a tinha como uma filha, embora fosse comum detestar crianças. Todavia, o casal Mitchel considerava Severo como uma espécie de tio ou irmão mais velho protetor de Helena. Eram elitistas, mas não necessariamente partidários de Voldemort. Desconheciam a associação de Snape com os Comensais da Morte. Desconheciam muitas coisas...
2ª LEMBRANÇA
— Muito bem, Mitchel. Agora corte para mim quatro raízes de mandrágora. Hoje você vai aprender o passo a passo de uma poção revigorante que ainda não lhes ensinei em sala de aula...
Helena cortou as raízes com perfeição, repassando-as ao mestre. Olhava, admirada, a reação do conteúdo dentro do caldeirão ao receber os novos ingredientes. Helena era ajudante de Snape no preparo de poções para a enfermaria. O professor havia concordado com Dumbledore quando da proposta de trabalhar com uma ajudante no regime de estágio e Helena fora uma das poucas alunas que se ofereceram e em quem ele realmente confiaria.
— Professor... — ela começou, confiante.
— Diga, Mitchel. — Snape pediu, sem parar de observar a poção e o tom arroxeado que ela adquirira.
— Eu estou pensando em me inscrever para a Olimpíada Internacional de Poções. Creio que um bom desempenho na prova contará pontos para meu currículo e, consequentemente, para o edital do mestrado em Poções...
Snape desviou sua atenção do caldeirão para observar – com os olhos brilhando de orgulho – a aluna diante de si.
— Pretende seguir mestrado acadêmico em Poções, Helena? — disse, deixando de lado o tom profissional que concordaram em utilizar na escola.
— Sim, professor. Eu creio que seja uma área muito promissora...
— Você é bastante jovem. Mas é bom ver que nem tudo está perdido e que nem todos os meus alunos são um bando de cabeças ocas. E acho que...
BOOOOM!
O caldeirão havia explodido, pois Snape, ao desviar sua atenção para a garota, havia se esquecido de baixar a temperatura.
— Olha só, garota! Olha só o que você fez! Quantas vezes já lhe disse que este trabalho requer máxima atenção e que não se pode ficar tagarelando todo o tempo! ? — bradou furioso.
Helena ria profusamente. Snape estava com o rosto enegrecido e coberto dos restos de poção, assim como ela.
— Deixe seu pai saber!
— Eu sei que você jamais faria isso comigo, Severo...
3ª LEMBRANÇA
Era aniversário de Thomas Mitchel. Após dançar uma valsa com seu pai, a memória na penseira mostrava a jovem mulher Helena com seu melhor amigo e professor: Severo. Para ele, vê-la tão linda dentro daquele vestido lilás era só mais uma prova irrefutável de que o tempo estava passando para ele. Helena já não era mais aquela garotinha ávida por livros da cultura trouxa que ele visitava nos feriados ou em esporádicos fins de semana e que usava um vestidinho de flores miúdas e laços delicados. Agora ela era uma bela jovem e que, ele só poderia esperar, tinha um futuro brilhante pela frente. Como ele gostaria de ter encontrado ao menos um terço da Inteligência e da doçura dela nas mulheres que tivera...
Foi com um brusco sacodir de cabeça que ele tirou estes pensamentos da mente. Jamais consideraria Helena em uma perspectiva adulta. Ele praticamente a considerava uma filha. Que ele não tinha ainda e que ela não era. Severo, por sua vez, não conseguira manter tais pensamentos afastados por muito tempo. Assim que as aulas recomeçaram e Helena arranjara uma paquera, ele não conseguiu conter o sentimento de posse. Foi quando se viu apaixonado por ela. Entretanto, estava determinado a tratá-la com mais distancia para que qualquer sentimento que existisse fosse dissipado logo no começo. Além de uma guerra iminente aos próximos anos, ela era filha de seu amigo e muito mais jovem que ele.
4ªLEMBRANÇA
O salão comunal de Sonserina estava em festa. Não haviam ganhado o campeonato das casas, nem o campeonato de quadribol; mas uma aluna sonserina havia ganhado a maior olimpíada de Poções do mundo e o Diretor da casa deles havia sido seu orientador. Snape acabara de chegar ao salão comunal e todos se aquietaram. Era tarde da noite e ainda estavam comemorando a vitória da colega, como qualquer casa faria. Ao contrário do que 99% de Hogwarts pensavam a respeito deles, os alunos sonserinos não eram tão antissociais, egoístas ou desunidos quanto parecia...
Assim que Snape adentrou ao local, os alunos ficaram em silêncio, em sinal de alerta. A garota, ao contrário de todos, continuava sorrindo, alegre.
— Acho que está na hora de irem para cama.
Todos foram para os seus dormitórios e o silêncio se reestabeleceu. Snape mirava a garota diante de si, com seus quinze anos recém-completos.
— Estou muito orgulhoso de você.
Ainda sorridente, totalmente em contraste com a seriedade e profissionalismo que ele tentava manter por estar em Hogwarts, Helena o abraçou.
— Obrigada, Severo. Muito obrigada por me ajudar. — e soltou-se, dando-lhe um beijo na bochecha esquerda.
Severo enrubesceu. Helena sabia da dificuldade dele em expressar-se, tanto do ponto de vista sentimental, como do ponto de vista da corporeidade. Afastando-se um pouco com um pigarro, ele prosseguiu:
— Tenho um presente para você. Mas agora você vai para cama. Amanhã, quando você for me ajudar no laboratório, eu lhe entrego.
— Ah não, Severo! Eu quero agora! Por que você sempre faz isso, hein? — disse insistente e indignada, mas para ele, sempre inevitavelmente doce.
— Amanhã, querida. — conciliou.
— Agora!
— Amanhã e ponto final. Eu sou o diretor da sua casa, já passa da meia noite e você vai para cama.
— Eu não sou mais nenhuma criancinha! — desdenhou.
Aquilo deixara Snape quase sem palavras. "Não, você não é mais nenhuma criança", ele pensou. Engoliu em seco e respondeu:
— Mas para mim você sempre será.
Snape não entendeu porque o brilho dos olhos dela baixaram guarda e se apagaram, consideravelmente.
— E o Rogers? — tentou trocar de assunto.
— Você não desiste de implicar com o rapaz, não é mesmo? — disse ela, cabisbaixa.
— Não é implicância. Eu apenas acho que ele tem o cérebro insuficiente demais até para entender um "me passe o suco de abóbora". E você é uma menina tão inteligente...
— Posso ser inteligente, mas sou "menina" coisa nenhuma. Você parece minha mãe falando. — Ela deu uma pausa e, fazendo cara de contrariada, era realmente impossível acreditar que não era uma "menina".
— Mas enfim. Eu terminei com o Rogers.
— Ele te fez alguma coisa? — Perguntou com o olhar perigoso e a sobrancelha esquerda arqueada. A ira começava a crescer no âmago de Snape, mas estava disfarçada pelo seu habitual autocontrole.
— Não. Não se preocupe. Ele sempre foi um bom rapaz e boa companhia. "Apenas" não é a pessoa que eu amo.
Snape, ao mesmo tempo em que no seu interior riu-se ao questionar a si mesmo "E o que uma jovem dessa idade entende de amor?"; sentiu um nó no coração: Quem seria o verdadeiro amor de "sua" Helena? Ou melhor, será que Helena realmente tinha outra pessoa em seu coração?
— Mas me diga... O que você tem para mim? Diz respeito a livros? — disse ela, tentando ficar mais animada.
—Sim, minha querida. Diz respeito a livros. — Ele agradeceu a todos os deuses e deusas por ela ter trocado de assunto. — Mas agora você vai direto para a sua cama.
Com um muxoxo, Helena cedeu. Subiu as escadas do salão comunal e, chegando ao patamar da escada, virou-se. Fazendo menção de abrir a boca para falar, Severo novamente inquiriu:
— Pra cama, mocinha!
5ª LEMBRANÇA
Era sábado, dia posterior à comemoração de Helena. O fim de tarde havia chegado e era momento de Helena cumprir suas atividades extraclasses com Snape. Havia passado a tarde toda com a ainda Srta. Sprout no jardim, pois não estava disposta a visitar Hogsmead com os amigos. Vestia roupas leves de outono: saia de veludo cotelê bege, sapatilhas e um leve cardigã branco pérola. Chegou ao laboratório de Snape assim e com flores silvestres nos cabelos. Estava trajada da maneira mais simples possível, mas da forma mais linda que poderia assumir, ele diria, se pudesse.
— Você está atrasada. – ele reclamou.
— Ah, Severo. Não comece. Eu venho até você todo SÁBADO e você ainda reclama... — disse brincando.
— Não precisa jogar na cara. – ele revidou, seco.
— Vamos, me dê um sorriso. Desamarre essa cara.
— Você sabe que eu não sorrio.
— Mas para mim você sempre sorriu. O que foi que aconteceu?
— Você chegou atrasadíssima. Só isto.
— "E você sabe como eu odeio impontualidade, Helena" — ela respondeu, imitando a voz de Snape.
— Sente-se, sua petulante. — disse baixando um pouco a guarda, em tom de brincadeira. — Precisamos repor os estoques de poção anestésica hoje.
— Estou perdoada?
— Sim. Está perdoada. Agora, sente-se e comece a fazer a poção, senhorita tagarela.
— Eu sabia! Eu sei que você me ama! — brincou.
Snape ficou tenso e a expressão facial endureceu. Helena percebeu e ficou desconfortável. Pensara que havia importunado, outra vez, o seu melhor amigo...
— Severo, foi só uma... — gaguejou.
— Sim, eu te amo, Helena. — visivelmente desconfortável, ele se levantou da bancada e virou-se de costa, na direção das prateleiras com ingredientes.
— Eu também te amo, Severo.
Ela se aproximou dele. Tocou seu ombro, fazendo com que ele tornasse a se virar, olhando-a cara a cara.
— Claro. Nós somos amigos... — ele começou.
— Não, Severo. — Ela interrompeu bruscamente. — Não é só desse jeito que eu te vejo.
Com toda a coragem que Helena pudera reunir, passou uma das mãos pelo pescoço do professor e o puxou para um beijo sôfrego, intenso e verdadeiro; o qual Snape correspondeu até certo ponto. Quando sua consciência lhe recordara que em seus braços estava a garotinha que viu crescer e que a então jovem mulher diante de si era filha de seu amigo; seus instintos foram brecados e ele se afastou dela tão bruscamente quanto ela o beijara.
— Me desculpe, Helena. Nós dois não podemos fazer isto. Eu tenho idade para ser seu tio, seu pai ou qualquer coisa que seja...
Helena estava com os lábios vermelhos e umedecidos, tal como seus olhos, que começavam a marejar.
— Nós somos como os pássaros feridos, Severo...
— Pássaros Feridos?
— Sim. Não lembra do livro que me deu? — fez uma breve pausa, assumindo um semblante decepcionado. — Somos feitos para viver tão perto e ao mesmo tempo tão longe um do outro.
Um longo silêncio se estabeleceu entre os dois. Depois de vários instantes de angústia, Snape quebrara a barreira entre ambos:
— Menina, menina... — suspirou, sem saber muito bem o que dizer.
— Pare com essa mania infernal de me chamar de menina! — ela esbravejou.
— Acho melhor você voltar para o salão comunal. — o doce sabor do beijo dela ainda o torturava e era melhor que se afastassem.
— Sim, eu vou embora. — disse resoluta.
Helena marchou decidida em direção da porta de saída. Snape, fora em direção da porta que dava acesso aos seus aposentos privados. Entrara e deixara aberta. Acabara de servir um copo de firewhisky quando Helena retornara, irrompendo em fúria pelo quarto.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, estático, com a garrafa em uma das mãos e o copo na outra.
— Qual é o seu problema, ein? Eu te disse que te amo! — ela esbravejou.
Snape virou-se de costas, buscando amparo, autocontrole e argumentos.
— E não dê suas malditas costas para mim, seu COVARDE! — ela disse gritando, indignada. Apontou a varinha em direção da garrafa de bebida, que jorrou o líquido em seu interior para todos os lados e resumiu-se a cacos de vidro de diversas formas.
Snape virou-se e a encarava como um lobo à espreita de sua presa. Largou o copo de firewhisky no chão, não se importando com o fato de que a sujeira aumentara. Avançou em direção de Helena, que corajosa e impertinente, não retrocedeu. Sempre foi alta e de estrutura corporal imponente. Esperava uma reprimenda ou até mesmo ser escorraçada, mas a atitude que ele tomou lhe surpreendeu: Puxou-a para si pela cintura e, segurando um de seus pulsos, com o rosto muito próximo dela, disse bem perto de seus lábios:
— Eu te amo da forma mais insana e inclemente que um dia eu sequer poderia imaginar que te amaria... Ou a qualquer outra pessoa no mundo. Mas nunca... Nunca... Nunca me chame de covarde.
— Eu te amo, Severo. E isto está me fazendo sofrer demais... — ela choramingou, saindo da pose.
Os lábios foram na direção um do outro vorazes, ávidos, descontrolados. Helena embrenhara suas mãos nos cabelos de Snape, que agora investia na trilha de beijos no pescoço dela. Sem ao menos dizer o que ele iria fazer, Severo pegou Helena no colo e rumou para a grande e rústica cama de dossel, coberta de lençóis negros. Beijou-a avidamente. A princípio, foi um beijo sem carinho, somente lábio contra lábio, mesmo assim, Helena achou que iria desfalecer. Aos poucos Severo amenizou a pressão e, somente com os lábios, ele a beijava suavemente. Primeiro os lábios superiores de Helena, depois os inferiores, dando leves mordidas; sem machucar. Helena não aguentava mais, entreabriu os lábios convidando e instigando Severo a aprofundar o beijo. Ele não hesitou tomou posse do que já era seu: Passou sua língua vagarosamente entre os lábios de Helena e entrou já explorando o interior de sua boca. Helena soltou um gemido de puro deleite e mesmo sem nenhuma experiência, seu instinto a fez se aproximar mais de Severo e grudar seu corpo no dele.
Severo soltou o pulso de Helena e a enlaçou pela cintura, trazendo como se fosse possível, mais para perto de si. O beijo agora se transformava num beijo exigente, apaixonado. Eles não sabiam mais de quem eram os gemidos. Helena percebeu, com a pouca coerência que ainda lhe restava, que simplesmente Severo havia se entregado. Ele era dela ali, somente dela. E nada mais lhe importava...
Quando ele desesperadamente tentou alcançar suas coxas, ela não resistiu ou protestou. Quando ele finalmente conseguiu chegar a suas pernas e rasgou sua meia-calça, ela somente gemeu e arqueou os quadris oferecendo-se, pedindo mais. Em nenhum momento ele parou de beijá-la. Quando ele delicadamente começou a explorar seu interior, ela achou que desmaiaria de tanto prazer. Ele pegou a mão de Helena e a pressionou sobre sua calça, mostrando sua excitação; algo que Helena sentiu pela primeira vez. Snape começou a investir. A princípio, houve um desconforto. Snape hesitou, para que ela se acostumasse. À medida que o corpo dela ia moldando-se ao dele, Helena se pressionava a ele, sem entender até onde aquela agonia prazerosa iria levá-la. Numa contradição espantosa, ela não sabia se queria que aquilo acabasse ou jamais terminasse. E a única frase entrecortada que ela ouviu de Severo foi:
— Solte-se... Deixe vir... Vem comigo, Helena... Vem...
Seu corpo aceitou sem questionar o comando dele. Primeiro ela sentiu seu corpo se retesando e depois se soltando com uma explosão de puro gozo. Cores. Espasmos corporais. Perda total da capacidade de pensar. Severo abafou seu grito com sua boca e ela sentiu em seu corpo a essência dele, quente e úmida.
Totalmente entregue e agarrada a ele, ela sentia a respiração dele voltando ao normal em seu pescoço. Passando a língua nos lábios ressequidos e inchados, ela preguiçosamente disse, limpando a garganta para a voz sair:
— Eu amo você, Severo, amo você...
Severo como acordando de um pesadelo e não de um sonho bom, afastou-se de Helena bruscamente. Abotoou as braguilhas de sua calça, virou-se de costas e tampou seu rosto com as mãos. Helena sem entender nada, sentiu-se acometida de um frio repentino, sem saber se pela falta dos braços de Severo, ou pelo sentimento inesperado que a acometeu: de que poderia perdê-lo para sempre. Também sentia um leve desconforto físico, ainda que ele tivesse tomado cuidado. Levantou-se. Ajeitou suas roupas em silêncio e tentou se aproximar colocando a mão no ombro de Severo, chamando baixinho.
Severo se encolheu como se o toque dela fosse o agente transmissor de algo contagioso e virou-se vagarosamente, dizendo, em tom de lamento:
— Ah, Helena, ah, Meu Deus, o que eu fiz? – o restante da frase foi como um golpe físico em Helena – Você é somente uma criança... Uma criança... Como uma irmã para mim! E eu a tratei como uma... uma...
Helena se afastou com a mão no estômago e quase gritou:
— Não!
— Sim, Helena, sim. Eu sou um homem! Homem! Não uma droga de um moleque com os hormônios alterados, eu deveria ter me controlado, me perdoe...
Enquanto Severo falava, Helena somente conseguia balançar a cabeça negativamente, dizendo "não". Lágrimas escorriam sem parar de seus olhos.
— Você não entende, eu sou o homem que deveria te proteger de homens como eu! Homens que se aproveitam de meninas ingênuas como você... E olhe o que eu fiz, me comportei como um cafajeste!
— Pare, Severo, por favor, pare – Helena chorava.
Na cabeça dela, ouvi-lo dizer aquilo era a prova de que Severo não a amava como ela o amava; tampouco que havia acontecido algo maravilhoso e especial entre eles.
− Não, Helena, você que não está compreendendo! Como poderei encarar seus pais depois disso? Eu sou como o irmão mais velho que você não teve para eles, meu papel sempre foi e sempre será protegê-la, cuidar de você... Não rebaixá-la a uma qualquer porque não consegui me controlar! Veja o estado em que você está...
− Eu estava ótima, até você começar a falar esse monte de besteiras! – gritou Helena – Será que você não consegue ver? Eu amo você, sempre amei e...
− Não, por Merlin, não! O que você sente por mim, é somente uma admiração, um amor fraternal, você nem tem idade para saber o que realmente é amar alguém... Você é só uma criança e eu... Me aproveitei de você... Não tem desculpa o que fiz... – Severo mais uma vez praguejou e xingou, sem conseguir se controlar.
— Pare de achar que eu sou só uma criança, você não se aproveitou de mim, você sabe melhor que ninguém, Severo, que nenhum homem conseguiria fazer o que você fez se eu não deixasse, se eu não quisesse – Helena tentou se aproximar, mas Severo não deixou, afastando-se. – Eu queria você, eu quero você, eu amo você...
Cada palavra de Helena fazia Severo dar um passo para trás. E a pobre garota não sabia o que fazer para mudar o que estava acontecendo.
— Helena, me perdoe – Severo tinha lágrimas nos olhos. E Helena nunca havia visto Severo chorar. Nunca. Para ele, homens não choravam jamais e vê-lo tão abatido e envergonhado, a encheu de culpa e vergonha.
— Severo...
— Me desculpe. Perdoe-me, mas você precisa sair daqui! Eu preciso... Eu preciso... Merda! Estou me sentindo o último dos homens, um lixo.
— Não, Severo, me deixe ficar com você! Fica comigo, por favor, eu...
— Não, Helena, a única coisa que posso lhe dizer agora, é que esse sentimento que você pensa ter por mim...
— Eu não penso, eu tenho!
— Tudo bem, querida, tudo bem... Esse sentimento que você tem por mim, irá se mostrar da maneira como ele é, que é admiração, paixão de adolescência e desaparecerá com o tempo. Eu só tenho medo que um dia você me odeie pelo que aconteceu hoje. — Severo hesitou. — E eu não poderei viver com seu ódio...
Uma explosão de raiva acometeu Helena:
— Eu não vou odiá-lo, Severo Prince Snape. Eu já o odeio!
Helena saiu correndo em direção ao salão comunal, com suas roupas amassadas e chorando. Ela queria que Severo viesse atrás dela para consolá-la e pegá-la nos braços dizendo que a amava... Mas Severo não veio.
6ª LEMBRANÇA
— Eu estou grávida.
—O quê! ?
— Isto mesmo que você ouviu. Acabei de voltar da enfermaria e...
Helena foi interrompida por um soco na mesa.
— Helena, por Merlin... Você não tomou a poção que eu te dei?
— Eu tomei, mas como você mesmo me disse, dependendo de que fase do meu ciclo menstrual eu estivesse, ela poderia não fazer efeito. — Helena estava visivelmente abalada e nervosa.
Houve um grande momento de silêncio entre os dois. Snape andava de um lado para o outro, as mãos pressionando as têmporas, em busca de solução.
— Eu estou com medo dos meus pais, Severo.
— E VOCÊ ACHA QUE NÃO ESTOU PENSANDO NISSO?
Helena se encolheu com o tom de voz dele.
— Você precisa tirar essa criança. — disse frio.
Helena levou alguns instantes para digerir a informação, até mesmo porque Severo usara de um tom que ela até então não tinha conhecido.
— Você está me dizendo que eu devo abortar a minha criança?
— É o melhor a se fazer, Helena. — a voz era dura e implacável. — Você não teve culpa. Eu vergonhosamente lhe seduzi. Você tem o restante do curso para concluir. Tem seu mestrado em Poções. Tem uma vida inteira pela frente. Nossa sociedade não vê com bons olhos meninas na sua... Sua... — ele hesitou — Sua situação.
— Então quer dizer que você não pretende ficar comigo e com o nosso filho? — ela disse, com a raiva contida e lágrimas insistindo em molhar o rosto.
— Por mais que eu quisesse, Helena... Seus pais nunca permitiriam.
— Eu iria ao inferno por você!
Um longo silêncio de palavras se reestabeleceu, exceto pelo choro que a jovem tentava calar, a todo custo.
— Helena... Eu sou um comensal da morte. — instintivamente a garota se afastou um pouco, a surpresa e o medo surgindo. Snape prosseguiu:
— Trabalho para Dumbledore desde antes da queda dos Potter's e de Voldemort. Lilian e Tiago morreram por minha culpa e, embora eu busque me redimir pelo que fiz trabalhando em prol da Ordem da Fênix... Voldemort não foi completamente destruído e um dia retornará.
— Isso, isso não é... Quer dizer... Isso...
— Helena, eu sou um mestiço. — o tom de voz continuava implacável. — Sua família vai te deserdar, te desprezar e te abandonar na miséria. — olhou profundamente nos olhos dela e, com amargura nos olhos e na voz, continuou: — Você é jovem e um dia encontrará um homem que possa ser seu e terá outros filhos. Aborte esta criança.
— Eu não acredito que você está me dizendo isso! — Helena tremia de indignação, raiva, desespero. — Você sabe que VOCÊ é o ÚNICO homem da minha vida. Quem eu AMO com o fundo do meu coração... E esta criança, Severo... Ela é nossa... Fruto de nós dois... Como você tem a coragem de dizer que eu posso ter outros filhos com outro homem? Como se você fosse substituível... Como se este BEBÊ fosse substituível! Quem você pensa que eu sou! ?
— Helena... — ele erguera a mão para tocar o rosto dela.
— Não toque em mim! Eu tenho nojo de você! Nojo!
Helena saiu batendo a porta. E nunca mais Severo teve notícias dela.
SsSsSsSs
Em lembranças aleatórias, vistas em seguida, Snape entendera toda a sequencia de fatos.
O casal Mitchel, como o previsto, o renegara ao saber que ele era o pai de da criança que Helena esperava. Sua Helena, por sua vez, fora deserdada e expulsa de casa. Percebendo que ela jamais abortaria a criança, ele decidiu voltar atrás e cuidar dela e do bebê que estava por vir. Helena, por sua vez, desaparecera. Havia deixado Hogwarts e simplesmente sumido do mapa. No primeiro ano de busca, ele havia procurado por ela incessantemente, mas ela deveria estar se escondendo e usando de magia para isto. Acabou por desistir das buscas, imaginando que ela estivesse muito longe dali. Ele já não conseguia mais conviver com suas lembranças e com seu remorso. Por isto, removera de sua mente tudo o que dizia respeito à Helena, aos pais dela e o que quer que fosse. Dumbledore, mesmo a contragosto, dissera que fazer isto seria egoísmo da parte dele, mas mesmo assim lhe ajudara a plantar novas memórias e a esconder as antigas. Viveu como se estas lembranças nunca tivessem lhe pertencido até o dia em que resolveu ir à mansão Prince, naquele ventoso dia de inverno em que atacou uma jovem bisbilhoteira, ávida por livros, pendurada nas antigas estantes da biblioteca da mansão. Não a reconhecera, mas ela sim. E com todo o autocontrole que tinha aprendido com o Mestre, agiu como se nada realmente tivesse acontecido... Até os dias atuais.
Uma grande força e um grande impulso trouxeram Severo novamente para o seu gabinete. Um imenso mal estar lhe invadiu o corpo, que sacodia em um choro violento e a muito tempo contido. Ajoelhado no chão e com as mãos na cabeça, Severo levou alguns segundos para digerir tudo o que havia revisto. Quando deu conta de si e de tudo o que causara a Helena, um urro de dor, remorso e desespero preencheu o recinto: Por Merlin, ele havia destruído a vida da garota e, por ter dado cabo de suas memórias, atualmente estava infligindo mais dor ainda àquela que sempre amou. Por isto a sensação de conhecê-la, o ciúme desenfreado, o desejo intenso. Tudo estava explicado agora. Quinze anos de sua vida haviam sumido por conta dele mesmo.
Snape bebeu muito aquela noite. Adormeceu ali mesmo, no piso do gabinete, segurando a garrafa de whisky de fogo. Tinha saído de casa e não sabia se agora conseguiria voltar. Caíra num sono pesado, repleto de pesadelos que se tornavam ainda mais angustiantes devido à presença do álcool em sua corrente sanguínea. Não acordou com os intensos raios de sol no seu rosto, mas sim, com mãos delicadas, que mais pareciam mãos de anjo. Será que finalmente havia morrido?
— Papai? — ouvir a voz de Amy, depois de tudo o que havia revisto na penseira, foi o golpe mais cruel que poderia esperar nos anos seguintes de sua vida. — Papai, você está bem? Você e a mamãe brigaram ontem e eu e a Sofia ficamos preocupadas...
Snape mexeu-se devagar, sentido os protestos de todas as articulações de seu corpo. Abrir os olhos custava tanto pela claridade do sol, como pelo remorso em encarar a sua filha. Por isso, começou a abri-los vagarosamente.
— PAI! Você bebeu? – questionou indignada ao perceber a garrafa de whisky jogada ao chão.
— Acho bom você se recompor, tomar um banho e levantar daí. Que coisa mais vergonhosa! No intervalo das aulas eu volto aqui para ver como você está.
Amy saiu do recinto com passos resolutos. Snape conseguiu se sentar. Massageava a cabeça, que explodia de dor. Céus, como ele iria resolver isto agora?
— Eu te avisei, não avisei? — disse Dumbledore, de seu quadro.
— Ah, meu Deus, Alvo! Cale a boca! Eu só preciso ver a Helena...
Mas não conseguiu, por puro remorso, vergonha, covardia e incapacidade alcóolica pela próxima semana inteira que se seguiu.
SsSsSsSsS
(1) - Severo tinha de confessar: ser diretor de Hogwarts era algo trabalhoso e cansativo, mas também lhe dispunha de alguns bônus...
N/A: A relação deles, a abissal diferença de idades, a forma pelo qual se conheceram, o vínculo que criaram e o amor impossível... Eu peguei emprestado do meu romance e série favoritos: Os Pássaros Feridos (1983).
E calma que o resto está vindo ainda hoje...
Beijos da Madi!
