— Onde está Amy?

Tomando o café da manhã, Snape lia o jornal e Sofia, um livro. Ambos levantaram a cabeça quando Helena fez a pergunta ao voltar da cozinha com mais café fresco.

— Acho que ela saiu — Sofia informou. — A vi levantar-se cedinho e estranhei. Amy não gosta de madrugar.

Dedos gelados apertaram o coração de Helena. Olhou para Snape, mas não conseguiu discernir nada na expressão dele. Teria ele tomado a iniciativa e contado tudo à menina? Impaciente, Helena não podia esperar o momento de perguntar-lhe se tinha feito isso. Suspirou de alívio quando Sofia disse:

— Com licença. Vou ver a pintura do teto do salão.

Assim que ela saiu, Snape comentou:

— Sofia parece um pouco entusiasmada demais com aquele garoto que está restaurando o teto do salão...

— Pouco me importa isso agora. Quero é saber de Amy. Você contou tudo a ela, não foi? — Helena explodiu, andando de um lado para o outro até parar em frente a janela. — Você não vê a hora de se livrar de mim, não é mesmo? Está pouco se incomodando com Amy, aliás, jamais se importou com ela. O que quer é esta casa só para você, admita. Pois pode ficar com ela. Nem que me implorasse de joelhos, eu continuaria aqui depois do que me fez. Como teve coragem para tanto?

Ela sufocou um grito de susto quando Snape, depois de se levantar da mesa, aproximou-se e a sacudiu com força pelos ombros.

— Do que você está falando? — indagou ele furioso. — Que tipo de homem você pensa que sou? — Largou-a e continuou com expressão desgostosa: — Na verdade, eu não precisava ter perguntado isso porque você já me disse. Para seu controle, não contei nada a Amy, foi você quem fez isso. Ela ouviu parte de nossa conversa ontem à noite. Hoje cedinho, eu a encontrei andando pelo jardim. Por razões nem um pouco diferentes, eu também precisava espairecer, pois não preguei o olho esta noite. Percebi logo que ela já sabia de tudo.

Helena perdeu a voz e não foi capaz de emitir um som sequer. Deixou-se cair no assento do vão da janela, com o corpo sacudido por um tremor incontrolável. Snape continuou, implacável:

— Amy me perguntou se o que escutara era verdade. Pelo que entendi, ela não ouviu a história toda, só o começo, pois, chocada, se afastou depressa. Então contei apenas o que pude.

— Deus do céu, ela deve estar me odiando — Helena murmurou baixinho, já começando a reagir. — Aonde ela foi Severo? Será que ela fugiu de novo?

— Não, está na casa Eleonor e Jamie. Eu a levei até lá. Amy queria conversar com alguém que soubesse de tudo, então eu sugeri seus amigos. Fique tranqüila, Amy está bem lá.

Tudo aquilo era demais para seus nervos e Helena começou a chorar estremecida por soluços. Snape chegou mais perto, porém, ela se encolheu e ele praguejou baixinho. Com os olhos brilhantes de fúria, Snape a fitou e reclamou irritado:

— Pelo amor de Deus! Por que você não pode ter um mínimo de confiança em mim? Será que sou sempre o bandido da história? Que você não goste dos homens de um modo geral, agora posso uma entender. Parece, no entanto, que você me escolheu para uma vingança especial. Eu já te pedi perdão e me dispus a recomeçar! O que mais você quer que eu faça?

Um tanto aliviada por saber que Amy estava em segurança, o medo de Helena começou a ser substituído por raiva.

— O que mais eu quero que você faça? Você quer dizer: O que significou PARA MIM foi tudo aquilo que você me fez! Além de todo o nosso passado, forçou-me a casar com você e me humilhou fazendo com que eu... — Mordeu o lábio e, desanimada, declarou: — Isso não tem mais importância, Snape. Está tudo acabado. Pode ficar com a mansão, com tudo. Não me importo mais.

— VÁ PARA O INFERNO, HELENA! — praguejou ele baixinho e a sacudiu de novo. — Não vou deixar que você se vá outra vez. Eu a amo muito e, se você tentar, vai descobrir que ainda me quer um pouquinho.

Por um longo tempo, o que acabara de ouvir deixou-a completamente aturdida. Será que havia mesmo uma súplica naquelas palavras? Helena fez um esforço grande para apreender o significado do que Snape lhe dissera.

— Você ainda me ama? — perguntou incrédula.

— E por que não? Ao contrário de você, Helena, tenho todas as fraquezas humanas normais. Acho que me re-apaixonei por você no primeiro dia em que a vi, quando pensei que você fosse uma caipira intrusa das redondezas. Ou melhor, mesmo que eu ainda não me lembrasse de você por razões que agora nós dois sabemos, acho que eu jamais deixei de te amar. Eu vivi todos estes anos com a sensação de que precisava encontrar alguém, rever alguém... E não conseguia entender nada do que se passava comigo. Quando te revi a primeira vez, tive a sensação de que você fazia parte da minha vida de um modo que aparentemente era impossível, mas que hoje eu sei que é verdade e eu não vou deixar que a vida nos tire esta nova chance que está nos dando porque você se recusa a me escutar!

— Você... você nunca disse... você...

— Disse o quê, Helena, que amava você? Quando foi que me deu oportunidade? Você lutou contra mim o tempo todo. Tive até de preparar uma armadilha para que se casasse comigo e, mesmo assim, você quis uma união só de nome. E lógico que você percebeu, na Toscana, como eu te amava. Eu não conseguia esconder meus sentimentos, por mais que me esforçasse. E eu ainda nem tinha recuperado as minhas memórias...

— Você disse que me desejava, só — gaguejou Helena, incapaz de se explicar melhor.

— E você acreditou que fosse só isso mesmo? — Snape indagou, incrédulo e furioso. — Deus do céu, Helena, que tipo de mulher é você?

Ele viu o sangue subir-lhe nas faces e praguejou entre os dentes. Segurou-a, então, pelo queixo e a beijou numa ânsia eloqüente que falava mais alto que qualquer palavra.

— Pronto — disse, soltando-a. — Se não consigo me explicar direito, posso, ao menos, lhe mostrar. Eu amo você, Helena, mais que qualquer coisa neste mundo. Sem dúvida, no início eu estava interessado na casa por causa de minha mãe, porém, isso foi uma emoção passageira se comparada com o que sinto por você e às memórias que recuperei. Há 15 anos eu não queria que isto acontecesse, mas não me apaixonei de propósito. Sempre tive medo do amor por que ele fez minha mãe sofrer. E eu também já tinha sofrido o suficiente. Mas se observar direito, você verá que temos muito em comum — disse ele com suavidade. — Ambos fomos muito machucados por eventos trágicos em nossas vidas. Não me vire as costas, Helena. Talvez não me ame mais agora, mas poderá aprender a gostar de mim de novo...

Helena recomeçou a tremer e a chorar. Entretanto, ao perceber que ela não se aquietava, Snape afastou-se um pouco, dando-lhe as costas.

— Está bem, Helena, se o que quer é o divórcio...

— Severo! Não! — protestou ela com o coração confrangido pela amargura profunda da voz dele, segurando-o pelo braço, fazendo com que ele voltasse a encará-la.

— Não, o quê? — Snape perguntou virando-se lívido e com um traço de desespero nos lábios. — Não posso continuar vivendo desse jeito, sob a tensão de me manter afastado de você, sem poder tocá-la, sem tê-la como minha mulher em todos os sentidos da palavra, tomando cuidado com tudo o que digo para não ofendê-la e, pior do que tudo, sabendo que quando a tenho em meus braços, eu não pos...

— Severo! Não! — Helena protestou de novo, com veemência e, ao mesmo tempo, continuava segurando-o com firmeza pelo braço. — Minha indiferença nos últimos tempos foi somente a única maneira que encontrei de me proteger. Eu tentava me convencer do contrário, mas eu ainda te amo mais do que posso dizer com todas as palavras do mundo!

Beijaram-se como se fosse a primeira vez e, em certo sentido, era mesmo, pois na carícia não existiam mais barreiras ou dúvidas. Helena desejava que seu amor por Snape extravasasse e o envolvesse em sua plenitude, para que toda a mágoa do coração dele se dissipasse.

— Tantos erros e tanta infelicidade — Snape murmurou afagando os lábios dela com o polegar. — Tive vontade de amaldiçoar a mim mesmo quando recordei de tudo o que te fiz sofrer, minha menina — confessou baixinho. — Fiquei revoltado contra mim mesmo ao perceber que fui capaz de tamanha covardia...

Ficaram em silêncio por algum tempo, abraçados cheios de emoção e, então, Snape falou baixinho:

— Helena, eu queria tanto, de alguma forma, aliviar toda a dor e a mágoa que te causei...

— Você já fez isso. Agora vamos nos concentrar na Amy.

Ao notar sua preocupação, Snape sugeriu:

— Não acha bom eu conversar com Eleonor e verificar como estão as coisas? — disse soltando-a gentilmente, recompondo-se da discussão.

Helena concordou e em poucos instantes o ouvia dizer a um patrono:

— Ótimo, eu estou indo buscá-la.

Ele voltou a seu lado e perguntou:

— Por que não fica aqui, esperando, enquanto vou sozinho buscar Amy? Acho que assim será melhor, as duas estão muito tensas para conversar...

Ela concordou com um gesto de cabeça e Snape saiu.

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Helena estava sentada no quarto de Amy quando ouviu o barulho de passos subindo as escadas se aproximando. Quando a filha abriu a porta, mal pôde fitá-la, pois a menina, em prantos, atirou-se em seus braços.

— Eu não sabia... — soluçava ela. — Eu não sabia... Quanto sacrifício você fez por mim.

Helena jamais esperara por essa reação. Estava preparada para enfrentar protestos, recriminações, angústia e desespero. Afastou Amy um pouco e a fitou.

— Minha querida, eu fiz isso por amor. — Helena não conseguiu conter a emoção e chorou de encontro aos cabelos da filha. —Sei que errei muito em te omitir a verdade sobre seu pai.

— Eu entendi por que você fez isso, o papai me explicou. Como ele havia alterado a memória e os seus pais não te apoiaram, você só quis me proteger... Eu custei a entender tudo isto. Senti raiva do papai. Mas agora está tudo bem...

Fizeram um longo silêncio, permanecendo fortemente abraçadas. Snape estava observando tudo de longe, na porta, quando Amy fez sinal para que ele se juntasse ao abraço. O gesto deixou Snape surpreso, pois o clima na casa dos amigos de sua esposa não era dos melhores.

— Eu só estou um pouco chocada em saber que você é mesmo meu pai porque desde o começo eu não acreditava muito nisso. Não disse nada porque senão vocês não se casavam.

Helena ficou atônita e, depois de concatenar as ideias agitadas, disse com suavidade.

— Com toda essa astúcia, acho que você foi parar na casa errada, querida. Não sei como você não foi para a Sonserina.

Os três soltaram-se do abraço. Snape estava visivelmente desconfortável e inseguro. E como odiava esta sensação de não saber onde está pisando e o que deve fazer! Amy percebeu o embaraço e a angústia do pai e o abraçou também. Helena observava tudo muito emocionada. Snape resistira a princípio, mas assim que a filha o abraçou, rompeu as últimas barreiras que ainda existiam e fechou os braços em torno da garota.

— Como nós dois não percebemos tudo isto antes, meu Deus. Você é a minha cara! – disse ele emocionado e com os olhos marejados. Segurava o rosto da filha com as duas mãos, com a expressão mais satisfeita e orgulhosa que um pai poderia expressar por um filho...

— E também não pense que eu estava ouvindo atrás da porta. Sofia e eu jantamos muito cedo e acabei ficando com fome mais tarde. Desci para comer alguma coisa e ouvi vocês dois brigando. Já ia virar as costas quando a mamãe disse que foi te procurar em Hogwarts e você não quis me conhecer. Eu não podia acreditar e voltei aqui para o quarto... Eu só podia pensar que não, você não tinha como ser mesmo o meu pai.

— O que você estava pretendendo fazer quando Severo a encontrou no jardim? — Helena indagou um tanto ansiosa.

— Nada... Apenas criando coragem para procurar vocês e perguntar se essa história era verdade. — E, ao ver a expressão preocupada da mãe, afirmou segura: — Não pense que eu ia fazer alguma bobagem, não. A vida é muito preciosa para se jogar fora. Sei que fui uma autêntica peste grifinória com você, mas agora já estou mais ajuizada — acrescentou com ingenuidade.

Helena riu divertida.

— Sem dúvida! Em três meses, você mudou muito, meu bem.

De fato, era incrível a transformação ocorrida na filha a desde que havia sido lançada a história de que Snape era o seu pai.

Ah, Severo... Helena refletiu com olhar sonhador.

— Já sei, você está pensando no papai — Amy afirmou. — Ele também fica com essa cara quando pensa em você.

Ambos ficaram bastante sem graça e um sorriso travesso se formou nos lábios de Amy. Quem tivesse prestado mais atenção, juraria de pés juntos que em vez de uma Snape, a garota era uma autêntica Dumbledore...

Ainda no mesmo dia a história havia sido passada a limpo com Sofia. A princípio ela ficara muito chocada e revoltada. Talvez por uma questão de ciúme contido ou puro estranhamento. Bradou furiosa e subiu em direção ao sótão, ficando lá o restante do dia. Entretanto, ao fim da noite, procurou a família para conversar e reaproximando-se, tudo voltou a funcionar na mais santa paz.

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As festas de fim de ano chegaram, o baile à fantasia fora feito e Sofia passara a namorar com Bob, apelido de Robert Carmichael; o que não agradou nem um pouquinho ao sogro do rapaz.

— Não gostei nada disso, Helena. Acho que Sofia é nova demais para sair namorando por aí. — disse Snape, emburrado. Os dois estavam deitados e abraçados em uma chase, diante da lareira, conversando sobre amenidades da vida cotidiana. Era tarde da noite e todos dormiam. Este era o momento preferido dos dois, longe das atribulações e histerias diárias.

— Ora essa, meu amor. Você fala como se a Sofia saísse por aí ficando com todo mundo. — rebateu Helena, aconchegando-se mais ao marido. — Eu apoio esse namoro, desde que seja sob as nossas vistas. O Robert é um bom rapaz e a família dele me pareceu muito íntegra.

— Mas ele é muito mais velho que ela. Se você fosse homem, entenderia como me sinto. Imagino as intenções daquele pilantrinha para com a minha filha.

— Com que idade eu engravidei do nosso primeiro filho mesmo, ein? Ando muito esquecida ultimamente, você poderia me refrescar a memória? — disse irônica e jocosa.

— É diferente. Eu era mais velho que você, mas... Mas... Mas...

— E mais nada. Conforme-se que você não tem álibi para meter o bedelho na vida de sua filha.

— Como assim não tenho álibi? Ela é minha filha e parece que foi ontem que ela saiu das fraldas. — disse indignado.

— Mas ela saiu das fraldas. E é isso que você tem de colocar aí nessa sua cabeça dura.

Severo bufou e fechou a cara, mas bastou que Helena lhe sorrisse para que o mau humor passageiro se dissipasse.

— Oh!

— O que foi, querida? — disse ele em tom de preocupação.

— O bebê está chutando, veja... — disse ela, colocando a mão do marido sob a barriga proeminente e recém chegada aos seis meses de gestação. Snape sorriu, satisfeito.

— Parece que esse garotão está louco para vir ao mundo logo e revolucionar o mundo das poções com o papai...

— Nós nem sabemos se é menino ou não, Severo... — ela riu.

— Mas vai ser um menino. Chega de mulheres nessa casa. Mais uma mulher mandando em mim e eu enlouqueço...

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Viram? Resolvi ser boazinha... Por enquanto. ;)

Beijos da Madi, que adora todas vocês!