02 meses depois...
— Muito bem, senhora minha esposa... Seu vestido é encantador!
Eles estavam no quarto do casal, que há muito tempo havia se transformado em um único cômodo. Era uma noite de comemorações: Severo Prince Snape acabara de ser eleito o Primeiro Ministro, cargo máximo no Ministério da Magia. A decisão de candidatar-se havia sido repentina, sob a contestação de que estava cansado do tédio que era a supervisão escolar. Helena dialogou bastante a respeito, sugerindo que ele começasse então por um cargo "menor", mas não houve argumento que demovesse Snape de suas convicções:
— Helena, eu me cansei do meu trabalho.
— Mas você pode se dedicar mais às suas pesquisas, não precisa mais ser diretor...
— Entenda, minha querida: Eu quero poder fazer algo. Infelizmente as estruturas de controle social são necessárias. Todavia, nosso povo irá ruir se continuar na mãos destes patifes...
— Tudo bem. Eu apenas temo por você. É uma responsabilidade enorme. Não é a mesma coisa que dirigir uma escola. Você será alvo de injúrias, repórteres, funcionários e cidadãos. Penso também se isto não refletirá na nossa família de forma negativa. Eu...
— Shhh. — ele olhou profundamente nos olhos dela. — Confie em mim, querida. Enquanto eu estiver vivo e for senhor do meu destino, Rita Skeeter ficará bem quietinha.
E aconteceu que a aceitação da candidatura de Snape ocorreu. O taciturno mestre de poções mostrou-se um verdadeiro diplomata e articulador, com os vários anos de experiência na Direção de Hogwarts. Toda a sua história de guerra e intervenções pela sociedade bruxa lhe renderam uma grande quota de votantes e, naquele momento, uma ilustre comemoração havia sido preparada em sua residência para selar as eleições.
— Ainda bem que você gosta — disse Helena, rodopiando em frente ao marido e riu alegre quando ele a prendeu contra si. — Se bem que eu estou parecendo um balão, mas... Tudo bem!
O traje em questão era um vestido formal, leve e flutuante, em estilo regência. De organza em tom rosado, ele prendia-se sob o busto e caía solto em camadas esvoaçantes. As mangas curtas e juntavam-se à linha do decote que deixava os ombros nus. Helena estava linda com ele. Isto porque lhe realçavam a beleza: A cor do tecido, o tom de pele e os cabelos soltos, porém, um pouco afastados das orelhas, de onde pendiam pérolas delicadas, presente de Natal de Snape.
— Está quase na hora de descermos — disse ele ao acariciar o ventre da esposa, cujo volume era impossível de não ser notado.
Helena, na visão de Snape, era a grávida mais linda do mundo e ele regozijava-se pelo fato de poder acompanhar cada momento da gravidez nesta ocasião. Ambos desejavam ter muitos filhos, formar uma grande família e banir para sempre as sombras de seus passados e da mansão. Ao sentir o afago no ventre, Helena refletiu feliz que não existia pai mais orgulhoso que Snape. Lembrou-se, então do comentário feito por lady Margareth, mãe adotiva de Helena e mãe biológica de Eleonor, a esse respeito, na ocasião em que Helena dera a notícia de sua gravidez:
— Quanto mais velhos, piores eles ficam. Pela expressão com que Severo a fita quando imagina que ninguém esteja vendo, tem-se a impressão de que ele pensa ser o primeiro homem a ter conseguido provocar a concepção.
— Pronta? — perguntou Snape.
Helena assentiu com a cabeça e o acompanhou para fora do quarto. No caminho, parou para ver as meninas. Ambas também estavam encantadoras com os seus vestidos.
— Não se atrasem, os convidados devem estar chegando — avisou ela.
Snape a esperava no patamar inferior da grande escadaria e estava com a mão estendida, em um gesto cavalheiro. Ele sorriu com ressentimento fingido e perguntou:
— E minhas congratulações, senhora Snape...?
— Pergunte isso outra vez, esta noite mais tarde. Aí, então, eu terei uma resposta — disse ela com um sorriso malicioso. — Se eu fosse você, não dançaria muito na festa. Vai precisar de bastante energia depois.
— Você vai se arrepender por ter dito isso — sussurrou ele, porém, ambos sabiam que apenas faziam o velho jogo do amor.
Os convidados foram chegando. Juntos, todos contemplavam as alegrias com que a vida lhes abençoava. Severo e Helena tinham acabado de dançar uma valsa juntos, um pouco mais devagar, devido às condições de gestante dela. Helena sentia um leve desconforto desde no início da festa, mas não havia comentado nada com o marido para não estragar a comemoração deixando-o preocupado. Devia ser apenas mais um dos infinitos "mal estares" que vinha sentindo desde o início da gravidez.
Retornavam de mãos dadas à mesa quando, de repente, uma fisgada brusca e que parecia rasgá-la ao meio fez com que Helena parasse de caminhar, encolhendo-se. De imediato, Snape não assimilara o que estava acontecendo, mas fez com que a esposa se sentasse imediatamente na primeira cadeira ao seu alcance.
— Querida, você está bem?
— Sim, está tudo b... Oh, meu Deus! — Helena torceu-se mais uma vez.
Margareth viera ao encontro do casal. A música parou de tocar e todos os olhares passaram a direcionar-se aos anfitriões.
— Minha filha! Como você esteve se sentindo hoje? — disse a senhora de semblante preocupadíssimo.
— Com um pouco de dor na costa e uma cólica leve, mas presumi que fosse normal... Ai! — diante de mais uma manifestação de dor vinda da esposa, Severo apertara mais a sua mão, oferecendo apoio.
— Mas é claro que é normal, minha filha! Você está entrando em trabalho de parto!
— Por que você não avisou que estava tendo estes sintomas, querida?
— Não quis estragar o momento...
— Ora essa, que bobagem!
Dito isto, Snape levantou-se de onde estava , virou-se na direção dos convidados e bradou:
— Me desculpem pela ausência de uma explicação, mas aqui está ela: Mais um Snape virá ao mundo esta noite, meus caros! — ele disse, extremamente orgulhoso. Todos aplaudiram, encantados com o acontecimento.
Voltando-se para a esposa, passou a tomar as medidas necessárias de forma efetiva.
— Venha, querida... — disse erguendo a esposa nos braços. Rumou em direção dos aposentos.
Enquanto isso, os convidados iam retornando às suas casas comentando que realmente era uma pena a festa ter acabado apenas na metade, mas que, por felicidade do destino, a tão esperada criança do casal viria ao mundo naquele dia, sendo, portanto, um motivo mais que plausível e perfeito.
Helena fora acomodada em seus aposentos. Severo fora dar procedimento às coisas, chamando Madame Pomfrey, que realizaria o parto. Assim que a medibruxa adentrara ao local para cuidar de sua esposa, Severo hesitara na porta do cômodo, a fim de orientar suas filhas.
— Meninas, a mãe de vocês terá o bebê hoje — (sim, Sofia tinha Helena como uma mãe). Eu peço que vocês fiquem calmas e... E... — ele gaguejava.
— Pai... — Amy mediou a situação. — Olhe para você. — disse sorrindo. — Você está tremendo mais do que vara verde. Vá ficar com a mamãe que a gente se cuida, pai.
Snape adentrou ao aposento. Helena estava deitada na cama, soerguida por uma pilha de travesseiros. O semblante do pai de família estava tenso. A criança era prematura e Pomfrey cochichara que a pressão arterial de Helena havia subido de forma preocupante. Todavia, ele tratou de desanuviar a expressão e virar-se para a esposa sorrindo, a fim de ampará-la.
— Que eu me lembre, eu gritei muito da última vez. Tem certeza que vai querer ficar aqui? — ela disse descontraída, mesmo com uma careta de dor perpassando seu rosto.
— É claro, meu amor. Não precisava nem duvidar. — disse ele, beijando-lhe a testa.
Ficara ali ao lado dela, segurando uma de suas mãos e molhando seu rosto em toalha embebida na água fria, enquanto Pomfrey realizava os procedimentos necessários.
— 1...2...3... FORÇA! — dizia Pomfrey, quando percebia picos de expulsão.
— Ahhhhhhh... Não consigo, não consigo. — suplicava e choramingava, entre gritos e contrações que lhe pegavam de surpresa.
— Consegue sim, menina! Vamos...
Duas horas se passaram em câmera lenta para a família. Helena estava exausta, pálida e exaurida... E nada do bebê nascer. As contrações amenizaram e rapidamente, Madame Pomfrey chamou Severo para longe da esposa, a fim de conversar.
— Severo... Preciso ser sincera e realista com você. Helena não está tendo a dilatação necessária. Estou tendo dificuldade em conter uma hemorragia e a pressão sobe e desce a todo instante. Ela precisa de uma cesárea, que é um método trouxa para promover o nascimento de um bebê. É uma cirurgia que precisa ser feita quando a mãe não consegue trazer a criança ao mundo da forma convencional.
— Mas como vou levar Helena ao Saint Mungos neste estado? — ele tentava se controlar, o desespero crescendo.
— Meu sobrinho é medibruxo, Severo. Podemos montar a estrutura necessária aqui na mansão.
— Tudo bem, faça o que tiver de fazer, mas salvem a minha mulher e o nosso bebê.
— Faremos o possível, meu filho. Mas como te disse, eu preciso ser sincera e realista. Em caso de necessidade extrema, a quem devo dar prioridade? — disse a mulher, consternada.
— Como assim "a quem devo dar prioridade"? Você deve salvar os dois!
— Eu sei, Severo! Eu sei! Mas meu filho... O procedimento é arriscado e a ética precisa ser seguida.
— Severo, eu estou escutando... — disse Helena, com a voz fraca.
— Querida... — ele começou, o tom de voz suplicante...
— Venha até aqui.
Severo prostrou-se ao lado dela, ficando de joelhos na lateral da cama, segurando as mãos dela. Enquanto isto, Pomfrey foi chamar o sobrinho.
— Querida, vai dar tudo certo...
— Severo, meu amor...
— Estou dizendo que vai, Helena.
— Severo, me escute! A Madame Pomfrey tem razão. O procedimento é arriscado e temos de segui-lo.
— Claro, claro...
— Me escute, ainda não terminei...
Um silêncio torturante se instaurou, até que Helena se recuperasse da contração que aparecera de surpresa.
— Severo... Se alguma coisa acontecer, eu quero que seja salvo o nosso bebê.
— Não fale assim, meu amor, não fale... — ele dizia, dando leves beijos desesperados no rosto dela.
— Você deve me prometer... Que irá salvar o nosso bebê... Cuidar das meninas...
— Eu não posso continuar sem você, Helena... Não posso...
— Meu amor... Eu também não posso. Mas eu já vivi muita coisa. O nosso bebê precisa vir ao mundo.
— E como viveríamos sem você? Não, Helena! Não posso te deixar em segundo plano, por mais que eu ame este filho com todas as minhas forças... Eu vou enlouquecer sem você, vou enlouquecer...
— Querido... — ela tinha lágrimas nos olhos... — Há quinze anos eu abdiquei de meu amor e meus sonhos para que a Amy tivesse o direito de nascer. É um direito que esse bebezinho também tem, meu amor. Prometa-me que se precisar, irá salva-lo e não a mim...
— Não posso, não posso! — Severo já chorava deliberadamente.
— Por amor a mim e à nossa família, me prometa Severo...
[...]
— Eu prometo, Helena.
