Edward Pomfrey havia chegado à Mansão já fazia uma hora.
Aflito e sentado em uma poltrona do largo corredor, a única coisa que Severo Snape esperava era que tudo aquilo acabasse de uma vez. Ninguém conseguia acreditar que justo agora que os dois haviam se reencontrado em plena felicidade, a vida tornava cada vez mais próxima a separação de ambos. Junto dele estavam as duas filhas, Mrs. Margareth e o casal Eleonor e Jamie. Amy e Sofia tinham o rosto inchado e vermelho, indícios de que haviam chorado. Momentos antes, Snape as chamara para dizer a verdade e prepara-las para o que quer que fosse acontecer. Eleonor estava tensa e andando de um lado para o outro, parando de vez em quando para atender a súplica do marido, que lhe pedia para tentar manter a calma e não deixar ainda mais nervosos os familiares.
Estavam todos quietos e fechados em um ambiente de tom tão sepulcral quando o choro de recém-nascido cortou o silêncio. Snape pulou da poltrona em que estava sentado com cabeça entre os joelhos quase que imediatamente. Andava de um lado para o outro, esperando que o medibruxo aparecesse logo e lhe dissesse que sua esposa e seu filho estavam bem. Ou não...
Ele só precisava acabar com a angústia para que, na pior das hipóteses, pudesse buscar - sabe-se de onde -, a força que precisaria para seguir a diante.
Edward apareceu poucos minutos mais tarde. Encostou a porta do quarto com cuidado e encarou seriamente os familiares ali presentes, dando atenção especial a Snape.
— Senhor Snape... — começou ele, cauteloso.
— Diga-me logo, como estão o bebê e minha esposa? — disse sem rodeios.
— O bebê é um menino. De acordo com os exames feitos, é bastante forte e saudável, mesmo sendo prematuro. Quanto a Sra. Helena, ela se encontra frágil e...
— Como assim "frágil"? Eu quero saber se minha mulher está bem e fora de riscos! Fale de uma vez, garoto!
Todavia, Snape não dera o tempo necessário para que o jovem medibruxo se fizesse entender: Ele cruzou a porta feito um tufão, entrando no quarto.
Abrandara a própria expressão quando teve diante de si a visão da esposa extremamente frágil e pálida segurando um pequeno embrulhinho nos braços, bem próximo ao seu rosto, para que pudesse dar pequenos e leves beijos na pele lisa e rosada da pequena criaturinha... Oh meu Deus, como é pequeno! – percebeu Snape.
Aproximou-se da esposa encantado. Helena percebeu a presença do marido no quarto e sorriu fracamente. Snape sentou-se ao lado dela na cama e curvou-se para poder ver melhor a criança que acabava de nascer.
— Como é pequenino... — ele disse, enquanto observava extasiado o filho diante de si.
— Pequenino e lindo... — murmurou, cansada.
— Nós nem pensamos em um nome... — disse com um tom levemente preocupado.
— Eu estive pensando em Arthur, o que você acha?
— Para mim parece ótimo, querida... — sorriu, fazendo uma breve pausa e, olhando para o bebê, continuou:
— Bem vindo à família, Arthur Mitchel Snape. Essa é a sua mamãe, que você já conhece. E eu... Eu... Eu sou o seu pai. — encerrou, acariciando os cabelos finos do bebê. Tinha os olhos levemente marejados.
Por vários minutos, os dois ficaram em silêncio observando os movimentos vagos e sons que o bebê de cabelos muito pretos fazia; com o olhar mais bobo e apaixonado que só os pais podem sentir genuinamente por seus filhos. Foi Helena quem cortou o silêncio.
— Severo, venha cá...
Snape aproximou-se e percebeu que o sorriso da esposa havia sumido para dar lugar a um semblante melancólico e preocupado.
— O que foi, querida? Agora está tudo bem... Amanhã mesmo eu vou ao Ministério oficializar o nascimento do...
— Severo, meu amor... — fez uma longa pausa. — Eu estou morrendo. — sussurrou.
— Não diga uma coisa dessas, Helena. Você está aqui, viva, segurando o nosso filho nos braços...! — disse ele, sem entender.
— Ainda assim, estou morrendo...
— Não, Helena. Você não está.
— Severo, preste atenção. Escute-me... — ela suplicou. — Talvez amanhã eu não esteja mais aqui. Eu sei que você será um bom pai para o pequeno Arthur e sei que continuará sendo maravilhoso para as meninas. Mas também sei o quanto você já sofreu nesta vida e tenho medo de que você não consiga seguir adiante sem esquecer-se de si mesmo.
— Você não vai morrer querida, está tudo bem agora. Não fale assim. — disse baixinho, terminando com um beijo nos lábios secos e pálidos da esposa.
— Eu perdi muito sangue e meu organismo não reage a nada do que vem sendo feito, Severo... — ela começou cautelosa. — Eu estou muito fraca. Pedi que eu mesma pudesse lhe contar isto. Eu te conheço, meu amor. Sei como você reagiria à Pomfrey... — ela logo inteirou, percebendo que a expressão dele ficara austera e pronta para retrucar.
— Você está fraca agora, mas vai ficar boa, querida. Bastam alguns dias de descanso e logo você estará nova em folha. — disse otimista.
— Severo, você sempre foi muito realista. Eu preciso que você seja forte agora. Fique forte, Severo. Fique forte. Eu te amo muito. Muito mais do que você possa imaginar...
— Você não vai morrer, querida. Eu já lhe disse, por Merlim! Eu prometo, Helena. Eu prometo. Nós vamos criar os nossos filhos juntos...
Entrelaçaram as mãos com força. Ambos tinham lágrimas nos olhos.
— Severo, isto está fora de nosso controle. Não carregue consigo o fardo de uma promessa impossível de se cumprir e que você não tem obrigação de cumpri-la, meu amor...
— Quantas promessas eu já cumpri, Helena? Arquitetei a morte de meu melhor amigo para poder dar continuidade ao nosso plano de guerra e fiquei com o Potter debaixo do meu nariz por seis anos... Te manter viva é sim, minha obrigação.
Madame Pomfrey entrou nos aposentos.
— Professor Snape... Receio dizer, mas agora a Sra. Snape precisa descansar. Também são necessários alguns cuidados femininos e...
— Tudo bem, Pomfrey... Eu vou deixar Helena descansar — disse acariciando o cabelo da esposa.
Snape deu um beijo nos lábios da esposa e na testa do filho.
— Eu te amo, querida.
Retirou-se do aposento extremamente cansado. Cruzou o corredor passando por seus amigos e familiares sem dizer uma só palavra. Seguiu em linha reta para um dos quartos de hóspedes. Queria deixar Helena e o bebê descansarem, afinal, tinha sido tudo muito exaustivo. Ao entrar, trancou a porta. Já era noite. Abriu as grandes portas envidraçadas que davam para a varanda do aposento. Sentiu o vento fresco tocar seu rosto. Suspirou... Helena tinha de sobreviver.
Preocupada, Amy seguiu o mesmo caminho que o pai. Bateu à porta uma vez, sem sucesso. Na segunda, Snape respondeu, no entanto, sem abrir a porta.
— Pai, está tudo bem com você e com a mamãe?
— Está, minha filha. Eu só quero descansar e ficar sozinho.
Snape livrou-se das pomposas vestes de gala que ainda usava. Tomou um banho gelado e vestiu roupas leves. Era alta madrugada quando resolveu sair do quarto. Não havia mais ninguém no corredor e a casa estava silenciosa. Severo rumou para o laboratório que tinha nas masmorras da mansão, mas antes passou pela sala de visitas e encheu um copo com whisky de fogo. Estava de roupão e pantufas negras. Era o retrato do desânimo. Deitado à cama do quarto de hóspedes por várias horas, refletiu melhor e conclui que Helena estava realmente certa. Ela estava morrendo, mas ele precisava impedir. Que se dane o destino e que se dane a sua impotência diante dos fatos. Ele precisava, sim, impedir. Ou então não se chamaria Severo Snape.
Severo passou o resto da madrugada em sua bancada no laboratório. Adormeceu ali mesmo. Já era começo da tarde e todos lhe procuravam, afoitos: Helena havia sido transferida para o Hospital Saint Mungo's. Ela havia entrado em coma e, permanecendo em casa as chances de progresso seriam mínimas.
Foi Sofia quem teve a ideia de procura-lo no laboratório de poções. Conhecia muito bem o pai que tinha e sabia que quando as coisas lhe fugiam ao controle, ele buscava recompor-se trabalhando avidamente em suas poções. Com cuidado, ela abriu a porta. Não havia muita iluminação natural no lugar, devido aos materiais delicados e preciosos que as diversas prateleiras conservavam. Sofia encontrou o pai debruçado sob a bancada. Percebeu o copo a seu lado. Cheirou. Sacudiu a cabeça, triste. Pesarosa.
Acordou o pai cautelosamente.
— Aconteceu alguma coisa, Sofia? — ele disse, acordando um pouco assustado, ainda que a jovem tenha tido todo o cuidado em fazê-lo.
— Aconteceu, pai... — ela não conseguiu conter as emoções.
Snape levantou de sobressalto, ficando imediatamente desperto.
— O que houve, Sofia! Fale! — disse, já fazendo menção de andar até a porta.
— Calma, pai. — Ela disse, conseguindo segurá-lo. Secou as lágrimas com a manga da blusa que vestia.
— É com Helena? Com o bebê? O que houve! — disse, começando a ficar desesperado.
— Sim... Nós a transferimos para Saint Mungo's. Procuramos você por toda parte, mas não lhe encontramos. O pequeno Arthur está bem e Margareth está cuidando dele.
— COMO ASSIM VOCÊS LEVARAM HELENA SEM MINHA PRESENÇA?
— Pai, nós lhe procuramos. Ela passou mal e simplesmente entrou em coma. Era a vida dela ou a satisfação de um capricho seu! — disse enérgica. — Agora vá tomar um banho e fazer o que tem de ser feito.
— Do que você está falando?
— Você acha que eu não sei que andou fazendo suas promessas quase impossíveis? É hora de sair para cumpri-las, pai.
sSsSsSsS
