Maldição II

O coração dela estava batendo tão forte no seu peito que Rose achou que todos na sala podiam ouvir. Ela achou que a qualquer momento fosse acordar, descobrindo que aquilo foi apenas um pesadelo, porém as coisas não eram tão simples. Sentiu suas pernas tremerem como gelatina e se apoiou no sofá próximo a ela, sentando nele, incerta da capacidade de suas pernas de a manterem em pé.

Sua mãe franziu o cenho e se ajeitou no sofá, pela sua expressão não estava gostando nada daquilo. Seu pai achava que Gina estava sendo exagerada, como sempre era, mas a verdade era que ele não entendia ainda a gravidade da situação. Rose preferia que nenhum dos dois soubessem da verdade.

- Eu explico. - Harry tomou a dianteira, fazendo Gina se calar. - Ron, Hermione, Rose e James estão juntos. Juntos como uma mulher e um homem ficam quando gostam um do outro.

No primeiro momento sua mãe franziu a testa, parecendo não entender muito bem o que Harry tinha falado; seu pai, por outro lado, se levantou do sofá abruptamente e, como Rose imaginou que ele fosse fazer, gritou.

- Como assim? - perguntou apontando para nós dois com as mãos - Como assim juntos? Vocês são primos!

Foi aí que Rose percebeu realmente o que seu tio tinha falado. Ele não explicou a maldição que fez James a procurar ou contou sobre a noite em que ele entrou no seu quarto, na verdade, da maneira que ele colocou para seus pais parecia que eles estavam juntos como namorados e não juntos como uma-maldição-ferrou-com-tudo.

Rose pensou rápido naquela situação e foi em direção a James, o puxando do sofá e se enrolando no seu braço como já tinha visto várias outras garotas fazerem, tentando comprovar o que seu tio tinha falado. O moreno pareceu surpreso com o que ela tinha feito, mas não falou nada para estragar a encenação. Seus pais olharam para ela como se ela estivesse louca, Gina a olhou da mesma maneira, ainda alheia a jogada do seu marido e Harry sorriu para ela, apoiando a ação.

- Mãe, pai, eu amo o James. - ela mentiu da melhor maneira que pode, o que pareceu ser o suficiente pela reação que recebeu. Eles estavam acreditando. - Não importa que nós sejamos primos, eu o amo.

- Como você o ama? - seu pai gritou - Vocês nunca foram muito próximos! A única coisa que vocês faziam quando menores juntos era implicar com Albus, e nada mudou muito. Você não pode amar ele, Rosie!

- V-vocês não entendem! - ela falou alto também - A viagem mudou tudo, e-ele... James é maravilhoso. O tempo que eu passei aqui enquanto vocês viajavam me ajudou a entender isso e, por mais que vocês digam o contrário, eu o amo.

Seus pais estavam incrédulos, assim como Gina. Harry era o único que entendia o que ela estava fazendo, já que foi ele quem começou com a ideia. James também não entendia, mas a acompanhou bem ao botar o braço ao redor dos ombros dela e a puxar para mais perto, um ato protetor que ia ajudar na encenação toda.

- E eu amo Rose. - ele falou e beijou sua testa, tentando passar conforto.

Gina finalmente pareceu entender o que estava acontecendo ali, na sua frente, na sua casa, contrariando todas as suas vontades. Seu rosto se transformou em uma carranca e ela lançou um olhar mortal para Harry, o culpado de tudo ao sugerir essa ideia absurda de que eles estavam juntos por amor ou algo parecido. Tinha sido uma jogada inteligente, ela teve que admitir, e agora era tarde demais para desmentir tudo isso, tarde demais agora que as outras três pessoas que sabiam a verdade tinham confirmado aquela versão absurda dos fatos.

Ron estava com o rosto vermelho e parecia em choque completo, por sorte sua esposa estava ao seu lado e tinha pegado sua mão, tentando passar qualquer tipo de conforto. Hermione mesma não estava conseguindo lidar com aquilo. James? Desde quando? Rose nunca tinha dado nenhum indício de gostar dele, o primo preferido sempre foi Albus, o melhor amigo sempre foi Scorpius Malfoy... A morena não podia lembrar nenhuma vez quando seu sobrinho foi parte importante e ativa da vida de sua filha.

- Mas a questão é que acredito que nenhum de nós concorde com isso. - Gina finalmente falou - Então precisamos conversar sobre essa situação com cautela, até porque existem outras coisas que vocês precisam saber.

A maldição. Bem, Rose não achou mesmo que ia conseguir esconder isso, mas não se sentia confortável com esse fator sendo exposto. Também preferia que não fosse sua tia a falar disso, tinha a ligeira impressão de que ela não ia fazer as coisas parecerem imparciais.

- Tia Gina tem razão... Outra coisa aconteceu, depois que nós decidimos contar para os pais de James que estávamos juntos. - Rose então tomou a dianteira - É meio complicado de explicar, mas-

- Por Merlin, Rose, não me diga que você fez sexo com ele. - seu pai falou sentando-se no sofá novamente com a mão na têmpora, como se a mera ideia disso o fizesse prestes a desmaiar.

Bem, ela tinha, de fato, feito sexo com James, mas não era nessa parte que ela queria chegar.

- Na verdade, não é sobre isso que eu estava falando. A questão é que, depois que nós contamos tio Harry falou algo sobre uma maldição dos Potters, mas não é nada grave, considerando que eu e James já estamos juntos. - ela falou dando seu melhor sorriso tudo-está-bem.

- Nós achamos, porém, que a maldição foi o que fez eles se juntarem. - Gina falou sem paciência - Se você considera isso algo sem gravidade, bem, sinceramente não sei o que pensar. - sua tia foi hostil pela primeira vez na conversa e Rose sentiu-se corando ao ter aquelas palavras cortantes contra ela.

- Maldição? - o brilho que surgiu nos olhos da sua mãe não era raiva ou confusão, mas pura curiosidade. Era realmente estranho essa vontade de saber absurda dela.

- Maldição dos Potters. - Harry respondeu - Há muito tempo atrás um Potter foi vítima de uma 'cantada' de uma jovem bruxa ruiva, infelizmente, ele já era casado, mas ao invés de falar isso respondeu que preferia as morenas, o que causou um grande problema pra ele. A bruxa, sentindo-se ofendida, fez uma maldição na família Potter, dando preferência para as ruivas nos homens.

Hermione tinha os olhos cerrados, observando os dois casais na frente dela e assimilando a informação. Ron apenas tinha a boca aberta, tentando balbuciar qualquer coisa que fizesse sentido, mas sem sucesso. Era informação demais pra um dia só.

- Bem, sexo nunca foi uma opção ruim mesmo. - seu pai murmurou enquanto afundava a cabeça nas mãos.

- Como você soube dessa maldição, Harry? - Hermione perguntou.

- Lembra quando depois da guerra eu me afastei da Inglaterra por um tempo? - a morena concordou - Fui à Alemanha. Logo depois que a guerra acabou recebi uma carta de um parente meu, primo do meu pai, Bernard, de lá. Fiquei um tempo ouvindo sobre a família Potter e tendo contato com o que deveria ser meu único parente vivo.

- E qual é a força exata da maldição? - ela perguntou ainda observando as quatro pessoas em pés na sua frente com curiosidade.

- Exata? - foi James quem respondeu - É uma loucura, tia. É tão forte quanto uma maldição pode ser, ela faz você fazer coisas que em seu estado normal você não faria, controla sua mente e chega a te torturar. - ele falou lembrando-se de quando invadiu o quarto de Rose ou quando não parava de comparar Molly a ela.

- Não tem maneira de quebrá-la, imagino eu. Geralmente essas maldições que englobam gerações são difíceis de serem feitas, tem que ocorrer todo um ritual e a bruxa tinha que ser bem forte, o que quer dizer que só ela ou o primeiro amaldiçoado poderiam quebrar o encanto... - não era surpresa que sua mãe tivesse pensado nisso tudo sozinha, mas ainda assim Rose sentiu uma pontada de orgulho - Pelo visto nenhum dos dois se preocupou em fazer isso.

- Pois é, infelizmente acreditamos que não há nada que possamos fazer, Mione. - Harry falou com a voz fraca e parecia realmente sentido por isso, o que fez Hermione sorrir.

- Por que você nunca falou dessa maldição antes, Harry?

- Nunca achei que teria algum problema em James e Albus escolherem uma ruiva, só não imaginava que ia ser uma da família.

- Hermione, pare de perguntar sobre essa maldita maldição. - Ron pediu com a voz fraca, mas bem autoritária, sua cabeça ainda apoiada em suas mãos grandes.

- E o que você quer que eu faça, então? Fique com a cabeça enterrada nas minhas mãos? Mas é claro que isso vai ajudar bem mais do que tentar coletar informações sobre o que está acontecendo. - ela cuspiu, irritada.

- Você já está me irritando com todas essas perguntas. Você sabe que não tem nada a ser feito! - ele falou levantando a cabeça. Suas orelhas já estavam vermelhas.

- Pelo menos eu estou tendo certeza! Se dependesse de você íamos continuar aqui até você resolver levantar essa sua cabeça dura, seu grosso. - sua mãe respondeu.

Claramente aquilo era uma das clássicas brigas entre eles dois. Ninguém parecia surpreso, mas era um péssimo momento pra começar a discutir.

- Mãe, pai. - Rose pediu com a voz baixa.

Odiava quando eles começavam a brigar, odiava qualquer briga. Os dois pareciam cansados quando olharam para ela e realmente não pareciam com paciência para discutir.

- O dia foi longo. - Hermione falou se levantando, tinham milhões de perguntas e suposições girando em sua cabeça, mas aquele não era o melhor dia para saciar seus desejos; era duro, mas ela tinha aprendido a controlar seu apetite intelectual com o tempo. - Viemos aqui falar da viagem e pegar Rose, mas a visita mudou totalmente de propósito.

- Dia longo, noite longa. Estamos cansados, voltamos de viagem agora. - Ron entendeu onde sua esposa queria chegar - Sinto muito, mas nós podemos conversar sobre isso depois. Já tivemos muitas surpresas pra um dia só.

- E prolongar o assunto por mais tempo? - Gina se pronunciou.

- Gina, agora não. - sua mãe respondeu usando seu melhor tom estou-sendo-gentil-por-educação.

A ruiva engoliu suas palavras e ficou ao lado do marido, observando enquanto seu irmão e cunhada se levantavam do sofá e gritavam para que Hugo descesse. Enquanto esperavam seus pais pegaram novamente as malas e rumaram para a lareira, seus tios foram atrás e nenhum deles fez questão de chamar ela e James, que continuavam parados no mesmo lugar, na mesma posição, com Rose agarrada em seu braço como se ele fosse a boia que a salvaria de um oceano tempestuoso.

Ao olhar para baixo e ver a expressão miserável de Rose, James sentiu preocupação, a maldição se agitava dentro dele e o fez envolver a prima em um abraço confortante.

- Podia ter sido pior, Rosie. - ele murmurou e beijou o topo da sua cabeça, sentido o cheiro dos seus cabelos vermelhos - Está tudo bem, eles levaram numa boa, até.

- Por enquanto. - ela sussurrou de volta e o abraçou, para sua surpresa.

Rose também falou algo mais que ele não entendeu, já que seu rosto estava esmagado contra a camisa dele.

- O quê? - ele perguntou quando a afastou pelos ombros.

Antes que ela respondesse, porém, Hugo apareceu na sala e estranhou a posição de Rose e James. Notando a posição em que foram pegos, Rose agiu normalmente.

- Bem, tchau, Jay! - ela falou sorridente enquanto o abraçava, como se aquela fosse uma despedida entre primos e não entre amantes. - Até.

- Tchau, Rose. - ele falou e bagunçou os cabelos dela, arrancando uma careta verídica dela.

- Tchau, cara. - Hugo se aproximou quando Rose subiu a escada e voltou para o quarto onde tinha ficado nas últimas semanas.

Pegou sua mala e sentiu vergonha ao lembrar o que estava acontecendo no quarto antes de Harry interromper e o que poderia ter acontecido se ele não tivesse aparecido. Desceu com a bolsa e encontrou seus pais perto da lareira, enquanto seu irmão continuava na companhia de James, mais afastado.

Os primos se abraçaram e apertaram as mãos. Logo toda a família Weasley estava em frente a lareira, prontos para irem embora. Ron foi o primeiro, seguido pelo filho e Hermione. Rose foi a última a ir e a última visão que ela teve antes das labaredas diamantes a consumirem foi um sorriso de James.


Ao contrário do que ela pensava, quando chegou em casa seus pais não se pronunciaram sobre o assunto. Talvez porque Hugo estava ali, talvez simplesmente estivessem cansados demais para conversar, realmente. Fosse o motivo, Rose agradecia silenciosamente por poder subir para seu quarto dando apenas um 'boa noite' fraco e não tendo que explicar como tudo isso foi acontecer quando eles a deixaram sozinha por algumas semanas.

Quando entrou no seu quarto sentiu um cheiro leve e gostoso, perguntou-se se aquele era seu cheiro e se já tinha deixado de se acostumar com ele. Jogou a mala nos pés da cama e prometeu a si mesma que iria arruma-la na manhã seguinte, naquele momento, porém, não sentia vontade nenhuma de arrumar roupas.

Seu instinto perfeccionista não a deixou deitar na cama sem antes tomar banho e botar um pijama, infelizmente, o que fez com que ela se sentisse dez vezes mais cansada do que realmente estava.

Quando deitou finalmente na sua cama com colcha rosa ela lhe parecia estranha, mas não demoraria muito para se acostumar, sabia disso. Seu maior problema na hora de dormir foi controlar os pensamentos com relação a James, ao frio que sentia e a uma possível solução do segundo envolvendo o primeiro.


N/A: Espero que vocês levantem as mãos e não as armas na minha direção por eu ter voltado, agradecida. Infelizmente não tenho nenhuma desculpa que vá deixar vocês tipo 'own, coitadinha', ta mais pra 'fdp desgraçada'.

Odeio problemas imensamente, mas todos temos, pois é. Problemas que às vezes nem consomem seu tempo, mas consomem sua mente e alma, o que pra mim são os piores.

Anyway, atualizei esse cuzão :)