Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Elizabeth Oldfield, que foi publicado na série de romances "Sabrina Destinos", da editora Nova Cultural.
Capítulo 9
Juvia corria ao longo da margem enquanto admirava os reflexos dourados que os primeiros raios de Sol produziam na água. Um pássaro cantava em algum lugar, e apenas algumas nuvens altas manchavam de branco a abóbada azul do céu. Controlava o ritmo da respiração: inspiração, expiração. O ar era fresco e agradável, com uma suave fragrância floral. Uma enorme sensação de bem-estar tomava conta de seu corpo. Correr ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma manhã tranqüila como aquela, era revigorante.
Olhou de relance para Gray, que corria ao seu lado. Vestindo apenas short negro e tênis, ele parecia viril, atlético e forte.
- Como... estão... o seu braço... e o seu ombro ? - Juvia perguntou, ofegante.
Ele girou o ombro, fazendo os músculos do peito saltarem sob a pele dourada.
- Ótimos - informou, sorrindo.
Juvia prolongara a sua estadia no Rio de Janeiro. Seu desejo se tornara realidade: agora, ela e Gray eram amigos. Conversavam tranqüilamente por horas seguidas, desfrutando da companhia um do outro, e conseguiam compartilhar muito bem os pequenos problemas cotidianos. Um detalhe, porém, fez com que ela tivesse que conter um suspiro. O relacionamento seria perfeito, não fosse o aspecto físico, que praticamente não existia mais.
Apesar de os ferimentos não constituírem nenhum entrave a qualquer tipo de relação sexual, desde o acidente ele mantinha-se distante.
O bom senso dizia a Juvia que devia estar agradecida, porque, afinal de contas, ela tinha conseguido quase tudo o que queria. Quase tudo...
Procurava encarar a situação filosoficamente, mas ansiava pelo toque de Gray, por seus beijos, por fazer amor com ele. Ao menos mais uma vez.
Cerrou os punhos com força, enterrando as unhas nas palmas das mãos até sentir dor. Desejava-o com paixão. Estava ficando obcecada pelo desejo.
Inicialmente, pensara que o ferimento o incomodasse. Gray pedia sua ajuda para se barbear, se vestir... tocá-lo. Mas ele nunca a tocava. Mesmo quando começara a recuperar os movimentos, não esboçara nenhum avanço. Dois dias antes, ela o levara ao hospital para remover definitivamente os curativos. Por quarenta e oito horas mantivera-se em uma tensa expectativa... e nada. Achara que ele tomaria a iniciativa, mas o relacionamento permanecera platônico.
O que tornava a situação ainda mais embaraçosa era o fato de Gray desejá-la tanto quanto ela o desejava. Juvia podia perceber o fogo da paixão queimando nos olhos negros sempre que a fitavam. Podia ouvir o mesmo timbre rouco e sensual na voz grave e masculina. Notava que o corpo dele ficava tenso quando se aproximavam. A resistência ao contato, no entanto, continuava implacável.
Por quê ? O coração de Juvia pareceu congelar. Porque agora Gray sabia a história de sua mãe. Ele podia ter sido simpático e compreensivo ao ouvi-la, mas sem dúvida a revelação provocara uma mudança radical em seu comportamento.
Embora tivesse permitido que aquela amizade se desenvolvesse, ele parecia querer evitar algo mais profundo.
Admitia tê-la como amiga íntima e dedicada, mas fazia muitas reservas ao seu papel como mulher.
O olhar de Juvia fixou-se nos reflexos dourados e cintilantes da água. Engraçado... era irônico perceber que o mesmo motivo que agora o afastava parecia ter cada vez menos importância. Nunca falaria abertamente sobre o assunto, claro, mas já podia encarar a situação de forma madura. Ela finalmente se livrara da insegurança que durante muitos e muitos anos tinha atrapalhado a sua vida.
Correram até que o Sol começasse a ficar mais alto, e então voltaram calmamente para o apartamento.
- Isso faz a adrenalina explodir - Gray comentou quando entraram no elevador. Pressionou o botão da cobertura e as portas se fecharam - Eu estava sentindo falta do exercício.
- Foi muito bom - ela concordou - Melhor do que freqüentar uma academia, e infinitamente mais bonito...
Calou-se ao notar que ele a observava em silêncio. O olhar penetrante, somado ao fato de estarem comprimidos em um cubículo, fez com que fosse acometida por uma súbita ânsia. A atmosfera tornou-se incendiária. Se algum dos dois acendesse um fósforo, provavelmente tudo iria pelos ares.
- Você pode até me achar atraente, mas vou ficar envergonhada se continuar olhando para mim desse jeito - avisou, notando que a reação dele parecia muito similar.
- De que jeito ?
- Você sabe.
- Não sei - ele murmurou, falando rápida e ansiosamente - Explique-me.
Juvia fez um gesto com ambas as mãos.
- Ora... esqueça.
- Não. Diabos, não posso ! - Gray recusou com voz trêmula, deixando-se trair pelo nervosismo - Desculpe-me. Eu não tenho dormido bem nos últimos dias - emendou, quando o elevador parou na cobertura - E acho que estou um pouco tenso.
- Concordo - ela murmurou.
Estavam parados no vestíbulo. Gray ergueu a cabeça.
- O telefone está tocando - comentou, aliviado. Correu para abrir a porta e atendê-lo.
Juvia foi para o quarto, tirou o agasalho e entrou no chuveiro. Então Gray também estava dormindo mal, pensou, minutos depois, enquanto secava-se com uma toalha felpuda. Todas as noites, rolava na cama por horas que nunca pareciam terminar, imaginando que apenas uma parede a separava do homem que amava. Muitas vezes ficara tentada a juntar-se a ele... no entanto, temia que Gray não compreendesse sua atitude.
Escovou vigorosamente os cabelos. Talvez naquela noite jogasse todas as reservas para o espaço e tomasse coragem para se deitar na cama dele. Se não tentasse, jamais saberia. Além disso, restavam-lhe apenas mais três dias. Depois disso, voltaria à Inglaterra.
Vestiu-se lentamente. Gray devia ter seus motivos para se manter à distância, mas, como ele mesmo dissera, Juvia era uma lutadora. Nesse caso, por que não lutar por seu amor ? Tudo valeria a pena se aquele caso terminasse entre lençóis...
Já estava imaginando a técnica de sedução que utilizaria quando ele irrompeu no quarto, ofegante.
- Duas grandes notícias ! - ele quase gritou. Sua expressão era entusiasmada e feliz. Precisou respirar profundamente antes de continuar, pois aparentemente correra como um raio para contar as novidades a ela - Você não vai adivinhar quem acabou de me ligar !
Juvia franziu as sobrancelhas, curiosa.
- Não vou ?
Gray permaneceu calado por um momento, sorrindo maliciosamente. Parecia fazer aquilo de maneira premeditada, apenas para aguçar-lhe a curiosidade.
- Ora, vamos lá ! - ela protestou. Foi incapaz de conter uma risada, porque ele a imitava nos mínimos gestos - Conte logo, seu bobo !
- Bem, na verdade foram duas pessoas - ele começou, mantendo o mistério - A primeira você conhece... Alzack, o galã.
- Alzack Connell ? - ela perguntou, atônita, sem saber exatamente o que pensar - Mas... o que ele queria ?
Gray ergueu as mãos sobre a cabeça.
- Meu Deus, você esqueceu ! Bem, para ser sincero - considerou - , nem mesmo eu me lembrava. Mas aparentemente ele não desistiu daquela idéia maluca de comprar a história do roubo e da caça ao bandido na noite de Carnaval. E agora vem o melhor...
Àquela altura, Juvia já não era mais capaz de conter a ansiedade. Por isso, atirou-se sobre ele, empurrando-o, e jogou-o sobre a cama, prendendo o corpo musculoso com as pernas.
- Se não me contar logo, bato em você ! - avisou, sorrindo.
- O melhor de tudo é que a idéia dele deu certo - Gray esclareceu, rindo de forma relaxada - Um famoso produtor de Hollywood gostou do misto de aventura, sensualidade... e sei lá mais o que Alzack disse. Isso significa que vão comprar o seu trabalho... desde que você esteja disposta, claro !
Juvia encarou-o, confusa.
- Comprar... a minha história ? Mas não pode ser verdade ! Isso é maravilhoso !
- E tem mais - ele continuou, abraçando-a calorosamente - Vão usar um elenco de primeira classe para contracenar com Alzack, vai ser uma verdadeira superprodução. Ele não pôde me adiantar muitos detalhes no telefone, mas disse que vai viajar para o Rio dentro de quinze dias para acertar todos os detalhes com você.
"Quinze dias !", Juvia pensou, exasperada. Isso podia significar mais duas semanas de tormento ao lado daquele homem sedutor. Ou, talvez, duas semanas de delírio...
Tudo dependeria daquela noite. De qualquer maneira, era uma oportunidade que ela não podia desprezar. O tipo de coisa que surgia apenas uma vez na vida, concluiu.
- E o detalhe que vai deixá-la mais interessada é o valor que vai receber pelo trabalho. Quer arriscar um palpite ?
- Conte ! Senão vou acabar tendo um ataque aqui mesmo.
Dessa vez Gray resolveu falar seriamente, sentando-se na beirada da cama e acariciando-a levemente no rosto antes de continuar.
- Bem, meu amor, ele mencionou uma quantia que pode variar entre trezentos e quinhentos mil dólares... - disse por fim, sorrindo ao notar que Juvia parecia estar a ponto de gritar - É um bom começo para uma amadora, não acha ?
- Sou uma mulher rica ! - ela gritou a plenos pulmões - Céus !
A atmosfera parecia ter ficado mais leve. Mas uma coisa ainda nublava seu coração. Sim, porque todo o dinheiro do mundo não teria o menor valor se ela não tivesse Gray ao seu lado. A constatação voltou a entristecê-la. Mas Gray voltou a falar com entusiasmo depois de um pequeno intervalo.
- Depois de me contar isso, ele passou o telefone para um tal Gildarts Clive - informou, com os olhos brilhando de maneira intensa - Faz idéia de quem possa ser esse senhor ?
- Ele deve ser... - Juvia começou, num tom zombeteiro.
- O presidente dos Estaleiros Clive, da Argentina - Gray completou - Um dos maiores do mundo, e seguramente o maior da América do Sul - houve um silêncio momentâneo, durante o qual Gray parecia escolher as palavras que iria usar. Finalmente sua expressão iluminou-se e ele prosseguiu: - Lembra-se da visita de Alzack, logo depois do acidente ? - indagou. Juvia assentiu, meneando a cabeça - Bem, ele disse que falaria com um amigo sobre nossa fábrica de peças náuticas. E realmente fez isso ! É inacreditável, mas cinco minutos atrás eu recebi a melhor proposta de toda a minha vida !
- Quer dizer que será possível salvar a fábrica ? - ela perguntou, esperançosa.
- Possível ? - ele riu - Nós não vamos apenas salvar a fábrica... quando fecharmos o contrato de fornecimento exclusivo com a holding de Gildarts Clive, suas cotas vão passar a valer três vezes mais ! Alzack foi realmente o máximo !
A mente de Juvia já não conseguia raciocinar direito; não podia realizar nem mesmo os cálculos mais simples. Mas, quinhentas mil libras... três vezes... Céus !
Dessa vez a voz não lhe saiu. Gray, entretanto, conseguiu adivinhar o que ela pensava.
- Sim, meu amor. Você está muito, muito, muito rica ! - murmurou, beijando-a no rosto.
Meu amor ! Era a segunda vez que ele dizia aquilo. A primeira vez podia ter sido um engano, mas agora... "Não, Juvia ! Pare de imaginar coisas !"
Mas a sensação causada por aquelas palavras deu a ela a coragem que estava lhe faltando. Respirando profundamente, conseguiu lentamente recuperar o controle emocional. Tudo o que pôde fazer, porém, foi encará-lo tristemente e implorar:
- Não fale assim comigo, por favor - Gray ficou atônito.
- Não falar assim... assim como ? O que quer dizer, meu amor ?
- Isso ! - ela disparou, nervosa - Não me chame de "meu amor !" Você não pode fazer isso comigo !
Gray parecia incapaz de falar. Encarou-a fixamente por um longo momento. Só então murmurou, num tom muito suave:
- Mas é verdade, Juvia. É o que estou sentindo.
- Sabe muito bem que não é verdade - ela protestou - Você nunca vai me enxergar como antes. Porque agora sabe a história da minha mãe - ergueu o queixo com orgulho - Mas eu não sou um lixo ! Sim, eu herdei os genes dela e tenho o mesmo sangue, mas sou outra pessoa ! E não me considero inferior...
- Nunca pensei assim.
- Vamos lá ! - Juvia disparou - Nas últimas três semanas você nem sequer me tocou !
- Porque nas últimas três semanas eu estive notando que você é jovem e ambiciosa, e fiquei com medo de atraí-la para um relacionamento sério cedo demais.
Ela lançou um olhar de suspeita na direção de Gray. Recusava-se a ser iludida.
- Explique - pediu.
Virando-se para encará-la melhor, Gray deixou escapar um suspiro.
- Percebi isso na noite em que voltamos daquele baile à fantasia, antes de fazer amor... você estava em dúvida, não estava ?
- E você, não ?
- Eu também estava. Acredito que isso possa ser atribuído à insegurança - ele disse, pensativo - Mas, de qualquer maneira, ignorei suas dúvidas e a beijei e... bem, nós sabemos o que aconteceu depois. E, quando fizemos amor no carro, eu não lhe dei a mínima chance.
- Eu não o recusei - Juvia retrucou.
- É verdade. Mas só porque estava sexualmente atraída por mim... sentindo o mesmo que eu. De qualquer forma, deixou bem claro, desde o início, que tinha vindo ao Rio de Janeiro para fotografar, porque a viagem podia ser profissionalmente útil, e eu...
- Não é nada disso - ela o interrompeu - Eu vim por sua causa.
Os olhos dele estreitaram-se.
- Por minha causa ?
- Sim. Eu queria que fôssemos amigos.
- E somos. Mas sua carreira parecia ser mais importante - ele continuou - Então, quando começamos a discutir sobre tudo, eu fiquei confuso.
Juvia sentiu-se iluminada pela felicidade.
- Eu... significava algo para você ? - perguntou.
- Muito ! Por que acha que permaneci no Rio de Janeiro para acompanhá-la ? - Gray indagou - E, depois disso, por que acha que pedi para você ficar e cuidar de meu ombro ? Por que acha que me fingi de indefeso quando podia me arranjar muito bem sozinho ?
- Você não estava indefeso ? - ela indagou, perplexa.
- Não tanto quanto dei a entender. Mas eu precisava ter você ao meu lado o tempo todo... era como um tipo de tortura. Também foi por isso que ainda não voltei ao trabalho. Eu precisava estar com você e, céus, desejava fazer amor mais uma vez... mais uma vez pelo menos. Porque eu a amo - revelou, os olhos cheios de emoção.
Ela o encarou, perplexa. A alegria crescia em seu peito, rápida e incontrolável.
- Você me ama ?
- Com toda a minha alma.
Colocando a mão sobre os joelhos dele, Juvia murmurou:
- Eu também o amo, querido.
- Graças aos céus ! - Gray exclamou com voz rouca.
- Você ainda não tinha percebido ? - ela perguntou, os olhos faiscando.
Ele sorriu.
- Cheguei a ter uma forte suspeita... mas não tive coragem de me expor, pois você podia mudar de idéia e... isso eu não suportaria - ele continuou, e seu rosto assumiu uma expressão séria - Sempre estive ligado aos fatos do passado, e você me lembrava um tempo que eu queria esquecer. Não gostava de lembrar meu pai sofrendo por amor... por isso, evitei o amor com unhas e dentes. Mas isso não significava que, no fundo, eu não alimentasse um desejo secreto de que você pudesse me amar de verdade.
- Querido... - seguiu-se uma pequena pausa, durante a qual Gray acariciou o rosto dela com gentileza.
- Foi por isso que eu quis afastá-la da fábrica, no começo. Certo, eu estava sendo egoísta, mas, se você continuasse sendo dona das cotas, nós fatalmente continuaríamos em contato. E eu não podia mais vê-la sem pensar em... - ele se calou subitamente.
Juvia franziu as sobrancelhas.
- Pensar em...?
- Algumas mulheres já chegaram a insinuar que estavam dispostas a se casar comigo, mas dessa vez era eu quem pensava seriamente no assunto. Entendeu ?
A alegria pareceu transpassar o corpo dela como se fosse a própria flecha de Cupido.
- Está me fazendo um pedido ?
- Estou - Gray confirmou, aproximando-se ainda mais - Estou preparado para esperar um ano ou dois, se você preferir, mas...
- Eu não estou preparada para esperar - ela afirmou de forma decidida - E, quanto à minha carreira, eu posso muito bem continuar trabalhando aqui - sorriu - Ao menos até que nosso primeiro filho nasça.
- Filho ? - ele repetiu lentamente.
- Claro - ela confirmou - E, imagine só, o bebê já vai nascer com pais muito famosos. O "herói milionário e sua adorável namorada"... vamos até mesmo poder levá-lo ao cinema para assistir à história dos pais - Juvia fez uma pausa, e seu rosto assumiu uma expressão pensativa - Se bem que, para uma criança da idade dele, talvez essa história tenha muitas cenas de sexo...
Os dois riram gostosamente.
- Então você vai mesmo se casar comigo ?
Passando os braços ao redor do pescoço de Gray, Juvia roçou os lábios contra a textura macia da pele recém-barbeada.
- Sim, querido - sussurrou languidamente.
Gray beijou-a, de maneira relaxada, terna, profunda, e então passou os braços em torno de seu corpo escultural, puxando-a de encontro a si.
- Podemos fazer amor no carro, mas acho que é muito mais confortável nessa cama, você não concorda ? - murmurou junto aos lábios dela.
Juvia sorriu ao olhar para o homem que era seu melhor amigo, um amante perfeito e que, em pouco tempo, seria também seu marido.
- Como quiser...
P. S.: E aqui chegamos ao final de "Feitiço de Carnaval", que é a minha vigésima segunda adaptação. Também é a minha quinta adaptação com o fandom de Fairy Tail, e a terceira adaptação com o ship Gray/Juvia. E eu espero que vocês gostem dela.
E, se gostarem... reviews, pode ser ?
