Lembranças de uma Escuridão Eterna

Descendo os degraus do Inferno

"O inferno é perder a capacidade de amar." (Léa Waider)

Catatônico, fiquei olhando Draco ser levado. Vincent ficou ao meu lado, como se soubesse de algo. Não disse nada, apenas respirei fundo e sai dali. Fui para o meu quarto, senti na minha cama, peguei a foto –a única lembrança que a mim era palpável naquele momento- e chorei. Um choro de tristeza, angustia, medo, saudade, raiva.

Abracei a fotografia, me dobrei sobre os joelhos e fiquei soluçando, o tempo que fiquei lá não sei disser, mas foi tempo o bastante para secar minhas lágrimas. Enquanto meus olhos doíam, garganta trancada; a porta se abriu. Meu colega de quarto, Silverwater. Para ser sincero não lembrava de seu nome, e ficava com vergonha de perguntar.

-Tudo bem contigo?

Abri a boca, as palavras não saiam. Suspirei e apenas assenti. Ele fez uma cara de preocupação, seu rosto delicado e olhos grandes mostravam isso. Não que sentisse nada por ele, mas o achava bastante delicado, chegava a parecer uma garota, mas rejeitei essa ideia, ele não tinha curvas e nem seios.

- Ele é alguém especial pra ti?

Mirei seus olhos. Profundos olhos azuis, mergulhei neles, mas não enxerguei hostilidade, apenas compreensão e fraternidade. As lagrimas voltaram, mas impedi que elas saíssem. Não poderia chorar em frente a ninguém, muito menos na frente de um homem- diga-se de passagem por causa de outro homem.

- Não. –demorei um pouco para responder.

-Sei como você se sente... - pareceu ignorar o que eu disse. – Não poder fazer o que se quer com a pessoa que se gosta na frente dos outros...- Seu tom pareceu estremecer, mas logo afastou essa sessação e pegou minhas mãos. – Se quiser posso te ajudar!

De inicio fiquei espantado por ele saber de tantas coisas, parecia ter uma intuição muito boa. Suas mãos eram quentes e macias, apesar de pequenas, olhei para elas, eram tão delicadas... Pareciam até femininas, mas não podiam ser!

-Não! Não é isso que...

-Não tente recusar! – ele deu uma gargalhada- Vou te ajudar! Potter..., posso te chamar de Harry?

-Co-como você sabe sobre mim?

-Sei muito a respeito de vocês.

Sem dar mais explicações saiu com um sorriso misterioso no rosto. O que será que ele planejava?

x.x.x

Me contorcia de dor, berrava maldições, xingava as pessoas que estavam tentando me ajudar-espero que elas tenham me perdoado. Seis enfermeiras estavam me segurando, pediram para que dois soldados imobilizassem minhas pernas com mais cuidado. Só parei quando Valquiria se aproximou dizendo:

-Vou te dar uma anestesia, quero que você conte até dez.

Uma agulha foi espetada em mim, nem tive tempo de xingar nada. Naquele caos fechei os olhos. Acordei vendo um teto diferente numa paz sem tamanho.

O quarto estava claro, a janela, aberta. A paisagem atraves dela mostrava o Lago Negro brilhante, a Floresta Proibida estava verde e brilhante. Levantei uma sobrancelha e chamei alto:

-Erik! Que porra é essa?

-Ahh... –um suspiro desapontado. –Pensei que podia te dar uma visão mais... Utópica.

Senti uma ponta de sarcasmo em sua voz. Ainda estava deitado apenas virei o rosto para ver onde ele estava. Toda aquela luz e cor se distorceu, parecendo ser arrancada dos rodapés e num turbilhão iam para a ponta da varinha sorriu para mim.

-Se sente melhor?

-Tenho medo de mexer. –suspirei, sincero.

Aquela luz deu lugar ao meu quarto, um lugar escuro e frio. Paredes de pedra, sem janelas, apenas uma cama uma porta. Ele estava perto da saída.

-Eu pego seus pedaços se eles caírem... –disse brincalhão.

Respirei fundo, e forcei para sentar. De inicio não senti nada, olhei para Erik num misto de panico e esperança. Puxei o lençol paraver o que ocorria na minha perna.

Eu estava nu, o que não era nenhuma novidade para Erik. Ela estava lá. Um feio remendo que cortava minha perna com suturas muito feias. Cheirava a unguento. Tentei mover meus dedos, foi aqui que veio o choque. Uma fisgada eletrica atravessou meu corpo.

x.x.x

Foi um alivio ve-lo andar novamente. Ficou mancando por muito tempo, andava com a ajuda de muletas, mas ainda assim era um alivio.

Ficou impossibilitado de ir para a linha de frente, mas foi um tempo que pude desfrutar um pouco mais de sua presença.

Era uma noite fresca, primaveril, as fadas, pareciam deixar as arvores cada vez mais com flores, algumas petalas o vento levava.

Foi nessa noite que em meu quarto recebi uma carta, um peculiar mensageiro, um gato preto, tinha uma mancha branca logo abaixo do queixo, era bem felpudo, e também estava com uma coleira vermelha. Seus olhos eram de um verde intenso.

Foi uma mensagem bem simples: Torre de Astronomia. D.

Pareceu novamente meu primeiro encontro, meu coração acelerou, fiquei rubro. A felicidade misturada com a ansiedade pareceram querer sair de mim como um grande grito. Minhas mãos tremiam, e um frio começou a borbulhar dentro de mim. Agora o medo, a insegurança e incerteza vieram a tona.

Era uma mistura de euforia com terror. O gato subiu na minha cama e deitou no meu travesseiro.

Será que era para ir agora? Será que ele já estava lá? Será, será, será...

Por fim acabei por ir correndo para lá. Não haviam muitas pessoas no corredor, mas mesmo assim tentei ir o mais rápido que pude.

Estranhamente, ou propositalmente, o sétimo andar estava vazio. Apenas uma pessoa saia do andar. Erik. Fiz uma saudação.

-Deixe de ser idiota!- Disse ele- Suba lá e de uma canseira nele.- Fiquei vermelho, por isso ele riu. O tenente-coronel sabia.

Subi a escada em espiral, e quando o vi, meu coração ao mesmo tempo que disparou começou a bater mais forte. Ele estava apoiado, de costas para mim, olhando as estrelas, virou lentamente o rosto e sorriu. Seus olhos brilhavam, e seu sorriso foi o mais lindo de todos.

-Harry...- sussurrou. Suave e delicada, sua voz beirava ao sensual.

Apenas corri e o abracei, o mais forte que pude. Ele era quente, macio, cheiroso. Afundei meu rosto em seus cabelos, senti uma felicidade que crescia cada vez mais.

Talvez esse inferno não seja tão ruim assim...

-Draco...Que saudade...

Levantei o rosto e nossos olhos se encontraram, de repente, lembrei de tudo, todos os nossos momentos, nossas felicidades, bricas, beijos, abraços, noites amorosas e carnais.

Ele sorriu, seus lábios aveludados, tão convidativos. O beijei e me senti em casa, a correspondência não pareceu perder o calor.

Ele era meu. Nunca havia deixado de ser, tinha certeza daqui agora.