4ª lição: Como se acostumar com o preenchimento.
- Você está mais confiante agora? – Danny perguntou, fuçando em seu facebook, enquanto Stiles acabava de trocar roupa para saírem.
- Não tenho muito certeza, cara. Quer dizer, consegui descobrir que ele tem tesão em mim e gosta das coisas que eu faço, mas depois do flagra do meu pai...
- Bom, você me disse que seu pai não ia com a cara dele. Aposto que agora deve ir bem menos. Achar o cara de cueca no seu quarto deve ter sido demais. Para os dois.
- É. Fiquei pensando que se ele chegasse mais cedo e me encontrasse ajoelhado, com a cara enfiada no meio das pernas do Derek, hoje nós cancelaríamos esse passeio para ir ao funeral.
- Ah Stiles, você se preocupa muito. Seu pai tem o coração forte, caso contrário ele não conseguiria ser xerife por tanto tempo.
- Quem disse que o funeral seria do meu pai. Seria do Derek. E eu seria uma viúva inconsolável. Isso se eu não fosse um defunto inconsolável também.
Danny riu da expressão "viúva inconsolável", reparando que Stiles já se colocava como a mulher da relação. Os dois desceram as escadas, agora discutindo sobre o que fariam no resto do verão, se iriam viajar ou não.
Para Stiles era engraçado ver como a amizade com Danny fluía a medida que ele se abria mais. A princípio pensou se não seria errado agir daquela maneira. Parecia que estava usando o colega de classe. Mas depois, as conversas pararam de girar em torno apenas da descoberta da (bi)sexualidade de Stiles, e ganharam novos assuntos. Eles se davam bem. E como cada um tinha sido, a seu modo, chutado pelo melhor amigo, os dois acabaram se usando. E gostando disso.
Assim que o rapaz trancou a porta de casa atrás de si, deu com uma expressão confusa, magoada, visivelmente enciumada lhe encarando. Arregalou os olhos enquanto observava o olhar assassino que era dirigido a Danny.
- O que ele faz aqui? – a voz saiu quase num rosnado.
Danny ergueu uma das sobrancelhas, achando graça na situação. Parou ao lado de Stiles e colocou a mão sobre os ombros dele.
- O que você faz aqui? Eu estou aqui porque Stiles e eu vamos dar uma volta.
- Você só pode estar de brincadeira. Stiles, vai mesmo sair com ele?
- Vou. Qual o problema nisso?
- Qual o problema? Oras, qual o problema! Você sabe bem qual o é problema.
- Você vai precisar ser mais claro que isso se quiser que eu entenda. E é bom parar de rosnar também. Fica igualzinho ao Derek quando fica assim.
Scott bufou, mas tentou controlar seus nervos. Não queria ficar parecido com o alfa. Voltou a olhar o amigo e agora a raiva começava a espaçar e ele parecia apenas chateado.
- Stiles... Eu não converso com você há dias. Te vi no baile e desde então não te vi mais. Achei que você ia me ligar pra gente conversar sobre... sobre aquele assunto.
- Aquele assunto você diz é o meu namoro com o Derek?
Scott arregalou os olhos diante da tranquilidade com que o amigo falava aquilo e ainda mais na frente de Danny. Só então se deu conta das várias vezes que tinha visto Stiles conversando com ele no corredor da escola, no pátio, até mesmo antes de sair do baile, lembrava-se de ter visto o amigo abraçando o outro colega de time. Então era esse o assunto de Stiles com o rapaz esse tempo todo.
- É. – ele disse por fim – Achei que você fosse meu amigo.
- Eu sou seu amigo, Scott.
- Mas tem me evitado. Quer dizer, você agora só tem tempo pro Derek e, pelo que vejo, pro Danny também. Mas não tem tempo pra mim.
- Scott, você está parecendo uma cadelinha mimada e ciumenta. – ele sorriu, usando a expressão cadelinha justamente para provocar o amigo. – Eu só estou dando um tempo para você se acostumar com a ideia.
- Eu já me acostumei. – ele ajeitou a postura, tentando parecer sincero.
- Não vai ser a mesma coisa. – Stiles ponderou.
- Impossível! – Scott rebateu depressa demais. – Quer dizer, eu sei que você mudou. Sei que tem um namorado agora. Mas a gente é a mesma coisa de sempre. Você sabe que as coisas entre a gente, bem, não mudam nunca. Quer dizer, elas não mudaram quando, você sabe, eu mudei.
As palavras soaram sinceras demais. Stiles sabia que Scott podia ser um lobisomem adolescente com instintos assassinos aflorados uma vez por mês, mas ainda era seu amigo de infância. Desses amigos que a gente só vê em seriado de televisão. Já ia responder, quando Danny adiantou:
- Ótimo! Que bom, Scott, que você disse que já se acostumou. Então não tem problema nenhum em sair com a gente.
Os dois amigos de infância encararam Danny ao mesmo tempo, chocados. Stiles não sabia se queria que Scott visse onde estavam indo e o que iriam fazer. Scott não sabia se encararia numa boa um passeio com Stiles e Danny. E se eles fizessem programas gays como irem ao cabeleireiro, ou à manicure? Ou fossem assistir A Noviça Rebelde e cantar junto as músicas do filme?
- Que espanto é esse, minha gente? – Danny tirou os dois de seus devaneios particulares. – Vamos lá, antes que fique tarde. É bom chegar cedo, quando tem menos movimento, Stiles.
Scott não reagiu. Apenas se sentiu puxado pelo braço e colocado no banco do traseiro de um carro que ele sabia não ser o de Stiles.
Danny dirigiu sossegado, observando furtivamente como Stiles tinha ficado tenso perto de Scott e como este não abria a boca, apenas observava o caminho, respirando fundo, esfregando as mãos uma na outra em sinal de ansiedade. O motorista colocou o cd para tocar e deixou o som de Coldplay rolando enquanto se encaminhava para o centro da cidade.
Rodou por algumas ruas, entrou num estacionamento e deixou o carro, sendo seguido de perto pelos amigos silenciosos. Scott reparou que ele começava a tomar um rumo diferente do shopping ou do grande centro comercial
Virou em algumas ruas menos movimentadas até que chegou num calçadão, decorado com alguns jardins, bancos de madeira, postes baixos com lâmpadas arredondadas. Havia uma cafeteria ali, com mesinhas espalhadas do lado de fora, onde algumas pessoas liam jornais. Do outro lado, algumas poucas lojas, um estúdio de tatuagem e o local em que Danny parou, observando a vitrine.
A fachada da loja em questão era toda pintada de cor de vinho, com uma porta de madeira talhada num estilo antigo. A vitrine nada mais era que uma grande janela, decorada com cortinas de crochê, uma antiga mesa de chá, duas cadeiras e manequins de mulheres que pareciam amigas no chá da tarde, sendo servidas por um mordomo. Tudo muito clássico, tudo muito elegante e distinto, se a antiga mesa de chá não ostentasse nada menos que seis vibradores em tamanhos e cores diferentes, duas capas de filmes pornôs e os manequins das mulheres usando espartilhos e o mordomo usando uma calça de látex e coleira com espinhos de metal.
E a realidade se abateu sobre Scott como uma tempestade: ele ia fazer compras com seu melhor amigo gay e seu colega de time também gay num sexy shop.
Danny abriu a porta que, para desespero do único hetero ali, tocou um sininho para anunciar a entrada. Scott olhou apavorado para o café, para conferir se alguém ali tinha notado a presença dos três e se entre as pessoas que passavam na rua alguma tinha o rosto conhecido. Quando viu que Stiles já subia o último dos três degraus que davam acesso para o interior do sexy shop, correu para alcança-lo. Não queria ter que tocar aquele sino de novo.
O interior da loja era MUITO diferente da fachada discreta (dentro do possível). As paredes continuavam num vermelho vivo, com várias estantes de filmes que traziam os nomes mais criativos e alguns até bizarros. Os dois rapazes "novatos" no pedaço deixaram os temores de lado e começaram a ler os nomes e sinopses dos filmes.
- "Jorrada nas estrelas", a sua cara este Stiles. – Scott balançava a capa do filme, rindo baixo para não ser notado. – Se preferir, tem "O Senhor dos Anais" também. A gente pode tirar a prova de quem dá pra quem, o Sam ou o Frodo. Olha, aqui ele tem o nome de Fodo. Nada criativo isso.
- Divirtam-se, rapazes. Eu vou ali falar com a Kenzie. – Danny deu um tapinha no ombro de Stiles e saiu de perto – Já volto.
- Olha esse, Scott. Parece romântico. "Amor maior que eu". – Stiles encarava sério a capa do filme e Scott se rendeu para a curiosidade e foi para o lado do amigo.
- Que coisa horrorosa! – ele falou alto demais e as únicas três pessoas na loja além deles os encararam, com ar de reprovação.
Stiles caiu na gargalhada, devolvendo para a prateleira o filme que tinha na capa um anão travesti que segurava o pênis de um ator que devia ter a mesma medida do braço do pequeno.
- Olha esse aqui: Três Sobre Quatro Rodas. – Stiles havia trocado de filme e pegado um realmente gay, com uma capa até interessante. Nela dois rapazes, um loiro e um moreno lambiam o pescoço de um terceiro cara com asas, em cima do capô de um Impala. – Em meio a batalha pelo fim do mundo, os irmãos Iam e Dann, arrumam tempo para confraternizar com os anjos.
- Engraçado, isso não me parece estranho. – Scott murmurou, pensando onde já tinha visto qualquer coisa sobre irmãos, anjos e fim do mundo.
Ainda ficaram nessa brincadeira, até que Scott achou um filme particularmente interessante e estendeu em silêncio para o amigo.
- "Gritos na meia noite"? – ele ergueu as sobrancelhas e só então reparando o sub título – "O lobo está a solta. E está faminto. Faminto por sexo."
- É! Legal, né? – Scott se fez de inocente e pegou a caixinha do DVD de volta, fingindo se concentrar – Olha, é do mesmo diretor de "Uivos Gozantes", "Ferozmente no cio" e "Bitchwolfs – putas e lobas".
Stiles socou o braço do amigo e caminhou com ele para o outro lado da loja, onde objetos mais que inusitados estavam a mostra e, eles notaram chocados, com etiquetas de preços, condições de pagamentos e promoções.
- Um vibrador com a cara do Obama. Quem vai querer enfiar o Obama no...
- Medo disso. – Stiles cortou o amigo, mostrando uma embalagem que parecia um pote de cup noodle.
- Por quê? É afrodisíaco?
- Não. É para comer.
- Todo cup noodle é pra comer, Stiles. – Scott disse, como se fosse óbvio e tomou a embalagem da mão do amigo, observando as figuras e deixando o pote cair em seguida.
- Urgh! É pra comer o cup noodles! – ele fazia uma cara de confusão e nojo.
- Eu disse.
- Mas eu entendi comer no sentido de se alimentar. E não comer no sentido de... no sentido de...
- De foder. – Danny completou, aparecendo sorrindo para os dois, acompanhado de Kenzie, a vendedora.
Stiles arregalou os olhos, notando a sombra escura da barba sob a maquiagem excessiva que a vendedora usava. Ou seria vendedor? Ele estava confuso.
Kenzie era simpática, tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, junto com um imenso aplique roxo e uma mini coroa de strass. Os olhos traziam maquiagem brilhante e cílios postiços imensos. Mas fora isso, a roupa era o uniforme padrão da loja: calça preta justa, camiseta preta com decot nome da loja Seduci bordado de pequenos paetês pretos. Nos pés, uma bota estilo militar, de couro e salto agulha.
Ela sorriu para os três e Scott tornou a ficar tenso e sem graça. Os olhos da vendedora caíram diretamente nele e ela falou, com a voz anasalada:
- Apoooooosto meu aplique que você é o hetero.
Stiles riu, mas só depois pensou no que aquilo significava. Ele devia mesmo ter a tal aura diferente que Danny lhe dissera uma vez. Deu de ombros, afinal, a quem ele queria enganar? Era gay mesmo. E estava ali justamente para ser mais gay ainda e agradar o namorado, o lobisomem alfa, másculo e gostoso que ele teve a sorte de conquistar.
- So-sou. – Scott pigarreou – Sou o hétero. Quer dizer, sou Scott, prazer.
Ele esticou a mão para cumprimentar Kenzie educadamente, o que arrancou um sorriso contido de Danny. Scott estava se esforçando para lidar com todas as situações da melhor maneira possível. Devia prezar muito a amizade de Stiles.
Kenzie aceitou o cumprimento e estendeu a mão em seguida para Stiles, que deu um aperto firme.
- E você deve ser o novo gay. Bom, venham comigo, meninos. – Ela falou, abaixando-se para pegar o pote de cup noodles e colocando na prateleira em seguida. Os rapazes a seguiram e ela parou em frente a uma porta, acendendo a luz e dizendo – Então, querido, - ela se voltou para Stiles especificamente – Danny me explicou tudo. Aqui está a sala dos vibradores. Pode entrar e escolher a vontade. Talvez você até encontre algum bem parecido com o do seu namorado.
E os três ali, Danny, Stiles e Kenzie ouviram o baque surdo de Scott tropeçando nos próprios pés e caindo, de cara no chão. O lobisomem se virou e deu com três pares de olhos acima de sua cabeça, o encarando com ar de zombaria. Ele se levantou ágil, arrumando a camiseta e a calça que pareciam agora estar fora do lugar.
- Já se acostumou com a minha sexualidade, Scott? – Stiles zombou.
- Já! – o rapaz respondeu sério, passando a frente e entrando na sala – Vamos logo com isso, achar um... um... um estepe pro pau do seu namorado.
Kenzie gargalhou e voltou para a recepção da loja murmurando um "gostei desse menino".
A sala não tinha apenas vibradores. Tinha também dildos, cintas penianas (que os meninos ficaram encarando, imaginando quem teria coragem de usar uma calcinha com um pinto de borracha pregado), anéis de silicone, no centro da sala, uma redoma de vidro protegia um vibrador conectado a um i-phone. Pelo que dizia a placa, o vibrador pulsava de acordo com a música que tocava no outro aparelho. O preço, 280 dólares. Stiles descartou a ideia.
Saíram observando as cores, formatos, texturas dos itens expostos. Até que Stiles viu um que fez seu coração parar. Não que fosse a réplica do Derek. Era uma réplica bizarra do órgão sexual de um cachorro. Balançou a cabeça horrorizado e deu um pulo quando Scott parou atrás dele e falou:
- Não se preocupe. Não ficamos assim. – ele riu da reação do amigo – Pelo menos eu sei que eu não fico.
Ganhou um soco no ombro, um bem dado dessa vez e fez de conta que não ouviu quando Stiles murmurou um "Derek também não, seu idiota".
Depois de meia hora observando tudo, Stiles parou diante de três modelos como réplicas de membros, humanos dessa vez. Eram os mais parecidos com o que ele se lembrava de ter visto no quarto mal iluminado na noite anterior.
Se a situação já não fosse tão embaraçosa, ia querer pegar os objetos, para ver como enchiam sua mão. E quando por fim se decidiu pela terceira opção: um pouco mais comprida que as outras, ouviu a pergunta que ele sabia que seu melhor amigo queria fazer desde o começo.
- Stiles, assim, vou ser indiscreto. Mas se você e o Derek estão numa verdadeira lua de mel, porque precisa de uma réplica do pau dele? Não é mais fácil usar o de verdade?
O rapaz respirou fundo, pegou o objeto escolhido, deu um olhar para Danny que se afastou com a desculpa de que ia levar uma surpresinha pro Adam, o novo affair do moreno.
- Olha, - Stiles começou – eu acho que você não vai querer saber.
- Cara, qual é? Acho que dei prova suficiente que dou conta disso tudo vindo até aqui, né?
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Você lembra quando a gente tinha uns 12 ou 13 anos e você decidiu fazer igual ao cara do filme American Pie, mas como não tinha torta você usou uma melancia mesmo?
- Lembro. Coisa horrível... os caroços machucaram meu menino aqui. E o tanto que tava gelada, me brochou quase na hora. – Scott respondeu, rindo – Mas o que a melancia tem a ver com o seu vibrador?
- Você usou a melancia para treinar, certo? – o rapaz observou o amigo balançar a cabeça afirmativamente – Eu também preciso treinar. E mais que você. Porque eu preciso me acostumar com a ideia de que minha pista única agora vai ser reformada para ser uma via mão dupla.
Scott abriu a boca para falar qualquer coisa, mas depois se calou. Entendia mais que nunca porque Stiles precisava de Danny. Ele jamais entenderia desse assunto. Quando já apagavam a luz da sala, Scott segurou em seu ombro e falou:
- O Danny é legal, sabe, por te ajudar com essa coisa gay. – Stiles sorriu, concordando – E assim, ele é melhor que eu nisso. Eu só queria que você não esquecesse que seu namorado é como eu, um lobisomem. E que se você tiver qualquer dúvida sobre isso, eu to aqui.
- Eu sei. – Stiles abraçou o amigo e soltou rapidamente – Vamos, não quero te abraçar dentro de um sexy shop. Com certeza isso não pega bem.
E antes de saírem, Stiles ainda insistiu em comprar camisinhas que brilham no escuro, para brincar de sabre de luz. Ainda riram das cuecas com orelhas de elefante, com outras estampas constrangedoras e uma delas que ainda tinha um bigode.
No fim das contas, compraram o básico para Stiles: o vibrador de silicone, gel lubrificante e sabão higienizador, além de uma ducha íntima, que deixou Stiles desconfiado mas que Danny garantiu ser essencial.
Kenzie embrulhou tudo discretamente e passou o cartão de débito do filho do xerife, tranquilizando-o que o nome da loja não apareceria nas faturas. Danny deixou os dois rapazes na casa de Stiles e disse que ligaria mais tarde para maiores instruções e foi embora.
Já estava quase anoitecendo e Scott se despediu de Stiles, pois sabia que era sempre aquela hora que Derek chegava.
Mas Stiles não estava com pressa de ver o namorado. Não naquele momento em que tudo o que ele queria era praticar. Treinar. Ser o melhor e estar pronto para Derek, quando este o quisesse pra valer.
