Blind Date
Bella não tirava o olho do convite todo chamativo. Aquela noite sem sentido, em que seria azarada por um homem que já conhecia e com quem nem tinha certeza se queria estar, era tudo culpa de B.J. Como se a mulher já não a tivesse torturado o suficiente na faculdade, continuava perseguindo-a como se o objetivo de sua vida fosse atormentar Bella.
Resmungando, enfiou, sem ânimo, uma saia e um top vermelho. Com alguma sorte, ele iria se esforçar bastante no papel de paquerador de mesa de bar.
Com isso em mente, passou um batom provocante e uma maquiagem um pouco mais carregada do que o normal.
Ao chegar no hotel, sentiu-se um pouco incomodada. Quem era ela, afinal? Uma profissional, usada por um homem meio bobo para que ele bancasse o Don Juan em sua farsa?
Bella nunca havia feito o estilo passivo. Ergueu o queixo. Edward podia acabar descobrindo que não bastava ler um capítulo de livro para se dar bem com uma garota.
Entrou no ambiente pouco iluminado do bistrô e olhou ao redor. O lugar estava bem cheio. Quase todas as mesas estavam ocupadas e no bar havia alguns bancos livres. Bella preferiu o bar. O garçom a viu e sorriu.
— Já vou atendê-la.
— Obrigada. — Ela devolveu o sorriso.
Não conseguia decidir o que beber. Quando o garçom voltou, ainda não havia escolhido.
— Será que tomo um vinho branco?
O garçom balançou a cabeça e se inclinou para mais perto dela.
— Não para uma dama de vermelho.
Caramba, ele a estava paquerando. O plano já estava funcionando. Modéstia à parte... Bella piscou para ele.
— O que você sugere?
Ele apoiou os cotovelos na bancada do bar, um centímetro mais próximo do que o necessário e a estudou.
— Estou pensando em algo exótico, mas ao mesmo tempo refrescante. Talvez algo picante, com um toque de sal. E para sua sorte sou o melhor especialista em Margarita deste lado da Cidade do México.
Ela deu uma risadinha sensual. Ele era fofo. Parecia ser alguns anos mais jovem que ela, mas certamente tinha atitude e não perdia tempo em flertar com a única mulher sozinha por perto.
— Uma Margarita parece uma ótima idéia. Obrigada.
A preparação do drinque era uma verdadeira performance circense, com garrafas girando e malabarismos. Bella estava adorando o show. O drinque era realmente perfeito.
— Qual o seu nome? — ele perguntou, enquanto limpava a bancada com um pano.
— Bella. E o seu?
— Les. Não me lembro de ter visto você antes por aqui.
— Não costumo vir aqui. — Tinha namorado um engenheiro e uma vez estiveram no lugar depois de uma peça de teatro. Mas já fazia mais de um ano. Na verdade, desde que havia terminado com o lindo, mas insosso, Mike, havia uns seis meses, Bella já não saía muito à noite.
— O que te traz aqui, hoje? Está esperando alguém? — Ele não escondia o olhar e o jeito safado.
— Está, sim — respondeu uma voz grossa e meio irritada por detrás de Bella.
Ela se virou e viu Edward com uma cara de homem traído.
— E quem é essa pessoa? — Ela perguntou. De acordo com o capítulo um, eles tinham que fingir que não se conheciam.
— Eu.
— Você conhece esse cara? — perguntou o novo amigo, Les, pronto para colocar Edward em seu devido lugar.
No entanto, ela precisava do rapaz para o casamento de B.J. e sabia que a última coisa que queria era ver aquele rosto machucado ou ele impossibilitado de acompanhá-la à cerimônia.
— Sim — ela respondeu. — A gente se conhece. Edward olhou para os dois bancos ao lado de Bella, mas estavam ocupados.
— Será que a gente podia ir para uma mesa?
— Claro. — a moça apanhou o drinque, mas Les a segurou pela mão.
— Deixa que eu levo seu drinque, Bella. — Ela quase riu do jeito íntimo com que ele falou o nome dela. Bem feito para Edward. Dois a zero para ela. O garçom, então, olhou para Edward.
— O que vai querer?
— Um chope.
— Já levo na mesa.
Sentaram na primeira mesa vazia que encontraram. Apesar de haver garçons nas mesas, Les, que ficava no bar, fez questão de levar pessoalmente as bebidas. Deixou o drinque de Bella em frente a ela e o chope do lado de Edward. Depois, colocou uma tigela com amendoins no centro.
— Prontinho, Bella — disse ele, lançando um olhar provocante.
— Obrigada, Les — agradeceu, adorando o capítulo um, mais do que esperava.
— Obrigado, Les — respondeu Edward sem entusiasmo.
— Sem problema, companheiro.
Edward fez um brinde com o copo e depois deu um gole longo. Bella apanhou seu drinque e deu um pequeno gole pelo canudinho.
— Espero não ter atrapalhado nada — comentou Edward, assim que pôs o copo de volta à mesa.
— Como? Ah, o garçom. De maneira alguma. Ele só estava sendo gentil com uma mulher sozinha em um bar.
Ele a encarou, os olhos verdes brilhavam maliciosamente.
— Tenho que pedir desculpas, agora?
— Não. — Bella deu um sorriso maroto. — Acho que já dei meu recado. E agora o que fazemos?
— Não faço a menor idéia — disse ele, apoiando-se nos braços da cadeira. — Você me obrigou a fugir do plano original.
Bella concordou com satisfação.
— Acho ótimo. É mais divertido assim, mais espontâneo.
Edward se inclinou sem tirar os olhos dela.
— Então, posso ser espontâneo o bastante para dizer que você está tão deliciosa que eu dispensaria o jantar e a sobremesa? — Ele a tocou apenas com o dedo indicador no braço de Bella e foi subindo até o ombro.
Ela estremeceu, com aquele toque frio devido à tulipa de chope gelado.
— Isso está no capítulo um? — Ele voltou a mão para a mesa, causando um certo desapontamento em Bella.
— Está.
— O que mais está no capítulo um?
Ele vestia uma camisa pólo escura. A manga era curta e dava para ver os músculos do braço mexendo sempre que gesticulava. Um trio de piano, baixo e bateria tocava suavemente ao fundo.
Aproximou-se ainda mais e parecia devorá-la com os olhos.
— A gente vai falar só de você a noite toda — disse ele.
Oh, oh, o jeito como ele falou aquelas palavras a fez se sentir como se estivesse sendo acariciada. Ajeitou-se na cadeira e não fugiu do olhar penetrante de Edward. Ele tinha os lábios bem gostosos, pensou. Firmes e canudos.
— A gente fala de mim. Tudo bem. E depois?
— Depois, a gente vai para casa.
Claro. Só podia ser. Se o beijo só acontecia no capítulo quatro, que diabos iriam fazer pelas próximas três semanas? Pelo ritmo do livro, os pobres coitados iam chegar no sexo na terceira idade.
— Então — continuou ele meio zombeteiro. — Me fala de você.
— Sou do signo de capricórnio — Bella respondeu fingindo entusiasmo. — Gosto de pessoas atenciosas e detesto caras que fumam.
— Vamos lá, me dá uma força.
— Desculpa, não pude evitar. Tudo bem, me pergunta algo específico.
— O que você mais gosta na sua profissão?
— Manter a poesia viva. — Ela mesma se surpreendeu com a resposta. Mas a maior surpresa foi ver que ele se lembrava da profissão dela, pois havia comentado uma única vez, por acaso, em uma das conversas rápidas, durante a troca de correspondências. Que estranho confessar sua maior paixão para um estranho. No entanto, ele a olhava como se estivesse extremamente interessado e ela continuou.
— As crianças, hoje em dia, têm pouco contato com a poesia. Não há nada mais gratificante do que ver um aluno se envolvendo com o poema e aprendendo a gostar de um determinado autor ou obra. Alguns começam gaguejando e, de repente, pegam o ritmo, deixam a beleza da língua contagiá-los. São momentos raros, mas insubstituíveis. Agora, nenhum aluno meu sai do curso sem ter uma noção de Shakespeare, Wordsworth... — Ela deu um sorriso matreiro. — Mesmo Whitman. Agora estamos estudando John Donne.
— "Um homem não é uma ilha", ótima escolha para adolescentes — Edward comentou.
— Esse é, exatamente, o poema que estudamos hoje, em sala de aula. — Ela deu uma risada divertida e contou a Edward que, quando o sinal do fim da aula tocou naquela tarde, Terry, um aluno muito inteligente, mas um pouco preguiçoso, recitou em voz alta:
— Não é preciso perguntar por quem os sinos tocam. Eles tocam por você, minha senhora.
Histórias de sala de aula eram inofensivas e davam a impressão de que ela estava mesmo falando de si, quando, na verdade, estava apenas revelando amenidades. Bella não podia se arriscar e se abrir para um estranho.
Já estavam no segundo drinque, quando ele perguntou:
— Você é solteira? — Não foi bem uma pergunta, pareceu mais uma constatação, porém no momento em que falou sentiu como se fosse algo que ele precisasse saber.
— Sou, sim.
Edward alcançou a mão esquerda de Bella e brincou delicadamente com seus dedos.
— Ainda está derramando lágrimas pelo Jacob? Ela ficou impressionada por ele se lembrar do nome de seu ex.
— Claro que não. Estou apenas na época da entressafra, só isso.
— Há quanto tempo?
— Seis meses. — Não sabia porque se sentia na defensiva. Não havia encontrado ninguém de quem gostasse o suficiente para namorar. Qual era o problema?
— E você?
Ele balançou a cabeça.
— Hoje, nós só falaremos de você.
— Estive com um cara por um ano, mais ou menos, mas não estava dando certo. Cheguei a uma fase da vida em que prefiro ficar que com alguém que me entedie.
— Vou fazer de tudo para não entediar você nas próximas três semanas — garantiu Edward.
— Agradeço muito. — Como certeza não havia nada de entediante na forma como ele acariciava seus dedos, naquele momento. O homem devia ter memorizado um diagrama do capítulo um.
E a expressão sedutora naqueles olhos estava avançada demais, tinha passado do capítulo quatro havia muito tempo. O olhar comunicava que ele a queria, prometia toques íntimos. Todos os átomos femininos no corpo de Bella respondiam silenciosamente ao apelo mudo de Edward. Sim, sim, sim! Engoliu com dificuldade. Controle-se, mulher.
Voltou a olhar para os lábios dele, molhou os seus com a língua e, em seguida, disse algo realmente idiota, de que se arrependeu depois:
— E quando a gente beija?
Ele deu um sorriso travesso. Os dentes brancos brilhavam na penumbra do lugar.
— Vamos ter que esperar o fator surpresa.
Seu beijo, naquele momento certamente teria gosto cerveja e tentação. Será que ele sabia usar aqueles lábios de perdição? Tomara que ele pelo menos saiba beijar.
— Sabe — começou Bella, em um tom professora! que ela desejou que fosse convincente. — Acho que a parte do beijo devia entrar no exercício logo, só para garantir.
— Garantir o quê? Ela deu de ombros.
— Talvez a gente tenha que perder algum tempo praticando. Não se esqueça de que só temos um mês. Estou achando melhor fazer uma cópia desse livro.
Ele se afastou.
— Não, não faça isso.
— Por que não?
— Porque se não você vai saber... Bella achou engraçada a observação.
— Vou descobrir seus segredos?
— É. Vai saber de todos os meus movimentos antes hora. Não é justo.
— Achei que tinha dito que o livro é para casais. Não tem uma sessão para mulheres?
Ele mordeu o lábio inferior como uma criança em apuros. Passou as mãos pelo cabelo, sem jeito.
— Tem uma parte para mulheres. Mas, por enquanto; será que dava para a gente fazer do meu jeito?
Mexeu-se na cadeira, um pouco inconformada. Desejava que não estivesse tão fortemente atraída por aquele cara sentado ao lado. Porque, afinal de contas, se o estava ensinando a seduzir uma mulher, o lógico seria que fosse do jeito dela e não baseado em um livro de um suposto especialista em sexo.
— Esse tal de Lance é mesmo um convencido.
— Por que diz isso?
— Imagina um cara que escreve um livro para casais. Como pode saber o que as mulheres pensam? O que querem? O que...
— As excita? — A voz de Edward aguçou os sentidos de Bella.
— Isso!
Edward deu de ombros.
— Ele deve ter perguntado para elas. Lembrando-se da conversa que teve com Ângela, ela deu uma risada debochada.
— Não se for um homem de carne e osso. — Olhou ao redor e avistou um casal dançando música lenta na pista.
— Esse lugar está ficando cheio demais.
— O que você quis dizer? Ela o olhou confusa.
— Quero dizer que está chegando mais gente do que saindo. Nada incomum para uma sexta-feira à noite.
— Não, me refiro ao que disse antes. Sobre homens não perguntarem às mulheres do que elas gostam.
— Estou dizendo que homens fazem suposições. Um cara que se autodenomina Lance Flagstaff é um ótimo exemplo.
— Um homem não escolhe o próprio nome. — Ele estava ficando vermelho, ela pôde ver, apesar da escuridão do lugar.
— Lance Flagstaff com certeza é um pseudônimo, Qualquer autor que tenha criado um nome como esse deve estar apaixonado pelo próprio "lance".
— E se for uma mulher?
— Como? — perguntou incrédula.
— Se o nome é fictício, pode ter sido muito bem inventado por uma mulher ou por um casal.
Ela fez uma pausa para pensar.
— Como uma espécie de brincadeira, você quer dizei-?
— Por que não?
Ela se lembrava de ter visto a coluna de um tal de Flagstaff, em uma revista que comprava, de vez em quando. Os artigos sempre davam o ponto de vista masculino sobre namoro e sexo. Ele também respondia perguntas dos leitores.
— Tenho quase certeza de que é um homem. Não é um nome que um casal ou uma mulher escolheria.
— Quer outro drinque? — perguntou Edward ao ver que o copo dela estava quase vazio.
Será? Não tinha certeza. A verdade era que não sabia como se sentia a respeito daquela história toda. Sabia que ele estava seguindo um livro, de cujo conteúdo ela não sabia nada, fazia-a se sentir incomodada.
— O que mais tem para hoje?
— Como assim? — Ele estava com os olhos focados no lábio inferior dela.
— Vamos ficar aqui? Vamos para outro lugar? Vamos para casa? O que diz no capítulo um?
O olhar mantinha-se no lábio de Bella.
— Beijar é opcional.
— Perdão?
— É o que diz no capítulo um. O beijo é opcional.
— Ah. — Não sabia o que pensar das opções e daquela situação tão bizarra.
Mas não podia esquecer do verdadeiro motivo por que estava ali: garantir sua companhia para o casamento de B.J.
— Quer outro? — Ela perguntou, tentando ganhar tempo, tentando decidir o que realmente queria.
— Outro o quê?
Nunca havia visto um cara tão compenetrado em admirá-la, apesar do barulho e da multidão do local. E das mulheres que iam e vinham a todo o tempo. Ele quase não olhava ao redor para ver se tinha algum conhecido ou alguém que gostaria de conhecer. Isso a fazia se sentir a mulher mais interessante do mundo. E mesmo que tivesse aprendido aquela tática em um livro ridículo, ainda assim ela achava aquilo lisonjeiro. E incomum.
— Drinque?
— Não. Vamos embora.
Ela concordou com a cabeça.
— Acho que exagerei nos exercícios, hoje. Preciso ir para cama mais cedo, descansar. Estou exausta.
Ao chegarem no estacionamento, o silêncio a assustou. Os ouvidos ainda pulsavam devido ao barulho do interior do bar.
— Cuidado para não se machucar com essa obsessão de pegar pesado na ginástica.
— Não estou fora de forma. Estou só caprichando em alguns exercícios para o casamento. — De repente, Bella se sentiu encabulada ao fitá-lo. Estavam a sós ali no meio do estacionamento. Poderia haver algo mais romântico?
Uma brisa passou pelos cabelos de Bella, cobrindo-lhe o rosto. Ele retirou os fios e os ajeitou atrás da orelha, num gesto delicado e sedutor.
— Gostaria de ver você outra vez. — Edward se aproximou.
— Gostaria? — Ela perdeu o fôlego. Já estava prevendo o que estava por vir. E o pior é que esperava com ansiedade.
— Você quer? — Talvez ele precisasse de um livro para os passos mais ousados e laboriosos, mas para um flerte comum e conversar, Edward era incrível. Ela queria, sim, passar mais tempo com ele. Desejava descobrir como eram os beijos dele. Estava até disposta a ser generosa ao dar uma nota.
— Quero — respondeu Bella, entreabrindo os lábios e semifechando os olhos.
— Que bom! — exclamou ele. — Eu te ligo.
— ...Me liga— Ela escutou a si mesma com uma voz melosa e débil, como se viesse de longe. E o beijo? Edward devia estar fazendo exatamente o que mandava o livro, palavra por palavra. Afinal, já tinham combinado que os encontros seriam todas as sextas-feiras. Droga, e agora ela ia ficar na vontade. O livro devia ser bom mesmo.
— Onde está seu carro?
Recusando-se a atuar como uma boba que foi pega de surpresa, Bella se recompôs.
— Está ali.
Ele esperou que ela destrancasse o carro e a surpreendeu abrindo a porta.
— Eu te ligo — repetiu, dando um beijo de leve na face de Bella.
O gesto não combinava com ele, não sabia bem por quê e parecia meio forçado.
— Isso estava no livro? — perguntou curiosa.
— Estava. — Ele, então, se despediu com um movimento de cabeça.
É, pelo visto, a aguardavam três longas e entediantes semanas. Estava entrando no carro, pensando em passar na locadora, pegar um filme, quando ele a pegou pela cintura, girando-a e a apertando contra ele, de um jeito decidido e dominador. O coração de Bella disparou. A boca era suave e exigente, indo com voracidade em busca dos lábios dela. Ela estava tonta, as emoções eram bastante conflitantes. Como havia suspeitado, o gosto dele era de cerveja, mas com um tempero picante e viril. Ela retribuiu instintivamente. De repente, ele se afastou, deixando-a excitada e frustrada.
— Nossa, o que foi isso? — ela perguntou atônita e sem ar.
Essa foi minha interpretação pessoal. Ela sorriu. O rapaz aprendia rápido, pensou. Melhor que a encomenda.
NA: Era para ser um outro capítulo, mas como eu atrasei, resolvi juntá-los. Enjoy!
— Você é igual ao seu pai.
A mistura de emoções já conhecidas bateu na boca do estômago de Edward, ao ouvir aquelas palavras. Primeiro, orgulho, depois culpa. Porque quando a mãe repetia aquele discurso, que ela jogava na cara de Edward desde que ele era pequeno, ela não o estava elogiando.
E todas as vezes em que ela o comparava com o pai, Edward nunca havia conseguido usar um argumento que a satisfizesse para que deixasse de repetir aquela frase.
— Me passa a geléia? — Foi tudo o que conseguiu dizer naquela manhã de sábado, durante um brunch na casa da mãe. A família tentava se reunir todo fim de semana ou de quinze em quinze dias. Desde que Alice, a segunda mais nova, tinha começado a trabalhar nos domingos à noite, haviam mudado o habitual jantar aos domingos para um café-da-manhã em algum outro dia da semana. Geralmente, era aos sábados.
Esme Cullen ainda era uma mulher muito bonita, apesar de não se importar mais com sua aparência.
— Para quê? — perguntava ela, quando algum dos filhos a presenteava um estojo de maquiagem no Natal ou uma filha sugeria que passassem um dia no shopping, tomando um banho de loja. — Ninguém mais se interessa por mim. E se for esperta, também não vai querer ninguém te olhando. Homem só traz problema.
Elizabeth, a mais velha das três irmãs, era a mais próxima a Edward e também a que o defendia quando a mãe resolvia descontar toda a raiva do sexo masculino, ou melhor, do pai em cima do único filho homem.
— Ai, mãe, deixa de ser amarga.
Todas as irmãs eram muito bonitas, porém Elizabeth era a mais bela de todas. Os cabelos bem pretos e ondulados contrastavam com a pele alva como leite. Os olhos eram duas esmeraldas redondas e a boca vermelha como cereja. Além disso, era uma cientista brilhante. Edward morria de ciúme da mana preferida e morria de raiva quando via um marmanjo salivando ao vê-la passar.
— Amarga? Quantas mulheres têm um ex-marido que vai se casar pela quinta vez?
Edward olhou para Elizabeth e ela deu uma risada marota. Todos tentavam esconder da mãe os seguidos casamentos do pai.
— Como descobriu? — perguntou Edward, surpreso.
— Por vocês é que não foi. — A mãe fitou a todos com um olhar de repreensão.
— Mãe, não queríamos que você ficasse chateada — murmurou Alice, uma versão mais jovem e menos fascinante de Elizabeth. Alice era a única dos filhos que ainda morava com a mãe e era a mais apegada a Esme.
— Já não me chateio. Eu sinto é pena dele. De verdade. Aposto que a próxima vítima é mais nova que você, Elizabeth. Vai querer filhos. Escrevam o que estou dizendo. E um homem de cinqüenta anos vai querer bebês, a essa altura do campeonato? Ele devia era aproveitar o tempo para passar com os filhos que já arrumou.
Três das ex-esposas de Carlisle Masen tinham tido filhos com ele. Por isso, havia meio-irmãos espalhados por toda a parte. Eles se reuniam uma vez por ano, durante o verão na chácara do pai. Por mais que tentasse, Edward não conseguia entender como um homem bom e centrado como o pai continuava cometendo uma sandice atrás da outra, gerando e deixando crianças confusas e carentes.
A mãe balançou a cabeça com pesar.
— Esperem até vocês casarem. — Até agora, nenhum deles estava cogitando a hipótese. Edward tinha a sensação que nenhum dos quatro filhos de Carlisle queria repetir a mesma história que eles haviam vivenciado na infância. Não que só guardassem más lembranças — a mãe fez de tudo para que não ficassem traumatizados —, mas tampouco tinham a imagem cor-de-rosa da família feliz.
Elizabeth se levantou e começou a limpar a mesa. Edward não via a hora de ir embora. Quanto mais rápido arrumassem tudo, mais rápido poderia se despedir. Amava a mãe e já havia consertado a tubulação da pia e trocado o óleo do carro para ela, antes de se sentar para o café. Mas ficar ouvindo-a resmungar sobre o mesmo assunto lhe fazia mal. Não havia nada que ele pudesse fazer para ajudá-la e quando ela o comparava com o pai, Edward ficava indefeso, pois a verdade é que sabia que ela estava certa.
Ele era igual ao velho pai. Amava as mulheres. E quando se cansava da parceira com quem estava, sabia que haveria outra logo ali na esquina.
Edward e Elizabeth conseguiram escapar juntos, alguns minutos depois. Antes que cada um entrasse em seu carro, ela olhou bem para o irmão.
— Mamãe não acha realmente isso, você sabe, não é? — disse ela, tocando o irmão no ombro.
— Claro que acha. — Ele pegou na mão da irmã. — E ela está certa. Mas não há nada que eu possa fazer para mudar o que o papai fez para ela — para todos nós — do mesmo jeito que não posso mudar meus genes.
— E você vai ao quinto casamento dele?
— Ainda não perdi nenhum. Ele me convidou para ser o padrinho.
Ela sorriu, divertindo-se com a notícia.
— Vocês homens são muito caras-de-pau.
— E você, vai?
— Sempre me prometo que não vou ao próximo, mas acabo indo. Sei que ele não toma jeito e que magoou a mamãe, mas... — Elizabeth deu um suspiro e se virou para entrar no carro. — Ele é o nosso pai e não acho que queira magoar ninguém. É como se fosse algo mais forte que ele.
Edward concordou.
— Vai com alguém?
— Acho que vou levar o Sid. — Sid era um cientista que trabalhava com ela. Um cara brilhante, mas nada festeiro.
Edward deu de ombros.
— Sempre que vejo o Sid, fico com a impressão que ele está planejando me clonar ou algo do gênero.
Elizabeth riu.
— Para variar, está falando como um genuíno narcisista. E você? Vai levar a sua "atual-temporária"?
— Como sabe que tenho uma "atual-temporária"?
— Sempre tem uma de reserva.
— Estou meio que saindo com alguém. Vou ver se ela quer ir. — A verdade é que nem tinha pensado nisso até então. Mas gostou da idéia de convidar Bella. Ela era divertida e simpática e, além disso, seria ótimo chegar com uma mulher bonita do lado. Andava pensando nela mais do que gostaria desde que tinham se despedido no estacionamento, na noite anterior.
Aquele beijo havia sido tão espontâneo quanto breve. Ele tinha sido fiel ao capítulo um, com muito sacrifício. Se tivesse prolongado um pouco mais o beijo, dado a Bella uma prova do que ele gostaria de fazer com ela... bem, aí teria trapaceado. Por isso, o contato com os lábios dela foi o mais breve possível. Mas, como teria gostado de explorar, provocar, excitá-la mais!
Já em casa, teve uma decepção ao ler o segundo capítulo. Se seguisse o livro passo a passo, acabaria louco. Sabia de uma coisa: não agüentaria esperar um mês até fazer amor com Bella.
— Oi? — A irmã o chamava para a realidade. — Onde você estava com a cabeça?
Ele chegou a piscar algumas vezes.
— Acho que fiz algo muito idiota.
— Desembucha.
Foi o que Edward fez. Elizabeth não era apenas irmã, mas uma de suas melhores amigas. E apesar de ter fobia a relacionamentos sérios como o resto dos irmãos, era muito sensível e afetuosa. Entendia o ser humano. Edward tinha a impressão de que mesmo a irmã sendo muito inteligente, teria que gastar todos os neurônios para que conseguisse ajudá-lo a sair daquela enrascada.
Ela caiu na gargalhada ao ouvir a parte em que o livro caiu no chão, na frente de Bella. No entanto, ao narrar a parte do beijo, no estacionamento, em que disse que ligaria para Bella, Elizabeth parecia ter pego uma gripe repentina, fungando e fazendo sons com a garganta.
— E, então, o que acha? — quis saber ele.
— Acho que você é um bobo. É isso o que acho.
— Você é cientista, devia entender a minha necessidade de verificar minha hipótese.
Elizabeth deu um tapinha no rosto do irmão. • — É mesmo muito científico você querer fazer amor com o seu objeto de estudo. Ele resmungou.
— E não quero ter que esperar quatro semanas para fazer isso.
— Liga para ela.
— Hein?
— Não disse que ia ligar para ela, ontem, depois do beijo? Então, liga. Faz dois capítulos por semana já que está tão ansioso para ficar debaixo dos lençóis com a garota.
— Elizabeth, alguém já te disse que você é maravilhosa?
Os olhos verdes dela brilharam como os de um gato, quando ela sorriu.
— Algumas pessoas...
Edward assobiava enquanto folheava seu manual. Estava no início do capítulo dois. O início falava da importância das flores no ato de conquistar uma mulher. Ele havia sido bem perspicaz ao incluir uma lista mostrando a mensagem implícita em cada flor. Deu uma olhada na lista e viu que, às vezes, o óbvio era a melhor estratégia. Rosas vermelhas era o que compraria para Bella. Vermelho para paixão.
Era isso mesmo.
Ligou para a floricultura preferida e tentou calcular o número mais apropriado de botões. Era sempre uma decisão difícil. Uma dúzia seria um exagero para a ocasião. Uma apenas parecia mesquinharia. Acabou optando por meia dúzia.
A mensagem no cartão foi fácil de criar: "Só penso em você." E o pior era que ele falava a verdade.
Ligou a cafeteira e foi se sentar ao computador para escrever o artigo mensal da revista feminina Hey, Girl. Lá, ele dava uma perspectiva masculina sobre namoro e sexo. Andava com dificuldades para encontrar um tema e, de repente, ele apareceu: O que um homem está tentando dizer quando manda flores?
Estava quase terminando o texto, quando o telefone tocou. Viu o identificador de chamadas e sorriu. Era Bella.
— Obrigada pelas rosas. São lindas. Não precisava. — Soava meio frustrada. Constrangida, até.
— Queria agradecer pela ajuda. — E quem sabe, assim, acelerar para o capítulo cinco. Mas ela não precisava saber desse detalhe.
— Não há de quê — respondeu ela, educadamente.
— Como está indo a maratona de exercícios? Ela resmungou.
— Estou um caco. Os pesos, a esteira estão me matando. Sem falar nos abdominais.
Edward riu.
— Ficar enfurnada em uma academia é pouco estimulante. Por que não vai andar de bicicleta ou dar uma corrida?
— Talvez tenha razão. Mas tem uma academia dentro da escola. E outra no nosso prédio. É bem conveniente.
Por impulso, ele conferiu a previsão do tempo na internet, para o dia seguinte. A previsão era de sol.
— Que tal se te levasse para minha caminhada preferida, amanhã? Parece que vai fazer tempo bom.
— Ah, não sei... é que... achei que a gente só fosse se encontrar na sexta.
Ele revirou os olhos. Bella bem que poderia cooperar.
— Não estou te convidando como aluno do manual do sexo, mas como personal trainer.
Ela riu.
— Desde quando você é personal trainer?
Desde agora.
— Você devia me dar um crédito. Um teste, sem compromisso. Não vou cobrar nada. Se quiser, você leva algo para comer e eu para beber.
Houve uma pausa. Ele podia imaginá-la pesando os prós e os contras.
— Está bem, mas é bom que na volta desse passeio eu tenha perdido pelo menos um quilo.
Menos um quilo daquele corpo de sereia era um crime na opinião de Edward. Mas havia sido criado só com irmãs e sabia quando manter a boca calada.
— Vou estar na sua porta, amanhã, às oito da manhã.
— Tudo bem.
— E, Bella, faça muitos sanduíches. Tenho bastante apetite.
Mal desligaram o telefone, Edward foi verificar novamente as coordenadas do capítulo dois. Pensou em como havia sido burro ao propor um mês para os quatro capítulos. Mas, também, não tinha como prever que a desejaria tanto. Sentia como se tivesse descoberto o fruto proibido.
Se não conseguisse acelerar o processo, acabaria jogando o livro pela janela e desistindo da experiência científica. Ao mesmo tempo, um dos principais motivos por que a queria com tanta intensidade era por saber que não podia tê-la. Talvez a força de vontade e disciplina acabassem e ele se rendesse rendendo-se ao desejo, seduzindo Bella do seu jeito e no seu ritmo. Mas não agora, pensou, mais instigante daquela aventura era o fato de que não era Edward Cullen quem iria conquistá-la, mas sim Lance Flagstaff.
E, pelo menos, até ali, não estava fazendo um mau trabalho. No dia seguinte, depois que tivessem terminado o capítulo dois sem ela perceber, seria uma jogada de mestre.
E devia isso à irmã. Na verdade, estava tão grato a Elizabeth que ligou para a mesma floricultura que havia entregue as flores de Bella e encomendou para ela também meia dúzia de rosas.
A satisfação lhe abriu o apetite. Fez um enorme sanduíche e o devorou em poucos minutos. Comeu uma maçã e decidiu sair para pegar um ar fresco e ir ao mercado comprar alguma coisa que faltava em casa.
Pelo menos, esse apetite ele podia saciar. O outro, mais poderoso, teria que esperar. Restava saber até quando Edward resistiria à tentação de estar tão intimamente próximo de Bella sem poder ao menos tirar uma casquinha do banquete.
