ATO II – Uma Valsa
Didn't you read the tale
Where happily ever after was to kiss a frog?
Don't you know this tale
In which all I ever wanted
I'll never have
For who could ever learn to love a beast?
Seu coração lhe murmurou tudo que ele já fez com ela.
Todos os xingamentos.
Todas as injustiças.
Todo o preconceito.
Ele já fizera muita coisa a ela. Ele já lhe dera inúmeros motivos para toda a grosseria perante eles.
Era racional que ele não estava ali para se desculpar ou dizer que estava errado; havia liberadamente apenas pedido uma valsa; e embora não se colocasse como o principal sujeito naquilo, ela, talvez, acreditasse que a sua própria hesitação para aquilo era uma causa onde sua mente e alma estavam materialmente preocupadas. Era odioso, dolorido e amargo saber que não poderiam ter uma dança por serem completamente odiáveis.
Como uma pequena felicidade permanente poderia pertencer a um casal que o ódio e o desprezo eram mais fortes que virtudes e os próprios sentimentos?
Mas uma breve esperança, checada com outras considerações, a fez perceber que tudo ali estava sob sua própria vaidade.
Ele era orgulhoso.
Ela era vaidosa.
Orgulho e Vaidade são diferentes, embora os dois sejam usados como sinônimos.
Orgulho se diz respeito a nós. Nossas ações, nossos pensamentos e nosso ser.
Vaidade se diz respeito ao que queremos que os outros pensem de nós e de nossas ações.
Por quanto o seu orgulho estava submerso na sua vaidade? Por que ela havia transformado seu orgulho em vaidade?
Por causa de honra, prudência, conveniência, ingenuidade e proibição. Prudência para que não fosse descoberta por seus amigos ou família; para que não fosse censurada, desprezada nem cortada por ninguém conectado a ela. A aliança com aquele sonserino era uma desgraça e o nome dela seria mencionado para sempre por eles como uma traidora.
'Assim como você não pode negar o fato de que não dançar comigo é uma censura sua por capricho e instabilidade e que mais tarde isso se tornará a sua maior miséria.'
Três minutos.
180 segundos.
O que se pode acontecer em 180 segundos? O que exatamente 180 segundos faria com 36.792.000 minutos de ódio?
Hermione, sentindo mais do que uma comum estranha ansiedade; e imediatamente, embora não tão transparente, teve o entendimento que seus sentimentos não se transformariam em algo nada além do ódio; encontrou as costas de Draco Malfoy. Ela escutou as batidas agitadas do próprio coração e, considerando o que ele havia dito, sentiu certa afeição naquele momento e que poderia fazer aquilo sem ser martirizar pelo próprio orgulho e transformá-lo em vaidade.
Causou-lhe a resposta mental de um sim e algo quente e latente percorreu a região do estômago. Como se grilhões tivessem sido libertados, como se algemas tivessem sido quebradas, ela se sentiu... livre.
Livre de seu orgulho.
Livre de sua vaidade.
'Você quer dançar comigo… Sem uma música?'
Ele franziu as sobrancelhas e virou o rosto em perfil para olhá-la. Encontrou os olhos castanhos com um peculiar brilho de mel. Seu estômago se revirou minimamente.
'Somos os últimos formandos do Baile. E pela nossa breve discussão não vimos que a banda já se foi.'
'Melhor. Assim não sucumbimos á melodia da música.'
'Estou de certa forma alarmada. Esperava que encontrasse em Malfoy um homem racional e de total controle das suas ações.'
'Eu não estou intimidado em fazer algo irracional que ganhará arrependimento, Granger.'
'Então porque diz que podemos sucumbir á melodia de uma música?' Ela perguntou levantando uma das sobrancelhas. 'O que exatamente o sucumbir você se refere? Por sentir minha falta, fará algo movido pelos seus sentimentos?'
'Eu não disse isso. Estou apenas resolvido a agir cauteloso e dessa maneira constituir minha felicidade, sem se referir exatamente a você, ou a qualquer pessoa que seja completamente desconectada de mim.'
'Contraditório. Você recusa seus deveres, sua honra, sua conveniência e determina que eu mude minha opinião sobre você para contentá-lo em uma valsa, pois sentirá minha falta e ainda diz que sua felicidade não depende de alguém desconectado de você?'
'Não recusei meus deveres, muito menos a honra, apenas a conveniência no presente momento. Em princípio, jamais seria violentado pelas minhas próprias leis, Granger, e jamais pedi para que mudasse sua opinião sobre mim. Minha felicidade se refere apenas em acabar com o sufocante sentimento de nostalgia que estou sentindo.' Ele disse sentindo um gosto amargo na garganta. Aquele era o gosto da nostalgia? Da saudade?
'Nostalgia?' Ela indagou abrindo um pouco os olhos cor de mel. 'Agora me surpreendeste. Não sabia que Malfoy sentia tais coisas.'
Ele desviou os olhos azuis para o chão. 'Nem eu, Granger... Nem eu...'
'Você é Sangue-Puro.' Ela disse com um tom firme na voz. Ele encontrou novamente os olhos castanhos da garota 'Eu sou uma Trouxa-Pura. Eu sou, por 180 segundos, seu par. Acho que isso nos faz igual.'
Seus amigos, principalmente Ron, seu namorado, iriam cruelmente mortificá-la, mas ela não poderia fazer nada senão aceitar aquela inclinação e de certa forma imaginar uma aproximação, se isso acontecer, dos dois.
O sentimento peculiar de entusiasmo que a sua resposta produziu foi tanta que Malfoy nunca sentira aquilo antes. Ocasionalmente, uma mornidão violenta o envolveu e ele encontrou seus olhos. Ela pareceu ter percebido a suposta expressão de felicidade, em difusão com seu rosto pálido, embora ele não pudesse demonstrar ou dizer providencialmente o quão importante ela era supostamente para ele.
Eles caminharam frente á frente sem saber realmente a direção que estavam indo. Eram apenas três metros. Ou menos. Chegariam frente á frente do outro em provavelmente 12 segundos. Tais 12 segundos nunca foram tão longos. Havia muito para se pensar, dizer, sentir e atentar para qualquer um dos sujeitos.
Hermione respirou fundo e todo o corpo pareceu inundar em um sentimento de intoxicação e ansiedade. Ele girou a mão esquerda, virando-a para cima, e esperou que ela o aceitasse. Ela engoliu em seco e sua mão direita tremeu minimamente.
'Você é canhoto?' Ela perguntou curiosa com as bochechas um pouco rosadas.
'Preconceito?'
Ela riu com um pouco de desdém próprio da característica dele antes de responder. 'Você conhece minha sinceridade o suficiente, Malfoy, para acreditar que eu jamais seria capaz disso. Eu jamais me permitiria ter certa disposição como você. Jamais seria tão absolutamente impertinente a ponto de odiar alguém por sua natureza, crença ou mínimos detalhes.'
'E como pode me detestar?' Ele perguntou levantando uma das sobrancelhas.
'Porque você me detesta.' Ela respondeu imitando o gesto que ele pouco havia feito.
'Então não faremos com que este sentimento desapareça, não é?'
'Nosso comportamento, se estritamente examinado, poderá ser irremediável em certo ponto, mas até agora, nós dois temos, assim vejo, atuado de acordo com nossa civilidade.'
Um leve sorriso se fez no canto dos lábios de Malfoy e ele soube que talvez aquela civilidade entre ele e a garota imunda era um dos responsáveis pela sua nostalgia. Ele pacientemente esperou que a garota aceitasse sua mão esquerda e juntos dançassem aquela valsa sem música.
Hermione sentiu um pouco de demência na própria mão direita. Não conseguia levantá-la. Por quê? O que a fazia não aceitar aquele garoto como seu par? Por que algo na sua cabeça dizia para sair correndo e nunca se deixar aproximar daquele sonserino?
'Não vou lhe morder, Granger...'
Ela fechou os olhos castanhos um e tentou controlar as sensações estranhas que passavam pelo seu corpo. Vamos, era só levantar a mão direita e pousá-la sobre a esquerda dele. O quão difícil era aquilo?
Um pequeno choque térmico ocorreu e ela pôde jurar que uma pequena onda de eletricidade passou pelo seu corpo quando sua mão se entrelaçou com a de Malfoy. Ele engoliu em seco e a segurou um pouco trêmulo com uma leve ardência sobre o corpo.
Ela estava em suas mãos.
Ele estava tocando ela. Estava segurando Granger entre suas mãos.
Dez segundos se passaram, quinze. Ela estava com um pouco de falta de ar, ansiosa, aterrorizada e extasiada pelas sensações que o simples contato que suas mãos fizeram com as dele. Os pêlos da menina se eriçaram e ela sentiu o coração bater desesperadamente dentro do corpo.
Draco respirou fundo e o aroma de baunilha intoxicante envolveu suas narinas, suas mãos, seu corpo, sua alma e suas roupas.
Ele então passou a conduzi-la na pista vazia de dança sem tirar-lhe os olhos dela. Cautelosamente, para que não pisasse em seus pés, ele a conduzia para a direita, esquerda, de forma tão simplória que ela se assustou por ele saber dançar daquela forma.
Sua mãe sempre lhe dissera que todo sangue-puro, fino, educado e refinado deve saber dançar e por isso ela própria dera algumas aulas particulares para o filho. Ele não se queixava. Pouco tempo depois, descobrira que era uma de suas habilidades que lhe deixava conectado com uma garota. Suas habilidades de danças já lhe renderam noites de sexo. A sua primeira inclusive, no Baile de Inverno, no Quarto Ano, com Pansy Parkinson.
Baile de Inverno.
Fora ali, há três anos, que ele a vira descer as escadas com aquele vestido azul, acompanhada por Viktor Krum. Fora a partir dali, que o rosto daquela garota passou a permear seus sonhos sem motivo ou permissão. Fora a partir dali que o sentimento de saudade e nostalgia ia aos poucos sucumbindo ao seu próprio corpo.
Nostalgia... Saudade... Era aquilo que realmente sentia por aquela noite, aquela garota?
Se era saudade, por que ele teria saudades dela? Ele não teria saudades de Potter, Weasel ou Greengrass. Por que sentia por ela?
'Isso é estranho.' Ela disse acompanhando os passos dele.
'Estranho.' Ele concordou levando-a para esquerda.
'Muito estranho.'
'Puta estranho.'
'Estou dançando uma valsa com meu maior inimigo sem uma música.'
'Por que depende tanto de uma música?'
'Liberta os demônios, não concorda?'
'Concordo, mas ao contrário dos outros prefiro deixá-los presos.'
'Por quê?'
'Limites.'
'Mais uma vez. Achei que tivesse controle de suas ações.'
'E tenho.' Ele confirmou segurando-a pela cintura e a erguendo para o alto. Ao recolocá-la no chão, ambas as mãos estavam sobre a cintura da garota.
Ele definitivamente tinha controle de suas ações. Ele tinha controle de seus próprios sentimentos. Á parte daquela coisa turbulenta, maciça e molhada que percorria todo o seu corpo. Seu peito arfava e sentia a própria respiração completamente fora de sincronia.
Hermione fechou os olhos e percebeu que o seu corpo estava tomado por certo tipo de torpor.
O que ele estava fazendo? O que ela estava fazendo? Não era só uma valsa? O que eles estavam fazendo parados apenas com as mãos sobre as cinturas de cada um?
Tudo que havia acontecido entre eles – tudo que não havia acontecido entre eles – tudo que eles sentiam pelo outro- tudo que eles não sentiam pelo outro- estavam crescendo de forma grotesca, sem direção e sem limites e então repentinamente estavam se juntando e se quebrando em cima deles. Ela estava ali. Ele estava a segurando pela cintura. Ele fechou a mão direita com força, sentindo as unhas sobre a própria pele, e a estendeu, segurando o rosto da garota sobre o queixo.
Ela pode sentir a insistência dos dedos longos e finos do sonserino sobre sua face. Estava ciente dos dedos dele perto de sua orelha esquerda, passando as vezes pela bochecha e o polegar sobre a linha do queixo.
Hermione pode sentir o ritmo acelerado de seu próprio peito sobre o dele, indo e vindo, não inteiramente numa sincronia perfeita. Algo pareceu explodir dentro de Hermione. Sentia que não só o rosto, mas todo o corpo ardia. Algo turbulento e maciço rodeava todos os seus músculos. Ela engoliu duro, sentindo uma gota de suor escorrer pelo colo.
Ela, naquele momento, apenas por aquele momento, era dele. A rosto dela era dele. Aquele rosto que nunca abandonara seus sonhos era dele. A boca dela era dele.
'Acho que vou beijar você, Granger.' Ele disse numa voz rouca, tosca. Hermione sentiu a respiração prender-se e seus olhos se abriram mais do que o normal pela surpresa.
O quê? O que ele ia fazer? Não era só uma dança?
Ela percebeu o rosto dele aproximar-se assustadoramente de dela enquanto os olhos azuis dele se fechavam vagarosamente. Ela engoliu em seco e quando seu rosto sentiu a própria respiração do garoto, ela fechou os olhos.
E então a boca dele se fechou por cima da sua. Ela sentiu algo turbulento e molhado viajar internamente em seu corpo, descendo pelas pernas e então voltando novamente enquanto Malfoy capturava sua boca de novo. De novo. E de novo. E desistindo de controlar as próprias sensações do corpo, ela abriu mais os lábios e deixando que sua língua se encontrasse com a dele.
Algo buzinou na sua cabeça. Aquilo não era certo. Aquilo não estava programado. O que estavam fazendo? Ela não podia fazer aquilo. Ela tinha seus amigos, ela tinha seu namorado, ela tinha sua vaidade...
Pára, Hermione! Pára, Hermione! Pára, Hermione!
Draco aprofundou mais a língua e agora entrelaçava a dela mais forte, mais dominante e mais devagar. Ele estava a degustar-se dela. Estava a saborear-se dela, sentindo o gosto, engolindo o gosto da própria língua sobre a dela. Devagar. Vagarosamente.
Estava beijando Draco Malfoy. Só beijando Draco Malfoy. Beijando Draco Malfoy. Devagar. Vagarosamente. Tão devagar que chegava a ser decadente.
Era algo tão decadente que ela sentiu que estava fazendo amor através de sua própria boca.
Hermione cutucou a língua dele com a sua própria e a entrelaçou, deixando a sua por cima. Ele sentiu desfeito, desamarrado e sem força. As mãos trêmulas dela estavam sobre seu peito e ele as sentiu subirem devagar, sincronizando com as próprias línguas, para seus ombros e então seu pescoço. Ele se sentiu um pouco febril e dormente. Os dedos das mãos dela começando a bagunçar os seus cabelos.
Era aquilo que ela dava ao Weaselbee? Aquele garoto ruivo, sarnento e desengonçado merecia aquilo? Por que diabos ele merecia aquilo?
Seu ritmo começava a ficar frenético, desesperado, e ele sentiu a respiração começar a apagar. Hermione gemeu baixo em sua boca e o som ricocheteou em seu cérebro. Pára, Malfoy! A língua dele ficou por cima de novo. Pára, Hermione! A dela ficou por cima. Pára, Malfoy!
Pára, Malfoy!
De algum lugar desconhecido, reuniu forças o suficiente para finalmente conseguir separar sua boca da dela. Ele recuou dois, três passos e seus olhos se encontraram o chão do Salão Principal que naquela noite servira como o ambiente para o Baile de Formatura. Fechou os olhos com força e apoiou a mão esquerda sobre a testa, sentindo uma fina dor de cabeça.
Hermione tinha o corpo trêmulo e febril enquanto seu cérebro tentava se recuperar do incidente sentindo o maciço, molhado e turbulento sobre si. Seus olhos castanhos estavam abertos e um gosto adocicado de mel cobria seus lábios. Sentiu-os ficarem inchados.
Draco abriu os olhos azuis, ainda com a mão esquerda sobre a testa, e sua expressão era de alguém inconformado. O que ele havia feito? Perdera completamente o controle. Por que ele fizera aquilo? Por que ele teve que pedir aquilo?
Porque ele quis.
Era o que ele sempre quis.
Sempre quisera saber o gosto daquela imunda Sangue-Ruim.
E agora que sentira, ele queria mais. Muito mais. Mas não só aquilo. Queria aquilo tudo.
Ele queria Hermione Granger. Todinha pra ele.
However cold the wind and rain
I'll be there to ease your pain
However cruel the mirrors of sin
Remember beauty is found within
…Forever shall the wolf in me
Desire the sheep in you... – Beauty and the Beast, Nightwish.
