'Merda.' Ele apertou as pálpebras dos olhos um pouco forte como se aquele gesto fosse tirar da memória o que havia acabado de se passar ali. Ele recuou mais dois ou três passos e quando abriu os olhos azuis, fitou com os castanhos da garota grifinória.
Ela parecia tão assustada e perplexa quanto ele e não demorou mais de dez segundos para finalmente perceber o que tinha acontecido. Ela engoliu em seco e sem dizer qualquer palavra, ruído ou até mesmo um xingamento, deu as costas para o sonserino, ao Great Hall enfeitado para o Baile de Formatura e subiu ás escadas para a Torre Norte.
'Merda. Merda. Merda.' Ele continuou repetindo sozinho ali no Salão Principal de Hogwarts devidamente decorado. Ele levantou as mãos e as fitou procurando algum rastro nelas que dissessem que ele não havia segurado Granger pela cintura, conduzindo-a pela pista de dança e acariciando seu rosto. Que na verdade a língua nele nunca chegara a se enroscar na dela e que aquele gosto e aroma de baunilha era na verdade do sorvete que ele havia tomado mais cedo.
Ele encarou o ambiente e respirando fundo imitou o gesto da garota grifinória, seguindo o caminho inverso, para as masmorras. Os passos pesados pelos sapatos pretos luxuosos fazendo um pouco de eco no salão já plenamente vazio.
Tire o terno. Desamarre a gravata. Desabotoe a camisa. Tire cinto. Desça as calças. Coloque o pijama. Primeiro, uma perna. Depois a outra. Agora o braço direito. Esquerdo. Draco Malfoy se movia automaticamente, sua mente completamente em branco sendo capaz apenas de formular a palavra 'Merda'. Ele jogou sua roupa de gala sobre a cama e deitou-se, apoiando a cabeça sobre os braços, fitando o céu escuro da madrugada através do teto mágico de Hogwarts.
Seus lábios se sentiram secos com o ar gelado do quarto negro do garoto. O estômago se revirou em um sentimento desconhecido e seus olhos azuis piscavam a todo momento tentando encontrar a razão para aquele beijo desgraçado.
Razão? Tinha razão para aquilo? Ele já beijara várias garotas. Pansy, Emily Bullstrade, Astoria, Maureen... nenhuma delas haviam pedido uma razão. Por que Granger haveria? Porque ela era suja. Ninguém era mais suja e porca que aquela garota. Quem beija algo tão sujo e porco? Weasley. Obviamente, por ele também morar num chiqueiro e ser familiar a sujeira.
Weasley. Weasel. Weasel beija Granger. Todo o tempo. O tempo todo.
Todo o tempo eles se beijam como eles haviam se beijado naquela noite.
O tempo todo eles se beijam como eles haviam se beijado.
O estômago se revirou mais forte e ele se virou para o lado direito da cama, encarando a parede de pedras do quarto. Paredes que dividiam o quarto dela do Weasley. Paredes que sumiriam daqui a três dias pois assim os dois ficariam livres. Ficariam livres para se fazerem o que quiserem. Para se amarem do jeito que quiserem. Virou-se para o lado direito da cama e viu os outros meninos dormindo, com Crabbe e Goyle roncando, enquanto Zabini parecia falar algo sobre sua mãe enquanto dormia.
Por quê? Porque ela não saía de sua cabeça? Qual o motivo dele se prender a pensar naquela garota, na que porra ela fazia com Weasley ou o que ela poderia fazer com ele próprio? Como diabos ele conseguiria dormir com sossego se tudo de alguma forma na sua mente o leva a pensar naquela garota sem motivo aparente, sem aparente lógica?
Sua mente e estômago revirando o beijo que acontecera momentos antes entre eles. Ele a havia beijado. Ele havia beijado a porca da Sangue-Ruim. Tão lento, tão desesperadamente lento que transava e transava com a língua da menina.
Ele se sentia desbagaçado.
Se sentia amarrado.
Assustado.
Excitado.
Sortudo.
Ele se sentia sortudo e aquilo era estranho.
Ele estava inseguro do que devidamente deveria pensar e ocasionalmente estranho ele se sentia afortunado de ter conseguido aquilo da Sangue-Ruim. O pensamento que permeou seu cérebro por determinado momento considerável foi 'Se o Weasley soubesse...'
E isso o fez rir. Rir de quem rir de uma piada boa.
Se o Weasley soubesse, eles brigariam.
Se o Weasley soubesse, eles terminariam.
Se o Weasley soubesse, ela ficaria só.
Só. Ela ficaria só. Só pra ele.
Ela seria só dele.
E eles iriam destruir as paredes que os distanciam. Eles iriam ser livres para transarem. Seja onde for, quando for. Ao pôr do sol, com muita festa, muita música e muito choro.
Mas só se o Weasley soubesse.
Ele nunca saberia..
Granger nunca contaria.
Ele também não.
E os dois então voltariam a ser o que eram e sempre serão.
Inimigos.
Pela eternidade.
Um sentimento muito similar a dor pareceu sobrejugar o corpo dele. Como se o próprio corpo se remoesse no pensamento de que na verdade ele jamais seria importante pra ela. Ele jamais seria menos do que um inimigo pra ela.
Ele jamais transaria com ela.
Ele encheu as bochechas de ar e levantou-se da cama já ciente de que não conseguiria dormir. Calçando as pantufas, ele abandonou o dormitório masculino e por conseguinte o Salão Comunal da Sonserina e decidiu esvaziar a mente dando uma última caminhada por aquele castelo.
Quando ela terminou o banho, vestiu o pijama azul bebê e deitou na cama com cuidado para que os ruídos de sua cama, não acordassem as companheiras de quarto, Parvarti e Lavender. Os olhos castanhos piscaram-se automaticamente. O rosto tomou uma cor de leve magenta sobre as bochechas, e a língua, que ainda sentia-se amassada, pedia para que ele da alguma forma a desamassasse.
Com o coração batendo um pouco agitado ela se repreendeu pelo que fez, pensou e sentiu.
'Acho que vou beijar você, Granger...' repetiu na sua mente e ela trancou os dentes, virando-se para o lado esquerdo da cama.
Por quê? Por que ele fizera aquilo?
Ela se sentia terrível.
Havia deixado que Malfoy a beijasse. Havia deixado que as sensações tomassem o seu próprio cérebro e razão. Hermione fechou os olhos e esfregou os pés um no outro por baixo dos lençóis a fim de se aquecer.
Seu corpo ainda parecia reagir às sensações daquele beijo. A coisa molhada que ela desconhecia rodeava o corpo, indo das pernas a ponta dos dedos do pés e voltando para a região do baixo ventre. Ás vezes, as coxas tremiam e de tão sensível, ela era capaz de perceber um lapso de prazer quando dobrava os dedos dos pés.
Ela se sentia suja. Sentia-se imunda. Desprovida de qualquer caráter ou princípios morais.
Havia beijado Malfoy. Seu maior inimigo. Havia traído seu namorado. Seu melhor amigo.
Como ela poderia encará-lo novamente? Como ela poderia olhá-lo e não mostrar o quão arrependida estava de ter aceitado aquela porcaria de valsa com aquele garoto loiro? Como ela poderia dormir depois do que fizera? Como tiraria aquilo da cabeça?
Ela virou para o lado direito, e colocando o travesseiro sobre a cabeça, fechou os olhos, limpando a mente de qualquer pensamento sujo, ou envolvido com o que se sucedera naquele dia com Malfoy. Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar. Sucedeu porém que acordara de súbito umas três ou quatro vezes com o corpo trêmulo quando sonhava que Malfoy não só a beijava, mas a lambia, mordiscava-lhe e a tocava em pontos do corpo que ela nem sabia que eram tão sensíveis.
Ela deu graças a Deus por estarem apenas três dias de terminarem Hogwarts. Só três dias. Talvez nesses três dias nem voltaria a encontrar-se com Malfoy. Aí, era só fingir que nada acontecera. Rony não descobriria. Ela não diria. Ele também não.
E os dois voltariam a ser o que sempre foram e serão.
Inimigos.
Para a eternidade.
Ele caminhava, com pijamas e pantufas, entre os corredores do castelo tentando encontrar uma maneira ou resposta para aquela gritante aflição que sentia. Por quê? Porque se estremecia a cada vez que pensava naquela garota e Weaselbee juntos? Porque se estremecia a cada vez que pensava que nunca a veria de novo?
Seria inveja?
Inveja?
Inveja do Weaselbee? Porque ele teria inveja daquele sardento com nome de fuinha? Ele era pobre, mal educado, sujo, grosso e possuía um déficit de atenção assustador.
Caminhando pelo castelo, Malfoy pensava na sua gente, na sua família, sem sentimentalismos, num severo ajustes de contas com a vida que tinha e que iria ter, começando a compreender o quanto amava na verdade a pessoa que mais odiara.
