ATO IV - Embriaguez
A medida que aumentavam as ânsias de estar com ela, aumentava também o medo de perdê-la. De tal modo que os encontros que poderiam ter com ela pelo castelo ocasionalmente eram rápidos e cada vez mais difíceis. Ele mesmo se afastara daquilo. Daquele sentimentalismo de merda. Daquele sentimento besta que não estava acostumado.
Daquilo que consumia a sua alma por ela estar com ele.
Na tarde de sábado, próximo ás três horas, ele a vira andar pelos jardins de mãos dadas com ele. Rindo e dividindo coisas que ela jamais dividira com ele. Caminhavam juntos, meio tímidos por outras pessoas do castelo, e num ritmo lento que se seguia por uma leve embriaguez. A típica embriaguez de quando se está com quem se gosta, embora, ele, de fato, nunca realmente a sentira.
Ele se perguntou do que a embriaguez era feita. Talvez de amizade. Talvez de afeto. Talvez de carência. Talvez de abundância. Talvez de carinho. Talvez de amor. Talvez toda embriaguez estivesse inundada sobre todos eles. Estivesse inundada sobre eles dois.
Ele se embriagara uma vez. Acabou vomitando no banheiro do seu próprio dormitório quando o álcool que bebera promovera repulsas em seu estômago, bile na boca e albinismo mental depois de uma pequena festa dada pelos sonserinos para o aniversário de Theodore Nott no seu terceiro ano.
Depois desse dia, ele jamais se deixara levar á embriaguez, sem no entanto, deixar de beber. Aprendera a saber o limite de seu corpo, e a saber o quão importante era ter a consciência do que se fazia.
Contudo, ele daria tudo para estar embriagado naquela noite e ter esquecido que ele beijara Granger, no dia seguinte. Ele não sentiria aquela ânsia, nem aquele medo. Ele não estaria ali, parado próximo à entrada do castelo de Hogwarts observando os dois grifinórios conversarem juntos dividindo seus planos futuros. Talvez suas casas. Talvez eles estivessem conversando de quando e onde se casariam ou onde morariam ou quantas vezes ao dia poderiam fazer sexo. O corpo estremeceu com o último pensamento e ele decidiu sair dali.
Naquele mesmo dia, à noite, a vira no jantar no Grande Salão. O ambiente já estava sem as decorações do dia anterior e a aparência morta do lugar, em contraste do dourado de antes, até que lhe agradava. Ela sentara entre os amigos como de costume e parecia dar mais atenção ao que Potter dizia do que ao namorado. Em nenhum momento ela olhara para a mesa da Sonserina. Em nenhum momento ela procurara por ele. Ela estava feliz e embriagada entre os amigos, não haveria razão para ela ter repulsas no estômago, bile na boca e albinismo mental só de olhá-lo.
'Você está bem, Draco?' Perguntava Astoria Greengrass ao seu lado. Ela perguntara isso várias vezes naquele dia.
'Estou.' Ele dava a mesma resposta, no mesmo tom. No tom de quem não se importava, de quem não sentia nada, apenas repulsa. Mas ele esperava que ela entendesse que a repulsa não era relacionado a ela, e sim aos dois que ela nem sequer se dava ao luxo de perceber que existiam sentados ali à sua frente. Se ela entendia, ele não sabia, mas agradecia pelo fato dela não puxar assunto ou entender que o estou bem dele era um não, mas que ao mesmo tempo, ele não queria conversar sobre.
Então assim se passou sábado e logo veio domingo.
Ele detestava domingo.
Era o dia em que todos os sentimentos ruins o assolavam. Era o dia em que começava a semana. Especialmente, aquele domingo, era o dia que começava a vida dele.
A vida dele fora de Hogwarts.
A vida dele sem ela.
A vida dela sem ele.
A vida deles dois juntos.
Aquele domingo seria o último domingo em Hogwarts. No dia seguinte, na Segunda-feira, ás 11 horas da manhã, naquele 14 de Junho, eles embarcariam para o mundo em que nunca mais se veriam. Em um mundo ridiculamente romântico, ele deveria ir atrás dela, fazê-la ver que o ama verdadeiramente e os dois transariam ali mesmo, quer seja em pé ou deitado, e os dois viveriam feliz.
Mundos ridiculamente românticos não existem. Ele sabia disso.
Se existissem, ela estaria com ele. Não com o Weaselbee.
Mesmo se existissem, ele não se encaixaria naquele mundo. De fato, ele estava mais para um mundo escrotamente trágico do que o ridiculamente romântico.
Naquele domingo, ele até tivera uma chance de ser ridículo. Era de manhã, perto das dez, e, no jardim, enquanto sentava-se ao lado de Astoria, prestava a mínima atenção aos movimentos que a grifinória fazia. Quando a viu levantar-se de onde estava, dar meia volta, um pouco minunciosa, e caminhar sozinha sem um rumo calculado com três livros em suas mãos, ele prontamente fez o mesmo. Levantou-se de onde estava, deu meia volta e dizendo 'volto logo' para Astoria, fazia o caminho que a garota fazia.
Ás vezes, ela parava e observava coisas que não pareciam ter observado até então enquanto esteve me Hogwarts. As estátuas, os quadros na parede, e voltava a caminhar, dando paradas que só tinham como motivo uma prazer sem pressa de prestigiar aquele lugar pela última vez. Draco Malfoy a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego.
A parada mais demorada que ela fizera fora em frente a uma estante com vidro. Um sorriso singelo se fez no rosto dela e ela pareceu contrair forças para não chorar. Talvez de saudades. O estômago dele se revirou ao perceber que na verdade nunca a vira chorando. Ele se perguntara se o Weaselbee já a tivesse visto chorar ou se ele já a fizera chorar.
Deixou a estante com vidro para trás e prosseguiu pelo corredor enquanto Malfoy chegava perto de onde estivera, percebendo que ela estava fitando o emblema de Monitora-Chefe ganhado naquele ano, e de dois prêmios anuais que ganhara nos últimos anos de Hogwarts pelas notas que conseguira nos N.O.M's e N.I.E.M's.
Continuando a segui-la pelo castelo, ele logo percebeu que ela estava se dirigindo à biblioteca, o seu local favorito da escola. Ela ajeitou os livros em seus braços e entrou no recinto. Draco esperou alguns segundos fora do local e ao contar vinte segundos mentalmente ele também entrou na biblioteca.
Ela falava com Madame Pince e os três livros que antes estivera em seus mãos estavam em cima da mesa da bibliotecária. A mulher deu um sorriso sincero à garota ali à sua frente.
'Sentirei sua falta por aqui, Hermione. Você foi uma das estudantes mais leais que já passou por esta biblioteca.'
A garota apenas sorriu, talvez forçando-se a não responder a mulher para que não chorasse de saudade também daquele lugar. Ao ar meia volta, minunciosamente, para sair a biblioteca, ela piscara os olhos castanhos ao encontrar com os azuis dele ali, colado à porta da biblioteca.
Ela não estava acostumada com aquilo. Ela não estava acostumada a fugir. A fingir. Fez de tudo para que nos últimos dias, não fosse capaz de se encontrar com aquele garoto. Fez de tudo para que seu namorado jamais tivesse a simples idéia de que aqueles dois haviam se tocado, dançado e se beijado. Que ela jamais sentira o que na verdade seu corpo desejava esquecer. Os pêlos do corpo se arrepiaram minimamente, o suficiente para incomodá-la, mas não para ele o notar. O desejo de esquecê-lo se acabara por se tornar o mais forte estímulo para se lembrar dele. E naquele paradoxo ridículo, ela tentava achar o lado em que o esqueceria sem ter que na realidade lembra-se dele ou daquilo.
Ele tivera a chance, ali, de ser ridículo. Tivera a chance de empurrá-la na parede, mostrar a ela o que fizera com ele e a abrisse os olhos para ver que ele estava ali pronto para beijá-la novamente. Que estava pronto para fazê-la ver que o amava e largasse o Weasley.
Mas não.
Ele não vivia de ridicularidade. Ele não vivia de impulsos e babaquices como aquela.
Ele vivia de tragédias. De dores. Vivia de ânsias. Ânsias de acertos. Vivia do quase. Do se. Era esse o seu mundo. O mundo em que ele nascera e fora criado. O mundo em que ele não cedia, em que ele conseguia as coisas apenas por conseguir e não por realmente se esforçar para tê-las. Era mais cômodo esperar do que se esforçar e cair escada à baixo. Era mais fácil esperar dos outros do que agir por si mesmo. E por isso, ele jamais tivera que realmente agir para ter algo. E quando chegara o momento em que talvez ele tivesse que o fazer, ele não fora capaz de reconhecer. E por não reconhecer, viu o momento de quase, de se, e de ânsia novamente.
Ele deu dois passos para o lado esquerdo e fez um gesto com o braço direito. O gesto universalmente conhecido como 'Pode passar' e fitando o chão de pedra, a sentiu sair da biblioteca, sem nem mesmo dizer algo.
Ele ficara ali, agora grudado à parede da biblioteca, esperando que o corpo se recuperasse do súbito sentimento que o encargou. Era um sentimento que ele não estava acostumado até então. Era a derrota.
Ele estava derrotado. Em um jogo de batalha naval, ele estava afundado. Em um jogo de baseball, ele estava fora. Em um jogo de quadribol, ele caíra da sua própria vassoura.
Fora derrotado. Por Weasley. Por ele mesmo.
Ele a perdera.
E foi tomado pela embriaguez. Era a embriaguez de orgulho. Talvez honra. Talvez sangue. Talvez tristeza. Talvez tudo aquilo junto sobre ele. E só sobre ele. Acabou tendo bile na boca, repulsa no estômago e falta de ar no diafragma.
Acabou por regurgitar saudade.
Acabou por regurgitar nostalgia.
Acabou por regurgitar amor.
Mas fora tarde. E tarde ele percebera.
