Epílogo
Elizabeth respirou fundo, a brisa marítima enchendo seus pulmões. A vista que tinha de seu quarto era de tirar o fôlego. O terreno nos fundos da casa descia levemente até uma formação rochosa que abruptamente se abria para o mar. O tempo estava mais frio do que nos dias anteriores, mas eles haviam aproveitado bastante os dias quentes e ela se alegrava em ter uma pausa do calor. Ela olhou do mar para o jardim da casa, as memórias de tantos anos antes retornando. Fora ali que ela vira Sarah, ou melhor, Sophia pela primeira vez, um embrulho nos braços e os poucos pertences em uma mala. Também foi naquele jardim que, na semana anterior, ela e Darcy tiveram uma conversa franca e aberta com Lucy. A menina, que agora contava nove anos, tinha uma compreensão muito melhor dos eventos que a levaram a ser adotada do que quando ouviu sobre a história pela primeira vez.
Eles haviam investigado o assunto em Norfolk e descobriram que um túmulo sem nome havia sido construído para a mulher que tirara a própria vida. Juntos, os três o visitavam sempre que estavam na cidade.
-Elizabeth? - ela se virou e sorriu ao ver seu marido caminhar até ela, com exagerada delicadeza, como se andasse em ovos. - Os meninos dormiram?
-Sim, devem dormir por algum tempo. - ela disse, sorrindo para os tufos de cabelos escuros e pés e braços atravessados na cama, ao seu lado.
Ela ainda havia adiado a visita à Norfolk mesmo depois que ela e Darcy casaram. Depois do nascimento de Benedict, Elizabeth finalmente se permitiu relaxar, sentindo que os fantasmas de seu passado estavam finalmente extintos, e concordou em fazer a viagem com o marido. Era um lugar cheio de significados para Lucy, e ela queria dar à menina a chance de conhecer melhor sua história. A família havia trazido poucos criados e passara seu tempo na quietude, acompanhados pelo ruído das ondas. A viagem logo se tornou uma tradição da família Darcy.
-Quanto tempo? - ele perguntou, colocando as mãos em seus ombros para então descer para os antebraços.
-Eu achei você! - os dois se viraram com a exclamação e Elizabeth olhou para a filha, confusa, antes que Darcy fizesse uma expressão de tragédia.
-Não! Achei que tinha me escondido realmente bem dessa vez!
Lucy correu para o pai, o abraçando.
-Sua vez de contar!
Ele a pegou no colo, erguendo-a alto.
-Não se eu te fizer de prisioneira!
-Eu não tenho medo de altura! - a menina disse, rindo – Ei, eu consigo ver o mar daqui! Podemos ir até a praia?
-Não é uma boa ideia. O tempo está fechado, parece que vai chover. - Elizabeth disse.
-Nem tem tantas nuvens assim! Se a gente sair agora, consegue chegar antes da chuva! Diga pra ela, papai!
Darcy baixou a menina, os braços cansados.
-Se sua mãe decidiu que não vamos, nós não vamos. - ele disse, piscando para Elizabeth.
A menina suspirou de forma dramática.
-Às vezes eu preferia quando vocês viviam brigando!
-E por que razão? - perguntou Elizabeth rindo.
-Você gastava toda a sua bronca no papai e não sobrava pra mim. - a menina disse, andando nas pontas dos pés até o lugar onde os irmãos dormiam.
-Pois eu só gasto minha bronca em você quando faz algo de errado, Miss Lucy.
A menina se distraiu, tocando a mão de Benedict com delicadeza. Uma das coisas que mais preocupara Elizabeth com a chegada dos filhos mais novos fora a reação de Lucy. Mas, apesar de muitas birras que pareciam vir do nada nos primeiros meses, ela sempre fora muito protetora com o irmão e era óbvio que amava-o. Quase um ano depois a família deu as boas-vindas ao caçula, Arthur. E foi então que Lucy passou a exercer seu posto de irmã mais velha com ainda mais orgulho.
-Será que ele também gosta da praia? - ela perguntou em uma voz baixa, acariciando levemente os cabelos suados de Arthur.
Darcy se sentou ao lado da esposa na cama, observando a filha, divertido.
-Não sei, você acha que ele também gosta da praia? - Elizabeth perguntou, entrando na brincadeira.
-Sim, ele me disse que ama a praia! - a menina ergueu os olhos – E que adoraria ir até lá. Vocês não negariam nada ao pequeno Arthur, não é? Olha como ele é fofo!
Os pais riram.
-Eu acho que você só quer ir até a praia pois sabe que é minha vez de procurar, e eu sempre te acho rapidinho. - disse Darcy.
-Não é verdade! - a menina disse, surpresa.
-Prove. - ele provocou.
-Feche os olhos!
Ele fez exatamente isso e a menina saiu do quarto correndo, às gargalhadas. Elizabeth sentiu um beijo na bochecha e se virou.
-William, você está espiando!
-Um beijo de boa sorte antes que eu saia em missão? - ele perguntou, aproximando os lábios dos dela.
Ela cedeu, lhe dando um leve beijo, então outro, e mais um.
-Papai! Venha me procurar! - veio a voz abafada, do andar inferior da casa. Darcy havia acabado de aprofundar o beijo e Elizabeth soltou um muxoxo quando os lábios dele se afastaram.
-Preciso ir. O dever me chama. - ele disse seriamente.
-Eu entendo. - ela disse, os olhos iluminados por um tom brincalhão. - Volte assim que puder.
-Lhe dou minha palavra, Mrs. Darcy.
Ele já estava em pé, mas se inclinou para um último beijo.
-Papaaaaiiiiii!
Os dois riram. Elizabeth o mirou sair do quarto, o sorriso que agora lhe era tão familiar iluminando seu rosto.
Ela olhou para os meninos, mas ambos ainda dormiam. Eles estavam bem.
Todos estavam bem.
