Um Presente Inesperado

by

Virgo no Áries e Daftookami.

Casal: Mask x Shun (principal) e outros que deverão aparecer ao longo da fic

Gênero: Yaoi, U.A, Romance, Lemon, Lime, Agnst, Possível OCC

Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens não nos pertencem mas à Masami Kurumada, Toei e Bandai. Essa fic não tem fins lucrativos.

Aviso1: Os personagens originais Suzumiya Ranmaru e Mitsumasa Hoshikage criados nessa fic são de autoria exclusiva de Virgo no Áries. É proibida a reprodução total ou parcial dele em quais quer outras obras, estando o infrator sujeito ás penas da lei.

Aviso2: Essa fic foi criado no estilo rpg (role playing game) onde se alternam os personagens e seus respectivos pontos de vista. Daftookami interpreta Mask e Virgo no Áries interpreta Shun.

Capítulo 2 - Visões de Mundo

Shun ouviu o barulho de água caindo e ao abrir os olhos se viu sozinho num ambiente escuro. Ergueu-se, apoiando os braços no chão e sentiu um frescor em seus cabelos bem como um perfume que o agradava e o reconfortava.

-Não se deixe enganar, pequeno. - a voz conhecida e imperiosa falou consigo atrás de si. - O único que pode te proteger... - uma mão se projetou á sua frente, encobrindo-lhe parcialmente os olhos arregalados, sentindo uma pressão de alguém ás suas costas.

Um estremecimento de ansiedade percorreu sua coluna ao escutar a conclusão da frase ao pé do ouvido.

- Sou eu. - o virginiano piscou os olhos e se viu novamente na cama.

Apertava o travesseiro com as mãos tal qual um náufrago em busca de apoio. As lágrimas rolaram por sua face mais uma vez. Até sentir alguém cutucando sem ombro. Virou-se e deu de cara com Máscara.

Tomou susto.

Todas as lembranças recentes de como foi tratado no banheiro, o motivo de ter sido um "presente" para o italiano, aflorando na sua mente repentinamente. Arrastou-se de costas na cama até levantar-se. A cueca que usava desceu até seus tornozelos e sua passada maior do que o espaço que lhe era permitido dar fez com que tropeçasse com a bunda no chão com as pernas para cima.

- Ahhhhhh! -gritou o oriental ao se desequilibrar. Suas partes íntimas estavam á mostra de forma indecente. Shun corou profundamente e voltou a se sentar encobrindo seu membro com a camisa longa, enquanto cueca ficou de alguma forma presa a apenas um de seus pés. Aquelas não eram suas roupas!

Será que...

O japonês abaixou a cabeça mordendo o lábio inferior muitíssimo envergonhado de sua condição. O italiano tinha se aproveitado dele mais uma vez? Somente pensar nesse ideia mortificava seu coração.

- Seu irmão não mandou nada bambino. Roupa, sapato... Nem escova de dente você tem! – Máscara falou, ignorando totalmente a reação do garoto. Não entendeu o constrangimento do outro que tentava esconder as partes íntimas, se há pouco eles estavam tomando banho juntos. Bem, isso não era importante.

- Eu pedi a Shina que tentasse arranjar alguma roupa com o filho do caseiro. Devem caber em você... Aquele é outro ragazzo franzino, assim como você.

Shun não era exatamente franzino, tinha um bom tônus muscular, compatível com sua altura e idade, mas comparado ao porte físico de Máscara, alto e forte, o japonês aparentava ser mais frágil do que realmente era.

- Quando a Shina voltar com a roupa, então nós iremos ao shopping. Agora levante-se daí... – o mafioso caminhou em direção à porta e, vendo que Shun permanecia no mesmo lugar, completou: - Ande logo bambino! Se demorar muito seu almoço vai esfriar – e saiu em direção a cozinha.

Shun escutou o que o canceriano dizia meio atônito.

Shina?

Shopping?

De repente um mundo de informações começaram a ser faladas sobre o que iria fazer.

O que?! O que?!

Viu o italiano sair porta afora e esticou o braço querendo perguntar muitas coisas. Queria uma explicação. Seu estômago roncou alto e acabou por abaixar a cabeça derrotado. Não conseguiria fazer nada se não comesse algo. Estava com muita fome. Fez cara de choro sem que as lágrimas descessem por seu rosto realmente.

- Trouxe suas roupas. Vista-se. - uma mulher entrou no quarto pouco depois do italiano sair. Ela cruzou braços na frente do corpo. O imenso decote emergia da blusa que ela usava. Piscou os olhos verdes várias vezes. - Estarei esperando fora quarto. E não tente pular pela janela. Tem guardas lá embaixo, não vai conseguir fugir. - dito isso saiu.

Shun suspirou e mais uma vez seu estômago roncou. Sentia-se patético. Pegou as roupas simples com as mãos examinando-as. Caberiam em si? Foi até o toalete da suíte e viu a banheira cheia d'água. Engoliu em seco e balançou a cabeça. Por hora era melhor não fazer nada insensato. Não queria ter outra sessão gratuita de afogamento. Pegou a camisa branca e a calça jeans azul, colocando as vestimentas. Por fim, olhou sua aparência no espelho. Estava meio pálido e com olheiras. Ouviu um toque na porta.

- Já terminou? - a voz da... Qual no era mesmo o nome dela? Novamente toques mais incisivos na porta. - H- hai! - gritou saindo do banheiro o mais rápido que podia. Depois pensaria num jeito de escapar dali primeiro tinha que comer algo ou iria desmaiar de fome. Acompanhou a... Shin... Shina pelos corredores da mansão até a cozinha. Máscara estava na cozinha, né? Mas se iriam comer não deveriam ir pra sala de jantar? Esse detalhe não lhe passou despercebido.

- Até que enfim! – Máscara exclamou quando viu a assistente e o garoto entrarem na cozinha. A comida já estava pronta, o cheiro gostoso do molho de tomate caseiro, uma receita de família, perfumava o ar. Imediatamente o estômago do japonês reagiu e roncou alto, fazendo o italiano gargalhar. O italiano colocou a macarronada na travessa e espalhou o molho por cima, o vapor que emanava do alimento denunciando que este acabara de sair da panela. Entregou a travessa à mulher e pediu que a levasse para a mesa.

- Você leva isso – entregou talheres e guardanapo para Shun. As taças e o vinho, ele mesmo levaria.

Seguiram para a sala de jantar. A mesa não tinha sido preparada com muito esmero, contava apenas com os três pratos e a travessa de macarrão. Os demais utensílios foram adicionados depois pelo italiano e pelo japonês. Máscara serviu o vinho para si e para Shina, que já esperava sentada de braços cruzados. – Ah, o suco! – deixou Shun sob a mira da mulher e voltou para buscar o suco de uva, pois Shun já demonstrara que não aguentava beber nada alcoólico.

Shun viu o moreno colocando a macarronada na travessa. Achou a cena um tanto...

Caseira?

Deixou-se ser levado para a sala de estar. Três pratos estavam dispostos na mesa enorme. Isso quer dizer que eles sentariam juntos pra comer. E o que tinha acontecido com o medonho Máscara da Morte que quase o tinha afogado na banheira? Pensar nisso lhe dava calafrios. Sentou-se na cadeira, olhando para o prato vazio. Conseguiria comer sendo observado pelo dois? Dois? Hum... Shina iria comer junto com eles e na mesma mesa... Ela não devia ser apenas uma secretária para ter esse privilégio perante o líder da máfia italiana.

- Que foi bambino? Não gosta de pasta? - perguntou Máscara que retornara com o suco e o copo para Shun, percebendo o prato vazio do menino. Pegou o utensílio de servir e colocou uma boa porção para Shun e depois para Shina. - Mangia che te fa bene! - falou imperativo, quase paternal. Então sentou-se a mesa e serviu a si mesmo. Ao contrário do japonês, os italianos não titubearam em se fartar com a iguaria tradicional de seu país.

Shun olhou pra comida meio embasbacado, ainda estava incrédulo por ter visto o italiano usando um avental na cozinha. Seu estômago protestou mais uma vez e decidiu comer. Juntou as mãos na frente do corpo e agradeceu baixinho.

- Itadakimasu! - o japonês agradeceu pela comida, pegou os talheres e provou da macarronada. Estava muito boa. Comeu quieto sem olhar para os lados. Ainda se sentia desconfortável perto do canceriano e o olhar de Shina sobre si não o ajudava a relaxar.

- Você tá assustando o bambino com essa cara de psicopata, Shina - falou para a assistente que não escondia a desconfiança e desagrado que sentia em relação ao japonês.

- Você devia dar logo um fim no pokémon - falou a mulher já ciente do ataque que Shun dera pela manhã.

- Mulher rude, sem coração! - a zombaria do italiano foi seguida de uma sonora gargalhada. Shina deu de ombros e terminou sua refeição, não se importando com um comentário. De fato o considerou até elogioso. E voltando-se para o japonês o canceriano, perguntou:

- Tá gostoso?

Shun tinha recebido muitas informações ao mesmo tempo.

Pokemón?

Tinha visto esse anime quando era criança mas ouvir essa palavra com sarcasmo dele o deixou irritado. - É comestível. Obrigado por não me deixar morrer de fome. - não conseguiu refrear a resposta pronta em sua língua. Escondeu as mãos em baixo da mesa, apertando o tecido da calça.

- Comestível?! - Máscara ficou indignado, afinal, aquela era uma receita de família. Máscara aprendera a cozinhar com sua nonna, mulher de inúmeros dotes culinários e receitas secretas. Como o menino tinha coragem de dizer tal disparate?! - Vocês japoneses não entendem nada de comida! Arroz empapado, peixe cru e aquele tempero com gosto de detergente...É isso que vocês chamam de comida! - o italiano rosnou contrariado e tomou o resto do vinho de uma só golada.

Então a mulher se pronunciou: - Bem feito Mask, é isso que você ganha sendo bonzinho. E ainda quer levá-lo pra passear no shopping – Shina meneou a cabeça negativamente, as palavras cheias de sarcasmo.

Shun estremeceu quando o italiano elevou a voz. Ele pretendia levá-lo ao shopping? Ah... Roupas. Precisava de roupas. E aquela mulher não estava gostava de sua presença. A ironia na voz dela era indisfarçável. Percebeu ao olhar para ela pelo canto do olho.

- Pois não vai ter mais shopping! - Máscara da Morte levantou-se da mesa e começou a juntar os pratos. - Shina, ligue para o alfaiate, quero que ele venha o mais rápido possível... E veja se Afrodite está disponível hoje. A mulher ergueu uma sobrancelha indagadora. - Depois de tanta dor de cabeça que 'esse aí' me deu precisando relaxar um pouco.

Shina assentiu com a cabeça e, enquanto Máscara levava a louça para a cozinha, murmurou:

- Duvido que ele vá te atender...

Shun obrigou-se a ficar calado mas sua mente praticamente gritava.

Dor de cabeça?

Dor de Cabeça?!

Isso era uma piada?!

E eu que quase tive uma hipotermia por ter sido sufocado vivo dentro de uma banheira?!

Por pouco as palavras não escaparam de forma mal-criada pela sua boca. Mordeu com mais força o lábio inferior se contendo. Máscara se levantou carregando os pratos. Era estranho ver o homem mais influente da máfia italiana fazendo algo tão banal. Pressupôs que ele tivesse vários empregados e em diversas especialidades para atendê-lo. Talvez sua fama de assustador fosse tanta que não conseguisse mantê-los por muito tempo. Eles deviam ter medo da morte. Acabou abafando um riso pequeno com uma mão ganhando a atenção de Shina que lhe olhava intrigada. Ah, sim.. Máscara havia mencionado...

- Quem é Afrodite? - o virginiano inclinou a cabeça para o lado um tanto curioso sem se intimidar com a mulher á sua frente.

A mulher franziu as sobrancelhas, um tanto contrariada com a pergunta, menos pelo seu conteúdo do que pela ousadia e intromissão do garoto. Ao invés de respondê-lo diretamente, Shina rebateu a pergunta com uma divagação:

- Eu realmente não entendo porque Mask insiste em mantê-lo. Se está chamando por Afrodite então é óbvio que você não tem utilidade para ele - a mulher ficou encarando o japonês e então gritou para que o mafioso a escutasse da cozinha: - Mask! Se não quer matar o garoto então mande o pokémon de volta para o irmão! - nesse momento Máscara voltou para buscar o resto das coisas na mesa e respondeu à sua empregada. - Io ando pensando mesmo em fazer isso... Esse bambino é muito malcriado!

Shun mordeu a parede interna da sua própria bochecha.

Não estava sendo mal educado!

Isso era um ultraje!

Estava sendo tratado como se fosse um cachorro sarnento desde que tinha chegado ali e...

Oras, até os cachorros tinham melhor um tratamento melhor do que havia recebido até agora. E qual era o problema com o pokemón? Isso era preconceito! Esse era um anime que ensinava o valor da amizade, da confiança e do respeito.

Shina certamente não devia ter aprendido esse valores para fechar aos olhos quantos maus-tratos que ele havia sofrido em sua estadia ali. - Eu gostaria mesmo de ir embora. Se puder convencê-lo eu agradeceria. - cruzou os braços na frente do corpo de forma defensiva.

O italiano arregalou os olhos, surpreso com o comentário. - E ainda é mal-agradecido! - não entendia porque Shun era tão temperamental se ele estava tratando-o tão bem. Fora condescendente com ele várias vezes, principalmente com o ato de rebeldia do garoto pela manhã. Máscara aplicara apenas um leve castigo pelo que deveria ter sido pago com a vida.

- Va bene. - suspirou cansado, ser bom realmente não recompensava. - Shina, arrume um jeito de devolvê-lo.

A mulher sorriu satisfeita e completou: - Creio que cancelar o alfaiate - mas para sua surpresa o mafioso retrucou: - Non, pelo contrário! Mande-o vir o mais rápido possível e que traga logo os tecidos. Io não posso mandar o bambino pelado, nem com esses trapos sendo que ele chegou embrulhado em um monte de babadinhos! - a assistente deu de ombros e retirou-se já com o celular em punho para atender ao pedido do patrão, não sem antes ser lembrada de que deveria convencer Afrodite a prestar seus serviços para o italiano naquela noite.

Shun quase não acreditou no que escutou. Teria sua liberdade de volta?! Não conseguiu conter um sorriso verdadeiro. Descruzou os braços, virando-se para o italiano que estava de costas para si. Os olhos esmeraldinos brilharam de pura alegria mas Shina não chegou a ver sua expressão já que tinha saído da sala de jantar com o intuito de telefonar para o tal Afrodite.

Por um instante pensou em dizer "obrigado" á Mascara da Morte mas refreou mais uma vez seus impulsos. A sua liberdade não era um favor ou mesmo um prêmio a ser conquistado. O sorriso se desfez e seus olhos ficaram mais sérios e decididos. O italiano virou-se para olhá-lo. Ele podia criticar suas roupas, menosprezar sua cultura mas agora nada disso importava. Curvou-se, inclinando a coluna para frente perante ele num gesto respeitoso como havia sido ensinado desde criança em sua terra natal. Reconhecia que nesse embate entre os dois ele poderia subjugar seu corpo como quisesse e dificilmente conseguiria se opor. Ele provou isso no banheiro e não iria enfurecê-lo para testar sua força novamente.

No entanto, sua mente e ideais eram seus por direito. Jamais as entregaria a ninguém! O canceriano poderia inclusive fazer chacota de sua postura agora. Mesmo a humilhação que sofreu nesse curto espaço de tempo não conseguia negar o fato óbvio que o próprio italiano tinha admitido á pouco. Era novamente um homem livre. Não passava pela sua cabeça que ele estivesse mentindo pois até mesmo Máscara da Morte tinha que ter aliados para se manter no poder. Acreditou em suas palavras sem pestanejar.

Máscara ficou olhando admirado para Shun, que se curvava em sinal de agradecimento. Sim, sabia o que aquele gesto significava, pois fora o mesmo que recebera dos mafiosos japoneses quando firmaram o acordo. – Ah bambino... – meneou a cabeça negativamente ao mesmo tempo em que deixava escapar um suspiro cansado. "Você é mesmo muito inocente... ou muito estúpido" – o italianno pensou, mas não disse nada. A partir de agora o destino de Shun não estaria mais em suas mãos.

- Posso ir até a biblioteca? - o japonês perguntou cortês ainda intrigado com o olhar que ele lhe dava. Um quê de surpresa misturado com... Compaixão? Era estranho e diferente ver essas emoções nos olhos azuis. Olhar para Máscara naquele momento era o mesmo que ser tragado para dentro de um redemoinho. Era uma mistura de sensações que não lhe era desagradável...

E isso foi algo inesperado. Não havia trazido nenhum bem de valor consigo, exceto o colar com pingente de estrela que usava no pescoço e a mala com as poucas roupas que tinha haviam sido extraviada na sua viagem. Tinha pensado em voltar ao aeroporto da cidade para resolver isso mas os último incidentes o haviam impedido. Encontrou-se com o canceriano com as roupas do corpo e alguns documentos que trouxera numa pasta em suas mãos , apenas.

Queria poder ler um livro. Fazia-lhe falta... Esses pequenos momentos de leitura diária. Esperava que ele pudesse atender seu pedido apesar do atrito que tiveram anteriormente. Ajeitou a postura olhando para ele com o rosto vermelho. Por que tinha a impressão que estava se comportando como um perfeito pateta perto dele?

- Pode, mas espere eu terminar de lavar a louça que eu vou com você – o italiano terminou seu afazer rapidamente, havia pouca coisa na pia. Logo voltou e indicou que o menino o seguisse. Antes de irem para a biblioteca a campainha tocou, mas foi Shina quem tomou a frente para atender a porta.

– Não economize na gorjeta, eu sei como você pode ser sovina – a assistente soltou um resmungo e foi atender os dois rapazes que haviam chegado para trocar o vidro. – Vamos bambino... – então Máscara seguiu com Shun para a biblioteca. O italiano precisava fazer sua contabilidade e a sala de livros também servia como escritório particular. Sentou-se frente à escrivaninha e retirou alguns papéis da gaveta, pegou lápis, borracha, além de uma calculadora que ele raramente utilizava. Era bom de contas e fazia a maioria de cabeça, até as porcentagens. Focou no trabalho, deixando Shun à vontade para fazer escolher o livre que quiser. Afinal, só poderia ser essa a sua intenção ao pedir para ir até a biblioteca: ler um livro.

Shun acompanhou Máscara da Morte pelos corredores ainda se perguntando se não era uma miragem o que viu na cozinha. Ele tinha mesmo lavado a louça? Shina olhou feio para si quando se cruzou com ela. Credo! Como alguém podia fazer uma cara tão feia?! Tinha a sensação que ela iria pular em cima de si a qualquer momento. Era como se estivesse esperando pra dar o bote como um cobra espreitando sua presa. Passou reto evitando encará-la por mais tempo e seguiu o italiano silenciosamente. Chegaram á biblioteca e voltou a sorrir antecipando-se em direção ás estantes de livros próximos ás paredes. Deixou os dedos percorrerem os títulos quase com adoração. Adorava ler. Hum... Por qual título iria começar? Piscou os olhos percebendo que era observado pelo moreno da porta. Ficaram se olhando por um tempo e...

Tinha feito algo de errado?

Não conseguia decifrar aquele olhar...

- Qualquer coisa menos Shakespeare – Máscarasorriu fraco. Não era porque o menino ia embora que ele precisava ficar escutando suas metáforas sobre a vida como um palco de teatro. O garoto parecia viver fora da realidade, num mundo só seu, existente somente em sua cabeça. Com certeza os dois não falavam a mesma língua e se entendiam muito menos quando o autor inglês se interpunha entre eles. Percebeu que o japonês o mirava curioso e, enfim, se deu de que tinha mais o que fazer. Não era hora para ficar admirado com a beleza do japonês, ainda mais agora que havia decidido por mandá-lo de volta. Sacudiu de leve a cabeça como se para espantar algum pensamento inapropriado e dirigiu-se à escrivaninha para fazer o seu trabalho de contabilidade.

Shun ficou perplexo.

Um sorriso...

Tinha visto um sorriso no rosto do canceriano.

Um sorriso... Triste?

Desviou o olhar um tanto atordoado. Seus dedos acabaram por puxar da prateleira um livro de capa dura. Em letras de forma escrita em negro o título se destaca ao centro. Abriu o livro e verificou algumas marcas e dobraduras nas pontas de algumas páginas como se marcassem pontos-chave no texto.

Esse devia ser um livro importante... Pelo menos para Máscara.

Viu o canceriano de cabeça baixa atento á papelada que tinha em cima da mesa e andou vagarosamente até o sofá, abrindo na primeira página. Talvez descobrisse um pouco mais sobre o chefe da máfia italiana. Nem sabia porque se dava o trabalho de fazer isso. Talvez fosse mera curiosidade ou instinto.

- O Poderoso Chefão... - o oriental sussurrou baixinho antes de começar a leitura concentrada do livro em suas mãos.

O italiano estava imerso na contabilidade, alguns números não estavam batendo e não era a primeira vez que isso acontecia. Mais uma vez era no setor que seu primo Enzo administrava. Suspirou cansado, passando as mãos pelos cabelos negros. Enzo era família, mas estava claro, era também um traidor. Desviou por alguns minutos os olhos dos números e mirou o japonês sentado no sofá; o livro de Mario Puzo nas mãos.

– Boa escolha bambino – não escondeu um sorriso de satisfação. – Quem sabe agora não começamos a falar a mesma língua.

Já estava mais do que na hora de Shun sair daquele mundo no qual ele havia se escondido. Um mundo de erudição, cheio de floreios e rimas, que podia até ser muito belo, mas estava totalmente fora da realidade...

Fora da realidade de Shun.

Não era por menos que o garoto era tão ignorante a respeito do que acontecia à sua volta. A alegria estampada no rosto do garoto quando Máscara disse que o devolveria para o irmão denunciava sua inocência: Shun realmente pensava que estaria a salvo quando aportasse no Japão. Talvez aquele livro conseguisse trazer o garoto para o mundo real, nem que fosse por alguns instantes.

Deixando as divagações de lado o italiano voltou a focar no trabalho. Ele ainda exibia um leve curvar de lábios quando os olhos migraram para os papéis.

Shun olhou para o canceriano por entre os cílio longos.

Uma boa escolha?

Então sua intuição estava correta!

Esse livro deveria ser uns dos que ele mais apreciava.

Reparando bem na sinopse do livro o tema tinha tudo haver com a 'profissão' de Máscara da Morte. E mesmo ele, Shun, por fazer parte da Yakusa. Porém, não pode deixar de reparar no comentário seguinte.

Não falavam a mesma língua.

De fato, Máscara falava italiano e ele japonês.

Ok, desde quando era sarcástico?!

Sentia que seu humor flutuava a extremos em alguns momentos. Sabia muito bem que não era sobre isso que ele estava falando.

Visões de mundo diferentes.

Era disso que ele falava.

A verdade era que compartilhava o mesmo mundo que ele no entanto não queria participar dele. Não era o que queria para si. - Talvez eu já compreenda sua língua mas não conseguiremos nos comunicar se não quiser partilhar do meu mundo. - acabou imitando o sorriso de Máscara como que por reflexo.

- Só existe um mundo bambino. O mundo em que você vive é pura fantasia - falou sem nenhum resquício de ironia no tom de voz. Isolar-se da realidade a sua volta não a tornaria diferente. E a realidade era aquela que se apresentava nos papéis a sua frente: de entes queridos que traiam a própria família, de relações baseadas pura e simplesmente no dinheiro.

O italiano era como qualquer outro empresário; os negócios lícitos por vezes mais vis que os ilícitos, se é que existe tal de fato tal divisão. Para um homem como Máscara da Morte não existia alternativa a não ser seguir as regras do jogo.

Mais do que isso...

Ele tinha que ser o melhor jogador.

- NÃO É FANTASIA! - Shun disse em voz alta ainda sentado no sofá. Os olhos cobertos pela franja longa. - Não é errado acreditar em um mundo melhor. Não é errado acreditar nas pessoas. Acreditar que elas possam mudar. - falou mais baixo controlando sua respiração. Sentia uma agitação incomum aflorar em si. Sua visão ficou embaçada por um instante e esfregou os olhos incomodado.

- E o que você está fazendo para fazer do mundo um lugar melhor? – Máscara cruzou os braços frente ao corpo e recostou-se na cadeira. Fitava Shun intensamente, esperando pela resposta. – Nada, não é mesmo? Você não faz nada... Só fecha os olhos para aquilo que não te agrada. – sorriu sarcástico. – Você pode acreditar no papai Noel se quiser, mas isso não te garante um presente no final do ano.

Shun levantou do sofá, deixando o livro ali e andou calmamente até a mesa onde ele se encontrava. Apoiou as mãos na mesa e inclinou-se para frente, deixando seu rosto próximo ao do italiano - Você não sabe nada sobre mim, Máscara. - aproximou-se ainda mais dele sussurrando no ouvido dele.

- Nada. - seu tom de voz era mais profundo, mortalmente calmo mas que chamava a atenção.

A mudança de postura e no tom de voz não passaram despercebidas pelo canceriano. Fosse por instinto ou pela experiência adquirida ao longo dos anos, Máscara ficou em estado de alerta. A mão grande escorregou pela madeira da mesa, aproximando-se da gaveta na qual guardava a pistola. Todos seus pelos se eriçaram, a adrenalina a percorrendo o corpo e potencializando seus sentidos.

Estava em alerta ou...?

Talvez aquele sussurro ao pé do ouvido tivesse despertado outras sensações no italiano.

- Se eu fosse você não abriria essa gaveta. - o virginiano avisou estreitando os olhos ligeiramente ao perceber o sutil movimento. - Não estou com paciência para os seus joguinhos mentais hoje. Você tem sorte 'dele' estar interessado em você. - sim, não havia esquecido o incidente do banheiro. Por pouco não tomou o controle da situação naquele momento. Teria sido tão fácil... Deixou seus dedos percorrerem lentamente o pescoço do moreno, apertando a gravata que ele usava não forte o suficiente para estrangulá-lo mas o suficiente para sufocar seu pescoço e dificultar sua respiração.

- Comporte-se ou vou fazê-lo implorar por perdão. - sorriu com doçura ímpar, vendo o olhar dele petrificado encarando o seu. Afastou-se de Máscara ao ouvir o barulho de passos se aproximando da biblioteca com um sorriso no lábios como se nada tivesse acontecido. A porta se abriu repentinamente. Shina e um homem muito belo adentraram o recinto. Por enquanto o aviso dado ao italiano era suficiente. Esfregou os olhos mais uma vez e levantou sua visão vendo o homem de cabelos loiros se aproximar de si segurando seu rosto com as palmas das mãos.

Quem...

Quem era ele?!

O japônes corou absurdamente com a proximidade daquele desconhecido.

Continua...

Glossário do terceiro capítulo:

Hai – sim

Mangia che te fa bene! - Come que vai te fazer bem

nonna - avó

Io – eu

N/A:Mais um capítulo no ar! \o/ Espero que gostem. Elogios e críticas construtivas são sempre bem-vindas! ^^ Capítulo dedicado à que gentilmente nos enviou uma review no último capítulo. Até o próximo, minna! O/

Kissus,

Virgo no Áries