Bem-vindos novamente! Gostaria de agradecer mais uma vez ao meu fofíssimo amigo Cajango pela revisão e pelo review, e também agradecer a "Guest" pelo review! Gosto muito de casais "oficiais" mas também de casais inusitados... pois é possível explorá-los de forma bem ampla (além de instigar a criatividade). Bem, o Asmita está ema época em que os hormônios não colaboram para mantê-lo casto... e quem está sentindo isso na pele é Hakurei, há tanto tempo sem atender às necessidades do próprio corpo. Neste capítulo, creio que os leitores poderão compreender melhor porque ele tomou a decisão de não satisfazer aos seus próprios anseios, não apenas os do corpo... e também sobre a jeito de ser simultaneamente atrevido e reservado de Asmita. Mama Arjava é bem intimidadora, mas o pai dos rapazes se parece bem mais em personalidade com Shaka do que com Asmita. Preciso dizer mais alguma coisa sobre o quão intimidante ele pode ser? hehehehe Acho que o karma está pegando pesado com Hakurei, não que ele não mereça passar por situações semelhantes às que provocou no passado. Beijão a todos, boa leitura!

Cálido Amor

- Cego... – Hakurei fechou os olhos e suspirou longamente, imaginando como deveria ser dolorosa a iminência da cegueira para um garoto tão jovem. - É por isso que você está sempre solitário mesmo estando sempre rodeado de bons amigos? – Asmita arregalou os olhos, surpreendendo-se com as palavras de Hakurei.

- Eu não acho que tenha a ver... se pareço solitário, é porque prefiro observar os outros de longe. – O mais novo tentou disfarçar a própria dor, mas a voz lhe saiu um tanto falha.

- Você tremia quando estávamos na casa da sua mãe. Por que estava tão nervoso? Seria porque você parece adorar descobrir as fraquezas dos outros e apontá-las, mas não se sente confortável quando as suas próprias fraquezas são apontadas?

- Não sei do que você está falando. – Asmita insistia em tentar disfarçar, mas, ao encarar os olhos de Hakurei sobre si, pôde perceber que não havia saída. Ali, era como se o canceriano pudesse ver sua alma.

- Você nunca me enganou, nem uma única vez. Desde o princípio, eu soube que você escondia tristeza e solidão por detrás de tantas brincadeiras e sorrisos. Eu sempre soube que você não era o garoto constantemente alegre e extrovertido que parecia ser. Quando você me conheceu, parecia evitar o meu olhar. Quando eu observava você sorrir, você ficava estático por alguns instantes, antes de conseguir voltar a manter as aparências...

- É porque o seu olhar realmente me parecia... intimidador.

- Você ainda acha isso? – Hakurei retrucou instantaneamente, tocando o rosto dele.

- Não! Mesmo o achando intimidador naquela época, eu tive curiosidade de conhecê-lo melhor. Então, percebi que havia uma ternura disfarçada no seu olhar.

- Se é assim, por que não me conta logo o que está acontecendo? Por que tantos disfarces? Por que insiste em parecer forte se você está ruindo por dentro?

- Eu não... – Asmita ainda tentou negar, mas sentiu os olhos lacrimejarem quando Hakurei o puxou para mais perto de si, sentando-o no colo dele e envolvendo seu corpo em um abraço terno. Esqueceram-se dos poucos transeuntes que passavam por ali ocasionalmente, mais interessados na bela paisagem do que na conversa íntima do casal. – Eu só... – Não conseguia mais conter as lágrimas, que lhe escorriam pelas faces abundantemente enquanto pensava em como expressar para Hakurei o que sentia.

- Eu não quero ser um estorvo... nem para você nem para ninguém. Estão todos cuidando de mim o tempo todo e a única coisa que posso fazer, em troca, é oferecer um pouco de descontração. E se mantenho o meu sorriso é porque de nada adiantará se eu chorar. Não quero que tenham piedade de mim!

- Eu entendo! Mas conversar serve para desabafar. Ninguém precisa ser forte o tempo todo. Poucos são os que me viram chorar, mas não significa que eu nunca tenha chorado. Você afasta as pessoas que se preocupam com você. Não está fazendo o mesmo que você criticou em mim?

- É diferente! Eu não quero que saibam que eu tenho medo...

- Medo? – Hakurei limpava as lágrimas de Asmita com as pontas dos dedos calejados, esperando que o menor se recuperasse o suficiente para voltar a falar. Por outro lado, o tibetano sentia-se aliviado por notar que o outro finalmente havia resolvido compartilhar seus problemas.

- Tenho medo por nunca saber se amanhã continuarei enxergando. Tenho medo de abrir os olhos todos os dias pela manhã. Geralmente, acordo dando graças pelo dom da visão! Mas, às vezes, fico tão revoltado que me pergunto se essa agonia não teria passado se eu já estivesse cego de uma vez por todas! Eu não quero que ninguém precise suportar a minha tristeza além de mim! - Hakurei apertou o abraço ao sentir o corpo do jovem tremer ainda mais, acariciando-lhe as costas suavemente enquanto ele voltava a chorar.

- Você carrega um fardo pesado demais sobre os ombros, Asmita. Agora que você tem a mim, sabe que não precisa se esconder quando estiver nervoso. Eu o aceitarei independente de estar sorrindo ou não para mim. Não quero que sorria forçadamente quando estivermos a sós.

- E como eu não sorriria ao seu lado? – Asmita abriu um sorriso largo que transparecia a felicidade sentida em ouvir as palavras gentis de Hakurei. – Eu não precisarei fingir estar feliz, pois eu realmente estarei sempre feliz!

- Você tem um péssimo gosto! O que um velho decrépito como eu tem de interessante?

- Não, não acho que você seja decrépito. Pelo contrário... – O sorriso do jovem se modificou, demonstrando as segundas, terceiras, quartas e quintas intenções do rapaz.

- Você me lisonjeia dessa forma...

- Há mais uma coisa que eu gostaria que você soubesse. Não que me importe agora, mas acho que é algo que eu não posso omitir.

- Hum... e o que é ?

- A pessoa que eu amava antes de conhecer você... – Fez uma pausa dramática - Era o Shion.

- O QUÊ? SHION? Meu irmão é casado! – Hakurei estava boquiaberto.

- Sim, eu já havia mencionado que o meu antigo amor platônico era um homem casado. Mas, não tenho certeza de que Shion percebeu o que eu sentia por ele, ou, se percebeu, fingiu não saber. Dohko é quem não vai com a minha cara, e, de certa forma, não tenho como tirar a razão dele, embora, ache que ele tenha exagerado bastante, pois eu nunca sequer pensei em me declarar para Shion.

- Então é por isso... – Hakurei estava boquiaberto, compreendendo, agora, os motivos para Dohko sempre tratar Asmita com rispidez, diferentemente da forma como tratava a todos os demais amigos de Mu, inclusive o 'intragável' Shaka. Hakurei, por sua vez, sempre ameaçava Dohko com olhares nada amigáveis, quando o percebia prestes a dar uma má resposta a Asmita, momentos em que Dohko ficava mudo e se afastava.

- Eu me sentia mal por amar um homem casado, mas não conseguia deixar de amá-lo. Era uma situação nada agradável da qual eu pensava não ser capaz de escapar. Mas, quando o meu olhar encontrou o seu, não sei explicar o que eu senti. Eu já havia visto o seu irmão gêmeo muitas vezes e sempre o achei um homem formoso, mas... nada de especial me atraía nele.

- Você estava de olho no Sage também? – Hakurei estreitou os olhos, se mordendo de ciúmes.

- Por Buddha, eu ainda não terminei! Eu apenas achava Sage bonito. Nunca me interessei por ele! Aliás, você já se interessou por Shaka? E não vá dizer que o meu irmão gêmeo é feio! – Hakurei torceu o nariz ao se lembrar de Shaka, mas não pôde negar que, fisicamente, o garoto era tão bonito quanto Asmita.

- Quando vi você pela primeira vez, de costas, imaginei que fosse Sage. Porém, quando você se virou e me encarou com um olhar inquiridor, eu logo percebi que se tratava de outra pessoa; uma pessoa que me encantou desde aquele momento, por mais que eu tivesse demorado um pouco para perceber. Mas, a certa altura, eu tanto percebi que já não me incomodava mais ao ver Shion e Dohko juntos quanto que havia passado a procurar Shion com o intuito de sondar quando você viria visitá-lo novamente. Assim, quando eu soube que você havia decidido se mudar para Londres, minhas esperanças começaram a surgir... e, lógico, não pude deixar de me aproveitar da sua viagem para passar um tempo a sós com você.

- Você não sente nada pelo Sage? Não sente mais nada pelo Shion? – Hakurei encarou Asmita com receio, recordando-se de que Sage era muito mais popular com as mulheres do que ele próprio, que não tinha a mesma paciência que o gêmeo para lidar com outras pessoas. Também, temia que os sentimentos de Asmita por Shion retornassem alguma hora. Não gostaria de perder o jovem que o havia feito perder o juízo.

- Nunca senti nada pelo Sage além de simpatia, e não sinto mais o amor que sentia por Shion. Eu admiro muito o Shion por tudo o que ele conquistou, apesar das dificuldades, e por ter sido o melhor pai que Mu poderia ter, mas já não o amo como homem. O único homem que eu amo é você. E para ser sincero... não acho que eu e Shion teríamos dado certo, mesmo se ele não fosse casado. Não teríamos química nenhuma! Basta observá-lo com Dohko...

- Como assim? O que você quer dizer?

- Sério que você nunca percebeu? Vejamos! Shion é muito mais alto que Dohko, e muito mais bravo também, o que pode enganar à primeira vista, mas é completamente submisso. A forma como ele se aproxima de Dohko, ou como o olha... é muito claro que Shion é a parte passiva daquele casal. Portanto, não é o tipo de homem que me atrai. Você é diferente, completamente diferente. Você, sim, tem tudo o que eu procuro em um homem. – Asmita sorriu de canto, arranhando os ombros de Hakurei de leve.

- Shion? Parte passiva? Você quer dizer que... – Hakurei mal prestava atenção nas unhas de Asmita em seus ombros.

Arregalou os olhos para, em seguida, estreitá-los. Naquele instante, teve a certeza de que esganaria Dohko, ou decapitaria o membro dele com uma katana, se o chinês aparecesse em sua frente. Nunca havia parado para pensar seriamente em quem se submeteria a quem naquela relação, mas sempre supôs, ou preferiu acreditar, que Shion seria a parte ativa, justamente por ser tão mais alto e imponente que o marido. Mas, de fato, Asmita havia dito uma verdade: quando se tratava de Dohko, Shion sempre se amansava. Como um argali diante de um tigre, Shion tornava-se incrivelmente dócil na presença do marido.

- Por que você teve de dizer isso? Eu não quero pensar na vida sexual do meu irmão mais novo! Eu troquei as fraldas daquele maldito! – Asmita riu das feições de Hakurei, que estava com o rosto completamente vermelho.

- Desculpa! Eu só fiz esse comentário para esclarecer o que eu sentia em relação ao Shion e para tranquilizá-lo também, mas... confesso que a sua cara agora foi impagável! - Enquanto Asmita ria com gosto, Hakurei chegava a tremer o cenho de tão franzido que estava.

- Pare com isso, amor! – Asmita encostou a sua testa na testa do maior, beijando-lhe os lábios, o que foi suficiente para amansar a fera. Hakurei também ficou um tanto encabulado por ter sido chamado de 'amor', o que fez com que suspirasse e abraçasse o outro fortemente em resposta.

- Papai, olha uma moça vestida com roupas de garoto! – Um garotinho que passava perto de Hakurei e Asmita comentou, para surpresa do casal. Foi quando o mais jovem desceu do colo do mais velho para voltar a se sentar ao lado dele, com um sorriso divertido nos lábios.

- Acho que você deve ter razão em afirmar que pareço uma mulher, quando vestido com roupas folgadas. Mas, falávamos a respeito de Shion e Dohko... – Asmita tomou uma mecha lilás entre os dedos, brincando com ela enquanto esperava que Hakurei retomasse o assunto,que acabou sendo interrompido pela família que havia se aproximado.

- Falando neles, será difícil conversar com Shion a respeito de nós, mais do que será com Sage. Já que você me contou tanto sobre seus anseios e medos, acho justo que eu lhe conte sobre as coisas horríveis que eu disse e fiz para os dois. Caso Shion venha a me condenar por estarmos juntos, eu não tenho o direito de me defender. A postura dele será mais do que justa, aliás! Eu não tive nenhum tato ou tolerância antes de transformar a vida do meu próprio irmão e de nossa família em um verdadeiro inferno. Fiz com que ele precisasse abandonar o nosso país às pressas. Fui um irmão terrível para ele...

- Se quiser realmente me contar, eu o escutarei sem julgamentos, até porque o Hakurei que eu conheci, certamente, já não é o mesmo Hakurei de tantos anos atrás. Se você reconhece que foi um irmão terrível é porque se arrependeu verdadeiramente e procurou corrigir os seus erros. - Asmita acariciou a face de Hakurei com as costas da mão direita, mirando-o com atenção.

- O início de toda essa história você já conhece, assim como o fato de que a mãe do Mu os abandonou por não suportar os boatos que corriam no vilarejo. Shion, já naquela época, passava o tempo todo com o filho amarrado em seu ventre, mesmo quando estava esculpindo suas esculturas, e o bebê adormecia tranquilamente quando estava com ele. Dohko, por sua vez, sempre teve uma afeição especial por Mu, tanto que passou a ajudar Shion a cuidar da criança. Os dois começaram a viver juntos, alegando dificuldades financeiras, mas todos no vilarejo sabiam que era mentira. Então, novos boatos começaram a correr... – Asmita suspirou, vendo a expressão de Hakurei se tornar bem mais pesada do que o normal.

- Eu decidi que descobriria a verdade sobre o relacionamento deles. Um dia, quando Sage estava no vilarejo para nos visitar, eu pedi que Shion deixasse Mu aos cuidados de minha esposa, para que Sage pudesse passar mais tempo com o pequeno também. Depois, esperei que Dohko e Shion fossem para casa e eu fui logo atrás deles, entrando sem que percebessem a minha presença. Para a minha surpresa, ou nem tanto, peguei os dois aos beijos... – Hakurei suspirou longamente, fazendo uma pausa. Asmita não ousou interrompê-lo, para fazer quaisquer perguntas, ouvindo a tudo atentamente.

- Eu perdi a cabeça naquele momento. Comecei a gritar impropérios e, quando dei por mim, já não conseguia parar de agredir ao Dohko. Apesar de saber muito bem como se defender e atacar, Dohko não se movia nem se esforçava para escapar, pois temia que eu descontasse a minha raiva no meu irmão, caso não o conseguisse fazer com ele. Shion apenas chorava, implorando que eu soltasse Dohko, já que não conseguia levantar a mão contra mim, afinal, eu era como um pai para ele. Eu não sei o que teria acontecido, digo, caso Sage não chegasse naquele momento e me empurrasse para longe, atirando-se, depois, para cima de mim, no que rolamos no chão e nos esmurramos até que nossos rostos estivessem cobertos de sangue.

Asmita tomou a mão de Hakurei entre as suas, beijando-a e apertando-a fortemente em sinal de apoio ao amado. Os olhos de Hakurei fixaram-se nos de Asmita e marejaram-se, como que incrédulos pelo fato de o mais jovem não aparentar estar nem um pouco aterrorizado com a sua confissão. Muito pelo contrário, Asmita parecia compreendê-lo, e isto lhe causava ainda mais dor. Preferiria que o mais jovem o repreendesse, o julgasse, ou o tratasse como o ser terrível que sempre julgara ser. Na mente de Hakurei, era errado ser amado por alguém depois de ter cometido tantos erros em sua vida. Era errado aceitar sua própria felicidade depois de ter destruído a felicidade de outras pessoas. Suspirou longamente, tentando afastar aqueles pensamentos momentâneos e voltar a contar sobre seu passado a Asmita, apertando levemente as mãos do jovem.

- Apesar de estar apanhando injustamente, Sage ainda me sacudia e implorava para que eu voltasse a mim e parasse com as agressões. De nada adiantou! Eu comecei a gritar que tiraria Mu do pai dele... gritei ao Shion que ele que não era homem suficiente para cuidar de uma criança. Shion, nessa hora, se jogou aos meus pés, implorando novamente, mas não mais por Dohko, e sim para que eu não tirasse Mu dele. Não notei a aproximação de Sage, que esbofeteou o meu rosto, na tentativa de fazer com que alguma fagulha de consciência ainda reagisse na minha cabeça, então apenas me levantei e avisei que não devolveria Mu, deixando todos para trás.

Asmita estava catatônico, tentando imaginar a cena. Hakurei e Sage possuíam, ambos, 1,92m de altura; eram fortes e de musculatura definida, já que praticavam kendo e outras artes marciais. O menor imaginava que um único soco de um deles certamente não deveria fazer pouco estrago no corpo ou rosto de alguém.

Diante daqueles fatos, Asmita chegou até mesmo a sentir menos antipatia por Dohko, por saber que o chinês havia sido capaz de tolerar os socos de Hakurei sem reagir, apenas para proteger Shion. Quem deveria ter saído muito machucado daquele confronto eram os gêmeos, Hakurei e Sage, uma vez que compartilhavam da mesma força. De qualquer forma, o mais jovem imaginava que deveria ter sido desesperador, para Dohko e Shion, presenciar uma cena como aquela: os gêmeos se atracando violentamente até sangrarem pelos ferimentos que causavam um ao outro.

- Quando retornei à minha casa, contei o ocorrido à minha esposa e discutimos fervorosamente, pois ela queria que eu devolvesse Mu para Shion e pedisse desculpas tanto a Sage quanto a Shion e Dohko. Não demorou e Sage também apareceu, igualmente ensanguentado, o que fez com que minha esposa começasse a chorar, chamando-me de covarde e dizendo que ia embora com as crianças, ao menos até que eu voltasse a ser o mesmo de antes. Eu fiquei tão assustado que não consegui fazer nada. Enquanto isso, ela e Sage pegaram Tokusei, Yuzuriha, Mu e Atla, e pediram a um carroceiro do vilarejo que os levasse até uma cidade vizinha, para se refugiarem até que eu voltasse a mim.

Hakurei fez mais uma pausa, ainda maior e mais pesada do que a outra, e Asmita logo percebeu todo o remorso do mais velho frente àquelas lembranças, notando que ele parecia preparar-se para contar o que ainda havia acontecido mais adiante, depois de toda a confusão. O mais jovem até já havia escutado a mesma história de Mu, mas o amigo era muito novo para se lembrar de tudo o que ocorrera naquela época e, pelo visto, não tinha conhecimento da briga de Hakurei com Dohko, Shion e Sage. Mu havia sido poupado de maiores detalhes.

- A carroça que os levava para a cidade vizinha tombou num desfiladeiro, e todos caíram bem próximos ao rio que circundava a estrada. O carroceiro bateu com a cabeça em uma pedra e morreu na hora. Sage conseguiu proteger Mu e Atla, e Yuzuriha foi achada, por Sage, já dentro da água; ela estava abraçada ao corpo da mãe, para não se afogar. Tokusei não teve a mesma sorte, pois Yuzuriha o viu ser levado pela correnteza, aparentemente desmaiado. Nós nunca conseguimos encontrar o corpo dele, para cremá-lo... por mais que tenhamos procurado. – Asmita não sabia o que fazer ou dizer, não ao deparar-se com os olhos de Hakurei cheios de lágrimas de remorso. Imaginou o quanto Hakurei deveria ter chorado sozinho durante todo aquele tempo, culpando-se pelo acidente.

- O meu irmão, que ainda tinha o rosto inchado e cheio de hematomas pelos ferimentos que eu mesmo havia causado, abraçou-me aos prantos, pedindo-me perdão por não ter conseguido salvar minha esposa e meu filho. Naquele momento, eu senti o mundo inteiro despencar sobre os meus ombros... a culpa foi inteiramente minha! Eu matei minha esposa e meu filho! O karma tratou de me mostrar, e da pior forma, que aquele que fere será igualmente ferido... tanto que tirou de mim o meu precioso filho, depois que eu tentei tomar o filho do meu irmão.

Asmita foi contagiado pelas lágrimas que escorriam pelo rosto de Hakurei, percebendo nos olhos do mais velho toda a tristeza que este sentia.

- Você acha que eu realmente mereço ser feliz, mesmo depois do que eu fiz? Que eu mereço perdão? Eu pedi perdão ao Sage e ele me perdoou, mas não consegui pedir perdão a Shion e Dohko, porque sei que não mereço. Peço perdão à minha esposa e Tokusei todos os dias diante do oratório, mas sei que eles também não me perdoariam.

- Não fale assim, Hakurei! Você errou, mas não tinha como prever o que aconteceria. Você não teria feito nada daquilo, não se imaginasse as consequências pelas suas atitudes. E, mesmo assim, depois de tudo você não fez o que pôde pelos seus filhos? Não tem vivido em tempo integral por eles e por sua família? Você não aprendeu a tolerar o seu cunhado apesar de não aceitar o relacionamento dele com o seu irmão?

- Eu fui um covarde! Foram as últimas palavras que eu escutei dela. Jurei que nunca mais teria mulher alguma, que não amaria e nem erraria novamente. – Hakurei cerrou os olhos, tentando conter a emoção que transbordava de tantas feridas ainda abertas. – Eu tenho medo de ferir você, de perder a razão em um rompante de raiva e lhe causar algum tipo de sofrimento.

- Isso não vai acontecer, você nunca irá me ferir! E eu sei que ela também não te achava um covarde, embora, eu não a tenha conhecido. Com certeza, ela só disse aquilo porque estava assustada e queria que você repensasse o que havia feito. Ela não diria o mesmo se soubesse que não teria a oportunidade de retirar suas palavras ainda em vida, eu acredito nisso! Você não deve remoer o passado mais do que já tem remoído. Você continua vivo e precisa continuar vivendo. Acha que sua esposa e seu filho ficariam contentes por vê-lo tão triste assim? Você já sofreu demais todos esses anos, precisa se perdoar de uma vez por todas!

- Acha mesmo que eu realmente mereço algum perdão?

- É claro que acho! Tenho certeza de que eles já o perdoaram, só falta você se perdoar também! Além disso, sei que sua esposa ficaria orgulhosa se você também pedisse perdão a Dohko e Shion. Você poderia considerar fazer isso algum dia?

- Sim! Mas, eu preciso de tempo. Não sei como dizer isso a eles...

- Então, diga por meio de atos enquanto não conseguir dizer por meio de palavras.

- Às vezes, eu me pergunto: você tem mesmo dezessete anos? Como consegue ser tão maduro nessas horas? – Hakurei suspirou, levando a mão até a franja de Asmita, para afastá-la do rosto do menor, querendo ver aqueles olhos que tanto o fascinavam.

- Eu disse que não sou nenhum pirralho, mesmo que ainda não tenha completado a maioridade!

- Talvez, eu possa reconhecer isso em você. – Hakurei pensou alto, aproximando os lábios de uma das orelhas do menor, fazendo com que este se arrepiasse.

- Não tem jeito... pirralho ou não, eu te amo! – Asmita demorou um pouco para conseguir se mover e corresponder ao beijo cálido de Hakurei, mal conseguindo se conter de tanta felicidade após ouvir a declaração do tibetano. - Você ainda me ama, mesmo sabendo de tudo isso? É capaz de amar um homem como eu?

- Sim, eu o amo! Ainda mais por saber o quão forte você é, depois de ter suportado toda essa dor sozinho e de ter tentado compensar os seus erros tão ferrenhamente. É um grande homem, um grande pai, um grande irmão... você pode ter magoado os seus irmãos em um momento de fúria, mas tenho certeza de que ninguém teria tomado conta de Shion como você, nem sido tão amigo de Sage como você foi a vida inteira. Veja! Sage também errou no passado e machucou várias pessoas que eram importantes para vocês, e, ainda assim, você nunca o culpou. Não foi?

- Não teria como culpá-lo, pois quem mais sofreu e ainda sofre com o erro dele... é ele mesmo. Ele finge não sofrer mais e nós fingimos que não percebemos. Deve ser horrível não conseguir nem mesmo um abraço do próprio filho. Tenho certeza de que foi por isso que ele resolveu adotar aquele trombadinha... – Asmita revirou os olhos, sem entender a birra de Hakurei com o pequeno Manigoldo.

- Não chame o garoto de trombadinha. Lembre-se de que ele não é mais um menino de rua que rouba para sobreviver, e Sage tem ensinado bons modos a ele. Nunca parou para imaginar nas coisas que aquele garotinho deve ter passado nas ruas antes de tentar roubar seu irmão e ser acolhido pelo mesmo ao invés de ser repreendido? Imagino que aquela tenha sido a primeira vez em que ele foi tratado como uma criança comum, e não como um pivete.

- Eu só não quero que meu irmão se decepcione com ele. Não sabemos se o garoto é de confiança.

- Ele não irá decepcionar o seu irmão, você verá! Os olhos do Manigoldo brilham quando ele está com Sage. O garoto está se esforçando para melhorar!

- Assim espero! Caso ele se torne um bom garoto e satisfaça os instintos paternais de Sage, será perfeito! Não quero ver o meu irmão quebrar a cara novamente, ele já ama aquele garoto como se fosse sangue dele. – Hakurei suspirou, conformado. Esperaria o decorrer do tempo para tomar maiores conclusões sobre o filho adotivo do irmão.

- Aparentemente, todos foram embora almoçar... – Asmita mudou de assunto, estranhando a ausência de grande parte das pessoas que havia naquele parque até minutos atrás. – O primeiro local da lista de fornecedores fica próximo a um excelente restaurante. Que tal?

- Perfeito. – Para a surpresa de Asmita, Hakurei se aproveitou da ausência de 'plateia' para beijá-lo mais uma vez, levantando-se em seguida para seguirem rumo ao almoço e às primeiras negociações com os fornecedores. O mais jovem foi repetidamente confundido com 'esposa' do mais velho, tanto que o próprio Hakurei teve de concordar que era mais fácil dar uma resposta pronta do que explicar quem era Asmita, e o que fazia juntos. Ao final do dia, tinham comprado rubis, esmeraldas, safiras, tanzanites, opalas, granadas e diamantes, além de pesquisado o preço do ouro em diversos estabelecimentos.

Chegaram exaustos ao hotel, mas Hakurei estava surpreso com a habilidade de Asmita em administrar as visitas e discernir intuitivamente quais pedras eram mais valiosas do que outras, depois de observar-lhes o brilho e a transparência, apresentando um talento natural para identificar minúsculos detalhes nas nuances de pedrarias. A presença do garoto certamente havia lhe facilitado o trabalho, além de ter atenuado o seu estresse em avaliar tantas pedras de qualidades e cores diferentes.

- Tenho uma boa desculpa para nos aproximarmos em Londres, digo, sem levantarmos suspeitas imediatas de nossos familiares sobre nosso relacionamento. O que me diz de ser meu assistente? Atla tem aprendido muito bem o meu ofício, mas está sempre ocupado em outras tarefas e não procuro forçá-lo demais, pois ainda é muito jovem. Shion aprendeu com excelência o ofício de nossos pais, mas não demonstra interesse nenhum em abandonar suas enormes esculturas para trabalhar com peças pequenas. Enfim... temos muito trabalho na joalheria, mas nunca deleguei nenhuma função. Você poderia me auxiliar no contato com fornecedores e escolha de materiais para as peças.

- Hum... e com isso eu poderia ficar perto de você e apreciar o belo trabalho que você faz. Não sei se conseguirei corresponder às suas expectativas profissionais, mas posso assegurar que tratarei de mantê-lo menos estressado nas horas vagas. Adorei a ideia! – Asmita sorria, aproximando-se perigosamente de Hakurei. Quando já estava bem próximo, deslizou alguns dedos pela fita vermelha com a qual o mais velho prendia o cabelo, desamarrando-a. Depois, subiu com os dedos pelas têmporas do mesmo, enquanto era apenas observado, e, então, ergueu-se na ponta dos pés e murmurou no ouvido do maior:

- Irei preparar o nosso banho, já volto.

- Nosso banho? – Hakurei demorou alguns instantes para assimilar a frase, sentindo o rosto queimar tão logo compreendeu as palavras do mais novo.

- É desperdício uma banheira tão grande não ser utilizada depois de um dia cansativo, não acha? E temos essências... qual delas você prefere? Jasmim? Lavanda? Alfazema? Alecrim? – Asmita perguntava já indo em direção ao banheiro, sendo seguido por Hakurei.

- Mas não significa que tenhamos de tomar banho... juntos! – Hakurei estava em pânico, percebendo que havia caído em mais uma das artimanhas do garoto, que procurava forçar um maior contato íntimo entre eles.

- Não, mas é mais agradável assim. – O jovem abriu as torneiras de água quente e fria, ajustando a temperatura, para, em seguida, adicionar uma das essências. Sentou-se na borda da banheira, ao mesmo tempo, desfazendo-se das próprias tranças e olhando intensamente para Hakurei.

- Mas... não é apropriado, Asmita!

- Por que não? Já dividimos a mesma cama. Por que não seria apropriado dividirmos a mesma banheira?

- Estávamos vestidos na cama!

- Ah! Essa é a sua objeção? Que mal há em ver outro homem nu? Ou devo dizer... que mal há em ver o seu namorado nu?

- Pelos deuses, eu já disse! Não é apropriado!

- Por que não? Não me diga que o desagrada a ideia de verificar, por si mesmo, que as minhas partes íntimas são masculinas, por mais que minhas feições insinuem o contrário...

- Não é isso!

- O que é então, Hakurei? Qual o problema? – Asmita terminou de desfazer a trança, começando a desabotoar os botões do sherwani. Hakurei parecia hipnotizado pela bela imagem dos longos dedos delicados do jovem deslizando pelos botões vermelho-escuros da vestimenta que usava, tanto que se ajoelhou frente à Asmita, para ambos ficarem da mesma altura.

- Não tenho como responder por mim se entrarmos nessa banheira juntos... não conseguiria apenas observá-lo enquanto se banha.

- Então me toque... – Asmita murmurou, deslizando as mãos pelos cabelos macios de Hakurei, segurando-os para ver melhor os olhos bem puxados que o observavam com encanto.

- Não posso! Você não tem sequer dezoito anos... como eu poderia? E essas coisas devem ser feitas apenas por pessoas casadas! – O mais velho se sentia angustiado com aquela situação.

- Faço dezoito daqui a dois meses. Não é relevante? Não é como se você fosse tocar uma criança... e as pessoas hoje em dia não esperam pelo casamento para fazerem 'esse tipo de coisas'. Você está um tanto desatualizado quanto a isso...

- Mas como eu o levaria ao hospital, caso o machucasse? O que diria aos médicos? Por causa desses dois meses, poderíamos arruinar tudo. A lei não se importa se faltar apenas um dia para você completar dezoito anos. Continua sendo proibido.

- Dois meses é tempo demais para esperar, Haku... – Asmita suspirou longamente, mordendo os lábios pela ansiedade. – Não tem como fazermos algo sobre isso? Não precisamos ir até o fim... mas, eu ficarei louco se continuarmos do jeito que estamos.

- Como assim? – Hakurei sentiu o rosto ferver – e não era pelo vapor da água com fragrância de jasmim que se espalhava pelo recinto – ao escutar a proposta ousada do jovem.

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FIM DESTE CAPÍTULO

GOSTOU? MANDE REVIEW!

MUITO OBRIGADA,

NATHALIE CHAN