O que você está vendo?
Um pássaro... Voando livre pelo céu.
Você gostaria de voar?
Não... Apenas sinto INVEJA dessa liberdade.
[ O Guardião da Floresta ]
Tudo estava desabando, caindo sobre a grama, as pedras, a terra, e até sobre animais inocentes. As árvores caíam com ninhos de pássaros e tocas nos troncos, cheios de comida e alguns até com ovos e pequenos pássaros recém nascidos. Mas ninguém se importa. Afinal, eram apenas alguns animaizinhos insignificantes.
Dezenas de tratores passavam derrubando essas árvores no seu caminho, formando um extenso fronte de destruição florestal, impiedoso e implacável. Atrás destes haviam outros tipos de tratores que pegavam os troncos das árvores deixadas de lado e levando para fora da área, criando assim uma enorme clareira.
Todas essas máquinas, assim como os homens que as controlavam, recebiam ordens de um outro indivíduo um pouco afastado da área, segurando um rádio comunicador e usando um terno de negócios. Ao seu lado também haviam dois outros homens, aparentemente também com certa autoridade no local. Um ficava à esquerda do chefe e era um homem com um moletom cinza e um capacete de demolição. Já o terceiro cara estava do lado oposto, segurando um rifle em suas mãos e com um traje camuflado de caça.
Claramente estavam trabalhando juntos nesta operação de limpeza da floresta. Não se importavam que a floresta Nalamar era, por lei, preservada de qualquer limpeza como está. Para eles, são apenas negócios, uma simples expansão do território urbano do país Basol.
Agora já abriram uma área imensa, sem considerar as áreas tomadas de pequenos vilarejos rurais aqui e ali. Quanto aos cidadãos desses vilarejos, eles eram aprisionados e forçados a assistir enquanto seu lar e os animais eram destruídos e sacrificados.
"Neste ritmo vamos terminar daqui a meia hora." O homem de moletom informa ao chefe, olhando um mapa da área.
"Perfeito! Sabia que podia contar com os seus serviços." Ele repousa seu braço sobre o ombro do chefe dos demolidores. Isso o deixa levemente desconfortável, mas não reclama. "E quanto aos nossos amiguinhos lá atrás, Kiko?"
Com 'amiguinhos' obviamente se referia aos nativos da floresta, sejam indígenas ou habitantes de pequenas vilas próximas. Todos foram trancados em jaulas de metal originalmente feitas para animais de grande porte, então não só estavam sendo forçados a assistir a destruição de Nalamar como fugir ou resistir era impossível.
Kiko, o caçador, caminhou até onde eles estavam sendo mantidos, com as jaulas na parte de trás de vários caminhões. Ele batia a boca do rifle nas barras, assustando os reféns com sua chegada.
"Comé que cês tão, rapaziada? Ninguém tentando fugir, eu espero, ou vão ter que ter uma conversinha com minha amiguinha aqui, tenderam?" Apontava a arma em sua direção, sem intenção de atirar, mas deixando claro que não hesitaria.
Ninguém o respondeu. Apenas ficaram em silêncio, olhando o chão ou se encolhendo de medo agarrados uns aos outros. Isso divertiu Kiko, que logo voltou para seu grupinho e se sentou no toco de uma árvore derrubada, usando a arma como apoio para o braço em seu colo.
Porém, agora que não estavam sendo observados, os reféns voltavam a tentar se libertar. Chutavam, empurravam, batiam suas cabeças, mas nada surtia efeito na fechadura robusta. Nem mesmo o maior e mais musculoso deles foi capaz de causar qualquer dano.
Suas esperanças já estavam sendo destruídas; estavam rodeados por destruição e não podiam fazer absolutamente nada além de chorar e se estremecer. Todos se perguntavam: quem poderá nos defender e defender sua floresta?
Foi então que viram um raio de luz, uma esperança...
Na verdade, era uma flecha. Uma flecha de luz que veio voando em alta velocidade para atingir a fechadura e a destruir sem problemas. Os nativos olharam brevemente, e parece que os seus raptores não notaram, então eles saíram e começaram a usar essa flecha para resgatar os outros.
Uma vez soltos, alguns dos nativos tentaram se aproximar do homem engravatado para um ataque surpresa, querendo se livrar dele e, consequentemente, terminar o desmatamento. De repente, uma densa névoa surgiu, cobrindo o local e reduzindo severamente a linha de visão de todos. Confusos, ambos os três homens e os nativos olhavam ao redor sem se encontrar, quando logo ouvem uma voz feminina e valente, como a de um herói.
"Onde quer que os ricos tirem dos outros, eu estarei lá para expô-los!" A voz veio de várias direções diferentes, tornando-se impossível de rastrear. Enquanto olhavam para todas as direções, Kiko viu uma veloz flecha atravessando a névoa e indo em sua direção. Ela o teria atingido se ele não bloqueasse com seu rifle, que acabava sendo partido em dois.
E depois, quando ainda estava desorientado, uma figura não identificável caiu dos céus bem no meio dos três, fazendo uma rasteira que derrubou todos no chão antes de desaparecer novamente. O homem com o capacete tremia descontroladamente quase ao ponto de chorar, já o chefe apenas parecia furioso se levantando.
Quando a névoa finalmente se desfez na área, uma figura nova estava de pé no topo dos caminhões. Uma raposa de nove caudas e pelos brancos lisos vestindo uma simples túnica e capuz verdes. Em suas mãos havia um lindo arco preto e flechas brancas de luz. Ela sorria confiantemente, encarando-os.
"Quem diabos é essa vadia peluda?!" O engravatado berrou, apertando seus punhos.
"Diabos não, eu sou uma anja. Pode me chamar pelo meu velho apelido; Robin Hood!" Com um longo salto a raposa aterrissou na frente dos três, imediatamente chutando o chefe e o jogando novamente ao chão, e apontando uma flecha para os outros dois. "Agora, parem os tratores!"
"N-não podemos! Eles só vão obedecer o chefe, e ele está com o comunicador." Ela olha brevemente para o homem que derrubou e, de fato, o rádio comunicador ainda estava em suas mãos.
"Pegue." Ela comanda, para o que o rapaz perguntou "O que?", e ela respondeu com "Você me ouviu. Pegue o comunicador e faça os tratores pararem."
Sua voz o deixou com mais medo, um incentivo para obedecer. Entretanto, ele mal o pegou e imediatamente o jogou com toda a sua força ao chão, destruindo-o e partindo em pedaços.
Neste momento de surpresa, Kiko aproveitou para puxar uma faca de sobrevivência e avançar em sua direção, atingindo o pescoço dela com a faca, porém sem causar qualquer reação em sua pele. O ataque chama sua atenção, e a raposa reage acertando um chute que mandou-o pelos ares exatamente como fez segundos atrás.
O último de pé decidiu não se arriscar. Ele se ajoelhou no chão, braços erguidos, e se deitou na terra com o rosto para baixo. Sem parar ele ficava pedindo desculpas por destruir o comunicador e implorando por perdão.
Robin Hood, como ela se chamou, chacoalha a cabeça sabendo que não valia a pena agredir este homem amedrontado. Ela transmitiu o mesmo pensamento para os nativos, que acabaram assistindo tudo.
"E agora, como parar os outros..." Coça o queixo com suas curtas garras, observando o avanço destrutivo dos demais humanos. Mesmo com suas habilidades como anja, sozinha não tinha como salvar a floresta sem que mais estrago fosse feito no meio tempo. Sendo assim, ela só tinha uma opção... "Vou precisar do grandão."
Se vira para trás, vendo os nativos assustados e lentamente recuando dela. Sem tempo a perder, Robin correu por entre eles, passando direto e voltando até os caminhões com jaulas. Ela sobe em um, então prepara seu arco e flecha e mira aos céus, disparando sua flecha luminosa até perfurar as nuvens.
[•••]
Os tratores continuam destruindo tudo em seu caminho sem misericórdia, seja planta ou animal. As pessoas dentro das máquinas não demonstravam remorso algum, tinham expressões neutras e desinteressadas, alguns até mesmo com um pequeno sorriso.
Nem quando viram um estranho feixe de luz atravessando as nuvens eles pararam, apenas encararam por alguns instantes com alguma curiosidade.
Por consequência, um deles acaba batendo o trator em uma rocha gigante. O impacto repentino o fez ser jogado um pouco para frente, não o suficiente para bater, mas o alertou sobre o objeto rochoso cinzento. A rocha era bem maior e mais larga que o próprio trator, chegando a pouco mais de cinco metros de largura e pouco mais de três metros de altura.
"Huh. De onde veio isso?" Começa a dar ré com o trator e então contornar a pedra para continuar o desmatamento.
Só que enquanto fazia esse contorno, a terra começa a se estremecer violentamente. O homem dentro do veículo instintivamente se segura no seu assento e olhou em volta, procurando a possível causa do terremoto. E como ele queria, o responsável estava em plena visão.
A rocha gigante lentamente se erguia do chão, o que causava toda esta tremedeira em área. Um a um o homem viu várias outras rochas menores se juntando, formando duas grandes pernas, uma virilha, dois longos braços com dedos grossos e uma cabeça olhando para outra direção.
Agora era a vez do corpo do humano de se estremecer, vendo este gigante feito de pedra se levantando do chão e causando tantos danos apenas com seus movimentos. Ele desesperadamente desatou o cinto e desceu, querendo correr para longe da criatura.
O monstro então se vira em sua direção, a mesma que o resto dos tratores seguiam, observando-os destruindo a floresta com um único olho ciano brilhante e enorme. A pupila do olho se iluminou muito mais do que o normal, espalhando seu brilho ciano pelo resto do seu corpo rochoso.
Por fim, com um forte golpe de seu punho, o ciclope de pedra partiu a terra e abriu uma grande vala que rapidamente se estendia pelas ondas do impacto. Esta vala surgia diretamente na frente dos tratores, fazendo com que todos caíssem nela e ficassem presos, portanto incapazes de prosseguir com o desmatamento.
Já o homem que saiu de seu trator acabou ficando parcialmente soterrado na vala, preso pela enorme quantidade de terra sobre seu corpo, com exceção da cabeça e do braço direito. Ele grunhiu de dor, mas logo que percebe sua situação começa a gritar por ajuda.
Dado o peso sobre si, ele tinha grande dificuldade para conseguir respirar enquanto todo o seu fôlego estava sendo usado para chamar ajuda e sua força para tentar sair de baixo da terra. Sem falar da dor literalmente esmagadora fazendo-o ficar cada vez mais desesperado.
Para sua salvação, o peso logo é aliviado, e ao ver quem o salvou o homem viu aquele mesmo gigante pegando a terra com as mãos e a colocando afastada dele, assim salvando sua vida.
"Stonerus apenas protege, nunca fere." Ele disse, com uma voz grossa e masculina, igual ao que se imaginaria vindo de um gigante de agora oito metros.
Entretanto, mesmo sendo seu salvador, o tamanho e aparência de Stonerus ainda causava medo ao humano, porém o deixou sair correndo uma vez que pôde se levantar.
Já que o problema foi resolvido, o gigante se voltou à direção de onde o raio de luz foi disparado, caminhando até lá com lentos e longos passos. Cada pisão causava um tremor, chacoalhando as árvores não derrubadas, assustando pássaros e deixando imensos buracos como pegadas.
A raposa acenava ao longe, chamando-o em sua direção. Surpreendentemente os nativos não fugiram com a visão do ciclope de pedra, mas também era justificável visto que ele ajudou, de certa forma.
Uma vez que o mesmo chegou na área desmatada, ele se apoiou no caminhão onde a raposa estava de pé, permitindo que a mesma subisse em suas costas e ficasse sentada de pernas cruzadas nele.
"Desculpa te acordar da sua soneca, Stonerus."
"Stonerus não liga, ele sempre vai ajudar Mitsuki e outros amigos." Ele tentava esboçar um sorriso, o que não conseguia, porém a intenção foi deixada clara e fez ela sorrir também. "Stonerus pode ajudar mais?"
"Bem..." Olhava por trás dos ombros, vendo as árvores derrubadas, os buracos de seus passos e aqueles três homens encolhidos no chão, cercados pelos nativos indígenas. "Acho que podemos garantir que aquelas máquinas não vão causar mais nenhum estrago! E dar uma mensagem amigável aos nossos amiguinhos alí!" Ria, um pouco maléfica.
Assentindo, o gigante caminha até os tratores, e durante algumas horas ele os tirou da longa vala que ele mesmo criou e os esmagou com suas próprias mãos. Destruídos assim ninguém poderia os usar de novo e a floresta estaria novamente segura.
Depois disso, ele foi ao grupo de humanos. Os responsáveis pelos danos claramente ficam aterrorizados com a aproximação da cabeça do gigante, praticamente ao alcance de poder come-los. "Nunca mais mexa com a floresta de Stonerus e dos animais. Stonerus não vai pedir de novo."
Já Mitsuki se uniu aos humanos nativos e os ajudou a amarrar os três homens que lideravam a operação para então os levar consigo de volta à cidade mais próxima, onde ela os entregou de bandeja para as autoridades.
Serviço feito, ela e seu amigo de pedra se reúnem novamente na floresta, agora em uma área distante que não foi destruída pelos humanos. Stonerus se deitava sobre o chão enquanto sua companheira de nove caudas repousava nos galhos de uma grande árvore.
Sempre que tinha um tempo livre de trabalhar como a Robin Hood moderna, Mitsuki se reunia com seu amigo e relaxavam juntos por horas, vendo pássaros voando pelos céus, livres.
Isso era o que deu ao gigante seu pecado da Inveja; a liberdade. Sendo um demônio artificial de pedra ele não tinha muita liberdade, estava sempre preso a uma ordem ou limitado a ficar enterrado no chão. Seu desejo, no entanto, sempre foi o de ser livre como os pássaros, que voavam sem limites.
Mitsuki simpatizava com isso. Pois ela não é apenas uma anja, ela também é artificial, criada a partir da alma de um mortal já morto. Sem surpresa nenhuma, ela foi o antigo príncipe dos ladrões que roubava dos ricos e dava aos pobres, de volta à vida e ao seu trabalho de caridade. Entretanto, era isso que também tirava sua liberdade. Antes ela, ou ele, fazia esses assaltos para combater a nobreza, mas agora sendo a própria virtude da Caridade ela sentia que isso se tornou uma obrigação.
De qualquer forma, os dois não são tão diferentes, afinal.
"Ei, Stonerus... Topa ajudar no meu próximo grande roubo?" Olha para baixo, para o ciclope. O mesmo olhava para ela, curioso. "É um cara mal que guarda todo o seu dinheiro em um bunker secreto. Porém, eu descobri onde ele fica!"
"Se precisar destruir, Stonerus pode ajudar!" Faz um joinha de aceitação, sorrindo através de seu grande olho.
"Perfeito! Sabia que podia contar com você, amigão!" Levanta-se do galho, se espreguiçando. "Mal posso esperar para ver a reação dele ao ver você, haha!"
[ O próximo pecado... ]
Às vezes o amor não é tudo.
Às vezes só precisamos de companhia.
Ninguém merece ter um coração partido como ela teve.
