Capítulo 2

Os gêmeos entraram no quarto. Pareciam trazer a força de um terremoto com eles. Era um menino e uma menina, chamados William e Emily, em homenagem a Shakespeare e Emily Brontë, dois escritores britânicos favoritos. As coisas se cruzaram ali, pois o menino puxara a Sara, enquanto a menina saíra a Grissom.

Em William via-se a rebeldia, a curiosidade e a persistência de Sara. Como a mãe, tinha olhos e cabelos castanhos, e era aquela criança que faz os adultos perderem a paciência, com seus múltiplos porquês.

Emily, quando sozinha era quieta, gostava de achar um cantinho, onde gostava de ler e pensar em tudo que via ou lia. Fazia coleção de insetos, e desde pequena gostava deles, era mais calada, isso quando não se juntava ao irmão. Os dois juntos pegavam fogo e punham fogo em tudo, William era o estopim de Emily.

Enquanto ele era magro: só braços e pernas; a menina era mais cheinha, com cabelos encaracolados, olhos azuis e covinha no queixo, como Grissom. Nem se precisa dizer, quem era o favorito de quem, pois os mais velhos, viam-se como em espelhos nos mais novos. E quem resiste a um espelho?

- Mamãe, por que não podemos ficar aqui sozinhos?

- É, por que não? Afinal, lá só vai ter gente velha. – Disse Emily, achando-se muito adulta, do alto de seus 13 anos.

Sara puxou a filha pra si, e arrumou-lhe a fita do cabelo, completamente torta. "Tal pai, tal filha!", pensou sorrindo.

- Porque vocês são crianças ainda, e mocinha, já conversamos sobre isso.

Não tendo conseguido nada com a mãe, Emily acercou-se de Grissom toda dengosa:

- Ah, pai deixa! O pai da Sally deixou, e ela é só dois meses mais velha que eu.

Sara olhou para Grissom, querendo ouvir sua resposta.

- Bem, eu só tenho uma filha e seu nome é Emily, portanto não tenho nada a ver com o que Sally faz ou deixa de fazer. Crianças obedeçam a sua mãe!

Vendo que Sara aprovou sua resposta, Grissom achou melhor se retirar enquanto ainda contava com certa vantagem, e ir até a garagem tirar o carro para levá-los ao aeroporto.

Enquanto descia as escadas, ia pensando como Sara estava linda, naquele vestido de musselina preta, com risquinhos brancos. Pena que só o usava, nestas ocasiões, pois lhe caía bem. Ele também, a seu modo recordava-se do casamento.

"Estava nervoso, mas Sara estava mais, tropeçava bastante nas palavras. De tudo ele só conseguia lembrar que Sara estava nervosa e linda. Nick lhe deu uns conselhos, como se ele precisasse disso. Ele nunca havia falhado, pensava com orgulho. Mesmo hoje não se trocaria, por dois rapazes de 30! Sara também tinha sua responsabilidade nisso, pois sabia como acendê-lo e deixar o fogo aceso.

A lua-de-mel em Paris foi maravilhosa. Tantos anos sem férias, eles mereciam isso. Culturalmente falando, a viagem foi ótima. E nas outras coisas também, pensou com um sorriso maroto nos lábios. Interessante era de se notar, que mesmo com o passar dos anos, as palavras "maroto" e "brejeiro" eram adequadas a ele.

Pensou nas crianças. Agora não podia conceber sua vida sem elas. O seu mundo girava em torno de Sara e dos gêmeos. Tiveram longas conversas sobre se iriam pôr uma criança no mundo. Ele se achava velho e inadequado para o papel de pai. Mas achava que não tinha o direito de roubar essa experiência a Sara. Por fim, concordaram.

Ninguém esperava gêmeos. A princípio, ficaram assustados com a notícia. Quando nasceram, e William segurou seu dedo ele ficou enternecido e sentiu-se PAI. Nos anos que viriam, ele se veria nos filhos, tendo mais motivos de orgulho que de aborrecimento. De repente, viu-se amando, incondicionalmente aquelas duas criaturinhas, resultado prático, de seu enorme amor por Sara.

Ela teve um parto difícil, muitas horas de sofrimento, que resultaram em uma Sara exausta, ele muito preocupado e uma cesariana. Resolveram que, já que tinha vindo um casal, seria melhor pararem por aí. Ele estava quites com a vida: havia disseminado suas sementes, garantira sua imortalidade gerando descendentes."

Agora tinha de se preocupar em ver seus ex-subordinados outra vez. No começo, todos escreviam, depois, as cartas rarearam e se transformaram em cartões de Natal que alguns ainda mandavam. Ele não os culpava, porque sabia que a vida seguia agitada, para eles.

Ele e Sara tinham uma vida muito calma no campus. Ótima para criar as crianças. Pensou nos casos bizarros do CSI, nos horários malucos, nas conversas... Não, definitivamente, aquilo não era ambiente saudável, para as crianças.

Quem trocara cartas com ele, todos esses anos, fora Catherine. Ela também telefonava para Sara, todos os meses, para saber e mandar notícias. Como ela permanecia em Las Vegas, era como uma Central de Notícias, mandando e recebendo. Ela continuava sabendo da vida de todo mundo. "Algumas coisas nunca mudam", pensou Grissom sorrindo e manobrando o carro.

Olhou para o relógio do carro. Buzinou. Não podiam perder aquele avião. Sara já vinha descendo com as crianças. William falou alguma coisa que ele não entendeu. Sara falou, enquanto jogava uma valise na parte de trás, do veículo:

- Entre no carro e não resmungue William, que isso é mania de velho!

O menino entrou emburrado. Sentou-se com os braços cruzados e a cara amarrada. Emily não estava muito melhor. Enquanto Sara colocava o cinto, Grissom olhava os dois pelo retrovisor e, perguntava à mulher o que tinha acontecido.

- William queria trazer o Playstation; e a Emily queria acrescentar bugigangas, na valise. Os dois estão pensando que estamos saindo de férias, quando amanhã já estaremos de volta. E falando nisso, sejam educados com a tia Cath. Ela é uma grande amiga do papai, e foi muito gentil nos convidando para ficar na casa dela - disse Sara se acomodando, no banco.

- A tia Cath do CSI?

- Sim. Podemos partir? – Perguntou Grissom.

- Que maneiro! Ela vai contar histórias legais, como aquela vez que chovia um sujeito dentro de casa? – Perguntou William, já esquecido do Playstation.

-E ela e mamãe andaram de guarda-chuva, dentro de casa?- Indagou Emily, com ar cândido.

Com o rosto franzido, Grissom perguntava onde as crianças teriam ouvido isso. Sara punha o rosto na janela. E mais uma vez, uma pergunta do papai, ficava sem resposta.