A mesma grama de sempre, o mesmo céu nublado, a mesma luz turva e cinzenta do Sol. Suspirei. A mesmice era algo inevitável em um manicômio.
Pois bem, tem gente que chama de "Instituição de Tratamento Mental", pura frescura! É simplesmente um hospício! Eu tinha nojo daquele lugar. Nojo dos meus pais por terem me jogado lá e me esquecido.
- Hora do almoço. – gritou uma enfermeira para todos que estavam no jardim, incluindo eu mesma.
Levantei, suspirando novamente. Limpei meu vestido branco, roupa uniforme das pacientes. Andava lentamente, sem vontade de chegar aquele projeto de presídio que era a parte de dentro do manicômio.
- Oi Alice! – uma moça, da minha idade, me cumprimentava. – Eu e Rachel estávamos te procurando. – ela deu um sorriso sincero. Seu nome era Rebecca. Ela estava aqui, pois, após a morte de sua irmã gêmea, Rachel, ela foi tomada por uma doença mental que a fazia pensar que sua irmã estava ali, com ela. Um tanto triste. Mas, em geral, Rebecca era bem animada.
- Oi Rebecca. – retornei, sem nenhum entusiasmo, lhe direcionando um sorriso pesaroso, típico meu.
- Ficamos sabendo que hoje teremos novidades! – sério, tinha dó dela. Ela se iludia muito com aqueles mentirosos de jaleco. Mas fazer o que, é para isso que eles servem: Mentir para nós, pois acham que somos mentalmente inferiores.
- Que ótimo. – disse, sem nem um pingo de vida. – E o que é? – dessa vez, acrescentei mentalmente.
- Falaram que vamos receberemos novos amigos. – ela sorriu largamente, os dentes bem cuidados. Na minha própria tradução, novos mentirosos.
- Legal. – respondi educadamente, ignorando os gritos da minha mente que se revoltava com a informação. Sempre procurei ser gentil com Rebecca, por ser a única que se aproximava de mim.
Fomos ao refeitório e me sentei no mesmo canto solitário que, basicamente, tinha meu nome escrito em letras incolores. Era uma mesa pequena com apenas uma cadeira, diferente dos demais assentos que eram destinados a mais pessoas.
Peguei a bandeja bege que tinha uma tigelinha com uma gelatina de cor estranha em seu meio. Pode-se dizer que sou meio temperamental por estar aqui e desconto isso na minha alimentação. Não faz sentido, eu sei.
Estava remexendo naquela gosma de tonalidade roxa-terra – uma cor que tira seu apetite por completo -, sem ter o que mais me distrai. Olhei ao redor, os pacientes, então a vi. Uma mulher de pele castanha, com uma grande cicatriz no lado direito do rosto.
Um rosto que eu conhecia demais, que tinha sido uma das únicas coisas que realmente me fez sentir bem estar aqui.
Era o rosto de Emily Young. O rosto que havia ganhado uma cicatriz em um acidente envolvendo lobos na floresta. O rosto mais maternal que tive por toda a minha vida.
- Como está, pequena Alice? – ela perguntou, quando chegou ao meu lado.
- Quero morrer, como sempre, Emily. – respondi. Ela era a única que achava que eu era mentalmente saudável. Portanto, desde sempre, a única a saber que eu preferia estar morta a estar ali.
- Alice, querida, não seja tão pessimista. – ela disse uma das frases bordão dela. Também tinha a "veja o lado bom das coisas, Alice". Coisas que, enquanto estivesse ali dentro, eu definitivamente não faria.
- Eu só quero deixar este lugar, viver como alguém normal, ser uma adolescente de dezesseis anos normal. – comecei, já choramingando. Eu devo um bebê.
- As coisas melhorarão, minha filha. – ela disse, em um tom meio maternal, meio profético. Se despediu me dando um beijo no topo de minha cabeça. Como uma mãe faria, ecoou esse pensamento em minha cabeça.
Terminado o horário do almoço, me arrastei até qualquer uma das salas do longo corredor de azulejos brancos.
Fiquei lá, isolada do resto, até que alguém havia chegado ali.
Não era apenas uma pessoa. Era um dos doutores e um rapaz.
Não um rapaz mentalmente perturbado, de modo algum. Ele era alto, bom, bem mais alto do que eu. Tinha cabelos louros, um rosto angelical – na minha opinião, pelo menos. E usava trajes de médico.
Ele havia varrido a sala com seu olhar e, quando passou seus olhos por mim, nossos olhares se encontraram. Senti algo se remexer dentro de mim, uma sensação boa. Ele percebeu que estava fixada em seu olhar e mandou-me um sorriso simpático. Automaticamente, sorri. Não era mais um de meus sorrisos forçados, era real.
Espera ai! Meu Deus, eu sorri?!
Sorri mesmo, sem fingir?
Certo, tenho duas opções. Primeira, estou delirando, a falta de comida no organismo que deve estar finalmente tendo efeito. Segundo, eu tive uma reação exagerada do sorriso do novo médico. Ah, Deus, estou perdida nesse meu mar de pensamentos.
- Boa tarde, queridos pacientes. – o velho doutor falava. – Muitos já sabem que estou me aposentando e não poderia deixar o cargo sem ter alguém para me substituir. Este é Jasper Whitlock, o novo médico de vocês.
Então, Jasper era seu nome. Olhando para o chão, sorri debilmente. Apurei meus ouvidos para ouvir sua voz, pois sabia que deveria estar falando com o outro médico.
- ... aquela é Eva Rushgarden, e a pequenininha ali no canto é Mary Alice Brandon, ou só Alice.
- Alice. – ele disse meu nome. Talvez fosse seu modo de como se lembrar dos nomes, digo, repeti-los. Mas o jeito como ele o dissera havia me deixado boba. Sério, não estou brincando. Só faltava eu começar a rir, aí seria demais pra um único dia.
- Aproveitando que estamos falando de Alice, devo lhe passar um pouco sobre ela. Ela é um pouco problemática, acha que tem sua mentalidade perfeitamente bem. – Ok, minha vontade agora era de ir até aquele maldito médico e bater a cabeça dele na parede. Hello, minha mente é perfeita, a de meus pais é que não são. – Estive cuidando dela por muito tempo. Pensei em passar a responsabilidade para a Dra. Young, ela se relaciona bem com a garota. Mas, pensei bem, que tal um desafio para o novato?
- Não creio que ela seja problemática. – Jasper discordou, franzindo o cenho. Quis esquecer de bater no outro e sorrir, mas me segurei.
- Bom, agora vamos ver os pacientes da outra ala. – o velho doutor, contrariado, puxava Jasper para fora.
Fiquei pensando no jeito que ele discordou. Suspirei e fui andar sem rumo pelo corredor. Para variar, andar cabisbaixa, o que eu mais faço naqueles corredores.
De repente, trombo em alguém. Maldita seja a mania de andar cabisbaixa.
- Ai. – definitivamente, não tenho reações muito criativas.
-Me desculpe... – o estranho disse com sua voz macia. Apesar de não estar olhando-o, sentia seu olhar em mim. – Alice. – ele completou.
Olhei para cima e meu coração bateu mais rápido.
- Não... Não foi sua culpa. – ele me ajudava a levantar. – Você deve ser o dr. Whitlock, certo? – falei com respeito, afinal, ele devia ser mais velho do que eu. Ao pensar nisso, fiquei um pouco decepcionada. Queria saber o por quê daquele sentimento, hm.
- Acho que sou, mas me chame de Jasper. – ele sorriu calorosamente.
- Jasper. – ecoei seu nome, gostando como soava em minha voz.
- Com licença, Alice, mas tenho que ir pegar a lista dos meus pacientes. – ele deu um meio sorriso de quem se desculpa. – Até mais tarde. – ele saiu.
- Até. – disse, um momento mais tarde. Eu sorria feito boba, e sim, eu tinha consciência disso.
- Ih, o que aconteceu com a Alice que disse que queria morrer? – Emily passou do meu lado, andando. Entendendo seu tom, a segui. – Tudo isso só por ver o novo médico? – ela sorriu, meio em deboche, mas não maldosamente.
- Hm. – não respondi com palavras, olhando para baixo, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Há, sabia. – ela sorriu, enquanto vasculhava entre potes de remédios.
- Sabia o que? – perguntei, momentaneamente perdida em nossa conversinha.
- Nada, querida. – ela sorriu. Ah não, ela está aproveitando as minhas custas o que eu não entendi.
- Ah, Emily, para com isso, você sabe que não gosto disso.
- As coisas melhorarão, filha. – ela me falou pela segunda vez naquele dia. Bufei. Ela não ia falar mesmo. – Tenho que ir. A Mallory está tendo um ataque, de novo. Os pais dessa menina nunca deviam ter deixado ela tão solta pelas ruas, agora ela grita pelas drogas que não toma, hmpf. – Emily reclamava para si mesma a ultima frase, andando. Deixei-a ir, voltando ao corredor. Já disse, quando você vive num hospício, a mesmice é inevitável.
Ou talvez seja.
N/A: ok, não tenho o que dizer, ainda não havia postado e soube que já tem gente gostando pela sinopse *O* (thnks pelo review, Maary Ashleey Cullen :D)
Sendo breve, espero que gostem da fic :D Apesar de não saber o que vai acontecer muito breve, ela já é meu xodó, espero que não decepicione rs
love, N J x3
