"Venha rápido, não temos muito tempo!" Não podia reconhecer a voz, o pânico a distorcia. Por isso, não sabia se falava comigo ou com outra pessoa que estivesse ali, no quase total breu do corredor que ecoava os passos.
"Por que?" Sentia que era minha mente, cansada e confusa, que arfava as palavras, não meus lábios. O tom de voz era o meu, mas era difícil saber se realmente fui eu quem havia falado.
"Tenho de te proteger" As palavras eram obstinadas, nada mudaria a ideia daquela pessoa.
"Proteger do que? O que está acontecendo?!" Novamente tive a sensação de que não usava meus lábios.
Mas eu não soube do que eu seria protegida.
Acordei, confusa com meu sonho. Já era de manhã, então de nada adiantaria voltar a dormir. Fiz minha higiene e me vesti, seguindo para o pátio externo do hospício, com meus inseparáveis caderno e estojo de desenho.
Sentei na mesma e velha árvore de sempre, já desenhando meu novo sonho. Rabisquei o fundo com preto e com algumas camadas de branco e prata, desenhei as silhuetas em um tom de cinza pouco mais escuro, detalhei o corredor longo que fazia eco em meu sonho.
Olhei para o desenho, desconcertada, então apoiei minha cabeça em meus joelhos, tentando entender tudo aquilo. O que vai acontecer? Por que os sonhos voltaram? E por que seriam tão importantes, já que voltei a tê-los?
Respirei profundamente. A vida era mais do que injusta! Quando eu finalmente acho que minha não-tão-normal vida pode ter alguma melhora, tudo desmorona aos meus pés.
- Alice, você está se sentindo bem? – senti duas mãos cuidadosamente colocadas em meus ombros, a voz que se tornou mais que simploriamente conhecida perguntando.
- Sobrecarga de sonhos. – eu disse, comprimindo minha cabeça entre as mãos como se fosse adiantar alguma coisa.
- O mesmo sonho? – ele perguntou, com um tom repreensivo. Acho que seu rosto devia estar na mesma situação, ainda estava cabisbaixa.
- Não. É... Outro. – minha cabeça latejava de dor.
- O que viu dessa vez? – agora olhando seu rosto, apenas lhe estendi o caderno. – Estava escuro assim? – assenti.
- E a pessoa da frente estava quase desesperada. Não consegui entender nada, muito menos o que eu devia ter haver com a história.
- Deve ser algo passageiro. – ele disse, me tranquilizando. Olhei em seus olhos - aqueles profundos olhos azuis escuros -, pois o brilho de seu olhar me acalmava, de uma forma estranha. Ele me ajudou a levantar e passou o braço por minha cintura – o que fez com que uma corrente elétrica passasse por meu corpo, eu sei, não precisa falar, isso é beeem clichê -, me ajudando a ir para dentro do hospital.
- Alice, só me prometa uma coisa. – Jasper pediu.
- O que? – perguntei.
- Tome muito cuidado. – ele pediu. Parecia que sua voz tinha uma estranha ternura contida, mas devia ser minha imaginação.
- Sempre tomo. – brinquei, apesar de não estar em minhas melhores condições. Ele sorriu.
- Até mais tarde. – ele se despediu.
O resto da manhã e a tarde foram bem monótonas, e em alguma hora, eu cochilei, mas não consegui descansar por causa daqueles benditos sonhos.
Minha mente voava, dispersa no tempo e espaço, imaginando o que Jasper queria dizer quando pediu que eu tomasse cuidado. Eu era muito desastrada ou algo do gênero? Bem, não sei se tenho como me avaliar pra saber. Fiquei ouvindo músicas até a hora do jantar.
Me arrastei até o refeitório, indo direto para os doces. Hoje tinha a gelatina – o que eu sempre pego - e torta. Estava quase pedindo a rotineira gelatina, mas mudei de ideia e peguei um pedaço de torta.
- Mudando o de sempre? – Jasper perguntou depois que sentei no meu lugar de sempre.
- Hm, não sei, acho que isso é inconsciente. – sorri fraco; ele riu e olhou para meu prato.
- Não sabia que você gostava de torta com algum tipo de fruta. – ele comentou, como não quer nada, mas havia algo, ah, havia algo debaixo daquele tom.
- Torta de morango é boa, mas prefiro de maçã.
- Prefere de maçã. – ele ecoou, sem sentido. – Isso pode me ajudar com surpresas. – ele sorriu.
- E que tipo de surpresa? – ergui uma sobrancelha, com um sorriso de deboche, mas achando graça daquilo.
- Se eu contar, não vai ser mais surpresa, não é, Allie? – ele riu, pois aquilo era óbvio. Revirei os olhos mas então percebi uma pequena coisa.
Do que ele havia me chamado?
- Do que você me chamou? – perguntei.
- De Allie. Sabe, apelido para Alice. Me desculpa se você não gostou, posso te chamar por seu nome, não é...
- Não, eu gostei. – interrompi o jorro de desculpas. Ele parecia querer apenas me satisfazer. – É fofo. – sorri. Acho que, em tantos anos, aquela era a primeira vez que alguém não me chamava por meu nome ou algum adjetivo nada deleitoso.
- Então, posso te chamar assim? – ele examinava minhas reações, coisa típica dele.
- Claro. Não se importa se eu te chamar por... hm, Jazz? – perguntei. Ele riu bobamente.
- Não. Isso é ótimo. É legal estarmos... – ele parou para editar o que ia falar. – Amigos dessa forma. Mostra que você pode confiar em alguém.
- E se eu não confiar em você? – brinquei para disfarçar a curiosidade de saber o que ele realmente queria dizer.
- Estou o-fen-di-do, senhorita Allie. Nunca te falaram que não pode falar uma coisa dessas na cara da pessoa? – ele fingia ofensa, de um jeito bem peculiar. Eu estava rindo alto, senti os poucos olhares dali virar-se para mim.
- Desculpa ai, senhor "Colorido". – eu disse ainda rindo. Ele riu junto comigo.
- Valeu mesmo por me chamar de afeminado ao extremo. Eu tenho preferências, sabia? – ele continuou brincando.
- Ah é? E quais são? – e eu também.
- Morenos altos e musculosos. Mas não conta pra ninguém. – ele colocou o indicador nos lábios como sinal de silêncio. Quase explodi em gargalhadas, mas me contentei apenas a uma risada pouco sonora.
- Agora estou ficando preocupada. Quando você decidiu gostar da "mesma fruta" que eu?
- Ok, vou para com isso. – ele sorriu. – Adoro ver seu sorriso, é tão cheio de vida. – ele comentou casualmente.
- É por isso que me faz rir? – perguntei, simpatizando-me com cada palavra que saia daquela boca.
- Podemos dizer que talvez seja. – ele sorriu diante suas próprias palavras, fazendo sorrir também. Passamos mais algum tempo conversando, mas ele tinha de voltar para suas obrigações.
Depois de me despedir de Jasper, fui para meu leito. Todo o drama de meus sonhos haviam me acertado em cheio agora, eu me sentia esgotada. Tomei um comprimido com uma pequena dose de sonífero - que estava no criado-mudo desde a volta de meus sonhos -, para ter um descanso sem estranhos sonhos que poderiam ser premonitórios.
- x -
"Alice, acorde" A doce voz de Jasper soava melodicamente em meus ouvidos. Mas havia uma emoção em sua voz que nunca ouvi, pelo menos não em seu tom.
Levantei com pressa, o que fez minha cabeça girar. Ao abrir meus olhos, me deparei com sua face preocupada. Havia um vinco entre suas sobrancelhas que o denunciava.
- Jasper? O que você...? Que horas são? – perguntei confusa.
- Isso não importa agora, Alice. Temos que sair daqui.
- Como assim? – eu estava muito confusa. Que raios Jasper queria dizer?!
- Nós, eu e você, temos de ir embora daqui. Fugir. – ele ressaltou a ultima palavra que dissera.
- Mas o que isso quer...
- Pegue o lhe é de maior importância aqui. Por favor, aja rapidamente, Alice. – ele me interrompeu. Não discuti, apenas fui até o pequeno armário que havia no quarto. – Você tem alguma roupa que não seja um dos vestidos do hospital? – ele perguntou quando viu para onde me dirigi. Pela primeira vez, desde que acordei, notei seus trajes desta noite: ele usava roupas casuais, uma camisa pólo, calça jeans e tênis.
- Ahn, devo ter. – eu disse, lembrando-me vagamente de uma muda de roupa que uma vez Emily havia me dado. Procurei no fundo do armário e achei as roupas dobradas. Uma camiseta e uma calça jeans, ótimo.
- Se troque. Te espero do lado de fora. – Jasper apenas disse, saindo e fechando a porta.
Minha mente estava confusa. Qual era a razão de tudo aquilo? Me troquei rapidamente e coloquei minha nécessaire de higiene pessoal e algumas coisas significativas dali – que eram poucas, pode apostar – dentro de uma bolsinha que estava junto das roupas.
Abri a porta e olhei Jasper. Sua melancolia era quase que visível, dava para sentir no ar.
- Sei que vai dar tudo certo, – eu ia garantindo sem realmente saber – mas o que tudo isso significa, Jazz?
De repente, do fundo do corredor submerso no negrume, pudemos ouvir um ruído metálico, talvez alguém tivesse derrubado algum aparelho no chão. Com a pouca luz, pude ver os brilhantes e urgentes olhos de Jazz.
- Venha rápido, não temos muito tempo! – ele exclamou, segurando minha mão. Senti uma sensação de dejà vú.
- Por que? – perguntei debilmente, correndo com Jasper.
- Tenho de te proteger. – ele disse, a forte afirmação como se fosse parte de seu extinto me proteger.
- Proteger do que? O que está acontecendo?! – perguntei. A sensação de dejà vú ficou mais forte. Como eu ainda não havia percebido? A emoção na voz de Jasper era o pânico, o corredor escuro do hospício, tudo estava relacionado ao meu futuro. Um futuro que eu não sabia se havia previsto. Então não eram sonhos, mas previsões do futuro? Do meu próprio futuro?
- Eu te explicarei, mas agora temos que correr, Allie. – ele parecia quase suplicar, por conta do tom de sua voz.
Corremos em silêncio pelo corredor até as portas dos fundos. Fomos para o carro de Jazz, que era um conversível que não era muito chamativo.
- Alice, tenho que pedir para você ficar deitada no banco de trás. Vou te cobrir com um cobertor para podermos passar pela segurança.
- Sem problemas. – falei sem entonação em minha voz.
Entrei no banco traseiro e joguei minha pequena bagagem no chão, respirei fundo e deitei-me. Jasper estendera o cobertor de meus pés até meus ombros, deixando apenas minha cabeça descoberta.
- Allie, eu vou te tirar daqui, ok? – assenti. Ele estava um pouco perturbado. Ele me fitou com aqueles olhos azuis, repletos de preocupação. Procurei lhe passar alguma calma por meio do meu olhar. Parecia ter adiantado algo, ele estava um pouco relaxado. Ele se aproximou de mim e deu-me um beijo em minha testa.
E então ele cobriu meu rosto.
(Jasper's POV)
Eu tinha de me concentrar, manter a calma. O reitor do hospício sabia que eu não aceitaria o que iam fazer com Alice, tinha suas suspeitas contra mim. Eu precisava ser convincente o bastante para poder sair tranquilamente do terreno do hospício.
O vigia, Paul, não era lá muito sociável, mas consegui enganá-lo falando ter esquecido prontuários importantes que precisava ler todas as clausulas e entregar todos assinados assim que batesse o cartão em minha entrada. Ele sequer percebeu que eu havia falado 'clausulas', sendo que isso só é encontrado em documentos legais, não em prontuários médicos.
Sentei no banco do motorista e olhei para o banco traseiro. Mal era perceptível o pequeno volume sob o grosso cobertor. Voltei minha atenção para frente, ligando o carro; Segui até a saída, onde fui abordado por Paul.
- Achou os documentos, Dr. Whitlock?
- Sim, Paul. – sorri. – Estavam na bancada da recepção. – ele vasculhava o carro por fora, com a luz de sua lanterna. Ele passou a luz pela janela que dava para o banco traseiro. Mas não viu nada. Sorri mentalmente.
- Bem, com seja, deve estar querendo ir embora, doutor. Aconselho ir logo, a essa hora as ruas são mais desertas que o comum.
- Irei sim, Paul. Boa noite e bom trabalho. – lhe desejei.
- Boa noite. – ele disse e eu arranquei com o carro.
Já estava a uns 200m longe do grande portão quando falei com Alice.
- Allie, pode sair debaixo do cobertor, já estamos a uma boa distância.
Observei Alice se sentar, através do espelho.
- Jasper, eu estou entendendo nada. Preciso que você me explique o que está acontecendo.
Eu observava a pequena Alice. Harmoniosa, e amedrontada naquele instante. Fui encostando o carro.
- Venha aqui pra frente. – chamei. Ela rapidamente pulou para meu lado. Sorri com isso. – Sei que tenho muito que te contar, mas você se importa de ficar no escuro por um instante? – lhe perguntei. – Preciso colocar os pensamentos em ordem. – emendei.
- Acho que não tem problema. – ela disse, desviando seu olhar do meu rosto. Ela tombou sua cabeça para a janela semi aberta. – Hum, Jazz?
- Sim? – gostava que ela me chamasse de Jazz.
- Você pode abrir o capô do carro? – ela perguntou timidamente.
- Claro. – sorri para ela e ela retribuiu.
Abri o capô, deixando o céu escuro, seu brilhante crescente e suas estrelas a nossa vista. Alice olhava para o céu, seus olhos castanhos claros brilhando como as estrelas, o vento batendo em seus cabelos curtos.
- As estrelas estão belas hoje. Nunca as vi assim. – ela comentou.
- Talvez seja seu modo de ver. – falei, minha voz num tom calmo.
- Por um novo ângulo, por uma nova perspectiva. – ela completou.
N/A: desculpas por não ter postado antes, só consegui escrever algo decente ontem haha E ai, acharam que era muito óbvio que a Alice fugiria do hospício com o Jazz? Por favor, digam o que acharam a respeito :D A fuga foi o que principalmente me inspirou a escrever essa fic (:
Ah, no próximo capítulo o POV é da Alice, quando entra o do Jazz, avisarei, ok? (:
Neste momento, vossa querida/demente autora está fazendo uma trancinha com três bexigas compridas vazias :p (Sei que isso é beeem relevante, mas não resisti SAUHS) O que o tédio/falta de imaginação não faz com uma pessoa? rs
Aos reviews õ/ (ps: thnks a todas que mandaram)
Maary Ashleey Cullen: Tan tan tan tãaaan! Ok, é uma visão, e em breve saberemos sobre o que é *suspense rs* O Jasper é lindo, absoluto e maravilhoso KK AAAH, *-* beijinhos, fã #1 ;*
Anna Withlock Volturi: Ah, pode chamar por apelido ou como quiser, ace mais simples que Nathalia - e lembra minha mãe brigando comigo SAHSUAH. De fato, deve ser mal de autoras KK É, Jasper e seu jeito retraido, atoron *-* Adoro garotos mais timidos, apesar de eu tbm ser um pouco q Aos comentários sobre as partes (q):
Ela ama mas não sabe disso, tadinha qn;
O significado do sonho medonho está por vir *suspense +1 rs*
Babei +1 Ai se eu fosse a Alice (6' AUSHU
Imagina, atoron ler os reviews *-* me estimula a escrever õ/ rs raawr, valeu amr *-*² Postarei sempre que possível õ/
Bunny93: Assumo que ainda vou enrrolar no quesito dos dois juntos, mas sempre vão ter uns momentos mais sutis :D Então somos duas, haha õ/ Postarei sempre que possível² (: Ps: sobre magicidade (?!) do nome é que adoro um manga/anime chamado Sailor Moon e o nome da protagonista, traduzido do japonês, é "coelho da Lua" rs/interna da autora.
We will meet in the world, N J x3
