Acho que isso é um "adeus" =3
Cap.14.: Olá, primavera.
- Higurashi-sama, os músicos ainda não chegaram! – exclamou um rapaz franzino, com uma lista de afazeres em mãos.
- Inutai-san rasgou a roupa para a cerimônia, Higurashi-san! – choramingou um outro homem, junto de seus assistentes.
- Kagome vomitou no vestido. – soou a voz de Kikyou, passivamente calma.
- Estamos sem bois ou carneiros para abater, senhor!
- Os músicos nunca chegarão a tempo para a festa de casamento, Majestade!
O pai de Kagome se viu cercado por vários funcionários alarmados e preocupados. Sentiu a cabeça doer. Por que era mesmo que estava tudo dando errado? Olhou para o lado e viu Nanase, sua esposa, aparentemente muito pouco preocupada com a situação. Ao seu olhar incrédulo e repreensor, ela apenas sorriu.
- Vai dar tudo certo, meu querido. – ela disse, num fio de voz bastante sereno. Os olhos dele só ficaram ainda mais chocados com a despreocupação da esposa. Voltou o olhar para o amontoado de pessoas alarmadas a sua frente, que esperavam uma solução para todos os problemas que surgiram em cima da hora. – Acreditem em vocês mesmos. Vão achar a solução dentro de seus corações.
Fez um sinal com a mão e todos os desesperados saíram da sala do trono.
- Essa foi... Bastante forçada, Nanase. –disse seu marido, em choque.
- Eu sei. – soltou uma risadinha de raposa e sua atenção se voltou para a costura que fazia.
O rei Higurashi apoiou os cotovelos nos braços do trono e suspirou profundamente. Olhou para os dedos esguios e ligeiros da esposa, que executavam o repetitivo movimento da costura que fazia.
- Para quê está fazendo isso...?
Nanase passeou as mãos pelo sapatinho de bebê que concluía e sorriu.
- É segredo. – respondeu, encostando o indicador sobre os lábios, para reforçar a mensagem.
oOoOoOoOo
- Você só me traz problemas, Kagome.
Kikyou percorreu os dedos pelo tecido um dia branco do vestido da jovem Higurashi. Trabalhou meses naquele traje, e em meros segundos ele havia ficado arruinado.
No final das contas, bebês sempre estragam tudo, pensou a pálida mulher, antes de titubear os dedos pela anágua da vestimenta e jogá-la num canto.
Recebeu um gemido acuado de Kagome, ao gesto impaciente.
- E então? – começou a noiva. Kikyou arqueou uma das delineadas sobrancelhas. – Qual é o plano?
- O plano é pensar em um plano.
Ah, ótimo.
- Teremos que nos virar com o que temos à disposição. – arriscou Kagome, procurando pensar em alguma alternativa viável.
- Claro. Você tem toda razão, sua Alteza. – concordou a jovem mulher, afastando uma mecha escura de cabelos do rosto de tom leitoso. – Seria fascinante vê-la transcorrer nua até o Sacerdote e seu futuro marido. Não que seu noivo vá encontrar algo que já não esteja acostumado a ver.
Kagome teria entendido um simples "Não temos nada à disposição". Mas, bem, quem era ela para discutir os métodos impactantes de Kikyou?
- InuYasha também estragou toda a roupa. – Kagome parecia querer descontrair o clima de profunda inquietação, mas só conseguiu deixar Kikyou mais aborrecida.
- Dois grandes irresponsáveis.
Foi aí que se ouviu uma, duas, três batidas, na porta.
- Atrapalho? – e por uma fresta na porta surgiu o belo e amadurecido rosto de Izayoi, um fino e simpático sorriso moldando seus lábios. Ambas as jovens que estavam no recinto prestaram uma modesta vênia respeitosa para a mãe de InuYasha, ao que ela apenas respondeu com um pequeno riso gentil. Entrou na sala e fechou a porta atrás de si.
- Posso ajudá-la, senhora? – perguntou Kikyou, apesar de estar incontestavelmente nervosa.
Izayoi percorreu o quarto a passos graciosos e olhou de perto para as duas, com os olhos espertos.
- Acho que eu posso ajudá-la, Kikyou-san. – seus olhos passaram da costureira para Kagome, que parecia um tanto autista, na sua estranha tarefa de falar consigo mesma, tentando pensar em uma solução.
- Pode...? – as duas falaram, em uníssono. A estridente voz da princesa mais animada que a de sua companheira de angústias.
Izayoi chamou ambas com uma das mãos e se encaminhou novamente para a porta, saindo por ela. Kikyou e Kagome apenas a seguiam.
- Tenha a certeza de que não casará nua, minha nora. – gracejou e, ante ao enrubescimento da morena às palavras, apenas riu gostosamente.
x
Rin tinha um mau pressentimento. Aliás, péssimo. Quer dizer, era para estar tudo bem. Era para Rin acordar de manhã, fazer o que a ordenassem, realizar as refeições básicas e, ao fim do dia, dormir. Para, no dia seguinte, fazer tudo de novo.
Era para ser simples assim. Uma vidinha metódica, sem grandes complicações. Nada de estresses, nada de preocupações, nada de encontros às escondidas.
Era para ser muito mais fácil.
"Suma da minha frente, criada. Agora."
No entanto...
A empregada suspirou desalentada, e jogou-se em sua cama pouco confortável. O pai de Sesshoumaru havia sido resoluto. E, por mais que estivesse esperando por uma rude reprimenda, Rin não imaginou que um "suma da minha frente" pudesse doer tanto.
Ela também não estava esperando que Sesshoumaru algum dia dissesse que tinha quaisquer pretensões de tomá-la como mulher.
Fechou os olhos e gemeu baixinho, em uma espécie de angustiada expectativa. Aparentemente a insolência de Sesshoumaru não era de forma alguma bem aceita pelo rei Inutai. Seu estômago revirava, só de imaginar os dois sozinhos. Conversando.
Escutou um rosnado canino, que soou assustadoramente alto, apesar de saber que estava muito longe dali.
Bem, discutindo se encaixava melhor do que "conversando".
Há essa hora, pelo menos metade das criadas mais oriçadas deveria estar à espreita, espiando os dois youkais ferozes tratarem de suas diferenças. O estômago de Rin revirou. Era tudo sua culpa.
"Nunca pensei que pudesse ser tão inconseqüente, Sesshoumaru!"
"Pensou errado."
Ela conseguia ouvir. E, ser capaz de captar cada pequena palavra furiosa do pai do herdeiro youkai, a fazia pensar cada vez mais pesarosamente. Sabia haver cometido um crime feio.
Talvez, por sua culpa, Sesshoumaru recebesse rudes castigos.
...
Talvez, por sua culpa, Sesshoumaru fosse deserdado.
Rin abriu as gavetas pesadas do pequeno quarto que dividia com algumas demais empregadas e jogou suas vestes mais apresentáveis na cama, sem dar-se ao trabalho de dobrá-las cuidadosamente, como faria em outras circunstâncias. Apanhou uma sacola velha de pano e jogou todas as vestes lá dentro, sem a menor paciência. Não suportaria viver com a idéia de que foi a causadora fatídica das eventuais desgraças de Sesshoumaru.
- Eu não vou permitir. – engoliu em seco, sua voz aguda e quase infantil tremulando de angústia.
Jogou a sacola por cima de um dos ombros e saiu do quarto, ignorando os empregados que estavam sumariamente parados nos corredores do palácio e que estremeciam a cada rosnado e latido.
Seus passos nervosos a guiaram para fora dali. Iria embora. Iria embora, antes que Sesshoumaru pudesse se prejudicar ainda mais.
- Ele só acha que me quer. – e aquela conclusão pessoal a consolava. Estaria fazendo um bem aos dois. E ele não teria que se arrepender de defendê-la tanto, apenas por estar entretido com uma relação perigosa.
Aquilo era o certo a fazer.
- Eu não sentirei saudades. – mas ela sabia que demoraria a acreditar em sua sentença.
oOoOoOoOo
Izayoi contemplou sua pequena nora pelo espelho arredondado que ia do teto ao chão de seu temporário quarto, suas mãos experientes e de dedos esguios pousadas nos pequenos ombros de Kagome, que piscava algumas vezes para sua própria imagem refletida, como se estivesse envergonhada.
- Coube perfeitamente. – a mais velha mencionou, um pequeno sorriso acolhedor enfeitando seus lábios. Espalmou as mãos por sobre o tecido de pura seda branca que cobria os braços da princesa.
Kikyou demorou seu olhar em Kagome, um baixo e suave ruído de aprovação se formando na garganta. Havia ficado melhor do que imaginara a princípio.
- Te agrada, Kikyou-san? – a rainha Inutai indagou, ante a análise meticulosa feita pela costureira. – Pertenceu a mim. Eu o usei em meu casamento. – recebeu um breve aceno afirmativo vindo de Kikyou.
- Eu não sei o que dizer... – Kagome chiou, as faces rubras de vergonha e admiração.
- "Obrigada" seria ótimo. – brincou Izayoi e embrenhou os dedos nos longos fios castanhos da nora, em rápidos movimentos os trançando e amarrando em um enlace perfeito, no alto da cabeça, em um coque caprichoso, deixando apenas alguns fios teimosos soltos por sobre a face de Kagome.
- Não sei se devo aceit—
- Você vai aceitar. Você vai, entendeu? – Kikyou ralhou em sua voz de mármore frio, e a Higurashi automaticamente se encolheu e ficou quieta, sabendo que era melhor não discutir a respeito.
Izayoi apenas riu gostosamente.
- E quanto a InuYasha? – Kagome perguntou, suas sobrancelhas escuras cerradas em apreensão. Sabia que ele havia literalmente retalhado seus trajes formais, assim que um dos alfaiates ousou conseguir laçar seu pescoço com uma gravata.
- Oh. InuYasha. – Izayoi ponderou tranquilamente, às palavras da mais nova. Caminhou a passos graciosos até um baú de carvalho, cravejado de pedras raríssimas e de lá tirou a roupa que procurava. Ergueu-a, para que Kagome pudesse visualiza-la. – Te traz lembranças?
Poucos minutos depois, quando sua sogra encontrou InuYasha no corredor e mostrou a nova roupa que ele vestiria, ouviu-o gritar algo como: "Você acha mesmo que vou me enfiar nisso?!"
E foi a vez de Kagome rir, nostálgica.
oOoOoOoOo
- Infernos, essa é mesmo uma boa idéia? – o pai de Kagome coçou a nuca, doente de nervosismo, enquanto observava toda a agitação do lado de fora do palácio, nos jardins acalorados de um primeiro dia de primavera.
- É uma ótima idéia. – Nanase garantiu, o rosto sem nenhum traço de hesitação. Diferente de seu marido, não tinha nenhuma dúvida de que os ciganos poderiam tocar no casamento de sua filha tão bem quanto qualquer músico formado. – Não seja tão preconceituoso. São conhecidos da Sango.
- Isso não os torna como a Sango. – ralhou, e Nanase lhe deu um pequeno tapinha de repreensão, nos ombros.
Não é como se houvesse muitas opções. Músicos saqueados e nada de animais para abater? Sinceramente, a rainha Higurashi tinha certeza de que tiveram muita sorte de conseguir ajuda da melhor amiga de Kagome. Diante da urgência da situação, Sango reuniu ciganos de sua vila para que cantassem e tocassem. Miroku conseguiu a ajuda dos aldeões que geralmente eram os responsáveis pelos festivais, no reino, e agora tudo o que o rei Higurashi conseguia ver a sua volta eram ciganos afinando instrumentos que eles mesmos faziam e plebeus armando barracas e tendas para cozinhar e assar.
Era quase como estar nos vilarejos que Kagome sempre fazia questão de visitar. Nada estava "à altura de um casamento real", como ele tanto havia planejado. Suspirou.
Nanase, por outro lado, parecia infinitamente animada. Assim como Izayoi, ao seu lado.
- Não dá para entender vocês duas...
Mas elas só sumariamente ignoraram. O Higurashi olhou para o rei de Inutai, que não parecia pouco mais feliz que ele. Talvez fosse pelas mesmas razões que as suas?
- Onde está Sesshoumaru? – perguntou, despretensiosamente, visto que estavam de pé num baixo degrau do pequeno altar no jardim, onde conseguia ver todos os convidados.
Humanos e youkais. Nobres e plebeus.
Inutai rosnou, não exatamente para o pai de Kagome, e isso foi o bastante para que o Higurashi concluísse que não era sensato fazer muitas perguntas.
- Ele foi embora. – mas foi a voz de Izayoi que respondeu. Ela riu baixinho ao notar o marido ainda mais aborrecido. – Foi procurar aquela pequena empregada. Como é mesmo o nome dela? – ponderou consigo mesma.
- Não importa. – latiu, e ele parecia ameaçador. Exceto para Izayoi, que apenas conseguia enxergar um grande cão amuado. Entrelaçou os dedos aos do marido e sorriu amavelmente.
- Ele vai voltar. – ela garantiu, e essa parecia uma confidência. O grande youkai compreendeu, e também conseguia enxergar o "Ele vai voltar com ela", subentendido nas palavras da esposa.
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InuYasha exibia sua melhor expressão emburrada, os braços cruzados no pequeno degrau mais alto do altar modesto. Ele não gostava de toda aquela gente o olhando, nem de ficar tão exposto, lá em cima. Ter que esperar por Kagome também não o ajudava.
Viu Miroku chegar correndo no jardim amplo, que mostrava alguns sinais de sol aberto, devido à nova estação.
- Estou atrasado? – perguntou, um tanto afobado, ele mesmo assumindo sua posição, já que celebraria a união dos dois teimosos. Tentava arrumar os cabelos despenteados e as vestes religiosas amassadas.
- Não. – resmungou a contragosto, ainda desconfortável. Cerrou as sobrancelhas e farejou o ar. – O que diabo andou fazendo antes da droga do meu casamento?
-... Nada...
- Você está com o cheiro da Sango. – comentou, ainda farejando. Após alguns poucos segundos, uma expressão de profunda repreensão tomou sua face. – Você estava fazendo sexo antes do meu casamento, seu filho da p--?! – sua boca foi tapada pela mão de Miroku.
O jovem de olhos azuis não teve que fazer muito esforço para que InuYasha ficasse quieto. Ouvir o compasso gracioso e com notas de ousadia da melodia tocada pelos ciganos foi o suficiente para que o rapaz desistisse de ralhar com o amigo pervertido.
Os dois voltaram seus olhos para o caminho à frente, e puderam contemplar a figura pequena de Kagome transcorrer pelo corredor verde da relva.
Kagome seguia em passos pequenos, quase cautelosos. O corpo franzino vestido em um tradicional quimono branco, bordado em prata, em que Izayoi se casara há anos. Estava irrefutavelmente nervosa. O obi perolado parecia comprimir seus pulmões e deixa-la sem ar. Os dedos tremiam ao redor do buquê de lírios extremamente brancos.
Riu sozinha, ao conseguir coragem o suficiente para encarar InuYasha. Ele a encarava com, quem sabe, o mesmo constrangimento nervoso.
- Cai bem em você. – Kagome murmurou, ao aproximar-se o suficiente de seu noivo para que estivessem lado a lado.
- Não brinque, Kagome. – ele resmungou baixo, ante a referência ao quimono de pele de rato de fogo que vestia. Quase se sentia como o pirralho que só usava o dito quimono vermelho, na infância.
Antes que Miroku pudesse abrir a boca para mandar os dois engraçadinhos ficarem quietos, sentiu um pequeno floco gelado pousar na ponta de seu nariz.
Kagome estendeu a mão e olhou para o céu. Neve. Lembrou-se das palavras de sua mãe e riu, ao pensar na ironia.
Enquanto todos murmuravam baixinho uns com os outros, as atenções voltadas para o acontecimento incomum, Kagome pegou a mão de InuYasha com a sua e a espalmou pelo seu ventre, se aproveitando da ocasião na qual estavam todos distraídos o bastante para que ninguém prestasse atenção no que fazia.
- Tenho um presente pra você. – ela sussurrou baixo e pressionou a mão de InuYasha em seu próprio ventre. O meio-youkai conseguia ouvir os batimentos acelerados da noiva, assim como era capaz de sentir contra a superfície de sua mão um som baixinho de coração batendo, quase imperceptível. InuYasha conseguia ouvir vindo de Kagome um par de batimentos acelerados e descompassados. Ele quase riu.
A neve caía. Branda e cálida. Os flocos branquinhos, tão envergonhados de estarem caindo do céu em uma estação que não era a sua.
"Se nevar no primeiro dia de primavera, significa que você pode receber dádivas dos deuses".
Mas ambos não desejavam nada além do que já estava por vir.
- Amo você. – InuYasha murmurou, sem olhá-la.
Kagome sorriu, apenas.
- Amo você, duas vezes mais do que você me ama. – ela reiterou, antes de entrelaçar os dedos aos dele e contemplar os pequenos flocos de neve, que ousadamente se atreviam a cair, naquele dia de primavera.
FIM
E assim, Yuki no Haru chega ao fim! Não sei qual o sentimento mais intenso que cresce dentro de mim, nesse instante. Se é a satisfação, por dever cumprido, ou a de que talvez – só talvez – eu vá sentir saudades de escrever essa fanfic, que achei que nunca iria terminar de escrever.
Dificilmente vocês vão ter notado a referência que fiz ao primeiro capítulo de Yuki no Haru, presente nas falas finais do último capítulo. Quaisquer coisas dêem uma lida rápida nas primeiras falas do primeiro capítulo!
Após anos e anos escrevendo (e demorando e tendo preguiça), espero que todos que acompanharam a fanfic desde seu início não tenham se decepcionado. Agradeço a todos que me apoiaram e que sempre enviaram reviews! Muito obrigada a todos vocês!
A propósito, agradecimentos às reviews do penúltimo capítulo estarão no meu LiveJournal. Qualquer coisa, basta acessar. O link está no meu profile (pode demorar um pouco, porque já é madrugada e eu não quero me prolongar aqui).
Isso é tudo! E fico feliz em finalmente poder mudar o status da fanfic, de "In progress" para "Complete"! XD
Milhares de beijos a todos que leram a fanfic (e não esqueçam da review, é importante, né? X3).
E até a próxima fanfic ;D,
M. Sango
Yuki no Haru:
Iniciada: 06/06/05
Finalizada: 18/01/09
