Se eu criei Percy Jackson & Os Olimpianos? Claro! E a maioria dos prédios não são feios, Pan não está morto, o exemplar de A Batalha do Labirinto que eu encomendei já chegou, e nesse exato momento estou lendo Hogwarts, Uma História. Como podem ver alguns sonhos não se realizam, ou no meu caso nenhum. Ou seja, PJO não me pertence, e o mesmo serve para qualquer marca, filme, música citada na minha fanfic.
Bem aproveitem a história.
Capítulo 2
No Fundo do Poço
Dedicado a qualquer aniversariante que dará uma festa incrível, com milhares de convidados para não ser esquecido pelo resto do século. Ou aproveitará qualquer outro tipo de extravagância. Eu já fui um de vocês...
C.A.C.
Desviei o meu olhar da tela de televisão do ônibus, nem sabia que filme era aquele (mas tinha a impressão de que era a segunda vez que ele passava). A minha poltrona ficava ao lado da janela, mas também ignorava a paisagem. Eu continuava tentando explicar para mim mesmo porque eu não me escondi no banheiro como toda pessoa faria para matar a canoagem.
– Não está faltando alguém? –Perguntei para Kalli, ele estava no assento seguinte ainda meio vidrada no medalhão/GPS para saber que estávamos no caminho certo. –Murta?
– Ela se separou de nos antes de irmos para o lago, acho que tinha ido ao banheiro. –Ela respondeu sem tirar atenção do mapa na jóia- Por quê? Você percebeu agora?
– Sorte dela. –Comentei.
Do outro lado do corredor, Rosa continuava com o pingente de Eros nos dedos, mantinha a cabeça baixa e a expressão perdida. Senti-me mal por ela, não que um dia ela fosse descobrir isso. Eu sabia que ela pensava que o traia. Também não estava nem um pouco feliz com isso, porém não podíamos ignorar um pedido explicito... Por que não paro de chamar aquilo de pedido? Não foi um pedido, foi uma ordem. E não era uma daquelas ordens bobas que eu podia burlar como faça seu dever de aula. Era um pouco parecido com a escolha de atividades no acampamento, não há uma escolha real, porque uma das opções envolve ser engolido por lava, serve para os dois casos.
Claro, Ânteros possivelmente não faria algo assim, pelo visto o estilo dele é mais para vingança. Acho que se recusássemos ele nos mandaria de volta para o acampamento e guardaria sua raiva para arruinar nossos relacionamentos românticos. Ele não é alguém que um filho de Afrodite sensato perturbaria.
Mas estávamos presos como ratos em um labirinto sem queijo... Eu tenho que prestar menos atenção nas aulas de ciência.
Na outra mão, se fossemos pegos ou descobertos a qualquer momento por Eros, ele também não nos machucaria, assim espero, por respeito e amor a nossa mãe. Da mesma maneira lá se ia meu futuro romântico. O sofrimento que esses dois podiam causar. A minha única esperança era trocar as flechas e deixar meus irmãos imortais resolverem os seus problemas sozinhos, como se eu e minhas irmãs nunca tivéssemos existido, ficaria contente de ser ignorado nesse caso.
Ou eu teria que fugir e me esconder, uma vez minha mãe faz isso e os outros deuses quase não acharam. Eu podia fazer algo assim, me mudar para México, Nova Zelândia, Submundo, sob um nome falso: Cláudio Colubrino. Será que existe algum tipo de programa de proteção para semideuses? Quem eu quero enganar?
Mas era melhor pensar positivo, o que significava não pensar tanto assim.
– Então, alguma novidade? –Perguntei para Kalli.
– Não muita, estive olhando o medalhão e penso que ele estava certo quando colocou a gente nesse ônibus. –Não era esse tipo de novidade que eu queria- Só que, sei lá, de vez em quando o pontinho que mostra aonde ir muda de repente. Teve uma hora que pareceu que ele tinha saído do estado de New York e ido parar do outro lado do país, daí voltou mais ou menos para o mesmo lugar.
– Oh, você acha que está quebrado? –Sugeri me entusiasmando. –Não vamos chegar a lugar algum se estiver. Teremos que desistir!
Kalli sorriu para mim, um sorriso tímido, culpado por que em breve estragaria as minhas esperanças.
– Acho que não é isso. –Ela respondeu baixinho. – Se o amor é onipresente, talvez ele esteja se transportando de um lugar para o outro para fazer seu trabalho.
– O quê? Mas mesmo se ele passar a maior parte do tempo aqui, podemos passar meses brincando de esconde-esconde ou pique-pega, o que for. E eu não tenho meses, Kalli.
– Eu sei, eu também não. – ela respondeu cansada. - Cardio, lembra quando eu perguntei para ele porque nos escolheu? E respondeu, por sermos irmãos. Estive pensando nisso, o pessoal do chalé cinco é tanto parente dele quanto nós. Por que ele não os escolheu?
Fiquei em silêncio, sem saber a resposta. Minha irmã mais nova estava certa para que apostar em na gente, com os brutamontes briguentos de Ares a disposição? Era uma péssima negociação ninguém saia ganhando, a não ser talvez, os filhos de Ares, mas eles já estavam acostumados com isso, alguns até gostam.
Talvez Ânteros pensasse que éramos mais apropriados desde que era uma vingança por um amor morto. Ou ele achasse divertido nos ver sofrendo. Ou ainda, ele enlouquecera por completo, outra coisa que eu nunca vou falar em voz alta.
Quando eu olhei para Rosa de novo, ela afinal acordara daquele transe e erguera a cabeça um pouco mais parecida com a sua expressão confiante normal.
– Parou de ser zumbi? –Perguntei para disfarçar a minha preocupação.
– Parou de ser feio? –Ela estava bem.
– Isso não é estranho? –Kalli indagou.
– Eu e o Cardio brigando? Não muito.
– Não. Estou falando sobre quase estarmos numa missão.
– Certamente, acho que quebramos uma tradição do chalé 10. –Falei.
– Pelo menos, pior do que isso... –Rosa começou a dizer.
– Não termine essa frase! –Kalli quase gritou fazendo com que Rosa pulasse no assento assustada.
– Por quê?
– Sempre que alguém diz isso algo ruim acontece logo em seguida, por exemplo, chove de repente. Vocês não veem televisão? As coisas não estão tão ruins assim. E quem sabe conseguimos voltar... – ela parou de falar, nós três nos levantamos das poltronas para ver melhor a densa nuvem de fumaça que surgia na frente do ônibus acompanhados de sons esquisitos, o que não me pareceram bom pressagio. O ônibus diminuíra tanto de velocidade que mal se movia.
– Parece que a sua idéia não funcionou. - Eu disse para Kalli.
*****
– Ele me disse que uma peça quebrou e só pode ser trocada. – Rosa nos avisou depois de conversar com o motorista. – Ele me disse que chamou outro ônibus da empresa, mas olha só, pode demorar três horas!
– Três horas?! -Dissemos.
Estávamos em um trecho da estrada com nada além de grama arbustos e árvores. Sem lanchonete, ponto de ônibus, shopping. Eu podia ver pelos rostos dos outros passageiros que eles concordavam comigo.
– Eu vou ver se consigo alguém para nos tirar daqui. –Kalli disse e sacou o celular. – Eu tenho uns parentes que não moram tão longe daqui. Tártaro...
– O quê?
– O sinal... – Ela murmurou levando o aparelho de um lado para o outro. – Não consigo pegar.
Eu assisti a ela e Rosa andarem de lá para cá com seus celulares sem terem sucesso. Eu mesmo cheguei a pegar o meu, mas se elas não conseguiam o sinal, não tinha motivo para eu o fazê-lo. Então:
– Vamos. – Rosa mandou.
– Vamos? – Perguntei sem entender. – Aonde? O ônibus ainda está bichado.
– Não foi isso que eu disse. – Ela respondeu irritada e apontou para uma colina do outro lado da estrada um tanto afastada de nós. – Vamos!
- O que, subir aquilo? Mas é alto e longe demais! – Reclamei.
– Outra idéia de como podemos fazer esses trecos funcionarem? – Ela replicou enquanto chacoalhava o próprio telefone, irritada.
– Hã, pessoal. – Kalli chamou, voltara à vigia do medalhão. – Deveríamos nos apressar.
– Olha aqui, pirralho, você quer ficar aqui o dia inteiro? – Espinhosa me perguntou de um jeito idêntico ao qual Ânteros falara comigo antes.
– Não...
– Então anda. – ela pôs as mãos nos meus ombros e me empurrou. – Temos que ficar juntos.
"Temos que ficar juntos", essa foi a frase mais legal já dita por Espinhosa para mim logo depois de: "Se você não devolver o meu espelho, eu nunca mais falo com você".
Eu as segui, resignado pelo caminho colina acima. Não, pois Espinhosa mandava em mim como ela aparentemente pensava, Kalli poderia precisar de ajuda no telefonema. Não tinha relação com a ameaça nos olhos de Espinhosa. Nenhuma.
Quando cheguei ao alto da colina, sentei-me em uma pedra a sombra das árvores, o dia estava muito quente e todo aquele exercício físico estava me fazendo suar e eu odeio suar quase tanto quanto o cheiro dele. Kalli finalmente conseguiu fazer o seu celular funcionar e agora tentava convencer um primo no outro lado da linha a nos ajudar.
– Você sabe que eu faria o mesmo por você, claro, não exatamente o mesmo, eu não tenho carro nem sei dirigir... Depois eu te explico como vim parar aqui... Não, eu não posso pegar um ônibus, você não ouviu a minha história? Eu não sei onde está o seu caderno de física. O que isso tem a ver?
Rosa se sentou ao meu lado em silêncio me evitando como se eu não estivesse ali. Notei que estava com muita raiva de mim, não se dignando sequer a me ofender. Tudo estava péssimo, mas a culpa não era minha, ela não deveria me desprezar daquele jeito era muito agressivo.
Era o pior aniversário da minha vida, eu tinha certeza disso por que em horas eu não pude me lembrar ou me aproveitar de ser o dia do meu nascimento. Nem tinha bolo, no aniversário de alguém tudo deveria ser do jeito dele! Era mesmo muito azar!
E se Ânteros fazia tanta questão que trapaceássemos Eros, poderia ter nos teletransportado como ele próprio fez no rio.
Aqui, meu cérebro gritou comigo como faz umas vezes como se pertencesse a outra pessoa com uma linha de pensamento diferente da minha, me lembrando de algo que eu tinha esquecido já que nunca me importava.
– Rosa. – ela não respondeu. – Eu me lembrei por que os outros semideuses não usam celulares!
– Eu também. – Ela se levantou abruptadamente, agarrou o meu braço com tanto força que pensei que iria quebrá-lo, forçou- me a ficar de pé e apontou para um pouco além da base da colina.
Uma criatura imensa caminhava em nossa direção. Eu demorei um pouco para entender o que via. A pele dele era suja a ponto de ser verde, e marrom, o cabelo era num tom pálido de cinza mesclando se com o resto da paisagem. Se ficasse parado poderia passar-se por uma árvore estrondosa. Contudo, em movimento percebíamos sua forma humana agigantada e o olho era menos discreto.
Obviamente, eu já ouvira histórias sobre ciclopes (nenhuma boa), porém nunca passou pela minha cabeça me meter em problemas com eles, ou com qualquer outro tipo de monstro. No entanto, aquele era o pior aniversário da minha vida tudo poderia acontecer! E pelo que parece tudo iria acontecer.
– Mike, eu sei que você não precisa ir para a escola, porque já estamos em horário de aula e a não ser que você esteja falando no telefone no meio da sala... – Eu fiz Kalli se virar para ver o recém chegado. – Vem logo, preciso desligar!
Ela pôs o celular no bolso e corremos para nos esconder um pouco abaixo de onde estávamos, se ficássemos lá estaríamos muitos expostos. Deitamos-nos embaixo dum emaranhado de galho e folhas, eu arranhei o meu rosto, mas nem aquilo era tão importante naquela hora.
O medo entre nós três era tangível, mal respirávamos para não denunciar nossa presença. O estrondo dos passos desajeitados do ciclope ficava mais perto acompanhado por tremores de chão. Rezei para que o nosso esconderijo funcionasse, se tivéssemos que encará-lo seria o nosso doloroso fim. Nem podíamos tentar, não que eu quisesse, estávamos desarmados. Quem sabe, Ânteros tivesse colocado uma arma nas mochilas, mas eu não era corajoso ou desesperado o suficiente para me virar e abri-la justo naquele momento.
Espiei por entre as raízes velhas a minha frente. No topo da colina, onde estávamos minutos antes, o ciclope parara com as mãos na cintura, girava a cabeçorra a busca... Da gente. Imaginem esse momento acompanhado da música tema de "Tubarão". Dadadadadada...
Isso estava muito errado! Monstros não se importam com as crianças de Afrodite, mesmo quando encontramos algum eles só nós encaravam com desprezo e iam embora, ou sequer somos notados! Não soube por que o gigante continuava ali, nada bom. Ele fazia um som engraçado... Estava farejando!
Olhei paras minhas irmãs, elas continuavam fitando o monstro. Precisávamos arrumar um jeito de sair dali. Estava prestes a gesticular para as minhas irmãs para, não sei, rastejarmos embora, quando o ciclope deu as costas e voltou a andar. Fácil assim.
Ainda ficamos alguns minutos paralisados, ouvindo os passos se afastarem e por fim desaparecerem. Levantei-me aos poucos, era como se meus músculos não quisessem voltar a se mover tão cedo. Espanei um pouco de terra para fora das minhas roupas, acenei com a cabeça indicando para as meninas que saíssemos dali.
– Já é seguro? – Rosa perguntou enquanto tentava ficar sobre os joelhos.
Eu dei de ombros. Procurei por sinais do ciclope e, felizmente não encontrei nada. Isso, para mim, já era incentivo o suficiente para sair dali o quanto antes. Esgueirei para longe do esconderijo.
Mais tarde eu admiti (não em voz alta!), ter sido descuidado. Eu liderava uma corrida encosta a baixo, a vegetação era densa e me arranhava o tempo todo e o chão lamacento, talvez eu não caísse nele, mas ficaria coberto de mala.
Então eu senti um movimento forte que provocou uma rajada de vento por trás de mim, e ouvi Rosa e Kalli gritarem. Virei-me e vi as minhas irmãs sendo engolfadas pelo que pareceu a primeira vistas parte da vegetação. Entretanto, era um dos horrorosos braços gordos, agora eu via sua cabeça misturada com as plantas e seu único olho sonso a minha procura. Dei só um passo para trás, foi o suficiente para me fazer escorregar numa pedra e cair da parte mais íngreme da colina. A última coisa que eu vi antes de ser salvo, isso é tão questionável, pela mão gigante foram os dois pés que nunca viram um par de calçados. Foi como cair de um avião sem para-quedas em direção a uma piscina e aí perceber que ela só tem dois metros de profundidade, está cheia de tubarões brancos e sua roupa deve ser lavada a seco.
*****
– É bastante solitário por aqui, quero dizer eu não gosto muito do corre-corre das cidades grandes, mas ficar muito afastado é mau. Adoro o lugar, tem muitos quartos e quase nenhum vizinho...
Stulti, esse era o nome de verdade do ciclope, tagarelava como se algum de nós se importasse com a situação imobiliária da casa dele. E como se isso não bastasse, ele tinha que ser o monstro mais sujo daquele lado do planeta.
– Hã... Senhor Stulti – Rosa falou em um tom educado e tremulo, não acreditava que ela estivesse conversando com aquilo. – Não é uma reclamação, mas... Eu, hã... Vejo que você percebeu que... Estávamos perto da sua casa.
– Sim, ele respondeu devagar em sua voz pouco inteligente. – Como disse, não há muita gente por aqui. Faz algum tempo desde a última vez que eu peguei um semideus ou até mesmo um mortal. Todos passam muito rápido nas latas com rodas.
– Carros? – Rosa sugeriu.
– É, e vocês são fracos, mas na falta...
Enquanto ignorava a perspectiva de virar almoço, ou de ter minha força humilhada novamente, tentei me mexer e não consegui, Stulti nos mantinha apertados entre seus antebraços e sua barriga que deveria ser grande demais mesmo para um ciclope. Ele nos levava pra sua tão falada casa e eu não sabia o que fazer.
– Chegamos. – Stulti cantarolou ao pararmos em uma parede rochosa.
Ele me passou para o outro braço, e usou o livre para afastar plantas trepadeiras, revelando a boca de uma caverna. Estávamos em um túnel (mal) iluminado por uma fogueira em um canto e atapetado com metros de peles. Era um lugar muito quente e abafado, inapropriado para passar um dia de verão como aquele. Por cima do ombro do ciclope passavam os últimos raios de Sol que eu vi antes de entrar na penumbra. Tentei não pensar que era o mesmo que ser enterrado vivo.
*****
A caverna parecia não ter fim, caminhamos por milhões de corredores viramos à esquerda e à direita mais vezes do que sou capaz de lembrar. Eu chegara ao cúmulo do desespero mudo e continuava sem saber como continuar vivo. As minhas irmãs não pareciam ter mais esperança, seus olhos estavam vazios de emoção, poderiam estar pensando em um jeito de fugir, ou, o mais provável, estivessem em choque.
Entramos em um corredor que como o primeiro era iluminado por uma fogueira. Foi aí que me ocorreu uma ideia estúpida, e provavelmente não funcionaria, mas ela era a minha única chance.
– RATO! – Gritei apontando para qualquer ponto no chão coberto de tapetes. – RATO!
Stulti ficou confuso e assustado, ele parou e virou a cabeça como se procurasse por quem gritara. Quando entendeu o que eu estava dizendo seus olhos se arregalaram... Olho se arregalou assustado e passou a examinar o chão.
– RATO?! ONDE? – ele berrou fazendo meus ouvidos vibrarem. Eu não esperava que funcionasse tão bem, só queria uma distração. Mas aparentemente, o ciclope morria de medo de ratos, como elefantes, como a Kalli (ela me mataria se descobrisse que eu coloquei o nome dela na mesma frase que rato e elefante, e ciclope, e morrer também). – ONDE?
– ALI! – Stulti começou a pisar onde eu apontava tentando esmagar o animal. As minhas irmãs olhavam para mim como se eu fosse louco, não importava o meu plano estava dando certo. – NÃO, AÍ NÃO! ALI!
– ONDE?! ONDE?! – O ciclope perdia o equilibrio sobre o corpo ao pisotear os lugares que eu indicava, bem, o "rato" era muito rápido. Desse jeito eu o aproximei cada vez mais do lugar "X", até...
– Ali! O RATO CORREU PARA LÁ! – Por mais absurdo que pareça, eu apontei para a fogueira e Stulti meteu os pés no fogo sem pensar duas vezes. Ao sentir a chama ele urrou de dor. E nessa confusão acidentalmente nos libertou de seu abraço esmagador. Por sorte (finalmente!), não caímos no fogo nem em baixo dos pés do gigante, que parecia estar sapateando. Gritei para as garotas: – Corram.
Eu voei por corredores sem olhar para trás ou para onde ia, só parei quando julguei longe o suficiente e minhas pernas ameaçaram fazer o jeans pegar fogo. Vi-me sozinho em um quarto cheio de lixo, era difícil imaginar que até o esquisito do Stulti tivesse alguma utilidade para aquilo. Havia pilhas de pele empilhados em um canto, copos e canecas que mais pareciam baldes no outro. Vi algo que parecia ser um gigante monóculo gigante de lente escura, um olho daquele deveria ser sensível. Apoiei as minhas costas contra a parede arfando, agora, não sabia de Kalli e Rosa, como ir embora, ou porque os meus planos sempre acabavam errados. Sentei-me no chão, estava imundo como um estábulo, porem havia algo ali que não apareceria em um estábulo normal: ossos. Fiquei de pé num pulo enojado, não podia ficar ali a essa hora o ciclope deveria estar nos procurando, e havia lugares melhores para morrer naquela caverna, acho.
Entretanto, antes de ir, me lembrei de ver o conteúdo da mochila para caso houvesse algo de utilidade. Impaciente a abri, encontrei barrinhas de cereal com chocolate, dinheiro, um liquido colorido numa garrafa... Um espelho! E obrigado os deuses, uma faca de bronze celestial em uma bainha de couro. Coloquei-a segura em um dos bolsos e estava de saída quando ouvi um gemido. Um som longo e triste vindo de algum lugar perto.
Pensei em ignorar, mas acabei cedendo a minha curiosidade. Segui o som, ele me levou até a pilha de peles. Mexi um pouco um deles, mas não tive que procurar muito, o que era bom, pois cada um pesava duas toneladas. Fiquei surpreso quando achei a origem do barulho, um carneirinho meio enterrado nas peles. Ajudei-o a sair dali, era alguns centímetros mais alto que o meu joelho e tremia.
– Venha aqui. – Chamei. – Você está sozinho? Hein?
– Beee!
– Sim, vamos embora, aqui não é lugar para filhotes.
Acompanhado de meu novo amigo, fui para o corredor sem saber para onde seguir. Se conseguisse encontrar as minhas irmãs sairíamos da maldita caverna. Eu tinha que fazer isso, não porque aí estaria quebrando o pedido (ou ordem) de Ânteros, o motivo era que sentia ser minha culpa no final das contas. Eu inventei de esconder a canoa no Acampamento Meio- Sangue e começou assim...
– CARDIO! – ouvi Kalli gritar em desesperada, segui o som da voz dela me forçando a correr novamente, alguns... Passos? Trotes? Galopes? Atrás de mim o carneirinho lutava para continuar junto de mim. – CARDIO!
– KALLI!
Passei desenfreado pela primeira porta que apareceu, esperava reencontrar Kalli nesse ponto da história, mesmo Rosa não teria sido de todo o mau. Eu já disse que esse é o pior aniversario da minha vida? E eu tenho outros onze concorrendo contra ele. Enfim, encontro Stulti e antes que possa fazer qualquer coisa, ele me agarra com as mãos ensebadas. Senti raiva de mim mesmo (o que não é normal, porque eu sou ótimo) teria me socado se conseguisse mexer os braços, eu já ouvira meio-sangues contando sobre a capacidade dos ciclopes de imitar vozes e eu corri para a armadilha, literalmente.
– Ah, já estava na hora de eu achar você! – Stulti falou como se fossemos velhos amigos se encontrando casualmente, aí um mata o outro. – Só faltava você! Agora estamos prontos!
– Beee! – baniu o carneiro irritado. Qual por escolha minha, será referido como Blanco daqui por diante. O monstro mal pareceu ouvir, dava as costas para me levar embora quando Blanco deu uma cabeçada no calcanhar dele.
–Blanco foge! Sai! – Gritei, em resposta ele mirou outra cabeçada, talvez ele ainda não estivesse acostumado com o nome. – Não, na outra direção!
Tarde demais, Stulti se abaixou para ver o que incomodava. Riu quando pegou o carneiro. – Ganhei um brinde, você fica para o lanche! Mas, não vamo nos atrasar . Eu não tinha certeza do que era pior: ser devorado ou ser devorado por alguém que me trata como seu convidado. Mas o segundo ganhava de disparada.
*****
Ele nos levou para um aposento que só podia ser a cozinha, ao mesmo tempo em que era imunda de mais pra sê-la, havia uma espécie de balcão, um caldeirão de bronze (não o celestial é claro) ardia sobre o fogo, tudo no tamanho GGGGGM. E presas no teto como carne no açougue, Kalli e Rosa. Elas franziram as sobrancelhas tristes quando me viram. Blanco e eu fomos amarrados junto a elas, vi que seus rostos pareciam manchados de lágrimas.
O ciclope foi até um canto e mexeu em algo, quando ele se afastou vi que era uma televisão, também, de um tamanho consideravelmente bom. Mas uma das bem velhas, com algo entre 15 bilhões de anos, da época em que perucas tinham um metro e meio de altura, e a imagem era péssima em cores estranhas, ou preto e branco. Uma mulher de cabelos curtos falava algo por trás de um balcão:
– Primeiro corte em rodelas as cenouras que cozinharmos junto a carne. – Stulti foi até o seu próprio balcão e pegou um monte de cenouras que partia com as mãos (alguma parte do meu cérebro o notara não ter lavado as mãos).
Isso significava que não seriamos comidos crus, seriamos acompanhados por cenouras, que desperdício de beleza. Precisava salvar os meus amigos, mas como? Eu tinha uma faca, mas mesmo assim não havia muitas chances ao meu lado. Injusto eu era novo e bonito demais para morrer por causa de alguém tão feio, não que se o ciclope mudasse de visual melhorasse muito o quadro. Implorei mentalmente por um milagre. Quase como se fosse uma resposta, senti outro peso no meu bolso além da minha faca, e mais estranhamente me enchi de coragem e determinação.
O mais discretamente possível, trabalhei com as minhas "armas". Desembainhei a minha faca de caça e segurei o outro volume, a minha camera fotográfica tentando me manter calmo, liguei só por precaução. Olhei para baixo, para um monte de... Ah, monte, não muito longe, poderíamos cair nele e evitar machucados, os fatais.
Virei-me para as minhas irmãs, elas perceberam que eu fazia algo e me ohavam interrogativas.
– Ei, meninas. – Mal pronunciei as palavras e torci para que elas entendessem leitura labial. – Veem aquela montanha de lixo? Temos que nos balançar na direção dela.
Rosa olhou aterrorizada para a minha faca e negou fervorosamente com a cabeça.
– Por favor, confiem em mim, estamos para morrer!-murmurei. Rosa concordou com um aceno sem muita convicção e Kalli a imitou, Blanco tocou o meu rosto com o focinho, entendi isso como um incentivou, isso ou eu só estava cheirando engraçado, esse último não era tão improvável. Sorri para mostrar confiança, elas fingiram que engoliram essa, concordaram mais uma vez, e comecei a jogar o meu peso de lá para cá. Estávamos cada vez mais perto do monte de algo, então prendi a minha respiração, eu não sabia o momento de cortar as cordas.
Porém, pensei positivo, se eu não cortasse as cordas morreríamos mesmo, e de uma maneira mais dolorosa (a minha definição de positivo piorara muito nas últimas horas).
– Agora, pegamos a carne para temperá-la. –A imagem da mulher na TV nos sentenciou.
Stulti se virou muito feliz, quando nos viu franziu a única sobrancelha.
– Ei, o que vocês estão fazendo?
Ouvi Kalli e Blanco gemerem, me senti sendo dominado pelo pânico novamente, segurei a câmera com toda a minha força em frente aos olhos... Olho do monstro e usei a faca.
Tudo aconteceu em segundos. Cortei as cordas em um movimento no mesmo instante em que apertei o botão da máquina. Stulti foi cegado pelo flash super potente, recuo assustado, tropeçou e caiu no próprio caldeirão urrando. No entanto, só vi isso como um borrão, eu e minhas irmãs voamos do teto para o chão, Blanco balia mais do que nunca, e eu protegi o meu rosto com os braços. Entrei naquela pilha nojenta de cabeça, sujando-me com algo grudento, foi quando eu decidi que nunca descobriria de que aquilo era feito.
Ouvi três outros baques perto de mim, levantei-me como pude, tomando o cuidado de não abrir a boca. Ninguém se machucara na queda, mas os outros estavam tão limpos quanto eu. Ajudei Blanco a se desentalar e nos quatro corremos pelas nossas vidas, dessa vez na mesma direção. Nós passamos pela porta da cozinha, eu dei uma última olhada para o ciclope ainda preso no caldeirão ardente, e corremos sem rumo pelos corredores, eu nem sei por quanto tempo, mas eu sabia que pelo som o gigante já se libertara e como aparentemente não tinha mais nada para fazer estava nos perseguindo. Ele ainda parecia estar longe, mas o meu mais rápido não era o suficiente.
Entramos em outro cômodo cheio de lixo, o meu corpo pareceu mas leve, na parede do outro lado havia uma rachadura larga o suficiente para passarmos. Rosa acelerou e pulou pela rachadura elegantemente. Kalli, Blanco e eu nos jogamos em direção a luz do dia ao mesmo tempo. Senti algo prender o meu pé e em vez de passar pela fenda, eu cai desastradamente para fora. Acompanhado da minha irmã e do filhote. Bati dolorosamente na terra úmida, mas sem quebrar os ossos. Kalli e Blanco também, porém a queda deles foi mais suave, por causa do meu corpo.
Estávamos em um buraco estreito e úmido. Procurei pela coisa que me fizera tropeçar, ainda estava presa nos meus pés. Era uma rede de bronze celestial, semelhante as dos caras de Hefesto no Acampamento, eu não queria nem imaginar como ela fora parar ali e o que aconteceu com o dono. A coloquei dentro da mochila sem cerimônia, sem saber muito bem porquê.
– Vocês estão bem? –Rosa gritou aparecendo na borda acima de nossas cabeças. Ela de alguma forma conseguira desviar da queda quando deu o seu salto de bailarina.
– Estamos vivos, se quer saber isso. – Kalli respondeu. Rosa estendeu os braços para ajudá-la a sair e me lançou um olhar como se dissesse "ela primeiro, gosto mais dela" o que por mim tudo bem, se fosse o contrário eu faria o mesmo.
Depois que Kalli subiu demos um jeito de tirar Blanco de lá, ele era mais pesado do que parecia, e não parecia tão leve. Eu fiquei por último.
– Bem. –Rosa disse enquanto eu tentava me segurar numas plantas e usava os cotovelos para tirar o resto do meu corpo do buraco, Kalli tentava puxar meu braço, e Rosa me ajudava, mais ou menos (ela não fazia nada). – Ao menos, pior do que isso não fica.
O som de trovoadas veio do céu e começou a chover impiedosamente. A água da chuva me fez escorregar e cair no fundo do buraco novamente. Doeu tanto quanto da primeira vez, e dessa vez ninguém caiu em cima de mim, acho que é o tipo de coisa com que nunca conseguirei me acostumar. E escutei Kalli dizer lá em cima:
- Eu disse.
Uau, eu achei que conseguiria postar isso antes, desculpem, e o pior é que o terceiro capítulo deve demorar ainda mais, mas vou tentar fazer um maior... Bem, pelo menos eu postei finalmente.
Caso alguém esteja imaginando, sim, qualquer semelhança com O Ladrão de Raios ou outro momento da série não é coencidência.
Hum,Cardio já deve estar me odiando agora:
- Estou!
Kalli e Rosa...
- Também, mas é mais por você dar mais atenção para o Cardio!
- E o ciclope também não foi muito bom!
- Beeeee!
- Também não "tô" feliz, meu pé ainda dói.
Vocês devem saber quem disse o que. E eles achando que o primeiro capítulo tinha sido ruim, a propósito se alguém quer saber a música do toque de celular da Rosa é da banda ABBA, me pareceu o tipo de música que ela acharia fofa, e que, impressionante, também não me pertence.
E só aroveitando para dizer eu criei uma poll. E acreditem se quiser entre o início dessa página e aqui, A Batalha Do Labirinto NÃO chegou, ainda bem que eu li ano passado. Incrível como a primeira e a segunda frase não têm ligação nenhuma.
Então, amaram? Bom para mim. Detestaram? Problema seu... Na verdade, problema meu, quem me mandou colocar isso num site que dá espaço para comentarem.
