Recomeço - capítulo 3

Fandon: Supernatural

Personagens principais: Jensen / Jared

Sinopse: Jensen tinha um dilema: Como poderia ajudar seu paciente a encontrar um motivo para seguir em frente, quando ele próprio não conseguia encontrar seu caminho?

Nota: Esta fic é pura ficção, o foco dela é o relacionamento entre o psicólogo e o paciente, eu não entendo nada a respeito de psicologia, psiquiatria, ou qualquer outro tipo de tratamento.


Depois de se despedir de Sebastian, Jensen dirigiu direto para o seu apartamento. Estava se sentindo um lixo... pisado, humilhado. Ver Daneel com aquele sujeito arrogante havia realmente mexido com os seus nervos.

Sentou novamente na sala, no escuro, se odiando por ser tão fraco. Por que não conseguia simplesmente esquecê-la e seguir em frente? Por que só tinha enxergado o quanto ela era importante em sua vida depois de perdê-la?

Começou a andar de um lado para o outro dentro do apartamento, e sabia que seria mais uma daquelas noites insuportáveis em que passaria rolando na cama, sem conseguir dormir.

Não, realmente esta não seria... Foi até o armário do banheiro e pegou um frasco de remédios para dormir, que mantinha ali apenas para casos de emergência, e este era um deles, então colocou dois comprimidos em sua mão, e com isso acabou se lembrando de Jared... Teve que sorrir imaginando o quão mal ele deve ter passado após ingerir todos aqueles comprimidos. Cada doido com a sua mania! – Jensen pensou e então engoliu os comprimidos, indo deitar em seguida.

Na segunda feira o dia custou a passar, Jensen atendeu alguns pacientes pela manhã, e tinha a tarde livre, então como este caso o estava deixando ansioso, se dirigiu um pouco mais cedo para a clínica.

Tirou um tempinho para conversar novamente com Jeffrey, e também conversou com uma enfermeira, muito simpática por sinal. Precisava saber como andava o comportamento de Jared quando ele não estava por perto. Para sua decepção, as coisas não haviam melhorado, Jared continuava se isolando, sem falar com ninguém.

Jensen andou mais um pouco pela clínica, não queria se mostrar ansioso para o paciente, e só então foi até Jared, que estava novamente sentado no jardim.

- Uma moeda pelos seus pensamentos – Jensen disse se aproximando.

- Você realmente não iria querer saber...

- Está olhando o que?

- Tem um bocado de gente doida aqui.

- Você acha? – Jensen riu...

- Ta vendo aquela garota ali? – Ela chora o tempo todo, enquanto a outra mais velha fica consolando... O outro cara ali, ele repete a mesma frase o tempo inteiro...

- Você gosta de observar as pessoas?

- E tem outra coisa pra eu fazer aqui?

- Você tem seus privilégios, Lap Top, acesso a internet, jogos...

- Isso enjoa...

- É, você tem razão.

- Eu vou ficar assim, se ficar aqui por muito tempo?

- Assim como?

- Como eles?

- Provavelmente não, essas pessoas já deviam ter algum distúrbio quando vieram pra cá.

- Hmm.

- Como você se sente hoje?

- Péssimo. Eu passei o fim de semana sem dormir, o que você acha?

- Bom, dependendo da sua cooperação, eu posso voltar a receitar os remédios para dormir.

- Eu só não entendo uma coisa... Você não é psicólogo? Então como é que você controla a minha medicação?

- Na verdade, eu esqueci de te informar que além de psicólogo, eu também sou psiquiatra, tenho as duas formações, apesar da psicologia ser a minha especialidade.

- Hmm.

- E por isso sim, sou eu quem vai controlar a sua medicação.

- Legal, então você vai usar de chantagem? Vai fazer jogo sujo comigo?

- Não, se você colaborar, com certeza não.

- Você é esperto.

- Então, você quer me falar sobre a sua vida, hoje?

- Não, você quer me falar sobre a sua?

- Jared, não sei se você percebeu, mas o psicólogo aqui sou eu, e é você quem precisa de ajuda.

- Eu não preciso de ajuda, eu só preciso sair daqui.

- Então coopere!

- O que você quer saber?

- Você pode começar por onde quiser, ou então que tal me dizer o motivo para querer desistir da vida aos 26 anos de idade?

- Eu só não quero mais viver! É uma escolha minha!

- E como é que alguém faz uma escolha dessas?

- É bem simples... Não tem mais nada neste mundo que me faça querer continuar, será que é tão difícil de entender?

- E isso é pelo fato de você ter perdido o seu namorado?

Jared demorou para responder, quando levantou o olhar, estava com os olhos marejados.

- Eu vivia por ele, e... agora... acabou. Acabou, então... Droga! Por que as coisas tem que ser assim? Por que ele morreu e não eu?

- Você quer me contar sobre o acidente? Como foi que aconteceu?

- Não.

- Você estava dirigindo?

- Não.

- Jared?

- Estava tudo errado... tudo errado! Era eu quem deveria estar dirigindo, e não ele. Todo santo dia era eu quem dirigia aquele maldito carro, então por que justamente aquele dia eu...

- Aconteceu alguma coisa entre vocês naquele dia? Alguma briga, ou algo assim?

- Não, estava tudo bem.

- Conte-me o que aconteceu então...

- Eu não...

- Jared, por favor... conte-me o que aconteceu, a partir do momento em que você acordou naquela manhã.

- Eu não sei no que isso pode ajudar...

- Por favor Jared, vamos lá... já é um começo.

Jared encarou Jensen por algum tempo, decidindo se falava ou não... Era intrigante, não sabia o que exatamente, mas tinha algo naqueles olhos verdes que o fazia se sentir seguro, que inspirava alguma confiança...

- Eu tenho mesmo que fazer isso? – Jared suplicou.

- Sim.

- Você não vai desistir mesmo?

- Não.

Jared bufou...

- Naquele dia... nós acordamos cedo, e... bom, o Jason sempre levantava primeiro, depois me chamava, então nós saímos pra correr no calçadão da praia, como fazíamos todos os dias.

- E?

- Você quer saber tudo?

- Tudo.

- Tá, que saco! Depois da corrida, nós voltamos pra casa, tomamos um banho juntos, e... você sabe... Então depois eu me vesti e fui pra cozinha fazer o café, enquanto ele se aprontava, ele levava horas, sabe – Jared disse sorrindo pela primeira vez – E, depois tomamos uma xícara de café, e ele me pediu para revisar o artigo que ele tinha corrigido a noite. Então eu tive a infeliz idéia de ler no caminho, enquanto ele dirigia. - Jared parou, e ficou pensativo por algum tempo, novamente com aquele olhar perdido, sem foco, como na primeira vez em que Jensen o vira.

- E depois disso? – Jensen não podia deixá-lo voltar a estaca zero, tinha que fazê-lo falar – Jared?

- Hmm?

- E depois, no caminho, o que aconteceu?

- Ele... ele dirigiu e eu fui lendo, e... eu tive que rir, porque ele não tinha alterado quase nada, então ele me perguntou como estava, e eu disse que estava um pouco melhor. Aí ele arrancou o texto da minha mão e disse que eu era um péssimo mentiroso...

Flashback on...

- Então amore, o que você achou? – Jason perguntou ansioso...

- É, melhorou um pouquinho – Jared disse segurando o riso...

- Me dá isso aqui! Cara, você é um péssimo mentiroso!

- Ok, está uma droga! Você não modificou quase nada!

- Fala sério Jay! Eu fiquei até as duas da manhã revisando essa droga, enquanto você dormia.

- E por que não me chamou?

- Por que aí sim que eu iria passar o resto da noite sem dormir – Jason disse colocando a mão sobre a coxa de Jared.

- Você é um tarado, isso sim! E acho melhor você refazer, eles não vão publicar isso...

- Você é que é um leitor muito exigente, onde foi que eu errei?

- Eu sou o melhor crítico da sua coluna... Não era pra você ser imparcial? Pelo que me falou, era só pra fazer um comparativo, mas do jeito que você escreveu, até uma criança de oito anos vai perceber que você estava contra o Bush. Sinceramente, política não é o seu forte.

- Magoei agora! – Jason disse fazendo biquinho, e Jared teve que rir. – Mas tudo bem, hoje eu tenho a tarde livre, posso revisar. E a noite, eu sou todo seu...

- Oh, finalmente uma boa notícia...

Flashback off.

- Depois disso, nem sei direito, a gente estava rindo de uma música tosca que estava tocando no rádio, e então, sei lá, foi tudo muito rápido. Nós estávamos passando em cima de uma ponte, e um caminhão vindo não sei de onde veio pra cima do nosso carro, que bateu primeiro na lateral da ponte, e então despencou, mergulhando no rio... Como a porta tinha sido arrancada, ele afundou muito rápido. Eu estava consciente, não estava muito machucado, então soltei o meu cinto de segurança, e tentei soltar o Jason, mas a perna dele estava presa embaixo do painel, estava prensada, e eu não consegui soltá-lo...

- E aí?

- Aí eu... eu já estava sem ar, então, olhei pra ele, fazendo sinal que eu não conseguia soltá-lo, ele mandou que eu saísse, eu fiz que não, então eu me prendi de volta no cinto e ia ficar lá, ia morrer junto com ele, como deveria ter sido... Eu não sei como, nem de onde ele tirou forças, mas ele soltou meu cinto e me empurrou para fora do carro, e nisso eu já senti alguém me puxando para cima, deveria ser algum mergulhador de resgate, ou algo assim. E depois disso eu não me lembro de mais nada, acordei no hospital dias depois...

- Eu sinto muito...

- Então por que... me diz... por que o Jason fez isso? Eu.. eu só... queria ter morrido com ele... Isso é pedir muito?

- Se ele fez isso, é porque queria que você vivesse, Jared! Você já pensou a respeito disso?

- Eu o odeio por isso! Ele não podia me deixar aqui, sozinho, ele não podia! - Jared dizia com lágrimas nos olhos.

- Eu sei que é muito difícil perder alguém, mas a vida continua. O tempo faz milagres Jared, acredite, ele cura tudo...

- Você não entende, não é? Eu não quero mais viver essa droga de vida!

- Mas você tem que tentar, mesmo que seja difícil.

- Tentar o que? O que me restou pra tentar? Os amigos? A minha família? Você bem viu que droga de família eu tenho. Se for pra viver com os meus pais, eu prefiro passar a vida toda nesta clínica...

- E os amigos? Não valem a pena?

- Os amigos só trazem lembranças dele... Não adianta as pessoas me consolarem, dizerem eu sinto muito, se ninguém pode trazê-lo de volta... Ninguém pode!

- Não, ninguém pode trazê-lo de volta, mas as pessoas podem te dar forças para continuar sem ele...

- Eu não quero continuar!

- Eu tenho certeza, e aposto todas as minha fichas que você vai encontrar um motivo para continuar... é só dar tempo ao tempo.

- Você vai perder!

- Posso até perder, mas vou perder tentando. Eu nunca desisto!

- Grande coisa!

- Ele era jornalista?

- Era.

- Onde?

- Ele tinha uma coluna fixa no New York Times, e também em uma revista de esportes.

- E você, o que fazia além de ser crítico? – Jensen disse rindo...

- Eu trabalho, ou trabalhava... cara, eu abondonei meu emprego! – Só agora Jared tinha se dado conta - Em uma empresa de publicidade. Fazia campanhas pra revistas e alguma coisa de comerciais pra TV também.

- Parece ser interessante... Você não pretende voltar?

Jared apenas o olhou, indignado.

- Quantas vezes eu vou ter que repetir?

- Ok, então vamos continuar de onde paramos...

- Chega! Jensen, chega! Eu não quero mais falar sobre isso.

- Então você pode me falar sobre outras coisas...

- Eu não quero falar mais nada! Por que você não vai embora?

- Pra você se fechar novamente em seu mundo? Não, nós ainda temos tempo hoje...

- Então por que você não vai se f... Por que você não vai ver outro paciente? Alguém que esteja interessado?

- Porque eu estou sendo bem pago para estar aqui, então tenho que fazer jus ao que ganho...

- Que saco!E seu eu te pagar o dobro do que ela, você me libera daqui?

- Eu não sei se você está ciente, mas no momento, você não pode fazer nada sem a autorização da sua mãe, nem mesmo mexer em sua conta bancária.

- O que? E ela pode fazer isso?

- Ela conseguiu um laudo psiquiátrico, alegando insanidade mental temporária, e com um bom advogado, ela pode sim...

- Eu não acredito!

- Jared, você tentou suicídio pela segunda vez, em menos de quatro meses...

- E por isso eu sou considerado doido?

- Eu não usaria esses termos.

- Claro, você é certinho demais pra falar isso, mas é o que você pensa.

- Talvez você queira me falar algo sobre a sua infância...

- Tava demorando pra vir com esse papo!

- Você estava indo tão bem até antes, Jared... Vamos lá...

- Eu estou cansado de falar de mim, por que você não me conta alguma coisa da sua vida?

- Porque eu não...

- O que você faz, além de infernizar a minha vida com perguntas?

- Ok, se isso te deixa feliz... Eu atendo vários pacientes em meu consultório durante o dia, e a noite eu geralmente fico em casa, ou leio, ou saio com meus amigos. Nas quintas eu tenho aula, estou fazendo uma especialização em psicologia comportamental, e em algumas tardes eu venho até esta clínica, com esperança de que você coopere com o tratamento, mas geralmente saio daqui frustrado.

- E como vai o seu casamento?

- Isso não vem ao caso.

- Eu falei um tempão sobre a minha vida pessoal, agora é sua vez de falar da sua...

- Não Jared, não é assim que a coisa funciona.

- Eu só vou responder suas perguntas daqui pra frente, se você responder as minhas...

- Isso não é um jogo.

- Mas pode se tornar um.

- Você tinha muitos amigos quando...

- Jensen, é a minha vez agora, eu não estava brincando - Jared disse o interrompendo.

- O que você quer saber afinal?

- Foi ela quem te largou?

- Foi, isso te deixa feliz?

- Não, mas eu já imaginava, só queria confirmar.

- Imaginava por que?

- Porque... você parece estar sofrendo com alguma coisa. Você ainda a ama?

- Sim Jared, eu ainda a amo.

- E você quer voltar com ela?

- É o que eu estou tentando fazer...

- E por que ela te largou? Você é do tipo que cuida melhor do carro do que da mulher? Ou ela arranjou outro garanhão?

- Isso não tem graça... Mas digamos que eu cuidava melhor dos meus pacientes do que dela, e só percebi a burrada depois que a perdi.

- Típico...

- Você está passando por algo parecido.

- Não, o Jason tinha todo o meu amor e toda a minha dedicação enquanto estava vivo.

- Que bom pra você, menos um motivo para se sentir culpado.

- Eu não me sinto culpado.

- Então, vocês eram o casal perfeito?

- Com certeza. Nós éramos o que alguns chamam de "almas gêmeas". Agora você entende porque eu não quero continuar? Nunca... nunca mais eu vou encontrar alguém assim...

Jensen ficou pensativo por alguns minutos... estava entrado em território desconhecido...

- Agora você já pode ir embora Jensen, e já que eu fui um menino bonzinho, por favor deixe a prescrição dos remédios, se eu não dormir mais uma noite, vou acabar enlouquecendo de vez...


Continua...

Nota: Muito obrigada a EmptySpaces pela dica sobre Psiquiatra / Psicólogo, é sempre bom ter alguém atenta aos detalhes. Beijinhos!!

Obrigada a todos que leram até aqui, e principalmente obrigada pelas reviews! É muito importante saber sua opinião!

Beijos!!

**Ah, para quem assistiu a primeira ou segunda temporada de Brothers and Sisters, eu pensei no Jason Mccallister (interpretado pelo ator Eric Winter) ao criar o namorado falecido do Jared. Ele é um gato, foi namorado do Kevin na série, só sem aquele lance de ser padre, é claro... rsrs