Recomeço - capítulo 4
Fandon: Supernatural
Personagens principais: Jensen / Jared
Sinopse: Jensen tinha um dilema: Como poderia ajudar seu paciente a encontrar um motivo para seguir em frente, quando ele próprio não conseguia encontrar seu caminho?
Nota: Esta fic é pura ficção, o foco dela é o relacionamento entre o psicólogo e o paciente, eu não entendo nada a respeito de psicologia, psiquiatria, ou qualquer outro tipo de tratamento.
Jensen foi para casa intrigado, depois da sua conversa com Jared... Que diabos tinha sido aquilo? Desde quando falava da sua vida pessoal para os seus pacientes? Aquele garoto, além de suicida e extremamente teimoso, tinha também o poder de mexer com a cabeça das pessoas, só podia ser isso – Jensen pensava enquanto andava de um lado para o outro dentro do seu apartamento.
- Almas gêmeas - Jensen riu – Desde quando existe esse negócio de casal perfeito? Até parece! Jared, você não passa de um romântico sonhador! – Jensen falava sozinho, e quando se deu conta disso, começou a achar que a loucura era contagiosa, então foi para o banho, tentando relaxar.
Depois de se vestir, foi até a sala e verificou as mensagens na secretária eletrônica, onde novamente havia uma de Daneel, querendo saber se os papéis já estavam assinados, duas mensagens de Katie, avisando sobre as consultas do dia seguinte, e uma da Sra. Sharon, pedindo que retornasse a ligação, pois queria saber como andava o tratamento do seu filhinho.
Jensen suspirou cansado, pelo visto amanhã seria um dia cheio...
Chegou cedo ao consultório, e não parou um minuto até a hora do almoço, quando aproveitou seu tempo livre e ligou para Daneel, precisava tomar alguma atitude, não podia simplesmente deixar as coisas como estavam...
- Alô.
- Oi, Dan, é...
- Jensen, o que foi agora? Os papéis já estão assinados?
- Não, na verdade... eu preciso conversar com você antes.
- Jensen, por favor!
- Olha Dan, é só uma conversa, ok? Você pode jantar comigo hoje? Assim nós podemos acertar algumas coisas.
- Está bem, Jensen... mas é só um jantar, ok? Não pense que...
- Eu não estou pensando nada, juro! É apenas um jantar.
- Ok, até a noite, então!
Jensen desligou e quase deu pulinhos na cadeira, isso não significava nada, mas já era um começo, afinal...
Em seguida ligou para a Sra. Sharon, dando informações sobre o progresso do tratamento de Jared, que na verdade Jensen não sabia se podia considerar aquilo um progresso, mas de qualquer forma mentiu para tranquilizar a madame.
Saiu para almoçar quando já eram duas horas da tarde, e então depois de passar em seu apartamento para um banho, se dirigiu novamente a clinica, e desta vez encontrou Jared em seu quarto, que era uma instalação bem confortável, onde também havia um sofá, e uma mesinha onde Jensen pôde deixar suas coisas.
Jared estava sentado na cama quando ele entrou, um tanto desanimado...
- Eu estava torcendo para que você não viesse hoje.
- Mesmo? Estranho, porque eu voltei a conversar com a sua mãe, e ela me disse que você normalmente fala muito, ou falava, antes do acidente. Então, eu estava imaginando... como você consegue ficar por tanto tempo sem falar com ninguém aqui? Pensei que talvez você estivesse ansioso pra falar comigo...
- Ansioso?
- Sim.
- Hah... Uma coisa é conversar com alguém que você gosta, outra é responder a um batalhão de perguntas a um estranho qualquer.
- Oh, mas eu não sou mais um estranho qualquer, desse jeito você me magoa! – Jensen disse se fazendo de vítima.
Jared riu...
- E se você resolvesse falar por si mesmo, eu não precisaria fazer tantas perguntas.
- Claro.
- Mas já que eu sei que você não vai falar, eu vou retomar de onde paramos.
- Típico. O que você quer saber agora?
- Eu quero que você me conte o que aconteceu na noite anterior ao acidente.
- Eu não sei aonde você quer chegar...
- Conte-me, por favor...
- Na noite anterior – Jared fez uma pausa, pensando - Bom, no final da tarde eu peguei o Jason no trabalho, e fomos direto para casa... Ficamos conversando um pouco, e pelas sete a irmã dele com o namorado apareceram lá. Então pedimos pizza e ficamos lá conversando, comento e bebendo vinho. Lá pelas dez eles foram embora, então nós deitamos no tapete da sala, para corrigir o artigo que ele tinha escrito.
- Sobre o que era o artigo?
- Política. Era pra ser um comparativo, alguma coisa sobre o Bush e o Obama, mas ele... bom, ele sempre escrevia sobre esportes, isso ali era um quebra galho para um amigo dele que estava doente, então... ficou um desastre. Ele colocou muito da sua opinião pessoal onde não era para colocar. Então nós ficamos algum tempo ali lendo e relendo, e nada...
Flashback on
- E aí? – Jason perguntou ansioso.
- E aí o que?
- Diz logo, amore mio! O que você achou? Está uma porcaria, né?
- Eu não diria uma porcaria, mas... quase uma...
- Não Jay, lê de novo, eu tenho certeza que eles vão gostar...
- É porque você está bêbado! – Jared disse rindo - Eles não querem saber a sua opinião, era pra ser só um comparativo, mas... se você tem certeza, então manda ver!
Jason gargalhou...
- Eu não tenho mais certeza de nada, eu já bebi muito vinho pra saber o que estou fazendo.
- Talvez você precise de um pouco de inspiração – Jared disse chegando mais perto e beijando seus lábios.
- Definitivamente, isso é tudo o que eu preciso! – Jason disse sorrindo e rolando para cima de Jared, ainda deitados no tapete...
Flashback off
- E depois... daquilo... eu fui dormir, e ele ainda ficou acordado, teimando com o artigo.
- Ok. E vocês sempre se entendiam tão bem?
- Geralmente.
- Nunca tinham problemas?
- Eu não diria problemas, mas algumas vezes nós não entrávamos em um consenso.
- Tipo o que?
- Tipo... há uns dois anos, nós tiramos férias juntos, e ele queria ir para o Rio de Janeiro, no Brasil, enquanto eu queria ir a Paris, então...
- E quem deu o braço a torcer?
- Nenhum dos dois, nós fomos para Amsterdã. – Jared disse rindo.
- E brigaram por causa disso?
- Não, claro que não.
- Jared, qual era a idade dele?
- 33.
- Há quanto tempo vocês estavam juntos?
- Há mais de quatro anos.
- E antes disso, o que você fazia?
- Como assim?
- Você estudava? Trabalhava? Tinha outro namorado? O que você fazia?
- Eu... eu estava no último ano da faculdade, e já trabalhava na agência de publicidade na época.
- Namorava?
- Não, quero dizer, eu saía com uma e outra garota, mas nunca namorei por muito tempo. Nunca por mais de três meses, eu acho.
- Garota?
Jared bufou e revirou os olhos...
- Eu não era gay antes dele, e também nunca me apaixonei antes.
- Hmm... interessante! E a sua vida antes dele, era boa, não era?
- Era um saco! Eu já te disse que depois do que eu vivi com ele, eu não quero mais viver de outra forma, não quero mesmo!
- Ok, mas as suas duas tentativas de acabar com a sua vida deram errado, você não acha que talvez é por algum motivo? Talvez ainda não seja a sua hora?
- Por favor, Jensen! Não vem com esse papo furado!
- Se eu te liberasse daqui hoje, o que você faria? Forca? Tiro, ou o que?
- Forca é uma coisa muito cruel, eu olhei um vídeo e... Putz! É terrível. Mas um tiro, quem sabe...
- Você teria coragem de puxar o gatilho? Porque suas duas outras tentativas falharam...
- A última teria dado certo, não fosse a empregada voltar na hora errada.
- Ou na hora certa.
- Tanto faz. Mas quase consegui. Remédios nunca mais, passei mal por mais de uma semana depois daquilo. E os meus pulsos ainda dóem também.
- Está vendo? E se você errar o tiro? Pode ficar com sequelas pelo resto da vida.
- Eu posso contratar um assassino profissional, eles não erram.
- Você é maluco.
- Devo ser, senão não estaria em um manicômio.
- Desculpe, foi força de expressão... Mas isso aqui não é um manicômio, é uma clínica de repouso.
- Dá no mesmo, só tem maluco aqui.
- Eu já disse que só depende de você querer sair daqui.
- Claro... Só depende de mim...
- E depois do acidente? Conte-me o que você se lembra, do que aconteceu exatamente depois do acidente.
- Eu só me lembro de ter acordado no hospital, já tinham se passado uns cinco dias, inclusive o corpo dele já tinha sido enterrado. Acho que eu estava dopado antes disso, porque não me lembro de nada.
- Provavelmente sim.
- Eu ainda sentia um pouco de dor, e tinha uns ferimentos leves, mas estava bem, então fui liberado para ir pra casa. Eu fui levado para a casa dos meus pais, na verdade eu estava pouco me importando, eu só queria ficar sozinho, então eu passava o dia todo trancado no quarto. Eu soube que os meus amigos vieram me ver, mas eu não queria ver ninguém, então, como minha mãe também não foi muito cordial, eles acabaram desistindo.
- Continue...
- O médico tinha receitado uns remédios, caso eu não conseguisse dormir, deveria tomar um comprimido a noite, então eu pensei que se tomasse a cartela inteira, talvez eu dormisse para sempre. Era tudo o que eu queria... Então naquele dia eu disse pra minha mãe que precisava ir buscar umas coisas no meu apartamento, ela quis ir comigo, mas eu insisti dizendo que precisava ficar um tempo sozinho lá. Ela concordou, então eu fui até lá, entrei até a sala, mas não tive coragem para entrar no quarto. Eu queria acreditar que a qualquer hora ele iria surgir por aquela porta, e que tudo não iria passar de um pesadelo – Jared parou, pensativo...
- E depois?
- Então eu me sentei no tapete da sala, e eu estava sentindo... muita raiva, eu não conseguia aceitar, eu nem pude me despedir dele, e... eu não conseguia chorar, eu só... só sentia um vazio dentro de mim, um desespero... E eu só queria que tudo acabasse, então eu tomei todos os comprimidos de uma vez só. Eu continuei ali sentado, aí comecei a sentir uma moleza no corpo, uma sensação muito ruim, eu não conseguia manter meus olhos abertos, então eu me deitei, fechei os olhos, e...
- E?
- Acho que a minha mãe desconfiou de alguma coisa e foi atrás de mim. Eu acordei no hospital novamente no dia seguinte. Meu estômago doía o tempo todo e eu não parava de vomitar... horrível. Nunca tente se matar tomando comprimidos!
- Eu vou me lembrar disso. Mas e aí? Você voltou novamente para a casa dos seus pais?
- Sim, mas desta vez com direito a alguém me vigiando o tempo todo.
- Você pediu por isso.
- Não, eu não pedi.
- Mas mesmo assim você tentou novamente.
- Claro, já tinham passado três meses, então eles acharam que eu não ira tentar mais nada, e baixaram a guarda. Eu anotei todos os horários do pessoal da casa, da empregada, e quando ela saiu no fim da tarde, eu sentei na banheira, pois pensei em poupar a Bethy de ter que limpar o sangue todo do chão depois...
- Até que você é um suicida bem organizado, pensou em tudo.
- Eu tive bastante tempo para planejar. Aí eu peguei a lâmina e cortei o pulso direito primeiro... Cortei com cuidado, para não machucar muito, senão não ia conseguir cortar o outro depois. Mas consegui... É meio assustador no início, ver todo aquele sangue, mas eu não voltei atrás, fiquei lá, fechei os olhos, e... Acordei com o barulhinho do monitor cardíaco, todo entubado, numa cama de hospital. Eu me desesperei então, não podia acreditar no que tinha saído errado desta vez...
- E o que deu errado?
- Depois fiquei sabendo que a empregada voltou porque esqueceu sua bolsa, e como não me viu pela casa, foi até o meu quarto, então viu que a porta do banheiro estava trancada, chamou, e como eu não respondi, ela chamou o segurança que arrombou a porta. Coitada, eu não queria que ela me encontrasse ali daquele jeito, imagina o susto, e ela sofre do coração, foi parar no hospital.
- Pra você ver como as suas decisões afetam também as outras pessoas.
- E daí? Você acha que eu estava me importando? Eu só queria morrer, caralho!
- E nos três meses que se passaram entre uma tentativa e outra? O que você fez?
- Nada, eu só fiquei lá, no meu quarto...
- E sua mãe não procurou ajuda? Você não teve acompanhamento médico, nada?
- Jensen, eu não sei se você não entendeu ainda, talvez eu tenha que desenhar pra você... Mas a minha mãe não está nem aí para o que acontece comigo... Ela só não quer problemas, então enquanto eu estava lá, quieto no meu quarto, ou enquanto eu estiver aqui nesta clínica, sem causar problemas pra ela, está tudo ótimo. Por isso eu sei que não adianta nada eu ficar falando com você, porque ela vai me manter aqui pelo maior tempo possível.
- Então talvez esse seja um bom motivo para você ajudar com o tratamento e melhorar logo.
- O que?
- Se você estiver curado, você mesmo vai poder correr atrás do prejuízo, requerer a sua liberdade de volta.
- Jensen?
- O que?
- Você já amou alguém de verdade?
- Eu fui casado há três anos, lógico que já amei.
- Casamento não quer dizer nada... Meus pais são casados há trinta anos, e isso não quer dizer que ele se amam, só é conveniente pra eles.
- Jared, eu ainda amo a minha esposa.
- E como era o casamento de vocês?
- Como assim?
- Eu só quero confirmar uma coisa... Vocês saíam bastante juntos?
- Dificilmente... Bom, ela gostava muito de... compras, e eu não tinha paciência, sabe, pra ficar horas no shopping e esse tipo de coisa.
- Então vocês sempre faziam programas distintos?
- Algumas vezes nós... saíamos para jantar, algumas festas, esse tipo de coisa.
- Hmm, ok.
- Satisfeito?
- Ainda não. E vocês conversavam bastante?
- Depende... algumas vezes sim, mas as vezes, sei lá... a noite eu ficava lendo ou vendo TV, enquanto ela ficava pendurada no telefone com as amigas.
- Então você ainda a ama?
- Sim.
- E o que você pretende fazer a respeito?
- Eu vou me encontrar com ela hoje a noite, talvez uma boa conversa conserte algumas coisas.
- É, talvez... Quando existe algo pra ser consertado.
- Como?
- É que... deixa pra lá.
- Eu quero saber, fale...
- Você não parece ser apaixonado por ela.
- Hah... Jared, você não sabe nada sobre mim!
- Sobre a sua vida não, mas se tem algo que eu sei identificar, é quando alguém está apaixonado, o que não é o seu caso.
- Eu não acredito no que eu estou ouvindo...
- Você provavelmente estava confortável com seu casamento, e quando acabou, ficou um vazio, foi uma mudança para a qual você não estava preparado.
- Oh, claro, e quem está dizendo isso é a pessoa que mais entende de mudanças que eu conheço.
- Eu não disse isso, eu só quis dizer o que parece... que você e ela já não eram muito ligados.
- Isso deve ser uma coisa boa não é? Pelo menos eu não sou tão dependente dela a ponto de querer me suicidar, não é mesmo? - Jensen disse com sarcasmo e raiva, alterando a voz.
Jared ficou em silêncio, encarando Jensen com o olhar assustado e perdido ao mesmo tempo.
- Olha Jared, me desculpe, ok? Mas eu acho que isto não está funcionando. Nós não estamos chegando a um entendimento. Eu tenho um amigo que é um excelente psicólogo, e eu vou indicá-lo a sua mãe, tenho certeza que ele vai tratar muito bem de você.- Jensen disse enquanto se levantava do sofá e ajeitava seu terno para ir embora.
Jared estava muito quieto, remexendo as mãos em sinal de nervosismo, de cabeça baixa, olhando para o chão.
- Eu... eu sabia que você ia desistir! – Jared disse com os olhos marejados, enquanto se levantou e saiu do quarto, deixando Jensen ali sozinho...
Continua...
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