"O Ser e o parecer, parte II"

O Sr. Eko já estava caminhando sozinho pela floresta há dois dias. Prometera a Jack quando o grupo partiu em busca de Sawyer que não deixaria o acampamento, porém depois de ter visto Ana-Lucia como um espectro em seu sonho lhe dizendo que tudo estava acabado e que ele deveria encontrar Locke, não podia ignorar que realmente havia algo errado. As pessoas no acampamento ficariam bem, Desmond estava lá. Ele era um pouco "avoado" era verdade, mas possuía boas intenções e com a ajuda de Charlie e Hurley resolveria todo e qualquer problema que surgisse.

Agora, o que o preocupava mesmo era o que tinha acontecido com o grupo de busca, e especialmente com sua amiga Ana. Ele achou uma imprudência ela sair pela selva grávida, no entanto sabia que nada do que dissesse a faria desistir de ir atrás de Sawyer, seu grande amor. Eko passara bastante tempo com ela do outro lado da ilha para saber o quanto era determinada e teimosa quando queria alguma coisa.

O sol estava alto no céu, encoberto pela copa das árvores. Eko avistou um pequeno riacho, estava muito cansado, resolveu parar. Pousou seu inseparável cajado ao seu lado e agachou-se para beber água quando viu dois corpos abraçados, dormindo não muito longe do seu raio de visão. Analisou aqueles corpos e percebeu que se tratava de um homem e uma mulher, pegou seu cajado e se aproximou deles sorrateiramente.

Nikki dormia confortavelmente nos braços de Pedro. Depois de tanto tempo trancada na Pandora, ela finalmente se sentia livre e confiante. Pedro era a pessoa mais próxima que ela tinha naquele lugar e estar com ele de novo enchia o seu coração de esperanças. Um raio de sol incômodo bateu em seu olho, penetrando pelas folhas das árvores e Nikki apertou os olhos, acordando. Deu de cara com um homem enorme, de aparência rústica segurando um cajado assustador em sua direção. Gritou desesperada acordando Pedro.

Ele levantou assustado quando ouviu o grito dela e instintivamente apertou-a junto de si, protegendo-a. Mas Pedro logo relaxou ao ver Eko diante dele. O padre sorriu para ele, amigavelmente.

- Olá, Pedro!

- Olá, Sr. Eko.- Pedro disse sorrindo.

Nikki ainda tremia nos braços dele quando indagou:

- Você o conhece ?

- Sim, esse é o Sr. Eko, o padre do acampamento.

- Padre?- ela questionou, desconfiada.

- Devo supor que essa é a sua amiga Nikki?- Eko perguntou olhando-a curioso.

- Sim, esta é a Nikki!- Pedro disse, orgulhoso por tê-la encontrado.

- E onde estão os outros? Jack, John, Sayid, Ana, Kate...?

Pedro respirou fundo:

- Tivemos alguns problemas durante nossa jornada. Fomos atacados pelos Outros, atiraram na gente.

Eko fez cara de preocupação.

- Mas ninguém se feriu gravemente.- Pedro apressou-se em explicar.

- Esse ferimento no seu ombro, foi um tiro?- Eko questionou.

- Não. Na verdade nem sei o que foi que me atacou, parecia um animal, mas caminhava sob os dois pés.

- Um urso polar.- Eko concluiu.

- Urso polar?- indagou Nikki. – Não existem ursos polares em ilhas tropicais.

- Pois nessa existe!- afirmou Eko. – Mas Pedro, você ainda não me disse onde estão os outros.

- Pois bem, como eu disse tivemos contratempos. Depois que fomos atacados pelo "urso polar" eu acho, vimos uma fumaça preta seguida de um barulho estranho. Era algo que balançava as árvores...- ele tentava descrever.

- Sei exatamente o que é!- disse Eko.

- Daí, a Ana-Lucia ficou muito nervosa com esse lance da fumaça e entrou em trabalho de parto.

Eko arregalou os olhos: Ela está bem?

- Sim, está. Pelo menos é o que achamos. Jack fez o parto e tudo ficou bem. Só que por causa disso, ele teve que ficar pra trás com ela e a Kate. Nós seguimos adiante, mas aí encontramos a Nikki e eu resolvi voltar pro acampamento com ela. Esperava encontrar o Jack no caminho com as duas, só que há uma noite atrás quando retornei ao acampamento que tínhamos improvisado, não encontramos ninguém lá, estava tudo revirado. Então seguimos nosso caminho, até você nos encontrar.

Eko começou a andar de um lado para o outro, pensando. Nikki o observava com um pouco de medo, apesar de Pedro ter dito que o conhecia ela ainda não tinha conseguido se desvencilhar da imagem intimidadora que ele passava.

- Aconteceu alguma coisa com eles, eu sei disso!- Eko afirmou.

- Como sabe?- indagou Pedro. – De repente eles podem ter sido atacados outra vez por aquele animal e fugido, sei lá.

- Não, Ana me disse que estava tudo acabado e que eu deveria encontrar o John. Por isso saí do acampamento em busca deles.

- Como ela te disse isso, se não sabemos onde ela está?- questionou Pedro.

- Ela me disse isso em um sonho!- falou Eko com seriedade.

Nikki balançou a cabeça negativamente, e pensou consigo mesma, "acho que ainda vou topar com muita coisa estranha nesse lugar".

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A ânsia de vômito perseguia Kate, e ela não conseguia comer nada sem logo em seguida botar tudo para fora. Sabia que isso tinha algo a ver com a gravidez, mas não era tudo. Era como se o seu subconsciente se negasse a aceitar o que estavam fazendo com ela. Odiava aquela comida, obrigava-se a comer, mesmo sem apetite, fazia isso por seu filho. Tinha acabado de tomar um prato de sopa quando a ânsia começou outra vez, correu para o minúsculo banheiro do quarto onde estava encarcerada e vomitou sem controle. As entranhas se revirando, ao mesmo tempo em que sua cabeça rodava. Ela apoiou-se no balcão da pia e pensou que fosse desmaiar. Acabou batendo a cabeça, e um fio de sangue começou a escorrer por sua testa, causando uma dor incômoda na cabeça.

Kate respirou fundo e encheu a boca de água, cuspindo-a em seguida. Tentava tirar o gosto de vômito da boca. Voltou para o quarto deitando-se na cama, levando a mão instintivamente ao ferimento na cabeça. Melou os dedos com seu sangue e ao sentir o líquido pastoso nas mãos fez uma careta. Observou as mãos sujas de sangue e começou a soluçar sentindo um desespero cada vez maior dentro dela. Por um momento, sua mente divagou em várias formas de acabar com seu sofrimento. Sentiu uma imensa vontade de acabar com a própria vida e se levantou da cama em meio ao caos que se passava em sua mente e pôs-se a procurar algo que a ajudasse em seu intento, que aliviasse a sua dor para sempre.

Olhou para o prato de sopa, quebrou-o sem pensar duas vezes e pegou o caco de porcelana raspando em seu pulso esquerdo, um pouco de sangue começou a sair. Entretanto, antes que ela seguisse adiante com aquela loucura, a imagem de Jack surgiu em sua cabeça e ela murmurou chorando muito:

- Jack! Jack! Não agüento mais, me perdoe meu amor...

Ela pegou o caco de vidro afiado outra vez e estava prestes a cometer suicídio quando Bea entrou desesperada com Colleen no quarto.

- Kate, o que está fazendo? Está louca?

- Se vocês querem o meu sangue.- ela gritou histérica. – Podem drená-lo todinho depois que eu estiver morta! Não vão tirar o meu filho de mim, morro com ele!

Colleen a segurou com força, enquanto Bea retirava o caco de porcelana da mão dela. Kate se debateu violentamente derrubando Colleen ao chão. Bea praticamente jogou-se sobre ela, disposta a pará-la. Kate se remexeu no chão tentando ferir Bea com suas unhas. Colleen segurou os braços dela, e gritou:

- Rápido Bea, o tranqüilizante!

Bea teve um pouco de dificuldade mas rapidamente conseguiu aplicar uma seringa de tranqüilizante em Kate; o remédio era muito forte e ela caiu desmaiada logo em seguida. Colleen e Bea arfavam quando ela apagou, mais um pouco e não conseguiriam segurá-la.

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Sawyer estava quieto no canto da jaula. Há alguns minutos tinha descoberto como pegar um biscoito de peixe na jaula, de uma máquina feita para os ursos polares. Comia devagar, deprimido. Sua mente era um completo vazio naquele momento, depois de pensar em mil e um planos mirabolantes para escapar dali, se permitiu não pensar em nada por enquanto.

- Hey! Hey cara!- sussurrou o garoto na outra jaula. – Você pensou no que eu disse?

- Não, e não tô a fim de pensar em nada agora.- Sawyer respondeu, ríspido. – Até porque essa sua proposta me parece muito furada, eu não vejo jeito no momento de sairmos daqui e...

- Hey!- ele chamou de novo, sua voz estranhamente mais próxima dessa vez.

Sawyer que estava de costas, virou-se de frente e deu de cara com o rapaz fora de sua jaula, segurando um pé de cabra.

- Onde conseguiu isso, moleque?- Sawyer indagou, surpreso.

- Não importa, vamos sair daqui!- disse o rapaz e cerrou o cadeado da jaula de Sawyer.

Os dois saíram correndo imediatamente, mas Sawyer não sabia para onde deveria ir. Um alarme soou estridente, uma voz feminina computadorizada repetia sem parar: - Prisioneiro fugindo! Prisioneiro fugindo!

- Que ideia brilhante garoto!- Sawyer bradou. – Agora eles sabem que não estamos mais nas jaulas. Para onde vamos? È questão de minutos até eles nos encontrarem.

- Por aqui!- disse o garoto.

Sawyer o seguiu e os dois deram de cara com Juliet que estava indo para o alojamento descansar.

- Onde vocês dois pensam que vão?- ela indagou muito calma.

- Ora, ora, ora se não é a minha garota preferida?- debochou Sawyer. – O que vai fazer agora? Balançar o seu chocalho e chamar reforços, cascavel?

Juliet fez expressão de pouco caso e ignorou o comentário de Sawyer voltando sua atenção para o rapaz que o acompanhava na fuga:

- Mas você hein, Karl! Fazendo suas bobagens e levando os outros junto com você!

- Me desculpe, Juliet. Isso não vai mais acontecer, eu juro!- disse Karl, sem se mexer do lugar.

Sawyer olhou para ele irritado:

- Mas o que é isso agora "menino prodígio"? Já desistiu do nosso plano de fuga? O que acha que a loira aí vai fazer? Atirar na gente? Se estivesse armada já teria atirado. Ela tem sangue frio suficiente para fazer isso!- as palavras dele eram duras, demonstrando exatamente o quanto ele se sentia ferido.

Juliet sorriu friamente ao comentário de Sawyer e se aproximou ficando de frente para ele. Sawyer cuspiu no rosto dela, com raiva. Juliet limpou o rosto com as costas das mãos, porém não demonstrava nenhum tipo de emoção. Karl permaneceu lá perto deles, petrificado. Sawyer foi para cima de Juliet, disposto a agredi-la, no entanto, ele não contava com o aparelho de dar choques posicionado estrategicamente no bolso de trás da calça dela. Depois de quase ter sido morta da outra vez, ela estava preparada para qualquer eventualidade. E Sawyer, na ânsia de acabar com ela para se vingar pela morte de Ana, esqueceu que ela poderia ter essa carta na manga e caiu tremendo ao chão assim que sentiu o choque tomar seu corpo.

Nesse momento, alguns homens armados apareceram e Juliet chamou a atenção deles seriamente, mas sem levantar a voz:

- Onde vocês estavam? Pelo jeito a incompetência anda reinando por aqui ultimamente. Levem-no de volta para a jaula.- ordenou.

Dois homens pegaram Sawyer e saíram arrastando-o de volta para a jaula. Ele não reagiu, o choque o imobilizara.

- E quanto ao Karl?- perguntou um outro homem.

- Levem-no de volta!- Juliet exigiu.

- Pra jaula, doutora?- indagou o homem.

Juliet revirou os olhos com impaciência:

- Quando eu digo levem-no de volta, já sabem o que eu estou dizendo. Ou eu não falei em um inglês claro?

- Sim, doutora!- disse o homem e junto com os outros pegaram Karl pelos braços.

- Não Juliet, não me leve de volta, por favor! Eu prometo que não irei mais fugir.- Karl gritou a plenos pulmões, mas foi ignorado por Juliet completamente e os homens saíram arrastando-o, mesmo em meio aos seus protestos.

Juliet respirou fundo, pensando que finalmente poderia ir até o alojamento descansar, porém, antes que pudesse dar mais do que três passos escutou a voz de Bea, um tanto atordoada atrás de si.

- Juliet, preciso falar urgente com você!

Ela revirou os olhos azuis, desapontada. Pelo jeito não conseguiria tirar o descanso merecido.

- O que foi Bea? Que aconteceu dessa vez?

Bea a puxou para que se sentassem em um banco de madeira, debaixo de uma árvore frondosa e falou em tom de segredo:

- Kate tentou se matar ainda há pouco.

- O quê?- surpreendeu-se Juliet.

- Isso mesmo o que você ouviu, ela tem se comportado de forma muito estranha, como se estivesse perdendo a razão. Não sabemos mais o que fazer, ela tem se alimentado mal e ainda por cima vomita tudo em seguida. Está depressiva, fica horas encolhida no sofá sem se mexer ou fazer qual coisa. Desse jeito ela vai acabar perdendo o bebê!.- Bea fez uma pausa observando a reação de Juliet ao que estava lhe contando e em seguida continuou: - Por causa disso, andei pensando que talvez fosse melhor nós deixarmos ela ver o Jack...

- Isso é impossível!- bradou Juliet, balançando a cabeça negativamente. – Você sabe que o Ben não vai concordar com isso porque não faz parte do plano.

- Eu sei disso!- afirmou Bea. – Mas se ela perder essa criança será muito pior. Julie, Karen considerará isso como mais uma de suas falhas e não irá perdoar! Você sabe bem que até agora apenas as mulheres que caíram aqui na ilha no acidente de avião é que conseguiram levar uma gravidez adiante e dar à luz a bebês saudáveis, nós temos que descobrir porque isso aconteceu, por que a ilha não rejeitou esses bebês.

- Isso é verdade, Bea, mas a Kate é forte, foi por isso que a escolhemos. Não acredito que ela irá sucumbir assim tão rápido, nós só a trouxemos há dois dias. Ela vai se acalmar, está fazendo isso para nos pressionar. Você sabe o quanto ela é boa em manipular as pessoas.

- Não sei não, Julie. Kate é muito importante para o projeto pelo menos por enquanto, não podemos perdê-la agora.

- Pois bem, já falou sobre isso com o Benjamin?- Juliet indagou.

- Não, eu quis falar com você primeiro, sabe que a minha lealdade é para com você.

- Eu sei Bea!- disse Juliet, sorrindo. – E como ela está agora?

- Dormindo, eu lhe apliquei um tranqüilizante.

- Você fez bem! Eu prometo que vou pensar no assunto, numa forma de a deixarmos mais calma.

O walk-talkie que Bea trazia ao bolso começou a chiar de repente. Ela pegou o aparelho e apertou o botão, levando-o ao ouvido.

- Bea, Juliet está aí com você?

- Sim, está!- ela respondeu levando o aparelho à boca.

- Pois diga à ela que preciso falar-lhe urgentemente na sala de observação.

- Certo!- concordou Bea, desligando o aparelho.

Antes que Bea desse o recado, Juliet fez uma expressão resignada e disse:

- Eu já entendi, Bea! Vou vê-lo agora mesmo.

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A comida tinha um sabor amargo, como tudo naquele lugar. Mas Jack precisava comer, era uma forma de se manter vivo, greve de fome não ajudaria se ele quisesse mesmo escapar dali para encontrar Kate. A raiva que o assolara momentos antes tinha se esvaído, tão rápido quanto aparecera dando lugar à tristeza que o consumia agora. E ali, naquele cenário irreal onde era prisioneiro, as lembranças de sua vida antes de sofrer o acidente de avião vinham sem parar em sua mente como imagens de um filme.

(Flashback)

Jack acabara de sair de mais uma difícil cirurgia quando cruzou com seu pai no corredor do Hospital St. Sebastian. Ele estava conversando com o diretor e Jack achou estranho vê-lo ali. Cristian Shephard não punha mais os pés no hospital há meses, desde que sua licença médica havia sido caçada em virtude do alcoolismo. Pai e filho se olharam, mas não trocaram nenhuma palavra, sequer um cumprimento e Jack afastou-se indo tomar um café na lanchonete do hospital.

Algum tempo depois, seu pai apareceu na lanchonete e também pediu um café. Jack ficou observando-o com o canto do olho e viu quando ele se afastou para um canto reservado para atender o celular. Seu semblante que antes estava denotando cansaço e tristeza agora parecia mais alegre ao receber aquela ligação.

Jack ficou vendo o jeito dele, conversando e rindo, como se estivesse trocando confidências com alguém do outro lado da linha. Seria Sarah? Não queria nem pensar nisso, ou então seria capaz de agredir o próprio pai dentro do hospital.

Cristian conversava animadamente ao celular sem ter a menor ideia do que passava pela cabeça de seu filho.

- Então, já pensou na proposta que eu te fiz, Sarah?- ele fez uma pausa para escutar a resposta do outro lado da linha. – Ainda está pensando? O que há para pensar, menina? Vamos para Sidney e sermos patéticos juntos lá. Nossas almas estão condenadas, você sabe!- Cristian riu.

Jack fez cara de raiva e saiu rapidamente da lanchonete batendo a porta. Cristian viu o filho lançar-lhe um olhar hostil, e finalizou a ligação no celular: - Nos vemos daqui a pouco, garota! Me espere!

Ele voltou a ficar triste por causa da atitude de Jack, mas já há algum tempo desistira de tentar reatar com o filho. Terminou seu café e saiu. Passou por Jack, mas não o viu porque ele estava escondido esperando seu pai sair para segui-lo. Iria cumprir a promessa que fizera à mãe e descobrir quem era a mulher com quem seu pai estava tendo um caso.

Fim do Flashback

- Acorda, Kate, vamos!- pediu Juliet dando-lhe alguns tapinhas no rosto. Depois da conversa com Ben, ela foi direto conversar com Kate.

Kate abriu os olhos de imediato, assustada e irritada ao mesmo tempo. Sentou com esforço na cama, sentia o corpo moído por causa do tranqüilizante que Bea lhe dera. No entanto, apesar da sensação de entorpecência, encarou Juliet com determinação.

- Eu soube da bobagem que você tentou cometer!- disse Juliet, pacientemente, puxando uma cadeira e se sentando de frente para Kate. – Quer falar sobre isso?

Ela piscou os olhos verdes para Juliet e deu uma risada sarcástica:

- Mas o que é isso agora? Você é algum tipo de terapeuta?

- Se você quiser que eu seja...

- Você é uma hipócrita!- gritou Kate, alterando-se.

- Posso até ser uma hipócrita, mas e quanto a você? Tem parado para pensar sobre o seu comportamento? Tem um espelho aqui, já se olhou nele?

Kate balançou a cabeça negativamente, começando a ficar cada vez mais zangada.

- O que você quer de mim? O que vocês querem de nós?

- Essa é uma pergunta interessante, mas não creio que eu possa respondê-la agora. Mas e quanto a você Kate? O que quer para começar a se alimentar direito, dormir, ficar mais calma? Seu bebê está sentindo tudo isso e quanto mais agressiva você se tornar mais ele vai sofrer e você não vai querer que aconteça como da última vez.

- Do que você está falando?- Kate indagou sem entender.

- Estou falando sobre a última vez em que esteve grávida. Você se lembra o que aconteceu não lembra?

- Como você sabe sobre isso?- Kate estava assustada.

- Eu sei de tudo Kate. Absolutamente tudo sobre você, por isso não adianta ficar se fazendo de desentendida.

- Cala a boca!- gritou Kate, muito alterada. – Você não sabe de nada! E se quer saber o que eu quero nesse momento é ver o Jack e sair desse quarto, não agüento mais ficar aqui, dia após dia pensando que a única coisa que vocês querem é roubar o meu filho, como fizeram como o bebê da Ana. Onde ela está? E o Sawyer?

- Você preocupada com a Ana-Lucia? Não vejo porque alguém como ela necessita de compaixão e o Sawyer muito menos. Mas não foi pra falar deles que vim até aqui.

Juliet levantou-se da cadeira e pegou um embrulho de papel branco de cima do sofá que Kate não tinha notado e o entregou para ela.

- Tome um banho, vista isso, penteie-se e melhore essa cara. Daqui a pouco venho buscá-la.

- Vem me buscar para quê?

- Você vai jantar com o Ben.

- Não farei nada até que eu veja o Jack!- afirmou Kate.

- Se quiser ter notícias do Jack é melhor fazer o que eu estou mandando. Vista-se! Voltarei logo!

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Sayid andava a esmo pela floresta, comendo e bebendo o mínimo, sem descansar, carregando Michael nas costas. Depois da explosão da Pandora, ele encontrara o amigo baleado boiando na água. Com a ajuda de um bisturi improvisado conseguira tirar a bala de sua perna, porém se não chegasse ao acampamento logo, ele com certeza morreria devido à infecção generalizada. Ele estava exausto, a única coisa que lhe mantinha de pé era pensar que voltaria para Shannon. Sentia-se um fracassado porque não conseguira recuperar seus amigos e o grupo havia sido dizimado. Não fazia a menor ideia onde pudessem estar Locke e Rosseau, não sabia nem se eles ainda estavam vivos. Mas não podia desistir, tinha que continuar!

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- Sente-se Kate!- pediu Ben educadamente assim que ela chegou ao alojamento trazida por Juliet.

Estava usando um vestido cor-de-rosa com estampas de pequenas flores brancas, os cabelos soltos. Seu aspecto era abatido. Ben sorriu para ela, e disse, destampando uma bandeja onde tinha um delicioso frango assado.

- Pode se servir! Coma à vontade!

Kate ignorou a comida e a educação dele e exigiu:

- Eu quero ver o Jack!

- Coma primeiro!- Ben insistiu. – Você está perdendo peso consideravelmente e isso não é bom para o bebê.

Kate acatou o pedido dele e serviu um pouco de arroz e frango em seu prato, comeu rapidamente e bebeu um copo de suco de laranja. Assim que terminou, voltou a insistir:

- Eu quero ver o Jack!

Ben sorriu irônico e falou:

- Você é persistente mesmo não é? Está bem, tome!- ele entregou um walkie talkie a ela.

- O que é isso?- Kate indagou.

- O que parece? Você quer falar com o Jack não quer? Aperte o botão vermelho e fale com ele.

Kate sentiu o coração acelerar, seria mesmo verdade?

- O quê? Não acredita em mim? Pois bem, aproveite a chance que eu estou lhe dando. Vou deixar você um pouco a sós para conversar com ele e quando eu voltar teremos uma conversa muito importante.

Ben saiu deixando Kate atônita. Sem pensar duas vezes, ela acionou o botão vermelho e chamou levando o aparelho à boca:

- Jack?

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Um chiado estranho vindo de algum lugar próximo despertou Jack de mais um sonho confuso. E ele se levantou do chão onde estava deitado, intrigado. Começou a procurar a origem do barulho por todos os cantos em meio à escuridão, aguçando ao máximo a audição. Finalmente, o barulho ficou um pouco mais claro e ele conseguiu distinguir uma voz.

- Jack, você está aí?

Seu coração deu um pulo até a boca, não podia ser. Parecia a voz de Kate.

- Kate!- ele gritou para o nada, ainda não tinha localizado da onde vinha a voz. Estaria sonhando?

- Jack!- a voz tornou-se mais forte e Jack teve certeza de que não era um sonho. Ela estava tentando se comunicar com ele de algum lugar, mas de onde? – Kate onde você está?

Ele encostou-se à parede e seu ombro esbarrou em alguma coisa. Apalpou o objeto e se deu conta de que era um interfone. Sorriu consigo mesmo, Kate só poderia estar se comunicando com ele através desse interfone. Procurou pelo botão e o encontrou, o aparelho fez um ruído estático, mas ele falou assim mesmo:

- Kate, você está aí? Está me ouvindo?

Kate levou a mão direita ao peito ao escutar a voz dele no walkie-talk, sentiu como se seu coração fosse explodir.

- Sim, meu amor, eu estou aqui!- ela respondeu nervosa, lágrimas escorrendo pelo rosto.

- Oh, Kate...- foi a única coisa que ele conseguiu dizer antes que as lágrimas inundassem seu rosto também.

Kate soluçou e chorou convulsivamente por alguns segundos, fazendo força para conseguir falar com ele.

- Meu amor...-murmurou.

- Você está bem? Me diga, o que estão fazendo com você? Não chore, baby, por favor, não chore!- ele pediu, incapaz de controlar o próprio choro também. – Só me diga que está bem, amor, eu preciso saber!

- Eu estou bem!- ela respondeu entre os soluços. – Eles estão me mantendo em um quarto, fazem exames todos os dias.

- Que tipo de exames?

- Na maioria de sangue! Eu não sei o que eles pretendem, mas temo pelo nosso bebê!

- Kate, se eu pudesse sair daqui...

- Onde você está?

- Eu não sei ao certo, parece um tipo de porão...-ele fez uma pausa. – Sinto tanto a sua falta, tanto!

- Eu também, estou enlouquecendo, tenho tanto medo! Não agüento mais ficar longe de você!

Jack sentiu o quanto ela estava nervosa e assustada, precisava dar-lhe esperanças, não queria que ela sucumbisse, por isso engoliu o próprio desespero, e disse carinhoso:

- Não fique assim, sei que não podemos mudar o que aconteceu agora, mas precisamos acreditar que sairemos daqui, amor.

Kate fechou os olhos tentando absorver ao máximo as palavras dele.

- Imagine que eu estou com você, olhando nos seus olhos agora, te abraçando, te mantendo aquecida. Estamos na nossa praia, olhando as estrelas, ouvindo as ondas batendo nas pedras...

- Eu te amo Jack, te amo!- ela declarou em meio ao choro que tornou-se convulsivo outra vez quando ouviu as palavras dele.

- Não chore mais, baby. Eu também te amo...cuide do nosso bebê!

- Sim, Jack! Sim!- Kate murmurou.

De repente, o aparelho começou a chiar novamente e Kate o sacudiu com raiva, gritando por Jack, tentando fazê-lo funcionar outra vez. Ben voltou até onde ela estava e disse:

- Pronto, você já falou com o Jack, creio que agora podemos ter nossa conversa.

Kate ficou tensa e enxugou as lágrimas enquanto pousava o walk-talk em cima da mesa. Encarou Ben, cheia de coragem e disse:

- Eu devo supor que essa conversa com o Jack vai ter um preço?

Ben sorriu, cinicamente:

- Então você está me tomando por um aproveitador. Mas não Kate, eu só permiti que você falasse com o Jack porque senti pena de você, eu sou um ser humano, me comovo com certas coisas.

- Não preciso da sua piedade!- ela falou energicamente. – Me diga o que você realmente quer de mim?

- È Kate, você mudou muito. Nem parece aquela mulher que estava desesperada para sair dessa ilha a qualquer custo, estando disposta até a trair o seu próprio líder.

Kate arregalou os olhos.

- Você se esqueceu que eu estava lá Kate quando a capturamos na floresta e te oferecemos uma passagem só de ida para fora dessa ilha em troca de que você nos entregasse o Jack?

- Eu não concordei com isso e você sabe!- ela gritou.

- Mas oscilou e isso é o que importa! Isso define muito bem o seu caráter, não é?

- Seu cretino!- ela xingou. – Onde estão Sawyer e Ana-Lucia?

- O Sr.e a Sra. Smith não estão em julgamento aqui.- Ben respondeu debochadamente. – Quero te fazer uma nova oferta!

- Não quero saber das suas ofertas!- ela o cortou.

- Dessa eu acho que você vai querer saber sim porque a sua vida e a das pessoas que você ama dependem somente da sua decisão.

- O que você está dizendo?

Ben pegou uma cadeira e colocou de frente para ela:

- Me escute com atenção porque eu só vou falar uma vez!

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Quando a comunicação com Kate foi cortada, Jack ainda permaneceu um tempo com o ouvido colado ao interfone, esperando que ele voltasse a funcionar a qualquer momento e pudesse ouvir a voz dela outra vez. Mas depois de um tempo, percebendo que não ouviria mais nada pelo menos por enquanto voltou a sentar-se no chão, escorando as costas na parede, perdendo-se nas próprias lembranças.

(Flashback)

Ele se sentia medíocre, mas não conseguia parar a si mesmo. Estava seguindo seu pai outra vez, e já vinha sendo assim há uma semana, desde que cruzara com ele no corredor do hospital. Cristian Shephard nunca fazia o mesmo trajeto; pelo que Jack pôde perceber, ia a muitos lugares diferentes e sempre terminava no mesmo bar, sozinho.

Jack não identificara nem uma vez a presença de alguma mulher com ele nesses estranhos passeios diários, mas isso não o satisfez e com a ajuda de um amigo que trabalhava na companhia telefônica, grampeou o celular do pai por um dia. Sabia que era ilegal, mas ele não conseguia se sentir culpado pelo que tinha feito, até porque foi assim que descobriu que o pai tinha realmente uma amante e que ela se chamava Sarah.

Num primeiro momento, ele ficou terrivelmente chocado, sem saber o que fazer. Porém, parou para analisar melhor as coisa, e ouviu mais de uma vez a conversa que tinha gravado do celular do pai, na qual ele conversava muito intimamente com a tal Sarah e concluiu finalmente que não se tratava da sua Sarah, mas por uma esdrúxula coincidência, de outra Sarah que absolutamente não se expressava como sua ex-mulher.

A raiva cedeu lugar à curiosidade e ele pegou-se muito preocupado com sua mãe porque os temores dela eram verdadeiros. As coisas que Cristian conversava com sua amante eram de longe o tipo de assunto que seu pai conversaria com sua mãe. A mulher que Jack ouvira ao telefone era provavelmente mais jovem que sua mãe e tinha um jeito sedutor e agressivo de falar ao mesmo temp, e Jack até achou estranho que seu pai pudesse se interessar por aquele tipo de mulhe, e o mais estranho de tudo era que ela o chamava de Tom em vez de Cristian.

Entretanto, nunca os via juntos. Mas sabia que seu pai queria levá-la para Sidney, Austrália, ele só não sabia o por quê. Chegou inclusive a ir na Oceanic, empresa pela qual o pai costumava viajar e com um pretexto arrancou a informação da recepcionista de que o pai tinha duas passagens marcadas para o próximo mês rumo à Sidney. Por isso, àquela tarde, ele estava determinado a flagrar seu pai com a amante, fazia isso por sua mãe, Cristian não tinha o direito de enganá-la daquela maneira.

Diferente dos outros dias, dessa vez Cristian saiu de casa direto para a estrada. Jack o seguia a uma boa distância, mas sem perdê-lo de vista. Ele continuou até chegar a um motel barato. Jack estacionou próximo de umas àrvores onde o pai não pudesse vê-lo. Pegou um binóculo e observou. Cristian dirigiu-se para um dos quartos, sem passar pela recepção, bateu na porta e lá estava ela, finalmente. Mesmo com o binóculo não conseguiu definir com precisão os traços de seu rosto, mas notou que ela tinha longos cabelos negros, não era muito alta e sim aparentava ser muito mais jovem que seu pai. Eles beijaram-se intensamente à porta do quarto e em seguida entraram, fechando a porta.

Jack pousou o binóculo no porta-luvas e passou as mãos pela cabeça; sentiu-se péssimo em estar testemunhando aquilo. Decidiu omitir isso da mãe, inventaria uma boa desculpa para que ela parasse de pensar no assunto. Que ele fosse para Sidney com aquela mulher, Jack não estava mais nem aí, naquele momento odiou seu pai.

Dentro do quarto, Cristian beijava Sarah sem parar, perdendo-se nas curvas sinuosas do corpo dela. Entre um beijo e outro, indagou:

- Sarah, diga que irá comigo para Sidney, vamos fugir de tudo e de todos!

Era estranho ouvi-lo chamá-la de Sarah, ela ainda não conseguira se acostumar. Aliás, aquela situação toda era estranha, mas ela se sentia perdida, queria fugir de seus problemas, não queria encarar sua mãe. Por isso, Ana-Lucia finalmente resolveu dar sua resposta:

- Sim, Tom. Eu irei com você pra Sidney.

( Fim do Flashback)

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Desde que entrara para a guarda republicana do Iraque, Sayid tinha aprendido uma coisa muito importante, devia-se estar atento ao inimigo em todas as horas do dia, mas a noite era o inimigo em potencial, que ocultava todo o tipo de perigos. Por isso ele escolhera caminhar somente durante o dia e assim que a noite caía, ele levantava acampamento.

Michael passava a maior parte do tempo desacordado, nas poucas vezes em que abria os olhos não falava quase nada de coerente, apenas perguntava por Walt. Tinha muita febre e Sayid havia improvisado uma compressa com ervas para tentar baixar a temperatura, aprendera a fazer isso com Sun, a coreana entendia mesmo de medicina alternativa.

Pelos seus cálculos, ainda teria que andar por cerca de mais um dia até chegar ao seu acampamento. No entanto, o que mais lhe preocupava era, mesmo que conseguisse manter Michael vivo até chegar ao acampamento, quem cuidaria dele se Jack havia sido capturado? Estava pensando sobre isso quando ouviu o som de vários passos pisando na grama. Não tinha mais nenhuma arma de fogo, mas tinha inventado com um dos pedaços de metal que sobrara da Estação Pandora uma afiada faca para se defender. Apagou a fogueira de imediato, arrastou Michael para um canto escuro e ficou à espreita do inimigo. Os passos foram aumentando de intensidade e assim que sentiu a presença de alguém próximo de si, saltou sobre o estranho posicionando a faca estrategicamente sobre a garganta dele.

Assustado, o homem arfou ao sentir a frieza da lâmina de Sayid. Nesse momento, o iraquiano o reconheceu e sorriu:

- Jonh?

- Nem tudo está perdido afinal!- disse Locke ao se deparar com Sayid no meio da floresta escura.

- John, por onde esteve? O que aconteceu com você?- questionou Sayid.

- Eles me pegaram, Sayid e me drogaram para depois me abandonar na floresta. Não entendo até agora porque não me mataram.

- E a Rosseau?

- Eu não sei onde ela está, estive vagando sozinho pela floresta esses dois dias desde que acordei.

Ele olhou para Michael desacordado, escorado em uma árvore.

- O que houve com ele?

- Levou um tiro.- respondeu Sayid. – Eu retirei a bala e dei-lhe algumas ervas para a dor, mas não sei se ele irá sobreviver.

- E quanto ao resto do grupo?- indagou Locke, temeroso pela resposta.

- Foram todos capturados.

- Inclusive Jack, Kate e Ana?

- Sim. Os Outros sumiram com eles em um barco. Não sei para onde os levaram, mas o fato deles terem zarpado daqui me faz imaginar que possa existir alguma outra ilha nas proximidades.

- E estavam todos bem, digo, todos vivos?

- Eu vi Jack e Kate. Mas Sawyer e Ana-Lucia não. Temo que eles os tenham matado e roubado o bebê. Fico me perguntando por que os Outros tem tanta fixação por crianças?

- Eu não sei Sayid, mas tudo nessa ilha parece se resumir a isso, ao ciclo da vida, à propagação da espécie.

- John, não é hora para enigmas. Precisamos pensar no que vamos fazer para resgatá-los.

- Tudo a seu tempo Sayid, eles não irão matá-los assim de imediato, devem ter planos para eles. Por ora, precisamos voltar ao nosso acampamento e traçar uma nova estratégia.

- Certo.- concordou Sayid. – Partiremos ao amanhecer então.

Locke pôs-se a acender uma nova fogueira. Sayid comentou:

- Que bom que está aqui, John.

Locke limitou-se a dar um de seus sorrisos enigmáticos.

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A noite estava muito fri, e Sawyer tiritava encolhido em um canto de sua jaula. Alguns respingos de chuva caíam. Depois que fora capturado outra vez passara o resto do dia quieto, apenas ruminando formas de matar Juliet e é claro, em suas fantasias ele sempre conseguia matá-la no final, do pior jeito possível, fazendo-a sofrer ao extremo.

Tinha acabado de pegar um biscoito de peixe na máquina dos ursos e agora o segurava enquanto olhava para o nada. De repente, ouviu vários passos se aproximando de sua jaula, levantou-se rapidamente e tentou distinguir algo no escuro. Era Danny, o sujeito que ele mais odiava depois de Juliet. Ele ia começar a fazer um de seus costumeiros deboches para o homem quando viu que ele escoltava Kate algemada junto com Tom.

Seu coração bateu mais forte ao vê-la e ele se permitiu até sorrir depois de muito tempo. Ela estava muito quieta, com o semblante triste e não esboçou nenhuma reação ao vê-lo.

- Uma colega de quarto para você!- debochou Tom enquanto Danny destrancava a grade fazendo cara feira para Sawyer.

- Você não tem medo de cara feia não é, Robocop? Senão não se olharia no espelho.

Danny resmungou mas decidiu deixar passar o comentário de Sawyer. Tom abriu o portão da jaula e colocou Kate educadamente lá dentro.

- Ponha os braços para fora para que eu possa tirar as algemas.- pediu.

Kate fez o que ele estava dizendo e Tom retirou as algemas revelando os pulsos feridos dela da tentativa de se matar. Sawyer ficou assustado ao ver essas marcas, mas nada disse, esperou os dois saírem para poder conversar com Kate.

- Nós já vamos indo, comportem-se vocês dois!- gracejou Tom e foi embora junto com Danny.

Foi então que Kate olhou para Sawyer e sorriu, se jogando nos braços dele.

- Sardenta!- ele disse carinhoso, beijando o topo da cabeça dela. – Onde está o Jack?

- Eu não sei.- ela respondeu e começou a chorar baixinho, recostando a cabeça no peito dele.

- Hey, fica calma, tudo vai ficar bem.- ele disse, tentando dar-lhe um pouco de esperança, embora ele mesmo já tivesse perdido as suas. – Está com fome?

Kate assentiu com a cabeça. Sawyer pegou seu único biscoito de peixe e deu para ela. Kate começou a comer avidamente.

- Sawyer, cheguei a pensar que você estivesse morto.

Sawyer deu um riso amargo:

- Mas eu estou morto.- e abraçou Kate novamente, sofrendo como nunca pela perda de Ana-Lucia.

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Ben adentrou o porão onde Jack estava preso, munido com uma lanterna. Jack estava deitado no chão, mas não levantou quando ouviu Ben entrar. Não estava disposto a brigar naquele momento, fosse com quem fosse. Entretanto, ao sentir a luz potente da lanterna em seu rosto, levantou-se e falou:

- Você?

- Esperava quem? Juliet?- debochou Ben. – Talvez você esteja muito mal acostumado com as visitas dela.

Jack fez cara de impaciência.

- O que você quer? Não estou interessado em nada que tenha para me dizer a não ser que seja sobre sermos libertados daqui. Onde estão meus amigos?

- Amigos?- Ben balançou a cabeça negativamente. – Jack, você os conhece há pouco mais de um ano e já os considera seus amigos. Ultimamente, tenho chegado à conclusão de que não importa o tempo em que você conviva com as pessoas, nunca as conhecemos realmente.

- Diga o que quer ou então me deixe em paz!- bradou Jack. – Porque estou aqui há não sei quanto tempo tentando entender porque fomos aprisionados aqui.

- Tudo acontece por uma razão, Jack, disse um famoso escritor uma vez.- retorquiu Ben. – Você não está aqui sem motivo. Temos um interesse especial em você.

- Que tipo de interesse?

- No seu dom.- respondeu Ben com seriedade.

- Do que está falando?

- Estou falando na sua capacidade de reverter casos de doença muito sérios, ou seja, estou falando da sua capacidade de curar.

- Minha capacidade de curar? Isso não existe.

- Sabemos tudo sobre você Jack e o que fez por Sarah sua ex-esposa. Então, me diga agora, o que você mais quer? Não é voltar para a sua casa?

- Casa?

- Sim, Jack. Casa! A que você tinha antes de vir parar nessa ilha. Eu posso fazer com que você volte para casa.

- Eu não acredito em você.- disse Jack dando uma risada amarga. – Vocês estão presos nessa ilha, assim como nós, então porque eu te daria algum crédito?

- Porque você está enganado. Para começar, sequer estamos na mesma ilha onde seu avião caiu.

Jack alargou os olhos, surpreso.

- Pense bem Jack e comece a colaborar conosco. Se fizer isso, logo poderá voltar para casa.

- Mesmo que isso fosse verdade, eu jamais iria embora sem o resto do meu grupo. Não os deixaria morrerem nessa ilha à míngua.

- Jack, você é um grande homem. Mas infelizmente é muito ingênuo. Tragam!- ordenou através do walk-talk que segurava na outra mão. Danny e Greg entraram no porão com um monitor de vídeo. Acenderam um interruptor que Jack ainda não tinha visto e ligaram o aparelho através de uma extensão.

- Veja você mesmo e comprove a fidelidade de sua tão amada Kate e de seu melhor amigo Sawyer.

- Mas do que...-começou a dizer Jack e seus olhos se depararam com a imagem de Kate e Sawyer dentro de uma jaula abraçados. Sawyer acariciava os cabelos dela num gesto muito íntimo, sua expressão parecia a de alguém que estava se sentindo muito bem com aquilo. Ela sorria, enquanto ele falava. Jack não conseguia entender o que ele dizia mas notou que Kate parecia se divertir.

O veneno do ciúme começou a se apoderar de seu coração e irritado, ele esbravejou:

- Já chega! Desliguem isso!

LOST

Continua no próximo episódio...