Episódio 2- A Caixa de Pandora, parte I
Sinopse: Os sobreviventes revidaram e agora os Outros estão nas mãos deles. Mas até quando?
Censura: M.
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(Flashback)
"Diz a lenda, que Zeus criou uma mulher de rara beleza, e que cada deus do Olimpo a presenteou com um dom, por isso foi chamada de Pandora, que significa 'aquela que tem dons'. Zeus entregou a ela para que presenteasse seu futuro marido, um jarro contendo toda a sabedoria dos deuses, incluindo coisas boas e ruins. Mas foi avisada de que não o abrisse de jeito nenhum. No entanto, Pandora, era muito curiosa, como o são todas as mulheres, e antes que chegasse à casa de Epimeteu, o homem que seria seu marido, abriu o jarro e tudo o que nele continha escapou em uma nuvem negra. Coisas boas, mas principalmente as pestes, maldições e pragas que assolam o planeta saíram, a única coisa que ficou presa na borda do jarro, e que graças a um milagre não escapou foi a esperança, esta permanece até hoje no coração de cada mulher e homem do mundo."
- È uma bela história, papai!- disse Kate, sorrindo, os olhinhos verdes brilhando de satisfação em poder ouvir o pai contar-lhe histórias, ela adorava esses momentos.
Tinha cinco anos, e Sam Austen, a embalava nos joelhos, contando mais uma de suas histórias míticas sobre o surgimento do mundo. Sua esposa, Diane, não gostava que ele contasse a Kate esse tipo de histórias, dizia que eram fantasiosas, mas Sam não se importava, porque ele acreditava que em cada fantasia havia um fundo de verdade que poderia ser aproveitado.
- Você entendeu a história, Kate?
- Sim, eu acho que sim.- a menina respondeu duvidosa, fitando o pai.
Sam deu uma gostosa risada e levantou-a de seu colo para ir buscar uma coisa que a faria entender melhor. Logo voltou com uma caixa de sapatos. A pequena Kate piscou os olhos verdes sem entender, mas seu pai explicou:
- Isto é pra você Kate, a caixa de Pandora.
Kate a pegou nas mãos, e disse, desapontada:
- Mas isso é só uma caixa de sapatos, papai.
- Não, olhe melhor!- ele pediu. – De agora em diante, tudo de bom e de ruim que acontecer na sua vida, guarde nessa caixa.
- Mas e se ela se abrir?- indagou Kate, preocupada.
- Se ela se abrir, lembre sempre que a esperança ficou presa na tampa, ou seja, não importa o que aconteça em sua vida, nenhum mal é eterno.
Kate deu um beijo no rosto do pai, de alguma forma tinha entendido.
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(Fim do Flashback)
A luz do sol incomodou os olhos de Kate e ela despertou, levantando-se do chão de terra batida onde estava deitada. Ficou confusa por alguns momentos tentando se situar, até que se lembrou de que estava em uma jaula para animais, com Sawyer. Procurou o amigo com os olhos, mas ele não estava lá. Achou estranho, para onde o teriam levado? Começou a andar pela jaula, passando as mãos pelas barras de ferro, um desespero crescente começou a tomar conta dela. Sawyer não estava em lugar nenhum.
- Sawyer! Sawyer!- Kate gritou, estava com um mau pressentimento.
Não obteve nenhuma resposta. Começou a sacudir a grade, enquanto continuava chamando por ele. De repente, sentiu uma dor aguda no abdômen, curvou-se de dor. Era tão forte que ela não agüentou e caiu no chão, contorcendo-se.
- Não! Não!- Kate gritou ao ver sangue em grande quantidade escorrendo por suas pernas. – O meu bebê! O meu bebê! Nãooooooooo!
- Kate! Kate acorda!- pediu Sawyer sacudindo-a, enquanto molhava o rosto dela com um pouco de água. – Você está tendo um pesadelo!
Ela abriu os olhos de imediato, e se deparou com os olhos azuis de Sawyer fitando-a com preocupação.
- O meu filho...- ela começou a dizer tocando o ventre, procurando pelo sangue em suas pernas.
- Calma, sardenta. Não há nada de errado com você, doc júnior está bem! Foi só um pesadelo!
Ele a abraçou tentando acalmá-la, Kate tremia, estava muito nervosa, o pesadelo tinha sido muito real.
- Obrigada, Sawyer!- ela murmurou.
- Pelo quê?- ele indagou, acariciando os cabelos dela.
- Por cuidar de mim!
- Bom dia!- disse Pickett se aproximando da jaula, junto com Greg e mais dois homens armados com espingardas.
- Bom só se for pra você!- respondeu Sawyer, ríspido. – Cadê o nosso café da manhã? Já estamos cansados de comer biscoito de peixe.
- Morram de fome então!- disse Greg, fazendo pouco caso da queixa de Sawyer.
- Chega de conversa! È hora de trabalhar!- bradou Danny abrindo o cadeado da jaula, enquanto os outros dois homens lhe davam cobertura apontando as espingardas para Sawyer e Kate.
- Trabalhar? Que papo é esse?- questionou Sawyer.
- Isso mesmo o que você ouviu, seu caipira abusado! Ou tá pensando que a estadia de vocês aqui é de graça?
- Vamos, andem logo!- ordenou Greg arrastando Kate pelo braço, ela mordeu os lábios de dor porque ele apertou onde estava machucado.
- Tire suas patas imundas de cima dela!- esbravejou Sawyer, empurrando Greg e protegendo Kate com o braço.
- James! Nada de gracinhas!- avisou Danny Pickett mostrando a ele o aparelho de dar choques.
Sawyer puxou Kate delicadamente pela mão e os dois saíram caminhando, escoltados pelos Outros. Ele se perguntava, que tipo de trabalho seriam forçados a fazer?
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Jack fazia flexões no chão quando Juliet entrou no porão para trazer o seu café da manhã. Ele parou com os exercícios e se sentou, encarando-a. Dessa vez sua reação à chegada dela não foi violenta, apenas indiferente.
- Bom dia, Jack. Eu espero que esteja se sentindo melhor.
- Acho que isso depende do ponto de vista.- ele respondeu, sarcástico.
- Baixou o espírito do Sawyer em você hoje?- ela gracejou, depositando a bandeja que trazia em uma mesinha de ferro, que tinham colocado lá somente para Jack fazer suas refeições.
Jack ignorou o comentário dela e permaneceu no mesmo lugar, imóvel, apenas fitando-a.
- Se não quer conversar, tudo bem. Eu não vou forçá-lo! Mas saiba que vim aqui te trazer boas notícias.
- A única boa notícia que você poderia me dar, seria a de que eu irei sair dessa ilha e voltar pra minha vida em Los Angeles.
- Está chateado com a Kate?- ela indagou. – Eu entendo você, a gente pensa que conhece as pessoas, mas no final acaba sempre se decepcionando.
Ela se abaixou ficando no nível dele, e destampou a bandeja:
- Veja só o que eu te trouxe, pão, queijo e suco de laranja. Você gosta disso? Tenho certeza que sim.
Jack continuava em silêncio.
- Mas não fique tão chateado assim, não vale a pena, o amor é uma armadilha! Vamos coma!
Juliet pegou o pratinho do sanduíche e o ofereceu a ele, Jack virou o rosto. Ela colocou a mão sobre a mão dele deixando cair propositadamente um pedaço de papel muito dobrado.
- Ah não quer comer?- Juliet perguntou isso com a voz melódica, como se estivesse se dirigindo a uma criança. – Você é quem sabe, mas se não comer vai sair perdendo, está muito gostoso.
Ela ficou novamente de pé, e disse antes de sair:
- Sim, mas deixa eu te contar a boa notícia. Hoje, pra ser mais específica, daqui à uma hora você vai ser transferido desse porão fétido para um quarto ótimo, com cama e banheiro privativo. Tenho certeza que depois disso, você vai se sentir melhor. Até mais.
Assim que ela saiu, Jack pegou o prato com o sanduíche e começou a comer enquanto disfarçadamente lia o que estava escrito no papel que ela entregara, sabia que o porão tinha câmeras, por isso tinha que ser cuidadoso.
"Jack, não se desespere ainda, você tem uma chance de sair daqui com seus amigos. Confie em mim, e fique do meu lado que tudo se resolverá".
Jack ficou intrigado com o bilhete, Juliet estaria mesmo do seu lado ou isso não passava de mais uma armadilha? Era algo que precisava descobrir.
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O tecido grosso do jeans calejava suas mãos enquanto ela espremia a peça de roupa em uma bacia, pensativa. Já fazia cinco dias que Sayid partira com o grupo para resgatar Sawyer das garras dos Outros, e desde então Shannon não tivera mais notícias do marido. Ouviu rumores de que Eko tinha saído sozinho do acampamento para procurá-los, mas isso já fazia mais de um dia. Shannon estava preocupada, temia não ver mais seu marido. Apertou com tanta força a calça que lavava, que suas mãos ficaram avermelhadas, e Shannon jogou a roupa na areia, com raiva. Seu coração estava gritando, e lágrimas escorriam por seu rosto.
- Shannon, você está bem?- indagou Paulo.
A loira voltou seus olhos para ele, e enxugou o rosto com as costas das mãos.
- Não, não está tudo bem!- ela explodiu. – Meu marido sumiu há quase cinco dias e ninguém me diz nada, o padre também sumiu e sabe lá se o veremos de novo. Eu odeio esse lugar, onde não temos o controle de nada. As pessoas que amamos simplesmente partem e nunca mais voltam.
Paulo tocou o cabelo dela com carinho, e sorriu compreendendo.
- Se está se sentindo excluída do clube, então somos dois.- ele comentou. – Estamos nessa ilha há mais de um ano, e eu nunca participei de nada, sabe. Eu vejo Jack, Locke, Sayid, Sawyer, Kate, esqueci de alguém? Sempre entrando e saindo dessa selva misteriosa, nos dizendo o que fazer e nunca sei o por quê. Só sei que de repente, alguém está morto.
- È, é assim mesmo que eu me sinto.- Shannon disse. – Há muito tempo que eu não participo do clube, desde que meu irmão morreu.
- Boone? Eu sinto falta dele, nos tornamos grandes amigos aqui na ilha.
- Sério? Eu pensei que o único amigo do Boone aqui fosse o Locke.
- Bem, isso foi depois.- afirmou Paulo. – Nós nunca conversamos muito, não é?
- Pois é.- concordou Shannon. – Mas eu confesso que prestei atenção em você várias vezes, eu até cheguei a comentar com a Aline e a Tina que te achava um "gatinho."
Paulo riu: - Assim você me deixa embaraçado.
Eles ficaram se olhando sem saber o que dizer por alguns momentos, até que Paulo disse: - Hey, eu posso te ajudar com a roupa.
- Não, não precisa!- ela falou.
Mas ele juntou a calça jeans que ela jogara na areia e colocou de volta na bacia, ajudando-a a esfregar o tecido. Ao longe, na beira da praia, Charlie observava os dois conversando e comentou com Desmond que estava ao seu lado:
- Que estranho o Paulo conversando com a Shannon, nunca os vi trocarem nenhuma palavra. Acho bom o Sayid voltar logo, ou então ele vai ficar sem mulher. O negócio aqui tá pegando né?
Porém Desmond, não respondeu, estava parado com o olhar fixo no horizonte. Charlie deu-lhe um cutucão:
- Ô Desmond! Eu to falando com você cara, não tá me ouvindo não?
Mas ele parecia estar num estranho transe. Charlie fixou seus olhos azuis nos de Desmond e ficou balançando a mão de um lado para o outro na frente do rosto dele, enquanto repetia sem parar o seu nome, esperando alguma reação do escocês. De repente, Desmond piscou, e encarou Charlie, sem entender:
- Há algo errado com você, "brotha"? Por que está sacudindo a mão na minha direção?
- Algo errado comigo? Você é que é doido!- concluiu Charlie, se afastando dele.
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Depois de terem sido tirados da jaula, Sawyer e Kate receberam algo para comer e depois foram levados para a doca. Os Outros não conversavam com eles, apenas os empurravam e davam ordens. Sawyer já estava cheio daquilo.
- È o seguinte, seu bando de "orcs"...- ele bradou, irritado. – Acho melhor dizerem para onde estão nos levando.
Danny Pickett deu-lhe um soco bem forte no rosto, fazendo jorrar sangue de seus lábios.
- Sawyer!- Kate gritou, preocupada se abaixando para socorrer o amigo, mas foi impedida por Colleen que apontou o aparelho de dar choques para ela.
- Fica quietinha aí, garota!
- Anda, levanta!- berrou Danny com Sawyer. Este se levantou limpando o sangue da boca com as mãos, e um olhar ainda mais furioso do que antes. Porém, dessa vez, Sawyer se manteve quieto.
Greg se aproximou deles, e entregou dois sacos de sarrapilheira para cada um, ordenando:
- Coloquem isso no rosto!
- E se a gente não quiser, Incrível Hulk?- indagou Sawyer, peitando Greg.
- Sawyer!- disse Kate com olhar de advertência, temia que eles fizessem algo pior com ele.
Sawyer a acatou, e colocou o saco em sua cabeça a contra-gosto. Kate fez o mesmo. No momento seguinte, sentiam seus corpos serem arrastados para uma superfície irregular. Ao sentir o balançar característico das águas, Sawyer concluiu que estavam em um barco. Ele e Kate foram colocados sentados um ao lado do outro. Sawyer buscou a mão dela, e a segurou, apertando-a de leve. Começou a bolar um plano para escapar quando o barco zarpasse da ilha.
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(Flashback)
Ela deixou o marido caído no meio da sala, desacordado. Era só no que conseguia pensar enquanto observava a chuva cair forte do lado de fora do carro, embaçando o vidro. Estava começando do zero tudo de novo. Até quando seguiria desse jeito com sua vida? Imaginou que dessa vez finalmente seria feliz, que teria uma família com Kevin, o homem que amava. Mas tudo não passou de mera ilusão, e ela estava fugindo novamente, sem saber onde iria parar.
No entanto, havia algo diferente agora, era assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Kate seria mãe. Não tinha sido planejado, como tudo em sua vida. E foi principalmente por causa do bebê que resolveu deixar Kevin e fugir. Quando fez o teste de gravidez alguns dias antes, e descobriu que sus suspeitas eram positivas, sua primeira reação foi chorar convulsivamente porque sabia que dali por diante estaria perdida. Depois do choque inicial, resolveu deixar o marido e fugir para sempre daquela cidade. Edward Marshall a essa altura, já estaria seguindo a pista dela por causa do telefonema que fizera a ele, disposta a implorar para que ele a deixasse em paz, o que de forma alguma surtira efeito, apenas aumentara o desejo do agente em caçá-la.
Ficou pensando que se Marshall a encontrasse e ela fosse presa, quando seu filho nascesse na prisão ele seria entregue a Kevin e ela jamais o veria, e Kate não estava disposta a entregar o seu filho. Por isso contou toda a verdade ao marido enquanto o drogava para que não fosse atrás dela em sua fuga, omitindo somente o fato de estar grávida, a verdade mais importante.
- Como você disse que era mesmo o seu nome, querida?- indagou a simpática velhinha que lhe dera carona na interestadual.
- Isabelle.- ela respondeu, mais uma vez assumindo uma nova identidade.
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(Fim do Flashback)
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Sawyer batia o pé no chão, impaciente enquanto o barco balançava para lá e para cá. Kate estava ficando cada vez mais enjoada, e estava se controlando para não vomitar, até porque tinha um incômodo saco de sarrapilheira no rosto. Sussurrou para Sawyer:
- Não tente nada, é melhor esperar para ver onde estão nos levando.
- Mas e se nos matarem antes?.- ele sussurrou de volta. – Eu não estou a fim de esperar para descobrir no Além se isso aconteceu.
Danny percebeu-os muito próximos, e cochichou com Greg para que sentasse entre os dois. O brutamontes o fez, cortando a pouca comunicação que tinham. Sawyer amaldiçou-se por não ter tido nenhuma idéia brilhante antes daquele homem se colocar entre ele e Kate.
O barco navegou por cerca de meia-hora. Kate e Sawyer não faziam a mínima idéia para onde estavam sendo levados, mas Sawyer não parava de imaginar que estavam voltando a sua antiga ilha e que essa era uma chance única de escapar.
De repente, Greg levantou do meio dos dois, e Sawyer e Kate foram puxados pelo braço para fora do barco, constataram isso através da mudança de solo, o que antes era instável agora se tornara sólido. Caminharam ainda encapuzados por algum tempo, até que os sacos foram retirados de seus rostos, que estavam suados devido ao tempo em que estiveram cobertos. Kate sentia-se zonza e não conseguiu conter mais a vontade de vomitar, despejando o pouco conteúdo de seu estômago na areia da praia. Saywer apressou-se em ampará-la, e não foi impedido por ninguém.
Assim que Kate conseguiu recompor-se, Colleen entregou-lhe um cantil com água, que ela bebeu em grandes goles.
- Você está bem, sardenta?
Ela assentiu ligeiramente com a cabeça.
- Agora já chega de moleza!- bradou Danny.
- Vamos, Kate!- ordenou Colleen puxando-a pelo braço.
- Para onde vão levá-la?- preocupou-se Sawyer.
- Isso não é da sua conta!- gritou Danny. – Agora preste atenção, vou explicar qual será sua tarefa.
Sawyer observou que eles estavam em uma espécie de construção do que parecia uma nova escotilha, mas não do tamanho do Cisne, era definitivamente algo mais grandioso.
- Você se junta aos trabalhadores, vai carregar o concreto no carrinho de mão e entregar aos rapazes que estão fazendo o assentamento, entendeu?
Ele resolveu não discutir, caso contrário poderiam fazer algo contra Kate, mesmo assim, não perdeu a oportunidade de ser irônico:
- Você é quem manda, chefe!
Enquanto Sawyer ficou trabalhando à força na construção da aparente nova escotilha, Kate foi levada para uma casa, de dois andares, com longos corredores, estranhamente construída no meio da floresta. As árvores a ocultavam dos olhares curiosos, de forma que a casa só podia ser vista com exatidão se vista de cima. Uma vez dentro da casa, Colleen a conduziu até a cozinha, onde uma mulher idosa varria o chão.
- Você sabe cozinhar?- indagou Colleen a Kate.
- O quê?- Kate se surpreendeu com a pergunta.
- Eu perguntei se você sabe cozinhar.- repetiu Colleen, demonstrando uma ligeira irritação.
- Yeah!- Kate respondeu.
- Òtimo, então a cozinha è sua. Qualquer coisa de que precisar, peça à Sofia. O almoço tem que estar pronto às doze e meia, entendeu?
- Como é? Você quer que eu faça o almoço?
- Kate, eu não vou repetir. Essa será sua tarefa por enquanto, faça a comida. Os rapazes da construção precisam comer.- e dizendo isso, ela saiu fechando a porta da cozinha.
Kate, porém, não se moveu. Ficou lá parada no meio da cozinha, sentia-se zonza ainda. Sofia se manifestou:
- Escuta aqui Cinderela, a partir de agora você será "a gata borralheira", então acho melhor você ir tratando de pegar as panelas. Estão ali, naquele armário.
Ela fitou o rosto da anciã, não era tão estranho a mulher ter lhe chamado de Cinderela, já que ela própria lembrava a madrasta da gata borralheira, saída diretamente dos Contos de Fada. Mas isso, no entanto, não intimidou Kate, que respondeu:
- E se eu não quiser?
A velha deu um sorriso maldoso, e retirou do bolso do avental branco uma pistola calibre 38 e apontou para Kate:
- Então, eu não hesitaria em atirar, mas seria uma pena sujar toda a cozinha de sangue.
Ao ouvir isso, Kate apressou-se em procurar pelas panelas, odiando cada vez mais sua estadia naquele lugar. Sentia-se a própria "Alice no país das maravilhas" do conto de Lewis Carrol, agora só faltava aparecer a Rainha do mundo das cartas e ordenar que lhe cortassem a cabeça.
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Sayid e Locke arrastavam Michael, com muita pressa pela floresta, cada um segurando de um lado dos braços dele. Ele não iria durar muito tempo, se ainda demorassem muito para chegar ao acampamento, Michael certamente morreria.
Estavam exaustos, com fome e com sede, mas não desistiriam. Foi quando o destino sorriu para eles, e finalmente encontraram com Sr. Eko, Pedro e Nikki em meio à uma clareira. Eko sorriu ao vê-los e caminhou a passos rápidos na direção deles.
- Deus abençoe vocês!- disse o Padre. – Finalmente te encontro, John.
- Eko!- disse Locke, sorrindo para ele.
- Onde estão os outros?- indagou Pedro.
- Foram capturados.- respondeu Sayid. – Mas essa é uma longa história, temos que levar o Michael de volta para o acampamento ou ele irá morrer.
- Mas mesmo que cheguemos a tempo, como vamos cuidar dele se Jack, o único médico da ilha foi capturado?- questionou Pedro.
- Nada disso, ainda temos a Libby.- disse Eko.
Em seguida, o padre colocou Michael com incrível facilidade nas costas e saiu caminhando rumo ao acampamento. O resto do grupo o seguiu, logo atrás.
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Meio- dia e meia em ponto, Kate tinha conseguido terminar o almoço dos trabalhadores. Sofia a ficou pressionando a manhã inteira, e ela já estava muito irritada com aquilo, mesmo assim não dizia nada, só seguia as ordens da mulher. Se não estivesse grávida, já teria tentado um meio de rendê-la, só que não estava disposta a se arriscar levando um tiro, e conseqüentemente perder seu filho.
- Já está tudo pronto?- perguntou a mulher, ríspida.
- Sim.- Kate respondeu mecanicamente.
- Então ajeite tudo para irmos.
Momentos depois, Kate caminhava ao lado de Sofia escoltada por dois homens armados carregando pesadas vasilhas com a comida que tinha preparado. Em seu íntimo sorria consigo mesma, pois na hora em que os homens provassem a comida, com certeza teriam problemas. Sem que Sofia percebesse, Kate infestara toda a comida de pimenta vermelha que encontrara em um pote no armário.
Andaram cerca de quinze minutos no sol quente até chegarem à construção. Kate avistou Sawyer, suado e sem camisa, cavando o chão com uma enxada. Estava sujo e com cara de irritação. Sofia fez sinal para que ela pousasse as vasilhas em uma mesinha de madeira.
- Vá servindo a comida nesses pratos que eu trouxe, enquanto eu organizo os homens.- disse a irritada Sofia.
Kate começou a fazer o que ela mandou e vez por outra seu olhar cruzava com o de Sawyer, ele sentiu que ela estava aprontando, pelo tempo que estavam na ilha ele aprendera a ler algumas coisas no olhar dela. Ficou atento ao que seria, preparado para agir caso o suposto plano dela desse errado e ele tivesse que salvá-la das garras de algum daqueles brutamontes.
Quando Kate terminou de servir a mesa, os homens praticamente voaram em cima da comida devorando-a sem respirar. Entretanto, depois de algumas colheradas, começaram a sentir o ardor inconfundível da pimenta. Danny Pickett foi o mais azarado, pois era alérgico à pimenta. Assim que sentiu o ardor em sua garganta, os olhos começaram a lagrimar e as bochechas ficaram vermelhas. Kate nada disse, apenas olhou para ele com cara de "bem feito". Os outros homens tossiam e procuravam desesperadamente por água. Danny foi sentindo a garganta inchar cada vez mais, Colleen correu até ele indagando o que estava acontecendo, mas o olhar dele estava concentrado em Kate.
Sem controle sobre sua raiva, ele atirou-se em cima dela agarrando seu pescoço e a enforcando.
- Sua vagabunda, o que pôs nessa comida?
Sawyer partiu com tudo pra cima dele largando a enxada. Kate se debateu, estava sufocando tanto quanto ele agora. Greg percebeu que Sawyer interviria e foi pra cima dele, mas Sawyer foi mais rápido, tomou a arma das mãos dele e apontou para Danny.
- Solta ela ou eu te mato, "sam of a bitch"!
- Vai me matar? Eu acho que não ,sua garota morre primeiro!- Danny esbravejou.
- Não se eu matar a sua!- disse Sawyer atirando a sangue frio em Colleen.
O estrondo da bala que atingiu Colleen foi ouvido de longe, e todas as pessoas que estavam nas redondezas correram para ver o que tinha acontecido. Danny soltou Kate, ela havia ficado com o pescoço vermelho e dolorido, e instintivamente pôs suas mãos nele tentando aliviar a pressão que as mãos de Danny tinham exercido.
Colleen tinha os azuis esbugalhados, enquanto apertava o ferimento que a bala fizera em sua barriga, na região do apêndice, manchando suas mãos com seu próprio sangue.
- Não!- gritou Danny. – Oh meu Deus não!- ele acariciava os cabelos loiros e enrolados de Colleen, enquanto apertava os olhos de dor, as lágrimas escorrendo por todo seu rosto grosseiro.
Sawyer estava estático, segurando a arma, cujo cano ainda estava quente e saindo fumaça. Seu rosto não demonstrava nenhuma compaixão para com aquela mulher em quem acabara de atirar, ao contrário, sua expressão após o fatídico tiro demonstrava até um mórbido sentimento de paz. Não, ele não tinha pena daqueles que sumiram com seu filho e acabaram com a vida de sua amada. Seria capaz de exterminá-los um a um, aos poucos se transformando de Anakin Skywalker em Darth Vader.
Todos estavam muito concentrados em ajudar Colleen que esqueceram momentaneamente de Sawyer e Kate. Ela cruzou seu olhar com o dele, era uma chance de escaparem, porém não sabiam para onde ir e ela jamais iria embora sem Jack. Seus olhos perguntaram silenciosamente a Sawyer o que fariam, quando se surpreendeu com a resposta telepática que ele lhe deu. Sawyer não queria fugir, só queria se vingar e por isso, se aproveitando da distração das pessoas, tomou a gorda Sofia como refém, colocando o cano da arma na cabeça dela. As atenções se voltaram para ele novamente quando ouviram Sofia gritar histérica.
- Corra Kate, vá!- gritou Sawyer.
Ela balançou a cabeça negativamente, assustada com a agressividade de Sawyer. Estava com medo que isso piorasse as coisas, sabia que os "Outros" não a deixariam escapar assim tão facilmente, e Kate não tinha sequer uma arma. Temia levar um tiro, não queria perder seu filho, não dessa vez.
- Sawyer, eu não vou sem você!- foi tudo o que conseguiu dizer.
- Droga, sardenta!- esbravejou Sawyer. – Estou te dando a oportunidade de sair daqui, vá!
Kate balançou sua cabeça negativamente outra vez, foi quando Juliet surgiu, como um espectro, estava em todos os lugares. Ao vê-la, Sawyer começou a imaginar se a aquela mulher era onipresente naquela ilha. E para a infelicidade de Sawyer, ela agora tinha uma arma apontada para a cabeça de Kate, e ele tinha certeza que Juliet não hesitaria em atirar.
- Por que não fugiu, Kate?- indagou Sawyer, irritado, com o rosto vermelho, antes de finalmente soltar Sofia e jogar a arma no chão. Preferia que o matassem antes de ver Kate ser morta na sua frente.
Quando viu Sawyer desarmado outra vez, encarando Juliet que ainda mantinha sua arma apontada para Kate, Greg veio por trás dele e acertou sua cabeça com o cano de uma espingarda. Ele caiu ao chão desacordado.
- Sawyer!- gritou Kate ao vê-lo sucumbir, caindo de cara na areia.
- Algemem-na!- ordenou Juliet, e um dos homens apressou-se em apertar as argolas de metal frio sobre os pulsos já muito machucados de Kate.
Em meio à confusão, Danny se mantinha alheio, apertava o ferimento da esposa com os dedos tentando estancar o sangue que não parava de jorrar dela, enquanto com a outra mão acariciava seu cabelo. O corpo dele inteiro tremia de nervosismo e desespero.
- Julie, faça alguma coisa!- berrou quando a viu se aproximar.
Juliet começou a examiná-la, dando a Danny um olhar complacente.
- È muito grave? Você pode salvá-la, Juliet?
Ela fez cara de desespero:
- Você sabe que eu não posso!
- Não, não me diga...
- Mas eu sei de alguém que pode!- ela disse com firmeza, e em seguida ordenou: - Andem tragam uma maca, vamos levá-la de volta para a outra estação. E tragam Sawyer e Kate também!
Danny encarou Kate algemada, enquanto as outras pessoas corriam para buscar uma maca para Colleen.
- Está vendo todo esse sangue?- indagou a ela, com ódio mortal. – Vai jorrar muito mais do seu amigo caipira se a Cole morrer, porque eu vou matá-lo. Mas não vai ser com um tiro não, ele vai morrer bem lentamente, a facadas.
Kate apertou os olhos de dor e de tristeza, mais uma vez estava sendo arrastada para o barco. Agora, como ela temia, as coisas tinham ficado ainda piores, Sawyer estava em perigo, o que ela faria para ajudá-lo?
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(Flashback)
- São dezenove dólares e noventa e cinco, senhora.- disse a simpática mulher negra, no caixa enquanto a ajudava a embalar suas compras.
Kate sorriu e pôs-se a separar o dinheiro, conferindo centavo por centavo, as coisas andavam muito difíceis naquele momento, mas ela estava otimista, seu filho nasceria em breve.
- Para quando é o seu nenê?- perguntou a funcionária do supermercado quando Kate lhe entregou o dinheiro das compras.
Ela tocou a imensa barriga de quase nove meses, e respondeu radiante:
- Daqui uma ou duas semanas.
- Nossa, já está muito perto!- concluiu a mulher. – Seu marido deixa a senhora ficar andando sozinha desse jeito?
- Ah, eu não tenho marido.- respondeu Kate.
- Me desculpe.- disse a mulher embaraçada.
- Tudo bem.- respondeu Kate recolhendo as compras.
- Não, isso deve estar pesado.- disse a mulher. – Eu vou pedir ao Nigel que leve as compras até o seu carro.
- Obrigada.- disse Kate, sorrindo.
- Seu filho, já sabe o que é?
- Ainda não, quero que seja surpresa.
- Nigel, leve as compras dessa moça até o carro dela, por favor.
- Sim, Cibelle. Vamos, moça?
- Tchau.- disse Kate, despedindo-se.
- Tchau e boa sorte, moça.
Nigel colocou as compras de Kate no carro e se despediu. Ela entrou em seu carro e deu partida, calmamente. Já fazia seis meses que ela deixara Kevin e seguira com sua vida disposta a criar seu filho, sozinha. No início fora muito difícil, ela chorava todas as noites, se sentindo imensamente sozinha, mais do que quando começara a fugir. Porém, aos poucos foi se acostumando, apegando-se à maravilhosa idéia de ser mãe, vendo sua barriga crescer a cada dia. Logo teria seu filho nos braços, e era só no que conseguia pensar, tornava sua vida mais fácil.
Estava em Los Angeles, Califórnia, e há muito não se preocupava mais com a perseguição da polícia, uma cidade grande como Los Angeles era um bom lugar para se esconder. Entretanto, a polícia nunca deixou de se ocupar dela. Edward Marshall se tornava cada dia mais obcecado em prender Kate Austen, e desde que recebera seu telefonema há seis meses atrás, fez as malas e partiu numa caçada implacável a ela.
Conseguiu descobrir a cidade onde ela estivera, interrogara o marido, a sogra, pessoas que conviveram com ela e até o padre que fez seu casamento. No entanto, eles só tinham coisas boas para dizer a respeito dela. Edward não acreditava nisso, para ele Kate era ardilosa, manipuladora e extremamente perigosa, mas apenas ele poderia prendê-la, que ninguém se intrometesse em seu caminho. Kate Austen era sua, a palavra tinha uma conotação quase erótica em sua mente obcecada. Ficava se imaginando pondo as algemas nela, arrastando-a para a prisão onde acreditava ser seu lugar, onde ele poderia guardá-la para sempre.
Sorria fantasiando a cena da prisão de Kate quando de repente, por uma infeliz coincidência, pelo menos para ela, deparou-se com a própria. Cada um em seu carro, parado no sinal vermelho. Kate arregalou os olhos verdes ao vê-lo, e sem pensar duas vezes arrancou com o carro, ziguezagueando pela avenida. Marshall saiu no encalço dela, costurando entre os carros. Kate pisava fundo no pedal, ele não podia pegá-la, não agora que estava próxima de ter seu filho, não queria tê-lo na cadeia.
A perseguição continuou por cerca de dez minutos, até que Kate perdeu a direção, os pneus derraparam e por pouco o carro não capotou de cima de uma ponte. Apesar de estar usando cinto de segurança, Kate machucou-se onde mais temia, o ventre grávido. Sentiu uma dor lancinante após a batida, e sua mente gritou, "não, o meu filho, não"! A dor era muito insuportável, e Kate curvou o corpo para frente, chorando.
Várias pessoas, inclusive Marshall desceram de seus carros e foram até ela. O agente ficou chocado ao ver que ela estava grávida, não reparara nisso quando se cruzaram no sinal. Ela tremia de dor, mas isso não a impediu de gritar:
- Seu desgraçado! Eu vou perder o meu filho! Não!
- Coloquem-na no meu carro, eu sei quem ela é!- Marshall avisou. – Vou levá-la para o hospital.
No carro, Kate chorava de dor, mas não dizia nada. Marshall também permanecia em silêncio, se sentindo culpado por aquilo estar acontecendo, afinal a criança que ela esperava não tinha culpa de sua mãe ser uma criminosa. Levou-a imediatamente ao hospital St. Sebastian. Colocou-a no colo sob seus protestos e entrou com ela debatendo-se na recepção do hospital. Uma enfermeira, cujo crachá dizia Andréa, se aproximou deles e indagou trazendo uma cadeira de rodas para Kate.
- O que houve com ela?
- Um acidente de trânsito.- ele respondeu.
Sangue em abundância escorria pelas pernas de Kate.
- Ela está com hemorragia!- disse Andréa para outra enfermeira que se aproximava. – Quem está de plantão?
- O Dr. Shephard.- disse a outra enfermeira, ajudando Andréa a empurrar a cadeira de Kate.
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( Fim do Flashback)
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Jack havia sido mudado do porão para um quarto confortável conforme Juliet o tinha dito. Mas isso não o fazia mais feliz. Continuava apático, jogado num canto depois de ter tomado um banho, sem pensar em nada, só remoendo formas de fugir do domínio daquelas pessoas.
Assustou-se quando Juliet entrou toda ensangüentada no quarto, com cara de desespero.
- Jack, preciso de você!
Jack arregalou os olhos diante do sangue que manchava a roupa branca de Juliet, e indagou com fúria:
- De quem é esse sangue, Juliet? É da Kate? Me responde!
- Não Jack!- ela apressou-se em responder. – Esse sangue é de uma mulher na qual Sawyer atirou a sangue frio.
- Sawyer?- Jack espantou-se. – Então ele está vivo.
- Está sim, ao contrário da Colleen que irá morrer logo se não fizermos alguma coisa.
- E por que acha que eu vou querer ajudar vocês, depois de tudo o que nos fizeram? Se o Sawyer atirou nessa mulher, deve ter tido seus motivos. Aliás, se ele está vivo, onde está a Ana-Lucia e o bebê?
- O bebê está bem, aos nossos cuidados, mas Ana-Lucia estava muito fraca, fizemos o que podíamos, mas ela faleceu.
- Fizeram tudo o que podiam?- debochou Jack, apertando os olhos, diante da notícia da morte de Ana-Lucia. - Eu não acredito em você, se ela está morta, vocês a mataram.
- Jack, eu estou dizendo a verdade, mas não tenho como te provar isso. Vim aqui apelando para o seu bom senso, porque você é um grande médico, jamais dispensou ajuda a alguém, não vai deixar de salvar uma mulher agora.
- Isso foi em outros tempos, antes de ser aprisionado covardemente por vocês, que não me dizem o que querem, apenas me mantém encarcerado aqui!
Uma lágrima escapou dos olhos de Juliet, e ela tocou o ombro de Jack, tentando persuadi-lo:
- Por favor, não a deixe morrer! Podemos te dar algo em troca, qualquer coisa, exceto explicar ainda porque você está aqui e te deixar ir embora.
A mente de Jack divagou rapidamente a respeito do que ele poderia pedir, mas seu coração só tinha uma resposta:
- Eu quero ver a Kate, a sós, sem câmeras, nem interrupções.
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O pôr-do-sol era sempre muito bonito todas as tardes na ilha, mas naquele dia Charlie achou que este trazia algo de especial. Estava sentado na beira da praia, o barulho das ondas quebrando nas pedras ecoando em seus ouvidos enquanto a maresia molhava a barra de suas calças. Sorriu ao ouvir o som inconfundível da voz de Aaron chamando-o.
- Papa! Papa!- o menino gordinho, de cabelos loiros e encaracolados já estava com quase dois anos, e resumia todo o tempo que estavam naquela ilha.
- Hey, cabeça-de-nabo!- Charlie disse pegando o garotinho no colo e brincando de levantá-lo. Mas o menino parecia eufórico com alguma coisa que queria contar-lhe.
- Papa! Papa! Otos! Otos!
- Como é que é?- indagou Charlie erguendo a sobrancelha, tentando entender o que o filho dizia.
- Otos, papa!
- Outros?- assustou-se Charlie, protegendo o garoto instintivamente. Aaron aparentemente prestava muita atenção no que as pessoas conversavam.
- Otos!- ele apontou o dedinho para o grupo que vinha chegando à praia. O rosto de Charlie iluminou-se ao vê-los.
Correu até eles com Aaron no colo. As pessoas pararam tudo o que estavam fazendo e rodearam o grupo que retornava, todos muito curiosos em saber o que tinha acontecido a eles enquanto estiveram fora. Porém, de alegres pelo retorno de seus amigos, os olhares das pessoas passaram a ser assustados ao ver Eko trazendo Michael desfalecido nas costas.
- O que aconteceu com ele, "brotha"?- indagou Desmond com os olhos arregalados.
- È uma longa história.- respondeu Pedro, exausto, segurando a mão de Nikki.
Ela observava o acampamento dos sobreviventes com a mesma curiosidade com que Pedro o fizera meses atrás, surpresa por constatar que viviam em uma organizada comunidade.
- Onde estão o Jack e a Kate?- perguntou Sun com o pequeno Jung em seu colo.
- Foram capturados, junto com Sawyer e Ana-Lucia. Mas não podemos tratar disso agora, precisamos cuidar do Michael ou ele não irá sobreviver.- disse Locke.
- Onde está a Shannon?- questionou Sayid.
Ninguém soube lhe responder e Sayid saiu a procura dela sozinho. Eko levou Michael para a barraca médica improvisada na praia por Desmond e Libby, de forma que ela pudesse cuidar dos pequenos problemas da comunidade sem que as pessoas precisassem se locomover todas as vezes para a escotilha.
- Oh meu Deus, o que aconteceu com ele?- indagou Libby arrumando a cama de almofadas na barraca para que Eko deitasse Michael lá.
- Ele levou um tiro, e está com infecção generalizada.- respondeu Locke.
Libby pegou uma tesoura e começou a cortar a perna da calça, para examinar o ferimento.
- Ele ainda está com a bala?
- Não, Sayid a retirou.- falou Locke.
- O Sayid?- ela estranhou. – Mas onde está o Jack?
Locke fez uma expressão de tristeza, e respondeu com pesar:
- Jack e todos os outros foram capturados, somente nós conseguimos retornar.
- Pai, pai!- gritou Walt se aproximando da barraca médica.
Ao ver o pai naquelas condições, fez cara de desespero, mas Locke procurou acalmá-lo.
- Walt, vamos dar uma volta, deixemos a Libby cuidar dele, sim?
- Não, eu quero ficar com o meu pai!- disse o menino com cara de choro.
- Se ficar aqui não irá ajudar o seu pai. Anda, vamos até a escotilha buscar cobertores e medicamentos para que Libby possa cuidar dele.
Sayid caminhou pela praia procurando por Shannon, mas não a encontrou. Foi até a barraca de ambos e nada. Até que a viu, conversando animadamente nas pedras com Paulo. Seu coração acelerou, estava com muita saudade.
- Shannon!- gritou.
Ao ouvir a voz de seu amado, Shannon voltou-se imediatamente para ele e desceu das pedras correndo em sua direção. Atirou-se nos braços do marido, que a suspendeu do chão, enquanto beijavam-se com muita vontade.
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O som do monitor que media as ondas cerebrais e os batimentos cardíacos de Colleen soava suavemente na sala de operações, indicando que a mulher ainda estava viva. Jack já havia retirado a bala, e agora suturava o local. Fazia tudo mecanicamente, porque queria sair dali o mais rápido possível, e poder finalmente ver Kate, mal podia esperar para tê-la em seus braços, olhar em seus olhos, constatar por si mesmo que ela estava bem. Entretanto, sabia que não podia confiar nos Outros, se ele deixasse Colleen totalmente fora de perigo, eles poderiam simplesmente encarcerá-lo de novo e não cumprir sua parte do acordo, por isso ele tinha um plano.
Olhou para Juliet que o auxiliava na mesa de cirurgia, sob os olhares atentos de Ben, Tom e o marido de Colleen, Danny, que estavam no andar de cima observando a cirurgia através de uma janela de vidro. Falou com seriedade:
- Já fiz tudo o que podia, agora a única coisa que podem fazer é esperar. A recuperação dela será lenta, precisará de muitos antibióticos e cuidados especiais ainda.
Juliet baixou a máscara cirúrgica e sorriu:
- Obrigada, Jack. Eu sabia que não iria nos decepcionar.
- Não me agradeça, Juliet.- Jack respondeu resignado. – Não estou fazendo isso de graça, você sabe!
- Mas o que esse verme está dizendo?- esbravejou Danny do outro lado do vidro.
Ben fez um sinal com a mão direita, para que ele ficasse quieto, e escutasse o que Jack tinha a dizer.
- Está vendo essa artéria aqui?- disse Jack apontando com o bisturi para uma das artérias pulsantes de Colleen.
Juliet arregalou os olhos, assustada.
- O que...
- Quero que me dê sua palavra agora de que irá cumprir com o que me prometeu e me assegurar que Sawyer não será punido pelo que fez.
- Sim, você irá ver a Kate, mas quanto ao Sawyer, eu não posso...
Jack pressionou o bisturi perigosamente em Colleen.
- Não!Não!- gritou Danny esmurrando o vidro.
Ben fez sinal para que Juliet entregasse um walk-talk para Jack, ela o fez.
- Está brincando com fogo, doutor Shephard!- falou Ben no walk-talk.
- Você é quem está, "Henry".- debochou Jack. – Ou seja lá como você se chame. – Estou em vantagem aqui, se me chamaram para fazer essa cirurgia é porque vocês não possuem um médico que possa fazê-la, observei também que os antibióticos e aparelhos médicos que vocês possuem aqui são insuficientes e de baixa qualidade, ou seja, vocês precisam de mim, logo vão fazer o que eu quero, ou a preciosa amiga de vocês irá morrer.
- Seu filho da...-gritou Danny, desesperado, se preparando para descer até a sala de cirurgia quando foi contido por Tom.
Benjamin balançou a cabeça negativamente, e desafiou Jack:
- Podemos matar a Kate agora mesmo!
- Vocês não farão isso, possuem algum tipo de interesse nela, ou então não teriam tido todo esse trabalho de nos trazer até aqui.
Juliet encarou Ben, Jack tinha inteligentemente preparado uma boa armadilha para eles, não tiveram outra opção naquele momento senão consentir.
- Está bem, Jack. Faremos o que quer, desde que continue se empenhando pela recuperação de Colleen. Mantenha-a viva e verá Kate, garanto também a segurança de Sawyer.
Jack sentiu um espasmo de ansiedade dentro de si ao perceber que seu plano tinha dado certo, porém sabia que não ficaria em vantagem por muito tempo. Mas essa era a deixa que ele precisava para começar a bolar uma maneira eficaz de escaparem dali.
Finalizou a cirurgia, mantendo Colleen estável. Assim que todos os procedimentos acabaram, ele retirou a máscara cirúrgica e encarou Juliet esperando que ela cumprisse com o prometido.
- Vou levá-lo de volta, ao seu quarto. Mandarei que levem algo para você comer, e em seguida levarei Kate para lá.
Continua...
