A caixa de Pandora parte II
(Flashback)
Ela piscou os olhos, confusa diante do teto de forro branco. Não conseguiu entender onde estava, sua mente era um completo vazio. Ouviu uma voz feminina agradável falando enquanto sentia uma mão quente em sua testa.
- Como se sente, Srta. Austen?
- Onde eu estou?- indagou para a voz cuja silhueta começou a identificar aos poucos, a vista turva clareando.
- Você está no hospital St. Sebastian e eu sou Andréa.- respondeu a mulher de bela voz.
Aquela frase despertou seus sentidos, fazendo com que ela relembrasse os últimos acontecimentos, a perseguição de carro com Marshall, o acidente, as dores, o seu filho. Sua visão estava totalmente clara agora e ela encarou a enfermeira com desespero visível no olhar.
- O meu filho?- perguntou enquanto tentava com esforço se sentar na cama.
- Srta. Austen é melhor que fique deitada, ainda está muito debilitada.
- Não, eu quero entender o que está acontecendo!- gritou Kate exaltada leevantando o lençol que a cobria junto com a camisola branca de hospital. Vislumbrou o ventre inchado mas consideravelmente menor do que da última vez em que o vira. Tocou-o, não sentia o filho, era uma sensação estranha, de vazio. – Onde está o meu filho?- questionou, chorando.
A enfermeira Andréa olhou-a com pesar e tocou seu ombro antes de responder:
- Eu sinto muito, Srta. Austen, mas você bateu a barriga no acidente, o que ocasionou falta de oxigenação para o bebê...
- Não! Não!Não!- Kate gritou histérica. – Isso é mentira! Cadê o meu filho? Eu preciso do meu filho, do meu bebê!
Andréa tentou acalmá-la dizendo-lhe palavras de conforto:
- Srta., vai ficar tudo bem, sei que é difícil agora, mas poderá ter outros filhos, talvez não fosse para ser agora...
- Era menino ou menina?- indagou entre soluços.
- Menino.- respondeu Andréa, triste, se controlando para não chorar.
- Eu preciso vê-lo!- pediu Kate.
- Eu não acho que seja uma boa ideia! O melhor que a senhorita tem a fazer agora é descansar!
- Não, eu quero ver o meu filho! Preciso vê-lo!
Kate tremia muito e chorava sem parar. Andréa não sabia mais o que fazer para acalmá-la, por isso correu até a porta e mandou que chamassem o Dr. Shephard. Ele prontamente veio vê-la, tinha se compadecido com o caso dela. Quando a trouxeram o acidente havia provocado o trabalho de parto precoce e a criança viveu somente alguns segundos. Apesar de ser médico há muitos anos, cirurgião-chefe do Hospital St. Sebastian, o Dr. Cristian Shephard emocionou-se muito com o caso daquela mulher, uma criminosa fugitiva, trazida ao hospital pelo homem que conseguira prendê-la. Não sabia que tipo de crime ela tinha cometido, mas não se importou com isso, ela era uma paciente e ele um homem íntegro, não fazia diferença entre seus pacientes. Proibiu de imediato a presença de agentes vigiando do lado de fora do quarto, permitiu apenas nas entradas e saídas do hospital, não queria causar estranheza aos outros pacientes, nem desconforto à Srta. Austen.
Kate gritava dentro do quarto quando Cristian entrou. Ele puxou uma cadeira e sentou-se de frente para a cama dela, esperando que ela se acalmasse. Ao vê-lo, Kate foi se acalmando aos poucos,mas ainda soluçando perguntou ao médico:
- Foi o senhor quem me atendeu?
- Sim.- ele respondeu.
- Sabe quem eu sou ,não sabe?
- Sei, mas isso não importa. Eu só quero que você fique bem.
Ela sentiu ternura e respeito emanando daquele simpático médico de cabelos grisalhos e de ar sábio, de alguma forma lembrou seu pai de quem sentia muitas saudades, o qual não podia ver por conta de sua fuga constante da polícia.
- O meu filho? Como ele era?
Cristian sorriu:
- Um lindo menino, mas não se parecia com você, talvez com o pai.
- Cabelos escuros, branquinho?- Kate indagou, sorrindo, enquanto as lágrimas continuavam a escorrer por seu rosto.
- Sim.- assentiu Cristian.
- Sempre foi assim.- queixou-se Kate. – A vida sempre está tirando coisas de mim e isso não para nunca, serei presa, morrerei na cadeia pelo que eu fiz. Talvez Deus tenha me punido levando o meu filho porque eu jamais poderia ser uma boa mãe.
- Sabe, minha mãe costumava dizer que Deus tem razões que a própria razão desconhece. Acredito que talvez não fosse a hora de você ser mãe, mas essa hora chegará em momento mais oportuno. Jamais perca as esperanças Kate, nunca deixe de acreditar porque no dia em que deixamos de fazer isso tudo está perdido.
- Meu pai costumava dizer isso.
- Então ele é um homem sábio!- Cristian completou. – Andréa!
A enfermeira entrou novamente no quarto segurando uma seringa.
- Você precisa descansar, Andréa vai te aplicar esse calmante e quando acordar vai se sentir melhor.
Kate aceitou, estava exausta e sentia dores principalmente a dor maior de ter perdido seu filho. Enquanto Andréa aplicava devagar o calmante em seu braço, Kate foi sentindo uma ligeira sonolência, viu o Dr. Shephard ainda parado junto à porta, e falou, meio grogue:
- Obrigada, nunca vou me esquecer de suas palavras.
Sua vista ficou turva outra vez e além do sono Kate começou a sentir uma sensação de entorpecência seguida de uma estranha paz. Porém, antes que seus olhos se fechassem vislumbrou a figura de um homem alto, forte, cabelos lisos negros que lhe caíam pelo rosto conversando com Cristian na porta. Tinha algo de doce e sublime no olhar dele que Kate nunca esqueceu. Foi a última imagem que viu antes de adormecer em virtude do medicamento.
Na noite daquele mesmo dia, Kate acordou agoniada na cama, suando muito. O efeito do calmante já tinha passado e ela sentia a boca seca. Levantou-se da cama, retirando a agulha do soro que tomava. Estava com uma vontade enorme de fugir, desaparecer dali. Sabia que assim que estivesse recuperada, Marshall a mandaria para a prisão e Kate não iria para lá, de jeito nenhum. Procurou por suas roupas no armário do quarto e teve sorte de encontrá-las, vestiu-as depressa. Ainda sentia dor mas a necessidade de fugir era mais forte.
Ficou pensando por alguns instantes como sairia dali, até que seus olhos se depararam com um imenso buquê de rosas na mesinha ao lado da cama. Sentiu vontade de cheirar as rosas, não soube o por que. Ao fazer isso um envelope branco pequeno caiu ao chão. Ela o recolheu, e leu:
" Estimo suas melhoras e lamento muito o que aconteceu, bela senhorita." Ass: J.S.
Quem teria lhe mandado aquelas flores? Tocou as iniciais do nome no papel, intrigada. Sorriu, fosse quem fosse era muito gentil. Guardou o cartão no bolso do casaco e retirou uma rosa do buquê levando-a consigo. Abriu a janela do quarto, estava no primeiro andar, não era muito alto, tinha um balancim que poderia ajudá-la a chegar embaixo. Passou suas pernas pela janela, escalando a parede, direto para o balancim, com cuidado. Lá embaixo estava escuro e não havia ninguém que pudesse detê-la. Kate aspirou o perfume da noite, o cheiro de sua liberdade. Naquele momento lembrou-se do pai e da caixa de Pandora. Suas palavras ecoavam em sua mente, "não importa o que aconteça em sua vida, nenhum mal é eterno. E pensando nisso, Kate chegou até o chão, perdendo-se na noite, de volta à sua vida de fugas.
(Fim do flashback).
Tudo era confuso naquele lugar, mesmo assim essa sensação de não saber o que estava por vir era comum para Kate já que estava acostumada a viver um dia de cada vez devido à sua antiga vida de fugitiva. Por isso não estranhou quando foram buscá-la na cela que dividia agora com Sawyer para levá-la para outro lugar. Temeu apenas pelo amigo que estava ferido por causa do golpe que levou na cabeça. Mas ao vê-la preocupada, Juliet lhe garantiu que ele seria tratado e ficaria bem. Aliás, essa foi a única coisa que estranhou no comportamento da mulher, Juliet nunca era grosseira, mas também não podia-se dizer que era gentil. Era sonsa, nisso que Kate acreditava. Mas de qualquer forma era estranho vê-la dizendo que cuidariam de Sawyer, o homem que atirara num deles, que espécie de pessoas eram aquelas?
Uma vez fora da jaula, a fizeram tomar um banho e vestir roupas limpas, um delicado vestido amarelo. Depois disso, a levaram encapuzada para outro lugar, onde a deixaram. Em seguida uma porta se fechou, seguida do barulho inconfundível de uma chave trancando a fechadura. Sentiu medo, onde estava?
De repente, o nervosismo tomou conta de si, ao sentir braços fortes envolvendo sua cintura. As mãos foram subindo até o seu pescoço, e o capuz que usava foi suspenso para que lábios pudessem roçar seu pescoço. Kate suspirou, o coração estava acelerado, não conseguia acreditar, mas aquele toque lhe parecia muito familiar. As mãos continuaram a erguer o capuz e Kate parou de respirar quando seu olhar finalmente encontrou o dele:
- Jack...-murmurou.
O rosto dele iluminou-se ao ouvi-la pronunciar seu nome, daquele jeito tão doce e íntimo que só ela sabia fazer. Sim, era real, ela estava ali com ele e teriam a noite inteira para ficarem juntos, para matarem a saudade que os consumia. Jack não tinha certeza se os Outros cumpririam com sua palavra em relação a não haver câmeras ali dentro, mas realmente não se importou com isso. Kate estava ali com ele e se os Outros os vissem em seu momento de intimidade, que vissem, que diferença fazia? Eram humanos, se amavam e queriam ficar juntos.
- Como você conseguiu isso? Por que eles me trouxeram até aqui? Oh Deus, Jack, eu pedi tanto por isso!- ela se jogou nos braços dele, desesperada por senti-lo junto de si.
- Kate!- ele suspirou apertando-a contra seu corpo, sabia que tinham muita coisa para conversar sobre os dias que passaram separados, mas naquele primeiro momento não dava, Jack só queria tocá-la, como se estivesse se certificando de que ela era real e não mais uma das fantasias que imaginara durante a sua estada naquele porão escuro e frio.
Kate tentou conversar com ele, tinha muitas perguntas sem resposta, porém surpreendeu-se ao senti-lo carregá-la para a cama.
- Kate, sei que temos que falar, mas senti tanto a sua falta.- Jack dizia enquanto beijava o pescoço dela, descendo delicadamente a alça de seu vestido.
Ela fechou os olhos, desfrutando intensamente das carícias dele.
- Durante todo o tempo em que estive preso, sozinho naquele porão, a única coisa que me mantinha firme era você, meu amor.
- Jack, eu também senti sua falta e muito, mas precisamos pensar num jeito de sairmos daqui, amor. Teremos tempo para isso quando voltarmos ao acampamento!- ela falou, afastando-o delicadamente.
Jack passou as mãos pela cabeça e começou a andar de um lado para o outro do quarto.
- O que foi Jack?- Kate indagou percebendo a visível mudança de humor dele.
- Então era verdade e eu que custei a acreditar nisso!
- Do que você está falando Jack?
- Você sabe!- ele gritou, nervoso.
- Não, não sei!- ela disse com seriedade. – Você está me assustando, o que houve?
- Para de se fazer de desentendida Kate, estou falando de você e do Sawyer!
- Eu e o Sawyer? Como assim? Eu não estou te entendendo!
- Kate, não finja que não sabe, estou falando de você e do Sawyer naquela jaula, se consolando mutuamente, enquanto eu estava preso naquele porão e a Ana-Lucia a sete palmos debaixo da terra.
Kate levou as mãos à boca:
- Ana-Lucia está morta? Oh não, Jack! Por isso o Sawyer está tão estranho...
- Não precisa fazer teatrinho pra cima de mim! Se você prefere ficar com o Sawyer, não há nada que eu possa fazer!
Jack estava muito nervoso, falando insanidades. Kate jamais estivera com Sawyer depois que ficou com ele, o que aconteceu entre eles era passado e ela sabia o quanto Sawyer era devotado a Ana-Lucia.
- Jack, para de falar bobagens! Não estive com o Sawyer, não da maneira que está pensando! Ele está muito arrasado com a morte da Ana, precisa do nosso apoio.
- Pelo jeito, ele precisa do seu apoio.- retorquiu Jack, doente de ciúmes.
Kate respirou fundo, tentando perdoá-lo por duvidar dela, sabia que ele estava agindo assim por desespero, devido à reclusão em que estavam naquele lugar. Por isso, tentou amenizar as coisas:
- O que mais você quer que eu diga, meu amor, pra você esquecer toda essa loucura?
Jack a encarou profundamente:
- Quero que você jure pra mim, que nunca, nunca mesmo esteve com o Sawyer!
- Não posso jurar isso pra você.- Kate disse, receosa. – Mas posso te assegurar que desde que ficamos juntos, nunca estive com ele. Sempre fui só sua, Jack, só sua!
Ele se sentou num canto do quarto, com o olhar confuso. Estava se sentindo mal por confrontá-la daquela maneira, mas não conseguia parar a si mesmo. Era como se aquele lugar o estivesse transformando em alguém que ele não queria ser. Kate sentiu toda a tristeza dele e se aproximou cautelosa. Sentou-se ao lado dele e segurou sua mão, ternamente:
- Durante toda a minha vida, Jack, eu esperei alguém para amar, dia após dia, ano após ano, fazendo o meu caminho, e você não faz ideia do quão tortuoso esse caminho era. Até que vim parar contra minha vontade nessa ilha e conheci você. Um homem honesto, responsável, corajoso, um verdadeiro líder que cuidou de todos nós, nos mantendo vivos até hoje. E eu te amei por isso, por tudo o que você é e desde que fomos capturados eu ficava imaginando, se acontecesse algo com você como sobreviveríamos assim? Como eu viveria sem você? Jack, nunca mais duvide do meu amor, você me fez essa promessa, se lembra?
Ela sussurrou no ouvido dele: - Estou grávida de um filho seu, é só você quem eu amo.
A essa altura, os olhos de Jack estava marejados,e ele se sentia muito culpado pelas coisas que tinha dito a ela ainda há pouco, tocou seu ventre notando que estava maior. Seu filho estava lá e logo seriam uma família de verdade, só precisavam sair dali.
- Kate, me perdoe, eu tenho tanto medo de perdê-la, acho que nunca tive tanto medo na minha vida.
Ela o abraçou e disse, carinhosa:
- Me perdoe também por não entender seus sentimentos, mas é que estou tão desesperada para fugir desse lugar que só consigo pensar nisso. Porém, isso não quer dizer que eu não te queira.
Kate levantou-se do chão e desamarrou o laço do vestido. Jack a olhou duvidoso e ela respondeu:
- Me faça sua agora, Jack! È o que eu mais quero!
Ele não deixou ela pedir duas vezes e levantou-se do chão jogando-a com força na cama o que deixou Kate arrepiada. Ele acariciou o corpo dela por inteiro, com fúria fazendo-a gemer alto. Deslizou as mãos por baixo da saia dela e arrancou sua calcinha, jogando-a longe.
Kate abriu as pernas, seduzindo-o e ficou observando ele se despir diante dela. Sentou-se na cama e puxou-o para si, empurrando seu corpo de encontro ao dele. Jack beijou seus lábios intensamente e mordiscou seu pescoço enquanto virava-a de costas. Kate surpreendeu-se um pouco com isso, nunca tinham se amado dessa maneira mas deixou que ela a tomasse desse jeito, confiava plenamente nele. Mordeu os lábios, abafando um grito quando ele a possuiu com força, sussurrando em seu ouvido:
- Eu te amo, você é a mulher da minha vida, me deixa louco...
- Jack! Jack!- Kate gemia sem parar, adorando aquele jeito novo dele de fazer amor e imaginando quantas coisas sobre Jack ela ainda não sabia e o quanto queria descobrir a respeito. – Sim, amor, assim, assim...
Amaram-se de maneira feroz durante alguns minutos, ambos se sentindo no céu por poderem se tocar outra vez até que tudo acabou em agonia e puro êxtase. Depois da explosão de luxúria que tomara conta dele, momentos antes, Jack puxou Kate delicadamente para si e deitou-se com ela na cama. Kate arfava, satisfeita. Enroscou-se no corpo dele e beijou seus lábios.
- Você está bem, princesa? Eu não fui muito...
- Você foi maravilhoso!- ela disse sorrindo, aconchegada a ele. – Quero ser sua pra sempre, de todas as formas que você quiser. Eu te amo!
Jack sorriu também, sentindo seu corpo ser tomado por uma estranha paz, coisa que não sentia desde que tinham sido capturados. Suas dúvidas em relação ao amor dela tinham acabado, Kate era sua e nada, nem ninguém poderia separá-los.
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Outra vez sozinho em sua jaula, Sawyer estava muito preocupado com Kate. Já fazia um bom tempo que a tinham levado, e ele esperava sinceramente que ela estivesse bem, embora não soubesse onde ela estava. Como estava sozinho, permitiu-se sofrer um pouco, a dor de perder Ana-Lucia estava cada dia mais insuportável, mas ele não deixaria ninguém aproveitar-se disso. Ele nunca se considerara um fraco, mas aprendera a ser mais forte convivendo com Ana. Realmente admirava a capacidade dela de sobreviver às adversidades da vida, fazendo o necessário para assegurar que as outras pessoas ao seu redor ficassem bem.
Tinha sido por isso que morrera, por ele, tentando tirá-lo da situação em que infelizmente ainda se encontrava. Naquele momento, jurou para si mesmo que viveria, por ela, sua amada Ana. Escaparia de lá com o filho e seria o homem que sempre quis ser, mas que sua covardia e a autopiedade o impediam de sê-lo.
Sorriu amargamente e uma lágrima escapou de seus olhos azuis quando ele se recordou de mais um de seus momentos com ela. Viu-a em seus pensamentos dançando sensualmente descalça na areia, o vento emaranhando seus cabelos negros e balançando suavemente seu vestido. Ela cantava uma canção em espanhol, enquanto se insinuava para ele, que assistia a cena apaixonado, extasiado. Não havia ninguém por perto, só eles dois se permitindo serem felizes, fugindo dos fantasmas do passado que os atormentavam.
Sawyer sentiu uma imensa dor no peito e chorou como um menino desprotegido que necessitava desesperadamente de colo e não tinha a quem pedir. Estava outra vez sozinho e chorava como no dia em que o avião caíra naquela ilha. Ninguém fazia a menor ideia de como ele se sentia, perdido, sem chão. Sim, era essa a palavra, Sawyer se sentia sem chão sem Ana-Lucia, sem seu porto-seguro para atracar. Não a ouviria mais cantar aquelas doces melodias em seu ouvido, não a ouviria mais ressonar macio enquanto dormia recostada em seu peito, nem veria a plenitude de seus olhos negros bravos quando o encarava aborrecida e como Sawyer a achava linda quando estava zangada.
- Ana! Ana!- gritou chorando desesperado, sacudindo a grade da jaula, como no dia em que a vira pela última vez, seus gritos ecoando pela floresta. – Eu desistiria da eternidade para tocá-la outra vez, você é o mais perto do céu que eu já cheguei, como eu sinto sua falta, baby...mas o mundo não precisa saber disso porque eu prometo que jamais irei decepcioná-la, querida, jamais!- dessa vez ele falava baixo como se Ana-Lucia pudesse ouvir suas promessas.
Sentou-se no chão outra vez e chorou ainda mais, soluçando, o peito subindo e descendo em meio à dor.
- Sawyer...- sussurrou uma voz serena próxima ao seu ouvido.
Ele ergueu os olhos lacrimejantes e procurou o dono da voz em meio à escuridão, mas não enxergou nada.
- Sawyer...- a voz insistiu, ainda mais suave.
E Sawyer sentiu uma onde de calor e conforto por todo o seu corpo, seguido de um inebriante perfume de flores.
- Ana?- ele indagou receoso, questionando a si mesmo se estava louco.
Começou a achar que estava mesmo louco quando viu Ana-Lucia diante de si com o mesmo vestido branco que usara da última vez em que a vira. Ela sorriu amorosa para ele e sem dizer uma palavra estendeu-lhe a mão. Hipnotizado, Sawyer estendeu sua mão a ela e de repente tudo ficou confuso, Ana não estava diante dele. Pegou-se dormindo no chão de terra batida com a mão fechada, segurando algo. Abriu a mão, era o colar de dente de tigre de Ana-Lucia. Sorriu emocionado, o coração se encheu de esperanças.
LOST
